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Wednesday, 27 December 2017

A Vaca, o Burro e Nós

Bento XVI
Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê?

Aquele que não o reconheceu foi Herodes, que nem compreendeu aquilo que lhe disseram sobre a criança: em vez disso o seu desejo de poder e a paranoia que o acompanhava cegaram-no ainda mais (Mt. 2,3). Aqueles que não o reconheceram eram “toda Jerusalém com ele” (ibid). Aqueles que não o reconheceram eram as pessoas “ricamente vestidas” – aquelas com posição social elevada (11,8). Aqueles que não o reconheceram eram os mestres do conhecimento que eram especialistas na Bíblia, os especialistas na interpretação bíblica que, admita-se, conheciam as passagens correctas nas escrituras, mas mesmo assim não compreendiam nada (Mt. 2,6).

Mas aqueles que o reconheceram foram “a vaca e o burro” (em comparação com os homens de prestígio): os pastores, os magos, Maria e José. Mas as coisas poderiam ter sido de outra forma? Aqueles de condição social elevada não estão no estábulo onde descansa o menino Jesus, mas é aí que vivem a vaca e o burro.

E nós? Estamos longe do estábulo porque as nossas roupas são demasiado ricas e somos demasiado inteligentes? Envolvemo-nos de tal forma na exegese sofisticada das Escrituras, nas demonstrações da inautenticidade ou da verdade histórica de passagens individuais, que nos tornamos cegos ao menino em si e não entendemos nada dele?

Estamos de tal forma “em Jerusalém”, no palácio, em casa em nós mesmos e na nossa arrogância e paranoia, que não conseguimos ouvir a voz dos anjos na noite para que partamos a adorar a criança?

Nesta noite, então, as caras da vaca e do burro olham para nós com uma interrogação: O meu povo não compreende, mas tu discernes a voz do teu Senhor? Quando colocamos as figuras familiares no presépio devemos pedir a Deus que nos dê corações simples que descubram o Senhor na Criança – tal como Francisco fez em Greccio. Porque aí talvez nós também possamos experimentar aquilo que Tomás de Celano relata sobre aqueles que participaram na missa do Galo em Greccio – com palavras que se assemelham às de São Lucas sobre os pastores na primeira noite de Natal – “voltaram todos para as suas casas cheios de alegria”.


Excerto do livro “A Bênção do Natal”, de Joseph Ratzinger

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 21 October 2015

Grandes Homens e Perdedores

Pe. Jerry J. Pokorsky
Quando pensamos nos grandes homens da história, quem é que nos vem à cabeça? E quais são os atributos dessa grandeza? Nos tempos de Cristo, os Césares eram grandes homens. Conquistaram muito território, que mantinham a grande custo. Para serem grandes homens gastaram muito dinheiro dos tributos pagos pelos seus súbditos e derramaram, em batalha, muito sangue de pessoas normais.

De igual modo, Herodes o Grande também foi considerado “grande” porque mandou construir um magnífico Templo para os Judeus e era implacável na defesa do seu poder. Na sua velhice assassinou os Santos Inocentes, comprovando novamente que a fasquia terrena de grandeza pode ser medida pela quantidade de dinheiro dos seus súbditos que um líder gasta e quanto do seu sangue derrama. 

Quando os Apóstolos discutiam entre eles quem era o maior, provavelmente não estavam a pensar em termos de gastar os rendimentos de outros ou de derramar muito sangue. Mas poderão ter estado a pensar nalgumas das regalias da grandeza. Afinal de contas, os grandes líderes, antes de pensarem em conseguir grandes feitos, precisam de pensar um pouco naquilo que vão obter, pessoalmente, com essa grandeza.

Cristo ouve a sua discussão e utiliza essa ocasião para lhes ensinar algo sobre a verdadeira grandeza: “Se alguém desejar ser o primeiro, será o último e o servo de todos”. E “quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe-me a mim; e quem me recebe a mim, recebe-me não a mim mas ao que me enviou”.

Lendo sobre os grandes homens da história, não me parece que isto seja matéria de grandeza, pelo menos aos olhos do mundo.

Mas a grandeza cristã não pode ser medida em termos mundanos. O maior homem nascido de uma mulher (antes da inauguração do Reino), de acordo com Jesus, é João Baptista. Ele confrontou Herodes sobre a moralidade do seu casamento e em resultado disso foi decapitado. Em termos terrenos foi um perdedor.

