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Wednesday, 10 August 2022

Pessoas vs. Seres Humanos

Randall Smith

Uma das defesas mais comuns do aborto é de que o feto em desenvolvimento no útero da sua mãe, embora seja claramente um “ser humano” – e não um peixe, ou um reptil, como o ADN e os cromossomas claramente demonstram – ainda não é uma “pessoa”. Neste contexto o termo “pessoa” identifica uma certa classe de seres humanos que julgámos merecedores da nossa protecção e preocupação moral, por oposição àqueles outros que decidimos que não o são.

Neste contexto o termo “pessoa” delimita uma fronteira crucial – a fronteira entre “nós” (aqueles com a dignidade e o estatuto que o termo implica e concede) e “eles” (aqueles a quem esse estatuto deve ser negado).

Se o pensamento pós-moderno nos ensinou alguma coisa, foi a encarar estes jogos linguísticos com desconfiança. Esta dicotomia entre “pessoa” e “ser humano” não é precisamente o tipo de coisa que o pós-modernismo se orgulha em desconstruir, uma vez que as dicotomias, como “negro” e “branco”, “homem” e “mulher”, “cidadão” e “estrangeiro” são usados para fragilizar e marginalizar certos grupos?

Não aprendemos com a teoria pós-moderna que todas as dicotomias são expressões de poder do forte sobre o fraco, do rico sobre o pobre, das classes altas sobre todos aqueles que elas querem manter sem poder e invisíveis?

Considere, por exemplo, esta descrição do filósofo Peter Singer, de Princeton, sobre porque é que pais que descobrem que o seu filho por nascer tem trissomia 21 poderão querer abortá-lo:

Ter um filho com trissomia 21 é uma experiência muito diferente de ter um filho normal [sic]… Não podemos esperar que uma criança com trissomia toque viola, que desenvolva uma apreciação por ficção científica, aprenda uma língua estrangeira, converse connosco sobre o mais recente filme do Woody Allen ou que seja um atleta respeitável de basquete ou de ténis.

O que é isto se não a descrição de um aluno rico e talentoso, de uma universidade de elite? Porque é que o Singer não diz simplesmente que não levaríamos uma criança trissómica para o clube de campo? Talvez não, mas há uns anos seria igualmente embaraçoso aparecer no clube de campo com um judeu ou um negro.

O filósofo John O’Callaghan, pai de uma criança com trissomia 21, comentou as palavras de Singer:

De facto, Singer está enganado sobre as capacidades de seres humanos com Trissomia 21, pois muitos conseguem desempenhar essas actividades. Só quem vive na ignorância geral sobre as vidas de pessoas com trissomia 21 é que pensaria o contrário. E podemos perguntar porque razão tantas pessoas na nossa sociedade são tão ignorantes sobre estas vidas que não fazem mais do que acenar em concordância quando ouvem tais afirmações. Porque é que os feitos de pessoas com trissomia 21 são dignos de notícia? Francamente, é porque já os excluímos da comunidade de preocupação moral com quem nos relacionamos nas nossas vidas.

Quando as pessoas dizem de um bebé abortado: “Bem, sabes, ele tinha trissomia”, não é exactamente o mesmo que dizer de um assassinado: “Bom, sabes, ele era um imigrante ilegal”? O que pensaria de alguém que respondesse à questão “Ouviste que o Presidente Roosevelt recusou um navio cheio de pessoas que fugiam da tirania nazi?” com a afirmação “Sim, mas as pessoas têm de perceber que os passageiros eram judeus”?

Ser humano e pessoa, como todos nós
Será assim tão diferente de responder à pergunta: “Já sabes que a Sally perdeu o bebé?” com, “Sim, mas era só um feto”. Pergunte a mulheres que sofreram a dor de um desmancho quão pouca empatia sentiram por causa da maliciosa distinção que se faz entre o seu filho por nascer e um bebé “verdadeiro”.

Como é que se explica que turbas de polícias linguísticos, sensíveis a cada “micro-agressão” oral não compreendem que afirmar que um bebé no útero “não é uma pessoa”, ou que um bebé indesejado “não é uma pessoa”, ou que uma idosa com demência “não é aquela pessoa que eu conhecia e amava” é igual a apontar a um homem hispânico e perguntar “será que ele é legal?”. Ou então comentar uma candidata a professora universitária perguntando, “É uma mulher? Será que pensa engravidar?”. 

Quem é que a distinção entre “pessoa” e “ser humano” favorece? A criança indefesa e invisível? Ou os poderosos capitalistas que querem que as mulheres dêem prioridade ao trabalho e que sintam que é do trabalho numa economia de mercado, e não da parentalidade, que derivam o valor e o sentido das suas vidas? (Uma inversão de valores que foi alcançada há décadas, juntamente com os homens, em lamentável detrimento da família).

Como é que se explica que académicos que se orgulham da sua sensibilidade em tais questões não conseguem reconhecer que esta utilização do termo “pessoa” é precisamente o tipo de agressão linguística a que se oporiam em qualquer outra área? Talvez seja porque este termo, ao contrário de outros, serve para valorizar a sua própria classe, de pessoas como elas, pessoas que valorizam e apreciam coisas como a ficção científica, aprender uma língua estrangeira, conversar sobre filmes do Woody Allen e jogar ténis para se manter em forma?

