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Wednesday, 18 January 2023

A Compostagem Humana Mete Nojo

David G. Bonagura

Sem grandes alaridos, no final de 2022 a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, promulgou uma lei autorizando a “redução orgânica natural”, conhecida popularmente como “compostagem humana”. Nova Iorque junta-se assim a outros cinco dos estados mais progressistas do país que já legalizaram a prática. A compostagem humana consiste em aquecer e rodar regularmente um cadáver humano dentro de um contentor cheio de material orgânico. Depois de seis a oito semanas todo o corpo se transforma em solo. Os ossos são depois colocados num incinerador (o eufemismo usado é “cremulador”), e queimado para formar mais solo, que é acrescentado àquilo que era o resto do corpo e lançado a um jardim, floresta, ou outro paraíso hortícola.

É uma nova versão da profecia bíblica: “Lembra-te que és pó, e ao pó tornarás. E tornarás”.

Os argumentos a favor da compostagem humana, recentemente articulados no New York Times, são utilitários, emocionais e filosóficos. Custa menos do que um enterro tradicional e, embora seja mais cara do que a cremação, a incineração de ossos resultantes da compostagem é menos prejudicial para o ambiente. Satisfaz a ligação emocional à terra, que inclui tanto o desejo de regressar a ela como de entrar em comunhão com os outros mortos que ela agora contém. Por fim, representa um novo ritual de morte que tem significado para alguns pelo que, no espírito de relativismo moral, devemos respeitar as escolhas de cada um.

Esta lógica radica num dualismo filosófico que defende a separação radical entre a alma e o corpo. Segundo este princípio, o corpo é acidental, e não essencial, à existência humana. Logo, o corpo pode ser tratado como um mero instrumento: os seus processos naturais podem ser interrompidos, os seus membros saudáveis mutilados para ir ao encontro de uma ideia distorcida, ou pode ser descartado depois da morte, uma vez que a sua ligação à pessoa nunca teve real valor.

A compostagem humana corrói a dignidade da pessoa. Tenho uma compostagem no meu jardim, é para lá que mandamos o nosso lixo orgânico: cascas de banana, sacos de chá, borras de café, cascas de ovo, fruta incomestível e restos de legumes, abóboras podres, depois do Halloween.

O corpo humano não é um pedaço de lixo, é o modo essencial da nossa existência – somos almas incorporadas. A alma não tem qualquer vida, auto-compreensão ou experiências fora do corpo. A pessoa é mais do que o seu corpo, mas não pode viver nem ser conhecido sem ser no seu corpo.

Mesmo fora dos círculos cristãos as pessoas civilizadas acreditam que cada pessoa possui uma dignidade inerente que ninguém pode violar. Por causa da união essencial entre alma e corpo, respeitar essa dignidade implica respeitar também o corpo humano. Não podemos, por exemplo, causar danos físicos a alguém e dizer que estamos a respeitar a sua alma ao mesmo tempo. Por isso condenamos, e bem, o racismo e o sexismo, pois estes atacam a pessoa, devido a aparência do seu corpo. Ao menorizar o corpo, estes preconceitos desumanizam.

Ao reduzir o corpo humano a uma matéria informe, a compostagem humana também é uma forma de desumanização. Se os corpos são dignos de respeito em vida, também o são na morte. É por isso que ao longo de milénios tantas culturas, de tantas religiões diferentes, desenvolveram a prática de sepultar os seus mortos: faze-lo é um acto de homenagem a uma pessoa que em tempos foi filho, filha, irmão, irmã, esposo, pai, amigo ou vizinho de alguém – e deve ser homenageado como tal até na morte.

Contrariamente às aparências, a compostagem humana não acelera um processo natural. Sim, os corpos decompõem-se com o tempo, mas como se a própria natureza nos tivesse a dar uma lição de dignidade humana, aos ossos isso não acontece. Eles permanecem juntos, fixos na terra, como marcadores de um ser intacto, único, a recordação de uma pessoa que outrora viveu. Consideramos os cemitérios terra sagrada porque eles contêm algo especial. Permitimos aos mortos descansar em paz como testemunho ao facto de que eram pessoas que mereciam respeito em vida, e merecem ainda na morte.

Claro que do ponto de vista cristão o argumento para preservar o corpo na morte é ainda mais forte. No Natal celebramos o Deus que se fez homem, um evento que atribuiu à carne humana uma nobreza divina. O corpo humano é de tal forma abençoado por Deus, e de tal forma essencial à existência humana, que a morte traz apenas uma separação temporária da alma e do corpo. No final dos tempos Deus ressuscitará os nossos corpos decaídos da terra e transformá-los-á em corpos espirituais – tal como o de Cristo – com que serão reunidas as nossas almas. Proclamamos essa crença todos os domingos na recitação do Credo: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.

Quando o Papa Francisco lamenta a nossa “cultura do descarte” contemporânea, que desrespeita os pobres e os marginalizados, implora-nos que recordemos que “Ninguém é descartável!”. A este uso figurativo do termo devemos acrescentar agora, infelizmente, o sentido literal: nenhum ser humano, em vida ou na morte, deve ser descartado como lixo para apodrecer num monte de compostagem.

Não há apelos ao consentimento ou amor pela terra que justifiquem tratar o corpo humano como lixo, transformando-o em terra para embelezar os nossos jardins. A edificação da terra não se pode fazer à custa da dignidade humana, que se decompõe ao mesmo ritmo que o corpo, caso aceitemos tolerar a compostagem como apenas mais uma “escolha de vida”.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 11 de Janeiro de 2023 no The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Wednesday, 27 July 2022

Não Criminalizem a Mulher que Aborta

David G. Bonagura Jr.
A revogação de Roe v. Wade reactivou uma série de leis em vários estados que criminalizam o aborto, mas que estavam suspensas há cerca de cinquenta anos. Ao contrário de outras leis mais recentes, como as de Oklahoma e da Florida, muitas destas prevêem que as mulheres sejam processadas por tentarem abortar. Nestes estados, se uma mulher obtiver um aborto ilegal poderíamos vê-la a ser algemada e julgada. E podem ter a certeza que o veremos mesmo, porque os media e os defensores do aborto cobrirão furiosamente cada segundo do processo. Aliás, o New York Times desafiou-nos a tentar fazê-lo.

De agora em diante a posição pro-vida deveria espelhar as recentes leis que proíbem que as mulheres sejam processadas, mas permitem que todos os outros envolvidos em facilitar a obtenção de um aborto o sejam. E devemos divulgar ao máximo esta posição.

Mas o aborto não é um assassinato? O homicídio deliberado de uma pessoa inocente? Normalmente as mulheres carregam alguma responsabilidade pelo acto. Mais, argumentam alguns, a responsabilização pessoal das mulheres pode desencorajá-las de terem comportamentos sexuais irreflectidos. Pelo contário, dizem, garantir a imunidade criminal poderá levá-las a tentar fazer abortos ilegais sem qualquer medo.

