Thursday, 2 January 2020

Religião - onde realidade e ficção são por vezes difíceis de distinguir

Como prometi no último, a partir deste ano estes mails servirão mais para partilhar textos de opinião e análise do que apanhados de notícias. É precisamente com esse objetivo que vos escrevo hoje, na esperança de que tenham tido um Santo Natal e uma excelente entrada em 2020.

Ao longo dos próximos dias vou tentar publicar uma série de curtos textos sobre coisas a que devemos estar atentos em 2020. Hoje começo com os Estados Unidos, onde teremos a possível reeleição de Donald Trump e como isso poderá afetar o Supremo Tribunal, cuja importância é muitas vezes subestimada por quem não vive naquele país.

Tenho também para partilhar convosco o artigo do The Catholic Thing em português, em que Stephen P. White analisa a forma como está a mudar a nossa visão dos bispos e o seu papel e convida os leigos a assumir as suas responsabilidades para que a Igreja se renove verdadeiramente.

Noutras notícias, destaque para o número de missionários assassinados em 2019, que inclui a “nossa” irmã Antónia e também para este explicador sobre o filme “Os Dois Papas” – onde acaba a realidade e começa a ficção? Devo dizer que tenho acompanhado com interesse o debate em torno do filme, mas como ainda não tive oportunidade de o ver, não escrevi nada sobre ele.

Por fim, este texto ajuda a compreender o conflito em Montenegro que envolve a Igreja Ortodoxa e aqui podem ler sobre o pedido de desculpas do Papa Francisco por ter feito a uma peregrina aquilo que eu faço aos meus filhos quando me puxam a mão, várias vezes por dia…

Para estar atento em 2020 – Trump e Ginsburg

Donald Trump tem sido uma das figuras dos últimos quatro anos e vai continuar a sê-lo pelo menos até novembro de 2020. O mais provável mesmo é continuar a sê-lo até 2024, para horror de quase todo o resto do mundo bem-pensante.

Naturalmente não tenho uma bola de cristal, mas há grandes possibilidades de Trump vencer a reeleição em novembro deste ano. Pessoalmente, preferia outro republicano, mas pessoas bem-informadas com quem tenho falado garantem-me que nenhum republicano tem possibilidade de o retirar da corrida.

Não devemos subestimar o apelo de Trump para uma grande parte do eleitorado americano e por mais que tentemos dizer que se trata simplesmente de um misto explosivo de racismo e estupidez, isso é demasiado simplista. A subida da direita populista é preocupante, sim, mas é uma reação natural a décadas de deriva populista de esquerda que nos brindaram com marcos de progresso humanitário como casas de banho mistas e homens a competir na categoria feminina em desportos vários.

Enquanto arranca os cabelos, a esquerda que considera que toda a gente que fica aquém do Bloco é fascista deve pensar no papel que desempenhou em promover a extrema direita. Se Passos Coelho é fascista, se Assunção Cristas é fascista e agora chamam a André Ventura fascista, então que se lixe, fascistas por fascistas voto naqueles que de facto dão voz às minhas preocupações, pensa o eleitor do Chega. Se acontece aqui, não haveria de acontecer em Itália, Espanha e nos Estados Unidos?

Para quem não se identifica com a esquerda progressista (vulgos fascistas, na terminologia do admirável mundo novo), mas também não está disposto a colocar os populistas no pedestal, a vitória de Trump tem coisas desagradáveis, mas tem uma que vale ouro, a possibilidade de reformular o Supremo Tribunal.

Desde que foi eleito, Trump nomeou dois juízes para o Supremo Tribunal americano. Um foi para substituir o porta-estandarte dos conservadores no tribunal, Antonin Scalia, que morreu inesperadamente. Entrou outro conservador, ficou ela por ela (ou ele por ele). O segundo foi para substituir Anthony Kennedy, que era um conservador moderado, que votava frequentemente com a ala liberal, incluindo em assuntos-chave. Foi o seu voto que permitiu legalizar o casamento homossexual no país inteiro, por exemplo.

