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Wednesday, 5 April 2023

Provas para a Existência de Deus

Randall Smith

Já por algumas vezes apresentei aos meus alunos as famosas provas para a existência de Deus. Muitos ficam surpreendidos por saber que é possível abordar a questão de Deus com a razão e com pensamento sério, e não apenas com “sentimentos” ou sacrificando todo o pensamento racional em favor de acreditar “em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço, todas as manhãs”, como a Rainha Branca diz a Alice no País das Maravilhas.

Muitos jovens adultos na nossa sociedade são essencialmente fideístas. Pensam que basta “aceitar as coisas pela fé”, o que nas suas cabeças significa sem razão ou raciocínio inteligente. Lendo São Tomás de Aquino, sobretudo as suas provas para a existência de Deus, percebem rapidamente – e nalguns casos pela primeira vez – que se pode abordar as questões teológicas com a razão e o intelecto.

Mas devo admitir que mesmo os alunos que aceitam a validade destes argumentos nem sempre os acham convincentes. Para alguns deles, o problema está no facto de não acreditarem na lógica. A lógica, pensam eles, não passa de jogos de palavras, ou então acham que é um jogo de poder patriarcal. Mas para alguns há ainda outra razão para não acharem as provas convincentes, e é importante compreender porquê.

O problema com as “provas” não está naquilo que comprovam, mas no que fica por provar. Porque quando os meus excelentes e interessados alunos perguntam sobre “Deus” não estão a perguntar sobre o “primeiro motor imóvel” ou sobre a “Fonte de Todo o Ser”. O que querem mesmo saber é se alguém se interessa; se existe alguém que olha por eles e que estará presente se tudo o resto falhar; se existe uma base última para o sentido. E o “primeiro motor imóvel” simplesmente não satisfaz essas dúvidas. 

Como se vê pelo argumento de Aristóteles do Motor Imóvel, pode haver um Motor Imóvel que não nos ama, nem se preocupa connosco. O Deus cristão, por outro lado, é a fonte do ser de tudo, e não apenas uma outra “coisa” ou “pessoa” poderosa no mundo, como Zeus ou Apollo, mas é também pessoal e capaz de amar, como Zeus e Apollo, mas ao contrário do Motor Imóvel de Aristóteles.

Ainda que os antigos tivessem razão ao dizer que o mundo é um cosmos ordenado, isso não significa que nele exista amor altruísta. Os antigos, aliás, pensavam que não existia. É por isso que eu digo sempre aos meus alunos que a pergunta que devem colocar não é se acreditam em “Deus”, mas se acreditam no amor. Porque se não forem capazes de acreditar no amor altruísta e providencial, jamais serão capazes de acreditar no “Deus” judaico-cristão, que tem como característica central o amor e o cuidado providencial.

O problema é este: como é que se comprova a existência do amor – que existe, que tem sentido e que vale a pena – a pessoas que não acreditam nele?

Recentemente estava eu na missa a ouvir uma daquelas estranhas histórias do Antigo Testamento e a pensar se alguma pessoa sensata poderia acreditar em todas estas coisas de Deus, quando reparei num pai a fazer caretas para o seu filho bebé.

Há algo de maravilhoso em ver pais com os seus filhos na missa. Mães e pais seguram nos seus bebés e beijam-nos docemente, fazem-lhes festinhas no cabelo e olham-nos directamente nos olhos com amor. Os pais levam os seus filhos consigo para a Comunhão e ensinam-nos a ajoelharem-se respeitosamente e a receber uma bênção do padre, às vezes com orgulho, outras com timidez.

Isto é amor. De onde vem esse amor? Como é que existe? É verdadeiro, mas ao mesmo tempo misterioso.

E não é apenas na Missa. Há pelo menos uma passagem no filme “O Amor Acontece” que traduz uma grande verdade: quando vemos pessoas a cumprimentar amigos e familiares no aeroporto e isso leva-nos a acreditar que o amor existe mesmo e que está mesmo em todo o lado. E se por um instante nos pudermos convencer de que o amor existe, então pode ser que algum dia pensemos: como? Porque na concepção que os ateus modernos têm do universo, não parece haver espaço para ele.

Sempre que um ateu comprometido pratica um acto de amor altruísta está, por assim dizer, a assumir que também ele acredita que o universo é mais do que apenas átomos a chocar uns contra os outros e que uma vida plena e com sentido implica mais do que apenas a vontade do poder e a maximização das preferências.

Não são apenas os cristãos que pensam que o amor é a força mais essencial e com sentido do universo. Muitos outros acreditam no mesmo. A questão é que muitos abraçam visões do universo em que esse amor não encaixa, enquanto o Cristianismo defende uma narrativa do mundo em que faz sentido.

O que é estranho naquilo a que chamamos o “Mistério Pascal” – o que o torna de facto misterioso – é a afirmação de que o Deus-Criador nos amou de tal forma que se fez carne, morreu por nós e ressuscitou dos mortos. Se, nas palavras de Hans Urs von Balthasar, “só o amor é digno de fé”, então como é que Deus se nos poderia revelar – não como um outro Zeus ou outra espécie de Motor Imóvel, mas como o Deus do amor altruísta – se não dando-se totalmente em amor altruísta?