Uma mão-cheia de activistas pro-vida defendem a criminalização das mulheres. Claro que o New York Times lhes dedicou uma reportagem recentemente, com direito a manchete.

Mas processar mulheres por abortar é uma má ideia, e não só porque levaria o país a voltar-se instantaneamente contra a proibição do aborto – imaginem só as reacções a imagens de uma rapariga de dezasseis anos a ser detida. A ideia é errada sobretudo porque o aborto é um crime singular, que carrega uma sentença perpétua de natureza diferente.

Todos os homicídios partilham um mesmo e trágico resultado, a perda de vida inocente que não pode ser restaurada. Contudo, nem todos os homicídios são julgados da mesma forma. A lei diferencia entre três graus de severidade de um homicídio, determinados pelos motivos e os meios. Desta perspectiva, o direito criminal segue o exemplo da teologia católica no julgamento de um acto imoral: o acto em si tem primazia, mas a intenção e as circunstâncias também são tidos em conta e podem atenuar a culpa do autor, embora jamais possam justificar a decisão errada.

Os homicídios são quase sempre motivados por um (ou mais) dos sete pecados mortais. O aborto, pelo contrário, é quase sempre motivado por medo, insegurança e pressão social, que pode vir tanto da situação económica da mulher como do pai da criança. (Sim, a luxúria também pode conduzir a um aborto, mas não é causa directa). Os homicidas são uma ameaça à segurança pública, mas as mulheres que procuram um aborto não.

Quando contemplamos o acto em si, o aborto é tão repulsivo, tão contrário à natureza, que se pode até argumentar que é pior que outras formas de homicídio. Mas para uma mãe consentir na matança do seu próprio filho, com quem deve partilhar uma ligação mais singular e bela que qualquer outra na criação, não pode estar de mente sã naquele momento fatídico.

Mesmo quando invoca razões tão fúteis ou egoístas como “não estou pronta para ter um filho”, claramente não está a compreender a gravidade do acto, e uma vida inteira de sujeição a propaganda abortista, quer se aperceba disso ou não, dificulta o discernimento moral. As mulheres que celebram e divulgam os seus abortos em comícios e marchas não estão de mente sã.

Assim, vemos que o aborto produz duas vítimas: a criança e a mãe, ainda que esta seja simultaneamente a agressora contra os dois. As vítimas precisam de compaixão e de cura, não de se sentar no banco dos réus. A memória de uma criança perdida já é punição suficiente.

Já aqueles que querem ajudar as mulheres a obter abortos – médicos, enfermeiras, farmacêuticos ou traficantes de pílulas abortivas – participam no homicídio de uma forma diferente da mulher. Estes não têm qualquer ligação à criança e procuram ganhar com o sofrimento do outro. Devem ser punidos pelo seu crime, de acordo com a sua gravidade. Se uma mulher faz um aborto sem qualquer ajuda de terceiros, o que precisa é de ajuda psiquiátrica, e não de ir para a cadeia.

Essencialmente, esta posição jurídica do movimento pro-vida segue a abordagem pastoral da Igreja Católica. Nenhuma entidade tem condenado o mal que é o aborto com a mesma força e consistência que a Igreja. E também nenhuma entidade tem convidado activamente as mulheres a obter o perdão, oferecendo aconselhamento espiritual e psicológico para as ajudar. Enquanto extensão temporal da encarnação, a Igreja revela ao mundo os atributos aparentemente paradoxais de Deus: Ele é Justiça e Ele é Misericórdia.

Ao rejeitar a criminalização das mulheres por abortar, a comunidade pro-vida demonstra que é ela, e não os defensores do aborto que se preocupa com os interesses da mulher. A não perseguição das mulheres não significa que o aborto não seja sério. Pelo contrário, a seriedade do aborto explica porque é que é ajuizado de forma diferente de outros homicídios. O aborto mata uma criança, mas mata também a alma de uma mãe. Os activistas pro-vida estão à mão com medidas criativas e atenciosas para lhe devolver a paz de alma.

Desde a queda de Adão e Eva que homens e mulheres sucumbem a tentações sexuais, não obstante o medo da gravidez e as terríveis consequências sociais. A ameaça de penas de prisão para o aborto terá pouca influência no desencorajamento da actividade sexual extraconjugal que conduz ao aborto. Para isso é preciso uma enorme mudança de paradigma social, a começar com o confronto da mentalidade contraceptiva (a venda de contraceptivos disparou desde a revogação de Roe v. Wade), e a proibição do aborto é a primeira de muitas contribuições para este fim.

O que nós queremos, para proteger melhor a vida, é que todos aqueles que promovem a indústria abortiva sejam afastados por via de ameaças legais. Mas para as mulheres que procuram um aborto é preciso um conjunto de medidas diferentes, uma vez que elas participam neste crime de uma forma muito diferente de todos os outros. A resposta pro-vida para as mulheres enganadas pela cultura da morte é amor, misericórdia e esperança.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 21 de Julho de 2022 no The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 8 June 2022

Utopia em vez de Escatologia

David G. Bonagura
Há trinta anos o então Cardeal Ratzinger esteve em Praga, onde deixou um aviso ao povo de uma democracia recém-nascida que estava repleta tanto de promessas como de perigos. O futuro Papa falou sobre a diferença entre escatologia – a compreensão e crença no “final”, isto é, vida eterna – e utopia. A crença nesta última, que ele definiu apenas como “a esperança de um mundo melhor no futuro” veio a ocupar o lugar da vida eterna entre muitos dos crentes que subsistem no Ocidente.

Para o homem moderno, continuou Ratzinger, “a vida eterna é supostamente irreal; diz-se que nos distrai do tempo real, mas que a utopia é um objectivo real que podemos ajudar a concretizar com o nosso poder e as nossas capacidades”. A arrogância dos homens “substitui a escatologia com uma utopia feita à sua imagem” que “pretende preencher as esperanças do homem” sem referência a Deus. Constantemente seduzido por novas capacidades tecnocráticas, o homem moderno pensa que a utopia está mais próxima a cada dia que passa.

Em anos recentes – à medida que os americanos se desvinculam cada vez mais das religiões tradicionais – a sede pela utopia atingiu ponto de fervura, como que para preencher esse vazio. Os três reinos utópicos realizar-se-ão, prometem-nos, se conseguirmos travar as três grandes ameaças sociais: mudanças climáticas, Covid e racismo. A eliminação destas três trará a salvação civilizacional.

