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Wednesday, 27 September 2023

Tragédia em casamento cristão no Iraque

Mais de 100 pessoas morreram num incêndio que deflagrou durante uma festa de casamento no norte do Iraque, na terça-feira, e outras 150 ficaram feridas.

A tragédia aconteceu na cidade de Qaraqosh, também conhecida como Baghdeda, ou Bakhtida, que tem a particularidade de ser a única cidade 100% cristã do Iraque. Embora existam cristãos de diferentes ritos e igrejas na cidade, este parece ter sido um evento da comunidade Siríaca Católica (e não a ortodoxa, como erradamente afirmei de início).

Um acidente destes é sempre uma enorme tragédia, não há vidas mais valiosas que outras, mas este incidente tem a dimensão acrescida de representar mais um grave golpe contra a comunidade cristã do Iraque.

Qaraqosh sempre foi um símbolo para a comunidade cristã deste país. O facto de serem maioria permitiu aos cristãos daqui manterem as suas tradições e costumes durante os anos de caos que se seguiram à invasão americana de 2003. Podiam praticar a sua religião sem qualquer medo ou restrição.

O primeiro grande teste para Qaraqosh veio com a ascensão do Estado Islâmico. A cidade foi ocupada pelos jihadistas quando varreram a região em torno de Mossul, mas todos os cristãos conseguiram fugir. Contudo, a instabilidade geral e o medo de que a situação se possa repetir no futuro levaram muitos cristãos a preferir emigrar, ou a permanecer no Curdistão Iraquiano, que é mais seguro e estável.

Os cristãos que regressaram a Qaraqosh são aqueles que resistiram, são aqueles que não quiseram, ou não puderam, sair do país. São, numa palavra, a esperança para o futuro do Cristianismo no Iraque.

Que 100, ou mais, dos membros dessa comunidade tenham morrido num acidente desta natureza é mais do que um desperdício de vidas, é um ataque a essa mesma esperança, mais uma razão na já longa lista de razões para simplesmente desistirem e saírem para a Europa, América do Norte ou Austrália, onde de geração em geração os seus costumes, práticas, língua e espiritualidade se vão dissipando.

Rezemos pelos cristãos do Iraque que, mais uma vez, enfrentam o desespero e a morte. Que Deus lhes dê coragem para resistir, que a luz do Evangelho se mantenha naquele país. E que Deus dê eterno descanso às vítimas deste incêndio, e a graça da recuperação aos feridos.

Thursday, 16 January 2020

Para estar atento em 2020 - Fim da guerra na Síria

Uma das maiores tragédias da última década tem sido a guerra civil na Síria, uma realidade que apenas é agravada pelo facto de, ao que tudo indica, a guerra ter servido para absolutamente nada, para além de enriquecer os traficantes de armas e dar à Rússia ainda mais influência na região. Este ano, acredito, a guerra pode finalmente chegar ao fim.

Quando os protestos da “Primavera Árabe” varreram o Médio Oriente em 2011 assistimos a tudo com um misto de apreensão e esperança. A queda do regime na Tunísia e no Egipto foram boas notícias, embora só o primeiro caso, onde o movimento começou, tenha comprovado ter pernas para andar. No Egipto a democracia levou à vitória da Irmandade Islâmica, uma péssima notícia, sobretudo para a grande comunidade cristã.

Mas quando começaram protestos na Síria eu, pelo menos, não reagi com esperança alguma, só com medo. A Síria era uma realidade muito instável. Um regime férreo, mas secular, onde não existia liberdade mas pelo menos as minorias religiosas estavam a salvo de perseguição e se vivia em paz e segurança. Dominado pela minoria xiita (alauita) o Governo tinha todo o interesse em manter os grupos sunitas fundamentalistas à distância. Não o regime ideal mas, tendo em conta o contexto regional, do melhorzinho que se podia arranjar.

Mal os protestos – e a resposta do Governo – se tornaram violentos temi o pior e o medo só se agravou com o entusiasmado apoio que os países ocidentais começaram a dar a uma oposição que muito previsivelmente se deixou dominar por grupos jihadistas.

