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Wednesday, 31 January 2024

Como quem tem autoridade

O Evangelho do passado domingo (Marcos 1, 21-28) diz-nos que as pessoas ficaram “admiradas” e “espantadas”.

“Ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: ‘O que é isto?

Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!’” Não devemos simplesmente passar por cima deste espanto e admiração, como se isso fosse apenas Jesus a ser Jesus, antes devíamos pensar no que o causou.

A autoridade está no centro da vida e da missão do Senhor, e está também no centro dos seus conflitos com os líderes de Israel. A legitimidade da sua vida pública – e, na verdade, da sua própria Pessoa – resume-se a esta simples questão: “Com que autoridade fazes estas coisas, ou quem te dá autoridade para as fazer?” (Marcos 11,28).

Os chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos fazem essa pergunta no final da vida pública de Jesus. Mas a questão estava na ordem do dia desde o início. Logo no princípio do seu ministério na Galileia, sob o olhar crítico dos escribas e dos fariseus, Jesus curou um paralítico, demonstrando que “o Filho do Homem tem a autoridade de perdoar os pecados na terra” (Marcos 2, 10). Isto é, tem autoridade divina.

No Evangelho de João, o seu ministério público começa com a questão da sua autoridade sob o Templo. “Que sinal nos dás para fazer isto?” (João 2,18). Em resposta, Jesus estabelece a prova que será dada, a prova de que tem autoridade até sobre o Templo. “Destruí este templo, e em três dias eu o reedificarei” (João 2, 19). Assim, promete a sua ressurreição como prova da sua autoridade divina.

Com que autoridade? Essa é a questão central. Hoje, um ouvido moderno entenderá isto como uma pergunta retórica que descarta a própria noção de autoridade. Mas, pelo contrário, os contemporâneos de Nosso Senhor apreciavam a realidade da autoridade, ainda que abusassem dela (como acontece com os homens em todas as idades). Eles compreendiam que existe uma autoridade divina e uma autoridade terrena. Tinham era dificuldade em acreditar que o carpinteiro de Nazaré a possuía. 

Também não devemos pensar na autoridade de Cristo como algo que Ele meramente possui (como se de alguma forma fosse possível não a possuir). A razão pela qual é central para a sua missão e vida pública é porque faz parte dele, parte do seu ser Filho de Deus. Ele é a Palavra de autoridade de Deus, o autor de todas as coisas, e revela o Pai, com autoridade e autenticidade, porque está eternamente no seio do Pai.

Isto também aponta para o propósito da autoridade de Cristo. Ela está ordenada para o nosso bem, que no final de contas é a reconciliação com o Pai. Como vemos na sinagoga em Cafarnaum, Jesus exerce a sua autoridade para ensinar e para curar; para comunicar verdade e graça. Verdade para iluminar e graça para santificar. A maior verdade que comunica é a revelação de Deus enquanto Pai, e de Ele mesmo enquanto Filho eterno. A maior graça que comunica é ter parte na vida do Pai, tornando-nos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1, 4).

Tal como Jesus recebe a sua autoridade do Pai, também concede à Igreja uma participação na sua autoridade. “Como o Pai me enviou, eu vos envio” (João 20,21). A Igreja existe enquanto presença contínua de Cristo que comunica o duplo dom de verdade e graça. Ela ensina com autoridade, como a voz autêntica de Cristo a ecoar do seio do Pai ao longo da História, por todo o mundo. Ela comunica a graça de Cristo que expulsa os demónios, liberta as almas do domínio do mal e as imbui da sua própria vida.

A realidade e a gravidade da autoridade da Igreja deveriam humilhar os seus pastores, que a exercem em nome de Cristo. O seu dever não é o de reinterpretar o Evangelho, ou de mudar paradigmas, mas de transmitir fielmente a verdade e a graça que vêm do Pai.

Um dos frutos mais nefastos do pensamento moderno é a confusão de autoridade com poder, levando-nos a crer que tudo não passa de um golpe de poder. Assim, quem possui autoridade é por isso mesmo um opressor. A autoridade é sempre autoritária. Logo, a autoridade das instituições e do próprio passado devem ser desmantelados, por não passar de um instrumento dos opressores.

