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Wednesday, 5 May 2021

Não sabemos a Hora

Elizabeth A. Mitchell
No conto macabro de Edgar Allen Poe “A Máscara da Morte Vermelha”, o Príncipe Próspero toma uma decisão surpreendente quando o seu reino é ameaçado por uma praga mortal. Ele tem poder absoluto e, por isso, encerra o seu palácio, fecha os portões e não deixa ninguém entrar nem sair, isolando-se da morte. Simples. Próspero e os seus cortesãos podem divertir-se em segurança, a Morte não consegue entrar. 

Até que entra. A morte chega, qual convidado indesejado nas soirées exclusivas do Príncipe, e todos os foliões, incluindo o próprio Príncipe, perdem a vida, sem se poderem proteger deste intruso.

E nós, com os nossos confinamentos modernos, com os nossos edifícios isolados e listas de pessoas “essenciais” não somos muito diferentes do Príncipe e das suas tolices. Pior, porque ao tentar manter a Morte fora da nossa sociedade, também fechámos as portas à Vida.

Eu tenho o privilégio de poder aceder a um lar perto de onde vivo. É uma instituição bem gerida e sobreviveu a esta crise sem qualquer surto significativo. Um triunfo para os idosos e uma alegria para todos os residentes. Mas como ninguém pode entrar e ninguém pode sair – nem o carteiro, nem amigos e familiares, nem mesmo o padre – também Cristo foi vedado.

Cristo costumava ser recebido todas as semanas e os residentes católicos apreciavam poder ir juntos à missa. Mas durante o confinamento, que foi mais severo nos lares do que em qualquer outra parte do país, o padre já não pôde entrar. Os residentes estavam ainda impedidos de se juntar em pequenos grupos para rezar. Aceitaram a sua nova realidade: Missa só na televisão, sozinhos, nos seus quartos.

Passaram-se meses. A Páscoa chegou e partiu e veio o calor do verão. Passou a primavera, e o Natal, sem visitas de familiares, e os residentes revelaram uma resiliência e uma força de vontade invulgares. Muitos viveram os tempos da Segunda Guerra Mundial, a vacina da poliomielite e outros desafios. Isto, concluíram, era difícil, mas viável.

Depois veio a Semana Santa e algo mudou. Residente após residente comentou o quanto sentia a falta da Eucaristia. Muitos destes católicos da vida inteira, habituados à missa diária, não recebiam a Eucaristia há mais de um ano. Nem uma vez. E não havia esperança de o fazer.

Foi então que se tornou evidente que, uma vez que eu podia entrar no edifício, Cristo poderia usar-me para aceder. Não duvido que Ele queria vir. Ele via estas almas amadas e ansiava poder estar com elas. 

A aprovação pelo nosso diretor-geral – quase um milagre em si mesmo – combinada com a confiança do pároco, levou à determinação de uma data para eu poder levar a Eucaristia aos residentes. À tarde de Sexta-feira Santa. Sexta-feira Santa? O único dia no mundo em que a Missa não é celebrada, em que Cristo está no sepulcro e o mundo aguarda a Ressurreição em silêncio e solidão.

Quantas hóstias quer? Perguntou o pároco. Vinte e cinco, respondi, pensando que chegaria. Mas algo dentro de mim dizia-me que seriam precisas mais, que devia pedir quarenta. Devia ter ouvido.

Cristo e eu chegámos pontualmente às 13h e fomos diretamente para a Sala das Actividades. Tinha sido colocado um aviso apressado no elevador a dizer que os católicos que quisessem receber a Santa Comunhão podiam juntar-se para a distribuição.

Entrei na sala e vi fé, fé pura, e devoção. Homens de fato, mulheres com colares de pérolas e as suas melhores roupas, todos cientes da presença de Cristo. Coloquei a píxide na mesa e começámos a rezar. Enquanto passava de residente para residente, proclamando: “O Corpo de Cristo”, ouvia a resposta habitual: “Amen”, seguida de “Obrigado!”

Durante a Acção de Graças uma senhora na fila da frente inclinou-se para mim sobre a sua bengala e repetiu: “obrigado, obrigado, obrigado por nos trazer Cristo”.

O Senhor não se esqueceu daqueles indivíduos que nem conseguiam descer até à sala de um edifício confinado numa Sexta-Feira Santa tranquila para O receber. Ele viu-os, os mais isolados, sozinhos nos seus quartos, e foi ao seu encontro. Todos eles. Pelo nome.

Tinham-me dado uma lista de todos os católicos registados quando cheguei: quarenta nomes. Comecei a partir as hóstias em dois, dado o número de almas que desejavam Cristo, enquanto caminhava pelos corredores, batendo nas portas que me tinham sido indicadas, perguntando alto: “Gostaria de receber a Eucaristia?”

A resposta? Suspiros. Lágrimas. Alegria. “Agora? Posso receber a Eucaristia agora?”, perguntavam estupefactos.

Um homem caiu de joelhos à entrada do seu quarto quando me abriu a porta para receber a Eucaristia ali, na ombreira. “Senhor, eu não sou digno”.

Outro, que estava sentado sozinho no sofá a ver a bola, sentou-se direito, surpreendido e expectante, e rezámos juntos. “Senhor, que entreis na minha morada”.

Um casal estava sentado junto na sala de estar do seu apartamento. O marido precisou de ajuda para levar a Eucaristia até à boca, porque tinha as mãos paralisadas.

Alguns dos que estavam na lista já não estavam vivos, tinham sido chamados de volta ao Senhor durante o ano que passou.

