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Wednesday, 22 December 2021

O que é que Esperamos?

Joseph R. Wood

Sabemos que o tempo do Advento é um tempo de espera. Tendo ouvido as leituras da liturgia de Novembro sobre o fim dos tempos, e fechado o ano com a Solenidade de Cristo Rei, começamos o novo ano à espera do que acabámos de escutar e de celebrar.

Mas também sabemos que a época das “festas” pode ser um tempo de discussões. Como Cristo prometeu, muitas famílias e amigos estão perigosamente divididos sobre quem Ele é, bem como sobre o que deve ser a nossa organização política.

Estas épocas estão muito ligadas. Estamos a aguardar que Cristo regresse finalmente para nos salvar e enquanto esperamos estamos a discutir sobre o que deve ser a nossa política.

“Venha a nós o vosso Reino”, rezamos nós em cada missa, seis vezes em cada terço e umas quantas vezes enquanto penitência. Trata-se de uma aspiração importante sobre o que o Governo deve pretender, que nos foi dada pessoalmente por Cristo. É-nos dito que devemos buscar primeiro o Reino de Deus e a sua bondade. Talvez a mais importante divisão na nossa política ao longo dos últimos séculos radique daqui. Há quem acredite que devemos fazer os possíveis para tornar as coisas melhores nas nossas comunidades políticas, enquanto aguardamos a chegada do Reino. Outros estão fartos de esperar e querem implementar o sistema político perfeito aqui e agora (normalmente estes últimos são descritos como progressistas).

Eis a raiz das grandes discussões que se desenrolam todo o ano e que parecem tornar-se mais intensas durante as festas.

Mas ambos os lados do argumento sabem que devemos esperar algo melhor, uma política melhor, ou um reino melhor e final. Como é que estas coisas se relacionam entre si?

Em ambos os casos esperamos por justiça. E queremos o que é certo.

Os salmos estão cheios de apelos à justiça, de louvor pelo homem justo, e da crença de que a justiça triunfará quando Deus reinar. Do Salmo 48: “Grande é o Senhor, e digno de louvor, na cidade do nosso Deus! … [Os senhores da terra] viram-no e ficaram atónitos, fugiram aterrorizados”. Salmo 97: “O Senhor Reina; exulte a terra e alegrem-se as regiões costeiras distantes! … Pois tu, Senhor, sois o altíssimo em toda a terra”. E o Salmo 89: “A rectidão e a justiça são os alicerces do teu trono; o amor e a fidelidade vão à tua frente”.

Não admira que Cristo nos diga para rezar por este Reino.

Mas outras fontes também clamam por esta cidade. No romance de Mark Helprin, “Winter’s Tale”, uma das chaves da história consta de uma inscrição numa grande salva: “Que se pode imaginar de mais belo que a visão de uma cidade perfeitamente justa a exultar somente na justiça?”.

Todos ansiamos por essa cidade, essa comunidade de pessoas que conjuga a verdade, a beleza e a bondade. Fontes mais antigas também comprovam este anseio. No diálogo “Estadista”, de Platão, Sócrates observa e aprova enquanto um visitante a Atenas ajuda um jovem, que também se chama Sócrates, a compreender o que é um verdadeiro estadista, um bom governante. Tal estadista conhece a alma dos seus cidadãos suficientemente bem para poder tecer as suas virtudes para o bem da cidade, nomeando os corajosos para serem líderes em tempo de guerra e os moderados para os tempos de paz.

O visitante descreve seis tipos de governo: governo para o bem comum de um, de poucos ou de muitos; e governo tirânico ou egoísta de um, de poucos ou de muitos. Este é um esquema de análise que pode ser útil ainda hoje, quando falamos de política.

Mas o visitante fala ainda de uma sétima forma de governo, uma que “devemos separar das outras constituições, como um deus dos homens”. Este governo divino excede a capacidade humana. Um bom estadista só pode conhecer de forma imperfeita as virtudes dos seus cidadãos. É preciso um governante divino para conhecer os homens perfeitamente, e assim apenas um deus pode governar de forma perfeita.

Sócrates e Platão sabiam que é assim que ansiamos ser governados. Sabiam também que tal não será possível na terra.

Igualmente, Aristóteles, aluno de Platão, descreve os seis tipos de governo mas também vê como as cidades gregas na realidade encaixam nesse esquema. Em “Política” (Livros IV e VII), ele procura separar os regimes ou as constituições que são realmente possíveis dos governos “pelos quais se reza”. Os filósofos disputam o sentido destas palavras, claro, mas parece ser um piscar de olho ao sétimo regime divino de Platão.

A grande exposição desta tensão entre comunidades políticas terrenas e o governo de Deus, e a esperança pela resolução dessa tensão, encontra-se em “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. O título vem dos salmos.