Como todas as revoluções, esta contra a autoridade acaba por comer os próprios filhos. Tendo rejeitado o princípio da autoridade, o pensamento moderno veio a desconfiar da autoridade do próprio pensamento. (Haverá alguma disciplina nas universidades que não seja considerada opressora e a precisar de ser desconstruída?). Ironicamente, é a Igreja Católica – a mais autoritária e opressiva das instituições – que entra em campo e confirma que sim, na verdade, a mente humana é capaz de alcançar a verdade. A autoridade da Igreja vem libertar a mente humana dos grilhões do cepticismo.

“Não queremos que este homem seja nosso Rei” (Lucas 19,14). Estas palavras, de uma das parábolas mais assombrosas do Senhor, expressam bem a rejeição autodestrutiva da autoridade de Cristo. A alma fiel, contudo, longe de desprezar essa autoridade, deseja submeter-se a ela. Sabemos que, não fosse a sua autoridade sobre nós, estaríamos ainda mergulhados no erro e no pecado. Quanto mais Cristo domina sobre nós com a sua autoridade, mais claramente vemos a verdade e mais livremente vivemos pela graça. E, quanto mais nos submetemos à autoridade da sua verdade e graça, mais nós mesmos nos tornamos pessoas que falam e agem com autoridade.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Janeiro de 2024 em The Catholic Thing

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 1 March 2023

Recomendações para a Quaresma

Stephen P. White

Estou cheio de vontade de viver esta Quaresma. Quando era miúdo costumava temer o início da Quaresma. O desconforto e a inconveniência de ter de aguentar o miserável sacrifício a que me propunha nesse ano – deixando de comer doces, de ver televisão, ou algo do género – eram uma seca. Quando fiz cinco ou seis anos a Quarta-feira de Cinzas calhou nos meus anos. Terrível.

À medida que me tornei mais velho fui percebendo como as disciplinas da Quaresma podem ser edificantes e construtivas. Como disse recentemente a um amigo, já cheguei ao ponto em que até anseio a chegada da Quaresma. Trata-se de uma oportunidade calendarizada para um reforço espiritual. Dá-nos aquela injecção extra de disciplina e de estrutura que só fazem bem ao corpo.

Os pequenos confortos podem tornar-se dependências. E a Igreja, na sua sabedoria, chama-nos a fazer penitência e jejum, não apenas como forma de fortalecer a nossa vontade interior, mas para nos ajudar a livrar-nos dessas dependências. O jejum, afinal de contas, não é simplesmente uma questão de “abdicar” ou mesmo de “redimir” os nossos pecados. Trata-se de nos libertar da dependência de amores concorrentes ou desordenados para podermos ser livres de amar como devemos. E essa liberdade transforma o nosso jejum e penitência de mera obrigação em oportunidade para partilhar do sofrimento de Cristo, que é a nossa esperança.

Desta perspectiva, o sofrimento não é apenas uma coisa a aguentar, mas está associado à esperança. O Papa Bento XVI escreveu sobre a ligação entre o sofrimento e a esperança na sua encíclica Spe Salvi, onde incluiu uma reflexão sobre a prática de “oferecer” pequenas dificuldades. Não estava a escrever especificamente sobre a Quaresma, mas aplica-se perfeitamente:

“Fazia parte de uma forma de devoção – talvez menos praticada hoje, mas não vai ainda há muito tempo que era bastante difundida – a ideia de poder ‘oferecer’ as pequenas canseiras da vida quotidiana, que nos ferem com frequência como alfinetadas mais ou menos incómodas, dando-lhes assim um sentido. (…) Deste modo, também as mesmas pequenas moléstias do dia-a-dia poderiam adquirir um sentido e contribuir para a economia do bem, do amor entre os homens. Deveríamos talvez interrogar-nos se verdadeiramente isto não poderia voltar a ser uma perspectiva sensata também para nós.”

A Quaresma é uma oportunidade – quer ansiemos por ela ou não – de reavivar esta prática para nós mesmos. Como é evidente, a penitência é apenas uma parte da nossa prática quaresmal. A esmola desapega-nos do dinheiro, que pode ser uma coisa particularmente pegajosa, no sentido espiritual, e abre-nos à caridade e ao cuidado pelos outros. A oração, tal como a esmola e a penitência, não é apenas uma prática para a Quaresma, mas encontrar tempo e formas adicionais para rezar durante a Quaresma ajuda a fortalecer a nossa devoção ao longo do resto do ano.