Sem os eventos da Semana Santa, poderíamos acreditar num “deus”, mas não no Deus que, como escreveu Bento XVI, “criou o universo para poder entrar numa história de amor com a humanidade”. E sem esse amor, como saberíamos, como suspeitaríamos, sequer, que “o universo não é o produto da escuridão e da irracionalidade”?

Porque, como escreve ainda Bento XVI, “só se for verdade que o universo deriva da liberdade, do amor e da razão, e que são estes os verdadeiros poderes que estão na sua base, é que podemos confiar uns nos outros, avançar para o futuro e viver como seres humanos”.

É bastante fácil acreditar num “deus” – um deus de poder –, mas num Deus-Criador de amor altruísta? É, sem dúvida, “misterioso”. Mas talvez, no final de contas, essa seja a única coisa que possa dar sentido a um mundo em que o amor existe.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 4 de Abril de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 5 October 2022

Uma Fé Eucarística

Sondagens recentes revelam que muitos católicos já não acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia. Não faço ideia como é que se resolve este problema, mas talvez seja útil considerar as seguintes questões.

Começamos com a Eucaristia. Acredita que Cristo pode estar verdadeiramente presente na Eucaristia, tal como se apresentou aos apóstolos no Cenáculo depois da crucifixão? É uma premissa assumidamente difícil, uma vez que aos nossos olhos continua a parecer apenas pão e vinho. É por isso que na Idade Média a Igreja tentou clarificar o que significa a “presença real” na Eucaristia dizendo que, embora os acidentes de pão e vinho permaneçam, a substância é agora o corpo e o sangue de Cristo. Sim, continua a parecer pão e vinho, mas Cristo está verdadeiramente presente.

Esta crença na presença real de Cristo na Eucaristia, e não meramente espiritual, mas real – tão real como quando temos um amigo na mesma sala – anima a Igreja Cristã desde o seu começo, de tal forma que os pagãos acusavam os cristãos de canibalismo.

De facto, a Igreja acredita que Cristo está ainda mais intimamente presente do que esse tal amigo, uma vez que Ele não está apenas “próximo”, mas “dentro” de nós, com o poder de nos transformar de maneiras que um amigo, por bom que seja, simplesmente não consegue.

Mas claro que esta premissa da “presença real” de Cristo na Eucaristia se baseia noutra, o que nos leva à próxima questão. Acredita mesmo que Cristo estava presente – corporalmente – no cenáculo depois de ter sido crucificado, tão presente como esteve para os discípulos durante a sua vida terrena, antes da crucifixão?

Também isto é difícil de conceber. O Evangelho deixa claro que para os apóstolos não foi mais fácil. As portas e as janelas estavam fechadas e trancadas, mas eis que Ele estava presente. Por isso, naturalmente, pensaram tratar-se de um fantasma. Mas os Evangelhos fazem questão de dizer que não era um fantasma, estava presente em corpo. Tocaram-no, comeram com Ele, mas depois, tão depressa como apareceu, já não estava presente.

Esteve presente de forma corporal, mas com um corpo que não sofria das mesmas limitações que os nossos. É evidentemente estranho – a não ser, claro, que Ele fosse Deus feito homem.

Então temos a nossa terceira questão. Será que Deus, o Criador de toda a realidade, encarnou como uma verdadeira pessoa humana, de nome Jesus, num dado momento da história? Sejamos francos: esta é a afirmação cristã mais difícil para membros de outras tradições religiosas aceitarem ou respeitarem. O Deus transcendente, acreditam, simplesmente não se pode rebaixar ao ponto de se tornar um único ser humano, que viveu num determinado lugar, num determinado tempo da história.

Parece que estamos a equilibrar todo o destino do cosmos na cabeça de um alfinete. Algo tão grande não se pode fazer tão pequeno. Algo tão poderoso não se pode tornar tão fraco. Se o mundo antigo sabia uma coisa, era que os deuses não podem morrer. Afirmar que o seu Deus revelou o seu poder ao deixar-se crucificar não é a coisa mais evidente do mundo. Quando as pessoas olharam para Ele, viram que era apenas mais um ser humano.

Mas os cristãos acreditam que Deus estava verdadeiramente presente – por inteiro – nele.

Porém, tudo o que considerámos até agora baseia-se naquilo que é talvez a premissa mais radical de todas. Será possível, perguntamos, que aquele que é o Criador de toda a realidade – todo o cosmos, com triliões de galáxias, estrelas, planetas, cometas e buracos negros, na maioria a anos luz de nós – nos ama, e ao ponto de se entregar por inteiro e desinteressadamente a nós para restaurar o dom da humanidade que nós manchámos tão gravemente com o nosso egoísmo e pecado?