Esta salvação continua permanentemente fora do alcance, mas cada tentativa falhada gere uma urgência e um medo maiores. O choro e ranger de dentes tornam-se mais altos a cada dia que passa, para tentar converter os cépticos. Se continuarmos a perfurar a terra para procurar combustíveis fósseis, as calotas polares derretem e o nível do mar sobe; mais uma variante de Covid e os governos fecham novamente as escolas e as cidades; mais um conflito inter-racial e veremos motins e pânico nas ruas.

Ratzinger compara a utopia com a figura mítica de Tântalo, que foi condenado a viver com água pelo pescoço em Hades. Sempre que tentava chegar a água ou fruta eles retrocediam, para fora do seu alcance. Não espanta, por isso, que os adeptos da utopia que vemos nas suas manifestações estejam sempre tão zangados. Não conseguem alcançar aquilo que tão desesperadamente querem. Estão frustrados como Tântalo. Por isso, comenta Ratzinger, mesmo que “trabalhem com total dedicação para consolidar aqueles factores que estão, por ora, a manter o mal à distância”, censuram a concorrência e cancelam os potenciais rivais que ameaçam os seus objectivos esquivos.

A insanidade generalizada que a busca pela utopia ambiental, de saúde, e racial gerou entre os adeptos deveria levar todos os que contemplam sair das igrejas cristãs a pensar duas vezes. Os seres humanos têm sede do divino, mas os dogmas utópicos dos nossos dias não nos trazem salvação, mas sim angústia eterna. Vale a pena olhar de novo para o Cristianismo (ou, para muitos desta geração, olhar pela primeira vez, mas libertos das distorções deliberadas do credo cristão).

“A verdadeira diferença entre a utopia e a escatologia”, escreve Ratzinger, é que o “presente e a eternidade não estão lado-a-lado, separados; mas sim interligados”. A vida eterna não é um fenómeno que começa de repente, depois da morte. É um “novo tipo de existência, em que tudo flui em conjunto para o ‘agora’ do amor” que se torna possível pela presença de Deus no universo. “Deus é amor, e aquele que vive no amor vive em Deus, e Deus vive nele” (1 João 4,16).

Através da Encarnação do Filho de Deus, a vida eterna faz agora parte do tempo. Em Cristo, escreve Ratzinger, “Deus tem tempo para nós. Deus já não é meramente um Deus lá em cima, mas Deus envolve-nos por cima, por baixo e por dentro: Ele é tudo em tudo, e por isso tudo em tudo nos pertence.”

O toque de Cristo é mais tangível na Igreja quando Ele vem ao nosso encontro na Eucaristia. Quando o recebemos na Santa Comunhão a eternidade conjuga-se com o presente e transforma-o, para o elevar dos horrores deste mundo, dando-lhe uma prova da glória vindoura. O presente deixa de ser o lugar de preparação de um futuro inalcançável e torna-se ocasião para o encontro com um Deus que nos ama e que nos chama a si.

Só desta perspectiva é que podemos lidar com os males que nos confrontam, sejam eles ecológicos, sanitários, sociais ou morais. Porque os crentes reconhecem que o mal, tal como as ervas daninhas que crescem com o trigo, farão sempre sombra sobre o bem desta vida. Mesmo quando a sombra do mal parece cercar totalmente o bem, como acontece com os horrores da guerra e os massacres nas escolas, os raios de bondade continuam a romper a escuridão para nos dar esperança de que Deus, aparentemente ausente, reina aqui e agora.

Tendo descartado a fé, o adepto da utopia não consegue processar o mal desta forma. Tenta, sem sucesso, amputá-lo, ficando frustrado e paranoico quando o vê a regressar, qual hidra, com o dobro da força. Faz dos avanços tecnológicos e das acções governamentais o seu Hércules, mas são obras demasiado difíceis para serem levadas a cabo por mortais. O adepto da utopia sofre assim uma derrota estrondosa quando tenta construir o céu na terra.

Fazemos melhor, conclui Ratzinger, quando trabalhamos no sentido oposto. “A terra torna-se celestial, torna-se Reino de Deus, sempre que se faz a vontade de Deus na Terra como no céu. Rezamos assim porque sabemos que não está ao nosso alcance trazer o céu até nós. Porque o Reino de Deus é o seu reino, não o nosso, e não o podemos influenciar”.

Nós, os crentes, devemos desafiar todos os que se estão a afastar do Cristianismo por estas razões. Jamais encontrarão a utopia. Mas a vida eterna está ao seu alcance, se apenas pudessem olhar novamente com os olhos da fé.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Junho de 2022 no The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 24 November 2021

O Último Preconceito Socialmente Aceite

David G. Bonagura Jr.
“Julgava-te mais inteligente que isso”, e “já chega!” foram dois dos comentários que recebi de amigos de infância que voltei a ver recentemente num velório, depois de vários anos. Estavam em choque com a notícia de que eu tenho seis filhos.

Como muitos leitores do The Catholic Thing, alguns dos quais com o dobro dos meus filhos, sabem, estes estão entre os comentários mais polidos que os pais de famílias numerosas recebem de pessoas incrédulas, gozonas ou frequentemente hostis. Nesta minha experiência recente pelo menos esses dois amigos não recorreram a golpes sujos, como às vezes acontece. Desse género o menos pessoal é o recorrentemente usado: “mas vocês não têm televisão?”

A nossa sociedade já não tolera comentários ofensivos sobre a aparência ou a etnia de alguém. Não é aceitável, na maior parte dos casos, ridicularizar uma pessoa por causa da sua religião, apesar de a religião em si ser um alvo comum dos intelectuais “iluminados” e das figuras públicas. Já lá vai o tempo em que o anticatolicismo era considerado o “último preconceito socialmente aceite”. Mas as acções preconceituosas, desde comentários ofensivos a vandalismo de estátuas, costumam ser recebidas por legiões de defensores, tanto institucionais como individuais, que estão dispostos a dar o corpo ao manifesto pela fé. Pelo menos os detratores não podem ser anticatólicos e sair incólumes.

De igual forma, hoje estamos proibidos de comentar sobre o “estilo de vida” de outro – ou pelo menos de certas escolhas. O caixa do supermercado não dirá nada sobre o cliente com vários piercings, tatuagens, roupa rasgada e cabelo pintado de roxo. As redes sociais suspendem as contas de utilizadores que fazem comentários negativos nesse sentido, ainda que a admissão dessas mesmas “escolhas de estilo de vida” fosse impensável há uns anos. 

Mas quando se chega ao “estilo de vida” de ter uma família numerosa, o filtro pessoal e social desaparece. Depois de deixar passar o punk, porque é que o caixa se sente obrigado a perguntar-me se são todos meus quando me aproximo com os meus filhos? As redes sociais exercem algum tipo de vigilância em defesa daqueles que são ridicularizados por ter famílias numerosas? Desde estranhos a conhecidos, parece que as pessoas simplesmente não conseguem deixar de comentar as famílias grandes. “Eles têm, tipo, seis filhos”, disse recentemente o dentista à sua nova assistente, como se esse facto tivesse alguma coisa a ver com o arranjo dos dentes do meu filho.

