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Wednesday, 24 January 2024

Eucaristia e Transubstanciação

Em 2019 uma sondagem preocupante da Pew Research Centre, revelou que apenas um em cada três católicos acredita que a Eucaristia é verdadeiramente o Corpo e Sangue de Cristo.

Claro que o resultado destas sondagens depende em larga medida de que perguntas são feitas, e a quem. Assim, por exemplo, se a pergunta era sobre a crença na transubstanciação, alguns podem ter tido a mesma reacção que eu tive quando me perguntaram recentemente se acredito na “impanação”.

Mas que raio é a impanação? Fui investigar. Ao que parece, “impanação” é a crença de que Cristo está presente no pão e no vinho, mas estes não deixam de ser pão e vinho. Por isso, não, não acredito na “impanação”. Até poderia ser uma coisa inocente, mas não é, e eu não estava disposto a concordar sem compreender.

Houve quem pensasse que eu tinha professado essa crença porque tinha escrito que Cristo está “verdadeiramente presente no pão e no vinho”. O que eu estava a realçar era o “verdadeiramente presente”. Mas em bom rigor, já não se trata de pão e vinho, mas sim do Corpo e Sangue de Cristo. Claro que não faria sentido eu dizer que o Corpo e o Sangue de Cristo estão “verdadeiramente presentes” no Corpo e no Sangue de Cristo. Por isso, para simplificar, dizemos que Cristo está presente no pão e no vinho.

Certa vez uma jovem rapariga disse-me que nunca poderia ser católica, porque não conseguia aceitar a doutrina da transubstanciação. “Espera”, respondi, “vamos dar um passo atrás”. A doutrina da transubstanciação é uma tentativa de descrever a “Presença Real” de Cristo na Eucaristia, usando categorias da física medieval. A substância é agora o Corpo e Sangue de Cristo, mas os acidentes de pão e vinho mantêm-se.

Mas o objectivo da doutrina era de exprimir o que significa dizer que Cristo está verdadeiramente presente no pão e no vinho – ou no que era pão e vinho e ainda parece pão e vinho mas que é, em substância, o Corpo e o Sangue de Cristo. O termo “transubstanciação” pode parecer estranho, mas de facto faz bastante sentido.

A minha amiga deu a resposta habitual. “Bom, eu acredito que Ele está espiritualmente presente”. Respondi: “Calma aí. Isso não é estar realmente presente. Na Igreja antiga afirmavam claramente a crença de que Cristo está realmente presente na Eucaristia, tão presente como esteve em vida, e tão presente como estava quando ressuscitou dos mortos”.

Não foi uma coisa fácil de aceitar nessa altura, nem é fácil de aceitar agora. Foi por isso que tantos abandonaram Cristo quando Ele insistiu que deveriam comer o seu corpo e beber o seu sangue. Esse abandono em massa não faz qualquer sentido se pensarmos que ele estava a usar uma linguagem simbólica. Poderia facilmente ter dito: “Espera, não estou a falar do meu corpo e sangue verdadeiros, isso seria nojento. Não, estou a falar simbolicamente, metaforicamente”. O problema ficaria resolvido num instante. Mas não foi isso que aconteceu.

“Vamos, então, começar do fim e andar para trás”, disse eu. “Acreditas que Cristo viveu, que verdadeiramente conquistou a morte e ressuscitou de entre os mortos?” Ou achas que Ele só está simbolicamente vivo, tipo, ‘vivo nos nossos corações’?”. Respondeu-me de forma clara. “Acredito que Cristo ressuscitou e ascendeu à direita do Pai. Digo-o todos os domingos quando vou à Igreja.”

“Ok, então acreditas que Cristo ressuscitou corporalmente dos mortos, de forma que o apóstolo Tomé poderia ter tocado nos buracos deixados pelos pregos nas suas mãos, e na ferida da lança no seu lado? Ou será que Cristo estava ‘presente’ na sala apenas metaforicamente, porque eles o recordavam em amor, ou algo desse género?” Também não aceitou esta ideia de que Cristo estava apenas presente de forma simbólica ou metafórica entre os apóstolos.

“Então, se acreditas que Deus encarnou verdadeiramente, e se acreditas que Jesus Cristo era Deus encarnado, o Verbo feito carne; e se acreditas que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, não apenas de forma ‘espiritual’ ou ‘metafórica’, mas verdadeiramente, enquanto unidade de corpo e de alma, e se sabes que esta era a fé dos Apóstolos e da Igreja antiga; e se reconheces que a doutrina da ‘transubstanciação’ era uma tentativa honesta de descrever a crença da Igreja de que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia, mas que quando a consumimos não estamos a mastigar os seus ossos, porque embora seja agora o Corpo e o Sangue de Cristo, ainda mantém as propriedades, os ‘acidentes’ de pão e vinho; isso tudo ajuda a contextualizar o estranho termo ‘transubstanciação’?”

Mas a questão mais de fundo, existencial, é a seguinte: Jesus era Deus encarnado? E será que acreditamos que Deus ama a humanidade pecadora de tal forma que verdadeiramente se “esvaziaria da sua divindade” e tomaria para si a nossa humanidade, sacrificando-se depois por nós na Cruz?

Porque (a) é isso que significa consumir a Eucaristia; é a nossa participação encarnada, sacramental, no sacrifício de Cristo, e (b) se consegues acreditar em tudo aquilo sobre Deus e o amor de Deus ser tão grande que Ele se tornou homem, viveu entre nós e morreu pelo perdão dos nossos pecados, e a restauração da nossa comunhão com Deus, então parece estranho insistir que Deus não pode estar presente na Eucaristia.

Deus criou cada átomo do universo, fez coisas incríveis, mas não consegue, ou não quer, tornar-se presente de forma contínua, de forma encarnada, na Eucaristia?

Sejamos honestos, então. O problema é mesmo a “transubstanciação”? Ou a crença num Deus Criador que nos ama de tal forma que se fez homem e morreu na Cruz? É um conceito compreensivelmente difícil de aceitar, mas, só para ficar muito claro, a Boa Nova é isso mesmo.

Ah, e caso estejam preocupados, essa minha amiga tornou-se católica há anos, e assim continua. Parece que afinal a doutrina da transubstanciação não era um problema tão grande como pensava.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 23 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Wednesday, 16 August 2023

Como despertar um reavivamento

Stephen P. White
Há algum tempo que estão a ser feitas preparações para o Congresso Eucarístico Nacional que terá lugar no próximo verão em Indianapolis. O Congresso Eucarístico será o culminar de três anos de reavivamento eucarístico nos EUA, levado a cabo para despertar uma relação mais profunda com Nosso Senhor na Santa Eucaristia.

Para os fiéis, a razão da esperança num reavivar da devoção àquilo que é a fonte e o ápice da vida cristã, deve ser clara. Sondagens recentes indicam que a crença na Verdadeira Presença é preocupantemente baixa entre católicos (mesmo um em cada três dos praticantes acreditam que a Eucaristia não é mais do que um símbolo). Há muito tempo que a prática dominical está em baixo, e a tendência acelerou com as políticas de controlo da pandemia.

Se a devoção à fonte da fé católica está a enfraquecer, não surpreende que o resto da vida sacramental siga pelo mesmo caminho. Os índices de casamento pela Igreja estão em queda e, previsivelmente, os nascimentos e baptismos também. As primeiras comunhões e crismas estão a decrescer e as ordenações também desceram, embora não tão dramaticamente.

Os números, puros e duros, não são a única ou até a melhor forma de julgar a saúde da Igreja, mas a estes números desencorajadores podemos também acrescentar as profundas divisões políticas, culturais e sociais entre católicos americanos; os efeitos da crise dos abusos; profundo desacordo sobre questões de fé (incluindo, como já foi referido, sobre a liturgia e a natureza da própria Eucaristia). No meio de tudo isto a vontade urgente de se fazer algo – algo em grande, e rapidamente – torna-se fácil de compreender.

Mas se uma renovação da fé é desejável, vale a pena perguntar se um Reavivamento Eucarístico (e a Peregrinação Eucarística e o Congresso Eucarístico do ano que vem) são o género de coisa que pode despertar uma renovação genuína.

Simplesmente chamar à iniciativa um “Reavivamento Eucarístico” não faz com que o seja, tal como a “nova evangelização” e a “sinodalidade” também não o são só porque os termos são repetidos constantemente.

Poderá o Reavivamento Eucarístico ser um grande exercício de fogo de vista? Um grande espetáculo pensado para dar a ideia de que se está a “fazer alguma coisa” sem abordar os problemas de fundo que afectam a Igreja nos Estados Unidos?

Há críticos desta iniciativa que parecem convencidos de que será isso mesmo: uma distracção cara e vistosa do verdadeiro trabalho e missão da Igreja. Claro que se pode colocar a mesma questão (como se tem feito, há décadas) sobre as Jornadas Mundiais da Juventude.

Para serem bem-sucedidos, os grandes eventos como o Congresso Eucarístico ou a Jornada Mundial da Juventude, não podem ser autocentradas. Na melhor das hipóteses, tais eventos fornecem a ocasião para os seus participantes saírem dos seus ritmos de vida diária, para tomarem parte num espetáculo edificante, e não uso o termo “espetáculo” de forma pejorativa.

Lembro-me bem de quão emocionante foi ajoelhar-me no campo quente e poeirento de Tor Vergata, com mais dois milhões de pessoas, e de rezar na vigília antes da missa com o Papa João Paulo II na Jornada Mundial da Juventude, em Roma. Esse foi um espetáculo no melhor sentido da palavra. Não foi o género de coisa que se vê todos os dias, ou sequer mais do que uma vez.

Para mim, como para tantos outros, foi um momento edificante e de graça. Via-se o mesmo nas faces dos jovens nas fotografias da Jornada Mundial da Juventude em Portugal, a semana passada. Esses momentos têm efeitos profundos e duradouros. Há todo um lote de iniciativas e de ministérios, ainda pujantes, que remontam directa ou indirectamente à Jornada Mundial da Juventude de 1993, em Denver.