Não será essa a raiz do problema? Já não basta a dificuldade de acreditar que existe um Deus que criou a vastidão e a complexidade de tudo quanto há, para agora ter de acreditar que Ele nos conhece e gosta de nós, de todos nós? É simplesmente demasiado difícil de conceber.

Não estou aqui a argumentar a favor da Eucaristia. Estas questões têm simplesmente o propósito de clarificar a questão. Será que o problema é mesmo a questão de Cristo estar presente na Eucaristia, ou será que as dúvidas e dificuldades começam muito mais atrás e vão mais fundo? Faria sentido. Nada do que eu proponho aqui é fácil ou evidente. De facto, parece-me que se torna cada vez mais difícil quanto mais fundo se vai.

Mas depois de aceitar a ideia enorme de que Deus nos ama de tal forma que encarnou como um ser humano de verdade, num corpo humano vulnerável e mortal de verdade, e morreu numa cruz, acreditar na possibilidade de Ele se fazer presente no pão e no vinho parece coisa de pouca monta.

É um pouco como acreditar que Cristo pode ressuscitar os mortos, mas depois duvidar da sua capacidade de curar uma pessoa com lábio leporino. Porquê? É demasiado insignificante? Não é suficientemente “grande” para o seu Deus grande e poderoso? Então e você e os seus problemas também são demasiado insignificantes para o seu Deus grande e poderoso?

Talvez essa seja a verdadeira questão. O universo está vazio? Alguém se importa? Haverá algum sentido para a vida, sobretudo diante da morte?

Se estamos interessados em reavivar a fé na Eucaristia, talvez devêssemos começar por aqui. Se não conseguimos lançar as bases sobre o amor de um Deus-Criador que se fez homem e morreu por nós, então tudo o resto será edificado sobre a areia e não serão brochuras com imagens de padres penteadinhos a elevar cálices que nos safam.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 3 de Outubro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 20 September 2017

Deus Estava lá, os Socorristas Também

Randall Smith
Há uma piada antiga que começa com uma cheia. A água tinha passado o primeiro andar da casa de um homem quando passou um barco. “Entra”, disseram. “Não”, respondeu o homem. “Deus vai salvar-me”. A água já tinha subido até ao segundo andar quando passou outro barco que o instou a entrar. “Não”, disse o homem, “Deus vai salvar-me”. A água subiu mais até que o homem estava no telhado e passou um helicóptero que baixou uma escada. Mas o homem recusou, dizendo que Deus o salvaria. O homem morreu afogado e quando chegou a Céu questionou Deus: “Porque é que não me salvaste?” Ao que Deus respondeu: “Enviei-te dois barcos e um helicóptero. Que mais é que querias?”

Conto esta piada aos meus alunos quando falamos sobre a noção metafísica da criação, de São Tomás de Aquino. Para São Tomás, a criação é a dádiva completa e contínua de “ser” a tudo o que existe. Se Deus deixasse de “criar” uma coisa, deixaria completamente de existir. E porém, as coisas existem. A obra de Deus enquanto criador e a existência de uma coisa não são mutuamente exclusivas; pelo contrário, esta depende daquela. É o mesmo com a acção de Deus no mundo: Deus pode, e costuma, trabalhar em e através de causas naturais. A causalidade natural no universo e a causalidade divina não são mutuamente exclusivas. A primeira depende da segunda, mas ambas operam às suas maneiras, tal como quando corto lenha com um machado, eu corto a lenha e o machado corta a lenha – eu, como causa primária e o machado como causa secundária. Não é “uma coisa ou outra”, é “uma coisa e a outra”.

Quase todos os cristãos compreendem esta verdade fundamental, e é por isso que saíram à rua para salvar pessoas em Houston na semana passada e para ajudar as pessoas a limpar os estragos do furacão Harvey. Não se limitaram a dizer: “Deus tomará conta disto, por isso não preciso de me preocupar”. Disseram “Deus tomará conta disto em e através de mim. Eu devo ser um instrumento da vontade de Deus. Sou chamado para ser as mãos e os pés de Cristo, agora”.

Se viu a cobertura mediática, foi esta a mensagem repetida várias vezes. Poderíamos responder à acusação de Marx de que “a religião é o ópio do povo” com base na experiência de Houston da semana passada – e de tantas outras situações na história – que, longe de ser um opiáceo, a religião parece ser um fortíssimo estimulante, sobretudo em tempos de crise. As massas estão agarradas ao ópio, sim, e em grande número, mas não tem nada a ver com o Cristianismo.

Alguns anti-teístas, porém, insistem em imaginar que todos os cristãos são como o homem ignorante da piada e não como os homens e as mulheres que saíram à rua em massa para ajudar os outros, inspirados pela sua fé em Deus. Um cartoon publicado recentemente no “Politico” mostra um texano provinciano com uma t-shirt com a bandeira confederada (naturalmente) a ser salvo por um helicóptero e a gritar: “Anjos, enviados por Deus!”. Ao que o socorrista sério responde, enquanto veste um colete à mulher que foi deixada para trás: “Er… Por acaso, Guarda Costeira… Enviada pelo Governo”.


