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Wednesday, 27 December 2023

A Pergunta de Maria

Pe Paul Scalia

Ora aqui está uma coisa curiosa. A Bendita Virgem Maria – o último máximo de humildade, fé e obediência – faz algo que normalmente não associamos a essas virtudes. Faz uma pergunta: “Como será isso, se não conheço homem?”. Claro que a pergunta é feita precisamente com toda a humildade, fé e obediência. Ao fazê-la ela ensina-nos a perguntar e, por isso, a pensar rectamente sobre a nossa fé.

E devemos mesmo pensar sobre a nossa fé. Não o fazer seria um mau serviço à fé em si. A revelação de Deus é feita a criaturas racionais e deve ser recebida e respondida como tal. Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, é o Logos – o verbo, a ideia e ou o pensamento – tornado carne. Deus é o nosso “culto racional” (Romanos 12,1). A ausência de pensamento deturpa e distorce a fé católica. Conduz a uma fé superficial, supersticiosa e frágil, pronta para ser estilhaçada mal seja confrontada por uma boa pergunta.

Fiéis que não pensam tornam-se alvo fácil para predadores. São como a semente que caiu ao longo do caminho. “Quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração” (Mateus 13,19). Um magistério que não pensa torna-se uma tirania que não ensina a palavra de Deus com autoridade, mas impõe simplesmente o seu poder.

Agora, para apreciar a pergunta de Nossa Senhora, temos de a contrastar com a pergunta de Zacarias que surge mais cedo no Evangelho de São Lucas (ver Lucas 1,5-23). O Anjo Gabriel aparece-lhe no templo. Junto ao altar, anuncia a resposta às orações de Zacarias, o nascimento de João Baptista. Em resposta, Zacarias pergunta: “Como terei certeza disso?” À primeira vista, a pergunta é semelhante, praticamente a mesma feita por Maria. Mas a diferença é profunda.  

Como terei a certeza disso? Bom, tens à tua frente o mensageiro de Deus. Isso devia ser prova suficiente. Se o envio de anjo por Deus não é suficiente, então que mais será preciso? Em termos modernos, a pergunta de Zacarias soaria a algo como “deve ser, deve”, ou “Ai sim? Então prova.” Ele não está aberto à verdade que lhe está a ser anunciada. Pelo contrário, insiste que Deus lhe dê provas. Zacarias é um cético, não procura conformar a sua mente à realidade, mas insiste que a realidade se comprove ao seu gosto. Isso torna Zacarias uma imagem adequada da maioria dos pensadores modernos.

A pergunta de Maria é diferente. “Como pode ser isso?” pode ser traduzido como “como será isso?” ou ainda “Como é que isto vai ser?” O ponto é que ela aceita que aquilo que o anjo lhe anunciou será. Mas também quer saber como. Maria confia – tem fé – de que o mensageiro de Deus está a dizer a verdade. Depois, quer compreender como é que esse milagre irá ocorrer

Esta é, por isso, a primeira lição que Nossa Senhora nos ensina sobre como pensar: fazer perguntas com fé. A definição de teologia é uma fé que tenta compreender. Primeiro, acreditamos naquilo que Deus revelou; depois procuramos compreendê-lo melhor. Não condicionamos a nossa fé à compreensão. Não dizemos: “Acreditarei, depois de me convenceres”. Isso foi o que fez Zacarias, e foi punido por isso. A fé no que Deus revelou é necessária ao pensamento correcto na Igreja.

Na verdade, a fé é necessária para qualquer tipo de pensamento. Todos os professores compreendem isto, porque a primeira coisa que os seus alunos devem fazer é confiar neles. Se o aluno não tiver este tipo de fé natural, se recusar-se a confiar, então não será capaz de receber aquilo que o professor tem para partilhar. Os revolucionários instam-nos questionar a autoridade, mas esse é o mantra daqueles que se recusam a ser ensinados e por isso nunca aprenderão a pensar.

Em segundo lugar, Maria mostra-nos que devemos fazer perguntas com a disposição certa para receber a resposta. A pergunta de Zacarias era a única resposta que ele queria. A pergunta de Nossa Senhora revela abertura a aprender. Aqui devemos recordar a frase de Newman de que “dez mil dificuldades não formam uma dúvida”. Uma dificuldade é uma perplexidade ou questão sobre algum aspecto da fé. Leva a questionar e à disposição para acolher o que Deus tem para dizer.

Já a dúvida tem as suas raízes no cepticismo, e conduz ao mesmo. Coloca Deus no Banco dos Réus e coloca sobre Ele o ónus da prova. A ironia é que Deus fez muitas coisas para provar o seu amor por nós. Mas não estamos abertos às suas respostas. Estamos constantemente a mudar o alvo, insistindo que ele se prove de acordo com os nossos critérios.

Terceiro, Maria revela que as nossas questões devem servir para a autodoação. A sua pergunta não é apenas um exercício intelectual. Não está a perguntar só porque era giro saber. Ela não sofre do vício de curiositas. Antes, pergunta, procura compreender mais, para que se possa conformar à verdade de Deus. É por isso que devemos fazer perguntas sobre a fé: para que, ao compreender melhor, possamos dar-nos mais. 

O castigo de Zacarias foi ficar mudo – porque os cépticos não têm nada de útil para dizer. Maria foi premiada com uma explicação e uma prova. Ela não as exigiu; Deus deu-lhas na sua generosidade. Nem sempre Ele fala tão rápida ou claramente. Mas retribui sempre aqueles que o buscam com corações retos e sinceros, que desejam conhecê-lo e compreendê-lo mais, não segundo os seus critérios, mas segundo os dele.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 17 August 2022

No Centenário da Vocação da Madre Teresa

Ines A. Marzaku

Em muitos países, para além de procissões coloridas, festivais e fogo de artifício para assinalar a solenidade da Assunção de Nossa Senhora – ou Dormição – existe também a antiga tradição de benzer a colheita do verão, e agradecer a Deus a sua abundância. Na Alemanha a bênção das especiarias aponta especificamente para a abundância que Maria produziu e recebeu em Cristo. Como Isaías tinha profetizado: “Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes” (Isaías 11,1).