Outros foram hospitalizados entretanto, por questões de saúde inesperadas. A sua Eucaristia de Sexta-feira Santa acabou por ser um viático. Não sabemos a hora.

Repeti a cada residente: “Cristo sabia que estava aqui. Ele vê-o. Ele queria vir. Arranjou maneira”.

Uma das mulheres limitou-se a chorar, inclinando-se sobre a sua bengala à entrada do quarto. “Obrigado”, murmurou, “não recebia a comunhão há mais de um ano”. Corriam-lhe lágrimas de gratidão pela cara.

Cristo vê-nos. Ele encontra-nos. “Ele nunca vos falhará ou abandonará” (Deuteronómio 31,6). Não há muro no mundo que o consiga excluir. Nenhum poder do Inferno pode superar a sua força. Nenhuma pandemia nos pode separar, se estivermos dispostos a recebê-lo.

Não sabemos nem o dia, nem a hora, mas a sua vinda é certa. A sua Vida triunfa sobre a Morte, porque a vitória já lhe pertence.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 2 de Maio de 2021 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Monday, 12 October 2020

Adivinhem quem voltou?*

Estou de volta! Meses de confinamento mais tarde e de fazer horários que não se prestavam a enviar e-mails e fazer posts, vamos lá ver se consigo retomar o hábito.

Hoje temos uma bela mistura de temas, desde Fátima a Yazidis.

Foi precisamente em Fátima que reuniu o Conselho Permanente da Conferência Episcopal, que deu apoio à ideia de um referendo sobre a eutanásia, não porque o a vida seja referendável, mas porque assim dá-se a possibilidade aos portugueses de pensarem melhor no assunto.

Os bispos lançaram também um sentido apelo às autoridades para que mantenham os cemitériosa bertos nos dias 1 e 2 de novembro, para que as pessoas possam ir homenagear os seus familiares mortos, porque não é só a Covid que mata, a saudade e o luto mal resolvido também.

Há quatro guardas suíços infectados com Covid-19, mas isso não impediu o Papa Francisco de receber o Cardeal Pell em audiência privada. Se não sabe porque é que isso é importante, então leia mesmo o artigo.

E da Síria vem-nos a triste notícia da perseguição aos yazidis. Nos outros anos foi às mãos do Estado Islâmico, mas a diferença desta vez é que agora é por um grupo jihadista apoiado pela Turquia. (Podem ler em modo ironia, se quiserem… Eu não disse nada…)

Nestes meses de ausência não deixei de publicar artigos do The Catholic Thing. No mais recente olhamos para como os Santos Cosme e Damião podem servir de exemplo aos profissionais de saúde dos nossos dias.


*Pensavam que ia dizer que era eu? Mas foi o Pell

Wednesday, 8 July 2020

Máscaras e a Sagrada Face

David G. Bonagura
A notícia atingiu-me como um choque eléctrico vindo do computador. No meio do confinamento, durante a missa diária da minha paróquia, a que assisti pelo YouTube, foi anunciado que o pai de um antigo aluno meu estava entre os infectados e a precisar de orações. Poucos dias mais tarde soube, da mesma forma, que o Joe Senior tinha morrido. Em vão procurei notícias. Não houve velório, funeral ou obituário público e os meus pedidos à paróquia não obtiveram resposta. Conhecia o Joe Senior dos quatro anos em que dei aulas ao seu filho; eles os dois tinham partilhado connosco os despojos de uma caçada há vários anos. O meu coração pesava por eles e pela sua mulher, que também tinha conhecido.

Algumas semanas mais tarde estava a ajudar a orientar as pessoas na missa de Domingo (com a Igreja a 25% de capacidade) quando entraram o Joe Junior e a sua mãe. Fixei os meus olhos nos dela e senti a minha face a manifestar simpatia. Mas a minha expressão não obteve resposta, ou pelo menos assim pareceu. As nossas caras estavam escondidas atrás de máscaras. Não nos podíamos abraçar. Tentei expressar o meu pesar e saber o que tinha acontecido, mas não foi possível com as nossas vozes abafadas atrás da máscara. O pedaço de tecido que estava a proteger a nossa saúde estava, ao mesmo tempo, a afligir as nossas almas. As máscaras criaram um momento doloroso e desconfortável.

Não estou a argumentar contra o uso de máscaras para evitar a propagação do vírus. Temos de fazer o que temos de fazer. É, antes, uma recordação (e temos tido tantas nesta pandemia) de algo preciso e que damos por adquirido: expressões faciais, que são o mais genuíno dos gestos humanos. Como os sacramentos, tornam visíveis os anseios invisíveis do coração, muitas vezes antes sequer de as palavras terem chegado às nossas bocas. Seja em momentos de dor, triunfo ou alegria, a face abre uma janela para a alma.

Esperamos que as máscaras se venham a tornar relíquias de um ano inesquecível quando finalmente vencermos a Covid-19. Por enquanto, porém, elas provocam alienação entre nós, no sentido mais verdadeiro da palavra: tornam-nos estranhos, estrangeiros, até dos nossos amigos próximos. As máscaras até já transformam o sorriso casual a um desconhecido, esse gesto tão simples, benévolo e quase automático, num olhar estranho. As caras tapadas escondem os nossos verdadeiros seres e formam uma barreira ao cumprimento da nossa vocação enquanto homens e mulheres chamados à comunhão uns com os outros e com Jesus Cristo.