Às vezes até gente de ir à missa, bem-intencionada, contribui para este assalto às famílias numerosas. Há anos que ouço, pelo menos uma vez por mês, uma variação da boca “deves ter as mãos cheias”. Mais do que uma vez, depois da missa, alguém usou os dedos para contar os meus filhos na minha presença, como se fosse incompreensível para ele o que estava a ver.

Mas o pior, porém, são as ofensas que os meus filhos adolescentes ouvem dos seus pares, de tempos a tempos, sobre os seus pais. Não os posso reproduzir aqui para este público bem-educado, mas não terão dificuldades em imaginá-los.

Tantos golpes, vindos de todos os lados, levam-me a concluir que esta animosidade para com famílias numerosas é o último preconceito aceitável na América.

Os pais de famílias numerosas sabem muito bem que estão nas margens de uma sociedade que transformou as crianças em comodidades, em vez de as colocar no centro, enquanto objetivo, da vida de casal. Na Cultura da Morte as famílias pequenas são a norma esperada. Afinal de contas, quantas pessoas são encorajadas agora a pensar na maçada que é criar crianças durante anos a fio, prejudicando assim o tempo de lazer do pai e da mãe.

A família d'Avillez saúda a Cultura da Morte

E agora, com a ideologia do clima no pico da moda, devemos esperar que as famílias pequenas se tornem não apenas a norma, mas mesmo um requisito? Os especialistas em alterações climáticas dizem-nos que a melhor forma de cortar com as emissões de carbono é reduzir o número de filhos. Da ridicularização dos pais que têm muitos filhos até à pressão para que não os tenham, é um curto passo.


A Cultura da Morte e a ideologia do clima têm sido perigosamente bem-sucedidas na sua missão: em vários países do mundo há uma queda populacional, com governos na Europa e na Ásia a pagar às famílias para terem mais filhos. E por “mais” querem dizer um, dois ou pelo menos três, por oposição a nenhum. Estes esforços não acontecem para afirmar o bem que são as crianças, porém, mas para limitar as consequências de um inverno demográfico. Já não há nação sobre a terra que cultive aquilo que em tempos era compreendido pelo termo “típica família católica irlandesa”.

Num mundo assim as famílias numerosas continuarão a ser um alvo a abater. São sinais de contradição: testemunhos de vida, amor e sacrifício numa cultura que optou pela morte, apatia e egoísmo. As reações automáticas quando se vêem muitos filhos revelam claramente uma consciência pesada.

Uma vez que a principal razão pela qual pais católicos optam por ter muitos filhos, nos dias de hoje, é o amor a Deus, encontramo-nos novamente, nesta nossa era descristianizada e secular, na posição do Povo de Israel, diante da escolha apresentada por Deus.

Ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida. (Deut. 30, 19-20)

Talvez nunca tenhamos o equivalente a uma Liga Católica dos Direitos Civis e Religiosos para defender as famílias numerosas da discriminação. Não faz mal, não procuramos defensores neste mundo. Que as famílias numerosas sejam o último preconceito socialmente aceite diz mais sobre os perseguidores do que os perseguidos, que sabiam bem no que se estavam a meter, “porque acreditou em mim, hei de salvá-lo, hei de defendê-lo, porque conheceu o meu nome.” (Salmos, 91,14).

Os pais de famílias numerosas até se podem cansar das bocas e piadas, mas aturá-las-ão com paciência, porque procuram a aprovação de Deus, e não a da sociedade. Temos do Senhor a promessa de que a exclusão social traz a inclusão celestial. Ironicamente, sendo a inclusão o último grito da moda nos círculos iluminados, as famílias numerosas estão a percorrer o caminho mais duro: “Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu”. (Mt. 5, 11-12)


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 22 de Novembro de 2021 no The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 8 July 2020

Máscaras e a Sagrada Face

David G. Bonagura
A notícia atingiu-me como um choque eléctrico vindo do computador. No meio do confinamento, durante a missa diária da minha paróquia, a que assisti pelo YouTube, foi anunciado que o pai de um antigo aluno meu estava entre os infectados e a precisar de orações. Poucos dias mais tarde soube, da mesma forma, que o Joe Senior tinha morrido. Em vão procurei notícias. Não houve velório, funeral ou obituário público e os meus pedidos à paróquia não obtiveram resposta. Conhecia o Joe Senior dos quatro anos em que dei aulas ao seu filho; eles os dois tinham partilhado connosco os despojos de uma caçada há vários anos. O meu coração pesava por eles e pela sua mulher, que também tinha conhecido.

Algumas semanas mais tarde estava a ajudar a orientar as pessoas na missa de Domingo (com a Igreja a 25% de capacidade) quando entraram o Joe Junior e a sua mãe. Fixei os meus olhos nos dela e senti a minha face a manifestar simpatia. Mas a minha expressão não obteve resposta, ou pelo menos assim pareceu. As nossas caras estavam escondidas atrás de máscaras. Não nos podíamos abraçar. Tentei expressar o meu pesar e saber o que tinha acontecido, mas não foi possível com as nossas vozes abafadas atrás da máscara. O pedaço de tecido que estava a proteger a nossa saúde estava, ao mesmo tempo, a afligir as nossas almas. As máscaras criaram um momento doloroso e desconfortável.

Não estou a argumentar contra o uso de máscaras para evitar a propagação do vírus. Temos de fazer o que temos de fazer. É, antes, uma recordação (e temos tido tantas nesta pandemia) de algo preciso e que damos por adquirido: expressões faciais, que são o mais genuíno dos gestos humanos. Como os sacramentos, tornam visíveis os anseios invisíveis do coração, muitas vezes antes sequer de as palavras terem chegado às nossas bocas. Seja em momentos de dor, triunfo ou alegria, a face abre uma janela para a alma.

Esperamos que as máscaras se venham a tornar relíquias de um ano inesquecível quando finalmente vencermos a Covid-19. Por enquanto, porém, elas provocam alienação entre nós, no sentido mais verdadeiro da palavra: tornam-nos estranhos, estrangeiros, até dos nossos amigos próximos. As máscaras até já transformam o sorriso casual a um desconhecido, esse gesto tão simples, benévolo e quase automático, num olhar estranho. As caras tapadas escondem os nossos verdadeiros seres e formam uma barreira ao cumprimento da nossa vocação enquanto homens e mulheres chamados à comunhão uns com os outros e com Jesus Cristo.