Não é verdade que todos os que são beneficiados pela linguagem negam que é isso que está a acontecer? “São apenas palavras comuns”, dizem. A questão é que essas “palavras comuns” expressam a fragilização em curso de uma parte da sociedade.

Então, pergunto, “pessoa” vs. “ser humano”: não é exactamente o tipo de categoria socialmente construída de “nós” (aqueles que importam) contra “eles” (os que não interessam) que deve ser desconstruída e eliminada? Enquanto existir qualquer tipo de obstáculo que simples “seres humanos” têm de ultrapassar para serem incluídos na comunidade de “pessoas”, haverá sempre seres humanos vivos que ficam aquém.

Ao longo da história, sempre que distinguimos entre o que podemos chamar “seres humanos plenos” (“pessoas”) de outros que supostamente não são bem humanos (como judeus, africanos negros e bárbaros, por exemplo), cometemos mais do que um erro. Cometemos um dos piores erros que nós, enquanto pessoas supostamente sensíveis, razoáveis e “civilizadas”, podíamos cometer. Talvez seja hora de parar de o fazer.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Agosto de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 12 August 2015

Leitura para Férias

Sabedoria 4, 16
Aproveito este meu último post antes de ir de férias para partilhar sobretudo alguns textos mais de fundo que vos poderão interessar.

Na sequência da minha reportagem sobre o Apoio à Vida e a Vanessa, que se tornou mãe aos 12 anos, publiquei a transcrição integral da entrevista a Joana Tinoco de Faria, psicóloga que acompanha estes e outros casos e fala com conhecimento de causa de toda  a problemática da gravidez adolescente, aborto e maternidade. É uma conversa longa mas interessantíssima!

Ao longo desta semana que passou falei também com o activista Nuri Kino, que fundou uma organização para ajudar os assírios, isto é, os cristãos do Iraque e da Síria que são perseguidos pelo Estado Islâmico. A conversa decorreu no dia em que foram raptados mais 250 cristãos na Síria e dias antes de serem libertados outros 22. Saiba aqui como pode ajudar os que se encontram a salvo, mas deslocados.

Na semana passada morreu o padre Ricardo Neves. Deixa muitas saudades e um vazio pastoral difícil de preencher sem a ajuda de Deus, que certamente não nos faltará. Hoje publiquei na íntegra uma entrevista que lhe fiz no ano sacerdotal. Não é uma homenagem, é uma forma de matar saudades.

E por fim, mais um artigo do The Catholic Thing. O grande Randall Smith sobre o que constitui um verdadeiro mártir. Será que Martin Luther King qualifica? E Edith Stein? E os mártires do Império Romano?

Por hoje é tudo, se houver notícias urgentes comunicarei, mas entretanto vou estar de férias. A festa continua no Facebook e no Twitter.

Thursday, 6 August 2015

Aborto: "Se eu soubesse que havia ajudas, não tinha feito o que fiz"

Transcrição integral da entrevista a Joana Tinoco de Faria, psicóloga do Apoio à Vida, uma instituição que ajuda mulheres grávidas em dificuldades. Pode ver a reportagem aqui.


Casos com os da Vanessa, de meninas a engravidar aos 12 anos ou até menos, são comuns?
Comuns não, não na nossa realidade. Normalmente sabemos quem são esses casos. A partir dos 14 para a frente é mais comum.

Uma rapariga assim tem capacidade mental para levar a cabo uma gravidez e assumir a maternidade?
Em termos de maturação, mesmo ao nível do desenvolvimento cognitivo, do desenvolvimento da inteligência – que depois se repercute no desenvolvimento emocional, e na capacidade emocional que terá – há de facto algumas coisas que precisam de muita ajuda para crescerem ao mesmo tempo que as exigências da maternidade interferem com esta fase do crescimento.

Se tem capacidade mental? Acho que dizer que não tem também não é justo. Sobretudo porque depois a cultura influi muito, e nós lidamos com culturas em que isto pode ser uma realidade mais próxima e os papeis sociais que se desempenham, a capacidade mental adapta-se a este tipo de circunstâncias. Numa cultura como a nossa, e numa sociedade como a nossa, em que se privilegia mais o facto de a criança viver a sua infância, eventualmente estará menos preparada para desempenhar este papel e é mais exigente do que em culturas em que a maternidade é mais precoce.

Quando fala de culturas em que a maternidade é mais precoce... Trabalham muito com pessoas de ascendência africana, é isso?
Sim.

Portanto é diferente trabalhar com pessoas dessas comunidades ou de outras?
É muito diferente. Não só a forma como a maternidade é ou não vivida e valorizada, socialmente e culturalmente, é totalmente diferente. E depois na forma como somos aceites ou não, como intervenção externa, isso também é muito diferente, por isso temos de nos adaptar à cultura da qual nos aproximamos. 

Levou tempo a perceberem isso?
Leva tempo a perceber e é importante estarmos atentos. Porque para nós às vezes é tão óbvio, determinadas formas de fazer e de desempenhar papéis, que percebemos que estamos tão longe de quem nos estamos a aproximar que o nosso ponto de partida tem de ser outro, tem de ser o da pessoa que temos à frente, perceber qual é e depois fazermos o caminho em conjunto.