O grande desafio, claro está, é o que vem depois.

A medida segundo a qual os grandes eventos eclesiais como o Congresso Eucarístico ou a Jornada Mundial da Juventude devem ser julgadas é complicada de discernir. Nem tudo é quantificável, sobretudo em matéria de fé, como se fosse possível medir a eficiência da Providência. Ele conduz todos os corações de acordo com os seus próprios desígnios e a seu tempo. Se o nosso trabalho, por mais bem-intencionado que seja, não for o Seu, nenhum dos nossos esforços vingarão. Se escutarmos o Seu chamamento, e perseverarmos, nem a nossa fraqueza, nem o nosso pecado o deterão.

Um reavivamento duradouro e transformador raramente começa com um grande plano, pelo menos não com um plano nosso. E quase nunca acontece de cima para baixo (o que não significa que os líderes eclesiais não possam fazer muito para encorajar ou frustrar esse esforço). Em todas as eras da Igreja o reavivamento começa da mesma forma: homens e mulheres respondem ao chamamento de Deus de uma forma radical. Deus age, nós respondemos.

Se respondermos generosamente, podemos ter confiança de que o Senhor estará ao volante. Mas mesmo aí devemos esperar o reavivamento não de acordo com os nossos planos e ambições, mas de acordo com os estranhos caminhos da Providência. Aquilo que não podemos esperar é permanecermos iguais.

E, se vamos ser honestos, esse é o grande risco. Se forem como eu, a coisas mais assustadora que há é precisamente a ideia de estar constantemente em mudança. Mas esse é o risco inerente ao encontro com Cristo. Como Paulo encoraja os Efésios: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.” (Efésios 4, 22-24)

E é assim, afinal, que se desperta um reavivamento. Começa com a corajosa resposta de um coração aberto, transformado por um encontro com o Senhor.

O Congresso Eucarístico – o evento em si – não é o objectivo do Reavivamento Eucarístico. Antes, é a convocatória. Os nossos pastores convidam-nos a renovar e aprofundar a nossa devoção a Cristo na Eucaristia. Eles sabem que não será uma convenção, por mais meritória e espetacular que possa ser, a renovar a Igreja, mas uma Pessoa: Jesus Cristo. Ele chama-nos a cada um pelo nome. Vamos responder com corações generosos? Teremos a coragem de responder ao convocatória?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Agosto de 2023)

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Wednesday, 24 May 2023

Deus é Bom

Stephen P. White

A minha filha mais velha foi crismada esta Primavera e escolheu como padroeiro o Papa João Paulo II. Foi uma escolha dela, mas da qual eu não poderia aprovar mais. O bispo veio à nossa paróquia e selou-a com o Espírito Santo. A sua cabeça ficou com a fragrância do Crisma, tal como no dia do seu baptismo. Cresceu tanto, como as crianças tendem a fazer, para a eterna alegria (mas também tristeza) dos seus pais.

Agora entrámos na época das Primeiras Comunhões. Na nossa paróquia, tal como noutras paróquias por todo o país, meninos e meninas estão a receber Nosso Senhor na Eucaristia pela primeira vez. O meu filho fez a sua Primeira Comunhão no passado fim-de-semana, juntamente com muitos dos seus amigos e colegas. Foi um momento de grande alegria, com pais e avós cheios de orgulho, a babarem-se com a inocência dos pequenos.

Chegámos meia hora antes da missa começar. O meu filho voltou-se para mim e perguntou: “Pai, quando chegar a hora da Comunhão, já terá passado uma hora desde o pequeno-almoço?” Disse-lhe que seriam quase três horas, não tinha de se preocupar com isso hoje. Sorrimos os dois, mas por razões diferentes: ele, porque tinha cumprido o jejum eucarístico, eu por causa da sua inocência.

Disse-lhe que quando ele recebesse a Eucaristia estaria a receber o próprio Deus – o Deus que criou o universo, que fez tudo o que é bom, que nos criou a nós. Disse-lhe que estaria a receber o mesmo Deus que libertou o seu povo da escravatura no Egipto e que cuidou dele mesmo quando os israelitas pecaram. Disse-lhe que estaria a receber o mesmo Jesus que nasceu a Maria, em Belém, que trabalhou lado-a-lado com José, que curou os doentes e deu vida aos mortos – que sofreu, morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado.

E disse-lhe que quando recebemos o corpo e sangue de Jesus, quando estamos unidos tão intimamente a Ele, estamos também unidos a todos os que estão unidos a Ele – aos grandes santos, aos nossos antepassados no céu, à nossa família e amigos, de longe e de perto. Disse-lhe que penso muitas vezes no meu pai, que morreu quando o meu filho era ainda muito pequeno, e como posso sempre encontrar-me com ele no Senhor, na missa. Disse-lhe que por causa disso nunca me sinto sozinho, e que ele, o meu filho, nunca estará sozinho.

E penso para comigo: Ele sabe tudo isto, mas compreende? Compreende verdadeiramente tudo o que eu gostaria que ele percebesse? Sabe o que tudo isto significa? É tão novo. Mas depois lembro-me da expressão na sua cara quando voltou para o seu banco depois de comungar. Radiante. Até brilhava. E não posso se não pensar: Será que eu compreendo? Será que eu compreendo mesmo o que tudo isto significa? Ou tornei-me demasiado sofisticado para o meu próprio bem? “Em verdade vos digo, se não vos transformardes e tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus”. Graças a Deus pela inocência das crianças.

Estamos na época das ordenações. Na minha diocese o bispo ordenará nove novos padres este fim-de-semana. Conheço alguns destes homens. São bons tipos, serão excelentes padres. Somos abençoados.

Esses nove homens foram chamados pelo seu bispo para servir a Igreja com toda a sua vida. Ao responder a esse chamamento estão, sem dúvida, a sacrificar muito mais – e a ganhar muito mais – do que até eles podem verdadeiramente compreender. Serão mudados para sempre, conformados através do sacramento da Ordem ao sacerdócio do Sumo Sacerdote.

Alguém me disse em tempos que se um homem nunca sentiu alguma vontade de ser padre é porque simplesmente não compreende o que é um padre. Acredito que seja verdade. Que homem não compreende o desejo de ser posto de parte, para defender o seu rebanho, para guiar e pastorear as suas ovelhas, até dar a vida por elas?

Que homem não deseja aquela liberdade de compreender aquilo pelo qual está a dar a vida? Que homem não quer dar àqueles que lhe foram confiados um dom maior do que qualquer dom feito por mãos humanas? Que homem não se comove com as palavras do salmo: “um sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedeque”?

O matrimónio não é assim. O matrimónio termina na morte: “Na ressurreição eles nem casam nem são dados em casamento, mas são como os anjos do Céu”. Isto costumava entristecer-me. Não porque amo a minha mulher (e amo), nem porque imagino que o Céu será menor por não haver casamento. Sentia-me triste porque todos gostaríamos que as coisas boas perdurassem, até depois da morte. Ficava triste simplesmente porque um dom tão maravilhoso como é o casamento – um dom que nem se perdeu na queda, nem foi levado pelo dilúvio – não perdura na morte.

Mas para aqueles de nós que somos abençoados com filhos, pode-se dizer que perdura, sim. A aliança matrimonial poderá não perdurar para além da morte. O matrimónio poderá não afectar-nos de forma ontológica e indelével, como o baptismo e a ordem. Mas o meu filho será sempre meu filho e da minha mulher. As minhas filhas serão sempre filhas dos dois. A paternidade perdura. A maternidade perdura. Para além da morte.

O Pentecostes está a chegar. Este tempo pascal, tão cheio de graça para a nossa família, a nossa paróquia e nossa diocese terminará na grande solenidade do Espírito Santo. O nosso mundo está quebrado. A nossa Igreja também está ferida. Sobra pecado e sofrimento. Mas o “mundo real” de lá fora não é um mundo diferente daquele que está atravessado pelos ritmos da liturgia, dos sacramentos e da graça.

Não há dúvida de que o Espírito Santo se move pelo mundo. E no meio de todo este aparente caos Ele respira riqueza e a bondade e ordem: Ele renova todas as coisas. É uma maravilha de contemplar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Maio de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Thursday, 30 March 2023

Um milagre eucarístico nos EUA?

A arquidiocese de Hartford, nos EUA, está a investigar um possível milagre eucarístico que terá ocorrido na Igreja de St. Thomas, em Thomaston, no Connecticut.

Normalmente associamos milagres eucarísticos a hóstias que sangram, ou hóstias e vinho que se transformam materialmente em carne e sangue, e que ficam miracolosamente preservados, etc., e muitas vezes esses milagres ocorrem como resposta a uma profanação, mas este é de natureza diferente.

O padre Crowley estava a preparar a distribuição da Comunhão na missa das 10h. Ele não podia fazer a distribuição, pelo que percebi, porque tinha um dedo ligado, e por isso deu a uma ministra da comunhão um cibório com hóstias. Ela dirigiu-se a uma das zonas da igreja onde costuma haver mais gente para comungar e quando olhou para a quantidade de hóstias no cibório ficou preocupada porque pensou que não iriam chegar e que teria de ir pedir mais a outro ministro da comunhão. 

Contudo, quando olhou novamente para o cibório, já depois de ter distribuído muitas hóstias, apercebeu-se que ele estava aparentemente tão ou mais cheio do que inicialmente. À medida que continuava a distribuir, acontecia o mesmo. Quando terminou a distribuição, a bem mais de uma centena de pessoas, o cibório continha tantas ou mais hóstias do que no início. A questão não lhe passou despercebida e informou também o padre, que sabia mais ou menos quantas hóstias tinha o cibório e viu que em nenhuma altura ela foi pedir "reforços". O padre informou a congregação na missa e depois as autoridades diocesanas, que agora irão documentar e analisar o fenómeno. 

