quarta-feira, 7 de abril de 2021

Arrear a Bandeira

Recentemente o Vaticano recusou permitir que clérigos católicos abençoem uniões entre pessoas do mesmo sexo, evitando um cisma imediato e mundial. Ninguém deve ficar surpreendido; aliviado, talvez, mas não surpreendido. O que o Vaticano fez foi negar-se a reverter toda a antropologia bíblica no que diz respeito aos sexos, já para não falar de uma visão coerente da criação – da ordem formal impressa com a sabedoria de Deus.

Mas o mundo continua.

Passadas poucas horas já tinha ouvido os críticos da Turner Classic Movies a defender os filmes antigos, apesar de estes por vezes estarem manchados por racismo-sexismo-homofobia-transfobia. Os críticos falavam como se não fosse possível qualquer pessoa decente contestar a sabedoria moral assente que toma todas estas coisas por iguais, a serem tratadas com a mesma reprovação.

Depois ouvi falar de dois rapazes de um liceu que foram escolhidos para representar dois amantes homossexuais numa peça de teatro. E de outro jovem, noutra escola, que teve de cantar uma música ordinária sobre ter uma erecção quando olha para outra rapariga da sua sala.

Os trios amorosos estão nas notícias a toda a hora. Duvido que haja uma única escola pública no país que não tenha hasteado a bandeira arco-íris, aqui, ali, em todo o lado, nos cadernos, nos planos de aula, em material de leitura e nas lapelas dos professores.

A maldade, disse Edmund Burke, é demasiado inteligente para aparecer sempre da mesma forma. As nossas paixões – orgulho, inveja, fúria, luxúria e avareza – mantêm-se iguais, mas mudam conforme as modas. É por isso que o homem ataca tão frequentemente formas que em larga medida já passaram. Burke chamava-lhe enforcar a carcaça.

E sabemos que as novas formas não atraem apenas monstros. Não duvido que tenha havido muitas pessoas simpáticas que hastearam a suástica nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os judeus, mas estavam satisfeitos por irem na corrente com os novos e revolucionários líderes de opinião bem-pensantes, construtores de autoestradas e restauradores da Alemanha.

Não duvido que na Rússia estalinista houvesse muitas pessoas simpáticas que hasteavam a foice e o martelo nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os ucranianos ou os ortodoxos recalcitrantes, mas estavam contentes por irem na corrente da novidade, e por aí fora. O desejo de obter emprego, de manter o emprego ou de merecer a aprovação dos líderes de opinião bem-pensantes pode ser muito tentador e não requer grande grau de coragem face ao mal.

Eu não estou a dizer que a bandeira arco-íris é igual à suástica ou à foice e martelo. Claro que não. Não estou a dizer que é igualmente má: quando estamos a lidar com males fundamentais a questão não tem qualquer sentido. Adorar a Baal era tão mau como adorar Moloch? Enquanto nós discutimos o estilo de luxúria ou de ódio, os princípios em si, tanto Baal como Moloch, apreciam um cognac espiritual flamejante e brindam. E Baal também matou os seus milhões.

Não tenho qualquer intenção de apontar o dedo a indivíduos. Tenho muita simpatia por pessoas que, num tempo de profunda solidão, se agarram a uma relação homossexual como uma última esperança. Mas o arco-íris representa toda a revolução sexual.

Não me refiro aqui ao pecado sexual, que teremos sempre connosco, tal como teremos mentiras, furto, homicídio, blasfémia e traição. A revolução sexual não é uma erva daninha. É uma árvore: plantada deliberadamente, regada e cuidada. Não é um acumular de pecados ou de maus hábitos. É um princípio que dá maus frutos.

O princípio é o da autonomia corporal: que o que os adultos fazem, sexualmente, é da sua conta e de mais ninguém. Junte-se a isto a paixão romântica para adoçar o princípio, junte-se o feminismo para obscurecer a verdade de que os homens são para as mulheres e as mulheres são para os homens, espere umas décadas para que os gostos se mudem e temos uma sequóia completa.


Não foram os homossexuais que plantaram e fertilizaram a árvore, embora tenham feito a sua parte. Mas não interessa agora como é que a árvore cresceu, e como cresceu de tal forma que agora cobre todo o mundo ocidental com a sua sombra. A questão é que a árvore tem de ser abatida.

Repito, não estou a dizer que não haverá pecado sexual. Estou a dizer que o princípio deve ser repudiado: a árvore é o princípio e dá o fruto mau desse princípio.

Temo que alguns católicos possam tolerar a árvore, porque não querem ferir os sentimentos daqueles que se deliciam com o fruto, ou porque, ainda que não tenham gosto por aquela maçã, gostam desta; porque a árvore é generosa e tem muito a oferecer para cada gosto, uma grande variedade de maus frutos.

Talvez os que plantaram a árvore não tenham tido a noção de que chegaria a isto. Talvez pensassem que uma certa cortesia poderia conter o mal: que piscaríamos o olho ao engate do João e da Maria, mas não ao do João e do Martim; aceitaríamos o divórcio apenas nos casos difíceis; aceitaríamos a contracepção, mas não o aborto; aceitaríamos a pseudogamia homossexual, mas não a poligamia; sem pensar que o aço moral mais firme não é suficientemente duro para conter um princípio mau.

E a cortesia, a simpatia, não é aço, é papel.

A árvore tem de vir abaixo.

Pensem, pensem só nas coisas humanas e normais que poderíamos ver, que se poderiam esperar, alcançar, coisas banais: muito amor saudável entre rapazes e raparigas, em vez de um campo minado tanto para os morais como para os imorais; direcção mais segura para jovens cujo caminho para o estado de homem ou de mulher adultos foi dificultado pelo infortúnio ou pelo pecado dos seus antepassados; uma apreciação mais clara e agradecida de cada sexo para o outro; e com tudo isso, pecados e falhanços, ervas daninhas que nascem, como sempre, mas em pequenas manchas, ou individualmente, e não de forma planeada, sem que toda a humidade e nutrição fossem canalizados para alimentar um leviatã vegetal.

É preciso arrear a bandeira.


Anthony Esolen é orador, tradutor e autor. As suas obras incluem: Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, Nostalgia: Going Home in a Homeless World e o mais recente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts em Warner, New Hampshire.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 31 de Março de 2021 em The Catholic Thing)

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