Percebe a ideia. O burgesso tonto pensa que foi salvo por Deus, mas o guarda costeiro sério sabe melhor. É um caso clássico de uma coisa ou outra. Mas o cartoonista não conhece, evidentemente, muitos dos socorristas desta zona. Por razões que ele próprio conhece, gosta de pensar que partilham a mesma atitude que ele em relação à religião. Mas para a maioria não é assim. Os cristãos que acreditam na sacramentalidade de toda a criação não têm o menor problema em aceitar que Deus pode trabalhar em, e através de, causas naturais. Claro que não existem “provas” da existência de tal Deus que pudessem convencer um ateu, mas essa não é a questão. Ninguém está a tentar usar estes socorristas de Houston como arma de arremesso contra os ateus. É o ateu quem está a insistir que se há uma causa natural como um guarda costeiro envolvido no resgate, então Deus não pode estar presente.

Afinal quem é que está a revelar sinais de intolerância e mente fechada?

Mas o cartoon tem ainda outro claro exemplo da mentalidade de “uma coisa ou a outra”. Reparem que o guarda costeiro faz questão de dizer que vem “do Governo”, enquanto o campónio texano tem um cartaz na sua casa a proclamar “secessão” e uma bandeira que diz “Não me pises”. Este detalhe é peculiar, uma vez que a primeira vez que essa bandeira foi hasteada foi num barco de tropas colonialistas em1776 e continua a ser hasteada em navios da marinha em tempos de guerra.

A implicação do artista é clara: “Como é que pensas que te safarias, Sr. Campónio Texano, se o Governo não estivesse lá para te salvar?”

Só que na realidade não foi isso que aconteceu, pois não? O que salvou milhares de texanos de um destino parecido com o de Nova Orleãs no tempo da Katrina, foi precisamente o facto de ninguém ter esperado pela ajuda do Governo federal. Vizinhos entraram em acção para ajudar vizinhos: o “exército Cajun” veio da Luisiana e de outras partes do Texas e, sim, a cidade, o concelho, o Estado e o Governo federal desempenharam, cada um, o seu papel – em larga medida sem rancor, apontar de dedos ou procura de louros.

Não foi um caso de “uma coisa ou outra”, foi um caso de “uma coisa e outra”. Os católicos chamam a isto “subsidiariedade”. A fé cristã não levou as pessoas a esperar pela ajuda de Deus e bem sabemos que os resultados de depositar uma fé secular no Governo nem sempre são eficazes.

Há forças em acção na América hoje que beneficiam de, e por isso preferem, a mentalidade de “uma coisa ou outra”. Não será chegada a altura de falarmos dos benefícios do “uma coisa e outra”? Não é Deus ou causas naturais, são ambos, cada um à sua maneira. Não é o Governo federal ou os cidadãos privados, igrejas e governos locais, são todos, cada um a desempenhar o seu papel, trabalhando juntos para ajudar pessoas reais com necessidades reais.

A atitude “uma coisa ou outra” é o que costuma resultar quando a ideologia começa a ser mais importante do que as pessoas. Mas a mentalidade “uma coisa e outra” é necessária quando no coração das nossas crenças – sejam elas seculares ou religiosas – está o serviço às necessidades reais dos outros. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 14 de Setembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 23 November 2016

Personalidades na Trindade

Howard Kainz
O termo “personalidade” tem vários significados, tanto positivos como negativos. Mas o mais comum, e neutro, é este do Oxford English Dictionary: “A qualidade, ou conjunto de qualidades, que torna uma pessoa um indivíduo distinto; o carácter pessoal ou individual distinto de uma pessoa, especialmente de tipo marcado ou fora do comum”.

Como cristãos, acreditamos que existem três pessoas em Deus. Trata-se de uma união na distinção. O Filho é diferente do Pai, o Espírito é diferente do Pai e do Filho, etc.

Pode soar a politeísmo e os muçulmanos, e outros que advogam um monoteísmo rigoroso, consideram-no chocante. Mas como diz São Tomás, em relação à acusação muçulmana de politeísmo, esta incompreensão deve-se ao enfoque míope na geração física e na incapacidade de compreender a possibilidade de uma geração puramente espiritual.

Logo, a elaboração por parte dos cristãos da única natureza divina, enquanto puro espírito, em Pai, Filho e Espírito Santo não é contraditória nem deve ser entendida como referente a “três deuses”. Estas três Pessoas não são, por isso, personalidades idênticas, como se fossem clones, e não devemos surpreender-nos pelo facto de terem características de personalidade distintas entre si. O que podemos dizer sobre estas características?

O Filho: Nós cristãos, imbuídos pela religião do Filho, naturalmente sabemos mais sobre a personalidade de Jesus Cristo, que veio viver entre nós e, por vezes, até nos iluminou sobre as suas qualidades pessoais. Convenientemente, descreveu-nos aquilo que é e como aparece aos outros: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt. 11,29).

