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Wednesday, 29 March 2023

Despertando a Fé

Pe. Paul Scalia
Vivemos a Quaresma com os olhos postos na profissão de fé, na Páscoa. Nessa altura os catecúmenos farão a profissão de fé pela primeira vez e os baptizados renovarão a sua. É por isso que a Igreja nos dá a ler Evangelhos sobre a fé durante a Quaresma.

Ao longo das passadas cinco semanas temos escutado essas lições. Jesus é transfigurado diante dos apóstolos para confirmar nas suas mentes aquilo que já sabem pela fé. Na sua conversa paciente com a samaritana Jesus conduze-a a conhecê-lo como o Cristo: “Sou eu, que falo contigo”. Da mesma forma conduz o cego de nascença da escuridão da ignorância para a luz da fé. Este arranjo de leituras tem por objectivo aprofundar a nossa fé para que possamos renovar ainda mais convictamente as nossas promessas baptismais na Páscoa.

No passado domingo ouvimos esta última lição sobre a fé antes da Semana Santa. O relato da ressurreição de Lázaro (João 11, 1-45) coloca-nos diante do maior dos milagres de Jesus, o seu último “sinal” no Evangelho de São João. Do início ao fim, estamos perante uma história de fé. E a heroína da cena é Marta, a irmã ansiosa e mandona da mais pacífica e contemplativa Maria. Em Marta vemo-nos como somos e como devíamos ser.

Desde o início sentimos que Jesus pretende aumentar a fé de Marta e de Maria. O Evangelista João diz-nos que “Jesus amava Marta, a sua irmã, e Lázaro”. Depois diz, como se fosse uma consequência lógica: “Quando ouviu que ele estava doente, permaneceu ainda dois dias no lugar onde estava.” Como é que se explica esta demora?

Não é que nosso Senhor seja insensível e despreocupado com o pobre Lázaro. É antes que ele permite que esta grande tristeza recaia sobre aqueles que ama para poder retirar deles um maior acto de fé. Ele permite que a situação ultrapasse a mera esperança humana. Permite o desespero. Atrasa a sua resposta para lhes poder dar a oportunidade de aumentarem a sua fé. 

Porque é que Ele não vem? Podemos imaginar Marta a fazer essa pergunta quando Jesus não chega imediatamente. É uma pergunta que também nós colocamos sempre que as nossas orações parecem demorar a ser atendidas. Quanto tempo, meu Deus? Esta passagem fornece-nos, por isso, uma lição sobre a oração de intercessão. Não devemos desistir de rezar quando não vemos resultados imediatos, ou quando as coisas até parecem piorar. A nossa fé aumenta quando esperamos pelo Senhor. Ou, melhor dito, quando Nosso Senhor nos faz esperar é para aumentar a nossa fé.

Quando Jesus finalmente chega, Marta sai ao seu encontro. As suas palavras traduzem uma enorme confiança. Começa com uma profissão de fé sobre o passado (que também serve de ligeira admoestação): “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”. Segue-se imediatamente uma profissão de fé sobre aquilo que é possível no presente: “Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá”, que é como quem diz: Eu antes confiava em ti… e ainda confio. Nem a morte pode quebrar esta confiança. Não obstante a morte de Lázaro e a aparente inutilidade das suas orações, ela persevera na fé.

Mas Jesus deseja uma fé mais forte ainda e age como um treinador que está a tentar que os seus atletas tenham um desempenho ainda melhor. Então diz de forma frontal a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim jamais morrerá para sempre”, seguido de: “Crês nisto?”

É uma pergunta que está ao nível da que coloca a Pedro em Cesareia Filipe: “Quem dizeis vós que eu sou?” De facto, Marta e Pedro são muito parecidos: obstinados, um pouco mandões, por vezes atrapalhando-se a si mesmos, mas cheios de fé. Fica-se com a ideia de que Jesus sentia por ambos uma afeição semelhante. Sem grandes surpresas Marta, como Pedro, responde com firmeza: “Sim, Senhor; eu creio que tu és o Cristo,

O Filho de Deus que deve vir ao mundo”.

Resta um teste, o mais duro de todos. “Onde o pusestes?”, pergunta Jesus. Ele quer que a fé de Marta seja posta à prova de forma extrema – na sepultura, frente a frente com o nada. Marta tropeça um pouco, tentando impedir o milagre: “Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia”. Por isso Jesus faz aquilo que já havia feito com Pedro, repreende Marta: “Não te disse que se creres, verás a glória de Deus?” És capaz de crer diante da morte? Confias só quando é mais fácil, ou também nos momentos mais escuros? Consegues crer e confiar até nos momentos de maior morte?