Santo Agostinho vê a divisão entre a cidade terrena, aqueles que apenas se preocupam com o que está à nossa volta, e a Cidade de Deus, os santos no Céu e aqueles que ainda estão na terra, mas na comunhão dos santos. Estes últimos escolhem Deus como seu fim, acima dos prazeres físicos e materiais, do conforto e da facilidade.

Santo Agostinho diz-nos que estas duas cidades vivem misturadas aqui na terra, até ao fim dos tempos. Às vezes os governantes terrenos tenderão para a justiça e “tranquilitas ordinis”, ou uma “tranquilidade ordenada” nos assuntos terrenos que tem por base a paz e a justiça. Paz na Terra e boa vontade para com os homens. Esta ordem é um reflexo da paz eterna do Céu.

Outros governantes opõem-se a essa tranquilidade.

Mas nunca poderemos alcançar o sistema político perfeito na terra. A paz eterna apenas será realizada naquele sétimo, divino regime em que as aparentes contradições que atormentam a política terrena sejam resolvidas.

Onde, nas palavras do Salmo 85, “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão. A fidelidade brotará da terra, e a justiça descerá dos céus”.

Esperamos pelo Senhor. Esperamos e discutimos sobre a justiça na nossa política. Esperamos por aquilo que teremos de forma completa e infinita apenas no Seu Reino, o Reino que não é deste mundo.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 12 May 2021

O Julgamento de Jesus

Joseph R. Wood

O Professor Joseph H. H. Weiler, da New York University Law School é um homem pouco comum. Nascido na África do Sul, serviu nas forças armadas de Israel e foi educado na Europa antes de rumar para os Estados Unidos. É especialista tanto em comércio como em direito constitucional e defendeu, com sucesso, o direito do Estado italiano de exibir o Crucifixo nas salas de aula diante do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Quando visitei o seu gabinete, há uns anos, os meus olhos foram atraídos imediatamente por uma fotografia da sua família a ser recebida pelo Papa (agora Santo) João Paulo II. Não era propriamente típico para um judeu devoto. Mas não é preciso mais do que dois dedos de conversa com ele para ver o espírito generoso e o grande coração que João Paulo II teria admirado. A palavra que melhor o descreve é o iídiche mensch.

Weiler estudou com atenção o Novo Testamento e, em particular, o julgamento de Jesus. Durante vários anos leccionou um curso sobre essa matéria na NYU Law School que atraía alunos judeus, católicos e protestantes.

Em 2010 proferiu o prestigiada Conferência Erasmus sobre o julgamento e resumiu o seu argumento num ensaio publicado na First Things. O ensaio conclui com esta questão séria: “Não será então possível que, neste julgamento duplo, de Jesus e dos Judeus, todos estavam a seguir o caminho de Deus?”

Como é que isso é possível? Será que ao condenar Jesus e ao pedir aos seus governantes romanos para o crucificar, as autoridades judaicas estavam a fazer a vontade do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, e no entendimento da fé cristã, do Deus-homem que morreria e ressuscitaria?

Há aspetos estranhos deste julgamento, na forma como é representado nos Evangelhos. O facto de os líderes judeus terem decidido sequer ter um julgamento é estranho. Sem a comunicação social a melgar, porque é que não teriam escolhido a opção mais simples de fazer Jesus “desaparecer”? Cristo poderia ter escapado à tentativa de assassinato quando passou por entre a multidão enfurecida, mas o concelho judaico poderia não saber isso.

No julgamento chamaram testemunhas, mas elas contradisseram-se. Não conseguiriam ter arranjado um par de testemunhas que, com um pouco de “encorajamento”, concordassem numa acusação? Aparentemente os responsáveis judeus acreditavam que precisavam de ter pelo menos a aparência de um julgamento justo.

E acabou por não ser um testemunho verdadeiro ou falso, mas sim as próprias palavras de Jesus que levaram à sua condenação.

Weiler nota que existe uma “dualidade” nas palavras de Jesus através dos Evangelhos. Ele diz que não veio mudar uma única vírgula na lei, mas para a cumprir. Ao ouvir estas palavras, os chefes dos judeus certamente pensaram no que seria esse “cumprimento”. Seria o próprio Jesus o cumprimento da lei, como chegou a dizer uma vez quando ensinava na sinagoga?

Segundo Weiler, a maioria das afirmações controversas de Jesus estavam dentro dos limites do debate aceitável. Discutir a permissibilidade de colher espigas no Sábado não era uma ofensa capital. Mas afirmar ser o Senhor do Sábado poderá ter ultrapassado esse limite. Os escribas e os doutores da lei teriam ouvido essas palavras e compreendido que Jesus estava a reivindicar para si uma divindade blasfema para qualquer mortal, mas de forma ambígua.