Aqui podem ouvir a homilia da semana seguinte, em que o Pe Crawley explica o que se passou.


Há uma série de pontos que me vêm logo à cabeça ao ouvir estas palavras. 

Em primeiro lugar, como não pensar imediatamente no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes? Mas não é só isso. Eu sei e acredito que essa passagem do Evangelho tem várias camadas de significados, que o número de cinco pães e dois peixes, que somados dá sete, não é um acaso e tem um simbolismo, e admito até que possa haver fundamento na teoria de que se tratou também de uma partilha geral de alimentos. Agora, sempre me irritou a insistência por parte de alguns de que a multiplicação foi apenas simbólica, e que o verdadeiro milagre foi a partilha por parte de todos. Não é que a partilha não seja uma coisa boa, mas isto é normalmente dito dando a entender que Jesus não poderia ter multiplicado os pães porque isso é fisicamente impossível. Pois bem, a confirmar-se o que se diz ter passado em Thomaston, não é. 

A segunda coisa que me ocorre é que a Igreja Católica nos Estados Unidos está em plena campanha de renovação eucarística. Os bispos consideraram isto necessário depois de algumas sondagens mostrarem que a esmagadora maioria dos católicos nos EUA acreditam que a Eucaristia é apenas um símbolo da Última Ceia, e não o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Que este milagre - repito, a confirmar-se - tenha ocorrido nesta altura é, claro, muitíssimo significativo, e é algo que devemos agradecer a Deus. 

Terceiro, tocou-me o facto de o Pe Crawley estar aberto à ideia de que isto se calhar até acontece com mais frequência do que nós pensamos, só que desta vez foi notório e os envolvidos não podiam deixar de reparar. Talvez seja mesmo assim. Talvez não. Seja como for, faz-me pensar que nós não sabemos a quantidade de vezes que Deus intervém nas nossas vidas, através de gestos aparentemente pequenos mas que até podem afectar-nos muito. Andamos tantas vezes a pedinchar milagres, quem sabe a quantidade de milagres que já nos aconteceram sem darmos por isso?

Por fim, e como o Pe Crawley sublinha, isto até pode ter sido um milagre e se o foi, como diz de forma muito americana: "cool". Mas não nos esqueçamos que o verdadeiro milagre é o facto de Deus se deixar transformar todos os dias em alimento espiritual e físico para bem dos nossos corpos e das nossas almas. O verdadeiro milagre acontece na consagração, quer dêmos por isso ou não, e quando estamos a uma semana de Nosso Senhor nos ser retirado, no único dia do ano em que não há missa e em que os sacrários se esvaziam, fazemos bem em meditar sobre isso e dar muitas graças a Deus por esse tremendo dom. E isto é verdade, seja o milagre de Thomaston real ou não. 

Wednesday, 8 March 2023

Ser Aquele Leproso que Voltou Atrás

Michael Pakaluk
Aconteceu mesmo, não foi uma parábola. Certa vez Jesus curou dez leprosos, mas só um voltou para agradecer. Aconteceu por desígnio de Deus, e Lucas teve o cuidado de o deixar escrito (17, 11-19), para que aprendêssemos algo com isso. Mas o quê?

Talvez que Nosso Senhor prefere fazer as coisas sem alarido: não fez um grande espetáculo da cura, mas disse-lhes simplesmente para irem mostrar-se ao sacerdote. Talvez que damos as graças obtidas por adquiridas – o único a regressar foi o samaritano. E certamente, também, que é provável sermos menos agradecidos por vermos os nossos pecados perdoados do que por uma cura física.

Mas neste ano de renovação da Devoção Eucarística nos Estados Unidos, eu gosto de pensar que há outra lição: como é fácil ser agradecido. Basta ir ter com Nosso Senhor e dizer obrigado. Em termos humanos, pensar-se-ia que o leproso curado estaria endividado a servir o Senhor para toda a vida, pelo favor que lhe tinha feito, ou pelo menos a dedicar o resto da sua vida a servir leprosos. Mas aparentemente bastou encontrar Jesus e agradecer-lhe. “É a misericórdia que eu quero, e não sacrifícios.”

Já pensou porque é que temos sacrários nas nossas igrejas? Não é por acaso. Para que é que servem? Eles são a resposta de Deus ao nosso pedido em Emaús: “mane nobiscum, Domine”, ou “permanece connosco, Senhor”, segundo nos diz São João Paulo II. Mas, presumivelmente, têm outro propósito para além de serem o ponto focal de devoção durante a missa.

Já ouvi dizer que todos os santos são santos eucarísticos (o que é interessante, pois se somos chamados à santidade então também nós devemos ser “eucarísticos”). A Madre Seton é um grande exemplo aqui nos Estados Unidos, e os hinos de São Tomás de Aquino são extraordinários, e amados por muitos.

Mas há um santo que foi canonizado recentemente e que poderá fornecer o ensinamento de que precisamos neste momento. Chama-se São Manuel González García, e nasceu em Sevilha. Foi bispo de Palencia, em Espanha, no início do Século passado. Foi beatificado pelo Papa João Paul II em 2001 e canonizado em 2016 pelo Papa Francisco. Existe uma edição com excertos das suas obras: “O Bispo do Sacrário Abandonado”.

São Manuel queria principalmente persuadir-nos a visitar Nosso Senhor no sacrário e passar tempo com ele. Quatro dos seus argumentos parecem-me particularmente criativos e convincentes.

Em primeiro lugar, diz ele, se acreditamos pela fé que Nosso Senhor está presente em corpo, sangue, alma e divindade, então “devido à nossa insuficiência, o Sacramento é um mistério para nós… mas podemos acreditar que Ele está impedido de exercer a virtude e o poder dos seus membros físicos e das suas capacidades humanas?” Assim, embora não possamos ver senão pela fé, ele tem uma boca para falar, olhos para ver, um coração para amar. “Apesar do seu silêncio e imobilidade no sacrário, Jesus Cristo fala e age”.

São Manuel González
Em segundo lugar, pergunta-nos o que achamos que é a “primeira obra” do Coração de Jesus no sacrário? A resposta, diz ele, é “ser”. Isto é extraordinário. “Não acrescentem qualquer outro verbo para especificar o objectivo, o caminho ou a duração desse acto de ser. Não partam do princípio que ele está lá apenas para consolar, iluminar, curar, alimentar… Em primeiro lugar ele está simplesmente… Asseguro-vos que muito poucas palavras expressam mais actividade, mais amor, que o verbo ‘ser’”.

Depois, em terceiro lugar, faz a comparação com a maternidade. “O Coração de Jesus no sacrário olha para mim. Olha para mim sempre. Olha para mim em todo o lado. Olha para mim como se não houvesse mais ninguém para contemplar do que eu. Porquê?” Compara Nosso Senhor a uma mãe que contempla o seu bebé enquanto dorme. “Perguntem à mãe que, sem falar e quase sem respirar, passa horas junto do seu filho enquanto ele dorme. Porque é que o faz? Ela responderá: ‘Apenas quero contemplar o meu filho’… E sabem o que lhe causa tristeza? É saber que não poderá seguir o seu filho muito amado com o seu olhar durante toda a vida dele, agora como criança e mais tarde como homem”. Mas o Senhor pode contemplar-nos sempre e em todo o lado, do sacrário, e é isso que faz.

Em quarto lugar, pede-nos para sermos verdadeiros e humildes. Nosso Senhor está sempre pronto para falar connosco. “Diz-me, há muitas pessoas no mundo que te conhecem e que têm interesse em dizer-te alguma coisa? Certamente que não! Sendo a quantidade de pessoas que te conhecem tão pequena em comparação com a população total, podes estar seguro de que as pessoas, no seu todo, não têm nada para te dizer… Verdadeiramente, somos de pouco interesse para outros no mundo!”

Os sábios e os poderosos certamente nada têm para nos dizer. (Estou muito enganado se fingir que Elon Musk tem alguma coisa para me dizer pessoalmente no Twitter.) E, porém, “temos um Rei muito mais sábio, mais rico e mais poderoso que nos aguarda a qualquer hora do dia ou da noite no pequeno palácio do seu sacrário. Está lá para dizer a cada um de nós, com interesse e amor infinito, a palavra certa que precisamos de ouvir naquele momento.”

Desconfio que alguns de nós evitam o Sacrário não porque consideramos estas palavras falsas, mas porque as achamos verdadeiras.

Estas são boas reflexões para a Páscoa também, olhando em diante, como os apóstolos descobriram o Senhor ressuscitado na fracção do pão. “O Evangelho mostra como e quando podemos conhecer o Cristo Ressuscitado:”, disse João Paulo II na sua homilia de beatificação, “na Eucaristia”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 2 de Março de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 5 October 2022

Uma Fé Eucarística

Sondagens recentes revelam que muitos católicos já não acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia. Não faço ideia como é que se resolve este problema, mas talvez seja útil considerar as seguintes questões.

Começamos com a Eucaristia. Acredita que Cristo pode estar verdadeiramente presente na Eucaristia, tal como se apresentou aos apóstolos no Cenáculo depois da crucifixão? É uma premissa assumidamente difícil, uma vez que aos nossos olhos continua a parecer apenas pão e vinho. É por isso que na Idade Média a Igreja tentou clarificar o que significa a “presença real” na Eucaristia dizendo que, embora os acidentes de pão e vinho permaneçam, a substância é agora o corpo e o sangue de Cristo. Sim, continua a parecer pão e vinho, mas Cristo está verdadeiramente presente.

Esta crença na presença real de Cristo na Eucaristia, e não meramente espiritual, mas real – tão real como quando temos um amigo na mesma sala – anima a Igreja Cristã desde o seu começo, de tal forma que os pagãos acusavam os cristãos de canibalismo.

De facto, a Igreja acredita que Cristo está ainda mais intimamente presente do que esse tal amigo, uma vez que Ele não está apenas “próximo”, mas “dentro” de nós, com o poder de nos transformar de maneiras que um amigo, por bom que seja, simplesmente não consegue.

