Showing posts with label Igreja. Show all posts
Showing posts with label Igreja. Show all posts

Wednesday, 7 July 2021

Desde o seio materno sois meu protector

Randall Smith

A recente solenidade de São João Baptista apresentou-nos com várias leituras especialmente interessantes. Uma das opções começava com este texto de Jeremias 1,5:

“Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia;

antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado,

e te havia designado profeta das nações.”

O salmo responsorial era uma seleção de versos do Salmo 70, que contém as seguintes linhas:

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sede para mim um refúgio seguro,

a fortaleza da minha salvação.

Vós sois a minha defesa e o meu refúgio

meu Deus, salvai-me do pecador.

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,

a minha confiança desde a juventude.

Desde o nascimento Vós me sustentais,

desde o seio materno sois o meu protector.

A outra opção para o dia continha uma leitura de Isaías 49, que inclui estas duas passagens:

"O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome." (Isaías 49,1)

“Meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa. 5.E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu servo” (Is 49, 4-5)

O salmo responsorial que acompanha essa leitura vem do salmo 138 e contém estas palavras populares: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso”. O sermão que ouvi naquele dia partiu dessas mesmas palavras. Estou sempre grato por qualquer homilia em que as leituras do dia são referidas, mas ainda estou por ouvir alguém comentar as seguintes palavras nesse mesmo salmo:

R.  Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,

vós me tecestes no seio de minha mãe.

Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Ambas estas escolhas de leituras fazem sentido enquanto percursoras do Evangelho do dia, que recorda a história da atribuição do nome a João. Quando Isabel anunciou que a criança no seu seio se chamaria João os membros da família reclamaram, dizendo que mais ninguém na família tinha esse nome. Quando recorreram a Zacarias, que tinha ficado mudo durante o seu serviço no Templo, ele escreveu: “O seu nome é João” e soltou-se-lhe a língua.

Que dizer de tudo isto? Bom, uma das conclusões mais óbvias a retirar é que os seres humanos são “conhecidos por Deus” desde o seio materno. Ou, para usar termos mais modernos, que os fetos são pessoas desejadas por Deus.

Estou ciente de que um argumento bíblico deste género não seria credível para os não-cristãos da nossa sociedade. Tudo bem. Mas e o resto de nós? E os católicos? E os nossos irmãos protestantes? O propósito da Reforma Protestante não era de defender as Escrituras como Palavra inspirada e autoritária de Deus?

O feto humano, Leonardo da Vinci
Vários estudiosos ao longo da história, tanto protestantes como católicos, analisaram as Escrituras com atenção, exaustivamente, procurando descobrir os seus segredos mais profundos na convicção de que as Escrituras contém palavras de verdade e de vida. Haverá algo escondido ou obscuro nas palavras que acabo de citar? Não será antes que a verdade é aqui proclamada como o soar de uma trompeta? Cristo é inteiramente homem e inteiramente Deus desde o momento da sua concepção, ou não é? Se é, então decorre que toda a humanidade também é inteiramente humana desde o momento da sua concepção. E se assim é, então essas vidas não podem ser “interrompidas” sem violar o mandamento “Não matarás”.

Espero que fique claro que não estou a fazer um apelo político. Coloco diante de qualquer leitor cristão esta opção existencial: As Escrituras contém a palavra inspirada de Deus e a verdade, ou não? E se a resposta for sim, estamos verdadeiramente a escutar a palavra de Deus para compreender os seus ensinamentos e cumprir as suas diretivas? Ou estamos a escolher as passagens que encaixam nos nossos preconceitos, evitando aquelas que nos chamam a algo que possamos não gostar? Estaremos nós, como tantos fizeram nos tempos de Cristo, a fechar os nossos ouvidos, as nossas mentes e os nossos corações a uma mensagem que precisamos de escutar?

Porque se o ensinamento constante da Igreja, que há séculos que condena inequivocamente o aborto, pode ser ignorado e se mesmo as palavras das Escrituras se tornaram letra morta para nós, então já não sei mesmo o que é que estamos a fazer em todas estas igrejas “cristãs”. Estamos simplesmente a consolar-nos uns aos outros? A tentar ganhar pontos para merecer o céu? – Ou talvez apenas o clube de golfe local?