Com Ruth Bader Ginsburg, porta-estandarte dos progressistas a caminho dos 87 anos e a combater cancro do pulmão e do pâncreas e outro juiz liberal, Stephen Brayer, a caminho dos 82, é muito provável que o próximo Presidente tenha de fazer pelo menos uma, talvez duas nomeações para o Supremo. Goste-se ou não do modelo, a nomeação de dois conservadores para substituir dois liberais seria sem sombra de dúvida a maior vitória para os conservadores nos Estados Unidos, provavelmente mais importante que quaisquer danos reais que Trump pudesse impor ao país durante o resto do seu mandato.

Ruth Bader Ginsburg
Mais, as duas nomeações anteriores comprovam que Trump não tem medo de nomear conservadores reais e que, caso tenha o apoio do Congresso, não terá de fazer cedências e nomear alguém que seja conservador para algumas coisas e liberal para o que interessa.

A importância religiosa disto é evidente, uma vez que a liberdade religiosa está sob ataque como nunca esteve nos Estados Unidos (ver exemplos práticos aqui) e a esmagadora maioria desses casos só se decidem no Supremo.

Claro que nem tudo são rosas. Ter de aguentar mais quatro anos de figuras absurdas como Trump fez no anúncio da morte do líder do Estado Islâmico é penoso, como é penoso ter como figura de referência para um movimento que se quer de valores um homem que tão claramente não os parece ter. Para mim, o discurso desumanizante sobre os migrantes é também uma coisa gravíssima e lamentável. Contudo, os efeitos práticos de uma ou duas vitórias destas no Supremo não podem ser subestimados, como não pode ser subestimada a deriva progressista que acompanhará a eleição de qualquer candidato democrata.

Por isso é natural que a direita e os conservadores americanos, incluindo os que pessoalmente não gostam de Trump, estejam dispostos a aguentar com mais quatro anos deste por vezes triste espetáculo.

De uma coisa podem ter a certeza absoluta. Se Trump vencer em 2020 vamos ver uma campanha concertada entre fazedores de opinião e imprensa progressista para mudar o sistema do Tribunal, onde as nomeações são vitalícias e que em muitos casos funciona como um órgão legislativo. Esses apelos virão de precisamente as mesmas pessoas que aplaudiram de pé o Roe v. Wade, que legalizou o aborto e o Obergefell v. Hodges que legalizou o casamento gay, mas o que é a coerência para os arautos da nova humanidade?

Tuesday, 31 December 2019

Uma Igreja em Mudança

Stephen P. White
Às vezes as grandes mudanças na Igreja acontecem de uma assentada e de forma evidente, como aconteceu com certas reformas do Concílio Vaticano II. Outras mudanças – mesmo algumas monumentais – acontecem de forma muito mais lenta e podem ser difíceis de percepcionar na altura. Às vezes é evidente que estamos perante o fim de um estado de coisas, mas há incerteza quanto ao que vem a seguir. São tempos de apreensão e de esperança.

O episcopado está a mudar. A ênfase do Papa Francisco na sinodalidade e na colegialidade fazem parte deste processo. A reformulação do colégio dos cardeais para incluir bispos das periferias também. Mas talvez a mudança mais significativa seja mais subtil: as expectativas dos leigos em relação aos seus bispos estão a mudar também. A deferência dos leigos para com o clero – sobretudo os bispos – está em baixa. A confiança esbateu-se.

Claro que o principal factor são os escândalos dos últimos 18 meses. É difícil imaginar um bispo católico a gozar do tipo de prestígio nacional e adoração de que gozava o ex-cardeal Theodore McCarrick no auge da sua popularidade, muito antes de se tornarem públicas as suas depravações. Hoje em dia é tão provável os católicos americanos olharem os seus prelados com cepticismo ou até suspeita do que com admiração.

Se acrescentarmos a isto os efeitos da polarização do nosso sistema político e da sociedade, a agressividade das redes sociais, as polémicas internas da Igreja (algumas sérias, outras verdadeiramente patetas) e todos os outros factores promotores de cinismo em que estamos a marinar. O resultado, pelo menos a curto prazo, é que os bispos são menos exaltados (o que é provavelmente uma coisa boa) e estão mais distantes dos seus rebanhos (o que é claramente mau).

