quarta-feira, 7 de julho de 2021

Desde o seio materno sois meu protector

Randall Smith

A recente solenidade de São João Baptista apresentou-nos com várias leituras especialmente interessantes. Uma das opções começava com este texto de Jeremias 1,5:

“Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia;

antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado,

e te havia designado profeta das nações.”

O salmo responsorial era uma seleção de versos do Salmo 70, que contém as seguintes linhas:

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sede para mim um refúgio seguro,

a fortaleza da minha salvação.

Vós sois a minha defesa e o meu refúgio

meu Deus, salvai-me do pecador.

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,

a minha confiança desde a juventude.

Desde o nascimento Vós me sustentais,

desde o seio materno sois o meu protector.

A outra opção para o dia continha uma leitura de Isaías 49, que inclui estas duas passagens:

"O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome." (Isaías 49,1)

“Meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa. 5.E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu servo” (Is 49, 4-5)

O salmo responsorial que acompanha essa leitura vem do salmo 138 e contém estas palavras populares: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso”. O sermão que ouvi naquele dia partiu dessas mesmas palavras. Estou sempre grato por qualquer homilia em que as leituras do dia são referidas, mas ainda estou por ouvir alguém comentar as seguintes palavras nesse mesmo salmo:

R.  Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,

vós me tecestes no seio de minha mãe.

Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Ambas estas escolhas de leituras fazem sentido enquanto percursoras do Evangelho do dia, que recorda a história da atribuição do nome a João. Quando Isabel anunciou que a criança no seu seio se chamaria João os membros da família reclamaram, dizendo que mais ninguém na família tinha esse nome. Quando recorreram a Zacarias, que tinha ficado mudo durante o seu serviço no Templo, ele escreveu: “O seu nome é João” e soltou-se-lhe a língua.

Que dizer de tudo isto? Bom, uma das conclusões mais óbvias a retirar é que os seres humanos são “conhecidos por Deus” desde o seio materno. Ou, para usar termos mais modernos, que os fetos são pessoas desejadas por Deus.

Estou ciente de que um argumento bíblico deste género não seria credível para os não-cristãos da nossa sociedade. Tudo bem. Mas e o resto de nós? E os católicos? E os nossos irmãos protestantes? O propósito da Reforma Protestante não era de defender as Escrituras como Palavra inspirada e autoritária de Deus?

O feto humano, Leonardo da Vinci
Vários estudiosos ao longo da história, tanto protestantes como católicos, analisaram as Escrituras com atenção, exaustivamente, procurando descobrir os seus segredos mais profundos na convicção de que as Escrituras contém palavras de verdade e de vida. Haverá algo escondido ou obscuro nas palavras que acabo de citar? Não será antes que a verdade é aqui proclamada como o soar de uma trompeta? Cristo é inteiramente homem e inteiramente Deus desde o momento da sua concepção, ou não é? Se é, então decorre que toda a humanidade também é inteiramente humana desde o momento da sua concepção. E se assim é, então essas vidas não podem ser “interrompidas” sem violar o mandamento “Não matarás”.

Espero que fique claro que não estou a fazer um apelo político. Coloco diante de qualquer leitor cristão esta opção existencial: As Escrituras contém a palavra inspirada de Deus e a verdade, ou não? E se a resposta for sim, estamos verdadeiramente a escutar a palavra de Deus para compreender os seus ensinamentos e cumprir as suas diretivas? Ou estamos a escolher as passagens que encaixam nos nossos preconceitos, evitando aquelas que nos chamam a algo que possamos não gostar? Estaremos nós, como tantos fizeram nos tempos de Cristo, a fechar os nossos ouvidos, as nossas mentes e os nossos corações a uma mensagem que precisamos de escutar?

Porque se o ensinamento constante da Igreja, que há séculos que condena inequivocamente o aborto, pode ser ignorado e se mesmo as palavras das Escrituras se tornaram letra morta para nós, então já não sei mesmo o que é que estamos a fazer em todas estas igrejas “cristãs”. Estamos simplesmente a consolar-nos uns aos outros? A tentar ganhar pontos para merecer o céu? – Ou talvez apenas o clube de golfe local?

Se não nos deixamos mover pela palavra de Deus, e endurecemos os corações contra estes pequenos, podemos realmente apelidar-nos de “Cristãos” em qualquer sentido da palavra? Não somos culpados da “graça barata” de que nos avisou o grande Dietrich Bonhoeffer? Poderia algum dos nossos bem-aventurados antepassados que deu a vida em defesa da fé não ficar enojado pela hipocrisia desta geração, tal como nós sentimos vergonha da hipocrisia dos cristãos alemães que não levantaram a voz contra o assassinato de milhões de judeus?

O massacre de 66 milhões de crianças no ventre desde 1973, cada uma das quais (a fiar-nos nas Escrituras) é “conhecido por Deus” e “feito de modo maravilhoso” é tanto “apenas mais um assunto” como foi o massacre de 6 milhões de judeus. Ninguém quer saber das políticas laborais do Governo alemão em 1937. Tudo o que nos interessa é que os cristãos não fizeram o suficiente para proteger 6 milhões de judeus do genocídio.

Se fechamos os olhos a este massacre que se passa no meio de nós, se não vemos em cada uma destas crianças por nascer uma obra do Criador, podemos realmente enfrentar o Deus que nos fez a nós e a eles? Há mais em causa aqui do que uma guerra política entre republicanos e democratas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 4 de Julho de 2021)

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