Mas este meu encontro também me levou a pensar noutra face que nunca se cobriu, apesar dos perigos e ameaças. A sagrada face de Nosso Senhor, desprotegida do cuspo e das chapadas dos seus captores. Existe uma devoção piedosa à sagrada face de Jesus, menos conhecida do que deveria ser e de que eu me tinha esquecido. Compreendi logo que a pandemia e a crise civilizacional actuais são o ambiente perfeito para a retomar.

Há uma imagem da sagrada face de Jesus preservada de forma miraculosa no Véu de Verónica, que agora está guardado na Basílica de São Pedro. Na década de 40 do Século XIX, quando as revoluções políticas varriam a Europa, Nosso Senhor revelou à Irmã Marie de Saint-Pierre, uma carmelita francesa, que a blasfémia e a profanação dos domingos feria a sua sagrada face como “flechas envenenadas”. A blasfémia, em particular, comparou a ser insultado na face.

Ele pediu que oferecêssemos a sua sagrada face em oração a Deus Pai, em reparação e pela conversão dos pecadores. Como antídoto, apresentou a oração da “Flecha de Ouro”, a recitar diariamente e, juntamente com ela, esta oração simples: “Pai Eterno, eu Vos ofereço a adorável Face do Vosso Filho muito amado pela honra e glória do Vosso Nome, pela conversão dos pecadores e pela salvação dos moribundos”.

O venerável Leo Dupont, amigo da Irmã Marie, espalhou a devoção à sagrada face de Jesus em França, onde começaram a ocorrer curas milagrosas, atribuídas à sagrada face. O Papa Leão XIII aprovou a devoção, estabelecendo a Arquiconfraria da Reparação à Sagrada Face de Jesus, para que católicos em todo o mundo pudessem participar. Entre os mais entusiastas em França encontrava-se a família Martin, cuja filha, quando entrou para o Carmelo, adotou o nome Thérèse do Menino Jesus e da Sagrada Face.

A jovem santa compôs a sua própria belíssima oração à sagrada face de Jesus, cujo início se aplica muito bem aos nossos tempos. “Ó Jesus … eu adoro a Vossa Divina Face sobre a qual resplandecem a beleza e ternura da Divindade e que agora se tornou para mim como a face de um ‘leproso’. Mas sob estes traços desfigurados reconheço o Vosso infinito amor.”

A sagrada face de Jesus é o ponto perfeito de meditação para uma nação cuja realidade sanitária e civil está numa encruzilhada. A nossa oração universal agora, contudo, vinda da profundeza da nossa alma, é simples: Livrai-nos do mal. O único que o pode fazer passa irreconhecível, mascarado pelos crescentes pecados de todo o género. Só se escutarmos o seu pedido de fazermos reparação pelos nossos pecados e pelos que o desonram é que Ele nos reparará. E só quando nós formos reparados é que a vida social e civil terá qualquer possibilidade de ser reparada.

A Verónica não tinha qualquer cargo ou poder. Mas o seu gesto de compaixão aparentemente ínfimo para com a sagrada face do Senhor continua a ter impacto nos nossos dias, ao contrário das decisões políticas do seu tempo. Enquanto contemplamos a sagrada face, recordemo-nos de que a única forma de ultrapassar a alienação actual é através de um maior amor a Deus.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de julho de 2020 no The Catholic Thing)

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Saturday, 2 May 2020

Missas só a 30 de maio? Uma confusão prejudicial e desnecessária

O Governo anunciou na quinta-feira que as celebrações religiosas comunitárias só regressam a 30 de maio e os bispos portugueses acabam de confirmar a decisão este sábado à tarde.

Pelo meio temos padres a anunciar missas em drive-in, outros a lamentar as decisões em homilias gravadas, fiéis a lançar e a assinar petições. Há muita revolta no ar, mas parece-me haver, acima de tudo, falta de certezas.

A decisão de só abrir as missas aos fiéis no final do mês pode ser inteiramente defensável. No máximo, será discutível. Não é isso que está em causa. O que interessa é saber se a decisão foi tomada em diálogo com as confissões religiosas ou é uma imposição.

É o Governo que está, fora de um estado de emergência, a proibir as missas com fiéis? Pelo que percebo de Direito (pouco, mas tento ler de quem percebe), não o pode fazer.

Mas o facto de ter sido o Governo a anunciar a decisão não significa que ela tenha sido tomada unilateralmente pelo Governo. Sabemos que António Costa tem estado em contacto com os bispos e por isso esta pode perfeitamente ter sido uma decisão alcançada em conjunto, ou sugerida pelo Governo e aceite pelos bispos, ou mesmo tomada unilateralmente pelos bispos e aceite e anunciada pelo Governo.

As afirmações do Bispo do Porto à Renascença permitem concluir que pelo menos não parece haver qualquer discordância por parte dos bispos em relação a esta decisão. Mas não nos diz mais do que isso.

Hoje a CEP emitiu um comunicado em que a questão poderia ter ficado esclarecida, mas não ficou. Lê-se: “Através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 33-C/2020, que estabelece uma estratégia de levantamento de medidas de confinamento no âmbito do combate à pandemia da doença COVID-19, o Governo decidiu para 30-31 de maio, no que diz respeito a ‘cerimónias religiosas’, o reinício das ‘celebrações comunitárias de acordo com regras a estabelecer entre DGS e confissões religiosas’.”

“Tendo em conta somente estes elementos, a retomada gradual das celebrações comunitárias da Eucaristia, já anunciada pelo Governo, deverá iniciar-se, em princípio, a 30 maio, véspera da Solenidade do Pentecostes. A data depende ainda da avaliação que o Governo se propõe fazer da situação, nesta primeira etapa do desconfinamento. As Dioceses insulares terão em conta as indicações das respetivas autoridades regionais.”