Com estas palavras Marta submete-se. A sua confiança é retribuída; Lázaro ressuscita.

Talvez nós fiquemos satisfeitos com uma fé superficial. Mas Deus não. Podemos pôr limites à nossa fé – a força ou a dimensão da nossa confiança, ou as situações em que confiamos. Mas Deus não coloca quaisquer limites. Ele continua a puxar por nós para aumentar a nossa fé. Aliás, Ele não fica satisfeito até que a nossa fé seja plena, penetrando as nossas vidas todas, chegando mesmo à sepultura. Até permite provas e sofrimentos, como a morte de uma pessoa querida, para dar mais oportunidades à nossa fé. E se perseverarmos como Marta, também nós seremos recompensados.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 26 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 22 February 2023

“Esta Missa é celebrada em sufrágio pela alma de X”

John M. Grondelski
A frase que dá título a este artigo é tão comum que a maioria dos católicos nem se deve dar ao trabalho de pensar sobre o seu significado. Arriscaria dizer que muitos dos que estão presentes nas igrejas não conseguiriam explicar o que o padre está a dizer, para além de “estamos a rezar por X”. E embora isso seja verdade, há muito para além disso que uma geração anterior de católicos talvez pudesse articular, mas que, temo, a actual não consegue.

Porque é que rezamos por X?

Rezamos por X porque ele está morto e já não se pode valer a si mesmo. Isso não significa que os mortos estão simplesmente deitados, passivos. Invocamos os santos no Céu e pedimos as suas orações, eles também já morreram, mas acreditamos que nos podem ajudar.

Então porque é que rezamos por X?

Porque ele não se pode ajudar a si mesmo.

Teólogos de outros tempos poderiam ter escrito algo como “no mistério da economia da salvação de Deus, os mortos podem ajudar os outros através das suas orações, mas não se podem ajudar a si mesmos”. Essa explicação, porém, parece reduzir Deus a um fazedor de regras que “obriga” as pessoas a serem caridosas umas para com as outras, evitando que se possam ajudar a si mesmas. O problema é que isso não é verdade.

Podemos ajudar os outros porque é uma forma de caridade – no verdadeiro sentido teológico, e não apenas como quem dá dinheiro para uma boa causa. Mas mudar-nos a nós mesmos implica sermos verdadeiramente nós mesmos e, depois da morte, já não o somos. Os humanos são seres corporais e espirituais. A minha alma pode estar no purgatório, mas o meu corpo está no cemitério de Santa Gertrude.

É por isso que no Credo dizemos “creio na ressurreição dos mortos” e não apenas “na vida eterna da alma”. Foi toda a pessoa – corpo e alma – que me fez ser bom ou mau. Toda a pessoa – corpo e alma – deve agora partilhar o meu destino eterno.

Vemos, assim, que a alma não é capaz de se valer a si mesma, uma vez que é preciso a pessoa por inteiro – corpo e alma – para agir, o que já não é possível. Nós, porém, que continuamos a ser pessoas completas neste mundo e podemos por isso praticar a caridade, podemos ajudar os nossos entes queridos que já morreram.

O que por sua vez significa que devemos apreciar a absoluta importância da corporificação e da sua relevância para a vida neste mundo e no mundo que há de vir. Não obstante o cartesianismo e a dualidade que deturpam o pensamento ocidental, contrariamente a todas as ideologias da “identidade” que depreciam o corpo ou acreditam que este pode ser alterado através da vontade, o corpo tem valor.

(Claro que isto levanta uma série de questões sobre outras práticas funerárias actuais, desde a aceitação em larga escala da cremação à destruição deliberada – compostagem – do corpo para transformar o Tio Zé em solo. Mas deixemos isso para outro artigo.)

Percebemos, então, que devemos rezar pelos mortos. Mas porquê oferecer uma Missa?

Será porque “onde dois ou três se reunirem em seu nome” – e nós somos uma “comunidade”? Ou talvez porque algumas pessoas pensam que a oração comunitária multiplica a eficácia. Talvez para recordar o nosso antigo paroquiano que costumava vir à missa das 9h30, e se sentava ali mesmo?

Não.

Oferecemos “Missa por sufrágio da alma de X” porque a Eucaristia é um sacrifício, uma re-presentação do sacrifício de Cristo na Cruz, uma oferta do Preciosíssimo Dom que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ofereceu em e com o seu Verdadeiro Corpo e Sangue, que se torna verdadeiramente presente aqui e agora neste sacramento e que é verdadeiramente parte da grande dádiva de si mesmo “por nós e por nossa salvação”.