O julgamento tinha por objetivo clarificar essa ambiguidade. Mas Jesus diz pouco no julgamento, não nega nada e deixa o tribunal ainda incerto sobre o seu “estatuto”. As suas palavras são tomadas como uma confirmação da sua apresentação blasfema de si mesmo enquanto Deus.

Weiler encontra em Deuteronómio 13, 1-5 uma explicação possível para o comportamento do tribunal.

H. H. Weiler

Se surgir no vosso meio um profeta ou alguém que faça predições através de sonhos e vos apresentar um sinal ou um prodígio, e o sinal ou o prodígio sobre o qual ele vos falou se cumprir, e ele disser: ‘Vamos seguir outros deuses, deuses que não conheces, e vamos servi-los’, não escutais as palavras desse profeta ou daquele que faz predições por meio de sonhos, pois Jeová, vosso Deus, está a pôr-vos à prova para saber se amam a Jeová, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. (…) Mas aquele profeta ou aquele que faz predições através de sonhos deve ser morto, (…) Assim, eliminai o mal do vosso meio.

As autoridades judaicas eram responsáveis por tomar decisões que sustentariam, ou deixariam de sustentar, o dever sagrar dos judeus na aliança com Deus. Entenderam que Jesus os estava a colocar em posição de serem eles julgados à luz do mandamento de Deus em Deuteronómio.

Seria Cristo o profeta referido em Deuteronómio 13, pensaram. Os seus milagres eram verdadeiros, tal como previsto naquela passagem, não se tratava de ilusionismo. Sem qualquer conhecimento da Trindade, as suas palavras poderiam ser entendidas como um incitamento aos Judeus para seguirem outro Deus: ele mesmo, que se afirmava como sendo a verdade e a vida e o filho do Homem.

Parece inegável que Cristo disse aos seus discípulos que teria de morrer para cumprir a sua missão salvífica. Os esforços de Pedro para evitar essa morte provocaram uma das mais severas reprimendas de Cristo: “Vá de retro, Satanás”. Cristo também lhes disse que era melhor que ele partisse, para que o Advogado lhes fosse enviado no Pentecostes.

Por isso, ao condenar Jesus e pedir a sua execução, estariam os líderes dos judeus, sem o saber, a ser agentes da vontade de Deus de que Cristo fosse morto, abrindo assim caminho para a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo para todos os povos?

E estariam simultaneamente a cumprir o mandamento imposto por Deuteronómio, na qualidade de povo escolhido na aliança com Deus?

Weiler não afirma que a sua leitura seja uma solução livre de problemas, que resolve todas as questões. Mas é, pelo menos, uma questão passível de debate teológico.

E parece-me ainda que a tese de Weiler, com o seu conhecimento profundo das escrituras, não deve ser mais difícil de aceitar do que a ideia de que com Cristo a morte é vida, ou que uma Virgem pode dar à luz um homem que é Deus. O Deus omnipotente não se contradiz, mas as suas obras são insondáveis.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 7 de maio de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 2 December 2020

Outra Sagrada Família

Joseph R. Wood
Associamos o Advento à penitência e à família. Este tempo em que a Igreja espera pelo Senhor é um de preparação penitencial para a grande festa do Natal.

Para aqueles que contam entre os seus parentes pessoas com personalidades complicadas, mesmo sem pandemias e eleições as noções de penitência e família encaixam bem e sem esforço. No Evangelho de São Mateus, Cristo diz-nos para deixar “casas ou irmãos ou irmãs ou pai ou mãe ou filhos”. (Lucas e alguns dos tradutores de Mateus incluem esposas, o que pode razoavelmente entender-se como incluindo maridos também). Em troca promete-nos 100 vezes mais e para alguns de nós uma curta pausa de ter de aturar parentes argumentativos (ou pior) pode ser um bom começo.  

Já outros gostariam de ter uma família, qualquer tipo de família, das que discutem ou não, com a qual partilhar este período alegre e penitencial do ano litúrgico, bem como os altos e baixos da vida.

A Igreja apresenta a Sagrada Família de Belém e de Nazaré como um modelo para a vida familiar. A família é reconhecida como a relação natural fundamental desde Aristóteles até às Escrituras, de Edmund Burke a Winston Churchill.

Aqueles que não têm a sorte de ter uma vida familiar especialmente alegre poderão ter bem a noção de que a Sagrada Família era atípica. A mãe e esposa não carregava os efeitos o pecado original; o padrasto e marido teve sonhos convincentes de que a sua esposa era fiel tanto a ele como ao grande plano de redenção; e o filho era Deus.  

Trata-se de um modelo que os mortais decaídos têm dificuldade em seguir, mesmo na melhor das situações. Mas a Igreja tem razão quando diz que a nossa maior alegria nesta terra vem de tentar seguir fielmente esse modelo, nas famílias e nas comunidades, e que quem não tiver esse tipo de amor sofre profundamente.