Por vezes, nos Evangelhos, Jesus permite que brilhe diante dos homens a prova do seu poder e da sua natureza divina, como na Transfiguração (Mc. 9,1), ou quando os guardas que o iam prender caiem por terra quando Ele se identifica (Jo. 18,6), ou nos seus múltiplos exorcismos, em que os demónios sentem um poder que emana dele.

Mas a maioria dos seus contemporâneos, embora maravilhados com as suas curas e os seus exorcismos, quando estavam na sua presença provavelmente não repararam em nada mais do que um pregador calmo e modesto. Os seus vizinhos estranharam onde é que um carpinteiro teria ido buscar tanta sabedoria, pois conheciam-no e à sua família e não compreendiam o que se estava a passar. E até os seus primos não reconheceram nada de especial nele e só creram depois da Ressurreição (Mt. 13,55-56)

Jesus também nos fala dos seus interesses pessoais na vida: não julgar os pecadores, mas salvá-los (Mt. 9,13), embora no final dos tempos Deus Pai o encarregue do poder último de julgar (Jo. 5,22)

O Pai: O Novo Testamento está repleto de referências a Deus Pai, mas este conceito de Deus enquanto “Pai” também existe no Antigo Testamento: Nos profetas (Is. 63,16, 6,8; Jer. 3,4, 3,19), no Salmo 89 e sobretudo no Livro da Sabedoria, em que Deus é descrito como o “pai do mundo”, que formou o primeiro homem (10,1), trata os justos de forma paternal (2,16, 11,11), e governa todas as coisas de forma providencial (14,3).

No Evangelho de João aprendemos que Jesus experimentava a presença constante do Pai (Jo. 5,19), que fala sobre aquilo que aprende na sua presença (8,38, 12,50) e acrescenta que, de facto, o Pai trabalha através dele (14,10). Jesus, que habitualmente põe em prática aquilo que vê no Pai, pode dizer a Filipe “aquele que me vê, vê o Pai” (Jo. 14,9).

Fresco da Santíssima Trindade em Urschalling, Alemanha
As principais descrições que Jesus faz do Pai dizem respeito a um Criador beneficente, que distribui e mantém toda a natureza de bens no mundo, para serem usados, bem ou mal; que é quem providencia de forma mais solícita, olhando até pelos pássaros do ar e pelos lírios do campo, satisfazendo as necessidades mais íntimas de todos, bons e maus (Mt. 5,45, 6,8) e que, como um arquitecto nos bastidores, prepara continuamente mansões para os fiéis (Jo. 14,2, 20,23).

O Espírito Santo: Embora Miguel Ângelo tenha feito um belo trabalho a representar Deus Pai na Capela Sistina, nos Evangelhos o Pai aparece apenas como uma nuvem (Mt. 17,5, Mc. 9,6, Lc. 9,35). O Espírito Santo, que aparece apenas como uma pomba (Mt. 3,16, Mc. 1,10, Lc. 3,22, Jo. 1,32) ou como línguas de fogo (Act. 2,3) seria um desafio ainda maior à capacidade artística do pintor. (Tenho uma vaga memória de ter visto uma representação feminina do Espírito Santo numa Igreja na Europa há várias décadas).

No Novo Testamento o Espírito Santo é comparado ao vento, soprando onde quer, fora do controlo dos homens (Jo. 3,8), distribuindo graças especiais (Gal. 5,2), incluindo dons extraordinários como a profecia ou a cura (Act. 2,17, 1Cor. 12,8-9) e por vezes a inspirar as palavras dos seguidores de Jesus, sobretudo em circunstâncias difíceis e quando desafiados pelas autoridades (Lc. 12,11).

O místico luterano alemão, Jacob Boehme (1575-1624), autor de “Os Três Princípios da Essência Divina” e “A Tripla Vida do Homem”, passou a maior parte da sua vida fascinado pela doutrina da Trindade. Escreveu imenso sobre as várias operações e reflexos do Pai, Filho e Espírito Santo no Universo e argumentou contra muçulmanos e outros que negaram a Trindade.

O filósofo alemão G.W.F. Hegel (1700-1831) considerava a visão trinitária do mundo de Boehme fascinante, mas criticava os seus entusiasmos místicos que “punham a cabeça em água” e por isso desenvolveu uma mundovisão filosófica mais “científica”, caracterizada por tríades.

Hegel também se juntou a Boehme na defesa do Cristianismo Trinitário. Falando sobre o surgimento do Deísmo durante a Revolução Francesa, Hegel escreveu que o Ser Supremo do Deísmo, elogiado por Voltaire e outras figuras do Iluminismo, não passava de um “Além” nebuloso, comparável à “exalação de gás estagnado” e de seguida oferece a sua própria “fenomenologia”, analisando a emergência final de uma “religião revelada” trinitária.