A compreensão, sequer, deste último parágrafo pressupõe uma compreensão da Eucaristia como sacrifício, e nos termos da Presença Real. Uma sondagem da Pew, de 2019, revelou que 69% dos católicos americanos contemporâneos pensam que a Eucaristia é apenas um símbolo. Se os autores da pesquisa tivessem perguntado, acredito que teriam descoberto uma iliteracia teológica equivalente no que diz respeito à Missa enquanto sacrifício.

Se não compreendermos a Eucaristia como um sacrifício em que Jesus Cristo se faz presente de novo, aqui e agora, corpo e sangue, alma e divindade, então também não podemos compreender a ideia do sufrágio pelos mortos, nem como ou porque é que a Missa pode contribuir de facto para o repouso da alma de X.

Se a Eucaristia não passa de uma refeição comunitária que nos une “simbolicamente” e nos recorda de Jesus, bem como dos nossos entes queridos, então na prática não passamos de protestantes. A ideia católica do verdadeiro valor da oração – em especial da Missa – pode, nesse caso, servir como pensamento piedoso, mas não é nada de real. Não faz sentido.

Tenho argumentado que a falta de uma compreensão católica do valor da Eucaristia como oferta sacrificial pelos mortos é a razão pela qual, sem saber verdadeiramente porque estamos num enterro ou numa Missa, os queremos transformar em “memoriais” que servem “tanto para os vivos como para os mortos”, uma mera recordação de boas memórias e frases sentimentais sobre “um sítio melhor” sem que as palavras tenham um verdadeiro sentido profundo. A necessidade dessas memórias alicerça-se hoje em dia na ausência de uma vigília tradicional, ou na substituição de corpos por fotografias em funerais pós-cremação.

Os bispos americanos começaram um “reavivamento eucarístico” em resposta ao escândalo de mais de dois terços dos católicos não compreenderem a Presença Real. Essas pessoas também não compreendem a Eucaristia como a Presença Real oferecida em sacrifício, e como isso agora serve para sufrágio da alma de X. Até que a verdadeira teologia eucarística seja recuperada e ensinada em larga escala, inteiras secções de doutrina católica continuarão a ser “mistérios”, não no sentido próprio das dimensões suprarracionais do divino, mas de iliteracia religiosa. Incluindo compreender porque é que “Esta Missa é celebrada em sufrágio pela alma de X”.  


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 2 November 2022

Daqui até à Eternidade

Randall Smith

Poucas coisas desafiam a nossa tranquilidade e provocam em nós um sentido de temor existencial mais profundo do que a recordação da morte. Se tudo aquilo que procurámos alcançar – tudo o que aprendemos e experienciámos, toda a gente a quem amámos – se resume a nada, haverá, pensamos nós, algum sentido para a vida?

O Vaticano II observa, e bem, que: “É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre” (Gaudium et Spes, 18).

Ao longo da história muitas pessoas se convenceram de que deve haver uma vida depois da morte para que a vida tenha algum sentido. E, porém, algumas das concepções da vida depois da morte também tornam esta vida sem sentido.

Se o Céu é assim tão maravilhoso, porquê perder o nosso tempo na terra? E o que é feito de tudo aquilo pelo qual nos esforçámos? Todas as nossas relações, os nossos amores, a nossa dedicação aos outros? As coisas que amamos são simplesmente abandonadas quando morremos? Para muitos, mesmo aqueles que crêem na vida depois da morte, o maior medo que existe é de perderem as ligações com aqueles que amam.

Assim, também, a ideia do tipo de boa vida que devemos ter nesta vida não deve contradizer a vida abençoada no Céu, e vice-versa. Se a “melhor vida para o homem” é uma vida de virtude, então não podemos, sob risco de sermos culpados de grave inconsistência, afirmar que a vida dos bem-aventurados no Céu envolve relações sexuais dissolutas com setenta virgens.

De igual modo, se um cristão crê que o Céu é um reino de amor abnegado de Deus e dos outros, mas vive a vida presente em busca de riqueza, poder e estatuto, então essa pessoa não compreendeu a relação essencial entre esta vida e a próxima.

Uma das coisas que a divina Revelação nos mostra, e que se confirma de forma mais plena nas aparições de Jesus Ressuscitado, é que a promessa de Cristo de vida eterna inclui a ressurreição do corpo. Infelizmente, muitos cristãos parecem não ter noção desta crença central da nossa fé. Apesar de repetirmos em cada recitação do credo que cremos “na ressurreição da carne”, é raro o cristão que verdadeiramente se apercebe deste ensinamento cristão.