No que toca à oração, existem duas práticas quaresmais que tenho achado particularmente benéficas. Ambas têm a ver com a Escritura. E embora nem uma, nem outra, sejam particularmente novas, cada uma fornece formas de rezar e reflectir sobre a Palavra de Deus de formas que a nossa vida do dia-a-dia – pelo menos no meu caso – não permitem. Ambos nos obrigam a abrandar, o que na vida de passo acelerado que vivemos actualmente é só por si uma forma muito necessária de penitência.

A primeira das sugestões é mesmo muito simples: leiam os Evangelhos. Não estou a dizer para lerem uma passagem dos Evangelhos de tempos a tempos, ou sequer que reflictam sobre o Evangelho do dia (embora estas sejam coisas óptimas, como é evidente). A minha sugestão é que se sentem a ler cada um dos Evangelhos de fio a pavio. Se tiverem tempo para isso, tentem ler cada um dos Evangelhos de uma assentada. O Evangelho de Marcos é o mais curto, por isso talvez queiram começar por aí, mas também podem lê-los pela ordem, a começar por Mateus.

A maioria dos católicos confrontam-se com a Escritura na Missa. Mas raramente lemos o Evangelho como um todo. A leitura completa dos Evangelhos é uma forma maravilhosa de nos encontrarmos com elas de novo, e uma forma excelente de reparar em novos detalhes. Ajuda-nos a notar repetições subtis e alusões no texto. Permite-nos apreciar o contexto de várias passagens, o que ajuda a compreender o todo, e não apenas as partes.

Mãos à obra!
A relativa proximidade, no tempo e no espaço, de várias parábolas e eventos costuma perder-se numa leitura mais esporádica. E sentar-se durante uma ou duas horas com o Evangelho dá uma oportunidade para mergulhar na Palavra de Deus de uma forma que raramente nos permitimos. Para mim tem sido muitíssimo útil.

A segunda sugestão de prática quaresmal é esta: copiar as Escrituras. Estou a ser literal. Peguem num papel e numa caneta e copiem as palavras da Escritura à mão. Escrevam com boa caligrafia e com propósito. Usem uma caneta, e não papel, porque isso obriga-nos a ter mais cuidado e evitar erros indeléveis. Os salmos são um bom ponto de partida, na maior parte podem ser concluídos antes de ficar com cãibras na mão.

A prática de copiar as Escrituras à mão obriga-nos a concentrar-nos em cada uma das palavras. Obriga-nos a desacelerar, o que é especialmente importante em passagens familiares que podem facilmente passar despercebidas. Reparará que nalgumas partes as palavras não são exactamente como se lembrava, ou o que esperava. Reparará, ainda, em mudanças subtis de escolha de palavras, tom e sentido.

O melhor é que, como está a escrever as palavras e não apenas a lê-las em silêncio ou a ouvi-las a serem lidas alto, é mais fácil fixá-las. Não é por acaso que se costumava ensinar a memorização, em parte, pela escrita repetitiva. Escrever as palavras da Escritura é uma forma muito bonita de a aprender de maneira mais íntima.

Com o começo desta Quaresma, já tenho comigo a minha Bíblia e a minha caneta preferida, pronta a usar. Sei muito bem que o entusiasmo costuma ser forte ao início, mas que depois pode escassear. Ainda assim, estou determinado. Sim, estou com vontade de iniciar esta Quaresma. Tal como acontece todos os anos, é exactamente aquilo de que preciso.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Friday, 23 November 2012

"Discípulo amado é definido pelo amor que recebe de Jesus"

Transcrição integral da entrevista feita ao Frei Bernardo Corrêa d'Almeida, sobre o seu livro "A Vida Numa Palavra". A notícia está aqui.

Todo este trabalho tem por base uma tradução própria do Evangelho de São João. Porque é que isso foi necessário?
Em primeiro lugar partiu do estudo que fiz, directamente do original. Confrontando com as versões que temos ao nosso dispor, pareceu-me que seria valioso e importante aperfeiçoar algumas aproximações ao texto. Pessoalmente, e para quem está a acompanhar a leitura, indo mais possível ao texto original, creio que é sempre de grande valor, até porque o objectivo do meu trabalho é colocar o leitor não propriamente a ler o meu livro, mas a ir ler o Evangelho.

