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Tuesday, 24 December 2019

Singular vaso de devoção

Michael Pakaluk
Durante a gravidez algumas células do nascituro migram através da placenta para a corrente sanguínea da mãe. Estas são células “pluripotentes”, isto é, têm a capacidade de se transformar em diversas formas de tecido. Se, por exemplo, uma dessas células for parar ao tecido mamário imitará as células à sua volta e transformar-se-á numa célula mamária, ficando presente durante a vida da mulher.

“Em todo o mundo as mães dizem que se sentem como se os seus filhos ainda fizessem parte de si, muito tempo depois de terem dado à luz. Ao que parece isso é literalmente verdade”, lê-se num artigo recente da Smithsonian Magazine, “durante a gravidez células do feto atravessam a placenta e entram no corpo da mãe, onde se tornam parte dos seus tecidos”.

Também funciona ao contrário. Células da mãe também atravessam a barreira. Mas estas células não são pluripotentes; as suas vidas e possível influência são curtas.

Os biólogos acham este intercâmbio fascinante e vêem-no como uma simbiose que contribui para a saúde tanto da mãe como da criança. Os primeiros dados sugerem que as células fetais estimulam a produção de leite, ajudam a sarar feridas e fortalecem o sistema imunitário da mãe.

Ao chamar ao sistema uma simbiose estão a dizer que não é por engano, doença ou falha que as células chegam ao corpo da mãe. Os biólogos diriam que o sistema evoluiu para benefício mútuo de mãe e filho. A filosofia, ou o senso comum, diriam que esse intercâmbio consta do plano de Deus para a maternidade.

Pensemos na gravidez de Maria desta forma. Jesus era “perfeito Deus e perfeito homem”, igual a nós em tudo menos no pecado. Suponhamos, então, que células do corpo nascituro de Jesus migraram para o sangue de Nossa Senhora e se alojaram nos seus vários órgãos, assumindo as funções desses mesmos órgãos e permanecendo até que Maria foi assumida ao Céu. Não eram células dela, mas de Nosso Senhor, vivas no corpo de Maria e a desempenhar as mesmas funções que as suas.

Que implicações teológicas é que isto tem? (Implicações para nós amadores, isto é, os que amam).

Em primeiro lugar, significa que o ensinamento tradicional da Igreja de que Jesus não tinha irmãos nem irmãs, porque José nunca teve relações com Maria, torna-se muito convincente. Para quem pensa no assunto, o argumento do decoro sempre fez sentido: porque é que um homem iria onde Deus tinha estado, e reclamar para si aquilo que já tinha sido reservado para Deus? Mas agora Maria torna-se um lugar onde, num sentido importante, Deus permanece. Não é que ela tenha sido a Arca da Aliança: antes, ela é e permanece a Arca da Aliança, porque contém nela traços do corpo e do Sangue do Senhor.

Em segundo lugar, comprova o ensinamento tradicional da Igreja de que Maria estava livre do pecado original quando Jesus foi concebido no seu seio. Deus e o pecado são realidades incompatíveis. Ao carregar Jesus, Deus tornar-se-ia presente, de forma importante, nos próprios tecidos do seu corpo. Essa presença parece incompatível com qualquer componente do seu corpo orientado para o pecado, a implicação do pecado original.

Já agora, o dogma da Imaculada Conceição ensina que esta liberdade do pecado original foi conferida a Nossa Senhora a partir do momento da sua conceção. Que estava livre do pecado original e dos seus efeitos quando carregou Jesus nunca foi alvo de discussão.

A antiga Enciclopédia Católica descreve assim o argumento tradicional para esta Imaculada Conceição. “É incongruente supor que a carne a partir da qual a carne do Filho do Homem seria formada alguma vez possa ter pertencido ao escravo daquele arqui-inimigo cujo poder Ele veio à terra destruir”. A descoberta moderna de células fetais que permanecem na mãe dá força biológica ao argumento.

Uma Terceira implicação é de que Maria se torna um sacrário permanente, literalmente e não apenas de forma figurativa. Afinal de contas, a Litania do Loreto dá-lhe os títulos: “Vaso Espiritual. Vaso de Honra. Vaso de insigne Devoção… Casa de Deus. Arca da Aliança”.