Seguiram-se nove anos de terror, com o expoente máximo no Estado Islâmico, até que a Rússia entrou em cena para dar ao regime o apoio necessário para finalmente começar a recuperar o país, cidade a cidade, quilómetro a quilómetro. Os russos bem podem agradecer a Barack Obama por esse brinde que lhes deu ao ameaçar invadir 

No seu auge havia quatro grandes fações na guerra. O regime, que contava com o apoio das minorias religiosas e de muitos sunitas também, sobretudo nos grandes centros urbanos; o Estado Islâmico, uma força niilista que espalhou sofrimento e morte por todo o lado e conseguiu avanços impressionantes em pouco tempo, lançando o terror nas almas das suas vítimas; a dita oposição “moderada”, que de moderada só tem o facto de não ser tão niilista como o Estado Islâmico, porque era igualmente dada a decapitações e ao fundamentalismo islâmico e, no nordeste do país, a região autónoma constituída por curdos, árabes, cristãos siríacos/assírios e outras minorias étnicas e religiosas.

Este último grupo era particularmente interessante. Com um projeto verdadeiramente democrático, que apostava em realçar, proteger e preservar as identidades de cada grupo, promovendo a colaboração, ao contrário do que faz o Governo que tenta impor uma identidade comum. Esta região conseguiu obter o apoio do ocidente na sua luta contra o Estado Islâmico, tendo sido as suas Forças Democráticas da Síria as principais responsáveis por derrotar militarmente o grupo terrorista. Infelizmente, e depois de tudo isto, foram traídos pela decisão de Donald Trump de retirar e viram-se invadidos pela Turquia. Para evitar um genocídio fizeram um acordo com o regime e, assim, o projecto democrático parece agora uma utopia.

Entretanto o regime foi chegando a acordo com os diferentes grupos de rebeldes que, vendo-se em situações impossíveis, optavam por ser retiradas das suas zonas e enviadas para a região de Idlib, junto da fronteira com a Turquia, que sempre as protegeu e apoiou. Até que aos rebeldes já só restava mesmo a região de Idlib.

O último ano tem visto o regime sírio, sempre com o apoio da Rússia, a avançar lentamente sobre Idlib. De vez em quando são anunciados cessar-fogo, mas duram sempre pouco tempo e os militares do regime retomam a sua rotina de bombardeamento.

A situação em Idlib torna-se insustentável. O regime não tem qualquer motivação para negociar, nada a ganhar em adiar a conquista final e sabe que enquanto Moscovo permanecer com ele tem as costas quentes.

Já recomeçaram as ondas de refugiados de Idlib para a Turquia, que com o apoio que tem dado aos rebeldes só tem que se culpar a si mesma pela situação. Quando Idlib for recuperada pelo regime o país pode começar a ser reconstruído. Goste-se ou não de Assad, parece evidente que este é o melhor caminho para o futuro da Síria.

Na melhor das hipóteses, reestabelecida a paz, poderá haver algumas cedências por parte do regime, nomeadamente para os grupos étnicos e religiosos minoritários, especialmente no nordeste, mas até isso parece difícil agora que perderam os seus maiores aliados.

Milhares de mortes, cidades inteiras destruídas, relações entre comunidades envenenadas, uma geração perdida, tudo por nada. É essa a realidade da Síria. Que venha rapidamente a paz para pôr fim a esta loucura.

Wednesday, 20 November 2019

O que é a Pachamama e o que não é a Pachamama

Peço desculpa pela minha longa ausência, que se deve a viagens e excesso de trabalho. Tentarei ser mais regular nas próximas semanas!

O Papa chegou esta quarta-feira à Tailândia, fica até sexta-feira e depois segue para o Japão. Oficialmente Francisco celebra na Tailândia os 350 anos do Catolicismo naquele país, onde o a religião chegou, na verdade, há mais de 500. Mas não digam nada aos franceses…

A Santa Sé volta a insistir na solução de dois estados para a Terra Santa, lamentando “recentes decisões” que dificultam o processo de paz.