Se não nos deixamos mover pela palavra de Deus, e endurecemos os corações contra estes pequenos, podemos realmente apelidar-nos de “Cristãos” em qualquer sentido da palavra? Não somos culpados da “graça barata” de que nos avisou o grande Dietrich Bonhoeffer? Poderia algum dos nossos bem-aventurados antepassados que deu a vida em defesa da fé não ficar enojado pela hipocrisia desta geração, tal como nós sentimos vergonha da hipocrisia dos cristãos alemães que não levantaram a voz contra o assassinato de milhões de judeus?

O massacre de 66 milhões de crianças no ventre desde 1973, cada uma das quais (a fiar-nos nas Escrituras) é “conhecido por Deus” e “feito de modo maravilhoso” é tanto “apenas mais um assunto” como foi o massacre de 6 milhões de judeus. Ninguém quer saber das políticas laborais do Governo alemão em 1937. Tudo o que nos interessa é que os cristãos não fizeram o suficiente para proteger 6 milhões de judeus do genocídio.

Se fechamos os olhos a este massacre que se passa no meio de nós, se não vemos em cada uma destas crianças por nascer uma obra do Criador, podemos realmente enfrentar o Deus que nos fez a nós e a eles? Há mais em causa aqui do que uma guerra política entre republicanos e democratas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 4 de Julho de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 17 January 2018

Discurso do Papa aos religiosos no Chile

Este discurso foi pronunciado pelo Papa na noite de segunda-feira, 16 de Janeiro, em Santiago, no Chile. Para mim, foi o discurso do dia, um dos melhores do Papa Francisco até hoje. Deixo-o aqui, na íntegra e sem qualquer edição, para que todos possam ler. É longo, mas compensa.

Queridos irmãos e irmãs, boa-tarde!

Estou feliz por participar neste encontro convosco. Gostei do modo como o Card. Ezzati vos apresentou: «Aqui estão... aqui estão as consagradas, os consagrados, os presbíteros, os diáconos permanentes, os seminaristas…» Aqui estão. Fez-me recordar o dia da nossa Ordenação ou Consagração em que, depois da apresentação, dissemos: «Aqui estou, Senhor, para fazer a vossa vontade». Neste encontro, queremos dizer ao Senhor: «Aqui estamos» para renovar o nosso «sim». 

Queremos renovar, juntos, a resposta à vocação que um dia alvoroçou o nosso coração.

E, para isso, creio que nos pode ajudar a passagem do Evangelho que escutamos, compartilhando três momentos de Pedro e da primeira comunidade: Pedro e a comunidade abatidos, Pedro e a comunidade tratados com misericórdia e Pedro e a comunidade transfigurados. Jogo com o binómio Pedro-comunidade, porque a experiência dos apóstolos tem sempre estes dois aspetos: pessoal e comunitário. Andam de mãos dadas, e não os podemos separar. É verdade que somos chamados individualmente, mas sempre para ser parte dum grupo maior. Não existe a «selfie vocacional», não existe. A vocação exige que a foto te seja tirada por outrem; que lhe havemos de fazer? As coisas estão assim.

1. Pedro abatido e a comunidade abatida
Sempre gostei do estilo dos Evangelhos que não adornam, não mitigam os acontecimentos, nem os pintam fazendo-os mais belos. Apresentam-nos a vida como é e não como deveria ser. O Evangelho não tem medo de nos mostrar os momentos difíceis, e até conflituosos, por que passaram os discípulos.

Reconstituamos a situação. Tinham morto Jesus; algumas mulheres diziam que estava vivo (cf. Lc 24, 22-24). Os discípulos, mesmo tendo visto Jesus ressuscitado, tão grande é o acontecimento que precisarão de tempo para compreender o sucedido. Diz Lucas: «Era tão grande a alegria que nem queriam acreditar». Precisavam de tempo para compreender aquilo que tinha acontecido. A compreensão chegar-lhes-á no Pentecostes, com o envio do Espírito Santo. A irrupção do Ressuscitado levará tempo a penetrar no coração dos seus.

Os discípulos voltam para a sua terra. Vão fazer o que sabiam: pescar. Não estavam todos, apenas alguns. Divididos, fragmentados? Não sabemos. O que nos diz a Escritura é que, aqueles que estavam, não pescaram nada. Têm as redes vazias.