Maria foi a primeira discípula de Jesus, a serva do Senhor (Lucas 1,38), e depois de Maria brotou uma abundância de discípulos – incluindo madre Teresa de Calcutá, que tinha com Nossa Senhora uma ligação muito especial. A sua vocação religiosa, que recebeu neste dia* há precisamente 100 anos, na Solenidade da Assunção, foi um dom especial de Maria e provou ser muito fecundo.

Na tarde de 15 de Agosto de 1922, quando Gonxhe Bojaxhiu (o seu nome civil) estava em oração profunda, ajoelhada diante da imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, a menina de 12 anos sentiu pela primeira vez que o Senhor a chamava de forma especial. Ela devia ser consagrada a Ele. Foi por isso em Letnicë, perto de Skopje, enquanto rezava ferverosamente no santuário de Nossa Senhora, que começou a caminhada religiosa da futura Santa Madre Teresa.

As famílias católicas de Skopje, em que se incluíam os Bojaxhius, tinham uma devoção especial a Nossa Senhora de Letnicë, no Kosovo. Em Agosto, durante a celebração da Solenidade da Assunção, os Bojaxhius faziam a sua peregrinação anual ao Santuário de Nossa Senhora de Letnicë, uma imponente igreja caiada, num lugarejo entre as montanhas. Os peregrinos caminhavam a pé, em grupos, rezando e cantando pelo caminho.

Segundo a tradição local, a imagem da Virgem Negra de Letnicë, que tem 700 anos, viajou miraculosamente de Skopje (onde nasceu a Madre Teresa), atravessou as montanhas Karadak e chegou à igreja de Letnicë. A lenda diz que a imagem foi encontrada por residentes locais, escondida debaixo de uma grande árvore, e assim foi salva de ser profanada pelos muçulmanos.

Tal era a veneração à Virgem Negra que ninguém – nem mesmo os muçulmanos que governaram o país durante quase 500 anos – podia tocá-la ou retirar as ofertas que as pessoas lhe levavam ao santuário.

Nossa Senhora apareceu três vezes em Letnicë, pedindo aos fiéis que construíssem um santuário. Ortodoxos, muçulmanos, sérvios, croatas, albaneses e ciganos, todos veneraram a Virgem Negra de Letnicë ao longo dos séculos, e o santuário continua a ser uma ponte e um local de união, encontro e diálogo entre pessoas de diferentes etnias e religiões.

A Virgem Negra de Letnicë é a única do género nos Balcãs, embora existam mais de 450 Virgens Negras que são veneradas em igrejas em França, na Croácia, Eslovénia, Áustria, Polónia, Equador, Lituânia e Espanha, entre outros.

A devoção de Gonxhe por Nossa Senhora era profunda. Ainda criança, em Skopje, tornou-se membro da Congregação de Maria, um grupo de jovens da sua paróquia, criada por jesuítas croatas e inspirado na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O grupo encorajava os membros a seguirem o exemplo de Nossa Senhora nas suas vidas. Isso implicava confiança e construção de carácter, firmeza, humildade e oração, fidelidade inquestionável e nunca fugir às dificuldades – seguir nas pegadas de Maria, que se manteve firme junto à Cruz do seu Filho, no Calvário.

Teresa e a sua irmã Aga
Ela voltava-se continuamente para Maria, com grande amor e afecto, como uma criança para a sua mãe. Entrou para a ordem irlandesa das Irmãs de Nossa Senhora do Loreto, ou Irmãs do Loreto, em memória da vila de Loreto, em Itália, para onde, segundo a tradição, a Casa da Sagrada Família, em Nazaré, foi carregada por anjos através do Mediterrâneo, da Palestina para a Dalmácia, e depois através do Mar Adriático para Loreto.

Mais, a Gonxhe tomou como nome religioso Irmã Maria Teresa do Menino Jesus, em honra de Santa Teresa de Lisieux; toda a vida ela foi comprometida com uma intimidade espiritual com Maria, coração voltado para ela, e vida orientada para ela.

O espírito de Maria, e o seu Imaculado Coração, tornar-se-iam o coração e o espírito da Sociedade das Missionárias da Caridade, a ordem fundada por Madre Teresa. Muitos dos que conhecem e admiram a Madre Teresa conhecem já o seu trabalho na Índia, mas na raiz do seu compromisso com os mais pobres dos pobres, e com os moribundos, está a sua relação com Maria, que começou nas periferias dos Balcãs.

O lema de Madre Teresa “Seja só tudo por Jesus, através de Maria”, estava dividido em três sucessivos estados de alma: confiança amorosa, entrega amorosa, ânimo amoroso. Encarava estes três estados espirituais como uma extensão e participação no Espírito de Nossa Senhora. “Ame-a como Ele a amou; sê causa de alegria para ela como Ele foi; fique próximo dela como Ele ficou; partilhe tudo com ela, mesmo a Cruz, como Ele fez quando ela permaneceu junto da Cruz no Calvário”, escreveu Madre Teresa na Regra das Irmãs da Caridade, mais tarde.

Nesta Solenidade da Assunção é justo que honremos a Santíssima Mãe, reconhecendo o seu amor vivificante por Jesus e a forma como cuida hoje de nós. Que a sua intercessão e exemplo de amor fiel continuem a inspirar vocações como a de St. Madre Teresa, da qual Nossa Senhora foi mediadora há um século.

*Artigo publicado inicialmente no dia 15 de Agosto


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 15 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Thursday, 26 May 2022

Nossa Senhora de Javelin

Ora aqui está uma coisa que não se vê todos os dias!

O Conselho das Igrejas Ucranianas, uma organização inter-religiosa que representa as religiões seguidas por 95% da população, protestou oficialmente contra a pintura de um mural gigante, em Kiev, de Nossa Senhora com um lança-rockets Javelin.

A imagem, conhecida como Sta. Javelin, tem aparecido aqui e ali nas redes sociais e refere-se à arma que é usada para neutralizar carros de combate (tanques) russos.

Uma exibição pública destas, com patrocínio estatal, parece desadequada, sobretudo quando do outro lado nos queixamos da utilização abusiva da religião para incentivar a guerra, pelo que se compreende totalmente o protesto dos líderes religiosos.