Estiveram recentemente em Portugal dois representantes políticos da comunidade cristã do nordeste da Síria para falar sobre a situação que lá se vive. Para além de reuniões políticas estiveram na Renascença para dizer que a única maneira de estancar o fluxo de refugiados é apoiando a paz naquela região.

Destaque ainda para uma entrevista à missionária que levou as imagens da Pachamama para Roma e que explica exatamente o que são e o que não são. Ela acompanhou o sínodo da Amazónia, que diz ter sido positivo, mas que ainda não acabou.

Aproveito para divulgar os dois últimos artigos do The Catholic Thing em português, ambos excelentes. Randall Smith pergunta porque é que os católicos se satisfazem com a mediocridade nas suas instituições de ensino, dando exemplo de seminaristas que plagiam impunemente nos seus cursos e Gunnar Gundersen explica que a noção de um país pós-cristão é contrassenso. Do Cristianismo um país apenas pode passar a anticristão. Fica o aviso.

Tuesday, 25 June 2019

Dois passos em frente, um para trás, rumo ao precipício

Tirem a vossa política do meu jogo, sff.
O admirável mundo novo vai chegando, entre avanços e recuos. Avanço: Uma juíza inglesa ordenou que uma mulher de 22 anos fizesse um aborto contra a sua vontade. Recuo: O tribunal de recurso anulou a decisão. E é assim, dois passos em frente, um passo atrás. Mas é para a frente que vamos, rumo ao precipício.

Uma sondagem encomendada pela BBC revela que os árabes são cada vez menos religiosos.

Os símbolos da JMJ já começaram a sua longa caminhada até Lisboa, onde chegam a 5 de Abril de 2020.

Está a nascer em Trás-os-Montes uma “aldeia para Deus”. Conheça-a aqui.

A equipa feminina de futebol do Vaticano abandonou o jogo que ia disputar no passado fim-de-semana, na Áustria, quando jogadoras da equipa da casa levantaram as camisolas para revelar mensagens pró-aborto (ver imagem).

Publiquei no blog a transcrição integral da minha conversa com o cristão siríaco Johan Cosar, que treinou uma milícia para combater o Estado Islâmico. Podem ler aqui.


Tuesday, 26 March 2019

Califado desinsuflado e mártires de Moçambique

Triunfo contra as forças do mal
Há notícias pelas quais esperamos anos, mas que quando chegam já nem parecem surpreendentes. Mas não nos deixemos enganar. O fim oficial do “Califado” do Estado Islâmico é uma vitória para a humanidade. Não significa que a paz tenha chegado à região, mas é bom passo nesse sentido.

O Papa está a caminho de Marrocos, onde vai “mostrar que há compreensão entre muçulmanos e cristãos”, segundo o embaixador daquele reino em Portugal.

Já foi publicado o primeiro volume da nova tradução da Bíblia, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa. Os bispos convidam o público a fazer críticas e sugestões, o que é caso único no mundo.


Vão-se amontoando os donativos para Moçambique. Desde o Santuário de Fátima, passando pela Irmandade dos Clérigos e pela diocese de Setúbal. A tragédia que se abateu sobre aquele país é comentada aqui pelo bispo da Beira e pelos funcionários da emissora católica, Rádio Pax.

Mas como nem tudo podem ser más notícias de Moçambique, parece que os 24 catequistas que foram mortos em 1992 poderão estar a caminho dos altares! Roguemos a eles pelos que sofrem hoje.

Monday, 4 February 2019

Dérbis há muitos, nenhum é como este

A Renascença estreia hoje uma nova grelha e foi para mim uma grande honra ser o autor da primeira grande reportagem a passar no dia da inauguração. Numa semana em que tanto se fala de dérbi, convido-vos a conhecer o dérbi mais improvável do mundo. Opõe cristãos de tradição siríaca/assíria, oriundos do Médio Oriente, mas que vivem na Suécia… Só visto, e lido. Espero que gostem, pois deu-me imenso prazer fazer.