Se um cristão afirma que a morte implica a libertação da alma do corpo, como Sócrates parece ter defendido, então estariam em contradição não apenas com o ensinamento de São Paulo sobre a ressurreição da carne, mas também com o entendimento cristão da unidade intrínseca entre corpo e alma. Mesmo os cristãos que sabem que a fé implica acreditar na ressurreição da carne perguntarão o que é que isso significa.

Esta é, obviamente, uma questão muito importante, demasiado complexa para encaixar num curto artigo como este, por isso o leitor perdoar-me-á se eu aproveitar para falar do meu novo livro, From Here to Eternity: Reflections on Death, Immortality, and the Resurrection of the Body que acaba de ser publicado pela Emmaus Press. Deixem-me dar-vos só umas luzes, para que decidam por vós se é o género de coisa que gostariam de ler (ou de oferecer a muitos amigos – não que eu esteja a insinuar nada…).

No livro argumento que a revelação mais plena da visão cristã da vida depois da morte se dá na pessoa do Cristo ressuscitado. Há outras imagens de “Céu” nas Escrituras, e não estão desprovidas de importância, mas não deixam de ser apenas imagens. A revelação mais central e importante da vida após a morte é dada pelo próprio Cristo, no seu corpo ressuscitado.

Essa revelação assegura-nos que, depois da morte, podemos, se respondermos às graças que Deus nos deu, partilhar de forma plena no amor trino de Pai, Filho e Espírito Santo. Mas mostra também que estaremos unidos a Deus de tal forma que não perdemos a nossa identidade ou a nossa relação com aqueles que amamos. O Cristo ressuscitado que se revela a si mesmo no Cenáculo continua a ser Jesus, aquele que eles conheciam, e não um “espírito” gnóstico que se libertou depois da morte do seu corpo.

Maria e os Santos não foram “absorvidos” por Deus como uma gota de água a regressar ao oceano. Permanecem pessoas distintas, ainda ligadas a nós no amor, mas cada vez mais intimamente, não só junto a nós, mas agora acima e dentro de nós, rezando por nós de uma forma ainda mais potente a cada momento, unidos a nós precisamente porque unidos ao Corpo Ressuscitado de Cristo.

A Ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos fiéis dão-nos esperança – não apenas a esperança de uma fuga desta vida, deixando para trás todos aqueles que amamos, mas sim uma esperança na transformação e na redenção desta vida – uma caminhada que, ainda que apenas encontre o seu destino na próxima vida, começa agora, hoje, nesta vida.

“Fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo”, escreve São Paulo aos Romanos, “a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.”

Tal como a Igreja há muito que ensina que a graça não viola a natureza, antes a aperfeiçoa, assim também a noção cristã da vida depois da morte não nega o valor desta vida, mas aperfeiçoa-a. A promessa cristã é de que, quando vivemos as nossas vidas em continuidade com Cristo crucificado e ressuscitado, estamos a viver agora uma antevisão da vida de que gozam os bem-aventurados – todos os santos que por estes dias celebramos – no Céu.

Assim, a mensagem crista é esta: Comecem a viver agora a vida do céu, que é a vida do Cristo crucificado e ressuscitado, uma vida purgada do nosso falso eu e do seu egoísmo, abrindo assim caminho para uma “vida eterna”, uma vida devotada ao amor abnegado por Deus e pelo próximo. A “Boa Nova” é o conhecimento de que nenhum poder no mundo, por maior que seja, nem mesmo a morte, pode separar-nos desse amor por Deus e pelo próximo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 1 de Novembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 3 August 2022

Marta, Maria, Lázaro e o Amor de Jesus

Pe. Thomas G. Weinandy
Há muitos anos que penso que a solenidade de Santa Marta deveria incluir toda a sua família – Marta, Maria e Lázaro. Por isso foi com agrado que vi o Papa Francisco criar, em 2021, uma solenidade que honra os três. Eles são um exemplo de uma “família” de amor uns pelos outros e por Jesus, bem como do amor de Jesus por eles, em particular por Lázaro. Contudo, este trio também tem algo de misterioso.

São os três adultos, mas nenhum é casado – algo raro tendo em conta a cultura judaica do seu tempo. Em Lucas, Marta aparece sempre como a chefe de família. Lucas refere-se a Marta como acolhendo Jesus na “sua casa”, enquanto Maria é representada como a irmã contemplativa.