Quando lhe perguntei se haveria capacidade mental, achei interessante que respondeu que há coisas que "precisam de mais ajuda", dando a entender que é possível chegar-se lá. O que ouvimos dizer muitas vezes é que nestes casos a melhor solução será quase invariavelmente o aborto. Não concorda?
Não concordo sobretudo com o estanque que é essa resposta. Sobretudo porque há muitos factores que influenciam. Isto ser matematicamente uma resposta, para mim não faz sentido. Temos de perceber as circunstâncias em que a pessoa existe, é, vive, cresce e a forma como a família apoia ou não apoia, que é verdade que para uma criança de 12 anos é um desafio enorme, ninguém tem dúvidas. Que não é possível desempenhar esse papel… Acho que de acordo com a nossa experiência não podemos dizer que não é possível.

Quando uma rapariga nova, numa situação complicada, procura um aborto, o que é que lhe está a passar pela cabeça?
É muito diferente o que uma rapariga desta idade pode pensar, ou de outras idades. Porque esta fase de desenvolvimento é caracterizada por um egocentrismo e até mesmo a nível de inteligência o pensamento é muito autocentrado. E por isso há a valorização, tipicamente, das tarefas que são normais nesta época do crescimento, a brincadeira, os amigos, as tarefas escolares, a forma como lidam, ou não, com a família. E normalmente isto é um dos factores que influi muito na forma como é vivida uma gravidez, ou até nas razões do aparecimento da gravidez, porque muitas vezes as gravidezes surgem, psicologicamente, como um grito inconsciente, pelo menos na minha perspectiva, de autonomia e até de uma construção de um projecto de família desfasado – isto é, fantasioso – mas um grito por uma família própria, um porto de abrigo, em famílias em que isto se calhar não existe.

Nestas idades também? Ou sobretudo mais tarde?
Da nossa realidade, lidamos muitas vezes com famílias que são lugares de afecto insuficiente e qualquer criança sente isso. E depois, para além disso, são zonas em que há subculturas em que a maternidade na adolescência de alguma forma é aceite, existe, há sempre casos que existem e que se conhecem, e portanto nestes contextos – e esta realidade é próxima daquela em que actuamos – isso existe e acontece, ou seja, há uma repetição de um modelo que mesmo que não seja consciente – e não é de todo – inconscientemente procura-se. E muitas vezes as mães destas raparigas foram mães muito novas e portanto são modelos que se acabam por se absorver, sem crítica, e portanto reproduzem-se sem ter consciência que se está a reproduzir. Sim, é possível isto acontecer nestas idades. 

Depois, obviamente, a forma como se vive a sexualidade… Como muitas vezes os pais são pré-adolescentes que não têm muitas balizas a vivência da afectividade é feita de forma mais desordenada e acontece uma gravidez em contextos completamente inesperados, tanto que muitas vezes não há o reconhecimento dos sintomas nesta idade, porque é de tal forma uma coisa fora de âmbito que nem sequer se reconhece. Nestas idades acontece isto com alguma frequência.

Existe alguma noção dos eventuais efeitos negativos psicológicos de uma decisão dessas?
Não há. É uma fase do desenvolvimento em que há um egocentrismo e uma síndrome de imortalidade, em que se pensa que acontece aos outros mas não a mim. É muito difícil conseguir-se esta capacidade do que vai acontecer nesta fase da pré-adolescência. É praticamente inexistente. É viver o hoje, é resolver o que o hoje me apresenta e é também uma forma de viver muito autocentrada, muito à volta do que "me apetece".

Paradoxalmente acontece-nos, e não é um nem dois – só vou falar da nossa realidade, não vou generalizar porque não tenho dados para isso – acontece muitas vezes estas raparigas, no discurso, não quererem abortar porque – e isso também tem a ver com essa perspectiva do "eu" e do egocentrismo – porque é "o meu bebé" "o meu filho" e é alguém que "a mim me vai dar" o afecto que de alguma forma não tive. E portanto eu acho que nesta perspectiva, e da minha experiência, isso acontece-nos com frequência.

Se calhar as situações que eu acompanhei em que houve dúvidas em relação à gravidez ou em que eu acompanhei essa fase, não é tão típico nesta etapa de crescimento, mas mais velhas. Se ponderam abortar nesta etapa tem sobretudo a ver ou com a pressão da família, o que acontece com frequência. A família tem aqui um peso fundamental, sobretudo nestas idades, e normalmente é a família que não vê uma maternidade adolescente como uma possibilidade na vida daquela rapariga.

Claro que também existe a adolescente que quer abortar, claro que existe, se calhar não passou tanto por mim... Mas tem a ver sobretudo com as dificuldades que isso lhe traz ao dia-a-dia concreto, aos objectivos concretos do dia-a-dia, do querer sair com as amigas, do não querer ter essa responsabilidade. Mas não há muita capacidade de amadurecer este tipo de decisão, portanto normalmente a família tem um impacto muito mais preponderante nesta etapa do desenvolvimento do que numa mulher mais adulta.

Nesses casos, falando nomeadamente da pressão da família, pode haver a ideia de que o aborto resolve e o problema desaparece. Mas isso pode não ser assim...
Pode não ser assim.