A sua proibição do divórcio, a afirmação de que o adultério é pecado e a sua obediência aos pais depois da aventura de três dias no templo, são a forma como Cristo fortaleceu o nosso conceito de família. A parábola do Filho Pródigo realça o amor de um pai pelo seu filho desviado e a necessidade de um irmão mais velho se colocar acima do ressentimento de um filho obediente que se sente negligenciado.

Os milagres em que Jesus cura crianças, parentes, criados e até a sogra daqueles que lho pedem com fé mostra a sua atenção e afeto especial para com a família. O seu primeiro milagre público foi fornecer vinho para um casamento, onde as famílias celebram a criação de uma família nova.

Cristo cura o homem cego cujos pais, com medo dos fariseus e distanciando-se do seu filho, escondem qualquer interesse no assunto que possam ter.

Mas é evidente que Cristo nos chama a mais do que a nossa família natural. Frequentemente chama a nossa atenção para outra família, sobrenatural, que é verdadeiramente sua. Os membros dessa família podem vir, ou não, de lares felizes.

Os seus discípulos largam as suas famílias e negócios mundanos para o seguir.

Diz a um potencial seguidor para não esperar para cumprir a sua vontade admirável de sepultar o seu pai e a outro que adiar para dizer adeus à sua família não era forma de o seguir. Ele não aceita hesitações por parte daqueles que chama das suas famílias naturais para se juntar à sua.


Jesus insiste que veio trazer divisões aos lares e que quem ama pai, mãe, irmã ou irmão mais do que a Ele não é digno dele. Todos os Evangelhos sinópticos incluem versões da sua exigência para que deixemos pais, irmãos, esposos e lares para o seguir.

Chamado pela sua própria família natural enquanto pregava, responde que a sua família – os seus irmãos, irmãs e mãe – são todos aqueles que fazem a vontade do seu Pai.

Respondendo a uma questão hipotética por parte dos saduceus, sobre uma viúva que desposou sete irmãos, assegura-nos de que na Ressurreição não casam nem se dão em casamento. Os votos que estão na base da família natural não são vinculativos depois da morte e o casamento, tal como o conhecemos agora, não existe na eternidade.

Estará Cristo a denegrir a família natural? De todo.

Está a anunciar outra família, uma família final que perdurará para a eternidade. Tal como Santo Agostinho explica que a cidade humana não é a nossa pólis final e que nos encontramos a caminho da Cidade de Deus e existe uma família final para além daquela em que estamos colocados agora. São Paulo confirma-o.

Para deixar mais claro, Cristo compara o seu Reino a um casamento, o evento na terra onde uma nova família se forma.

Ele institui esta outra Sagrada Família quando, pendurado na Cruz, o seu trabalho na terra já está completo. Diz à sua mãe “eis o teu filho” e a João diz “eis a tua mãe”. No momento mais significativo da sua vida utiliza a linguagem da família natural para nos orientar para a nossa família final.

Esta outra Sagrada Família já não depende das circunstâncias do lar em que nasceram, sem qualquer voto na matéria. Ser filho ou filha nesta Sagrada Família final requer uma decisão de fé.

Os tempos penitenciais são a base da maior das festas familiares. A difícil caminhada até Belém que recordamos no Advento leva-nos até à Sagrada Família no Natal; e a Quaresma traz-nos a outra Sagrada Família aos pés da Cruz e a sua alegria pascal. A família que não encontra abrigo para o nascimento do seu filho aponta para a família no Calvário. A alegria da Encarnação que se torna visível para os pastores e para o mundo no Natal aponta para a alegria da Ressurreição.

Estes tempos ensinam-nos que toda a gente – das casas onde estas coisas são compreendidas e vividas, de casas onde reina a tragédia ou de casas que nem o são – tem o dom revelado no Evangelho de São João, o poder de se tornarem, através da Graça, filhos de Deus.

Somos chamados a ser membros das nossas famílias terrenas agora, quando também nós procuramos abrigo, aos pés da cruz e aí, por fim, membros da outra Sagrada Família, para a eternidade.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 29 de novembro de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 4 September 2013

O Avanço da Desordem

Joseph R. Wood
Ao longo das últimas semanas vimos as forças da desordem a avançar, entusiasmadas com os seus triunfos dos últimos anos. Assim rapidamente temos:

• A ex-estrela e mais-valia da Disney, Miley Cyrus, deu um espectáculo pornográfico nas MTV Video Music Awards. As suas simulações explícitas de actos sexuais, para uma audiência que os produtores sabiam que incluiria crianças, atraiu a atenção e o dinheiro que os seus managers provavelmente ansiavam. Apesar de algumas críticas, o seu desempenho reforça o argumento do “sexo enquanto entretenimento” como norma cultural, para todas as idades.