O sublinhado é meu e serve para mostrar a frase chave. Afinal, ao que parece, foi o Governo que decidiu. Mas mesmo isto é vago. O Governo decidiu depois de escutados os bispos? Decidiu com base na recomendação dos bispos? Tudo isto continua a ser possível. Alguém há de saber, mas nós não.

Temos então dois cenários.

Se estamos perante uma imposição do Governo, tout court, independentemente de os bispos acharem boa ideia, é uma coisa grave. O Governo não tem de decidir estas coisas, quem tem de decidir são os bispos. Há processos que é preciso respeitar precisamente para garantir a independência da Igreja e a liberdade religiosa. Julgo que a maioria das reações de revolta que tenho visto existem porque as pessoas estão a partir do princípio que foi isso que aconteceu. Contudo, pode não ser!

Se tudo foi feito nos conformes, então as petições, as missas drive-in e as homilias reivindicativas já não são dirigidas contra o Governo, mas sim contra os próprios bispos. E esse é um caminho insensato e perigoso para os católicos trilharem. Infelizmente, contudo, tem-se tornado cada vez mais comum e, infelizmente, em muitos casos por parte de católicos que deveriam ser os primeiros a defender a autoridade dos bispos.

Todos queremos o regresso das missas, e todos queremos contribuir da melhor maneira para que esta pandemia passe. O que parecia que ia ser um tempo de privação espiritual tornou-se, ao longo destes dois meses, uma fonte de grande riqueza, com as famílias a descobrirem novas formas de viver a sua fé e de a partilharem. Pelo menos tem sido assim com a minha, e com muitas que conheço. Temos podido compartilhar um pouco o sofrimento de tantas comunidades cristãs no mundo que estão privados dos sacramentos, por razões de segurança, de distância ou de escassez de vocações.

Há de passar, mais cedo ou mais tarde. Se for no dia 30 de maio, que seja. Se for mais cedo, glória a Deus!

Mas seria uma tragédia se agora caíssemos na tentação – e é uma tentação – de transformar esta recta final numa desculpa para nos dividirmos e nos colocarmos uns contra os outros e contra os nossos bispos.

Dito tudo isto, queria terminar dizendo apenas que tudo isto seria bastante fácil de evitar. É uma questão de comunicação. Os bispos podem – e devem, a meu ver – falar abertamente e pessoalmente – não apenas através de comunicados – com o seu rebanho para explicar quem tomou esta decisão e porquê.

E a nós, suas ovelhas, cabe apenas aceitar e dar graças a Deus.

Wednesday, 8 April 2020

A Pulga de Justiniano - Redux

Francis X. Maier
Algures no início do Século VI em África, uma bactéria que causava uma doença ligeira encontrou um hóspede novo e promissor: uma pulga. Através dessa pulga, e muitas outras, a bactéria sofre mutações até se tornar algo muito diferente. Migrando pelo Rio Nilo acima através de ratazanas, chegou aos celeiros de Alexandria. Depois, através de navios, atravessou para os mercados de Constantinopla, no ano 542.

No espaço de cinco meses, matou metade da população da capital do Império Bizantino. A praga descarrilou os esforços do Imperador Justiniano de restaurar o Império Romano do Ocidente. Paralisou os impérios bizantino e persa durante gerações e deixou-os maduros para a expansão islâmica no ano seguinte. Para todos os efeitos, pôs fim à Era da Antiguidade.

Pelo menos é essa a teoria de William Rosen no seu entusiasmante livro de 2007, sobre a primeira grande pandemia da Europa, “A Pulga de Justiniano”. O mesmo tema – o poder da doença para promover as mudanças civilizacionais – foi retomado no passado fim-de-semana (28 e 29 de Março), pelo historiador Frank Snowden, de Yale, num artigo do Wall Street Journal. Snowden concentrou-se sobretudo nos surtos da Peste Negra na Europa medieval e do renascimento. Cada uma destas pandemias ocorreu em culturas cristãs. Os que sobreviveram ficaram impressionados com a ideia de que podiam morrer a qualquer momento, sem aviso, por isso deviam preocupar-se com a alma imortal.

Isto conduziu à prática generalizada do “arrependimento, a autodisciplina e a oração”. A Igreja foi muito solicitada. Morreram incontáveis membros do clero, na assistência aos doentes. Estas perdas, por sua vez, moldariam o carácter e o rumo das igrejas por várias décadas.

A actual situação com o coronavírus é ao mesmo tempo diferente e semelhante às pandemias do passado. É diferente na taxa de mortalidade. A covid-19 é um assunto sério, muito perigoso para certas idades e grupos de risco, e muito contagioso. Mas a grande maioria das pessoas que ficarem infetadas vão recuperar. Isto deve-se também à capacidade das autoridades sanitárias para compreender e responder à crise.

Ao mesmo tempo, a crise é semelhante na medida em que lança uma sombra de mortalidade sobre culturas que se habituaram a décadas de autoconfiança, distrações e riqueza. Toda a gente sabe que um dia vai morrer, mas tornámo-nos especialistas em evitar pensar no assunto. Para as nações ricas e para as suas elites a festa acabou. Pelo menos por agora. 