Acho que a mentalidade é que parece uma resolução, o chamado "desengravidar", isto é, "engravidaste, mas vamos 'resolver' o assunto" e é frequentemente assim que é abordado este assunto. Nem sequer se fala em aborto ou interrupção, ou fala-se quando é estritamente necessário, grande parte das vezes fala-se do assunto e é "aquele" assunto.

Acho que a família, grande parte das vezes acredita que está a fazer o melhor, porque é mesmo devolver à criança aquela infância, é essa a mentalidade. Resta saber se passar por uma experiência como o aborto, ainda que não se tenha a verdadeira consciência daquilo que se está a fazer – porque em termos maturacionais não é possível ter a consciência do que é – resta saber se este impacto, mais tarde, não se vai sentir de outras formas. Na nossa experiência, de alguma forma temos tido, mais tarde, mesmo a nível de sintomas mais somáticos, formas de somatizar o mal-estar. Aparece também, muitas vezes associado a situações de abortos anteriores, porque não foi possível elaborar a nível psíquico a experiência e portanto o corpo acaba por tentar elaborar. 

É a forma que a família tem, muitas vezes, acha que está a devolver a vida àquela adolescente, a vida que tinha, de não ter essa preocupação extra. Mas a nível do desenvolvimento posterior há muitos pontos de interrogação do que isto traz de facto à vida desta jovem. 

E temos algumas histórias de algumas raparigas, que se rebelam contra a família, porque não querem mesmo [abortar]. Quando esta forma de viver, mais virada para si, pode ser vivida, e temos alguns casos assim, de tal protecção de si e do bebé que é seu, que se rebelam contra a família e até se põem em risco, porque no fundo agem em fuga para a frente para se protegerem quando estão a ser mesmo pressionadas e há situações em que fogem de casa porque querem manter a gravidez. Temos alguns casos em que isto aconteceu.

O que é que se diz a uma rapariga com tamanha imaturidade, ou até mais velha, para a encorajar a manter a gravidez?
Se nós pudéssemos falar com uma rapariga nessas circunstâncias, em primeiro lugar ouvi-la. Nestas idades, exactamente por esta insuficiência de maturidade, normalmente não se ouve muito aquilo que a jovem quer.

Ouvi-la, perceber, ouvir de si o que ela valoriza, a vida naquela etapa, que significado atribui a essa gravidez, em que circunstâncias surge e qual é o significado e projecto que ela pode ter, ou não, com esta gravidez.

Isto, claramente, numa primeira abordagem. Depois depende da vontade dela, que ela expressar. Acho que é muito importante falar sobre aquilo que é o aborto. É importante que dentro da maturidade que a pessoa tem, lhe seja explicado aquilo que é o procedimento e o que vai implicar para ela. Isto seria a forma de acolher e informar. 

Em última análise, dizer-lhe que a decisão é sempre acompanhada e que ela não está sozinha, independentemente de poder haver a ideia de que se ela decidir para um lado vai ficar sozinha. Isto tem um peso muito grande, porque a ameaça de ficar sem ninguém pesa muito, em prole de uma coisa tão desafiante e tão difícil que é uma gravidez nestas etapas. 

Por isso mostrar este suporte e dizer que se, de facto, há vontade de prosseguir, há vontade de aceitar esta ajuda, mostrar que não está sozinha e que é possível fazer este caminho.

Uma das coisas que por acaso se tem mostrado muito útil na nossa experiência, para as pessoas que acompanhamos, é tentar que esta jovem fale com alguém que tenha passado por uma situação semelhante. É sempre diferente alguém que passou por uma situação e a vida entretanto encarregou-se de seguir, e há raparigas que seguiram com as suas vidas e passaram alturas de crise e reconstruíram a partir daí, e isto pode ajudar ao sentimento de solidão de que sou a única que passo por uma coisa destas e preciso mesmo de abortar porque a família pressiona, ou não vou ser capaz, portanto sim, muito suporte, informação consoante o grau de maturidade e perceber muito bem, tornar-lhe claro a vontade dela, muitas vezes a vontade está completamente contaminada por aquilo que foi ouvindo. Portanto é preciso perceber, dentro da jovem que é, tentar fazer vir à tona aquilo que ela própria quer. 


Trabalhando neste campo, conhece casos de raparigas que se tenham arrependido de ter os seus bebés?
Eu não conheço. 

E o contrário?
Sim. Algumas daquelas que mais me marcam, em relação a este tema, são as que engravidam mais tarde, pode ser anos depois, e voltam a procurar-nos e o pedido que fazem é "eu só não quero voltar a fazer o que fiz, porque por isso não quero passar outra vez". 

E foram decisões tomadas, às vezes, pelas próprias. Este pedido, que é, "eu não sei como é que vou levar isto para a frente, mas não quero passar por esta situação outra vez. E não é uma nem duas, são bastantes. Depois arranjam outros significados, mas a única coisa que sabem é que não querem passar por aquilo outra vez.

Há uma história que me marca muito. Uma vez fui a uma escola falar sobre a nossa intervenção a nível social e psicológico, gravidez, maternidade... Não tinha a ver com o tópico do aborto. Fui falar a uma turma e no fim, quando estava a sair, houve uma rapariga que se aproximou de mim e que disse que gostava de falar comigo. Fiquei meio atrapalhada, porque não estava a perceber bem o que queria. Ela vinha assim meio de lágrimas nos olhos e disse-me: "Só lhe quero pedir um favor: Que falem disto a mais gente. Porque se eu soubesse o que sei hoje, não tinha feito o que fiz. Se soubesse que havia ajudas, eu não tinha feito o que fiz". 