Quando dizemos estas palavras imaginamos Maria grávida. Supomos que os termos são verdade agora porque já foram verdade antes, da mesma forma que nos dirigimos a um ex-presidente como “Sr. Presidente”.

É verdade que, para um coração piedoso, este papel é atribuído a Maria de forma eterna porque o dom de si mesma no seu “faça-se” foi tão completo. Mas parece que aqui, como em outras áreas da nossa fé, Deus não quer deixar as coisas no abstrato, mas quer concretizar realidades espirituais. De acordo com o Princípio da Encarnação, as células de Nosso Senhor que permaneceram no corpo de Maria seriam um sinal concreto e eterno desse papel.  

Pergunto-me às vezes se não prejudicamos o Natal ao negligenciar a Epifania, o que equivale a negligenciar Maria. A Epifania é a festa do surgimento e da revelação. Mas o Senhor é revelado através da sua mãe: é ela quem o carrega; ela quem o dá à luz; ela que o segura; ela que continua a apresentá-lo a nós. “De modo que o pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a ti, uma espada atravessará a tua alma” (Lucas 2, 35).

Através da sua maternidade Maria é um vaso de honra, mas não apenas um vaso, e não apenas um vaso em tempos idos, pronto a ser descartado, mas aqui e agora, irredutivelmente e ainda o caminho até Cristo.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
 
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Dezembro de 2019)

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Monday, 11 December 2017

Estou chateado com o Bruno Nogueira

Ao longo dos últimos dias recebi várias mensagens de católicos a alertar-me para uma rubrica do Bruno Nogueira em que ele ofende Nossa Senhora de forma vil e baixa.

Normalmente ignoro esses apelos. Os católicos têm de perceber que os humoristas ganham dinheiro a fazer humor e que a forma mais simples e básica de fazer humor é à custa de outros. De vez em quando os católicos vão estar na mira dos humoristas, é a vida. Por vezes conseguiremos rir-nos de nós próprios, outras vezes ficaremos chocados com o que ouvimos e serão apenas os outros a rir, mas seja como for as campanhas organizadas de revolta, que têm sempre o efeito de aumentar as audiências e os cliques da dita ofensa, acabam por ser contraproducentes e passam uma imagem dos cristãos como gente histérica e sem sentido de humor.

Mas desta vez fui ouvir e confesso que fiquei chocado e chateado.

Não foi com as piadas… Só quem conseguiu viver até agora passando ao largo de uma tradição de dois mil anos de piadas sobre o nascimento virginal de Cristo é que pode ficar chateado com as larachas sofríveis e pouco imaginativas do Bruno Nogueira. Vá, todos temos dias maus no trabalho.

O que me chateia é que alguém com tempo de antena fixo na RDP, ou seja, pago pelos contribuintes, possa ter direito a cinco minutos para falar sobre um feriado e confundi-lo com outra coisa qualquer. 

Imaginem agora que a RDP me convidava para fazer um curto programa sobre o 1º de Dezembro e eu dedicava-o a falar do regicídio e da implantação da República? Pois foi basicamente isso que o Bruno Nogueira fez. Propondo-se a falar sobre o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, conseguiu falar durante vários minutos sobre outra coisa totalmente diferente, que é a concepção virginal, confundindo ainda “pecado original” com relação sexual.

Por amor de Deus Bruno! A festa da Imaculada Conceição assinala o facto de Nossa Senhora ter sido concebida sem pecado original, ou seja, sem a propensão para o pecado que a todos nos limita a liberdade. Não tem nada a ver com sexo, lamento informar-te.

Aquilo sobre o qual tu escreveste é a concepção virginal de Jesus Cristo, festejado no dia de Nossa Senhora da Encarnação, por ser o dia em que Deus encarnou. É a 25 de Março, por ser nove meses antes do Natal. Estás a ver a ligação? Giro não é?… Pois.

Tenho para mim que o melhor humor é aquele que consegue divertir o seu público e ao mesmo tempo deixá-lo mais inteligente. Mas o Bruno Nogueira conseguiu fazer uma rubrica inteira que não só não teve grande piada, como deixou uma boa parte da população mais ignorante. Mas enfim, como já disse, dias maus no trabalho todos temos. 



PS: Se depois de tudo isto ainda querem ir lá dar mais um clique, o programa pode ouvir-se aqui.

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