Uma das coisas que torna esta crise diferente é a resposta das pessoas, em termos religiosos. No Irão, e noutros países muçulmanos, multidões forçaram a entrada nas mesquitas fechadas para poderem rezar. Em contraste, no Ocidente muitos cristãos expressaram a sua frustração com o encerramento das igrejas, mas na maioria aceitaram a prudência da decisão.

Hoje é fácil acompanhar a missa dominical online. O mesmo se aplica a retiros, reflecções e cursos católicos que preenchem o vazio deixado pelo culto. Muitos padres estão a ouvir confissões em ambientes cuidadosamente higienizados e regulados. A adoração eucarística, com distanciamento social apropriado, está a realizar-se durante várias horas por dia, todos os dias.

Mas o sentido de uma cultura cristã partilhada, com um vocabulário que dá sentido ao sofrimento, perdeu-se – e com ele a viragem comum para o “arrependimento, autocrítica e oração”. Enquanto nação desviámos os olhos durante décadas enquanto outros apagavam Deus do nosso vocabulário, do nosso pensamento e das instituições que sustentam a nossa vida pública. Agora que precisamos dele as pessoas já não têm as palavras nem a memória para o encontrar.

A lição mais comovente para os fiéis, durante esta crise, pode ser o sentido de perda e de depressão por que passam muitos dos nossos padres. O meu pároco ressuscitou uma comunidade moribunda no espaço de três anos. Deu-lhe novamente um sentido. A participação na missa voltou a ser uma alegria.

E ele é dos que têm sorte. Vem de uma família grande, com muitos parentes, não está, por isso, sozinho; mas alguns dos seus colegas não têm nada para além de uma casa paroquial vazia. Ainda assim, grande parte da sua vida enquanto pastor de uma comunidade viva está suspensa há semanas.

A escola paroquial está fechada. Os donativos que sustentavam a vida paroquial, e que tinham melhorado substancialmente, diminuíram, porque ninguém está nas igrejas. E alguns dos mais tímidos não voltarão quando a Igreja reabrir. Já estavam hesitantes, não os voltaremos a ver.

A “mudança civilizacional” provocada pelo coronavírus pode ser menos drástica que as pandemias do passado. Mas para os cristãos ocidentais clarifica as lealdades de forma dolorosa.

Pouco antes de morrer, o grande romancista católico francês Georges Bernanos escreveu que enquanto a fé e o amor cristãos “não desaparecerem do mundo, enquanto o mundo tiver a sua dose de santos, certas verdades podem ser esquecidas. Agora [essas verdades] estão a reemergir, como rochas na maré vazia. São a santidade e os santos que mantêm a vida interior sem a qual a humanidade se deve rebaixar ao ponto de extinção”.

A doença que nos cerca este ano, enquanto nos preparamos para a Semana Santa, é para nós um espelho das nossas verdadeiras preocupações e desejos. É uma oportunidade para rezar por todos os que sofrem com este vírus; de recordar e rezar pelos nossos padres; de nos apoiarmos como pudermos; e de valorizar o tempo precioso que temos com as pessoas de quem gostamos. E é ainda um convite a examinar a infecção de mundanidade que alastra nos nossos corações.

A vida, como somos agora forçados a recordar, é frágil. Ninguém nos pode obrigar a oferecer-nos sincera e totalmente a Deus, mas se alguma vez houve um tempo para o fazer, é agora.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 1 de abril de 2020)

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Wednesday, 25 March 2020

Não Fazer Nada é Fazer Tudo

Helen Freeh
Confrontados com um ataque, um desastre natural ou um acto de guerra o Ser Humano sente uma vontade incontrolável de fazer algo. No Nebraska sofremos inundações históricas o ano passado e os nossos cidadãos uniram-se para construir barreiras com sacos de areia, limpar, doar comida e água. Havia algo para fazermos em resposta à catástrofe. Recentemente Nashville, no Tennessee foi atingido por tornados que mataram 25 pessoas e devastaram uma grande parte da baixa. Milhares de pessoas vieram ajudar nas operações de busca e na limpeza da cidade. Tantas, aliás, que as autoridades tiveram de mandar pessoas embora.

Está no nosso sistema fazer algo em reação ao sofrimento, perda, ataques e ameaças à comunidade.

Mas agora que enfrentamos a maior disrupção da vida global desde a Segunda Guerra Mundial, tudo o que somos chamados a fazer é – nada. Não nos podemos mobilizar para confrontar o assalto global do novo coronavírus. Não nos podemos alistar. Não podemos doar aço e borracha para o esforço de guerra. Nem sequer podemos marchar em protesto ou em solidariedade com as políticas do Governo.

A mobilização a que somos chamados é a mobilização do isolamento.

Fazer algo, agora, é ficar em casa, não ir trabalhar, nem à escola, a festas, eventos desportivos, concertos ou – infelizmente, para muitos de nós – à missa. O nosso dever cívico e até moral é de nada fazer. Agora, em plena Quaresma, a três semanas do grande Tríduo e das celebrações pascais da Igreja, fomos chamados pelo nosso Governo a entrar numa vida enclausurada e monástica nas nossas próprias casas. Não devemos menosprezar o significado disto.

No seu livro “Deus ou Nada” o cardeal Sarah alerta para a “heresia do activismo”, um indício de que nos esquecemos de que o coração da nossa vida encontra-se apenas em Deus. O ritmo da vida contemporânea cria uma cegueira e surdez para a realidade da nossa dependência de Deus. Somos peregrinos neste mundo e a maior parte da nossa vida foge ao nosso controlo.