Se a imagem que os leigos têm dos seus bispos está a mudar, também parece verdade que os nossos padres estão a ficar com uma imagem diferente, talvez pior, desse cargo eclesiástico.

Recentemente o cardeal Marc Ouellet disse a um órgão de informação espanhol que quase um terço de todos os homens escolhidos pelo Papa para serem bispos recusam a nomeação. De acordo com Ouellet, que é prefeito da Congregação para os Bispos desde 2010, o nível de recusas triplicou desde há uma década.

O facto de haver mais homens a recusar nomeações não é propriamente surpreendente para a maioria dos especialistas. Há já algum tempo que se especula sobre esta tendência. Na verdade, não é a primeira vez que o cardeal Ouellet menciona que a taxa de recusas tem aumentado, embora seja a primeira vez que lhe atribui um número. Vale a pena verificar que a tendência é anterior a esta última vaga de casos de abusos.

Quanto às razões de quem recusa, Ouellet oferece apenas uma consideração generalista. “Pode ser porque não se sentem capazes, por falta de fé, porque têm alguma dificuldade nas suas vidas e preferem não causar mal à Igreja”. Provavelmente nunca teremos uma explicação mais completa de quem verdadeiramente sabe. Ainda assim temos de pensar: a Igreja está a perder bons candidatos ou a ser poupada aos maus?

Um padre que aceita uma nomeação episcopal no actual ambiente eclesiástico está no fundo a aceitar submeter-se a um escrutínio público intenso e por vezes hostil. Devido aos grandes desafios de se ser bispo hoje em dia, quem aceita ansiosamente este dever deve ser especialmente humilde e generoso ou então invulgarmente ambicioso e carreirista.

Muitos dos nossos bispos encontram-se numa posição quase impossível. Espera-se que sejam pastorais e pessoais – com o cheiro das ovelhas e tudo o mais – enquanto passam uma quantidade enorme do seu tempo e energia a tratar de exigências burocráticas e administrativas. Hoje em dia, convém não esquecer, esses deveres podem incluir o trabalho ingrato de conduzir uma diocese através de um processo de falência, fechar dezenas de paróquias ou lidar com processos judiciais.

Não finjo saber qual será o efeito a longo prazo de tudo isto. Mas parece-me certo que à medida que mudam as expectativas em relação aos nossos pastores é necessário que se alterem também as que temos em relação aos rebanhos. Entregar toda a responsabilidade pela saúde e vitalidade (ou o seu oposto) aos nossos bispos é uma forma de clericalismo invertido. Coloca exigências impossíveis de cumprir nos ombros dos pastores enquanto nós – os leigos, a vasta maioria dos católicos – ficamos convenientemente isentos da responsabilidade da nossa própria missão baptismal.

A questão aqui não tem a ver com a culpa pelos pecados e crimes de padres e de bispos. A questão é que os homens escolhidos para liderar o rebanho nos próximos anos e décadas precisarão – caso se queira que sejam bem-sucedidos – da ajuda e da colaboração de um laicado inteiramente comprometido e dedicado ao trabalho do discipulado. Para isso não é preciso quebrar as distinções entre leigos e clero, ou alterar as divisões de tarefas nas sedes das dioceses para dar preferência ao envolvimento de leigos. Esta última opção poderá ser prudente, ou até mesmo necessária, mas nunca será suficiente para a verdadeira missão da Igreja.

Cada vez estou mais convencido de que a questão para a Igreja nos próximos anos e décadas é esta: Se a vocação dos leigos fosse vivida bem e por inteiro – com os leigos a levar a sério o dom e a responsabilidade do seu baptismo – com que Igreja ficaríamos?

Estou convencido de que uma Igreja assim seria uma Igreja de verdade, fortalecida e confirmada na sua missão. Uma Igreja renovada.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Thursday, 26 December 2019

Integralistas contra Porta dos Fundos

Antes de passar ao apanhado de notícias de hoje queria avisar que a partir de 2020 vou deixar de fazer o email neste formato. A verdade é que não tenho conseguido manter o ritmo deste serviço, que no início se queria diário, e não faz sentido fazê-lo apenas de forma esporádica.