Entretanto havia outro vazio que pesava inconscientemente sobre eles: a perplexidade e o turvamento pela morte do seu Mestre. Já não está, foi crucificado. Mas não acabou só Ele crucificado, os próprios discípulos foram joeirados, tendo a morte de Jesus posto em evidência um torvelinho de conflitos no coração dos seus amigos. Pedro renegara-O, Judas traíra-O, os restantes fugiram e esconderam-se. Ficou apenas um punhado de mulheres e o discípulo amado. O resto, foi-se. Questão de dias, e tudo ruiu. São as horas da perplexidade e do turvamento na vida do discípulo. Nos momentos «em que está levantada a poeira das perseguições, tribulações, dúvidas, etc. por causa de factos culturais e históricos, não é fácil atinar com o caminho a seguir. Há várias tentações que caraterizam estes momentos: discutir ideias, não prestar a devida atenção ao caso, fixar-se demasiado nos perseguidores... e – creio que a pior de todas as tentações – ficar a ruminar a desolação».[1] Sim, ficar a ruminar a desolação. Isto é o que sucedeu aos discípulos.

Como nos dizia o cardeal Ezzati, «a vida sacerdotal e consagrada, no Chile, atravessou e atravessa horas difíceis de turbulência e desafios sérios. Juntamente com a fidelidade da imensa maioria, cresceu também a cizânia do mal com as suas consequências de escândalo e deserção».

Momento de turbulência. Sei da dor causada pelos casos de abuso contra menores e sigo com atenção aquilo que estais a fazer para superar este grave e doloroso malefício. Dor pelo dano e sofrimento das vítimas e suas famílias, que viram traída a confiança que depunham nos ministros da Igreja. Dor pelo sofrimento das comunidades eclesiais, e dor também por vós, irmãos, que, além do desgaste pela entrega, experimentastes o dano que provoca a suspeita e a contestação, que pode ter insinuado – em alguns ou muitos – a dúvida, o medo e a difidência. Sei que, às vezes, sofrestes insultos no metropolitano ou caminhando pela rua; que, em muitos lugares, se está a «pagar caro» andar vestido de padre. Por isso, convido-vos a pedir a Deus que nos dê a lucidez de chamar a realidade pelo seu nome, a coragem de pedir perdão e a capacidade de aprender a escutar o que Ele nos está a dizer, e não ruminar a desolação.

Gostaria de acrescentar ainda outro aspeto importante. As nossas sociedades estão a mudar. O Chile de hoje é muito diferente do que conheci no tempo da minha juventude, quando me estava a formar. Estão a nascer novas e variadas formas culturais, que não se enquadram nos contornos habituais. E temos de reconhecer que, muitas vezes, não sabemos como nos inserir nestas novas situações. Frequentemente sonhamos com as «cebolas do Egito» e esquecemo-nos de que a terra prometida está à frente, e não atrás. Que a promessa é de ontem, mas diz respeito ao amanhã. E então podemos cair na tentação de nos fecharmos e isolarmos para defender as nossas posições que acabam por ser apenas bons monólogos. Podemos ser tentados a pensar que tudo está mal e, em vez de professar uma «boa nova», tudo o que professamos é apatia e deceção. Assim, fechamos os olhos perante os desafios pastorais, pensando que o Espírito não tenha nada a dizer. Deste modo esquecemo-nos de que o Evangelho é um caminho de conversão, mas não só «dos outros», também nossa.

Gostemos ou não, estamos convidados a enfrentar a realidade como ela se nos apresenta: a realidade pessoal, comunitária e social. As redes – dizem os discípulos – estão vazias, e podemos compreender os sentimentos que isso gera. Regressam a casa sem grandes aventuras para contar; regressam a casa de mãos vazias; regressam a casa, abatidos.