São Tomás Moro limitou-se a manter silêncio quando enfrentado com o adultério de Henrique VIII, mas o seu silêncio era testemunho que chegue e por isso também ele perdeu a cabeça. Em termos terrenos, Tomás Moro era um perdedor.

São Isaac Jogues pregou Cristo aos indígenas dos Grandes Lagos, em Nova Iorque. Brutalmente torturado, fugiu apenas para pedir para ser enviado novamente para a América para pregar novamente. Foi trucidado. Tanto quanto consigo perceber da leitura da história, muito poucos índios Iroquois se converterem ao Catolicismo. Os peditórios continuam a render pouco dinheiro. Em termos terrenos – e mesmo, talvez, em termos puramente eclesiais – São Isaac Jogues era um perdedor.

Compreendo bem essa situação. Na minha primeira missão como padre houve uma altura em que me deliciava com as boas sensações que nos chegam da alegria dos fiéis quando um pároco novo, recém-ordenado, chega à paróquia. Por isso imaginarão como me perturbou o facto de encontrar resistência quando proclamei o Evangelho. Certa vez o Evangelho de domingo era o ensinamento de Jesus, “Mas eu vos digo, quem se divorciar da sua mulher e casa com outra comete adultério”. O ensinamento de Cristo é suficientemente claro, e por isso a minha homilia foi toda sobre a primeira leitura.

Verdadeira grandeza
Depois da missa fui confrontado por um paroquiano zangado. Quem era eu para dizer: “Aquele que se separa da sua mulher e casa com outra comete adultério”?! Defendi-me dizendo que me tinha limitado a ler o Evangelho. “Não me crucifique a mim! Crucifica Jesus!” (Ok, talvez não tenha dito exactamente isso.)

Essa foi das primeiras lições salvíficas que tive enquanto padre. Se verdadeiramente aspirava a ser grande, devia aspirar a pegar na minha cruz e sofrer com Cristo. “Em verdade vos digo, nenhum servo é maior que o seu mestre e nenhum mensageiro é maior que aquele que o enviou” (Jo. 13,16).

Suponho que a grandeza, como o mundo a compreende, sempre foi medida por popularidade e sondagens. Mas se um candidato político, hoje, baseasse o seu programa e campanha nos Dez Mandamentos e no Evangelho, quanto tempo levaria até que fosse cercado pelas multidões, gritando “Crucifica-o! Crucifica-o!”? Jesus avisa-nos – incluindo aqueles de entre nós que pregamos o Evangelho: “Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois foi assim que os seus antepassados trataram os falsos profetas”. (Lc 6,26)

Há razões pelas quais os maiores dos santos cristãos foram assassinados, tal como Cristo foi assassinado no Madeiro sagrado. Se eles tivessem escolhido a via da grandeza do mundo, talvez escapassem às masmorras, ao fogo e à espada. Mas a sua grandeza não era deste mundo. Eles escolheram a via estreita da Verdade e da Cruz, o único caminho seguro para a verdadeira grandeza da Ressurreição.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 30 December 2014

Uma Criança que Dorme

Anthony Esolen
Herodes ouviu falar do Menino Jesus e ele e todos os seus conselheiros ficaram preocupados. Pediu aos reis magos que encontrassem o rapaz e que lhe trouxessem a informação, para que ele pudesse ir louvá-lo. A homenagem que Herodes queria prestar era matá-lo. Quando os magos, avisados em sonhos, se desviaram de Jerusalém no seu caminho de volta para o Oriente, Herodes fez aquilo que fazia melhor: eliminou a oposição – ou pelo menos tentou.

Os meninos das proximidades de Belém não passavam de coisas para Herodes, obstáculos aos seus planos dinásticos. Se há uma árvore no caminho da estrada que queres construir, corta-se e tira-se as raízes. Para ti ela não tem vida. É apenas uma negação da tua vontade.

Todas as representações deste massacre que tenho visto são de uma acção dramática e terrível. Soldados brutos e exageradamente musculados dão à espada, às vezes matando as mães e os filhos em conjunto. Mas nunca vi uma pintura que corresponda melhor à nossa situação actual.