O texto do protesto está aqui, basta descerem até ao dia 23 de Maio.

Thursday, 24 March 2022

Contagem decrescente até à consagração

Um cartaz anuncia a consagração em ucraniano
Amanhã o Papa Francisco consagra a Rússia e a Ucrânia a Nossa Senhora. A celebração terá lugar às 16h em simultâneo em Fátima e em Roma e será acompanhada por bispos, padres, religiosos e leigos de todo o mundo. Podem ler o texto da consagração aqui.

A celebração será transmitida em vários meios de comunicação. Eu estarei em estúdio na CNN Portugal para ir comentando durante a emissão, a partir das 16h. Antes estarei no programa da Ecclesia, na RTP 2, que é transmitido a partir das 15h06. Ainda amanhã deve sair um artigo meu no site PontoSJ sobre este assunto e, mais em geral, sobre a dimensão religiosa do conflito na Ucrânia. No próximo email incluirei links para tudo isto.

Há dias falei com D. José Ornelas, bispo de Fátima, e com um padre ucraniano em Portugal sobre esta consagração. D. José diz que a consagração não é contra ninguém, mas o padre Ivan Hudz fala da importância da conversão da Rússia e… não só. Podem ler aqui (em inglês).

Entretanto a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima está em Lviv, na Ucrânia, onde permanecerá durante mais algumas semanas. Foi sobre este assunto que estive na CNN a semana passada. Podem ver essa minha intervenção aqui e também foi este o tema de conversa na primeira emissão do novo podcast Hospital de Campanha, que podem ouvir aqui.

No meu blog continuo a recolher declarações dos principais líderes religiosos relevantes para a guerra na Ucrânia. Há material muito interessante!

No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, o autor Francis X. Rocca medita sobre a liberdade e coloca uma questão incómoda. Quem é que é verdadeiramente livre? Nós, com as nossas vidinhas confortáveis, sujeitados a pressões comerciais para irmos comprando mais coisas, ou o ucraniano que, despedindo-se da mulher e dos filhos, dá meia volta para lutar pela liberdade? Leiam e tirem as vossas próprias conclusões.

As atenções continuam muito focadas na Ucrânia, naturalmente, mas o Vaticano anunciou uma mega-reforma da Cúria. Saiba mais aqui, nesta entrevista da minha amiga Ângela Roque ao padre Tony Neves.

Wednesday, 29 September 2021

Maria e os Protestantes

Casey Chalk
Quando eu andava num seminário protestante pensava que tinha boas razões para não venerar nem rezar por intercessão de Maria. A mãe de Jesus, por mais santa que fosse, só o era por causa de Cristo e, por isso, qualquer honra que lhe fosse dirigida distraía necessariamente da honra única e sem paralelo que era devida ao Senhor. Essa era certamente a opinião dos reformadores. João Calvino escreveu no seu Institutas da Religião Cristã que “quem se refugia na intercessão dos santos rouba a Cristo a honra da mediação”. Foi só depois de ler a Introdução à Mariologia, de Manfred Hauke, que compreendi que o que está em causa no que diz respeito a Nossa Senhora é bastante mais do que evitar “idolatria”.

Os primeiros reformadores revoltaram-se contra a Igreja Católica em primeiro lugar por causa da salvação. Enquanto a Igreja ensinava que a cooperação do homem era necessária para a sua salvação, Lutero, Calvino e Zwingli, entre outros, rejeitaram isto como incompatível com as doutrinas da graça e da soberania de Deus. A salvação deve ser inteiramente obra de Cristo, diziam, avançando as doutrinas protestante da Sola Fide (apenas a fé) e Sola Gratia (apenas a graça). Como escreveu Lutero em Do Cativeiro Babilónico da Igreja, “diante de Deus todas as obras se medem apenas pela fé”.

Não obstante, a primeira geração de reformadores mantinha uma visão de Maria que chocaria a maioria dos protestantes contemporâneos. Martinho Lutero continuou a acreditar na virgindade perpétua de Maria e na sua imaculada concepção. Calvino estava disposto a aceitar a sua virgindade perpétua como sendo pelo menos possível e criticou outros protestantes por rejeitarem simplesmente a doutrina católica. Pode-se especular sobre se a retenção de certas concepções de Maria por parte destes reformadores era motivada mais por resquícios da sua própria educação ou pela sua leitura das Escrituras.

Com o passar dos anos a estrelinha de Nossa Senhora foi-se apagando por entre os protestantes, até ao ponto em que qualquer referência positiva motiva acusações de “romanismo”. Foi certamente essa a corrente de protestantismo em que eu fui educado, primeiro enquanto evangélico e depois como seminarista calvinista. A veneração de Maria, ou de qualquer outro santo, ensombrava a adoração e a honra devidas exclusivamente a Cristo (embora, ironicamente, a reverência pelos próprios reformadores, como Lutero e Calvino, pudesse ser bastante efusiva).

O teólogo reformado “neo-ortodoxo” Karl Barth, porém, oferece-nos um bom exemplo das suspeitas protestantes em relação à veneração mariana. Em Dogmática Ecclesial escreve:

O dogma mariano não é mais nem menos que o dogma normativo central e crítico da Igreja Católica Romana. O dogma a partir do qual todas as suas outras posições importantes podem ser avaliadas, e em relação à qual se sustentam ou caem. A “mãe de deus” do dogma mariano católico romano é, simplesmente, o princípio, tipo e essência da criatura humana a colaborar, como uma serva (ministerialiter), com a sua própria redenção, com base na graça preveniente, e nessa medida é o princípio, tipo e essência da Igreja.


Trata-se de uma afirmação assinalável pelo Barth. É verdade que os teólogos e o clero católicos discordariam da sua descrição do Catolicismo, preferindo colocar a Encarnação e a Ressurreição no centro da dogmática católica. Mas a observação de Barth sobre a relação entre Maria e a soteriologia contém algumas perspetivas valiosas, ainda que incompletas.