Que resta daqueles discípulos fortes, corajosos, vivazes, que se sentiam escolhidos tendo deixado tudo para seguir Jesus (cf. Mc 1, 16-20)? Que resta daqueles discípulos seguros de si, prontos a ir para a prisão e até dariam a vida pelo seu Mestre (cf. Lc 22, 33), que, para O defender, queriam mandar vir fogo sobre a terra (cf. Lc 9, 54); que, por Ele, desembainhariam a espada e combateriam (cf. Lc 22, 49-51)? Que resta do Pedro que repreendia o seu Mestre dizendo-Lhe como é que deveria orientar a sua vida (cf. Mc 8, 31-33), o seu programa de redenção? A desolação.

2. Pedro tratado com misericórdia e a comunidade tratada com misericórdia
É a hora da verdade, na vida da primeira comunidade. É a hora em que Pedro se confrontou com parte de si mesmo: a parte da sua verdade que muitas vezes não queria ver. Experimentou a sua limitação, a sua fragilidade, o seu ser pecador. Pedro, o instintivo, o chefe impulsivo e salvador, com uma boa dose de autossuficiência e um excesso de confiança em si mesmo e nas suas possibilidades, teve que se curvar à sua fraqueza e pecado. Era tão pecador como os outros, era tão carente como os outros, era tão frágil como os outros. Pedro dececionou Aquele a quem jurara proteção. Hora crucial na vida de Pedro.

Como discípulos, como Igreja, pode acontecer-nos o mesmo: há momentos em que somos confrontados, não com as nossas glórias, mas com a nossa fraqueza. Horas cruciais na vida dos discípulos, mas é também nessas horas que nasce o apóstolo. Deixemos o texto levar-nos pela mão.
«Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?”» (Jo 21, 15).

Depois de comer, Jesus convida Pedro a passear um pouco e a única palavra é uma pergunta, uma pergunta de amor: Amas-Me? Jesus não censura nem condena. Tudo o que Ele quer fazer é salvar Pedro. Quer salvá-lo do perigo de ficar fechado no seu pecado, de ficar «a mastigar» a desolação, fruto da sua limitação; salvá-lo do perigo de desistir, por causa das suas limitações, de todas as coisas boas que vivera com Jesus. Quer salvá-lo do fechamento e do isolamento. Quer salvá-lo daquela atitude destrutiva que é o vitimizar-se ou, ao contrário, cair num «vale tudo o mesmo», acabando por fazer malograr qualquer compromisso no mais danoso relativismo. Quer libertá-lo de considerar quem se opõe a Ele como se fosse um inimigo, ou de não aceitar com serenidade as contradições e as críticas. Quer libertá-lo da tristeza e sobretudo do mau humor. Com esta pergunta, Jesus convida Pedro a auscultar o seu coração e aprender a discernir. Uma vez que «não era de Deus defender a verdade à custa da caridade, nem a caridade à custa da verdade, nem o equilíbrio à custa de ambas. É preciso discernir. Jesus quer evitar que Pedro se torne um veraz destruidor ou um caritativo mentiroso ou um perplexo paralisado»,[2] como pode acontecer connosco em tais situações.

Jesus interpelou Pedro sobre o seu amor e insistiu nisso até ele Lhe poder dar uma resposta realista: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo» (Jo 21, 17). E, deste modo, Jesus confirma-o na missão. Assim o faz tornar-se definitivamente seu apóstolo.
O que é que fortalece Pedro como apóstolo? O que é que nos mantém a nós como apóstolos? Uma coisa só: fomos tratados com misericórdia (cf. 1 Tim 1, 12-16). Fomos tratados com misericórdia. «Não obstante os nossos pecados, os nossos limites, as nossas faltas; não obstante as nossas numerosas quedas, Jesus Cristo viu-nos, aproximou-Se, deu-nos a mão e teve misericórdia de nós. (…) Cada um de nós poderá recordar, pensando em todas as vezes que o Senhor o viu, que olhou para ele, que se aproximou dele e o tratou com misericórdia».[3] E convido-vos a fazer o mesmo. Não estamos aqui por ser melhores do que os outros. Não somos super-heróis que, do alto, descem para se encontrar com os «mortais». Antes, somos enviados com a consciência de ser homens e mulheres perdoados. E esta é a fonte da nossa alegria. Somos consagrados, pastores segundo o estilo de Jesus ferido, morto e ressuscitado. A pessoa consagrada – e, quando digo «consagrados», penso em quantos aqui estão – é alguém que encontra, nas suas feridas, os sinais da Ressurreição. É alguém que consegue ver, nas feridas do mundo, a força da Ressurreição. É alguém que, segundo o estilo de Jesus, não vai ao encontro dos seus irmãos com a censura e a condenação.