É comum ouvirmos dizer que a família nuclear cristã é um reflexo da Trindade, e assim é. Mas claro que existe uma variedade enorme e diversificada de outros reflexos no nosso mundo, mais até do que os milhares imaginados por grandes místicos como Boehme.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 22 de Novembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 13 January 2016

Sim, Cristãos e Muçulmanos Adoram o Mesmo Deus

Francis J. Beckwith
Nota: O mais recente artigo do professor Beckwith sobre este assunto gerou muita controvérsia entre leitores do The Catholic Thing e outros. Muitas pessoas pensaram que ele estava a afirmar a semelhança daquilo que são claramente duas religiões muito diferentes. Neste novo artigo ele clarifica alguns pontos da doutrina católica sobre o assunto e sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão. – Robert Royal

No dia 17 de Dezembro abordei nesta página a questão de se os muçulmanos e os cristãos adoram o mesmo Deus. Dei a mesma resposta que foi dada pelo Vaticano II, e pela Igreja Católica desde o Concílio: Sim. Os Muçulmanos e os Cristãos adoram o mesmo Deus, pese embora o Islão tenha um entendimento imperfeito do divino, uma vez que nega a divindade de Cristo e, implicitamente, a natureza trinitária de Deus.

Como a Igreja declara na Nostra Aetate (1965) sobre os muçulmanos: “Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens (…) Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta”.

Este argumento levou a muitas respostas críticas, quase todas de cristãos não-católicos, incluindo pensadores distintos como Albert Mohler, Andrew Walker, Matthew Cochran e Peter Leithart. (Isto para não falar de uma enxurrada de revolta de leitores do The Catholic Thing). Cada um deles, enfatizando questões diferentes, identifica correctamente aquilo que os cristãos consideram ser as inadequações da teologia islâmica, tendo em conta a forma como Deus se tem revelado ao longo da história, como aprendemos na Escritura. Nada tenho contra esta linha de argumentação, pelo contrário, ela é consistente com o meu próprio argumento. Passo a explicar.

A visão da Igreja distingue entre revelação “geral” e “especial”. A primeira diz respeito àquelas verdades sobre Deus que podem ser conhecidas através da razão humana, por si; esta diz respeito àquelas verdades sobre Deus que só conhecemos através da Escritura, Sagrada Tradição e/ou o Espírito Santo que fala através do magistério. (Muitos protestantes também aceitam esta distinção, embora na categoria de revelação especial incluam apenas as Escrituras).

Para melhor compreender esta distinção, vejamos este argumento para a existência de um Deus Criador, do filósofo persa e muçulmano Al-Ghazali (1058 – 1111 AD), conhecida como o “Argumento Cosmológico de Kalam” e que é uma peça proeminente da filósofo e apologista evangélico William Lane Craig. Ele resume o argumento da seguinte forma.

1. Tudo o que tem início tem uma causa.
2. O universo começou a existir.
3. Logo, existe uma causa para a existência do universo.

Depois de defender cada uma das premissas deste argumento, um cristão com formação filosófica passará a demonstrar (através de vários argumentos) que a primeira causa do universo deve necessariamente ser um Criador eterno, auto-subsistente, perfeito e não causado, que sustenta tudo e que não deriva o seu ser de qualquer outro. (O Craig coloca a questão de uma forma ligeiramente diferente, uma vez que não é um teísta clássico, o que levanta a questão ainda mais bizarra de saber se todos os cristãos adoram o mesmo Deus, um assunto que deixaremos para outra altura).

Suponha-se que o Abdullah, um ateu árabe, depois de se ter deixado convencer por este argumento passa a acreditar, como acreditam os cristãos, que tal Criador existe. Será que o Abdullah e um cristão acreditam no mesmo Deus? Parece-nos que sim. O Cristão, como é evidente, não só acredita neste Deus mas presta-lhe culto também. Acredita também em muitas outras coisas sobre este Deus que a revelação geral, por si só, não lhe fornece. Estas coisas incluem a noção de que Deus é uma trindade, que a Segunda Pessoa da Trindade encarnou como Jesus, e por aí fora. De acordo com a fé cristã, estas crenças apenas se podem depreender com base na revelação especial, a Bíblia.

"Não há outro Deus que não Deus"
Pouco depois de ter mudado de ideias sobre a existência de Deus, Abdullah passa a frequentar a mesquita local, onde lhe ensinam a acreditar que o Criador (a quem ele chama “Allah”) é digno de adoração, não é uma Trindade, não pode gerar nem ser gerado, e por aí fora. Estas crenças não derivam da revelação geral que o levou a acreditar em Allah mas derivam, antes, daquilo que os muçulmanos acreditam ser revelação especial, o Alcorão.

Será que Abdullah e o cristão ainda acreditam no mesmo Deus, que agora ambos adoram? Sim, mas com um senão: Embora adorem o mesmo Deus, não podem ter os dois razão sobre a Trindade e a Encarnação. Partindo do princípio que o Cristianismo e o Islão são opções mutuamente exclusivas, entre o cristão e o Abdullah há um que sabe mais sobre Deus do que é possível depreender a partir da revelação geral. Mas é precisamente por isso que é correcto dizer que adoram o mesmo Deus, apesar de um deles estar claramente enganado sobre algumas das crenças que tem sobre esse Deus.