Que idade é que ela tinha? 
Tinha 17 ou 18, mas tinha feito um aborto com 15/16 anos. 

Isto foi das coisas que mais me marcou, no sentido de perceber que é importante que as pessoas saibam que existe ajuda, ajuda até no sentido de pensar e de ajudar, porque agir em fuga para a frente e tomar decisões precipitadas, que é o que muitas vezes acontece, não constrói nada.

Voltando ao caso da Vanessa, este imprevisto na sua vida acabou por ser um pivot para ela dar a volta por cima. A própria admite que de outra maneira dificilmente se teria “endireitado”. Isso acontece muitas vezes? Pode-se dizer que é regra?
Que é uma oportunidade para isso, não há dúvida. Resta saber como é que é agarrada e com que apoio. Porque, que é muitíssimo desafiante, é. Ainda por cima com as fragilidades da estrutura anterior, agora, não há dúvida – e a Vanessa é um exemplo disso – que de alguma forma é como se a gravidez fosse um travão a si próprio, uma tentativa de ser alguém, esta coisa mesmo da autonomia, do grito, de agarrar na minha vida e fazer alguma coisa. Isto surge, e surge também em mulheres adultas, com vidas mais complicadas e muitas delas falam nisso, mesmo quando decidem depois abortar. 

Tenho várias situações, mesmo de mulheres que acabaram depois por abortar, que têm esta percepção de que "posso fazer alguma coisa diferente com isto".

Para mim, é claramente uma oportunidade e isso é reconhecido por muitas que passam por esta situação, independentemente da crise ou da intensidade da crise que a gravidez inesperada gera. Agora, que depois ela pode ou não ser agarrada e abraçada, e construída como a Vanessa a construiu, isso depende de cada uma e do esforço, do nosso trabalho, daquilo que da nossa parte depende, da família...

Na família a reacção inicial nunca é a reacção final. Nós dizemos muito isto, só que dizer é uma coisa, viver é outra. Viver com o pânico de que a família nos abandone... não há chantagem maior que esta.

Por isso é uma oportunidade, isto tenho claro.

Ainda acontece muito, as famílias dizerem "ou abortas ou sais de casa?"
Sim. Estou no Apoio à Vida há 10 anos e apanhei a mudança da lei. Agora acho que até é mais duro. Agora só não abortas se não quiseres, portanto "quem és tu, para decidir com esta idade, pôr-me este peso em cima" – porque ainda por cima está dependente, estamos a falar de jovens dependentes dos pais. 

Antigamente a família estaria a ser cúmplice de violação da lei, enquanto agora...
Exactamente. A lei está do lado da família que tem muitas dificuldades em ver isto como cenário possível. Portanto a jovem nesse sentido, se quer prosseguir com a gravidez, tem a vida muito mais dificultada.

Vou alargar, jovem e mulher, porque das situações que acompanho é em qualquer idade, quando para quem não quer assumir a responsabilidade, esta lei, se a mulher estiver dentro do prazo das 10 semanas, está desprotegida se quer prosseguir. Está muito desprotegida. 

Portanto sim, acontece e acho que a pressão é mais forte desde a mudança da lei. 

Até porque a nível social isto tem repercussões. Uma vez fui falar a uma escola em que numa turma de vinte e tal alunos não era uma possibilidade prosseguir uma gravidez antes de ter uma vida estabilizada. Isto em termos de mentalidade vai construindo a forma de pensar a vida. Sem dúvida que isto também contamina e as pessoas estão imbuídas desta mentalidade e nesse sentido notamos que a pressão da família é mais severa, e de formas até mais violentas por parte da família e às vezes do pai da criança, porque é só a vontade dela que está em causa. Antes era a lei, mas agora é só a vontade dela.

E nos casos em que não acontece? Em que se vê repetir o ciclo vicioso de famílias desestruturadas, com a probabilidade de a criança crescer na mesma situação… Mesmo aí sente que vale a pena o trabalho que faz?
Eu não tenho dúvida. Mesmo com tudo o que tenho visto - e tenho crescido muito com o trabalho que desenvolvi aqui - porque acho que a nossa visão das coisas é muitas vezes posta à prova, porque crescemos muito e voltamos... Até podemos olhar da mesma forma, mas demos uma grande volta para olhar daquela forma outra vez. 

Eu não tenho dúvida, ainda que a mãe e o bebé não fiquem juntos, e isto é difícil de explicar, mas isto tem a ver também com a forma como... Ou seja, aquela etapa de crescimento, para aquela mulher, são competências adquiridas.

Independentemente da dificuldade que é a retirada do bebé (e não quer dizer que o bebé não volte mais tarde para aquela família), aquela rapariga muitas vezes deu tudo o que tinha e não conseguiu assegurar o que o bebé precisava, isto acontece, e é uma dor enorme acompanhar isto. Porque ela deu tudo, dentro das suas circunstâncias e da sua medida. Mas aquilo que ela deu, e o que cresceu com isso, já não lhe é retirado. E não teria crescido, tendo em conta as circunstâncias, e provavelmente, como a Vanessa dizia, e vemos muitas vezes isso, muitas vezes as vidas vão-se degradando e repetindo ainda mais os modelos disfuncionais, se não há nada de funcional que as puxe. 