Lucas não menciona Lázaro. Porém, no Evangelho de João, quando as irmãs informam Jesus da doença de Lázaro referem-se a ele apenas como “aquele que tu amas”, presumindo que Jesus saberia logo de quem falam. João também diz “Jesus amava Marta, e a sua irmã, e Lázaro”. Eis o mistério. Porque é que duas irmãs e um irmão viveriam juntos, e porque é que Jesus teria um amor especial por Lázaro?

Há quem especule que Lázaro pudesse ter uma doença degenerativa, e que por causa disso ele estava ao cuidado das suas duas irmãs, o que poderá também ter levado a que Jesus sentisse por ele uma afeição especial. Assim, Jesus declara imediatamente que a sua doença não é para a morte, mas para a glória de Deus e do seu Filho. Não será apenas Jesus a ser glorificado com este evento, Marta e Maria também serão.

Quando Jesus chegou, soube que Lázaro estava no túmulo há já quatro dias. Marta, sempre igual a si mesma, saiu ao encontro de Jesus enquanto que Maria, na mesma medida, permaneceu em casa.

Marta diz que se Jesus estivesse presente, o seu irmão não teria morrido, mas que tudo o que Jesus pedir a Deus, Ele concederá. Em resposta Jesus declara a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?” (Jo 11, 25-26)

Este é o momento de glória de Marta. O Evangelho de João não narra a proclamação de fé de Pedro, de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Aqui é Marta quem tem a honra de ecoar a declaração de Pedro: “Sim, Senhor, eu acredito que tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Para Marta, Jesus é o “Senhor” divino, porque é filho encarnado do Pai, ungido pelo Espírito.

Marta é glorificada na sua profissão de fé; Maria é glorificada no seu amor. Quando Jesus viu Maria a seus pés, chorando amorosamente a morte de Lázaro, Jesus “comoveu-se profundamente”. Perguntou onde é que Lázaro estava sepultado. No túmulo, também Jesus chorou por amor e alguns dos judeus comentaram quanto ele o amava.

Assim, apercebemo-nos do amor que liga Marta, Maria e Lázaro a Jesus, e o amor de Jesus que O liga a eles. Vemos também que o amor de Marta e de Maria estava repleto de fé em Jesus, enquanto Filho do Pai.

Neste contexto de amor e de fé, Jesus ordena que a pedra seja removida do túmulo de Lázaro. Então clama em alta voz: “Lázaro, vem cá para for!”. Quando Lázaro sai do túmulo, Jesus diz-lhes para lhe retirarem as ligaduras e deixarem-no ir. Podemos presumir que Marta foi a primeira a desligar e a libertar Lázaro.  

Ao ressuscitar Lázaro dos mortos, Jesus manifesta que é verdadeiramente a ressurreição e a vida. E aqueles que crêem nele como Filho do Pai, ainda que morram, viverão.

Ainda que Jesus tenha ressuscitado Lázaro dos mortos, e assim o possa ter curado da sua anterior doença, esta não foi uma ressurreição gloriosa da morte – ele tornaria a morrer. Jesus apenas se torna a ressurreição e a vida quando ele mesmo morre e é gloriosamente ressuscitado de entre os mortos. Então, e só então, é que ele se torna capaz de ressuscitar gloriosamente de entre os mortos todos os que têm fé nele e, assim, habitam em amor nele.

Interessante e significativamente, João narra que, seis dias antes da Páscoa as duas irmãs e Lázaro convidam Jesus para uma refeição – uma refeição eucarística, em acção de graças por aquilo que Jesus fez ao ressuscitar Lázaro de entre os mortos. Claro que foi Marta quem serviu, e Lázaro estava entre os convidados.

Depois, “Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume”. Maria, aquela que ama, manifesta, de forma sensual, o seu amor por Jesus ao derramar o seu dom mais precioso, um dom que simboliza a dádiva de si mesma. Em resposta a Judas Iscariote, que lamentou o desperdício, Jesus afirma que Maria o estava a preparar para o enterro – para a sua passagem da morte para a vida, em que ele se tornaria a ressurreição e a vida.

Nesta recriação simbólica da Eucaristia reconhecemos que tal como Jesus se oferece completamente a nós na Eucaristia, com o seu Corpo Ressuscitado e Oferecido e o seu Sangue Ressuscitado e Oferecido, assim também nós, na mesma Eucaristia, devemos dar-lhe, em amor, o nosso dom mais precioso, o dom de nós mesmos.

Nesta vivência mútua entre nós e Jesus a fragrância do amor deve encher as nossas igrejas e chegar aos Céus. Mais, podemos ter a certeza de que quando Ele regressar em Glória, no fim dos tempos, Jesus chamar-nos-á a cada um pelo nome, e ascenderemos em glória para o banquete celeste – para a presença do Pai celeste com todos os santos e anjos.