O plano providencial de Deus requeria o “fiat” de Maria. O seu “sim” na Anunciação é necessário, e é dado: “Eis aqui a serva do Senhor; seja feito segundo a sua palavra” (Lucas 1,38). Hauke explica que “Maria, a virgem Mãe do Salvador, estava intimamente ligada às obras da salvação. Deus quis que a Encarnação dependesse do ‘sim’ desta mulher, que assim se torna profundamente parte do mistério da Aliança”. Sem o consentimento de Maria, não há messias.

Em Maria vemos ainda um modelo de perfeição para seguirmos. Também nós somos escolhidos por Deus, seja através do baptismo na infância, seja através do posterior reconhecimento de que Cristo nos chama a si e à sua Igreja. Mas a nossa colaboração é necessária. Podemos rejeitar as promessas baptismais feitas em nosso nome pelos nossos pais. Podemos rejeitar as suas abordagens noutras fases da nossa vida, seja por ignorância deliberada, seja por desobediência explícita. Mesmo para os fiéis, esta é uma batalha que tem de ser travada todos os dias, à medida que se apresentam novas tentações e provas.

Cristo nosso Senhor declarou que a desobediência aos seus mandamentos e a rejeição do nosso chamamento enquanto cristãos pode resultar na nossa condenação eterna (Mateus 25, 1-46). São Paulo diz, em larga medida, o mesmo. “Como colaboradores de Deus, insistimos convosco para não receberem em vão a graça de Deus” (2 Coríntios 6, 1). Claro que esta participação na nossa própria salvação não é alcançada apenas através da força de vontade, como ensinavam os hereges pelagianos, mas pela graça de Deus que opera no início, meio e fim de todas as nossas acções.

Não obstante, Barth tem razão quando descreve o ensinamento católico que eleva Maria para a posição de “tipo e essência da natureza humana” a colaborar com a sua própria redenção. Os católicos procuram imitar Maria na submissão total à sua vontade divina. Hauke explica: “Maria é como o ponto fulcral em que as verdades centrais da fé católica se tornam visíveis”.

Isto clarifica a gradual rejeição protestante dos dogmas marianos. Na medida em que a mariologia ilumina a colaboração humana na nossa salvação, viola os princípios protestantes da Sola Fide e da Sola Gratia. A mariologia torna-se assim, nas palavras de Barth, “um tumor, isto é, uma construção enferma do pensamento teológico. Os tumores devem ser extirpados”. Para o protestantismo a devoção mariana não é apenas uma distração idolátrica da adoração devida a Deus, mas algo que vicia a economia da salvação.

O testemunho de Maria, como ensina a Igreja, recorda-nos que as nossas vontades não estão de tal forma entorpecidas pela morte que precisamos da graça irresistível (outra doutrina reformada), mas que se mantêm suficientemente intactas para podermos responder com fé e amor às abordagens da graça divina. Para os protestantes os dogmas marianos são mais do que uma simples distração, são um ataque ao cerne do protestantismo e, por isso, um obstáculo sério à conversão.

Mas, como eu descobri depois da minha própria conversão, Maria – a quem muitos católicos rezam por mim – é uma verdadeira ajuda na remoção de obstáculos.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe American Conservative e a New Oxford ReviewÉ licenciado em história e ensino pela Universidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 16 de setembro, de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 13 May 2020

A Beleza e a Simplicidade de Rezar o Terço em Família

Michael Pakaluk
O mês de Maio, escreveu o Papa, numa carta publicadarecentemente na Solenidade de São Marcos, é um tempo “no qual o povo de Deus manifesta de forma particularmente intensa o seu amor e devoção à Virgem Maria. Neste mês, é tradição rezar o Terço em casa, com a família (…) Por isso, pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio (…) há um segredo para bem o fazer: a simplicidade”.

Enquanto pai de oito filhos, sete dos quais ainda em casa, incluindo um que está a aprender a andar, gostaria de partilhar convosco os meus pensamentos sobre o terço em família. Falo a partir da minha própria experiência, claro. Diferentes famílias têm hábitos diferentes. Começo, assim, com umas breves reflexões sobre a beleza do terço e depois partilharei algumas regras básicas, que tenho achado úteis, para o rezar de forma simples.

A beleza do terço está na sua humildade. É humilde porque nos foi dada a papa feita. As palavras do Avé-Maria vêm sobretudo das Escrituras; o Pai-Nosso foi-nos ensinado pelo Senhor. A própria Virgem Maria, os santos e os papas recomendaram que o rezemos diariamente. É impossível rezar o terço com altivez. O intelecto humano mais exaltado e o trabalhador mais simples dos campos estão a fazer a mesma coisa quando rezam esta oração.

O terço tem a beleza da simplicidade. Deus ama a simplicidade, porque a fez simples. A simplicidade é cíclica, como os dias, as semanas e os anos. É repetitiva, como as tarefas do dia-a-dia. Um sinal claro da simplicidade é que temos de nos esforçar para garantir que as rotinas são feitas com amor. O terço tem, por isso, a beleza não de uma grande sinfonia, nem do tecto da Capela Sistina, mas do canto das árvores, do som de um riacho ou de nuvens brancas contra um céu azul até ao horizonte. A beleza do terço em si é igualada pela beleza das virtudes que recebemos quando o recitamos: para além de perseverança, lealdade, autocontrolo, diligência e consideração.

O terço tem a beleza de uma bela “obra”. É uma oração tangível. Sim, é melhor estar a desfiar as contas do que dobrar os dedos. O som da recitação do terço é como uma medida, a que correspondemos. É como um percurso de corrida que se acaba, ou que se completa. Até podemos distrair-nos quando damos a volta, mas é a vontade que se distrai, porque nós continuamos. Podemos, inclusive, estar a lutar contra a rotina quando a rezamos, mas se chegamos ao fim podemos dizer, como São Paulo, que alcançámos a meta. A vida dos cristãos tem demasiadas boas-intenções: um terço completo é uma boa obra, não é algo imaginado ou inutilmente desejado.

O terço chama a si a beleza do Senhor. Porquê? Porque de forma misteriosa, Maria é a melhor lente através da qual podemos contemplar a vida de Cristo. Ela é de forma subjectiva, por assim dizer, aquilo que Ele é de forma objectiva; é o melhor modelo de compaixão, da sua Paixão. O Papa São João Paulo II falou de contemplar Cristo na escola de Maria e o Papa Francisco fez eco desta linguagem na sua carta: “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova.”