Esta situação do coronavírus revela a realidade como ela sempre foi. O vírus, tal como outros desastres naturais, foge ao nosso controlo. O que podemos controlar são as nossas reações à situação. O nosso falso sentido de poder foi-nos retirado e estamos desnudos. Este despir do poder revela a beleza da vida escondida debaixo destas exterioridades. Como lemos em Colossenses 3,14 e em 1 Pedro 4,8, a caridade liga todas as outras virtudes domina sobre elas como rainha.

A nossa situação está repleta de paradoxos com um profundo significado simbólico espiritual. Para fazer algo contra este contágio, devemos fazer nada. Para fortalecer a nossa aliança global, cada nação deve fechar as suas fronteiras aos outros. Nunca estivemos tão ligados uns aos outros em espírito por nos desligarmos uns dos outros fisicamente. Por amor aos nossos vizinhos, não os devemos visitar. Para manter as nossas comunidades fortes, devemos quebrá-las. A própria sociedade é composta agora por lares isolados. E espiritualmente aproximamo-nos de Deus e do seu corpo mantendo-nos afastados da sua presença sacramental.

A vida de clausura tem desafios e benefícios. Um dos benefícios é que agora podemos todos andar descalços, mas fomos colocados nesta situação contra a nossa vontade e sem uma preperação adequada. Mesmo dentro das nossas celas, porém, ainda podemos “fazer” algo. A forma de nos mobilizarmos, de “fazermos” alguma coisa, é ajudar os nossos amigos e familiares a serem santos monges. Isto inclui o encorajamento de outros, conhecidos e desconhecidos, através das redes sociais. Agora é tempo de edificar o Corpo de Cristo, não de o despedaçar. Os nossos primeiros pensamentos para com os outros devem partir da caridade e ser vistos pela óptica da caridade.

Uma das verdades enfatizadas por este vírus é o isolamento da nossa população mais velha. Há soluções práticas que podemos implementar em reposta a isto. Estou a sugerir à minha paróquia que emparelhe jovens saudáveis com pessoas mais velhas e vulneráveis. Os saudáveis contactariam os idosos todos os dias para saber se precisam de alguma coisa, mesmo que apenas precisem de falar. [Veja aqui um exemplo bem sucedido disto em Portugal].

O isolamento já é difícil para uma família, imaginem agora o quão difícil é para aqueles que já viviam sozinhos. As nossas paróquias podem ajudar, iniciando programas para “adoptar um paroquiano”, chegando assim aos que neste momento estão em maior risco e com mais medo. É um acto de caridade que poderia salvar vidas.

A todos é pedido que experimentemos um jejum severo. Recordem-se que não jejuamos de coisas pecaminosas, mas das coisas boas, para nos unirmos mais a Deus, a fonte de toda a nossa vida. Agora devemos jejuar do bem que é a vida comunitária. Mas os jejuns não são para sempre. Pensem no quanto vamos festejar, enquanto comunidade global, quando terminar este jejum!

Damos por adquirida a nossa comunhão com outras pessoas e damos por adquirida a comunhão sacramental na missa. Mas o significado desta comunhão quotidiana revelou-se agora através do mal da separação. O livro do Genesis tem uma frase belíssima em que José diz aos seus irmãos: “A vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem”. O coronavírus e os seus efeitos são um mal e a nossa resposta pode prolongar ou piorar os seus efeitos, ou então podemos colaborar com Deus e transformar este mal em bem.

O isolamento social é a cruz que todos somos chamados a tomar agora. Mas se abraçarmos a nossa cruz ela conduzirá a uma plenitude de vida que de outra forma não poderíamos conhecer.

Esta experiência histórica de sofrimento comunitário é um grande dom que nos foi dado – o dom do tempo para rezar, para refletir e – se conseguirmos encará-lo dessa forma – de lazer. Abracemos aquilo que não podemos escapar e aceitemos que neste momento o nosso “nada fazer” é precisamente o que todos devemos fazer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 23 de Março de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Tuesday, 24 March 2020

A Igreja Católica no combate ao coronavírus

NOTA: Deixei de atualizar este artigo, simplesmente porque não tinha tempo para isso. Penso que cumpriu o seu propósito.


Por mais do que uma vez tenho visto, nas redes sociais, pessoas a questionar o que a Igreja está a fazer para colaborar no combate ao coronavírus. Desde pessoas a perguntar quantos ventiladores a Igreja ofereceu ao SNS a outros que questionam o silêncio do Vaticano, há um pouco de tudo.

Eu bem sei que não é um concurso. Mas por uma questão de transparência, de verdade e de memória futura, decidi abrir este artigo para ir juntando referências fundamentadas de todas as contribuições da Igreja nesta luta.

Aqui vou apenas contabilizar iniciativas da Igreja institucional. Simplesmente não é possível juntar iniciativas individuais de pessoas que são movidas pela fé e que, como sabemos, são inúmeras, entre profissionais de saúde que estão na linha da frente, a voluntários que ajudam a alimentar os sem-abrigo ou a fazer companhia aos idosos em isolamento ou que simplesmente estão a cuidar das suas famílias o melhor que podem.

Eu não sei tudo. Conto por isso com a ajuda de todos os meus leitores para me manterem informado e adicionarem, nos comentários do post ou das publicações nas redes, as iniciativas que conhecem. Vejam é se não estão já incluídas sff.

Vamos a isso…

Portugal
O Santuário de Fátima anunciou na terça-feira, dia 24 de março, a oferta de três ventiladores ao SNS. No mesmo dia a diocese de Viana do Castelo iniciou uma recolha de fundos para adquirir ventiladores para o hospital local. A mesma diocese de Viana do Castelo já tinha, na véspera, colocado todos os seus serviços logísticos ao dispor dos médicos e restantes profissionais que estão na linha da frente do combate ao coronavírus.