Então, o amor que existia na família de Marta, Maria e Lázaro – bem como o seu amor por Jesus e o amor de Jesus por eles – encontrará a sua plenitude universal, pois Jesus será a plena ressurreição para a vida eterna.


Thomas G. Weinandy, OFM, um autor prolífico e um dos mais conhecidos teólogos vivos, faz parte da Comissão Teológica Internacional do Vaticano. O seu mais recente livro é Jesus Becoming Jesus: A Theological Interpretation of the Synoptic Gospels.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 29 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 14 April 2021

A Ressurreição dos Mortos

A imagem mais comum de Jesus é da crucifixão. Algumas mostram-no morto, pendurado, outros, mais icónicos, mostram-no na Cruz, sim, mas ressuscitado, de olhos abertos e braços estendidos, convidando todos a ir ter com Ele. No seu conjunto, estas imagens captam a dupla verdade de que Cristo morreu e ressuscitou. Ambas as afirmações estiveram sempre no cerne do credo cristão.

Se, como proclama São Paulo, “Cristo ressuscitou, e é primícias daqueles que adormeceram” (1 Cor. 15,20), então podemos compreender algo do que nos espera ao olhar atentamente para o que Cristo revelou com a sua morte e ressurreição. Uma coisa que deve ser imediatamente evidente é que a promessa cristã da vida eterna não é a mesma coisa que o objetivo transhumanista da imortalidade. A promessa de que os cristãos jamais morrerão não existe.

No Evangelho de João, pouco depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, ele diz-lhes: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar-vos um lugar. E se eu for e vos preparar um lugar, voltarei e levar-vos-ei para junto de mim, para que estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou” (João 14, 2-4).

Só com base nesta afirmação podemos bem imaginar que Jesus está a dizer que vai para um lugar e que mais tarde mostrará aos apóstolos como é que lá se chega. Tomé, sem compreender, diz: “Senhor, nós não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?” (Jo. 14,5). Mas Tomé não captou o sentido subtil das palavras de Jesus. Ele é “o caminho”. Por isso quando diz, “vocês conhecem o caminho”, o que quer dizer é “vocês conhecem-me, e Eu sou o caminho”. De facto, é precisamente isso que ele diz a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João 14,5)

Perto do final do conto humorístico de Mark Twain “Os Diários de Adão e Eva”, Adão, que inicialmente tinha resistido a Eva, esta nova criatura que está a invadir o seu espaço, chora sobre a sua campa, tendo compreendido que “onde ela estava, aí estava o Éden”. O “Diário” de Twain é uma comédia romântica, e não uma obra de teologia complexa, mas levanta questões importantes: O paraíso é um lugar, ou uma pessoa? Enquanto cristãos não somos também chamados a reconhecer que o Paraíso não é apenas um lugar, mas sim a união a uma Pessoa (ou Pessoas) – Cristo, que envia o Espírito Santo para “implementar a caridade em todo o mundo no meu coração” e nos introduz numa união com o Pai?

Na Última Ceia Cristo diz aos seus discípulos que Ele deve partir, mas que depois enviará o Espírito Santo para os ajudar e guiar. E, eventualmente, Ele “parte” mesmo. Mas depois da sua morte na cruz faz uma pausa antes de regressar ao Pai (por assim dizer) e passa mais algum tempo com os discípulos.

Porquê? Não lhes tinha dito já tudo o que precisavam de saber? Não lhes mostrou “o Caminho?” Têm a prova da sua ressurreição dos mortos no túmulo vazio.

Talvez fossem necessárias uma ou duas aparições do ressuscitado para convencer os apóstolos de que ainda vive. Mas Ele permanece com eles durante 40 dias e aparece várias vezes. Porquê?


Se, como São Paulo afirma, Cristo é as “primícias” daquilo que os fiéis defuntos vão poder gozar na ressurreição geral, o que é que as suas aparências nos revelam sobre a vida ressuscitada?

Sugiro duas coisas.

Primeiro, a sua morta não o desligou, como se poderia pensar, do Pai; pelo contrário, Ele partilha inteiramente a glória do Pai, que é revelada mais plenamente agora que Ele ressuscitou dos mortos. Mas, em segundo lugar, a pessoa diante deles ainda é o Jesus que conheciam e amavam. Dizemos às vezes que a presença de Cristo entre os onze na sala onde estavam escondidos, era uma presença glorificada, mas isso não significa que Ele estava menos presente para eles do que durante a sua vida. Ainda podiam sentar-se, conversar e comer com Ele.