Mas as mais recentes traduções, por exemplo a Bíblia dos Capuchinhos, têm alguma falha importante?
Diria que a minha tradução tem a vantagem de ter sido feita por mim, que dediquei muitos anos ao estudo do Quarto Evangelho, enquanto as que temos foram feitas por grandes peritos, que têm uma maior amplitude literária no que diz respeito à Bíblia.

Acontece que neste momento a Conferência Episcopal está a trabalhar numa nova tradução litúrgica e por isso numa nova tradução bíblica, precisamente neste sentido. O trabalho pode ser sempre apurado e o estudo bíblico aprofundado.

No Evangelho de São João a vida pública de Jesus começa com as Bodas de Caná. No seu entender, a escolha de um casamento para começar não é por acaso…
Não é por acaso. Por um lado importa dizer que o Quarto Evangelho nasce da morte e ressurreição de Jesus, desse momento principal, em que o autor é gerado. O Evangelho nasce do fim, começa com um “happy end” que é um casamento, que é consumado nesse momento da morte e ressurreição de Jesus na cruz. Foi concebido como um seio, imaginemos uma barriga de uma mãe, onde há um bebé, um ser humano, que depois nasce para a vida. O Quarto Evangelho foi assim concebido, é uma comunicação de uma vida, quem a recebe vai sendo gerado para a vida.

Mas esta ideia do Quarto Evangelho como uma história esponsal é nova?
Não, não é nova. O tema do matrimónio, da aliança, é um tema bíblico, transversal. Aliás a única novidade dos Evangelhos é o facto de Jesus completar essas tradições na própria existência e no mistério pascal. Não é nova.

Peguemos na história da Samaritana. Na leitura que apresenta no seu livro, quando Jesus se refere aos cinco maridos anteriores da Samaritana, e ao homem com quem está agora mas que não é marido dela, isto tem uma leitura mais profunda…
O Quarto Evangelho é uma obra magistral, atravessada sempre pelo duplo sentido. Isto é, por detrás do sinal há o conteúdo do sinal. Isto acontece em quase todas as situações.

No caso da samaritana é evidente que se viviam, na altura de Jesus, situações muito desconformes ao que era o plano de Deus e o plano social. Nesse sentido Jesus não condena a samaritana, mas condena alguns comportamentos que ela tinha, concretamente o saciar-se em fontes que não a saciavam, mas por detrás disso há algo mais fundamental, que é aquilo que ela representa. A Samaritana, como outras figuras do Quarto Evangelho, não têm nome, porque além de representarem pessoas concretas da história, factual, representam o povo, representam a comunidade cristã e a comunidade judaica.

O Povo Samaritano, depois da destruição do monte Gorizim, sem negar Javé, prestava culto a outros deuses. Havia uma idolatria religiosa, que é uma das críticas dos profetas. Por detrás da Samaritana há a história desse povo e está também um dado interessante, Jesus acaba por ser o sétimo marido. A plenitude, a aliança, a verdadeira água vida que encontra em Jesus, que vem estabelecer a aliança do povo, da mulher, da esposa, com Deus, que é o Esposo e o Senhor.

Jesus e a Samaritana
Há também a passagem do paralítico na piscina de Siloé, que estava lá há 38 anos… esses dados também apontam para uma comparação que não se entende lendo só à letra.
Claro! Havia uma freira muito simpática, muito calada, muito bondosa, mas que participava pouco no seu ambiente comunitário em termos de intervenção. Algumas das irmãs até se incomodavam. Ela retirava-se sempre para o quarto. Quando ela morreu e foi para o céu, pouco depois, alguém trouxe umas páginas que se tinham encontrado na rua e que se veio a saber que eram o seu diário. Todas as noites ela escrevia meia hora das maravilhas que via na comunidade. Quando a madre-superiora releu o diário, elas ficaram num pranto e felicíssimas ao mesmo tempo, mas as pessoas que tinham visto aquilo na rua, não lhes dizia nada. Isto para dizer que o Evangelho, quanto mais se está por dentro, quanto mais se experimenta, mais significado tem para nós.

De facto há uma tradição em Deuteronómio 2,14 que diz que o Povo de Deus andou 38 anos no Deserto às aranhas. Imagina-se ir a pé de Lisboa a Fátima e que isso demorava 38 anos. Foi o que lhes aconteceu, andaram 38 anos completamente perdidos, desorientados, sem referência, no deserto, sem terra, sem nada. É o que representa esse paralítico, mais profundamente falando.