• O Internal Revenue Service [Finanças], anunciou que casais do mesmo sexo que se tenham casado em Estados que o permitem, podem preencher a declaração de rendimentos em conjunto estejam onde estiverem, mesmo em Estados que não reconhecem o seu casamento. Em linha com o chumbo do Supremo Tribunal a aspectos do Defense of Marriage Act [que proibia o reconhecimento de casamentos homossexuais a nível federal], o Estado progressista e a sua agência fiscal criaram mais um “facto no terreno” em relação à legitimação legal do casamento homossexual e a ostracização daqueles que se opõe ao seu reconhecimento.

Hadley Arkes deu a conhecer a decisão do Supremo Tribunal do Novo México de manter as multas aplicadas a um casal que se recusou, com base em argumentos religiosos, a fotografar actos de intimidade homossexual num casamento. A autoridade do Estado para descartar objecções religiosas e de consciência à sua visão de igualdade acaba assim por ser alargada.

• O Huffington Post alertou-nos para a entrada rápida no mercado de testes fáceis e baratos de despistagem de anormalidades em nascituros, tão cedo como as dez semanas de gestação, sobretudo de trissomia 21. “Estes testes… dão às mulheres mais tempo para tomarem uma decisão informada sobre se continuam com a gravidez ou para se prepararem médica e emocionalmente para o desafio de criar uma criança diferente daquela que talvez esperassem”. Um médico descreve os testes como a “entrada” que pode, se necessário, conduzir a outros mais invasivos e certos, durante a gravidez. É interessante que a reportagem tenha incluído entrevistas e fotografias de mães que ou recusaram estes testes mais invasivos (devido ao risco de aborto espontâneo) ou escolheram levar a termo a gravidez de uma criança com trissomia 21. Mas a autonomia da escolha da mãe sobre a vida e morte do seu filho vê-se assim alargada.

• O Médio Oriente tornou-se mais caótico. A administração americana, que tem resistido a intervir na Síria para ajudar a depor Assad, aceitou como verdadeiras as alegações de que a Síria, um cliente da Rússia e do Irão, tinha morto centenas de civis não combatentes, com armas químicas. Entre os cerca de 75 mil a 100 mil mortos nesta guerra civil, desde os inícios de 2011, os cristãos, muitos dos quais já tinham fugido da violência islamista no Iraque após a remoção de Saddam Hussein por parte dos americanos, têm enfrentado consequências particularmente duras. Nesta fase não é possível determinar quem é que os americanos poderiam apoiar, entre os carrascos ao serviço de Assad e os grupos de oposição na Síria, que incluem tanto adeptos do liberalismo ocidental, como islamistas.

Igualmente, no Egipto, a América enfrenta uma escolha entre um Governo da Irmandade Muçulmana, devidamente eleito e que estava a implementar uma agenda islamista tanto no Egipto como no resto da região, e uma retoma do poder por parte das Forças Armadas. E os cristãos, que nas últimas décadas tinham encontrado um modus vivendi desconfortável com o Governo militar, tornaram-se o alvo da ira da Irmandade. Mais uma vez, a confusão é tanta que nesta altura é impossível avaliar as consequências de qualquer acção ou inacção.

• Na América os católicos ficaram incomodados com o caso Jody Bottum, ou Bottumgate, que gerou um poço sem fundo de descontentamento. Bottum, por razões intelectualmente flácidas e quem sabe por outras, concluiu num artigo que os católicos devem aceitar o casamento homossexual como um facto consumado na praça pública.

Como vários críticos fizeram questão de assinalar, contudo, perder a discussão política sobre o casamento não vai apaziguar aqueles cujo propósito final é a eliminação de qualquer referência a uma ordem de vida que não foi criada por eles próprios.
 
Miley Cyrus - modelo para a infância...
Dito isto, simpatizo com Bottum a respeito de uma coisa. A confusão actual é tanta, como demonstrado pelos exemplos recentes nos campos de cultura popular, direito, ciência e política, que qualquer resposta coerente política ou na praça pública é difícil de imaginar.

Um físico famoso disse, certa vez, que por mais que a ciência goste de divergir, “a realidade acaba sempre por contra-atacar”. Chegámos ao ponto, no nosso abandono cultural colectivo de verdadeira ordem, em que a realidade tem de contra-atacar, talvez de forma suave e lenta, talvez de forma rápida e violenta.

A questão está em saber como testemunhar a verdade entretanto. Uma resposta é a defendida por Alasdair MacIntyre, que passa por criar pequenas comunidades que, de forma generalizada, se isolam da praça pública.