Em entrevista à Renascença, D. António Marto falou ainda de casos nas dioceses de Braga, Leiria e Aveiro: “a arquidiocese de Braga pôs à disposição um hotel no Bom Jesus, para os profissionais de saúde, a diocese de Aveiro também pôs à disposição uma ala do seminário, e aqui na diocese de Leiria também disponibilizámos uma casa de retiros, em resposta ao que nos foi solicitado, sobretudo pelos profissionais de saúde, pelos agentes sanitários”.

A diocese de Santarém disponibilizou um edifício para as autoridades e pediu ainda aos seus fiéis que seguissem o exemplo

Estas ofertas de ajuda das dioceses portuguesas devem ser lidas à luz da garantia dada por D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal de disponibilidade total para ajudar as autoridades no combate à covid-19. A Igreja foi ainda das primeiras instituições a implementar o isolamento profilático, suspendendo as missas comunitárias.

Em Bragança as instituições de solidariedade social da Igreja mobilizaram-se para ajudar os idosos e mais vulneráveis a ultrapassar este período de isolamento social. Em Lisboa também há vários casos, como o do Centro Social e Paroquial São Francisco de Paula, que por ter de fechar o centro de dia arranjou voluntários para telefonar todos os dias aos idosos para fazer companhia e saber se está tudo bem.

Na paróquia de Santa Cecília, na Madeira, o grupo de acólitos disponibilizou-se para ajudar os idosos que ficam em isolamento.

A diocese de Angra, nos Açores, ofereceu às autoridades a Clínica do Bom Jesus, como meio complementar.

Os padres da diocese da Guarda, com a aprovação do seu bispo, juntaram-se a uma iniciativa de angariação de fundos para adquirir um ventilador para a Unidade de Saúde Local da Guarda.

O padre Sandro Vasconcelos, em Braga, lançou a iniciativa "Uma mão amiga" e vai ele fazer compras pelos idosos que não podem sair de casa. Também em Braga a Pastoral da Saúde lançou uma linha de escuta e apoio espiritual e a arquidiocese lançou uma bolsa de recursos humanos para ajudar a socorrer os lares que precisam.

A arquidiocese de Évora disponibilizou 25 camas no seu seminário para uso de médicos e demais profissionais de saúde do Hospital do Espírito Santo, daquela cidade

A Cáritas de Lisboa fez donativos para reforçar a capacidade de ajuda de três instituições: A Comunidade Vida e Paz (40 mil euros), o Banco Alimentar Contra a Fome (40 mil euros) e a ReFood (25 mil euros). A informação consta de uma nota enviada pelo Patriarcado de Lisboa. A mesma nota informa ainda que foram entregues mais de 40 mil euros a cinco paróquias que diariamente oferecem refeições a mais de 1.300 pessoas. Quem quiser contribuir para a Cáritas pode fazê-lo através de transferência para este NIB 0033.0000.5005.7111.7070.5

De Viseu chega a notícia de que a diocese ofereceu 50 camas para funcionários de saúde e que há casas paroquiais a preparar mais.

A crise pôs também à prova as instituições de solidariedade que em muitos casos ficaram sem voluntários. A Comunidade Vida e Paz, porém, esforçou-se para garantir o apoio continuado aos sem-abrigo, tal como fez a Associação João 13.

Iniciativa diferente tiveram os alunos do curso Técnico de Desenho Digital 3, do Instituto Nun'Alvares, dos jesuítas, que estão a aproveitar o seu conhecimento para produzir material de proteção pessoal para o Centro Hospitalar do Médio Ave. As monjas concepcionistas, de Campo Maior, estão a convidar os profissionais de saúde a inscreverem-se para que do convento possam rezar por eles.

Em várias partes do país os escuteiros estão mobilizados. É o caso de um agrupamento de Tavira, no Algarve, que está a ajudar a distribuir refeições a pessoas vulneráveis, para não terem de sair de casa.

A diocese do Porto já disponibilizou vários espaços para uso das autoridades no combate à pandemia e está a fazer um levantamento para saber que outras se podem ceder, inclusivamente a idosos que tenham de ser retirados dos lares. O bispo do Porto lançou um apelo a que as empresas demonstrem ética e não aproveitem o momento para despedir funcionários. Duas paróquias da Trofa decidiram doar os 80 mil euros que tinham destinado a obras, para ajudar o hospital de São João a enfrentar esta crise e D. Manuel Linda disponibilizou 150 camas para isolamento após rastreio. O anúncio foi feito pelo próprio bispo na sua conta do Twitter.

Na diocese de Bragança-Miranda os serviços da Igreja estão abertos para acolher e cuidar dos filhos dos profissionais de saúde, para dar dormida aos que estão envolvidos no combate à covid-19 e para ajudar os mais idosos através da compra de alimentos.

O Grupo Renascença, emissora católica portuguesa, também fez um donativo de material médico a dois hospitais para ajudar na luta contra a covid-19.

A Ordem de Malta tem mais de 200 voluntários no terreno e cedeu meios logísticos, como tendas de campanha, ao combate à covid-19.

Nem vou listar aqui as palavras dos bispos portugueses de apoio moral às autoridades e espiritual aos fiéis. Duvido que haja um único que não o tenha feito.