Jesus Cristo não Se apresenta, aos seus, sem chagas; foi precisamente a partir das suas chagas que Tomé pôde confessar a fé. Estamos convidados a não dissimular nem esconder as nossas chagas. Uma Igreja com as chagas é capaz de compreender as chagas do mundo atual e de assumi-las, sofrê-las, acompanhá-las e procurar saná-las. Uma Igreja com as chagas não se coloca no centro, não se considera perfeita, mas coloca no centro o único que pode sanar as feridas e que tem um nome: Jesus Cristo.

A consciência de ter chagas, liberta-nos. É verdade; liberta-nos de nos tornarmos autorreferenciais, de nos considerarmos superiores. Liberta-nos da tendência «prometeica de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado».[4]

Em Jesus, as nossas chagas ficam ressuscitadas. Tornam-nos solidários; ajudam-nos a derrubar os muros que nos encerram numa atitude elitista, incitando-nos a construir pontes e ir ao encontro de tantos sedentos do mesmo amor misericordioso que só Cristo nos pode dar. «Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo o trabalho é “suor do nosso rosto”».[5] Vejo, com certa preocupação, que há comunidades que vivem acometidas pela ânsia de constar no cartaz, ocupar espaços, aparecer e se mostrar, mais do que pela vontade de arregaçar as mangas e sair para tocar a dolorosa realidade do nosso povo fiel.
Como nos interpela a reflexão deste Santo chileno, que advertia: «Por isso, serão métodos falsos todos os que são impostos pela uniformidade; todos os que pretendem encaminhar-nos para Deus, fazendo-nos esquecer os nossos irmãos; todos os que nos levam a fechar os olhos ao universo, em vez de nos ensinar a abri-los para elevar tudo ao Criador de todas as coisas; todos os que nos fazem egoístas e nos dobram sobre nós mesmos».[6]

O povo de Deus não espera nem precisa de nós como super-heróis, espera pastores, homens e mulheres consagrados, que conheçam a compaixão, que saibam estender uma mão, que saibam parar junto de quem está caído e, como Jesus, ajudem a sair desse círculo vicioso de «mastigar» a desolação que envenena a alma.

3. Pedro transfigurado e a comunidade transfigurada
Jesus convida Pedro a discernir e, assim, começam a ganhar força muitos acontecimentos da vida de Pedro, como o gesto profético do lava-pés. Pedro, que resistira a deixar-se lavar os pés, começava a compreender que a verdadeira grandeza passa por se fazer pequenino e servidor.[7]
Como é grande a pedagogia de nosso Senhor! Do gesto profético de Jesus à Igreja profética que, lavada do seu pecado, não tem medo de sair para servir uma humanidade ferida.

Pedro experimentou, na sua carne, a ferida não só do pecado, mas também das suas próprias limitações e fraquezas. Mas descobriu em Jesus que as suas feridas podem ser caminho de Ressurreição. Conhecer Pedro abatido para conhecer Pedro transfigurado é o convite a deixar de ser uma Igreja de abatidos desolados para passar a uma Igreja servidora de tantos abatidos que convivem ao nosso lado. Uma Igreja capaz de se colocar ao serviço do seu Senhor no faminto, no preso, no sedento, no desalojado, no nu, no doente... (cf. Mt 25, 35). Um serviço que não se identifica com o assistencialismo nem o paternalismo, mas com a conversão do coração. O problema não está em dar de comer ao pobre, vestir o nu, assistir o doente, mas em considerar que o pobre, o nu, o doente, o preso, o desalojado têm a dignidade de se sentar às nossas mesas, sentir-se «em casa» entre nós, sentir-se família. Este é o sinal de que o Reino de Deus está no meio de nós. É o sinal duma Igreja que foi ferida pelo seu pecado, foi cumulada de misericórdia pelo seu Senhor, e foi tornada profética por vocação.

Renovar a profecia é renovar o nosso compromisso de não esperar por um mundo ideal, uma comunidade ideal, um discípulo ideal para viver ou para evangelizar, mas criar as condições para que cada pessoa abatida possa encontrar-se com Jesus. Não se amam as situações nem as comunidades ideais, amam-se as pessoas.