Portanto eu acredito, e tenho visto, porque mesmo que às vezes as crianças são criadas pela família alargada, ou a responsabilidade é de um familiar, ou de alguém próximo, e estas raparigas continuam a ter contacto com o filho e muitas vezes o único papel que se sentem dignas de ter é o da maternidade. E isso fá-las quererem ser alguém, para depois dar o exemplo aos filhos. Que pena que seja a única coisa que apele a essa dignidade que elas têm como pessoas, porque não é o única, mas é o que elas sentem – mas que bom que haja uma.

Por isso acredito que a linha não acaba, mesmo quando há um processo de retirada, porque ninguém quer isso e ninguém deseja isso, mas a partir daí também muita história se pode construir. 

Também no caso da Vanessa, o pai da criança é uma pessoa quase totalmente ausente da sua vida, e sempre foi. Que importância tem a presença do pai em todos estes casos?
Na nossa experiência – nesse aspecto temos muito caminho para andar – os pais estão muito ausentes. Daquilo que me parece, estão voluntariamente ausentes, o que me parece uma grande infelicidade, não só para as mães como também para as crianças.

De alguma forma a sociedade contribui para que estejam ausentes. Há-de haver aqui uma dinâmica que promove esta ausência. Obviamente que as circunstâncias em termos sociais, mas em termos de decisões, quando uma mulher quer prosseguir e o homem não quer, assistimos frequentemente a uma desresponsabilização do homem, e a mulher arca com as responsabilidades sozinha. Aqui o pai da criança não é tido nem achado, até hoje, naquilo que toca à decisão de prosseguir com a gravidez. Desresponsabiliza para um lado ou para outro, se um homem se quer responsabilizar também não tem voz activa. Era importante aqui dar a cada um o seu papel. 

Há muito trabalho por fazer e mesmo em termos de sociedade. Da nossa realidade, muitas vezes tentamos envolver os pais nesta perspectiva, e de trabalhar o casal parental não só na atribuição de responsabilidades mas também de gratificações, de os pais poderem assistir ao crescimento dos seus filhos e de se poderem entusiasmar com isso. 

Depende também dos papéis culturais que os homens são chamados a ter como pais, isto também é muito diferente nas diversas culturas. Portanto o que sinto é que daquilo que é a nossa perspectiva, sem dúvida temos que fazer mais para envolver os pais, mas é muito difícil. Se a nível de sociedade pudesse haver uma ajuda talvez os pais se sentissem mais com esta responsabilidade de estar presentes e podia-se fazer aqui qualquer coisa. Assim, sinto que remamos muito sozinhos. Por esta presença do pai, quer quando o bebé está na barriga ou é uma decisão de prosseguir ou não, acho que isto devia ser desde o início, porque é o que faz sentido.

Estamos aqui a falar muito dos efeitos destas decisões sobre as raparigas. E sobre vocês, que as acompanham? Como é que se “protegem”?
Proteger, acho que não dá.

Acho que não dá e acho que não é o que nos é pedido. É óbvio que é importante termos a distância suficiente para sabermos acompanhar melhor as pessoas, e essa distância é sempre uma tensão entre os dois polos, porque não é um equilíbrio estanque e às vezes sobrenvolvemo-nos ou subenvolvemo-nos, mas sem dúvida o que hoje percebo é que para acompanhar pessoas em situação de crise, é importante encontrarem do outro lado uma disponibilidade que lhes permite abrirem-se, e nós temos de trabalhar isso cada uma em si, e acho que isso tem a ver com o caminho pessoal de cada uma, de cada um dos profissionais que lida com as situações, e depois em equipa termos um espaço – e aí acho que temos um ambiente que nos ajuda muito a viver isto, porque vivemos estas situações muito difíceis muitas vezes estamos todas a torcer e partilhamos muito isto, o que é fundamental. Isso é muito importante.

Depois, um caminho pessoal de perceber que se o outro não encontra em mim um lugar de disponibilidade, não vai abrir e não se vai permitir fazer caminho com esta companhia, porque não sente disponibilidade da companhia que encontra. Isso faz toda a diferença, toda a diferença.


Proteger? Acho que não é o que nos é pedido, e é importante isso. Porque os profissionais que trabalham estas áreas têm muito esta lógica da protecção. Uma certa distância é importante, claro, também para as nossas vidas pessoais, e até para as pessoas que acompanhamos... Encontrar lugar na equipa para podermos pôr a nu até as nossas fragilidades a lidar com o assunto, e depois temos o que é só nosso, que temos de fazer sozinhos, querer fazer um caminho de amadurecimento pessoal, para não endurecermos demais o nosso coração e perdermos essa disponibilidade.

Fala sempre no feminino... Não há aqui muitos homens a trabalhar no dia-a-dia, pois não? E isso faz falta?
Faz imensa falta!