Mas claro que esta premissa da “presença real” de Cristo na Eucaristia se baseia noutra, o que nos leva à próxima questão. Acredita mesmo que Cristo estava presente – corporalmente – no cenáculo depois de ter sido crucificado, tão presente como esteve para os discípulos durante a sua vida terrena, antes da crucifixão?

Também isto é difícil de conceber. O Evangelho deixa claro que para os apóstolos não foi mais fácil. As portas e as janelas estavam fechadas e trancadas, mas eis que Ele estava presente. Por isso, naturalmente, pensaram tratar-se de um fantasma. Mas os Evangelhos fazem questão de dizer que não era um fantasma, estava presente em corpo. Tocaram-no, comeram com Ele, mas depois, tão depressa como apareceu, já não estava presente.

Esteve presente de forma corporal, mas com um corpo que não sofria das mesmas limitações que os nossos. É evidentemente estranho – a não ser, claro, que Ele fosse Deus feito homem.

Então temos a nossa terceira questão. Será que Deus, o Criador de toda a realidade, encarnou como uma verdadeira pessoa humana, de nome Jesus, num dado momento da história? Sejamos francos: esta é a afirmação cristã mais difícil para membros de outras tradições religiosas aceitarem ou respeitarem. O Deus transcendente, acreditam, simplesmente não se pode rebaixar ao ponto de se tornar um único ser humano, que viveu num determinado lugar, num determinado tempo da história.

Parece que estamos a equilibrar todo o destino do cosmos na cabeça de um alfinete. Algo tão grande não se pode fazer tão pequeno. Algo tão poderoso não se pode tornar tão fraco. Se o mundo antigo sabia uma coisa, era que os deuses não podem morrer. Afirmar que o seu Deus revelou o seu poder ao deixar-se crucificar não é a coisa mais evidente do mundo. Quando as pessoas olharam para Ele, viram que era apenas mais um ser humano.

Mas os cristãos acreditam que Deus estava verdadeiramente presente – por inteiro – nele.

Porém, tudo o que considerámos até agora baseia-se naquilo que é talvez a premissa mais radical de todas. Será possível, perguntamos, que aquele que é o Criador de toda a realidade – todo o cosmos, com triliões de galáxias, estrelas, planetas, cometas e buracos negros, na maioria a anos luz de nós – nos ama, e ao ponto de se entregar por inteiro e desinteressadamente a nós para restaurar o dom da humanidade que nós manchámos tão gravemente com o nosso egoísmo e pecado?

Não será essa a raiz do problema? Já não basta a dificuldade de acreditar que existe um Deus que criou a vastidão e a complexidade de tudo quanto há, para agora ter de acreditar que Ele nos conhece e gosta de nós, de todos nós? É simplesmente demasiado difícil de conceber.

Não estou aqui a argumentar a favor da Eucaristia. Estas questões têm simplesmente o propósito de clarificar a questão. Será que o problema é mesmo a questão de Cristo estar presente na Eucaristia, ou será que as dúvidas e dificuldades começam muito mais atrás e vão mais fundo? Faria sentido. Nada do que eu proponho aqui é fácil ou evidente. De facto, parece-me que se torna cada vez mais difícil quanto mais fundo se vai.

Mas depois de aceitar a ideia enorme de que Deus nos ama de tal forma que encarnou como um ser humano de verdade, num corpo humano vulnerável e mortal de verdade, e morreu numa cruz, acreditar na possibilidade de Ele se fazer presente no pão e no vinho parece coisa de pouca monta.

É um pouco como acreditar que Cristo pode ressuscitar os mortos, mas depois duvidar da sua capacidade de curar uma pessoa com lábio leporino. Porquê? É demasiado insignificante? Não é suficientemente “grande” para o seu Deus grande e poderoso? Então e você e os seus problemas também são demasiado insignificantes para o seu Deus grande e poderoso?

Talvez essa seja a verdadeira questão. O universo está vazio? Alguém se importa? Haverá algum sentido para a vida, sobretudo diante da morte?

Se estamos interessados em reavivar a fé na Eucaristia, talvez devêssemos começar por aqui. Se não conseguimos lançar as bases sobre o amor de um Deus-Criador que se fez homem e morreu por nós, então tudo o resto será edificado sobre a areia e não serão brochuras com imagens de padres penteadinhos a elevar cálices que nos safam.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 3 de Outubro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 25 August 2021

Palavras Duras

Pe. Paul Scalia

Muitos dos discípulos de Jesus que o escutavam diziam, “Estas palavras são duras, quem pode escutá-las?”

O que significa dizer que as palavras de Jesus são “difíceis”? Poderia significar que são difíceis de compreender. E como Nosso Senhor estava a falar da Eucaristia – o mistério da Fé – isso até seria aceitável. É demasiado complicado para perceber.

Mas não é isso que significa. A palavra “duras”, aqui, indica algo de ofensivo ou mesmo intragável. É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Isto escandaliza-vos?”. Por outras palavras, “Consideram isto ofensivo e intolerável?”. Ele não pergunta se estão confusos, porque nesta altura do discurso sobre o Pão da Vida ele já tinha clarificado os seus ensinamentos muitas vezes. Eles compreendem-no perfeitamente. Simplesmente não estão dispostos a aceitar aquilo que Ele ensina. O obstáculo aqui não é ao nível do intelecto, mas da vontade.

Mais especificamente, eles não estavam dispostos a aceitar o que Ele ensinava porque isso obrigá-los-ia a mudar de vida. Ele estava a convidá-los a submeter os seus pontos de vista mundanos às suas verdades sobrenaturais. “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve de nada” (Jo. 6,63). Eles intuíram bem o alcance das suas palavras: Se este ensinamento é verdadeiro, então eles têm de adaptar as suas vidas a ele. E por isso hesitaram. Mesmo depois de testemunhar os seus milagres e sinais, continuavam a não conseguir confiar-se aos seus ensinamentos. “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele” (Jo. 6,66).

Estes discípulos entraram na mesma lógica que os seus antepassados no Êxodo. Os israelitas que seguiram Moisés para o deserto acabaram por se fartar de confiar no Senhor e na sua Maná milagrosa. A certa altura disseram: “Daqui não passamos”. Até começaram a ter saudades das panelas de carne no Egipto e a querer regressar à terra da escravatura (Cf. Ex. 16,3 e Num 14,4). Também assim, os discípulos que seguiram Cristo para o deserto procuravam-no porque Ele os tinha alimentado de forma milagrosa e não porque tinha palavras de vida eterna (cf. Jo. 6,68). E assim, aqueles que foram alimentados por Ele e testemunharam os seus milagres, regressam agora às suas antigas vidas.

Tudo isto traz à mente aquilo a que se chama “coerência eucarística” – a simples verdade de que aqueles que recebem a Eucaristia devem viver vidas coerentes com Ela. Inexplicavelmente, isto agora tornou-se polémico. De facto, a “coerência Eucarística” é uma fasquia bastante baixa. Afinal de contas, não devemos desejar apenas viver de uma forma coerente com a recepção da Eucaristia. Antes, devemos fazer por ir buscar vida e o sentido das nossas vidas à Eucaristia. Por outras palavras, as nossas vidas deviam ser coerentes com a Eucaristia porque são determinadas por Ela.

Os discípulos em Cafarnaum reconheceram aquilo que lhes estava a ser pedido. Acharam as palavras duras precisamente porque compreenderam que se as aceitassem teriam de viver em coerência com elas. Ao contrário de muitos que hoje recebem a Eucaristia de forma incoerente, aqueles discípulos pelo menos tinham a integridade para reconhecer a sua falta de vontade e simplesmente afastar-se.

Dietrich von Hildebrand escreveu que ser discípulo de Cristo requer “a aptidão para mudar, uma receptividade a Cristo como que da cera”. Embora seja operativa ao longo de toda a vida do cristão, esta disposição aplica-se sobretudo à nossa recepção da Eucaristia. No Diálogo de Santa Catarina de Sena, Nosso Senhor usa esta mesma imagem para descrever a recepção da Comunhão. “Quando esta aparência de pão é consumida, eu deixo uma marca, tal como um selo deixa a sua marca quando pressionado contra cera quente”.

A coerência eucarística requer a vontade – aliás, o desejo – de receber esta marca de Cristo, independentemente da “dureza” dos seus ensinamentos. Assim, devemos estar dispostos a receber aquilo que Ele nos deseja dar. Devemos desejar da Santa Comunhão aquilo que é a sua vontade, e não a nossa. O efeito em nós deve ser aquele que Ele quer, e não o que nós queremos.

Claro que não devemos ser demasiado duros com os discípulos em Cafarnaum. Para eles o ensinamento sobre a Eucaristia era algo extraordinário, sobrenatural e chocantemente novo. Já nós temos dois milénios de ensinamentos e de testemunhos para fortalecer a nossa fé. E mesmo assim continuamos a poder falhar na nossa devoção eucarística. Assim como os seus antepassados no deserto, estes discípulos são para nós um aviso. Não faz sentido tomar nota de (e lamentar) a incoerência eucarística dos outros se não fizermos mais por corrigi-la em nós mesmos.

Voltamos a Hildebrand: “Há muitos católicos religiosos cuja prontidão para mudar é meramente condicional”. Por outras palavras, estamos sempre em perigo de nos tornarmos como os discípulos em Cafarnaum, colocando limites à nossa disponibilidade para mudar, considerando que as suas palavras são demasiado duras e chegando àquele ponto em que dizemos, “Daqui não passamos”. Alguns atingem esse ponto quando enfrentam um ensinamento mais duro da Igreja de Cristo, outros quando sofrem alguma perda, dor ou escândalo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: uma dureza que resiste à Sua graça.