Através da sua beleza, o terço distribui graças às famílias. Uma velha máxima da metafísica diz que “tudo o que recebe, recebe à moda do destinatário, e não à moda da coisa recebida”. É terrível pensar na nossa própria capacidade de receber a vida do Senhor – a dureza do nosso coração, a aridez, sonolência e inconsideração. Rezar o terço é pedir para receber o Senhor da forma como Maria o recebeu. Na estranha economia da salvação, em que Deus conta aquilo que é virtual como se fosse de cada um, desejar receber o Senhor como Maria o recebeu é recebê-lo como Maria o recebeu.

Estas são algumas das razões pelas quais o terço é belo. Aproveito agora para partilhar algumas regras para o rezar com simplicidade. Mais uma vez, são só algumas ideias que têm sido úteis para mim.

Hora fixa. Ajuda muito rezar o terço ao mesmo tempo, seja horário (por exemplo às 18h30) seja sequencial (logo a seguir ao jantar).

Comece. Não espere que toda a gente esteja presente para começar. Quem está presente deve apenas sentar-se e começar, à hora combinada, mesmo que seja só o pai. Os outros juntam-se depois.

Adapte as suas expetativas. O nosso mais novo passeia-se pela sala e tenta distrair as pessoas com as suas caretas, enquanto o nosso estudante do secundário, que está a aprender a rezar em latim, pode pedir para rezar uma década nessa língua. Observe o princípio aristotélico do meio relativo a nós.

Acrescente algum mistério ou intimidade. Quando está frio acendemos a lareira e apagamos as luzes; pode-se acender umas velas, ou usar uma imagem de Nossa Senhora, talvez adornada com umas flores.

Ensine algumas coisas básicas sobre o terço, sobretudo o que são os mistérios e porque os contemplamos, com as Avé-Marias a fazer de música de fundo.

Não demore. É possível prolongar o terço com todo o género de orações e meditações. Isso não tem mal nenhum, mas para correr bem, o terço rezado em família deve ser curto, cerca de 15 minutos e não mais de 20.

Em todas as coisas, seja flexível e pragmático. Mantenha a calma, porque o terço é um acto de amor; mantenha o seu sentido de humor e recorde a sábia máxima de Chesterton de que tudo o que vale a pena fazer, vale a pena fazer mal.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de maio de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 24 December 2019

Singular vaso de devoção

Michael Pakaluk
Durante a gravidez algumas células do nascituro migram através da placenta para a corrente sanguínea da mãe. Estas são células “pluripotentes”, isto é, têm a capacidade de se transformar em diversas formas de tecido. Se, por exemplo, uma dessas células for parar ao tecido mamário imitará as células à sua volta e transformar-se-á numa célula mamária, ficando presente durante a vida da mulher.

“Em todo o mundo as mães dizem que se sentem como se os seus filhos ainda fizessem parte de si, muito tempo depois de terem dado à luz. Ao que parece isso é literalmente verdade”, lê-se num artigo recente da Smithsonian Magazine, “durante a gravidez células do feto atravessam a placenta e entram no corpo da mãe, onde se tornam parte dos seus tecidos”.

Também funciona ao contrário. Células da mãe também atravessam a barreira. Mas estas células não são pluripotentes; as suas vidas e possível influência são curtas.

Os biólogos acham este intercâmbio fascinante e vêem-no como uma simbiose que contribui para a saúde tanto da mãe como da criança. Os primeiros dados sugerem que as células fetais estimulam a produção de leite, ajudam a sarar feridas e fortalecem o sistema imunitário da mãe.

Ao chamar ao sistema uma simbiose estão a dizer que não é por engano, doença ou falha que as células chegam ao corpo da mãe. Os biólogos diriam que o sistema evoluiu para benefício mútuo de mãe e filho. A filosofia, ou o senso comum, diriam que esse intercâmbio consta do plano de Deus para a maternidade.

Pensemos na gravidez de Maria desta forma. Jesus era “perfeito Deus e perfeito homem”, igual a nós em tudo menos no pecado. Suponhamos, então, que células do corpo nascituro de Jesus migraram para o sangue de Nossa Senhora e se alojaram nos seus vários órgãos, assumindo as funções desses mesmos órgãos e permanecendo até que Maria foi assumida ao Céu. Não eram células dela, mas de Nosso Senhor, vivas no corpo de Maria e a desempenhar as mesmas funções que as suas.

Que implicações teológicas é que isto tem? (Implicações para nós amadores, isto é, os que amam).

Em primeiro lugar, significa que o ensinamento tradicional da Igreja de que Jesus não tinha irmãos nem irmãs, porque José nunca teve relações com Maria, torna-se muito convincente. Para quem pensa no assunto, o argumento do decoro sempre fez sentido: porque é que um homem iria onde Deus tinha estado, e reclamar para si aquilo que já tinha sido reservado para Deus? Mas agora Maria torna-se um lugar onde, num sentido importante, Deus permanece. Não é que ela tenha sido a Arca da Aliança: antes, ela é e permanece a Arca da Aliança, porque contém nela traços do corpo e do Sangue do Senhor.

Em segundo lugar, comprova o ensinamento tradicional da Igreja de que Maria estava livre do pecado original quando Jesus foi concebido no seu seio. Deus e o pecado são realidades incompatíveis. Ao carregar Jesus, Deus tornar-se-ia presente, de forma importante, nos próprios tecidos do seu corpo. Essa presença parece incompatível com qualquer componente do seu corpo orientado para o pecado, a implicação do pecado original.

Já agora, o dogma da Imaculada Conceição ensina que esta liberdade do pecado original foi conferida a Nossa Senhora a partir do momento da sua conceção. Que estava livre do pecado original e dos seus efeitos quando carregou Jesus nunca foi alvo de discussão.

A antiga Enciclopédia Católica descreve assim o argumento tradicional para esta Imaculada Conceição. “É incongruente supor que a carne a partir da qual a carne do Filho do Homem seria formada alguma vez possa ter pertencido ao escravo daquele arqui-inimigo cujo poder Ele veio à terra destruir”. A descoberta moderna de células fetais que permanecem na mãe dá força biológica ao argumento.