Assim sendo, vou passar apenas a mandar emails quando publicar artigos de opinião ou de análise, incluindo os artigos traduzidos do Catholic Thing e, em contrapartida, irei esforçar-me mais por fazer essa análise e opinião de forma mais regular.

Por hoje, contudo, ainda mando as notícias destes últimos dias.

Não leu a mensagem de Natal do seu bispo? Estão todas reunidas aqui. Ainda vai a tempo, porque o Natal são 12 dias.

O Papa recordou esta quinta-feira os cristãos perseguidos, num Natal que até agora tem sido relativamente pacífico… Mas não vamos lançar foguetes para já.

O que acontece quando se mistura religião e futebol? Pode acontecer de tudo um pouco, mas é sempre fascinante. Foi esse o tema de conversa do podcast “O Brinco do Baptista”, em que participei como convidado recentemente. Podem ouvir tudo aqui

O grupo brasileiro Porta dos Fundos tem sido criticado pelo seu “Especial de Natal” que muitos consideram ofensivo. A contestação chegou ao extremo com o ataque aos escritórios do grupo, na noite de 24 para 25. Esse ataque foi agora reivindicado por um grupo integralista, que no seu comunicado alega ter motivações cristãs. No artigo explica-se um pouco o que é o integralismo.

Temos ainda artigo do Catholic Thing da semana passada em que Michael Pakaluk parte de uma revelação da biologia para tirar ilações teológicas sobre a maternidade de Nossa Senhora. Muitíssimo interessante!

Tuesday, 24 December 2019

Singular vaso de devoção

Michael Pakaluk
Durante a gravidez algumas células do nascituro migram através da placenta para a corrente sanguínea da mãe. Estas são células “pluripotentes”, isto é, têm a capacidade de se transformar em diversas formas de tecido. Se, por exemplo, uma dessas células for parar ao tecido mamário imitará as células à sua volta e transformar-se-á numa célula mamária, ficando presente durante a vida da mulher.

“Em todo o mundo as mães dizem que se sentem como se os seus filhos ainda fizessem parte de si, muito tempo depois de terem dado à luz. Ao que parece isso é literalmente verdade”, lê-se num artigo recente da Smithsonian Magazine, “durante a gravidez células do feto atravessam a placenta e entram no corpo da mãe, onde se tornam parte dos seus tecidos”.

Também funciona ao contrário. Células da mãe também atravessam a barreira. Mas estas células não são pluripotentes; as suas vidas e possível influência são curtas.

Os biólogos acham este intercâmbio fascinante e vêem-no como uma simbiose que contribui para a saúde tanto da mãe como da criança. Os primeiros dados sugerem que as células fetais estimulam a produção de leite, ajudam a sarar feridas e fortalecem o sistema imunitário da mãe.

Ao chamar ao sistema uma simbiose estão a dizer que não é por engano, doença ou falha que as células chegam ao corpo da mãe. Os biólogos diriam que o sistema evoluiu para benefício mútuo de mãe e filho. A filosofia, ou o senso comum, diriam que esse intercâmbio consta do plano de Deus para a maternidade.

Pensemos na gravidez de Maria desta forma. Jesus era “perfeito Deus e perfeito homem”, igual a nós em tudo menos no pecado. Suponhamos, então, que células do corpo nascituro de Jesus migraram para o sangue de Nossa Senhora e se alojaram nos seus vários órgãos, assumindo as funções desses mesmos órgãos e permanecendo até que Maria foi assumida ao Céu. Não eram células dela, mas de Nosso Senhor, vivas no corpo de Maria e a desempenhar as mesmas funções que as suas.

Que implicações teológicas é que isto tem? (Implicações para nós amadores, isto é, os que amam).

Em primeiro lugar, significa que o ensinamento tradicional da Igreja de que Jesus não tinha irmãos nem irmãs, porque José nunca teve relações com Maria, torna-se muito convincente. Para quem pensa no assunto, o argumento do decoro sempre fez sentido: porque é que um homem iria onde Deus tinha estado, e reclamar para si aquilo que já tinha sido reservado para Deus? Mas agora Maria torna-se um lugar onde, num sentido importante, Deus permanece. Não é que ela tenha sido a Arca da Aliança: antes, ela é e permanece a Arca da Aliança, porque contém nela traços do corpo e do Sangue do Senhor.