O que nos é prometido, então, pelo Cristo ressuscitado, que é as “primícias” daquilo que também nós vamos gozar, é de que poderemos, depois da morte, obter a união plena com Deus e partilhar da comunhão eterna de amor partilhada entre o Pai, Filho e Espírito Santo. E porém, nesta união com o Deus Trino, não nos vamos perder como um pingo de água no oceano.

Aquilo que muitos temem na morte, seja a deles ou a dos outros, é a perda da ligação com as pessoas que amam. Se pensamos que ir para o Céu é como ir para Cleveland (só que melhor), então ficamos tristes porque eles, ou nós, “vamos embora”, ainda que esperemos que seja para “um sítio melhor”. Mas se o Céu é uma união com o Pai em Cristo através do Espírito, e se Cristo vive e está em cada um de nós, então também nós nos mantemos em comunhão com os nossos entes queridos – mais intimamente e plenamente, até – no Corpo de Cristo e na comunhão dos santos.

Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.

Por isso regozijemos na Boa Nova. Cristo ressuscitou, o amor não foi derrotado, as portas da morte foram escancaradas e os santos correm ao nosso encontro em alegria.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 7 de Abril de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 25 July 2018

As crianças devem ir a funerais? Uma resposta a uma amiga


A Ana Rute Cavaco, mulher do meu amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, escreveu um post muito interessante, de leitura obrigatória para quem tem filhos, sejam católicos, protestantes ou ateus. Ela responde à pergunta sobre se devemos deixar as crianças ir a funerais e conclui que sim. Não podia concordar mais.

Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.

Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.

Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”

Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.

Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?

Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.

Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.

E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.

Obrigado, Ana Rute, por teres desencadeado esta reflexão.


A Ana Rute respondeu entretanto a algumas das minhas perguntas:

1. Deus planeou tudo? - Sim, acredito que Deus é soberano e que não há nada que não aconteça no mundo que ele não tenha planeado. Não sendo ele a origem do mal, o mal não é algo que aconteça e que o surpreeenda. Em Isaías 46.9-10 diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.A morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados não foi o plano B de Deus. Foi o plano A desde sempre, por mais confuso que isto possa parecer, mas é o que a Bíblia me diz e eu acredito, pela fé.

2. Cremação - também não sou a favor, pelos mesmos motivos que tu. Acredito na ressurreição do corpo e na vida eterna e acho que um funeral deve ser feito pelo enterro e não pela cremação. Esta é a minha posição pessoal, mas há muitos evangélicos que praticam a cremação, e eu respeito. Centrei-me no acto ser "feio" para as crianças, porque lhes pode fazer impressão verem o corpo com que conviveram ser coberto de terra, e foi por isso que usei essa expressão.

3. A vida nos funerais - é isso mesmo: a morte não é o fim, é o princípio.
"E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

João 6:39-40

Wednesday, 16 May 2018

Ressuscitar com Cristo

Michael Pakaluk
Nota: Este tema, da cremação, é uma das minhas embirrações. Espanta-me a facilidade com que pessoas cristãs aceitam tratar os restos mortais dos seus familiares como se fosse resíduos... Mas sobre isso deixarei falar o autor. 
Esta nota serve também para recordar que este e outros artigos só existem, e só estão disponíveis em português, porque há quem contribua para manter o The Catholic Thing a funcionar. Duas vezes por ano eles fazem angariação de fundos e por isso convido todos os que dão valor a este serviço a fazer um pequeno donativo através deste link. Recordo, como já fiz várias vezes, que o dinheiro doado vai directamente para o The Catholic Thing, e não passa de forma alguma por mim.


Se visitar a cidade de St. Andrews, na Escócia, a um domingo, verá que o famoso campo de golfe está encerrado nesse dia para o desporto, estando disponível para quem quiser passear. Esta tradição é um legado de John Knox para o mundo. O austero reformador estava errado quando decidiu proibir jogos ao domingo. Mas por outro lado parece eminentemente justo que até o golfe deva testemunhar que existe algo maior. Seja como for, o campo transforma-se em parque público uma vez por semana.

Certo domingo eu estava lá a andar, com alguma rapidez, e a aproximar-me de um grupo algumas centenas de metros à minha frente. Chocado, reparei que um dos homens do grupo estava a despejar os restos do seu almoço na relva. Metia a mão dentro de um saco e, a intervalos regulares, lançava o que pareciam ser migalhas para o chão. Pelo menos era o que parecia àquela distância. Fiquei irritado e andei ainda mais depressa para poder dizer ao homem para não estragar, através desta inconsciência, o bem comum que é este belíssimo terreno.