Vaticano
O Papel do Papa nesta crise tem sido de pastor, encorajando os seus fiéis e não só e dando apoio espiritual. A acusação de silêncio por parte do Vaticano é absurda.

Desde que a crise começou o Papa:

Antes de a crise chegar a Itália a Santa Sé ofereceu mais de 600 mil máscaras à China para ajudar a combater a propagação da doença. O Papa fez um donativo pessoal de 100 mil euros à Cáritas italiana para ajudar os pobres e sem-abrigo de Roma, e o Vaticano continua a doar comida para ajudar na sua alimentação. Este artigo ilustra bem a atitude do Papa e da Curia romana diante desta crise. 
O Vaticano tomou a iniciativa de fechar os seus espaços aos turistas antes da declaração de quarentena do Governo italiano e o Papa cancelou as suas aparições públicas.
O Cardeal Peter Turkson emitiu uma reflexão em que comparaas vítimas do coronavírus a Cristo que sofre.
No dia 26 de março foi notícia que o Papa ofereceu 30 ventiladores aos hospitais das zonas mais duramente afetadas pela pandemia. 


Internacional
A Conferência Episcopal de Itália, o país mais duramente atingido pelo Coronavírus neste momento, fez um donativo de 10 milhões de euros à Cáritas italiana para ajudar no combate ao Coronavírus. Este valor foi reforçado em 3 milhões, mais tarde, dados diretamente ao Estado. 
A diocese de Milão juntou-se à Câmara Municipal e juntos criaram o Fundo de São José, no valor de 4 milhões de euros, para ajudar os que perderam os empregos por causa da crise. 
Notícia mais sombria a que vem de Bérgamo, onde as Igrejas vazias foram cedidas para servir de morgues improvisadas.

Este artigo explica, sem grandes detalhes, que várias dioceses e ordens religiosas em Itália se comprometeram com o combate à pandemia, oferecendo espaços para profissionais de saúde poderem ir dormir ou transformando os seus ateliês em fábricas de material de proteção individual.

Uma diocese chinesa ofereceu 24 mil máscaras a Itália, depois de o epicentro da pandemia ter passado da China para Itália.

As diferentes Cáritas do mundo têm-se desdobrado em iniciativas, relatadas aqui.

Outros cristãos
Se é verdade que o objetivo deste post era focar a Igreja Católica, havendo dados não há razão para ignorar outras iniciativas de cristãos. É o caso do grupo evangélico Samaritan's Purse, do Canadá, que abriu um hospital de campanha em Itália.


Actualizado às 00h56 de 4 de Abril

Friday, 13 March 2020

Notas de quarentena quaresmal

Ainda custa a compreender o que se está a passar. Duvido que haja memória viva de uma situação em que boa parte da Europa suspendeu as missas públicas e há tanta gente de quarentena. Não é o fim do mundo, obviamente, mas deixa-nos com uma sensação estranha e aliviados por não ser tão sério quanto poderia ser.

Em relação às missas, já ouvi críticas à decisão dos bispos, como se a suspensão das missas fosse uma demonstração de falta de fé. A todos os que andam a dizer isso, talvez convenha recordar que na Coreia do Sul, por exemplo, uma das maiores correntes de transmissão foi entre membros de uma igreja cristã. Em França aconteceu a mesma coisa com uma igreja evangélica.

É bom sinal que os sacramentos nos façam falta, mas Deus não nos pede uma fé que o ponha constantemente à prova e, graças a Deus e à tecnologia que Ele nos inspira a ir descobrindo, é possível seguir missas e outras devoções através da televisão, rádio e internet. Há aqui uma listagem bastante extensa e a Renascença, por exemplo, passará a transmitir diariamente a missa, às 12h.

Longe de mim estar a dizer-vos como devem passar o vosso período de isolamento, mas muitos quererão certamente ler. Há muita coisa online, aproveitem, e têm também os artigos do The Catholic Thing no blog.

E alegrem-se que ainda podemos rezar! É mais do que podem dizer os que gostariam de o fazer diante de duas clínicas de aborto em Londres, onde continua a ser proibido rezar, mesmo que em silêncio.

Estes são tempos difíceis que nos exigem solidariedade e disciplina. Fugindo à dimensão religiosa, peço-vos encarecidamente que não se deixem tornar veículos de notícias falsas e alarmantes. Estou farto de ler e ouvir “testemunhos” de médicos que há dois dias já garantiam que havia mortos. Melhor ou pior, as autoridades que temos estão a tentar lidar com o assunto. Ouçamos, respeitemos e ajudemos na medida do possível.

Deus nos guarde e nos fortaleça nesta que é uma Quaresma que ninguém vai esquecer tão cedo! E que o pior já tenha passado quando chegar a altura de celebrar a Ressurreição do Senhor.

Wednesday, 4 March 2020

Vini, Covidi, Vinci

Covid-9
Numa altura em que só se fala do Covid-19 folgamos todos em saber que não é disso que sofre o Papa Francisco. O Santo Padre já não estava com grande voz quando fez uma magnífica homilia na Quarta-feira de Cinzas, e entretanto ficou pior, tendo de faltar ao retiro da cúria romana. Em princípio não é nada de grave.


O Igreja Católica tem apenas dois dias de jejum obrigatório, a Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. Mas o que é verdadeiramente o Jejum? Helen Freeh explicou no artigo da semana passada do The Catholic Thing.

No texto desta semana, Stephen P. White fala sobre o esforço que se tem feito para expurgar qualquer referência ao antigo cardeal McCarrick da catedral de Washington, e porque é que isso não é boa ideia.

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