Em segundo lugar, comprova o ensinamento tradicional da Igreja de que Maria estava livre do pecado original quando Jesus foi concebido no seu seio. Deus e o pecado são realidades incompatíveis. Ao carregar Jesus, Deus tornar-se-ia presente, de forma importante, nos próprios tecidos do seu corpo. Essa presença parece incompatível com qualquer componente do seu corpo orientado para o pecado, a implicação do pecado original.

Já agora, o dogma da Imaculada Conceição ensina que esta liberdade do pecado original foi conferida a Nossa Senhora a partir do momento da sua conceção. Que estava livre do pecado original e dos seus efeitos quando carregou Jesus nunca foi alvo de discussão.

A antiga Enciclopédia Católica descreve assim o argumento tradicional para esta Imaculada Conceição. “É incongruente supor que a carne a partir da qual a carne do Filho do Homem seria formada alguma vez possa ter pertencido ao escravo daquele arqui-inimigo cujo poder Ele veio à terra destruir”. A descoberta moderna de células fetais que permanecem na mãe dá força biológica ao argumento.

Uma Terceira implicação é de que Maria se torna um sacrário permanente, literalmente e não apenas de forma figurativa. Afinal de contas, a Litania do Loreto dá-lhe os títulos: “Vaso Espiritual. Vaso de Honra. Vaso de insigne Devoção… Casa de Deus. Arca da Aliança”.

Quando dizemos estas palavras imaginamos Maria grávida. Supomos que os termos são verdade agora porque já foram verdade antes, da mesma forma que nos dirigimos a um ex-presidente como “Sr. Presidente”.

É verdade que, para um coração piedoso, este papel é atribuído a Maria de forma eterna porque o dom de si mesma no seu “faça-se” foi tão completo. Mas parece que aqui, como em outras áreas da nossa fé, Deus não quer deixar as coisas no abstrato, mas quer concretizar realidades espirituais. De acordo com o Princípio da Encarnação, as células de Nosso Senhor que permaneceram no corpo de Maria seriam um sinal concreto e eterno desse papel.  

Pergunto-me às vezes se não prejudicamos o Natal ao negligenciar a Epifania, o que equivale a negligenciar Maria. A Epifania é a festa do surgimento e da revelação. Mas o Senhor é revelado através da sua mãe: é ela quem o carrega; ela quem o dá à luz; ela que o segura; ela que continua a apresentá-lo a nós. “De modo que o pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a ti, uma espada atravessará a tua alma” (Lucas 2, 35).

Através da sua maternidade Maria é um vaso de honra, mas não apenas um vaso, e não apenas um vaso em tempos idos, pronto a ser descartado, mas aqui e agora, irredutivelmente e ainda o caminho até Cristo.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
 
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Dezembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 18 December 2019

Rumo à Novilíngua

Hadley Arkes
George Orwell imaginou, no seu livro “1984”, um regime totalitário a impor uma inversão da linguagem moral, uma Novilíngua em que “guerra” significa “paz” e “paz” significa “guerra”. Orwell causou um impacto tão forte que tínhamos a certeza que conseguiríamos detetar esse novo despotismo à distância, bem antes de ele nos atingir.

Mas essa deriva linguística já aconteceu, de forma tão suave que quase nem demos por isso. Isso revelou-se outra vez na semana passada, de forma tranquila, sem o som de trombetas. Veio numa decisão do Supremo Tribunal de não aceitar ouvir um processo. Ao recusar, o Tribunal deixou no lugar a decisão de um tribunal inferior a sustentar uma lei do Kentucky sobre o “consentimento informado” em relação ao aborto.

A lei estipulava que um médico que se preparasse para fazer um aborto tinha a obrigação de disponibiliza à mulher uma ecografia do seu bebé. A mulher não tinha a obrigação de ver a ecografia, mas ainda assim o mero acto de manter essa lei foi o suficiente para lançar uma onda de pânico entre os defensores do aborto.