Por falar em Médio Oriente, o Papa Francisco encontra-se em Abu Dhabi. Ainda agora acabou de falar num encontro inter-religioso, em que disse que ou se constrói o futuro em conjunto,ou não haverá futuro de todo. Ontem, antes de partir, rezou de forma especial pela paz no Iémen, um conflito esquecido por muitos, em que quem mais sofre continuam a ser as crianças.

Na Holanda chegou finalmente ao fim a maratona religiosa em defesa da família Tamrazyan. Batei e abrir-se-vos-á… Os cristãos holandeses bem bateram, e a família viu abrir-se a porta.

Nota ainda para o facto de o Papa ter enviado flores às religiosas do Vaticano e para a descoberta de uma capela quinhentista em Cabo Verde.

Em anexo mando o convite para a Caminhada de Namorados e Casais Novos promovida pela Pastoral da Família do Patriarcado de Lisboa e deixo-vos com o convite para ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a importância do latim para a civilização ocidental.



Friday, 7 August 2015

Kidnapped Christians in Syria: "It keeps repeating itself, since 1915"

Nuri Kino with Syriac bishops in Sweden
Full transcript of Nuri Kino's explanation about the situation in Syria, where 250 Christians have been kidnapped. News report, in Portuguese, here.

What information do you have about the kidnappings in Al-Quarayatayn?
Isis went in to the city and about 1500 people managed to flee. Most of them came to the churches of Homs. We spoke several times to the churches and the Syriac Orthodox Bishop managed to make a list of missing people. He and volunteers, clergymen and civil volunteers registered everyone that fled and asked them if they had any missing neighbours, friends or family members. Then they went through again and after several interviews with those who registered they completed a list of 250 missing people.

These 250 are all Christians?
They are all Syriac Orthodox or Syriac Catholic.

Could there also be people from other minorities who have also been kidnapped?
That we do not know, because we only spoke with the churches.

But was the city of  Al-Quarayatayn majority Christian?
Nearly only Christians.

There has been no information on the part of the kidnappers, no demands...
No. The only thing we know is that their cell phones have been switched off. So when relatives, family members and the churches try to reach them there is no answer.

This is not the first time there has been a mass abduction. The most recent one was near Hassakeh...
From the Khabour area there are still 222 people abudcted.

Do you know if they are alive?
Well those that have been released have told us about their whereabouts, that women and small girls and boys and men were separated from eachother, and the women were held in a small room and had to schedule their sleeping. That is all we really know now.

At the time there were people who had been released and said they had been ordered released by Shariah judges...
That information has not been reliable, some said that, others said they had been released because of health issues. Mostly elderly people.

The fact that they were not just executed, even though they were a burden for ISIS, may be a sign of hope, no?
Definately. But we also know from kidnappings from Mosul or the Nineveh, of at least one Assyrian woman, and an Assyrian kid who were given to ISIS members as gifts. So it’s devastating, and people keep fleeing... Those who managed to flee from Khabour went to Hassekeh, and then from Hassekeh to Qamishli, from Qamishli back to Khabour, where there were a lot of mines. Now they don't know where to flee. It keeps repeating itself, it’s been repeating itself since 1915, then 1933 and so on, and now, since 2004 we keep reportiong and reminding the world about this genocide, but no action is taken to save the Christian/Assyrian/Chaldean/Syriacs/Armenians and other Christians in Syria and Iraq.

I don't know, I have no words besides that one lion was killed and the whole world was furious, now all these people are getting kidnapped and slaughtered, why isn't the world furious about that? Why? Somebody needs to give an answer.

And its not just Christians, it’s also Muslims. ISIS is getting more and more violent, against everyone.

One year ago Mosul fell and the world woke up to ISIS. Did you imagine that one year later we would be in the same situation?
Yes. We also actually predicted Mosul, and the Nineveh plains. For years, in both DC and Brussels, we reported about it, we feared it. So it’s very sad and horrible, terrifying, but it’s not surprising.

You live in Sweden, where there is a big Assyrian community. Are there relatives of those who were kidnapped?
I will actually see one of the relatives of those from Habour, she has 42 of her family members kidnapped, and I spoke to a young man and a lady today who have relatives missing from the Homs area, but they are not sure if they are kidnapped or not, because they are not on the list that they saw.

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