Mas este meu encontro também me levou a pensar noutra face que nunca se cobriu, apesar dos perigos e ameaças. A sagrada face de Nosso Senhor, desprotegida do cuspo e das chapadas dos seus captores. Existe uma devoção piedosa à sagrada face de Jesus, menos conhecida do que deveria ser e de que eu me tinha esquecido. Compreendi logo que a pandemia e a crise civilizacional actuais são o ambiente perfeito para a retomar.

Há uma imagem da sagrada face de Jesus preservada de forma miraculosa no Véu de Verónica, que agora está guardado na Basílica de São Pedro. Na década de 40 do Século XIX, quando as revoluções políticas varriam a Europa, Nosso Senhor revelou à Irmã Marie de Saint-Pierre, uma carmelita francesa, que a blasfémia e a profanação dos domingos feria a sua sagrada face como “flechas envenenadas”. A blasfémia, em particular, comparou a ser insultado na face.

Ele pediu que oferecêssemos a sua sagrada face em oração a Deus Pai, em reparação e pela conversão dos pecadores. Como antídoto, apresentou a oração da “Flecha de Ouro”, a recitar diariamente e, juntamente com ela, esta oração simples: “Pai Eterno, eu Vos ofereço a adorável Face do Vosso Filho muito amado pela honra e glória do Vosso Nome, pela conversão dos pecadores e pela salvação dos moribundos”.

O venerável Leo Dupont, amigo da Irmã Marie, espalhou a devoção à sagrada face de Jesus em França, onde começaram a ocorrer curas milagrosas, atribuídas à sagrada face. O Papa Leão XIII aprovou a devoção, estabelecendo a Arquiconfraria da Reparação à Sagrada Face de Jesus, para que católicos em todo o mundo pudessem participar. Entre os mais entusiastas em França encontrava-se a família Martin, cuja filha, quando entrou para o Carmelo, adotou o nome Thérèse do Menino Jesus e da Sagrada Face.

A jovem santa compôs a sua própria belíssima oração à sagrada face de Jesus, cujo início se aplica muito bem aos nossos tempos. “Ó Jesus … eu adoro a Vossa Divina Face sobre a qual resplandecem a beleza e ternura da Divindade e que agora se tornou para mim como a face de um ‘leproso’. Mas sob estes traços desfigurados reconheço o Vosso infinito amor.”

A sagrada face de Jesus é o ponto perfeito de meditação para uma nação cuja realidade sanitária e civil está numa encruzilhada. A nossa oração universal agora, contudo, vinda da profundeza da nossa alma, é simples: Livrai-nos do mal. O único que o pode fazer passa irreconhecível, mascarado pelos crescentes pecados de todo o género. Só se escutarmos o seu pedido de fazermos reparação pelos nossos pecados e pelos que o desonram é que Ele nos reparará. E só quando nós formos reparados é que a vida social e civil terá qualquer possibilidade de ser reparada.

A Verónica não tinha qualquer cargo ou poder. Mas o seu gesto de compaixão aparentemente ínfimo para com a sagrada face do Senhor continua a ter impacto nos nossos dias, ao contrário das decisões políticas do seu tempo. Enquanto contemplamos a sagrada face, recordemo-nos de que a única forma de ultrapassar a alienação actual é através de um maior amor a Deus.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de julho de 2020 no The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 May 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 17 October 2018

Sacramentos e Hipócritas

“E nós a confessar-nos a estes tipos.” Com esse o comentário, a minha falecida avó revelava um momento de severa lucidez no meio da sua demência, enquanto via uma reportagem sobre o primeiro escândalo de abusos sexuais por parte do clero, em 2002. A minha avó era uma católica nova-iorquina, de ascendência irlandesa, que em toda a sua vida não faltou à missa um único domingo. Em relação ao fragilizado e quase esquecido sacramento da confissão, aposto que não foi a única a pensar desta maneira.

Dezasseis anos mais tarde esta nova ronda de escândalos clericais e episcopais volta a infligir diversas feridas no coração: os danos irreparáveis às vítimas, a cumplicidade com o pecado, o cheiro nauseabundo do abuso de poder. Com cada facada no coração vem também um murro no estômago: aqueles que têm por função convidar-nos a viver uma vida moral – e chamar-nos à atenção se falharmos – têm estado a viver uma vida dupla.

Poucas coisas fazem os homens e as mulheres comuns perder a cabeça mais do que a hipocrisia, e os padres e bispos abusadores são, possivelmente, os piores dos piores hipócritas.

Então porque é que havemos de continuar a ir confessar-nos a um padre, quando é bem possível que ele tenha manchas ainda mais feias que as nossas na sua alma? Quem é ele para me ensinar a viver?

A resposta: Ele não é ninguém. E é precisamente por isso que podemos, e devemos, continuar a confessar os nossos pecados a padres, semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Quando Cristo edificou a sua Igreja sobre os apóstolos, não foram as suas capacidades humanas que a fizeram funcionar e crescer. Daquilo que a Sagrada Escritura nos diz sobre os apóstolos, a Igreja não teria sobrevivido um único dia se fosse esse o caso. Pelo contrário, Cristo concedeu a estes homens os seus poderes divinos para usarem: “Soprou sobre eles e disse-lhes, ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos’” (João 20, 22-23).

O poder infalível que Deus confiou à Igreja através de Cristo transcende os limites das mãos falíveis a quem é confiado através do sacramento da ordem. No confessionário o padre não age pela sua autoridade, mas pela da Igreja, para cujo serviço foi consagrado. Quando confessamos os nossos pecados, não é o padre quem nos perdoa, mas Cristo que age através dele. A identidade ou os actos do padre não inibem a graça que Deus nos quer dar através dos sete sacramentos que estabeleceu.

É essencial compreender que a Graça de Deus que os Sacramentos nos transmitem não depende do estatuto do transmissor, pois isso recorda-nos que a nossa Igreja é de Cristo, e não dos homens. Mas, ao mesmo tempo, continua a existir ao nível humano um sentimento de desilusão. Não queremos apenas saber que os nossos pecados foram perdoados, ou que recebemos a graça de Deus, embora isso nos deva bastar, queremos também sentir o amor de Deus.

Não há como negar que participar numa missa ou receber a absolvição de um padre santo e devoto é muito mais edificante, espiritualmente e pessoalmente, do que uma missa transformada num espetáculo de folclore, ou a confissão a um padre distraído ou mal-educado. Normalmente não podemos alcançar o divino sem o representante humano. O nosso desafio é não permitir que o humano nos desencaminhe do divino.

Jesus mostrou estar bem ciente desta dificuldade durante o seu ministério. Criticou ferozmente os fariseus da sua altura por causa da sua hipocrisia, chamando-os tolos cegos, serpentes, ninho de víboras e túmulos caiados. Mas por entre essas denúncias incríveis, Jesus chama-nos a obedecer. “Os escribas e os fariseus sentam-se no trono de Moisés, por isso façam e observem o que eles vos dizem” (Mat. 23, 2-3).