Eis, então, uma boa maneira de nos prepararmos para a Santa Comunhão – pedindo uma disposição dócil, como cera, para que a Eucaristia nos beneficie como Ele deseja e nos deixe a sua marca bem estampada.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Agosto de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



Wednesday, 5 May 2021

Não sabemos a Hora

Elizabeth A. Mitchell
No conto macabro de Edgar Allen Poe “A Máscara da Morte Vermelha”, o Príncipe Próspero toma uma decisão surpreendente quando o seu reino é ameaçado por uma praga mortal. Ele tem poder absoluto e, por isso, encerra o seu palácio, fecha os portões e não deixa ninguém entrar nem sair, isolando-se da morte. Simples. Próspero e os seus cortesãos podem divertir-se em segurança, a Morte não consegue entrar. 

Até que entra. A morte chega, qual convidado indesejado nas soirées exclusivas do Príncipe, e todos os foliões, incluindo o próprio Príncipe, perdem a vida, sem se poderem proteger deste intruso.

E nós, com os nossos confinamentos modernos, com os nossos edifícios isolados e listas de pessoas “essenciais” não somos muito diferentes do Príncipe e das suas tolices. Pior, porque ao tentar manter a Morte fora da nossa sociedade, também fechámos as portas à Vida.

Eu tenho o privilégio de poder aceder a um lar perto de onde vivo. É uma instituição bem gerida e sobreviveu a esta crise sem qualquer surto significativo. Um triunfo para os idosos e uma alegria para todos os residentes. Mas como ninguém pode entrar e ninguém pode sair – nem o carteiro, nem amigos e familiares, nem mesmo o padre – também Cristo foi vedado.

Cristo costumava ser recebido todas as semanas e os residentes católicos apreciavam poder ir juntos à missa. Mas durante o confinamento, que foi mais severo nos lares do que em qualquer outra parte do país, o padre já não pôde entrar. Os residentes estavam ainda impedidos de se juntar em pequenos grupos para rezar. Aceitaram a sua nova realidade: Missa só na televisão, sozinhos, nos seus quartos.

Passaram-se meses. A Páscoa chegou e partiu e veio o calor do verão. Passou a primavera, e o Natal, sem visitas de familiares, e os residentes revelaram uma resiliência e uma força de vontade invulgares. Muitos viveram os tempos da Segunda Guerra Mundial, a vacina da poliomielite e outros desafios. Isto, concluíram, era difícil, mas viável.

Depois veio a Semana Santa e algo mudou. Residente após residente comentou o quanto sentia a falta da Eucaristia. Muitos destes católicos da vida inteira, habituados à missa diária, não recebiam a Eucaristia há mais de um ano. Nem uma vez. E não havia esperança de o fazer.

Foi então que se tornou evidente que, uma vez que eu podia entrar no edifício, Cristo poderia usar-me para aceder. Não duvido que Ele queria vir. Ele via estas almas amadas e ansiava poder estar com elas. 

A aprovação pelo nosso diretor-geral – quase um milagre em si mesmo – combinada com a confiança do pároco, levou à determinação de uma data para eu poder levar a Eucaristia aos residentes. À tarde de Sexta-feira Santa. Sexta-feira Santa? O único dia no mundo em que a Missa não é celebrada, em que Cristo está no sepulcro e o mundo aguarda a Ressurreição em silêncio e solidão.

Quantas hóstias quer? Perguntou o pároco. Vinte e cinco, respondi, pensando que chegaria. Mas algo dentro de mim dizia-me que seriam precisas mais, que devia pedir quarenta. Devia ter ouvido.

Cristo e eu chegámos pontualmente às 13h e fomos diretamente para a Sala das Actividades. Tinha sido colocado um aviso apressado no elevador a dizer que os católicos que quisessem receber a Santa Comunhão podiam juntar-se para a distribuição.

Entrei na sala e vi fé, fé pura, e devoção. Homens de fato, mulheres com colares de pérolas e as suas melhores roupas, todos cientes da presença de Cristo. Coloquei a píxide na mesa e começámos a rezar. Enquanto passava de residente para residente, proclamando: “O Corpo de Cristo”, ouvia a resposta habitual: “Amen”, seguida de “Obrigado!”

Durante a Acção de Graças uma senhora na fila da frente inclinou-se para mim sobre a sua bengala e repetiu: “obrigado, obrigado, obrigado por nos trazer Cristo”.

O Senhor não se esqueceu daqueles indivíduos que nem conseguiam descer até à sala de um edifício confinado numa Sexta-Feira Santa tranquila para O receber. Ele viu-os, os mais isolados, sozinhos nos seus quartos, e foi ao seu encontro. Todos eles. Pelo nome.

Tinham-me dado uma lista de todos os católicos registados quando cheguei: quarenta nomes. Comecei a partir as hóstias em dois, dado o número de almas que desejavam Cristo, enquanto caminhava pelos corredores, batendo nas portas que me tinham sido indicadas, perguntando alto: “Gostaria de receber a Eucaristia?”

A resposta? Suspiros. Lágrimas. Alegria. “Agora? Posso receber a Eucaristia agora?”, perguntavam estupefactos.

Um homem caiu de joelhos à entrada do seu quarto quando me abriu a porta para receber a Eucaristia ali, na ombreira. “Senhor, eu não sou digno”.

Outro, que estava sentado sozinho no sofá a ver a bola, sentou-se direito, surpreendido e expectante, e rezámos juntos. “Senhor, que entreis na minha morada”.

Um casal estava sentado junto na sala de estar do seu apartamento. O marido precisou de ajuda para levar a Eucaristia até à boca, porque tinha as mãos paralisadas.

Alguns dos que estavam na lista já não estavam vivos, tinham sido chamados de volta ao Senhor durante o ano que passou.

Outros foram hospitalizados entretanto, por questões de saúde inesperadas. A sua Eucaristia de Sexta-feira Santa acabou por ser um viático. Não sabemos a hora.

Repeti a cada residente: “Cristo sabia que estava aqui. Ele vê-o. Ele queria vir. Arranjou maneira”.

Uma das mulheres limitou-se a chorar, inclinando-se sobre a sua bengala à entrada do quarto. “Obrigado”, murmurou, “não recebia a comunhão há mais de um ano”. Corriam-lhe lágrimas de gratidão pela cara.

Cristo vê-nos. Ele encontra-nos. “Ele nunca vos falhará ou abandonará” (Deuteronómio 31,6). Não há muro no mundo que o consiga excluir. Nenhum poder do Inferno pode superar a sua força. Nenhuma pandemia nos pode separar, se estivermos dispostos a recebê-lo.

Não sabemos nem o dia, nem a hora, mas a sua vinda é certa. A sua Vida triunfa sobre a Morte, porque a vitória já lhe pertence.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 2 de Maio de 2021 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Friday, 6 November 2015

Quando a comunhão é um perigo para a saúde

Hóstias sem glúten
Muito se tem falado recentemente sobre o acesso à Eucaristia de pessoas neste ou naquele estado. E aquelas pessoas para quem comungar é um perigo para a saúde física? A Renascença falou com celíacos e pessoas com alergia ao glúten e mostra-lhe quais são as alternativas existentes.

O Papa fez hoje duas importantes nomeações episcopais. Saiba quem são os novos arcebispos de Bruxelas e de Barcelona.

Ontem dois dos links foram trocados. Nomeadamente, o do discurso do Patriarca no ACEGE e das dioceses do sul que querem apostar no caminho de Santiago.


Por falar neste tema, vem a Portugal o presidente do Pontifício Instituto João Paulo II para estudos sobre o Matrimónio e Família, padre José Granados. No dia 13 de Novembro dá uma conferência sobre Família: Problema ou solução? E no dia 14 de Novembro dá uma formação durante todo o dia sobre Família: Fundamentos antropológicos, missão e vocação. 




Tuesday, 7 October 2014

"Uma vez ou outra tive comunhões tão intensas como as espirituais"

Transcrição integral da entrevista com Joaquim Mexia Alves. Reportagem aqui.

Esteve na Guiné na Guerra, já era casado?
Não. Depois de vir da Guiné fui trabalhar para Angola, onde conheci a minha primeira mulher e onde me casei. Pouco antes da independência de Angola voltei para Portugal.

A sua mulher era portuguesa?
Sim, vivia em Angola mas era portuguesa.

Viemos para Portugal e passados dez anos separámo-nos, e cada um seguiu a sua vida. Eu fiquei por aqui, por Monte Real, ela foi para Lisboa. Temos dois filhos. Entretanto, passados cinco ou seis anos acabei por conhecer aquela que é agora a minha mulher. Depois de algum tempo, mercê desse conhecimento e de querer casar com ela, acabei por pedir à minha primeira mulher um divórcio civil.

Não tinha pedido ainda sequer um divórcio civil?
Não.

Acabei por pedir o divórcio, porque na altura nem sequer se me punha um casamento pela Igreja ou sem ser pela Igreja, porque verdadeiramente eu vivi a minha infância e a minha adolescência com uma educação religiosa, cristã. Fiz o crisma, andei em colégios católicos, mas à volta dos 19, 20 anos, afastei-me da Igreja, depois de Deus, depois da fé.

Teve a ver com a guerra?
Não. Foi antes. Uns anos antes já não me dizia nada.

Não é que tivesse deixado de acreditar em Deus como aquele que nos criou, mas não me dizia nada. Não interferia de modo nenhum na minha vida nem eu deixava que interferisse.

Isso arrastou-se até aos 40 e tal anos, já depois de conhecer a minha mulher é que, conversando com ela sobre a Igreja, Deus e variadíssimas coisas, começou a despertar em mim mais uma vez essa procura e portanto naquela altura não se me punha a questão do casamento católico ou não católico.

Em relação à sua primeira mulher ela não era católica?
Era uma católica como eu, baptizada...

Mas casaram pela Igreja?
Sim.