De todas as passagens do Evangelho de São João, qual é o que mais o surpreendeu quando descobriu a “história” por detrás do texto?
Destaco dois momentos. O momento monumental, sinfónico, eterno, que é o momento da Glória de Cristo, a exaltação ou a elevação na Cruz, onde é coroado. Esta minha descrição pode parecer exagerada, ou desconforme, mas esse momento foi precisamente construído assim.

Depois a experiência do discípulo amado, do autor, aquele que nos dá o testemunho, que nasce e que está presente em todo o Evangelho precisamente a fazer essa experiência. Se virmos uma imagem ou um desenho do discípulo amado, do Apóstolo São João, vêmo-lo sempre a olhar ao alto e a escrever. É uma experiência fundamental de alguém que nasce, que vive, que é animado, gerado, que recebe uma vida e que depois a comunica.

Faz lembrar uma irmã de uma terra aqui perto, que tão generosa, queria ajudar a acabar com a pobreza e então dedicou-se ao campo e ao pomar das irmãs para poder dar muita fruta. Assim fazia, e trazia fruta, mas um dia desesperada foi ter com a madre a chorar porque estava tudo podre. Estava tudo podre porque ela tinha-se dedicado ao fruto e não à raiz e o fruto apodreceu.

Esta personagem do discípulo amado, que antes de amar é aquele que é amado, é genial. Porque só recebendo é que se dá, ou melhor, aquilo que damos é muito do que recebemos. A construção evangélica do Quarto Evangelho, de viver de uma vida que recebe, e testemunhar sem que saibamos exactamente quem ele é, é muito interessante.

Fala-se muito da autoria do Evangelho. É atribuído a São João, mas não será ele o autor…
Canonicamente falando, isto é, segundo o que está escrito no livro o autor é o “discípulo amado”, diz lá explicitamente que é o discípulo amado. O apóstolo São João nunca é referido pelo nome. Mas segundo a tradição, que provém de São Policarpo, diz-se que é São João.

Agora, seguramente terá sido uma comunidade que terá tido influência do apóstolo, e por isso dedicada a essa origem. Mas creio que mais importante do que entrarmos neste tipo de reflexão, que nos afasta do texto, é talvez de nos dedicarmos ao texto e ao que nos diz. Esta ideia do discípulo amado é genial, porque ele é definido pelo amor que recebe de Jesus, não sabemos quem ele é, o que é muito interessante.

Imaginemos que nos aparecia agora Nossa Senhora numa capela. O primeiro a chegar é que quereria ficar com o mérito, depois ainda poderia ter um altar em sua memória, mas a única primazia que o discípulo quer ter, é conduzir Pedro a Jesus. Se formos ler o quarto Evangelho, vemos que o discípulo amado cumpre dois principais papéis: Primeiro, está sempre atraído a Jesus, na última ceia está reclinado sobre o peito de Jesus, na cruz está na cruz, os outros estão dispersos. Quando vai ao sepulcro corre mais depressa que Pedro, está mais atraído. Fernando Pessoa dizia que o caminho mais curto entre dois pontos é um passeio entre dois apaixonados.

Os discípulos reconhecem Jesus na margem
No capítulo XXI, quando Jesus aparece na Margem, é ele quem reconhece Jesus. Depois, está sempre a conduzir Pedro a Jesus, sempre. Na última ceia Pedro pergunta ao discípulo amado quem é que o ia trair, e o discípulo amado pergunta. Quando vão ao sepulcro o discípulo amado corre mais depressa, mas não entra. Atrás dele vem o Pedro, mas quem entra primeiro é Pedro, porque o discípulo amado não entra, quer guiar Pedro. No capítulo XXI Jesus aparece, só o discípulo amado é que o vê, diz que é o senhor, e Pedro atira-se.

E no final, muito interessante, o texto diz que tinha corrido o boato de que aquele discípulo não morreria. Pedro pergunta a Jesus, então e este? E Jesus responde, se eu quiser que ele permaneça até eu voltar, que tens tu a ver com isso? Faz lembrar as bodas de Caná, “mulher, que tenho a ver com isso? Que temos a ver com isso? Temos tudo a ver com isso. É a questão da ironia. Portanto Pedro pergunta, e ele, não morre? E Jesus diz, que tens a ver com isso? Tu segue-me!

E então temos aqui uma pergunta interessante. Se o discípulo amado permaneceu, onde é que ele está? É tão simples como isto, ele permaneceu no testemunho que dá.