O reconhecimento sincero, contrito e orante das nossas limitações, longe de nos separar de nosso Senhor, permite-nos retornar a Jesus, sabendo que, «com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. (…) Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual».[8] Como nos faz bem a todos deixar que Jesus nos renove o coração!

Ao início deste encontro, disse-vos que vínhamos renovar o nosso «sim», com garra, com paixão. Queremos renovar o nosso «sim», mas um sim realista, porque apoiado no olhar de Jesus. Convido-vos, quando voltardes para casa, a preparar no vosso coração uma espécie de testamento espiritual, no estilo do cardeal Raúl Silva Henríquez expresso nesta linda oração que começa dizendo: «A Igreja que eu amo é a Santa Igreja de todos os dias... a tua, a minha, a Santa Igreja de todos os dias...

Jesus, o Evangelho, o pão, a Eucaristia, o Corpo de Cristo humilde em cada dia. Com os rostos dos pobres e os rostos de homens e mulheres que cantavam, que lutavam, que sofriam. A Santa Igreja de todos os dias».

Pergunto-te: Como é a Igreja que tu amas? Amas esta Igreja ferida, que encontra vida nas chagas de Jesus?

Obrigado por este encontro. Obrigado pela oportunidade de renovar o «sim» convosco. A Virgem do Carmo vos cubra com o seu manto.

Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!

Wednesday, 9 January 2013

Instituições católicas e a fidelidade à missão


Decorreu nos últimos dias um caso que dá muito que pensar sobre o papel de uma instituição católica na sociedade. Neste caso é a Universidade Católica Portuguesa, mas a situação podia-se colocar (e coloca-se com alguma frequência) em relação à Renascença, onde trabalho.

A UCP publicitou uma pós-graduação sobre Saúde Mental para o Serviço Social. Na lista de docentes estavam os nomes de quatro médicos que são publicamente defensores de posições contrárias às da Igreja Católica, por exemplo na questão do aborto.

Um movimento pró-vida, a Associação Mulheres em Acção, emitiu um comunicado a denunciar a situação. A Renascença fez notícia com base nisso e contactou a Universidade que, mais tarde, veio dizer que afinal o curso não se iria realizar, devido a erros processuais na aprovação do mesmo.

Claro que todo o caso levantou muita discussão. Deve uma instituição católica empregar e dar voz a pessoas que defendem posições incompatíveis com as cristãs?

Do meu ponto de vista depende, de várias coisas. A matéria que o docente vai leccionar toca nestes pontos sensíveis? Deve-se rejeitar um professor de Comunicação Social por ser defensor da liberalização do aborto? Deve-se rejeitar um professor de Segurança Social que seja defensor do capitalismo desregrado? Não me parece que seja o caso, a não ser que essas posições sejam defendidas de forma pública e obstinada ao ponto de poder causar escândalo. Por exemplo, até um bibliotecário que seja aberta e publicamente Neo Nazi não deve trabalhar numa instituição católica, isso parece-me evidente.

Mas o caso é diferente quando o docente em questão vai leccionar matérias sensíveis. Nesse caso não concordaria que um professor de Economia na UCP fosse comunista, nem concordo que um médico que vai falar de saúde mental na área de Serviço Social seja defensor de posições éticas contrárias às da Igreja, como por exemplo o aborto e a eutanásia.

Fazendo o paralelo com a Renascença, uma rádio católica, não me parece mal que se coloque em antena um destes mesmos médicos para comentar assuntos da actualidade de saúde, como acontece frequentemente com o Dr. Francisco George, que é Director Geral da Saúde, mas já me chocava se ele fosse convidado a fazer opinião para a rádio e usasse o seu lugar para defender a liberalização do aborto, por exemplo.

Da mesma maneira eu tenho vários colegas que não são católicos, ou até defendem posições contrárias em muitos sentidos, mas desde que isso não interfira no seu trabalho de fazer jornalismo numa instituição com identidade católica, não vejo problema.