Porquê?
É preciso separar algumas coisas. As pessoas pensam que por se pedir a nulidade de um casamento católico isso significa que essa união não teve sentido. É lógico que teve sentido, acho que ninguém casa com uma mulher ou uma mulher com um homem, se não houver um sentido, se não se amam naquela altura pelo menos e se não querem partilhar uma vida. A diferença é esta, de saber se eles, casando pela Igreja, querem fazer aquilo que a Igreja diz.

Por isso, nem sempre as pessoas têm o conhecimento do que é verdadeiramente o sacramento do matrimónio, do que ele exige dos esposos.

Obviamente, sendo as famílias cristãs, católicas, há sempre uma tradição, um peso, e o casamento foi católico, como se diz, porque tinha de ser. Era assim. Então em famílias tradicionais como as nossas, era assim. Portanto quando conheci a minha mulher actual não se me punha esse problema porque não se me punha o problema da Igreja sequer.

Curiosamente, foi ao conhecê-la e ao desenvolver conversas com ela que começou a procura de Deus outra vez, até porque tinha vivido uma vida completamente desregrada desde o momento em que me separei, até conhecer a minha mulher, por isso mesmo esta procura de Deus que se dá depois de conhecer a minha segunda mulher tem também o sentido de perceber que alguma coisa estava mal na minha vida, que ia acabar mal de certeza.

Como é que conheceu a sua segunda mulher, foi nalgum contexto de movimento da Igreja?
Foi no contexto da minha vida de saídas à noite...

Mas ela tinha alguma relação com a Igreja?
Era baptizada, mas de maneira nenhuma praticante.

Vá-se lá saber porquê... Ainda hoje o Stephen Hawking diz que Deus não existe, tudo bem, isso é problema dele, mas a gente pergunta-se porque é que de repente se juntam estes dois seres que começam a falar dele e que acabam por O encontrar?

Resumindo, depois do divórcio civil acabámos por casar civilmente.

A sua primeira mulher não levantou qualquer obstáculo ao divórcio civil?
Não. Houve um bom entendimento, havia e graças a Deus, apesar de algumas vicissitudes, ainda há. Isso é que é importante.

Uns três anos depois de casar a nossa aproximação à Igreja é cada vez maior, passa a ser bastante intensa até, por força de ter conhecido o Padre José Lapa, que trouxe o renovamento carismático para Portugal, que eu conheci muito bem e com quem tive algumas conversas nesse período de procura e que me ajudou muitíssimo. E portanto houve um encontro muito mais intenso e começámos a praticar a religião verdadeiramente.

Íamos à missa mas obviamente, porque entendíamos na altura que não o devíamos fazer, não nos confessávamos nem comungávamos, porque tínhamos a noção que não estávamos numa situação regular.

Essa situação foi avançando, até que um dia alguém me põe a hipótese de pedir a nulidade do matrimónio. As razões não interessam, nem as vou esclarecer, mas havia razões para isso. E nessa altura, em ‘96 ou ‘97 metemos o processo para a declaração de nulidade.

O processo arrastou-se ao longo de quase nove anos, por várias razões, algumas estranhíssimas, por exemplo os documentos perderem-se entre o tribunal de Leiria e Lisboa, uma coisa fantástica... Há coisas que nos deixam espantados, parecem quase do demo... O processo arrasta-se muito. É doloroso, em certos aspectos, porque o processo no tribunal eclesiástico de nulidade, porque as partes, como eu, têm um encontro com a realidade, porque se não tiverem é escusado. Num processo civil as pessoas dizem o que querem, mas num processo como este, se as pessoas têm noção daquilo que vivemos, temos de ser verdadeiros, e a verdade às vezes magoa. Magoa-nos a nós quando nos recordamos e lembramos dela. Foi um processo doloroso, mas que culminou com a declaração de nulidade. A partir daí eu podia contrair matrimónio novamente.

A sua primeira mulher colaborou com o processo?
Não, não colaborou. Foi uma das razões porque se atrasou. Não quis colaborar. Eu respeito profundamente a decisão dela. Aliás, ela tinha razão para estar magoada, por isso compreendo perfeitamente que não o tenha feito.

Mas não colaborou porque não sentia que havia causa para nulidade?
Não sei... Julgo que uma das razões será que, não havendo aquele matrimónio não teria havido casamento mesmo e essa situação é sempre um bocado complicada, como dizia há bocado, há que separar as coisas. Um homem e uma mulher que se unem, unem-se. Se querem ou não fazer aquilo que a Igreja diz é uma coisa diferente, agora não significa que o casamento não tenha existido, que não tenha tido consentimento, que não tenha tido um objectivo, que até nem fosse naquela altura pensado para a vida toda.

As pessoas podem ter, e sobretudo quem não conhece verdadeiramente todos os meandros da doutrina da Igreja, pode de alguma maneira ter esta sensação, afinal não casei nada... Como se fosse um desprezo, que não é.

Mas é engraçado que isso parece ter afectado muito mais que o divórcio...
Sim, exactamente, porque, lá está, quer queiramos quer não, há uma tradição e um certo peso em cima de nós. Hoje em dia vemos isso, para o ano caso pelo civil, depois caso pela Igreja, quando tiver dinheiro para a festa. Parece que as pessoas não se sentirão casadas se não casarem pela Igreja. O problema é que casar pela Igreja tem condições e essas condições têm de ser observadas, porque se não forem o casamento não existe, o matrimónio não existe, o sacramento não existe. Tal como não existe confissão se eu me for confessara a um sacerdote e não confessar deliberadamente um pecado do qual tenho vergonha, o sacerdote não sabe, dá-me a absolvição, mas esta não tem qualquer valor sacramental. Portanto quando não se conhece tudo o que é a doutrina às vezes pode-se perceber isto, no fundo para ser casado tenho de casar pela Igreja. Não. Não há um timing, a não ser que acredite e seja uma pessoa de fé e queira praticar a religião.

A sua actual mulher não tinha sido casada antes?
Não. Era solteira.

Por isso, depois acabámos por casar em 2006, canonicamente.

Julgo que lhe interessa também saber mais sobre esse período de vida em que nos aproximámos da Igreja, vivemos na Igreja, vivemos com Deus, mas ainda não éramos casados canonicamente.

A partir de um certo momento sempre se me pôs, talvez por ter sido uma redescoberta de Deus e da fé, talvez por essa razão ela tenha sido mais intensa do que noutras pessoas que sempre a viveram. Por isso a vontade de fazer tudo como nós achamos que seria a vontade de Deus era fazer o que a Igreja nos diz. E portanto o não aproximar-nos da confissão e da comunhão era um problema que se nos colocava, que nos doía, mas que optámos por aceitar e viver dessa maneira, desde o início.

Até porque quando nos aproximámos da Igreja começámos logo a ter padres amigos, entre eles o padre Lapa, mas outros também, com quem nos abríamos e que nos orientavam espiritualmente, porque embora não haja confissão, pode-se ter uma direcção espiritual e podemos falar com sacerdotes e há sacerdotes completamente abertos a essa conversa. A gente também sabe que na Igreja também há aqueles que não estão abertos a isso e são radicais e às vezes até têm conversas cruéis e desumanas. Mas essa direcção espiritual e maneira de estar foi-se revelando e foi, no fundo, até uma fonte e um caminho de uma espiritualidade mais profunda, porquê? Porque a procura de uma comunhão espiritual cada vez mais perfeita, a procura de uma vivência da Eucaristia, porque a Eucaristia não é só a comunhão, é um todo, tem a consagração, tem a palavra de Deus, tem tudo e se não a vivermos inteiramente... Não vai ninguém à Igreja, ou pelo menos não devia ir, só para comungar. Se vai só para isso, está a fazer muito mal.

A falta da comunhão eucarística levou-nos a querer viver a Eucaristia de forma muito mais intensa e a viver essa comunhão espiritual ainda mais intensamente. Obviamente Deus responde sempre àqueles que o procuram com intensidade e Deus foi-nos dando as forças necessárias e suficientes para podermos viver essa maneira de estar, mas também nos foi dando as graças necessárias e os consolos para percebermos que a comunhão eucarística é importante mas não é o todo, que Deus não se confina à comunhão eucarística e vai muito além disso. Está connosco e comunga connosco e houve momentos muito importantes da nossa vida, momentos de comunhão extraordinária, às vezes sozinho, outras vezes com ela, mas momentos extraordinários de comunhão que nos davam a presença de Deus vivo e nos davam a certeza de estarmos a fazer o que era certo.

Às vezes inventava uma conversa com Jesus... Quando morresse e chegasse ao Céu e se tivesse, apesar de não ser casado pela Igreja, comungado sempre, porque a "minha consciência" me dizia que o devia fazer, ele me perguntava: "Então tu comungaste? Mas a Igreja não te dizia para não comungares?"

Eu respondia, "Mas eu cá tenho a minha consciência".

"Então achas que fizeste bem..."

Mas havia outra possível conversa:

"Então comungaste? Devias ter comungado, porque é que não comungaste?"

"Isso não sei. Foi a Igreja que me disse para não comungar, e eu obedeço à Igreja"

"Então está bem, porque obedeceste à Igreja, eu depois falo com a Igreja a seguir"...

Ao não comungar estou certamente a fazer aquilo que é certo, porque o ónus por eu não comungar cai sempre sobre a Igreja. Passo a batata quente.

Nessas conversas tiveram também padres que vos dissessem para comungarem à vontade?
Assim tão claramente não. Mas que me davam a entender que sim, porque não? A consciência... Sim senhor e tal. Muito poucos. Houve outros, pelo contrário, que foram de uma radicalidade e de uma crueldade ao dizerem coisas do tipo: "Não podes comungar, estás em pecado mortal, estás condenado, e outras coisas que tais que são terríveis e que são exactamente o oposto e os Papas há muito tempo dizem que isso é uma coisa incrível...

A verdade é que quando vivemos – esta é a minha opinião pessoal que vivi e tenho casais próximos que conheço e nos quais sinto a mesma coisa – quando nós queremos viver em obediência à Igreja, que é obediência a Deus, se nos lembrarmos de Jesus Cristo, há uma frase lindíssima que é: "Obedeceu até à morte, e morte de Cruz". Ele obedeceu. Pôs na obediência uma das maiores virtudes. Não precisava daquilo.