Vejamos mais este exemplo: A Lois Lane está apaixonada pelo Kal-El (o nome de nascimento do Super Homem), e acredita que ele não é humana porque nasceu em Krypton. Agora imagine-se que a Lana Lang se apaixona pelo Clark Kent (o alter-ego jornalista do Super Homem) e que acredita que ele é humano porque pensa que é filho de Martha e Jonathan Kent. A Lois não sabe que o Kal-El é, na realidade o Clark Kent e a Lana não sabe que o Clark Kent é, na realidade, Kal-El.

A Lois e a Lana estão apaixonados pelo mesmo homem? Claro que sim, embora uma delas esteja claramente enganada no que diz respeito a algumas das crenças sobre o Kal-El/Clark e a sua natureza. A razão por detrás disto é que existe apenas um ser que é, na sua essência, o Kal-El.

Da mesma forma, existe apenas um ser que é, na sua essência, Deus: o Criador eterno, auto-subsistente, perfeito, não causado, imutável, que tudo sustenta e que não deriva o seu ser de qualquer outro. Nas palavras de São Paulo, no seu sermão no Areópago, “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens (…) porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos. (Actos 17: 24,28)

Se esta descrição corresponde a quem adora, então adora Deus. Em todo o caso, faria bem em dar atenção à conclusão de São Paulo nesse dia em Atenas: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há-de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. (Actos 17:30,31)

Deo Gloria.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 7 de Janeiro 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 23 December 2015

Muçulmanos e Cristãos Adoram o Mesmo Deus?

Francis J. Beckwith
A 15 de Dezembro a universidade evangélica Wheaton College, de Chicago, suspendeu uma professora residente de ciências políticas. O comunicado de imprensa da universidade afirma que a professora Larcyia Hawkins foi suspensa “devido a questões significativas sobre as implicações teológicas de afirmações que fez sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão”. Que afirmações são essas?

Segundo um artigo na Christianity Today, a Drª Hawkins atraiu as atenções quando afirmou publicamente no Facebook que iria passar a usar o véu islâmico como parte do seu percurso de Advento como gesto “de solidariedade religiosa com os muçulmanos porque eles, como eu, uma cristã, são um povo do livro. E como o Papa Francisco afirmou a semana passada, adoramos o mesmo Deus”.

Para ter a certeza que a utilização do véu islâmico por uma não muçulmana não seria ofensiva para os muçulmanos, Hawkins pediu ajuda ao Conselho para as Relações Americanas e Islâmicas (CAIR), que lhe disse que seria permissível. Mas a universidade não está preocupada com a mudança de vestuário da professora. Nas palavras do presidente Phillip Ryken, “a universidade não tem qualquer posição sobre a utilização de véus como sinal de cuidado e preocupação por membros da comunidade muçulmana, ou outras, que possam enfrentar discriminação e perseguição”.

Parece evidente, portanto, que aquilo que preocupa a universidade é a afirmação teológica de que os muçulmanos são um “povo do livro” com os quais “adoramos o mesmo Deus”. Esta última parte da afirmação foi mesmo apelidada de “incrível” e “verdadeiramente de deixar de boca aberta” por Denny Burk, um conhecido professor evangélico de Estudos Bíblicos.

Antes de eu passar a explicar porque é que Hawkins tem razão no que diz respeito a muçulmanos e cristãos adorarem o mesmo Deus e, por isso, que a sua suspensão por negar implicitamente a Posição de Fé da Universidade não tem cabimento, é importante mostrar porque é que ela está errada sobre os cristãos e muçulmanos serem “povos do livro”.

Em primeiro lugar, a vasta maioria dos cristãos não pensa assim sobre a sua fé. Os católicos, por exemplo, embora acreditem na autoridade das Escrituras, não encaram a sua fé como sendo fundada num livro. Como diz o Catecismo da Igreja Católica “No entanto, a fé cristã não é uma ‘religião do Livro’. O Cristianismo é a religião da ‘Palavra’ de Deus, ‘não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo’. Para que não sejam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos abra o espírito à inteligência das Escrituras”.

Depois, na teologia islâmica, a frase “povo do livro” diz respeito apenas a seguidores de outras religiões abraâmicas (como judeus e cristãos) e não aos próprios muçulmanos. É uma confusão parecida com aquela que não-católicos cometem quando confundem a Imaculada Conceição com o nascimento virginal.

Larciya Hawkins, com o seu véu
Passamos agora à grande questão: Os muçulmanos e os cristãos adoram o mesmo Deus? Para responder adequadamente temos de fazer algumas distinções filosóficas importantes. Primeiro, o que é que significa dois termos referirem-se à mesma coisa? Tomemos, por exemplo, os nomes “Muhammed Ali” e “Cassius Clay”. Embora sejam termos diferentes, ambos se referem à mesma coisa, pois têm propriedades idênticas. O que for verdade em relação a Ali é verdade em relação a Clay e vice-versa. O mesmo se aplica a Robert Zimmerman/Bob Dylan, e Norma Jean Baker/Marilyn Monroe.