É uma posição desconfortável para católicos, e são muitos os que a rejeitaram, porque a Igreja está interessada em todos os aspectos da verdade, incluindo a forma como a verdade molda a acção política. Mas até que a nossa cultura niilista e a política de poder dos progressistas seculares forem reformadas por alguma forma de renascimento espiritual, ou cedam debaixo do seu próprio peso morto, haverá sérios limites ao que é possível alcançar na praça pública. E a participação nessa praça pública tem de ser avaliada contra o risco de legitimar e perpetuar tudo o que ela tem de mal.

Teremos de aprender dos cristãos no Médio Oriente, dos cristãos na Europa central durante o tempo do comunismo e, sobretudo, dos cristãos dos primeiros séculos. Todos eles sobreviveram a uma grande dose de contra-ataque da realidade. E testemunharam Jesus Cristo, sempre e em primeiro lugar.

Joseph Wood é professor no Institute of World Politics em Washington.


(Publicado pela primeira vez no sábado, 31 de Agosto de 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Thursday, 20 September 2012

A verdadeira fúria islâmica vem do Irão!

Anda cá dizer-me isso ao véu!
Temos muitas novidades hoje, começamos com uma ronda dos bispos portugueses:



Mas os católicos não são os únicos preocupados com a situação do país. A esse respeito a Aliança Evangélica promove uma semana de oração por Portugal, que começou ontem e acaba no dia 26.

Do departamento do insólito temos o regresso da nossa amiga Cecília Giménez, a tal que “restaurou” uma imagem de Cristo, que agora vem reclamar direitos de autor sobre a imagem que se tornou tão popular.

E no Irão um clérigo decidiu repreender uma mulher na rua por achar que estava vestida de forma imodesta. Ela não gostou. Um mês mais tarde ele ainda precisa de ajuda para comer…

Por fim, em França alguém achou que seria boa ideia publicar novas caricaturas de Maomé. Se o autor da ideia se cruzasse com uma certa mulher iraniana… não vinha mal ao mundo.

Wednesday, 19 September 2012

Lições da Europa Central

Joseph Wood
Há alguns anos encontrava-me regularmente com representantes de Governos da Europa Central e, mais tarde, viajei pela região. Comecei a fascinar-me por este local por razões que, na altura, não me eram totalmente claras.

A “Europa Central” inclui uma variedade de pessoas e lugares diferentes. A Lituânia é em vários sentidos muito “católica”, mas a Estónia não. A República Checa e a Eslováquia são bastante diferentes, o que conduziu ao “Divórcio de Veludo” no fim da Guerra Fria. A Polónia e a Croácia têm raízes católicas profundas, mas que se desenvolveram de forma diferente do que na Hungria.

Os recentes desenvolvimentos politicos e económicos deixaram os países com tantas diferenças que alguns questionam se podemos sequer pensar neles como uma única região.

Mas quer esteja a visitar estes locais pela primeira vez ou os conheça desde toda a vida, apesar de, e na base de, todas as diferenças há uma semelhança clara que inclui o tempo, a arquitectura, a experiência histórica e a visão do mundo.

Nas minhas reuniões com representantes do Governo e com as pessoas que vim a conhecer através de contactos católicos, muitos dos quais eram, no início da década 2000, bastante novos para os cargos que exerciam, existia um elemento comum que passava por uma apreciação da liberdade que não era tão evidente entre os seus contemporâneos americanos e da Europa Ocidental. Um deles explicou-me que os seus pais tinham sido informados que ele teria melhores possibilidades de suceder na escola caso eles deixassem de ir à missa. Este tipo de assédio era o normal.

Uma das razões por detrás do meu fascínio pela região é de que alguns – embora não todos – os católicos e protestantes sobreviveram com a fé intacta, não obstante o poder do Estado burocrático-administrativo moderno. Esse Estado procurou, com grande vigor e a melhor tecnologia da época, secularizar a sociedade e limitar a religião, na melhor das hipóteses, aos edifícios religiosos cuja existência ainda era tolerada. Talvez tenhamos algo a aprender com essa experiência.

John Hittinger, da Universidade de St. Thomas em Houston, descreveu recentemente a semelhança entre a nossa situação e a deles. Ele cita os avisos, feitos há meses pelo Cardeal George, sobre os efeitos do Decreto HHS sobre o fornecimento decontraceptivos, que para todos os efeitos obriga as instituições católicas a secularizar-se ou a fechar. O Cardeal sublinhou que a liberdade religiosa também era garantida na Constituição soviética, embora a realidade fosse bem diferente e altamente restringida. Alguns líderes da Igreja Ortodoxa Russa tinham postos na KGB.