Quando me aproximei, porém, vi que o que ele tirava do saco não eram migalhas mas restos humanos (“cinzas”). A minha fúria transformou-se em pena. Quando os ultrapassei cumprimentámo-nos e o homem explicou que o seu pai era um apaixonado por golfe e por isso ele e os seus irmãos tinham viajado dos Estados Unidos para St. Andrews, para cumprir o desejo do seu pai de ter as cinzas espalhadas naquela relva. Naturalmente não pude senão dizer algo de simpático e encorajador.

Dei por mim naquela posição tão comum de saber objetivamente que o meu próximo estava a fazer algo profundamente errado, mas de ter apenas a oportunidade, numa troca superficial de palavras, de abordar as suas intenções subjectivas.

E não haja dúvidas que aquilo que ele estava a fazer era, objectivamente, muito errado. Em primeiro lugar, a minha primeira impressão não tinha sido errada: o homem estava, de facto, a fazer o género de coisa que se faz com os restos do almoço. Mas estava a fazê-lo com os restos mortais do seu querido pai! Em segundo lugar, esses restos estavam a ser lançados ao chão, expostos e, tanto quanto sabia, até eu os tinha pisado!

Nas palavras da antiga Enciclopédia Católica, no seu artigo sobre “Cremação”: “[A Igreja] crê que é indigno que o corpo humano, outrora templo vivo de Deus, instrumento de virtude celeste, tantas vezes santificado pelos sacramentos, seja sujeito a um tratamento contra o qual a piedade filial e o amor conjugal e fraternal, ou até a mera amizade, se revoltam como desumano.”

Em terceiro lugar, os actos deste homem testemunhavam uma falsidade. Não sei em que é que ele acreditava pessoalmente. Mas os nossos actos têm frequentemente um significado, e testemunham, algo diferente daquilo em que acreditamos. O espalhar das cinzas testemunha, inevitavelmente, o panteísmo, o naturalismo ou o niilismo. Neste caso, era uma espécie de panteísmo – a falsa crença de que o próprio campo de golfe é sagrado e que, através do espalhar das cinzas, o falecido pai se pode unir de alguma forma a este ídolo.

No que toca a estes pontos acho que o Catecismo, tal como noutros, está correcto, mas pode levar ao engano por omissão. “A Igreja permite a cremação”, lê-se, “a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição”.

Podemos admitir logo que a ressurreição dos mortos não se põe em causa pelo “modo do sepulcro” (como se costumava chamar). Os judeus nunca cremavam os seus mortos. Os romanos estavam abertos tanto à cremação como ao enterro. Neste contexto, os primeiros cristãos seguiam uniformemente e definitivamente a prática judaica. Mas também insistam que não o faziam por necessidade – “como se Deus não pudesse ressuscitar os mortos tão facilmente a partir de uma mão cheia de cinzas como do pó da terra”.

É verdade que a cremação não é excluída. Mas ao mesmo tempo, como se lê no Código de Direito Canónico, “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos” (1176, §3). Ou, como se lê no site da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, citando um documento do Vaticano: “Embora a cremação já seja permitida pela Igreja, não goza do mesmo valor que a sepultura dos corpos” (n. 413). E mesmo quando os restos são cremados, o corpo deve estar presente no funeral e os restos devem ser preservados de forma digna e colocados num local santo, tal como um cemitério.

É conveniente reflectir sobre estes assuntos no tempo Pascal. Na verdade, o nome da instrução sobre cremação emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 15 de Agosto de 2016, aprovada pelo Papa Francisco, é Ressuscitar com Cristo. A linguagem que usa é muito forte. “Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.”

E continua: “Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história. Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo.”

“Nada me dá mais prazer do que ir até ao cemitério rezar o meu terço”, dizia o padre Damião de Molokai. E a instrução supracitada elogia as devoções centradas nos cemitérios, terminando com uma nota de sobriedade. “No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã” – elevando a questão do plano subjectivo para o objectivo – “devem ser negadas as exéquias, segundo o direito.”


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Maio de 2018)

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Wednesday, 19 February 2014

Referendo chumbado, Ucrânia de mal a pior

Felizmente o meu bairro não é em Kiev

A situação na Ucrânia agrava-se e começa a levantar-se o espectro de guerra civil. A capelania ucraniana (greco-católica) em Portugal pede orações pelo país e em Roma o Papa fez o mesmo.

Hoje Francisco recebeu das mãos de duas irmãs portuguesas um exemplar do documentário “O meu bairro”, sobre o trabalho de missionários da Consolata no bairro do Zambujal. Veja a reportagem.


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