Uma Terceira implicação é de que Maria se torna um sacrário permanente, literalmente e não apenas de forma figurativa. Afinal de contas, a Litania do Loreto dá-lhe os títulos: “Vaso Espiritual. Vaso de Honra. Vaso de insigne Devoção… Casa de Deus. Arca da Aliança”.

Quando dizemos estas palavras imaginamos Maria grávida. Supomos que os termos são verdade agora porque já foram verdade antes, da mesma forma que nos dirigimos a um ex-presidente como “Sr. Presidente”.

É verdade que, para um coração piedoso, este papel é atribuído a Maria de forma eterna porque o dom de si mesma no seu “faça-se” foi tão completo. Mas parece que aqui, como em outras áreas da nossa fé, Deus não quer deixar as coisas no abstrato, mas quer concretizar realidades espirituais. De acordo com o Princípio da Encarnação, as células de Nosso Senhor que permaneceram no corpo de Maria seriam um sinal concreto e eterno desse papel.  

Pergunto-me às vezes se não prejudicamos o Natal ao negligenciar a Epifania, o que equivale a negligenciar Maria. A Epifania é a festa do surgimento e da revelação. Mas o Senhor é revelado através da sua mãe: é ela quem o carrega; ela quem o dá à luz; ela que o segura; ela que continua a apresentá-lo a nós. “De modo que o pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a ti, uma espada atravessará a tua alma” (Lucas 2, 35).

Através da sua maternidade Maria é um vaso de honra, mas não apenas um vaso, e não apenas um vaso em tempos idos, pronto a ser descartado, mas aqui e agora, irredutivelmente e ainda o caminho até Cristo.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
 
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Dezembro de 2019)

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Monday, 24 December 2018

D. Manuel Linda e a virgindade de Nossa Senhora

Adenda II

No dia 27 O Observador publicou um novo artigo em que pede desculpa ao bispo por ter deturpado as suas palavras e lhe dá voz para esclarecer a sua posição. O artigo explica ainda por que é que seria grave que um bispo - ou qualquer católico, já agora - negasse a virgindade de Nossa Senhora. 

O que é interessante sobre este segundo artigo é que é assinado pela mesma jornalista que assina o primeiro, mais um colega dela que se tem especializado em religião nos últimos tempos e ainda o director executivo do Observador... É pelo menos indicativo da dimensão que a coisa assumiu lá dentro.

Queria só dizer ainda que, da mesma forma que comecei este artigo a dar o benefício da dúvida ao bispo, porque conheço os jornalistas, também não garanto que a jornalista original tenha toda a culpa do que se passou e também hesitaria muito antes de a crucificar a ela. Se D. Manuel Linda não foi claro da primeira vez que falou, então também tem culpas e convém lembrar que antes de um artigo ser publicado passa sempre por editores e nem sempre o jornalista pode ser responsabilizado pelo resultado final.

Lição? Cuidado a tratar assuntos de religião. Cuidado a falar com jornalistas. E já agora mais vale não crucificar ninguém, mesmo.



Adenda I

Desde que escrevi este texto, no dia 24, D. Manuel Linda proferiu a seguinte frase, na homilia da missa de Natal:
"Evidentemente, não haveria Natal sem a Virgem Santa Maria, Aquela que, de acordo com a fé da Igreja -que é também a minha fé!-, é proclamada “virgem antes, durante e depois do parto”, de maneira expressa a partir do Sínodo de Milão (ano 390), ou “Mater intacta”, como dizemos na ladainha. Saudamo-la e agradecemos-lhe profundamente o seu insubstituível contributo para a história da nossa salvação."




Este não é um texto a crucificar D. Manuel Linda. Este é um texto escrito por um jornalista de religião, que sabe bem como é que se costuma escrever sobre religião na imprensa, e que por isso quer dar a D. Manuel Linda o benefício da dúvida.

Há aí muita gente preocupada com um artigo que saiu hojeno Observador. É mais um daqueles artigos a “desmistificar” o Natal, que explica que provavelmente não foi neste dia que Jesus nasceu, que se calhar nem nasceu em Belém, que os cristãos adaptaram a festa da Saturnália… Enfim, nada de novo, e até pode ser interessante para algumas pessoas que não o tenham lido já em artigos idênticos, publicados todos os anos. Mas eu, que sou jornalista, sei melhor que ninguém que por vezes temos de escrever peças destas. Aqui, portanto, nada contra ninguém.

O problema surge nesta frase. «Jesus não é filho de uma mulher virgem, explicam quer o padre Anselmo Borges quer o bispo D. Manuel Linda. Ele foi concebido por Maria e José como qualquer outra pessoa e é “verdadeiramente homem”. A virgindade só é associada a Maria como metáfora para provar que Jesus era uma pessoa muito especial.» 

Que o padre Anselmo Borges pense isto e o tenha dito, não tenho grandes dúvidas. Mas se D. Manuel Linda o pensa e o diz, então é grave. É grave porque contraria um dogma de fé, de que Maria era virgem quando concebeu Jesus e que assim permaneceu.

Mas será que D. Manuel Linda disse mesmo aquilo que o jornal diz que ele disse? É aqui que lhe dou o benefício da dúvida. Que citações é que há?

«O bispo do Porto refere ao Observador que “nunca devemos referir a virgindade física de Virgem Maria”: “O Antigo Testamento diz muitas vezes que Jesus iria nascer de uma donzela, filha de Israel, que fosse simples, pobre e humilde. Mas na verdade isso é apenas uma referência à devoção plena dessa mulher a Deus. O dom de ser mãe de Deus foi dado a Maria por ela ter um coração indiviso. O que importa é a plena doação“, explica D. Manuel Linda. E acrescenta: “Há com certeza mulheres com o hímen rompido [que é associado ao sinal físico da perda da virgindade por uma mulher] que são mais virgens no sentido da plena devoção a Deus do que algumas com o hímen intacto”.»

Neste trecho é claro que D. Manuel Linda se está a referir à virgindade no sentido estritamente anatómico, de ter o hímen íntegro. Não há nada aqui que justifique o que O Observador escreve antes, que o bispo terá dito que Jesus foi concebido através de uma relação sexual entre Nossa Senhora e São José. Se o disse, então, não há citação, e eu sei demais sobre estas coisas para simplesmente confiar na interpretação feita pelos autores da peça.