Uma das várias igrejas transformadas em
"museu do Ateísmo" pelos soviéticos.
O católico que se opôs com mais vigor a esta realidade da Guerra Fria foi, claro, o Cardeal Wojtyla da Polónia, mais tarde João Paulo II. Ele desenvolveu um plano de quatro pontos para a Igreja nessas circunstâncias: “1) Apelar aos direitos da lei e da moralidade para combater as agressões injustas às suas acções e instituições; 2) Ser acima de tudo professor, explicando a verdadeira fé e as suas aplicações a todas as esferas da vida...; 3) Usar oportunidades dramáticas para expressar a solidariedade com aqueles católicos que estejam a ser atacados e as instituições que estão a ser subvertidas; celebrar as efemérides e os heróis da fé nos seus próprios países; 4) desafiar fortemente e contrariar a táctica de ‘dividir no topo e na base’, empregue pelo Estado, e estar a postos para impôr as práticas doutrinárias e disciplinares requiridas para manter a unidade da fé”.

Fácil de dizer, difícil de cumprir. O Papa ganhou a guerra, mas nas batalhas que se desenrolaram, na Polónia e noutros locais muitos, (incluindo clero) foram tragicamente cooptados pelo Estado e colaboraram com o seu programa.

O que se passou nesses anos e que permitiu que o Cristianismo sobrevivesse na Europa Central parece ter sido apenas o mais recente episódio do que o padre Stanley Jaki, da Hungria, descreveu no seu recente livro Archipelago Church. Ele argumenta que a Igreja, tanto no passado século como sempre que se fizeram sentir as “tempestades morais da destruição”, é na verdade um arquipélago composto por ilhas de santidade e verdade, mais do que um continente inteiro. Os santos sustentam estas ilhas ao longo dos séculos, embora as suas posições mudem consoante as contingências da história.

Estas ilhas existiram e continuam a existir também na Europa Ocidental, onde a secularização continuou a toda a velocidade nos últimos dois séculos, mesmo sem a assistência de regimes comunistas. Por toda a Europa sentiu-se um problema diferente mas igualmente importante, a colaboração na secularização por parte de uma igreja financiada pelo Governo e legalmente instituída que é dependente de um grande aparato estatal.

O nível de financiamento que as instituições católicas recebem do Governo federal nos Estados Unidos cria tensões similares, entre resistir ao Estado quando este abusa da sua autoridade e o risco de perder o dinheiro público que sustenta as obras da Igreja. Os católicos americanos tendem a apoiar os grandes programas sociais do Governo. Com a aumento de recursos por parte do Governo para financiar esses programas vem também mais poder, que pode ser usado para qualquer coisa, como por exemplo o decreto HHS.

As ilhas deste arquipélago formam o “organismo vivo” da Igreja, com as suas estruturas eclesiais a compor o esqueleto necessário. A novidade do século passado, na opinião do padre Jaki, foi o reconhecimento do papel dos leigos, que culminou no Concílio Vaticano II, (um concílio para o qual reservava críticas consideráveis). Para sustentar e fazer avançar este arquipélago, para implementar o plano do Cardeal Wojtyla, os leigos terão de desempenhar um novo papel em conjunto com a hierarquia. O papel dos leigos será precisamente um dos grandes temas do ano da Fé que se aproxima e que começa no dia 11 de Outubro.

A América está ainda, esperamos, muito longe da Europa Central dos anos 60, e seria errado compararmos a nossa situação à dos cristãos que tiveram de defrontar o Leviatã comunista. Mas aqueles que emergiram da região nos meados do século XX, com a experiência daquilo que acontece quando o Estado Secular procura limpar os espaços públicos de qualquer influência religiosa, têm muito para nos ensinar neste momento da nossa história.


(Publicado pela primeira vez no Sábado , 15 de Setembro 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 5 September 2012

O Cardeal Reza

Joseph R. Wood
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Esta semana o Cardeal Timothy Dolan mostrou como se diz a verdade aos poderosos na praça pública.

Neste caso o “poder” era o Partido Republicano, e o poder estava bem disposto quando o Arcebispo subiu ao palco para fechar a convenção. Mas em vez de despedir a multidão com palavras bonitas de oportunidade, Dolan fez uma bênção rápida mas repleta de ensinamento católico. E fê-lo num espírito verdadeiramente americano.

Tal como aconteceu com a sua decisão de convidar ambos os candidatos presidenciais para o jantar de angariação de fundos Al Smith em Outubro, a aceitação por parte de Dolan para ir à convenção republicana causou controvérsia para a esquerda, tanto católica como não católica. Mas aqueles que o criticaram foram surpreendidos, se é que repararam, quando foi anunciado que também fará a bênção final da convenção democrata na próxima semana em Charlotte.

A diferença é que em Charlotte a lista de oradores inclui também a irmã Simone Campbell, cuja visão da doutrina social da Igreja Católica está alinhada com o programa eleitoral do Partido Democrata e que pode servir de “hierarquia alternativa” para quem procura o apoio católico para a agenda progressista.