Os únicos homens são o presidente e homens bebés... São as únicas presenças masculinas. Fazem imensa falta, porque há uma complementaridade entre homem e mulher que é fundamental. Quando o ambiente é demasiado feminino muitas vezes a subjectividade impera. Do mundo feminino temos a subjectividade e o envolvimento. É sem dúvida uma coisa maravilhosa, mas quando é demais, era importante haver presenças masculinas que temperassem isso. Mas depois, trabalhando com um universo tão feminino, também muito difícil e com questões tão delicadas, temos muito esta questão. É uma altura tão delicada para as mulheres e que tem de ser tratada com tanta delicadeza, que de repente a presença de um homem quando estamos a discutir a amamentação e os mamilos gretados e tudo o mais, de repente não é possível, ou pelo menos deixa as jovens aflitas.

Questões mais práticas... O que fazem aqui neste gabinete? 
Aqui é o gabinete de atendimento externo, que funciona em regime ambulatório. As famílias vêm cá. O que temos aqui é acompanhamento social, psicológico, de inserção profissional, aconselhamento jurídico e intervenção psicossocial em grupo, que é uma das formas de intervenção que sentimos que tem um impacto importante na vida destas mulheres, exactamente por esta experiência de percebermos que esta experiência de outras pessoas que passaram pelo mesmo pode ajudar, então criámos os grupos de mães que se acompanham desde o tempo da gravidez. 

Portanto uma rapariga chega aqui, está grávida e precisa de ajuda: É-lhe perguntado se quer manter o acompanhamento em grupo, é inserida num grupo que está organizado por trimestres de gestação e depois estas mulheres acompanham-se ao longo do tempo da gravidez e maternidade e aquilo a que chamamos a fase de autonomia, em que têm encontros quinzenais ou mensais, no tempo em que os bebés são mais pequeninos, e têm formações muito ao nível daquilo que são as etapas que vão vivendo, têm tempo de conversas de mães, para tirar dúvidas – e aqui nós somos meros facilitadores desta troca de experiências, depois há um tempo de conversa puxa conversa, porque para além de mães são outras coisas e por isso conversamos sobre outros assuntos, e isto tem a ver com a promoção de competências maternas e a promoção da rede de suporte, por isso para criarem ligação entre elas e poderem apoiar e suportar-se nesta fase, e temos experiências muito giras em que de repente uma vai visitar a outra e são elas que nos avisam que nasceu o bebé da não sei quantas, e isto é fundamental, porque há redes tão frágeis, e por redes tão frágeis é que muitas vezes surgem os problemas.

É na tentativa de prevenção de problemas que possam existir, nestas fases delicadas de saber como faço com o meu bebé, porque se não tenho a quem perguntar vou começar a fazer mal.

Quantas mulheres, por alto, é que atendem aqui por ano?
Por ano chegam-nos cerca de 300 a 350 mulheres, seja gravidez e maternidade. Chegam-nos mais ou menos 300 mulheres grávidas novas por ano, ou seja uma primeira vez a pedir ajuda. Com aquelas que vêm do ano anterior, abrange mais ou menos os 350.

Mas vocês não existem só para aquelas mulheres com dúvidas, em crise. Pode haver uma mulher perfeitamente decidida a manter a gravidez, mas que precisa de apoio de qualquer maneira...
Sim, sem dúvida. Acontece-nos mais chegarem esse tipo de situações, infelizmente, do que as mulheres com dúvidas. Esse é o nosso objectivo, chegar mais a quem tem dúvidas, um bocado também em nome do apelo que esta rapariga me fez nesta escola, de fazer chegar esta mensagem de ter um lugar onde se pode pensar o que se quer fazer nesta fase. Há muitas mulheres que passam por aqui e que decidem abortar, e que nos ligam a dizer que abortaram, e a quem apoiamos naquilo que for preciso na mesma. Se for preciso procurar emprego ajudamos a procurar emprego. Queremos é apoiar a mulher ao ponto de sentir que tem os recursos necessários para decidir da melhor maneira possível, porque muitas vezes a falta de liberdade condiciona as decisões. 

Mas se elas dizem que estão decididas a abortar, vocês não as encorajam nesse sentido...
Claro que não. Alertamos para aquilo que é para alertar, mas o objectivo é acompanhar. Claro que não dizemos isso, não é essa a nossa perspectiva, mas tentamos pensar em tudo o que seria possível de organizar para que seja possível prosseguir, porque muitas vezes o desejo lá no fundo é prosseguir, mas parece que as circunstâncias não estão a favor e não permitem, por “N” razões. Portanto tentamos desbloquear aquilo que está a bloquear, e depois a mulher é livre de decidir e obviamente nós estamos cá naquilo que ela precisar, mas não somos incentivadores do aborto, não.

Thursday, 11 June 2015

Caracóis, fetos e esquartejamentos

Recentemente falou-se muito numa campanha absurda sobre os direitos dos caracóis. O facto de haver campanhas a favor do direito à vida dos caracóis diz muito sobre os nossos dias e mereceria todo um outro artigo, mas não é sobre isso que gostaria de falar hoje.

Pouco tempo depois apareceu uma campanha que claramente partia dessa dos caracóis mas era contra o aborto. Vários jovens deixaram-se fotografar com dois cartazes. Um mostrava um feto in utero, outro dizia: “Gostava de ser esquartejado vivo? Ele também não”, como se pode ver na foto.


Peço agora a vossa paciência para um pequeno exercício. Olhem novamente para a foto, e depois olhem para estas





Notam alguma diferença?