Testemunho é uma palavra que ocorre muitas vezes precisamente para nos dizer isto, que o discípulo quis permanecer não pelo seu nome, mas pelo seu testemunho. O testemunho é aquilo que ele recebe. O quarto Evangelho é o testemunho que nos é dado pelo discípulo amado, que o recebeu de Jesus glorificado.

Porque é que nunca vemos os sacerdotes a explorar e a explicar assim os textos nas homilias, por exemplo?
Essa pergunta, eu fi-la a um grande professor, hoje bispo, D. António Couto. Foi exactamente a mesma pergunta. Recordo-me da resposta: “É tudo uma questão de dedicação. Dedicação e valorização”. As realidades fundamentais da vida, o valor de uma família, não se descobre num momento e de repente, é uma experiência que se faz.

Creio que todos nós, todos padres, cristãos, a Igreja inteira e o nosso Papa, como todos que conheci, dão total privilégio à palavra, como não podia deixar de ser, a Igreja nasce da palavra, portanto há uma necessidade grande de irmos ao profundo das realidades e de não ficarmos no superficial das mesmas. Até porque o quarto evangelho, sendo um tesouro, uma fonte de vida, a isso obriga. Portanto todos nós padres, catequistas, cristãos, homens de boa vontade, somos chamados a aprofundar-nos. Há sempre algo a descobrir. A vida é movimento, é espiritual, é vida. Há sempre algo que se pode aprender e recriar. Portanto é uma questão de dedicação. Os próprios padres, cada vez mais valorizam isso, e nós próprios somos chamados à oração, cada vez mais intensa, como ao confronto com a palavra do Senhor.

Faltará um pouco essa dedicação, de conhecimento, a muitos padres?
Não diria assim tanto. Até porque o maior auditório que nós temos são as homilias, e a homilia não é propriamente uma aula, uma explicação do texto bíblico. É algo que vai para além disso. É algo diferente. Necessariamente vive do texto, tem a ver com a experiência da comunidade, tem a ver com a experiencia concreta, com o ambiente eucarístico e celebrativo. Agora, há experiências, vivo no Porto e posso testemunhá-lo, de comunidades muito interessadas. O que às vezes acontece é que os padres criam estas oportunidades, mas as pessoas estão mais interessadas em romances e textos superficiais que exigem menos aprofundamento que os textos sagrados.

E mais, existe um preconceito sobre o texto bíblico, como se fosse algo muito complicado, ou só para alguns, que não é assim. O quarto Evangelho, como dizia, é um descascar, é uma pérola que vai sendo desembrulhada. E à medida que vai sendo desembrulhada vai sendo valorizada. Nunca vi ninguém, mesmo as crianças, que conseguisse num instante abrir a prenda, mesmo que rasgue o papel todo. É preciso um empenho para abrir a prenda, depois de gozar a prenda. Muitas vezes andamos a correr, muito apressados, talvez isso nos falte a todos.

Gostaria de dedicar-se agora a outro Evangelho ou escrito bíblico? Ou vai continuar a dedicar-se a São João?
Em relação a este Evangelho há sempre mais, porque não tem fim. Estou agora a publicar a minha tese, sobre o conceito de unidade no quarto evangelho, do qual este livro é o primeiro capítulo de três. Antes de morrer, gostaria de apresentar um livro como este sobre os outros três Evangelhos, é um sonho que tenho desde criança.

A verdade é que no panorama nacional, puxando a brasa à minha sardinha, não há livros assim. Em português não há livros assim, também pela dimensão do nosso país. Eu gostaria imenso de apresentar um texto semelhante dos outros Evangelhos.

Há uma ligação entre todos os textos atribuídos a São João?
Obviamente estão ligados, é sempre a tradição joanica. A ligação entre o Evangelho e as cartas é evidente, há temas que se aproximam totalmente. Em relação ao apocalipse também, se bem que é diferente. Agora, em termos de tradição, e liturgicamente falando, e até pela importância, os Evangelhos, para nós cristãos, são o sumo maior, não só da Bíblia como da nossa experiência crente. Até porque para interpretar os Evangelhos não se pode ficar só por um, é um risco, e tenho noção disso. Em relação a Jesus, como homem que é e filho de Deus que é, uma perspectiva é sempre redutora. Estes quatro Evangelhos aproximam-nos de Jesus todo.

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