Não me estou a comparar com Jesus Cristo, obviamente. Mas a obediência é sempre uma fonte de graça. Se nós obedecermos e se estamos dispostos, as portas abrem-se, não só as portas do Céu, as portas de Deus, para nos acolher, mas abrem-se também as portas dos homens. Porque a própria Igreja, os sacerdotes, os bispos, os leigos, alguns deles às vezes mais renitentemente, mas depois vão começando a perceber, percebem que há uma disposição para estar e então acontece que a Igreja abre-se e começa a chamar mesmo as pessoas nessas situações para ajudarem também, para se sentirem mais em Igreja. Porque não é só a comunhão que nos faz sentir Igreja.

Eu vivia aqui em Monte Real e o prior perguntou-me se eu queria cantar no Coro e eu passei a cantar no coro. Não ia comungar, os outros iam, tudo bem. Talvez fosse mais um sacrifício, talvez mais um exercício de humildade para o meu orgulho. Depois um dia convidou-me para pertencer ao Conselho Pastoral e eu disse que não era casado pela Igreja e ele respondeu que eu ia como conselheiro pessoal e por isso não haveria qualquer problema.

A própria diocese me chamou e pediu para eu, em certas ocasiões, falar sobre o testemunho da minha vida e sobre as coisas que me tinham acontecido, porque estou disponível, porque me abro à própria Igreja e ela me recebe. Portanto eu não posso dizer de maneira nenhuma que alguma vez me senti excluído nem me senti colocado de lado. A verdade é que muitas vezes somos nós que nos excluímos e nos colocamos de lado.

É curioso que o outro dia, fruto de conhecer alguns casais já nessa situação, como nós e outros que vivem uma situação diferente – claro que é uma pequena amostragem, não é nenhuma estatística –, mas constato que os casais que vivem estas situações irregulares em comunhão com a Igreja em obediência à doutrina da Igreja, vivem normalmente uma espiritualidade bastante profunda, e percebemos isso pelas coisas que escrevem, vivem uma paz e uma harmonia entre o casal e na família que normalmente não vejo naqueles que ao viver esta situação irregular a querem viver ou contestando permanentemente, ou em desobediência à Igreja. Reparo nesses uma tensão latente, uma irritação latente, que pode advir da contestação, mas também de, no fundo, estarem divididos lá dentro, porque estão a fazer uma coisa que, embora digam que é a consciência que lhes dita, lá no fundo há algo que lhes diz que talvez não seja bem assim.

Porque esta história da consciência é muito interessante, fala-se muito no primado da consciência, a nossa consciência, para ser recta, sobretudo se estivermos a falar das coisas de Deus tem de ser uma consciência iluminada por Deus. Não pode ser uma daquelas de "Eu acho que".

Se eu não tiver acesso a documento nenhum, a nada que possa ler, então a minha consciência tem de ser aquela, e Deus olha para ela com certeza com toda a pureza, porque não tenho outro acesso. Agora, se tenho acesso à doutrina da Igreja, aos documentos da Igreja, ao que os outros dizem, eu tenho de criar a minha consciência de acordo com o que me é dado saber.

Há bocado dizia que havia alguns padres que diziam de forma cruel que estavam em pecado mortal. No seu caso havia um processo em curso e depois foi declarada a nulidade, mas há pessoas que não têm bases para nulidade e, de facto, o que a Igreja diz é que não podem comungar porque estão em pecado. Pelas suas próprias palavras isso é uma atitude que pode magoar. Como é que se navega este dilema?
Há muitas maneiras de dizer as coisas.

Eu, por exemplo, lembro-me que a minha mulher em Fátima, um dia, não sei porquê, decidiu que se queria confessar. Lembro-me de lhe ter dito: "Não faças isso. Temos os sacerdotes que nos conhecem, com quem conversamos, e sabes perfeitamente que não podemos fazer isso."

Mas ela insistiu, e foi, e teve uma péssima experiência. Porque encontrou um sacerdote do tipo que lhe disse que estava em pecado mortal e estava condenada, se não mudasse de vida e outras coisas que tais.

Primeiro, ele nem sequer a ouviu. Só quando percebeu aquilo descambou logo. Há muitas maneiras de se dizer as coisas, de se dizer a um casal ou a uma pessoa recasada, que não tem ou não pode ter um processo de nulidade, que está numa situação irregular, uma situação perante Deus e a doutrina da Igreja, que não é compatível com a confissão, mas pode acrescentar desde logo que pode ouvi-la, estar com ela, aconselhar, perceber quais são os incómodos e dar alguma direcção e algum conselho. É muito diferente uma coisa da outra.

Mas vocês, antes do resultado do processo, sentiam que estavam em pecado?
Lá está... Esse sentimento é sempre um bocado complicado. Se nós vivemos uma situação em Igreja, se sentimos que Deus está connosco apesar disso. Podemos ter essa sensação, de que é um pecado pela lei, mas sê-lo-á para a nossa consciência perante Deus? Uma coisa é a nossa consciência perante Deus, outra coisa é a nossa consciência perante nós próprios. Uma grande parte das pessoas que dizem: "Pela minha consciência", desculpem lá, mas é a sua consciência consigo próprios, não a sua consciência perante Deus, em oração.

Obviamente é pecado, segundo a doutrina da Igreja, mas é um pecado que pode não ter esse peso enorme se as pessoas vivem, ou procuram viver, essa vivência de fé inteiramente dedicada a Deus e à Igreja.

Claro que é sempre muito complicado. Também há situações daqueles que vivem "como irmãos" e que podem viver como irmãos, e aí vivem em comunhão com a Igreja. Mas essas são situações que, apesar de tudo, não são tão raras como isso tudo. Ultimamente tem havido muitos testemunhos que indicam que essas situações não são tão raras como isso tudo.

Mas isso é uma coisa que, sendo difícil, pode eventualmente pedir-se a um casal que esteja em sintonia na questão da fé. Mas no caso em que apenas uma das pessoas está próxima da Igreja é complicado...
Não! Nessa situação é muito complicado. Mas para um casal que segue o mesmo caminho isso é uma opção que se pode colocar. E acredito firmemente que Deus possa dar a graça a esse casal de viver assim.

Pode ser que eu esteja a dizer uma enormidade, mas o viver como irmãos é um compromisso que pode ser tomado entre eles e comunicado ao pároco. Como todos os compromissos e todas as fraquezas humanas, pode falhar uma vez ou outra, obviamente, e portanto desde que haja o compromisso sério e a consciência séria diante de Deus, pode acontecer uma falha, mas essa falha é confessada. Aí sim pode haver confissão. Não é dizer: "Eu ontem falhei e hoje também e amanhã tenciono falhar outra vez". Não é isso. Obviamente o compromisso pode ser falhado e pode ser confessado. Tal como qualquer solteiro também tem um compromisso de não ter relações sexuais e às vezes também pode acontecer e pode-se confessar e isso é perdoado.

O que é que lhe passava pela cabeça quando estava na missa e levantava-se tudo para ir comungar e você ficava sentado?
Ao princípio talvez seja a parte mais difícil. Sobretudo, quando se está por exemplo em situações como estive, de assembleias ou reuniões do Renovamento Carismático, em que as pessoas que lá estão estão por vontade própria, e por isso 99,9% vão comungar, é complicado. É complicado porque ficamos sós. Perguntava-me muitas vezes, a partir de certa altura: "Eu fico só e isso incomoda-me porque me sinto exposto, porque o meu orgulho fica ferido?" Mas ao longo do tempo Deus dá-nos a graça de podermos suportar e até ultrapassar essas situações.

Há igrejas no mundo em que as pessoas vão todas e aqueles que não podem comungar cruzam os braços e são abençoados pelo sacerdote. Mesmo que isso fosse prática em Portugal não sei se não faria exactamente como antes. No fundo o que acontecia era o seguinte... a partir de certa altura arranjamos maneira de nos defendermos de nós próprios e a certa altura o que fazia era que na altura da comunhão ajoelhava-me e enquanto durava a comunhão ficava ajoelhado em oração. Estava a fazer a minha comunhão espiritual. No fundo o que acontecia é que acabava por me sentir transportado pelos outros para a mesa da comunhão. Pelo que conversava com a minha mulher, com ela era a mesma coisa.

Portanto hoje em dia posso comungar eucaristicamente. Acho que uma vez ou outra tive comunhões tão intensas como as que tive espirituais. Mas tive comunhões espirituais fantásticas, espantosas, de uma presença de Deus ali fantásticas, que me transportavam. Precisamente porque há uma procura ainda maior, se é possível, claro que como humano que sou também sou fraco e às vezes também critico os outros e quer queiramos quer não, quando estamos nestas situações vemos os outros a ir comungar e dá vontade de perguntar o que é que vai fazer? Vemos pessoas que vão na fila da comunhão a conversar uns com os outros e depois vêm aos beijinhos, enfim...

O processo durou quase nove anos mas acabou por se comprovar a nulidade, como é que recebeu essa notícia?
O tribunal dá uma sentença e depois é confirmada por outro tribunal, ou não confirmada. De alguma maneira o Sim do tribunal de Leiria dava-nos a perspectiva de que o tribunal de Lisboa também daria. De qualquer das maneiras não foi... foi muito mais uma decisão recebida em paz, em sossego, do que em grande euforia. Não posso falar do que se passou como alegria. Foi uma paz, uma paz enorme, uma certeza de que Deus estava ali e tinha ajudado a cumprir aquele objectivo, aquele momento.

Já tinham filhos desse segundo casamento?
Já. Dois do primeiro e dois do segundo. O primeiro nasceu um ano depois de casarmos e o segundo quando já estava metido o processo.

Depois casaram pela Igreja?
Casámos logo a seguir, um mês ou qualquer coisa assim depois.