Por isso, o facto de os cristãos chamarem a Deus “Javé” e os muçulmanos lhe chamarem “Allah” não faz qualquer diferença desde que ambos tenham propriedades idênticas. De facto, aquilo que conhecemos como teísmo clássico foi adoptado por alguns dos maiores pensadores das religiões abrâamicas: São Tomás de Aquino, Maimonides e Avicena. Uma vez que, de acordo com o teísta clássico, por princípio apenas pode haver um Deus, os cristãos, judeus e muçulmanos que adoptam o teísmo clássico devem estar a adorar o mesmo Deus. Não pode ser de outra maneira.

Mas não é verdade que o Cristianismo afirma que Deus é uma Trindade e os muçulmanos o negam? Isto não significa que, na verdade, adoram “Deuses” diferentes? Não necessariamente. Atente-se neste exemplo. Imaginem que o Fred acredita que existem provas convincentes de que Thomas Jefferson teve vários filhos com a sua escrava Sally Hemings e, por isso, o Fred acredita que Jefferson possui a propriedade de “ser pai de vários dos filhos de Hemings”. Por outro lado, o Bob não se deixa convencer por essas provas e acredita que Jefferson não possui essa propriedade de “ser pai de vários filhos de Hemings”.

Não será lógico então dizer que o Fred e o Bob não acreditam no mesmo terceiro Presidente dos Estados Unidos? Claro que não. Da mesma maneira, Abraão e Moisés não acreditavam que Deus era Trindade, mas Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e Billy Graham acreditam. Isso significa que Agostinho, Aquino e Graham não acreditam no mesmo Deus que Abraão e Moisés? Mais uma vez, claro que não. O facto de uma pessoa ter um conhecimento incompleto ou falso sobre outra pessoa – seja humana ou divina – não significa que alguém com informação melhor ou mais completa não esteja a pensar na mesma pessoa.

Por estas razões, seria uma verdadeira injustiça se a Wheaton College fosse despedir a professor Hawkins simplesmente porque quem está a avaliar o seu caso não consegue fazer estas distinções filosóficas subtis, mas importantes.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Dezembro 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 17 January 2012

Bispos presos, rusgas em dioceses, Deus no banco dos réus

Nas últimas semanas tem-se falado na hipótese de fechar as igrejas durante mais horas, por causa da crise e por causa dos perigos dos assaltos. Em Viseu, D. Ilídio Leandro considera que isso é o oposto do que é preciso neste momento.

Na China continuam vários bispos e padres detidos pelo Governo sem acusação e sem explicação. A agência AsiaNews quer que sejam libertados a tempo do Ano Novo chinês.

Os escritórios de três dioceses belgas foram alvo de buscas pela polícia, ontem, por causa de processos relacionados com abusos sexuais.

E por fim, hoje faz anos que Deus foi julgado e condenado à morte por um tribunal popular soviético. Ao longo do século XX há pelo menos mais dois casos em que se repetiu um julgamento do género. Conheça-os aqui.

Os carrascos de Deus

Faz hoje 94 anos que Deus foi julgado e condenado à morte por um tribunal popular soviético.

O processo levou cinco horas e até teve direito a defesa, se bem que os esforços dos advogados do arguido se tenham limitado a tentar argumentar a sua inimputabilidade por “grave demência e perturbações psíquicas”.

Anatoly Lunacharsky, o arquitecto desta manobra de propaganda e juiz no processo, decidiu, sem grandes surpresas, condenar Deus pelos crimes de genocídio e crimes contra a humanidade.

Se durante o julgamento Deus tinha sido representado pela colocação de uma Bíblia no banco dos réus, no dia seguinte o pelotão de fuzilamento decidiu-se por uma abordagem mais prática e disparou uma salva de tiros para o… céu.

Tanto quanto foi possível averiguar, esta foi a primeira vez que Deus foi julgado (exceptuando o julgamento de Jesus Cristo, para quem é cristão). Mas não a última!

Na Guerra Civil de Espanha tornou-se famosa a imagem de um pelotão de fuzilamento republicano a executar a sentença de morte contra uma imagem de Cristo Rei.

Mas a história mais interessante que mete Deus no tribunal ter-se-á passado num campo de concentração Nazi, durante o holocausto. Na verdade não há provas concretas que tenha tido lugar, mas a lenda teve força suficiente para ter entrado no imaginário e ser representado num filme.

Um grupo de prisioneiros judeus, discutindo como era possível acreditar em Deus na situação em que se encontravam, decidiram julgá-lo num tribunal rabínico. No filme o processo é levado a cabo com muita seriedade. O advogado de defesa cumpre o seu papel com a maior devoção, mas isso não chega para que o Senhor seja ilibado.

Talvez o mais engraçado seja o crime pelo qual os judeus o condenam: quebra de contrato.

Pelo menos no filme, contudo, fica a ideia de que no final, mesmo para quem considerou Deus culpado, a história não é assim tão simples. Aqui podem ver uma parte do julgamento. Neste canal de YouTube (de um ateu militante brasileiro) podem ver o resto, se assim quiserem, legendado em português.


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