Obedecemos por causa do seu cargo, não por quem são como indivíduos nem pela forma como se comportam. Jesus é claro: Façam os queles dizem, não o que eles fazem.

Por isso devemos obedecer aos mandamentos morais e espirituais que Cristo deixou à sua Igreja, para passar às gerações seguintes. Devemos permanecer castos, confessar os nossos pecados a padres quando falhamos e receber o perdão de Deus através do sacramento da cura que o padre administra – independentemente de o padre no confessionário ser um santo ou um malandro, celibatário ou hipócrita.

E que fazer quando o elemento humano em nós tiver dificuldades em ultrapassar a hipocrisia, a banalidade ou a má educação que possamos encontrar? Como é que havemos de responder a estes fatores externos que dificultam o nosso caminho para o divino?

Talvez este seja o desafio de Deus para os leigos desta época: Ele está a purificar a nossa fé, mostrando-nos que a fé é mais do que apenas sentimentos, emoções e agradáveis interações humanas. A verdadeira fé consiste na confiança em Deus, assente na certeza de que Ele nos ama e quer dar-nos a sua graça. A verdadeira fé requer a nossa aceitação da Cruz e na Cruz não existe consolo humano, apenas a nossa fé de que Deus está connosco.  

E independentemente de como nos sentimos, sabemos que a nossa fé não é vã.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018 no The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 17 June 2015

Porque é que a Religião é Suspeita?

David G. Bonagura Jr.
Recentemente um comentador desportivo estava a tecer considerações sobre a razão pela qual um treinador e ex-estrela da NBA não tem conseguido arranjar trabalho naquele campeonato, sugerindo que talvez se deva ao facto de ser “muito religioso”. Não é que haja problema em ser religioso, acrescentou rapidamente, mas esse factor poderia tornar mais complicado lidar com ele.

Não acredito que o comentador tivesse más intenções, estava a falar de improviso e por isso não estava a exprimir uma opinião cuidadosamente pensada, mas sim um preconceito absorvido e não raciocinado. Mas isso faz com que o comentário seja ainda mais impressionante: De onde é que esta ideia surgiu? Porque é que se havia de associar o facto de uma pessoa ser religiosa com um carácter complicado, isto é, inflexível, teimoso, difícil ou antipático?

Num conflito cultural em que as percepções parecem contar mais que a realidade, os inimigos da religião conseguiram utilizar os media, a indústria do entretenimento, as escolas e as leis para criar esta associação que o comentador fez. “Extremismo religioso”, por exemplo, faz parte do léxico comum, mas o seu sentido deixou de se aplicar só a violência cometida sob a capa de crenças religiosas para abranger também as crenças que entram em conflito com os valores das elites seculares.

A indústria cinematográfica mostra regularmente as personagens cristãs como sendo tolos ou vilões. Na praça pública as afirmações baseadas na fé ou na Bíblia são frequentemente recebidas com cepticismo, hostilidade, ou simplesmente ridicularizadas. As conversas sobre os benefícios da fé são recebidas com a evocação das crusadas, a inquisição ou guerras religiosas.

Sejamos claros: O Cristianismo é a maior força para o bem que o mundo alguma vez viu. Ponto final. Não há nada que se aproxime sequer. As instituições caritativas, o cuidado pelos vulneráveis e marginalizados, arte, arquitectura, música e filosofia, tudo isto tem sido sustentado e avançado por cristãos que procuram a glória de Deus e o benefício da humanidade. Os valores e os ideais que são mais queridos pelo mundo hoje – liberdade, justiça e igualdade – derivam todos da reflexão filosófica e da prática cristã.

Então o que é que a religião tem – sobretudo o Cristianismo, contra qual tanta revolta se tem feito sentir nas últimas décadas – que faz com que possa ser retratada de forma tão negativa? Juntamente com o mandamento da caridade, o Cristianismo inclui um estrito código de proibições morais que contrariam a ética secular de autonomia radical individual – o alegado “direito a definir o nosso próprio conceito de existência, o significado, o universo e o mistério da vida humana” ao ponto de poder fazer o que nos apetecer em privado e definir o nosso próprio género ou raça.

À medida que a opinião popular parece deslocar-se mais em direcção ao libertinismo, não é segredo nenhum que um Cristianismo fervoroso permanece como último obstáculo a um colapso moral completo. E aqueles que desejam acelerar esse colapso estão a fazer os possíveis para difamar o Cristianismo sempre que podem.

Propaganda pró casamento gay
Quem é contra é primitivo...
Nos últimos anos, enquanto o enfoque das questões fracturantes passou do aborto para o casamento, a retórica passou a descrever os cristãos como “intolerantes” – somos portadores de “ódio” e “fobias” – por não cederem às exigencias da libertinagem cultural. A convicção moral tem sido descrita intencionalmente como sendo ódio por indivíduos. O juízo de actos confunde-se intencionalmente com o juízo de pessoas. Os cristãos que se atrevem a defender a moral tradicional foram obrigados a recuar até uma posição em que dificilmente conseguem ganhar terreno numa cultura que vive de sound-bites.

E é assim que nos vemos perante a afirmação do nosso comentador desportivo. Esta sua ideia tornou-se parte da narrativa dos media generalistas que são a linha da frente da ofensiva desta guerra cultural. Numerosos filmes, programas de televisão, protestos, livros e videoclips, vistos por mais de 100 milhões de pessoas, têm contribuído, aos poucos e de formas diferentes, para retratar a religião, e o Cristianismo em particular – uma religião baseada no amor por Deus e pelo próximo – como um obstáculo anacrónico e opressor à satisfação pessoal.

Sobretudo entre jovens este preconceito tornou-se prevalecente. Não admira, por isso, que uma pessoa religiosa seja descrita como “de trato difícil” – porque quando uma pessoa abraça uma crença parte-se do princípio que ela seja um obstáculo aos desejos de outra, seja em actos privados, seja num jogo de basquete.

Tendo em conta esta situação, como é que os cristãos podem contrariar este preconceito que se formou contra eles? Se a percepção supera a realidade, então aquela velha exortação de que “saberão que somos cristãos por causa do nosso amor” deixa de ter o mesmo encanto, uma vez que para os inimigos da religião o amor define-se como deixando as pessoas fazer o que lhes apetece. Mas o abandono da moral cristã tradicional não é solução – o protestantismo “mainstream” já mostrou que não se pode separar Cristo da moralidade.

Ao longo de dois milénios os cristãos têm conseguido converter pessoas que acreditam em toda a espécie de diferentes deuses. Mas converter aqueles que apenas acreditam em si mesmos parece um desafio ainda mais difícil. No tribunal da opinião pública os sentimentos e as emoções superam a fé e a moral.