Como foi voltar a comungar depois de tanto tempo à espera?
Não foi nenhuma fúria, foi um confirmar de algo que nós vivíamos nas comunhões espirituais. É óbvio que foi muito bom, tanto que nós casámos numa sexta-feira e D. António Marto foi empossado como bispo de Leiria num domingo. E voltámos no domingo porque queríamos estar na missa. Logo naquela missa pudemos comungar. E na altura o padre Alcides, prior da Marinha Grande, na segunda-feira a seguir, eu estava a sair de casa para ir à missa das 19h, ele viu-me, deu-me um abraço, perguntou como tinha corrido e pediu-me para ajudar à missa, disse que queria que todas as pessoas soubessem que estava ao seu lado.

Achei fantástico, porque ele disse aquilo com uma vontade... de facto a paróquia da Marinha Grande é uma coisa extraordinária, porque fui sempre muito bem acolhido.

Num processo típico em que já existem filhos, e os filhos já estão na idade da razão, eles podem ser chamados a testemunhar e a fazer parte do processo?
Não. Que saiba não. A não ser que sejam dados como testemunhas por alguma das partes. Por regra não, são protegidos. É uma coisa que envolve o casal e os testemunhas que o casal queira arrolar.

Todos estes processos são obviamente difíceis. Se um divórcio já é difícil, traumatizante, sobretudo os que vão a tribunal, os processos de nulidade também são, porque é tudo escalpelizado, porque é preciso saber o porquê das coisas. Portanto é sempre bastante doloroso.

Existe algum cuidado por parte dos membros do tribunal, ou é um processo muito frio?
Conforme os intervenientes.

De uma maneira geral não me posso queixar. Não houve dureza, foi tudo visto, revisto e tornado a ver, mas com algum bom senso e discernimento e com dignidade. Mas ao que sei nem sempre as coisas funcionam assim. Quando estamos a falar da vida das pessoas é preciso ter algum cuidado, porque as pessoas vão recordar coisas dolorosas, difíceis. São colocadas perante os seus próprios erros. No meu caso a parte que tinha mais errado era eu, sem dúvida absolutamente nenhuma, portanto é doloroso, as pessoas têm de se enfrentar a si próprias. E sobretudo porque muitas vezes podem ter esta consciência de poderem estar a ferir, a magoar, com aquilo que estão a fazer.

Por causa do sínodo fala-se das mudanças que pode haver. Uma que parece reunir consenso é o agilizar dos processos de nulidade. Tendo passado por isso, o seu processo foi extraordinariamente longo, mas o que aconselharia?
Às vezes as pessoas são ouvidas variadíssimas vezes quando talvez fosse mais rápido determinar quais são os assuntos verdadeiramente importantes para aquele processo e ouvir especificamente sobre aqueles assuntos. Depois, não sei se já está mudado, penso que já está a mudar, é quando não se consegue encontrar a outra parte. Então as coisas arrastam-se, quase até à exaustão.

Depois quando a outra parte não quer ser ouvida. Insiste-se de tal maneira que por vezes a outra parte irrita-se mesmo. Se há uma declaração da outra parte a dizer que não quer, ninguém pode obrigar a nada. É preciso respeitar as pessoas.

Todo o processo de organização, que não sei em detalhe como é, por vezes torna-se moroso, às vezes também as dioceses têm falta de pessoas, os juízes são sacerdotes normalmente, que têm as suas paróquias. Muitas vezes dependem também de leigos, que muitas vezes se oferecem, incluindo juízes jubilados que tiram direito canónico e depois podem ajudar na formação do processo.

Há ainda certos itens da nulidade. Por exemplo, a falta de fé. A falta de fé é extremamente difícil de provar... é preciso encontrar balizas de algum tipo para conseguir com alguma agilidade e com algum bom senso, determinar se havia fé ou não.

Normalmente pensamos naqueles casos em que a pessoa mentiu, a pessoa já era casada, mas não pensamos na falta de fé. Se há coisa que é essencial para a validade de um sacramento é a fé. Hoje em dia assistimos a casamentos de certos jovens que percebemos não haver ali a mínima fé... Claro que a fé não se vê, mas percebe-se pela expressão, pelo modo de estar, pelas respostas, por tudo isso, que não há uma vivência da fé. Assim como para um adulto exige-se que faça uma catequese prolongada e que tenha consciência do que é Deus e o que é a Igreja, às vezes o matrimónio parece o sacramento mais tratado pela rama que os outros todos. Não exige, por exemplo, o estado de graça, a confissão. Verdadeiramente não exige. Os padrinhos de baptismo têm de ser baptizados e crismados etc. Para o crisma é preciso fazer uma catequese de adultos. Para o matrimónio há os CPM, mas o CPM, apesar de tudo, não é uma vivência... pode levar a isso, é bom que leve, mas pode não levar. Às vezes as pessoas estão a celebrar um sacramento, pela festa.

Acha que os padres deviam ter mais margem para recusar presidir a casamentos?
Eu acho. Vemos as estatísticas, a dizer que há cada vez menos casamentos católicos... será que isso é importante? O número? É como quando as pessoas me dizem que se a Igreja não mudar começa a ter menos pessoas. Mas a Igreja não é uma associação. Não tem sócios. Não pagam quotas. O desejo da Igreja é que todos se salvem, que todos estejam na Igreja, mas não pode mudar a doutrina só para angariar pessoas e apresentar números.

No sínodo tem-se falado sobre a admissão de pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. Se lhe pedissem a si a sua opinião, o que diria?
Antes disso queria dizer o seguinte. Temos assistido e vamos assistindo a uma permanente discussão, mais teológicas, filosóficas, existenciais, sobre os o facto de os casados poderem ou deverem confessar-se e comungar. Isto debate-se até à exaustão. Mas eu não vejo debater o modo de como é que os recasados podem viver em Igreja efectivamente sem confessar e sem comungar. O que é que a Igreja diz de claro, e esses teólogos e filósofos que falam disso, o que dizem realmente para as pessoas viverem? É que ao pensar em mim próprio e naquilo que vivi e em tantos casais que já conheço que vivem o que eu vivi e que muitos ainda vivem e que, muitos deles ainda vivem essa situação e não podem deixar de o fazer, e no entanto são felizes, vivem em harmonia, vivem com Deus, eu pergunto onde é que estão os documentos, as reflexões e as meditações que levem essas pessoas a perceber a graça que será viver em obediência à Igreja.

Porque me parece que, de maneira geral, há uma certa atitude de contestação e as atitudes de contestação normalmente levam a tensões. Levam a que não haja paz e se a pessoa vive numa revolta permanente, em vez de tentar ajudar as pessoas a serem fiéis ao que a Igreja diz e a perceberem a graça que daí advém.

Quando leio coisas que escrevi quando vivia aquela situação, fico espantado a pensar como é que eu escrevi aquelas coisas? Como é que eu vivia aquilo? Ao ler coisas que alguns casais que agora vivem assim escrevem eu fico maravilhado e digo que é fantástico, como é que vivendo esta situação irregular há esta aproximação de Deus, este toque de Deus tão profundo no coração e na vida.

Curiosamente a senhora desse casal dizia, sabe que eu escrevo as coisas e depois leio-as e penso, como é que eu consegui escrever isto? Porque Deus nos concede aquela graça fantástica! Voltamos à mesma história! Deus obedeceu! Obedeceu até à morte, e morte de cruz! A obediência é uma coisa extremamente difícil, porque hoje em dia está conotada com fraqueza, quando obedecer não significa ser fraco e a obediência dá-nos sempre uma maneira de estar que nos ajuda a vencer muitas outras coisas. Ajuda-nos, sobretudo, a viver em paz. Quase poderia partir de uma posição comodistas... Em vez de estar sempre chateado e zangado com a Igreja e com Deus por não me deixarem comungar, assim é mais cómodo!

Se me perguntam se os recasados devem poder comungar? Acho que é uma porta que se abre que depois é muito difícil de controlar. Porque se acredito ou julgo que alguns recasados que vivem intensamente o poderiam fazer e penso que daí não veria mal ao mundo, como se costuma dizer, como é que isso se afere? E aqueles que se estão a borrifar mas aproximam-se da comunhão sem mais nem menos?

Hoje em dia há muitos que dizem que não se confessam, mesmo podendo, e depois pergunto o seguinte. Para a pessoa poder comungar tem de estar em estado de graça. Para estar em estado de graça tem de se confessar. Para se confessar tem de dizer que à luz da doutrina da Igreja está em adultério. Como é que se absolve uma pessoa que vive em adultério? Quando o Papa instituiu aquela comissão para analisar os processos de nulidade frisou lá bem: "Que não ponha em causa a indissolubilidade do matrimónio"

Se não se pode por em causa, a partir do momento em que vive fora desse matrimónio com outra, está em adultério objectivo! Penso eu, não sei, mas julgo que sim.

Agora, há uma coisa que posso dizer. O sínodo vem aí e o que a Igreja disser é o que aceito no meu coração. Não faço tenções de discutir sequer. Se a Igreja disser que a partir deste momento podem comungar, fico felicíssimo, contentíssimo. Se disser que não podem fico felicíssimo e contentíssimo na mesma. Agora espero é que, seja qual for a decisão, que não seja uma decisão tout court. Haja alguma cosa que informe tudo isso. Não podem mas a Igreja vai preparar documentos, vai preparar sacerdotes, vai dizer como é que as pessoas pode viver e paz dentro da Igreja.

Definir claramente. Não pode comungar mas podem fazer leituras, por exemplo, que as coisas estejam definidas. Já que há a lei, que se definam as coisas. Muitas vezes vemos na Igreja alguma dualidade de atitudes. Nesta paróquia podem isto, mas na outra não podem. Numa paróquia não aceitam o fulano X como padrinho, mas na paróquia do lado já aceitam. Ali não posso ler, mas na outra posso. As coisas não podem ser assim. Não devem ser assim.

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