Antes de avançar, quero deixar uma coisa muito clara. Eu não conheço as pessoas que apareceram nas fotos da campanha do “esquartejado”, mas vocês são meus irmãos e minhas irmãs. A vossa causa é a minha causa. A “vossa” verdade não é vossa nem minha, é simplesmente a verdade. Eu não duvido por um segundo das vossas melhores intenções em terem participado nesta “campanha”. Por isso, por favor não leiam o resto deste artigo como um ataque, mas sim como um alerta e uma recomendação fraterna que torno pública pela simples razão de que me parece que seria benéfico para todos os que trabalham pela causa pró-vida que estas coisas se digam.

Vamos então por pontos.

1) Nunca, nunca, mas mesmo nunca, apresentar um slogan pró-vida acompanhado de uma foto de um homem/rapaz, sozinho, com ar sombrio. Se eu fosse uma rapariga que tivesse passado pela tragédia de abortar o meu filho, olhava para aquela foto e só me apetecia partir os dentes todos daquele rapaz ao pontapé.

Sejamos claros. Nós perdemos o referendo e não há outro no horizonte. Neste momento não estamos a tentar ganhar votos, voltámos à missão mais importante de todas que é a de salvar vidas e isso faz-se tocando o coração das pessoas que, em última instância, vão tomar a decisão de dizer sim, ou não. Essas pessoas são raparigas, muitas da mesma idade deste rapaz e a reacção que queremos despertar nelas não é uma de total alienação, como aqui acontece.

Por isso, de preferência, uma campanha pró-vida deve recorrer sobretudo a jovens mulheres. Eu sei que nesta do “esquartejado” também participaram algumas raparigas, mas novamente todas com ar sombrio, que intencionalmente ou não se confunde com julgamento.

Queremos sorrisos! Isso é fundamental. Olhem para as outras fotos que coloquei. Estão a ver algum olhar sombrio? A nossa causa não é uma causa triste, é a causa da vida. Quem tem a verdade do seu lado não pode, como é evidente, deixar de sentir tristeza pelo que se passa nas clínicas onde estas vidas são ceifadas, mas também não pode deixar de manifestar esta enorme alegria que nos move.

A marca de todos os eventos pró-vida em que tenho participado, desde as campanhas dos referendos até às caminhadas pela vida anuais, tem sido sempre a alegria e isso não é encenado, é natural e espontâneo, porque nós somos assim e um olhar até superficial sobre os nossos adversários ideológicos nesta causa mostra que isso é algo que nos distingue. Não tenhamos medo de o mostrar.

2) “Esquartejado”? A sério? Não consigo pensar em pior palavra para colocar numa frase destas.

Eu sei que é verdade, que nalguns procedimentos de aborto é isso que acontece. Quando não é assim, são queimados com solução salina, ou aspirados… Cada coisa é pior que a outra.

Mas a palavra “esquartejado” é tão terrível, tão visual, tão grotesca, que eu olho para a frase e fico a sentir-me mal. Não é esse o efeito que queremos criar nas pessoas. É que se isso me acontece a mim, imaginem como se sentirá uma rapariga que tenha passado por isso… A nossa luta não passa por encher as pessoas de remorsos até verem a luz.

Afinal é possível usar a palavra "esquartejar"
de forma positiva. Mas só com um sorriso!!
O outro problema é que esta frase coloca toda a ênfase do sofrimento e da dor no bebé. Simpatia pela mulher? Nem vê-la. Pelo contrário, uma vez que ela terá sido cúmplice no esquartejamento. Este não pode ser o caminho. Nós defendemos a vida. A vida do bebé que é morto num aborto, e a vida da mulher que fica irremediavelmente cicatrizada, no coração e por vezes na carne, pelo que fez ou pelo que a convenceram a fazer. Queremos mostrar que essa dor também nos interessa e também nos move, também a queremos evitar.

Dir-me-ão que aqui o objectivo era aproveitar o sururu causado pela “causa” dos caracóis e nada mais. Tudo bem, eu aceito isso. Mas mesmo aí seria possível fazer a coisa pela positiva. Imaginem a mesma cena, mas com uma pessoa sorridente e o segundo cartaz a dizer algo do género: “Preocupados com o sofrimento? E ele, não vale um caracol?” Ou apenas: “Não me digas que ele não vale mais que um caracol”. Querem o cenário perfeito? Mulheres grávidas, a sorrir, com a barriga à mostra e com uma destas frases escritas na pele.

Com estas frases consegue-se o mesmo efeito – pôr a nu o quão absurdo é haver quem se preocupa com o sofrimento dos caracóis quando a nossa lei nos permite matar seres humanos indefesos – mas sem grande parte dos problemas que já apontei.

Estão sempre a dizer-nos que Portugal está na cauda do mundo civilizado. O resultado disso é que noutros países, que estão supostamente na frente, esta luta já se trava há meio século. Eles já cometeram todos os erros que se podem cometer, aprenderam com eles e corrigiram a rota. Isso significa que nós não temos de os cometer outra vez. Vejam o que de melhor se faz lá fora e adaptem à nossa realidade.

A quem organizou esta campanha: Nota máxima pelo sentido de oportunidade, nota máxima pela vontade e pela iniciativa. Sobre a mensagem e o meio usado… Muito a melhorar, mas pelo menos vocês estavam a fazer alguma coisa, o que já é meio caminho andado!
A nossa é a causa dos sorrisos!

Filipe d'Avillez

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