Mas voltemos a Tampa. Dadas algumas das reportagens incrivelmente mal feitas sobre aquilo que disse aos republicanos, vale a pena gastar um momento para considerar algumas das coisas que o Cardeal disse realmente.

Começou por invocar “Deus todo poderoso, Pai de Abraão, Isaac, Jacob e Jesus.” A autoridade e nome de “Pai”para a primeira pessoa da Trindade é repetida vezes sem conta no Catecismo Católico. “Pai” significa coisas diferentes no caso de Abraão e Jesus, como é evidente. Mas começar a sua bênção com esta referência é um afirmação sólida das crênças católicas numa altura em que o lado”paterno” de Deus precisa de ser realçado.

O Cardeal fez questão de extender a sua bênção a “todos os que ainda não nasceram”, bem como aos que se aproximam da morte, um pedido claro para acarinhar a vida em todas as suas fases. E, sem fugir à questão das políticas de imigração, pediu a bênção de Deus para todos aqueles cujas famílias chegaram há muitas gerações e também os que chegaram mais recentemente “para construir um futuro melhor, enquanto juntam as suas vidas à rica tapeçaria que é a América”.

Invocou o princípio da solidariedade para aqueles que sofrem com desastres naturais e para com os pobres, sem receitar quaisquer soluções específicas.

Numa passagem crucial recordou que “o único Governo justo é o Governo que serve os seus cidadãos e não se serve a si mesmo”. A partir deste princípio, que está radicado no pensamento católico sobre política, prosseguiu para aquela que terá sido a sua mensagem central: “Renova em todo o nosso povo um respeito integral pela liberdade religiosa, essa liberdade que nos é mais cara”.

Não pode haver dúvidas sobre o destinatário dessa petição tão concisa. Nessa afirmação simples o Cardeal Dolan fez aquilo que outros deveriam ter feito no contexto da convenção.

Mas o Cardeal prosseguiu, pedindo que sejamos tornados “verdadeiramente livres, ancorando a liberdade à verdade e ordenando a liberdade em torno da bondade”. Este ancorar a liberdade na verdade, e a colocação da liberdade no contexto de uma ordem maior que é boa, são o antídoto para o niílismo que se segue ao relativismo moral.


Essa liberdade deve servir um propósito – levar uma boa vida. E embora eu não seja perito na história dos discursos de convenções, ficaria muito surpreendido se qualquer outro orador nos anos recentes tivesse falado à multidão sobre as virtudes da fé, esperança, amor, prudência, justiça, temperança e fortaleza como sendo guias e marcas sobre como viver uma vida livre.

De seguida Dolan recordou as palavras da Declaração de Independência, pedindo que possamos “conhecer a verdade da vossa criação, respeitando as leis da natureza e do Deus da natureza...” Embora ninguém defenda que os fundadores dos EUA fossem predominantemente católicos, tratou-se de uma recordação de que esses fundadores aceitavam que uma certa medida de lei natural é essencial para a natureza e espírito da República. Isso foi um aspecto central para o que Jefferson quis dizer, 49 anos mais tarde, quando caracterizou o documento como sendo uma expressão de verdades mais antigas, como eram entendidas pelos americanos, e não uma afirmação de princípios novos ou inovadores.

Foi importante também o acrescento de Dolan de que não devemos “procurar substituir [as verdades da criação e da lei natural] com ídolos feitos por nós”. Este aviso contra colocar as nossas ideias sobre o aperfeiçoamento do mundo no lugar da verdade de Deus está no âmago de grande parte da discórdia política e pessoal nos dias de hoje, como tem sido sempre o caso ao longo da história. Logo, devemos ter “o bom senso de não descartar os limites de uma vida recta”.

O Cardeal pediu a bênção de Deus para “todas as pessoas, em todas as terras, que procuram conduzir as suas vidas na liberdade”. A sua bênção foi uma oração a Deus de verdades que são universais e não só americanas. Mas terminou o discurso com palavras muito americanas, recordando-nos que “somos de facto uma nação debaixo de Deus, e em Deus confiamos”.

Há sempre questões sobre o papel que a hierarquia católica devia desempenhar na política. Como ficou demonstrado este ano, estas questões são mais pertinentes agora do que em qualquer outra altura da nossa história. Exigem uma consideração cuidadosa sobre como e quando os bispos devem abordar líderes políticos. Os pedidos habituais de diálogo e bons modos não serão o suficiente para guiar a Igreja nestas circunstâncias, quando é a sua própria liberdade de acção que está ameaçada.

Mas no que diz respeito à obrigação central dos bispos em falar a verdade, foi uma boa semana.

Joseph Wood é professor no Institute of World Politics em Washington.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012 em www.thecatholicthing.org)

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