A questão da integridade do hímen como condição de virgindade é algo que o nosso tempo não compreende, mas que noutros tempos já foi considerado fundamental. A dificuldade biológica é que, salvo intervenção milagrosa, Jesus não poderia ter nascido de forma normal sem romper o hímen de Nossa Senhora de qualquer maneira. Mas isso significa que ela deixava de ser virgem?
Santo Agostinho, salvo erro, aborda esta questão e fala mesmo em intervenção milagrosa, dizendo que Jesus passou através do hímen como a luz através de uma janela. A mim, francamente, a questão nem aquece nem arrefece.

Certamente o espírito tanto do texto como da doutrina da Igreja é que Jesus não foi concebido através de uma relação sexual, mas sim por intervenção divina. Há várias formas de se romper o hímen e não nos passa pela cabeça, hoje, questionar a virgindade de uma mulher que nunca tenha tido relações sexuais por ela ter, ou não, essa membrana intacta.

A questão que se põe é: D. Manuel Linda acredita que Jesus foi concebido sem que Nossa Senhora tivesse tido relações sexuais com nenhum homem? Eu não quero acreditar que a resposta seja negativa e sugiro aos indignados que dêem o benefício da dúvida, até que o próprio possa esclarecer a questão.

Monday, 11 December 2017

Estou chateado com o Bruno Nogueira

Ao longo dos últimos dias recebi várias mensagens de católicos a alertar-me para uma rubrica do Bruno Nogueira em que ele ofende Nossa Senhora de forma vil e baixa.

Normalmente ignoro esses apelos. Os católicos têm de perceber que os humoristas ganham dinheiro a fazer humor e que a forma mais simples e básica de fazer humor é à custa de outros. De vez em quando os católicos vão estar na mira dos humoristas, é a vida. Por vezes conseguiremos rir-nos de nós próprios, outras vezes ficaremos chocados com o que ouvimos e serão apenas os outros a rir, mas seja como for as campanhas organizadas de revolta, que têm sempre o efeito de aumentar as audiências e os cliques da dita ofensa, acabam por ser contraproducentes e passam uma imagem dos cristãos como gente histérica e sem sentido de humor.

Mas desta vez fui ouvir e confesso que fiquei chocado e chateado.

Não foi com as piadas… Só quem conseguiu viver até agora passando ao largo de uma tradição de dois mil anos de piadas sobre o nascimento virginal de Cristo é que pode ficar chateado com as larachas sofríveis e pouco imaginativas do Bruno Nogueira. Vá, todos temos dias maus no trabalho.

O que me chateia é que alguém com tempo de antena fixo na RDP, ou seja, pago pelos contribuintes, possa ter direito a cinco minutos para falar sobre um feriado e confundi-lo com outra coisa qualquer. 

Imaginem agora que a RDP me convidava para fazer um curto programa sobre o 1º de Dezembro e eu dedicava-o a falar do regicídio e da implantação da República? Pois foi basicamente isso que o Bruno Nogueira fez. Propondo-se a falar sobre o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, conseguiu falar durante vários minutos sobre outra coisa totalmente diferente, que é a concepção virginal, confundindo ainda “pecado original” com relação sexual.

Por amor de Deus Bruno! A festa da Imaculada Conceição assinala o facto de Nossa Senhora ter sido concebida sem pecado original, ou seja, sem a propensão para o pecado que a todos nos limita a liberdade. Não tem nada a ver com sexo, lamento informar-te.

Aquilo sobre o qual tu escreveste é a concepção virginal de Jesus Cristo, festejado no dia de Nossa Senhora da Encarnação, por ser o dia em que Deus encarnou. É a 25 de Março, por ser nove meses antes do Natal. Estás a ver a ligação? Giro não é?… Pois.

Tenho para mim que o melhor humor é aquele que consegue divertir o seu público e ao mesmo tempo deixá-lo mais inteligente. Mas o Bruno Nogueira conseguiu fazer uma rubrica inteira que não só não teve grande piada, como deixou uma boa parte da população mais ignorante. Mas enfim, como já disse, dias maus no trabalho todos temos. 



PS: Se depois de tudo isto ainda querem ir lá dar mais um clique, o programa pode ouvir-se aqui.

Wednesday, 2 September 2015

Nossa Senhora da Realidade

Anthony Esolen
Uma amiga nossa perguntou a um padre idoso e devoto porque é que os católicos pedem a intercessão de Maria sob vários títulos. “O que significa ter uma devoção a Nossa Senhora de Fátima ou a Nossa Senhora de Guadalupe”, perguntou, “quando afinal de contas é a mesma mulher, porque só existe uma Maria?”

Ele respondeu, recordando-lhe das circunstâncias da aparição de Maria a Juan Diego em Guadalupe e aos pastorinhos em Fátima. Veio esmagar a cabeça do paganismo azteca no México, com a adoração do sol e sacrifício humano. Veio avisar os homens ocidentais de uma enorme apostasia, exortando-os a rezar pela conversão da Rússia antes da revolução que veio elevar a impiedade a um princípio de governo.

Não é Nossa Senhora que está dividida, é a nossa atenção. Quando nos sentamos à cabeceira de uma criança moribunda, a quem nos podemos virar? Não ao estoico pagão Epictetus, que imaginou os seus discípulos a dizer: “O seu filho morreu”, ao que ele responde: “alguma vez eu disse que ele era imortal?”. Claro que os católicos se voltam para Deus, mas Deus também nos deu este dom inestimável da mulher pura e sem pecado, Maria, a segunda Eva, o exemplo do que seríamos se fossemos inocentes. Suplicamos a Nossa Senhora das Dores, que segurou o Cristo morto junto ao peito quando O desceram da Cruz, pedindo que ela reze por nós na nossa noite escura.