Existe, contudo, um precedente historic, embora não seja um paralelo perfeito, que nos dá esperança. Os jacobinos radicais da Revolução Francesa, na sua tentativa de purgar tudo o que era bom, acabaram por ser destituídos por aqueles que não estavam dispostos a render-se ao caos total. Aos cristãos resta rezar para que aqueles que foram levados a desconfiar da religião compreendam que os verdadeiros suspeitos são os que a no banco dos réus.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Junho de 2015 no The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 25 March 2015

Pizza para o Papa e Padre Condenado

Papa recebe Pizza em andamento
O ex-pároco da Golegã foi condenado hoje de dois crimes de abuso de menores. Apanhou 14 meses, mas de pena suspensa. É o mais recente caso envolvendo abusos na Igreja Portuguesa, recordo aos interessados que vou mantendo uma cronologia destes casos no blogue.

Por falar em casos de abusos, o Papa aceitou a renúncia do antigo Arcebispo de Edimburgo a todas as honras e privilégios do cargo de cardeal. Não é a primeira vez que um cardeal deixa de o ser, mas ainda assim é uma coisa muito rara.

Hoje o Papa Francisco voltou a criticar o desemprego, mas também recordou a publicação do Evangelium Vitae, por parte de João Paulo II, neste que é o dia Internacional do Nascituro.

Recentemente o Papa disse que às vezes só lhe apetecia ir comer uma pizza. Não é fácil, mas na sua visita a Nápoles um cozinheiro decidiu levar a pizza até ele.

O Boko Haram é suspeito de ter raptado mais meio milhar de pessoas na Nigéria, enquanto a Turquia afirma que já impediu 2,550 de se juntar ao Estado Islâmico.

Será que a fé é incompatível com o bem-estar material? Essa é a questão a que responde David G. Bonagura no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A Fé pode sobreviver no “Primeiro Mundo”?

David G. Bonagura Jr.
“Com a subida dos rendimentos, descem os campanários… A felicidade chega e Deus põe-se a andar”.

Olhando para o chamado “primeiro mundo”, esta afirmação, no geral, parece ter algum mérito. Ao longo dos últimos séculos, à medida que os nossos confortos materiais se multiplicaram lentamente, o fervor religioso tendeu a diminuir. Mas este declínio não aconteceu da mesma forma nas partes menos abastadas do mundo. Uma vez que esta vaga de secularismo no mundo desenvolvido parece ter coincidido com uma era de avanço tecnológico e material, parece adequado perguntar se a fé religiosa pode sequer sobreviver neste clima.

A aparente incompatibilidade entre a fé e o conforto humano não é nova. O próprio Senhor anteviu esta tensão fazendo o aviso: “É mais fácil a um camelo passar no buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, (Mt. 19,24). Esta admoestação seguiu-se à conversa entre Jesus e o jovem rico, que preferiu regressar triste para os seus muitos bens do que seguir Jesus.

Por outro lado, a fé parece ser mais firme quando as pessoas estão necessitadas. No seu desespero, dez leprosos procuraram Jesus. Satisfeitos os seus pedidos, apenas um se lembrou de prestar homenagem ao seu Salvador. A inspiração heróica dos mártires incentivou a fé de muitos crentes durante os tempos de opressão. Nos nossos dias, as Igrejas Católicas estavam significativamente mais cheias ao meio-dia de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, do que na mesma hora uma semana antes ou nas terças-feiras seguintes.

Mesmo a nossa prática quaresmal parece apontar nesta direcção. Com o jejum privamo-nos deliberadamente de comida e outros confortos físicos para incentivar o crescimento espiritual. Na primeira semana da Quaresma pedimos a Deus: “Fazei que a nossa alma, purificada pela penitência corporal, resplandeça cada vez mais com a luz da vossa presença”.

Teria Marx razão? Será que a religião é o ópio do povo, destinado a ser erradicado mal se obtenha a quantidade certa de riqueza e bem-estar material? A fé no mundo desenvolvido e cada vez mais abastado está destinada a ser eliminada?

Em primeiro lugar, não há nada de errado com os bens materiais ou confortos físicos, em si. Depois, até ver, a fé tem claramente sobrevivido à disseminação de bens de luxo e à secularização. Muitos continuam a crer, mesmo de forma fervorosa, incluindo algumas das pessoas mais ricas e confortáveis de entre nós. Há paróquias e regiões no mundo desenvolvido onde a prática religiosa é fervorosa e há ricos e pobres que continuam a responder ao chamamento das vocações religiosas. Por isso não parece ser o caso que a riqueza e o conforto sejam incompatíveis com a fé.

Mas parece justo concluir que o estilo de vida do mundo desenvolvido, como o conhecemos agora, tem o potencial para ser hostil à fé. Os nossos corações irrequietos e destinados a Deus, nas palavras de Santo Agostinho, podem facilmente ser distraídos (no sentido literal de “arrastados para longe”) pela disponibilidade geral de confortos, conveniências e remédios que prometem a felicidade. Por entre o ritmo de vida incansável e o barulho de fundo constante do nosso mundo, a voz de Deus, que prefere o silêncio e a quietude, torna-se mais difícil de ouvir.

Generation Smartphone - No need for God?
Mas o primeiro mundo é bem mais do que um aglomerado de coisas, barulhos e actividades. O poder da tecnologia e dos bens materiais deu lugar a um espírito único, uma característica da era moderna que desembocou no mundo moderno: O serviço e a adoração de nós próprios como fim último para o qual estes bens existem. Em vez de encarar o nosso progresso como forma de construir o Reino de Deus, o mundo desenvolvido preferiu usar a tecnologia para banir Deus, numa tentativa de nos tornarmos soberanos auto-suficientes do Universo. Enquanto sociedade, permitimos que os materiais nos conduzissem ao materialismo – a crença de que apenas aquilo que é físico e tangível tem verdadeiro significado.

Neste ambiente, é difícil para uma fé num Deus invisível e imaterial, que não promete a eliminação dos nossos sofrimentos, mas a dádiva de um tipo de união com ele actualmente incompreensível, ganhar raízes em mentes já por si cativadas por bens materiais e as suas promessas. Imaginem a reacção de um adolescente típico à descrição das visões beatíficas enquanto o seu smartphone brilha com todo o tipo de imagens e mensagens. Claro que há adolescentes que perceberam o vazio do materialismo actual e abraçaram a fé, mas são relativamente poucos.

Hoje os inimigos da fé do mundo desenvolvido são tão formidáveis como em qualquer altura da história da salvação. E esta história demonstra que os católicos têm obtido os seus maiores sucessos na evangelização de povos inteiros quando motivados por duas crenças profundas: Um grande amor por Cristo, ao ponto de martírio, e o entendimento de que aqueles que encontram não podem ser salvos se não aceitarem o Evangelho.