Imagino a cena da seguinte maneira. O quarto pouco iluminado e quieto. Nem o pai nem a mãe estão presentes. Talvez estejam nos campos, a trabalhar. A luz de uma janela ilumina o rosto de um homem, um soldado. Está com a testa franzida. Tem uma espada ao seu lado. Diante de si, numa cama, dorme um rapazinho.

Peço-vos que imaginem esse bebé. Gabriel Marcel diz que a visão de qualquer pessoa a dormir coloca-nos na presença de um mistério: A sensação de uma presença que não pode ser reduzida a proposições ou a utilidade. Isto é especialmente verdade em relação a crianças: “Do ponto de vista da actividade física… a criança que dorme está completamente desprotegida e parece estar inteiramente à nossa mercê; desse ponto de vista é possível fazermos o que quisermos dela. Mas do ponto de vista do mistério, podemos dizer que é precisamente por estar totalmente desprotegida, totalmente à nossa mercê, que é também invulnerável e sagrada.” (em “The Mystery of Being: Presence as a Mystery”).

Vemos os caracóis soltos na sua testa. Vemos os seus olhos fechados – o que é que observam? Vemos os seus lábios cerrados, o ritmo lento da respiração.

As pessoas que se mantêm seguramente no armazém das coisas não sentem esta presença. Não sentimos um mistério no transmissor 2451, nem na prateleira 32B. Quando substituímos um nome por um número a maior parte do nosso trabalho destruidor está feito. Se apenas vemos instrumentos, não teremos escrúpulos em usá-los como quisermos. A característica importante de uma peça numa máquina é o facto de não ter individualidade. Pode ser substituída por outra qualquer. É suposto ser substituída por outra qualquer.

Mas se o soldado pausar o tempo suficiente para contemplar o rapaz a dormir, terá de se endurecer contra o sentido natural e humano de santidade e mistério. Para tratar o rapaz como uma coisa, deve primeiro tornar-se uma coisa, uma ferramenta de Herodes, uma peça na maquinaria herodiana.



Para tratar a criança que dorme como uma irritação de que se deve livrar, deve reconhecer a ausência de valor de todas as coisas pequenas; a semente na terra, o pintainho no seu ninho, a batida do coração, o soldado num exército, a Judeia no Império Romano, esse pequeno império à escala da história do mundo, o mundo enquanto grão de areia no universo. Deve negar o valor da própria criação.

Imaginem outra criança a dormir. Está a chuchar no dedo. Está enrolado, os joelhos encaixados debaixo do queixo. O rabo inocentemente à mostra. A imagem está desfocada, porque ele está seguro no seio quente da sua mãe. A enfermeira na clínica vê, mas ao mesmo tempo não vê, o menino.

Imaginem outra cena. O rapaz é vivaço e meio tresloucado. Tem o cabelo colado à testa. Esteve a nadar no lago. Emerge, a escorrer água e a rir. O “amigo”, mais velho, observa, calculando e planeando.

Outra cena. Os rapazes e as raparigas estão nos seus lugares, na sala de aulas. Estão a pensar em todo o género de coisas. Um deles está a pensar no jogo que vai ter logo à noite. Uma das raparigas pensa em visitar a prima, a caminho de casa. Duas delas falam sobre as aulas de equitação. Outro limita-se a sonhar acordado, enquanto olha pela janela.

A professora está diante deles. Tem a testa franzida, o olhar carregado. Tem nas mãos um livro. Quando os rapazes e as raparigas saírem da escola, nessa tarde, já saberão o que é – preencha o espaço.

“Passa-se alguma coisa filho?” O rapaz tem-se comportado de modo estranho toda a tarde. Ele olha-a com um olhar estranho, depois vira a cara. “Não, nada”.

Marcel diz: “Não pode haver a menor dúvida de que a mais forte e irrefutável marca de pura barbárie que podemos imaginar seria a recusa em reconhecer esta misteriosa invulnerabilidade”.

Herodes e Herodíade aparecem-nos sob muitas formas. São hedonistas, para quem as crianças são obstáculos irritantes na busca de prazer. São utilitários, ferramentas que avaliam a utilidade de outras ferramentas. São estatistas, cuja ambição não é governar homens, mas gerir formigas. São médicos e enfermeiras que se recusam a ver a criança. São todos os assassinos da inocência. São os soldados à entrada da casa.

Doce Jesus, salva-nos de nós mesmos.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira,30 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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