Quando nos encontramos numa encruzilhada, quando cada caminho diante de nós é incerto, quando seja qual for a nossa escolha esta implicará sofrimento, voltamo-nos para Nossa Senhora, Sede de Sabedoria, que carregou debaixo do seu coração a segunda Pessoa da Trindade, Cristo, a Sabedoria de Deus, e pedimos que ela reze por nós, para que possamos esperar pacientemente e calmamente para que a decisão correcta seja revelada. Ou então voltamo-nos para Nossa Senhora do Bom Conselho, que disse aos criados em Caná, “Façam tudo o que Ele vos disser”.

Essa conversa fez-me pensar, que título é que seria mais apropriado para Nossa Senhora se ela nos aparecesse agora? Consigo pensar em vários:

Para pessoas cuja alma foi deturpada por pornografia, Nossa Senhora da Pureza.

Para pessoas que dão mais importância à casa do que ao lar, e que entregam os filhos para serem criados por estranhos, Nossa Senhora da Vida Familiar.

Para pessoas que deixam aos filhos a factura da sua própria insensatez, hedonismo ou ambição, Nossa Senhora dos Santos Inocentes.

Para pessoas cuja atenção é deturpada pelas inanidades da política e do entretenimento de massas, Nossa Senhora das Horas Caladas.

Para pessoas que procuram preencher o vazio das suas vidas com coisas, Nossa Senhora da Pobreza.

Mas talvez haja um título que vá mais directamente ao cerne de toda a loucura que subjaz às nossas dificuldades. Achamos que uma coisa muda porque lhe damos um nome em vez de outro: Um homem torna-se uma mulher apenas porque diz que sim. Ou então recusamo-nos a acreditar que as coisas têm natureza sequer: Um homem não é um homem porque não existe sequer tal coisa. Ou catalogamos uma coisa de acordo com as suas características superficiais, e dizemos que algo é uma democracia só porque existem eleições, mesmo que a influência de um homem sobre o seu governo seja de facto menor que a de uma pulga sobre um elefante.

Ou então rimo-nos da ideia de que uma coisa possa ser melhor que outra, mais bonita ou mais verdadeira, e por isso temos os nossos museus de arte moderna cheios de coisas que pessoas saudáveis de outra cultura qualquer considerariam hediondas, absurdas, ineptas ou triviais e as bibliotecas, depois de terem vendido os seus livros verdadeiros a três dólares cada e despejado o resto em aterros, enchem as suas prateleiras de vazio.

Nossa Senhora da Realidade
O título em que estou a pensar é: Nossa Senhora da Realidade. Não estou a brincar.

Pensem em Maria na sua casa em Nazaré. Ela não sofreu com as desvantagens deste mundo. Nós somos bombardeados com irrealidades e a nossa relação com a criação sólida e misteriosa de Deus é ténue. Maria sofreu as desvantagens salutares de um mundo em que uma mulher simples, casada com um carpinteiro, tinha de mergulhar na realidade. Tinha de levar trigo para ser moído. Tinha de meter as mãos na massa, para trabalhar o fermento. Tinha de tecer a lã para fazer linha. Apenas um telhado de palha a separava do sol do Verão. Apenas uma parede forrada a lama servia de barreira ao frio invernal.

Quando ouviu dizer que a sua prima Isabel estava grávida apressou-se a ir para os montes, possivelmente de mula mas provavelmente a pé. Estava lá quando nasceu o Baptista. As suas mãos poderão ter sido mesmo as primeiras a tocar no corpo do recém-nascido. Quando nasceu Nosso Senhor, ela apertou-o junto ao peito enquanto os animais na manjedoura batiam os pés e se ajeitavam. Em Maria existe sempre esta firmeza que vem de estar ancorada na criação.

“Como será isso”, perguntou ao anjo, “se eu não conheço homem?” Essa é a pergunta de uma realista. Quando o anjo responde que o que será feito será obra do Espírito Santo – mais real que as coisas passageiras que seguramos nas mãos, mais verdadeiro do que nós próprios – ela submete-se à maior das realidades: “Seja feita em mim a Vossa vontade”.

Um dia a neblina dissipará e as sombras fugirão e tudo o que é irreal desaparecerá como um sonho. Aí poderemos ver o Filho que ela nos deu. Eu imagino-O a aparecer como um rapaz, a chamar por nós com a alegria juvenil nos olhos. “Vou subir para as montanhas”, diz. “Vem comigo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 27 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

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Thursday, 15 December 2011

Campanha polémica de Natal na Nova Zelândia

A Igreja de St. Matthews in the City, na cidade de Auckland, Nova Zelândia, está no centro de uma polémica depois de ter desvendado o seu cartaz de Natal para 2011.

Esta igreja anglicana, que se auto-denomina progressista, tem reputação de “testar os limites” do bom gosto e do bom senso para chamar atenção para o Natal. A campanha deste ano mostra uma Nossa Senhora, pintada ao estilo renascentista, olhando estupefacta para um teste de gravidez.


Os responsáveis da igreja dizem que estão apenas a tentar recordar que o Natal foi um episódio real: “É sobre uma gravidez real, uma mãe real e um bebé real. É sobre ansiedade real, coragem e esperança. Maria era solteira, jovem e pobre. Não foi certamente a primeira mulher a encontrar-se nesta situação, nem será a última”, afirmou o reverendo Glynn Cardy, de St. Matthews.

A Igreja Católica, por sua vez, mostrou-se desagradada com o conteúdo da mensagem, embora reconheça as boas intenções dos anglicanos: “Mais uma vez a paróquia de St. Matthews mostra-nos que se afastou do Cristianismo tradicional, embora as suas intenções possam ser as melhores. É verdade que o Natal é real e celebra uma gravidez real. Também é verdade que a ansiedade e as necessidades das mães solteiras de hoje têm de ser resolvidas com compaixão e cuidado. Mas ao enfatizar estas questões a igreja ignora o relato do Evangelho daquilo que envolveu a gravidez e o nascimento de Jesus, no qual Maria não é uma mãe solteira em estado de choque mas uma jovem que deu o seu sim e colocou a sua confiança em Deus”.

Talvez a opção menos sensata da igreja de St. Matthews tenha sido de abrir um concurso no seu site convidando os participantes a encontrar uma legenda para a imagem. Como seria de esperar o site foi inundado tanto de mensagens de repúdio pela campanha como por sugestões de legenda absurdas ou mesmo bastante ofensivas.

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