Mas qual era o problema? Inicialmente foi-nos dito que o aborto era uma “escolha” privada, a ser respeitada, sem ter em conta o que a escolha implicava. Mas Aristóteles lembra-nos que uma decisão tomada em ignorância não é um acto voluntário. Esclarecer uma mulher sobre a realidade da cirurgia a que se vai submeter não foi considerado inconsistente com a “liberdade de escolha” e a lei do Kentucky continua a deixar essa decisão nas mãos da mulher.

Mas agora dizem-nos que essa prova, quase palpável, da natureza do ser no útero foi “extraordinariamente perturbadora” para uma mulher e que outras foram reduzidas a choro e pranto.  

Claro que se um homem mata injustificadamente outra pessoa, isto é, assassina-a, o facto de isso o deixar incomodado em nada afeta a natureza desordenada do assassinato. Esta noção de mal causado a qualquer pessoa a quem é negado um aborto depende, evidentemente, de uma total dissociação do aborto do raciocínio moral que entra em jogo noutras áreas da vida.

A Planned Parenthood argumentou que a lei obrigava a um “discurso ideológico”, porque obrigava a explicar que “o aborto acabará com a vida de um ser humano vivo, único, separado e inteiro”.

Mas claro que é exatamente disso que se trata. Se o organismo não estivesse vivo e a crescer, então o aborto teria tanta relevância como uma amigdalectomia. Estando vivo, não pode ser outra coisa que não um ser humano e, como nos dizem os manuais de embriologia, nunca foi verdadeiramente uma parte do corpo da mulher.

Ainda assim, o discurso tem sido de que a legislatura está a impor uma “ideologia anti-aborto”. A legislatura ordena que seja mostrado aquilo que é objetivamente verdade e essa verdade objetiva é depois descartada como sendo mera “ideologia”.

A única coisa que mantém o estatuto de verdade incontestável é, aparentemente, o direito a matar um ser humano inocente no ventre, por qualquer razão, ou por nenhuma. Paz é guerra, guerra é paz.

A decisão do tribunal inferior foi escrita por John Bush, um advogado com um currículo bem sucedido e uma das nomeações mais distintas do Presidente Trump. O juiz Bush conseguiu mostrar, com base em precedentes sobre o consentimento informado, incluindo decisões escritas pelo juiz Kennedy, que o Supremo Tribunal reconheceu de forma implícita que o “desconforto do paciente devido à revelação obrigatória de informação correcta e relevante não invalida uma lei de consentimento informado”. Saber que o propósito da lei é encorajar o nascimento em vez do aborto também não afecta a validade da lei.

E, no entanto, a juíza Bernice Donald, na decisão minoritária, achou importante argumentar que estes requisitos “ideológicos” não têm “qualquer base médica”. Não são relevantes para a mecânica da cirurgia e negam ao profissional o direito a exercer “o discernimento médico de decidir se o procedimento é apropriado ou ético”.

O argumento dela parte do princípio que as preocupações morais da legislatura constituem uma interferência despropositada com o juízo médico. Mas os juízos morais que dizem respeito à prática da medicina não são “juízos médicos”.

Num famoso caso em Long Island, com uma criança que nasceu com espinha bífica e com trissomia 21, a Administração Reagan disse que não teria qualquer objeção se uma cirurgia correctiva fosse fútil, mas que se a decisão de recusar cuidados médicos fosse tomada com base na ideia de que uma vida afectada por espinha bífida e trissomia 21 não era uma vida que valesse a pena viver, então isso já não seria uma avaliação médica, mas sim moral.

Houve um momento notável no julgamento de Adolf Eichmann em que o seu advogado, Robert Serviatus, se referiu às matanças nos campos de concentração como “matanças por gaseamento e assuntos médicos similares”. Questionado sobre uma afirmação tão bizarra, respondeu que estes assuntos eram “médicos” na medida em que eram “preparados por médicos… e matar é, também, um assunto médico”.
  
Por outras palavras, o acto de matar podia ser isolado da avaliação moral se fosse levado a cabo por médicos. A juíza Donald não parece ter mais noção que outros juízes progressistas de que já vimos estes argumentos antes e tal como eles não se lembra do mundo moral em que esses argumentos causavam embaraço entre os pensantes.


1984 já passou há muito, mas nem reparámos que já lá tínhamos chegado.

Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 18 de Dezembro de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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