A questão aqui é de fidelidade à missão. Uma UCP ou uma RR não são apenas mais uma universidade ou mais uma emissora. Têm princípios claros, católicos, e um sentido de missão social e evangélica. Os seus ouvintes e estudantes têm o direito a esperar e a receber uma educação ou programação condizentes com esse espírito. Ainda por cima, num país como Portugal, será complicado encontrar pessoas mais bem enquadradas na doutrina católica a quem se possa recorrer? Duvido.

É verdade que as instituições não são perfeitas, a Igreja também não a é, na sua vertente humana. Penso que é importante, em casos destes, evitar promover o escândalo, procurar resolver os assuntos de forma cordial e sensata em vez de vir logo a público atirar pedras aos alegados pecadores. Isto não é uma crítica ao comunicado das Mulheres em Acção, que até me pareceu respeitoso, é só uma consideração porque esta não será a última vez que a situação se coloca.

Por fim, um aspecto importante. No artigo no site da Renascença em que se dá conta do cancelamento do curso existe um comentário de um leitor a dizer que se é verdade então o Estado deve deixar de financiar a Católica.

É isto que acontece quando as instituições começam a tentar ser fiéis a si mesmas. Já aconteceu em muitos outros países, está a acontecer neste momento nos EUA e no Reino Unido também. Esta ideia de que as instituições, neste caso católicas, têm de abdicar dos seus princípios para poderem receber dinheiro público é talvez uma das maiores ameaças à liberdade religiosa nos nossos tempos e nas nossas sociedades. Podem esperar muito mais deste género de argumentos, preparem-se.

Filipe d’Avillez

Wednesday, 9 May 2012

Nas trincheiras, ou à volta da mesa?

Presidente Raul Castro e Cardeal Ortega, frente-a-frente
A questão é tão velha como a própria Igreja. Se é verdade que esta tem a obrigação de defender a verdade, os oprimidos, os perseguidos e os pobres, nem sempre é claro qual deve ser a fórmula para o conseguir.

Tomemos um caso concreto que na altura deu muito que falar. No auge da perseguição aos timorenses pelos indonésios, a Igreja, sobretudo a nível internacional, foi criticadíssima por não falar mais firmemente em favor dos timorenses, que ainda por cima são na vasta maioria católicos e se mantinham firmemente agarrados à sua identidade cristã.

O Vaticano não falava abertamente por medo de hostilizar ainda mais o regime de Jakarta, com potenciais repercussões para as outras comunidades cristãs que vivem naquele arquipélago. Recorde-se que, na altura, ninguém tinha grande esperança numa eventual libertação de Timor-Leste.

Todavia, trabalhava-se nos bastidores, e havia gestos. O Papa João Paulo II, por exemplo, beijava sempre o solo de um novo país. Quando chegou a Dili todos aguardavam para ver qual seria o gesto. O Papa beijou um crucifixo, que depois levou ao solo.

E há muitos outros casos também. O mais polémico, ainda hoje, tem a ver com Pio XII e a Alemanha Nazi. Os seus críticos alegam que não fez o suficiente para condenar os crimes dos nazis, mas os seus defensores dizem que é fácil falar em retrospectiva, mas que na altura ele tinha que decidir entre trabalhar nos bastidores ou hostilizar abertamente um regime que depois poderia vingar-se na população católica não só da Alemanha mas também dos países ocupados. Tomou a decisão correcta? O debate continuará aceso, sem dúvida.

Não é por isso surpreendente que estejamos a assistir a uma situação parecida em Cuba. A Igreja foi muito louvada por conseguir sacar importantes cedências do regime, sobretudo a libertação de dezenas de presos políticos. Mas essas cedências só se conseguem com proximidade, e a proximidade tem um preço. Agora são alguns opositores que acusam o Arcebispo de Havana de ser um “lacaio” do regime.

A questão é séria. A atitude da Igreja em Cuba estará a credibilizar o regime e, por isso, a prolonga-lo? Seria mais vantajoso colocar-se numa posição de hostilidade aberta? Devemos estar sequer a falar de vantagens ou desvantagens, numa questão que se prende com a fidelidade ao Evangelho e defesa de direitos humanos básicos?

Não são questões fáceis mas são importantes, nem que seja para realçar os perigos inerentes a estas “relações próximas” com regimes ditatoriais.

Filipe d’Avillez

Partilhar