Nosso Senhor prometeu que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas isso não garante que as almas permaneçam dentro dela. Um número preocupante de concidadãos no mundo desenvolvido ouviram o Evangelho mas não escutaram. Se os nossos esforços de evangelização não forem tão zelosos como os dos missionários do passado, o mundo desenvolvido poderá tornar-se a razão da pergunta preocupante de Jesus: “Quando filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?” (Lc. 18,8).


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 22 de Março de 2015 no The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 29 October 2014

A Evolução e a Fé são Irreconciliáveis?

Por David G. Bonagura Jr.
“A verdade não pode contradizer a verdade”. Assim ensinou o Papa Leão XIII e é por essa perspectiva que a Igreja Católica aborda a ciência e a revelação de Deus. Não existe uma única verdade científica que contradiga a palavra de Deus. Se as coisas do mundo natural foram criadas por um Deus omnipotente e reflectem a sua presença, então devem estar de acordo com aquilo que Deus revelou de si mesmo e do Universo, através da sagrada tradição e das sagradas Escrituras.

Às vezes as novas descobertas científicas parecem desafiar a nossa compreensão religiosa do mundo, como quando aprendemos que é o Sol e não a Terra que se encontra no centro do sistema solar. Mas este facto não só não afecta a centralidade do ser humano na criação de Deus (o dogma que supostamente era posto em causa na altura), como acrescenta uma nova perspectiva sobre outra verdade da revelação: que Cristo, representado na iconografia primitiva como o sol, é o verdadeiro centro e fonte de vida da criação e das nossas vidas.

Não há, por isso, qualquer razão para afirmar – como fez um biólogo recentemente no New York Times – que a ciência e a religião são irreconciliáveis. Nem nos devemos contentar em dizer que a ciência e a religião se resumem a “magistérios não coincidentes” que dizem respeito, respectivamente, a factos e a valores. Pelo contrário, os “factos” da ciência são a fundação racional sobre a qual assentam a revelação sobrenatural e os seus “valores”. Claro que a ciência e a fé têm objectos diferentes, que têm em consideração as suas diferenças inerentes mas, com o São João Paulo II, sabemos que não existe “razão para qualquer concorrência entre razão e fé: cada um contém o outro e cada um tem o seu campo de acção”.

Mais do que qualquer outra teoria científica contemporânea, a evolução constitui um feroz ataque à compreensão judaico-cristã da origem da humanidade. Desde os autocolantes nos carros que mostram um peixe, símbolo do Cristianismo, com pernas (às vezes com a legenda “Darwin”) ao recente artigo no Times que tenta explicar porque é que a fé e a teoria da evolução são incompatíveis, certo defensores da evolução têm afirmado publicamente que a sua versão da génese da humanidade é correcta e que o Genesis não passa de uma história parva.  

É fundamental para a Igreja enfrentar os desafios da teoria da evolução e das origens da humanidade, uma vez que ela ensina de forma infalível que os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, que dotou cada um de uma alma imortal. (A Igreja nunca ensinou como é que isto se passou, uma vez que isso nunca nos foi revelado). Algumas teorias da evolução (existem muitas variações) contradizem esta verdade, afirmando que a existência da humanidade é um acidente material resultante de mutações genéticas e não de intervenção divina. Tais teorias devem ser consideradas incompletas, uma vez que excluem Deus do processo de criação.

Num famoso discurso, São João Paulo descreveu a teoria da evolução como “mais do que uma hipótese”, embora tenha usado o mesmo discurso para apontar os problemas com certas abordagens filosóficas da teoria. Mas deixemos de lado os méritos da teoria da evolução em si. O biólogo do Times dá aos seus leitores três razões pelas quais a teoria da evolução exige que se abandone a fé judaico-cristã na criação. Estas razões, que dizem mais respeito a conclusões humanas do que à ciência, podem ser desmontadas dentro do âmbito científico.

Pe. George Lemaitre, autor da
teoria do Big Bang
Em primeiro lugar, o autor argumenta que “um processo inteiramente natural e espontâneo, nomeadamente a variação aleatória e a selecção natural” explica a complexidade de organismos que aparentemente requerem um autor inteligente e sobrenatural. Mesmo que tomemos como boa essa afirmação, este “fenómeno inteiramente mecânico e estatisticamente poderoso”, apenas exclui a criação Deus ex machina defendida por certas leituras fundamentalistas e equivocadas da Bíblia. Este método não exclui a criação física por Deus através da causalidade secundária, o modus operandi normal de Deus no mundo. Quanto à suposta aleatoriedade, São João Paulo ensina-nos que aos olhos de Deus não há coincidências.

Em segundo lugar, o autor aponta para as ligações filogenéticas entre diferentes espécies. Mas este facto também não faz nada para excluir Deus do processo da criação. Na melhor das hipóteses a diferença extraordinária que existe entre os seres humanos e outros primatas com uma estrutura de ADN semelhante (alguma vez se viu um chimpanzé a debater as suas origens?) aponta para a existência de uma alma humana infundida nos humanos por Deus. Esta é a grande diferença entre homens e bestas. O autor tem razão num ponto, porém: “Nenhum traço literalmente sobrenatural foi alguma vez encontrado no Homo sapiens”. A biologia evolutiva, por si, não é capaz de medir a alma imaterial, que é produto de Deus e não da criação material.

Por fim, o problema do mal é colocado de uma perspectiva evolutiva: a predação, a doença e a morte mostram que os humanos “são produzidos por um processo natural e totalmente amoral, sem qualquer indicação da existência de um criador controlador e benevolente”. Mas o esforço levado a cabo pelos homens – em todos os tempos e em todas as culturas e religiões – para encontrar sentido no sofrimento e atribuir códigos morais à procriação, mostram que há muito a dizer sobre estes animais racionais do que meramente a sua natureza animal. Os biólogos têm tentado encontrar um “gene moral”, mas o sentido e a moralidade transcendem os limites daquilo que qualquer outro animal pode fazer. É estranho que uma espécie supostamente gerada pelo acaso, sem qualquer sentido, tenha esta vontade inata tão intensa de encontrar sentido em todas as coisas.

Pedimos desculpa ao nosso professor de biologia, mas os seus alunos e leitores não precisam de abandonar a sua fé judaico-cristã à luz da teoria da evolução. Pelo menos em termos das três críticas que ele propõe, não há nada na dimensão científica da evolução que exclua o papel de Deus na criação dos humanos e na infusão das suas almas. Pelo contrário, talvez o professor é que precisa de reavaliar a sua fé na evolução, interpretada a uma luz intencionalmente ateia. 


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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