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Wednesday, 15 September 2021

Ajudar os cristãos na Terra Santa e Papa de regresso a Roma

Antes de vos dar as notícias do dia, queria fazer-vos um pedido. Se já rezam e pensam nos cristãos que vivem em situações de maior dificuldade e sempre quiseram dar uma ajuda mais prática, então cliquem aqui, leiam com atenção, e não percam esta oportunidade de ajudar os cristãos que vivem na Terra Santa e estão desesperados com a falta de turistas que costumam ser o seu sustento.

Olhando agora para a atualidade noticiosa, o Papa Francisco terminou a sua viagem à Eslováquia, hoje, que foi marcada por apelos à integração e à inclusão. A fé, disse, não deve ser reduzida a um açúcar que adoça a vida, nem a cruz deve ser um símbolo político ou de estatuto social.

Os ciganos, que foram visitados pelo Papa, ficaram surpreendidos com a atenção que lhes foi destinada.

E, por fim, a vossa atenção para esta história bonita de uma cruz que foi oferecida ao Papa por um bispo chileno, feita com madeira recuperada de uma igreja que foi vandalizada e incendiada em outubro de 2020.

No voo de regresso a Roma Francisco falou de vários assuntos, incluindo o ceticismo para com as vacinas Covid, o encontro que teve com Viktor Orbán e a questão polémica da comunhão para políticos pró-aborto.

O artigo do The Catholic Thing desta quarta-feira ainda está por publicar, mas lá estará até ao final do dia.

Wednesday, 25 August 2021

Palavras Duras

Pe. Paul Scalia

Muitos dos discípulos de Jesus que o escutavam diziam, “Estas palavras são duras, quem pode escutá-las?”

O que significa dizer que as palavras de Jesus são “difíceis”? Poderia significar que são difíceis de compreender. E como Nosso Senhor estava a falar da Eucaristia – o mistério da Fé – isso até seria aceitável. É demasiado complicado para perceber.

Mas não é isso que significa. A palavra “duras”, aqui, indica algo de ofensivo ou mesmo intragável. É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Isto escandaliza-vos?”. Por outras palavras, “Consideram isto ofensivo e intolerável?”. Ele não pergunta se estão confusos, porque nesta altura do discurso sobre o Pão da Vida ele já tinha clarificado os seus ensinamentos muitas vezes. Eles compreendem-no perfeitamente. Simplesmente não estão dispostos a aceitar aquilo que Ele ensina. O obstáculo aqui não é ao nível do intelecto, mas da vontade.

Mais especificamente, eles não estavam dispostos a aceitar o que Ele ensinava porque isso obrigá-los-ia a mudar de vida. Ele estava a convidá-los a submeter os seus pontos de vista mundanos às suas verdades sobrenaturais. “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve de nada” (Jo. 6,63). Eles intuíram bem o alcance das suas palavras: Se este ensinamento é verdadeiro, então eles têm de adaptar as suas vidas a ele. E por isso hesitaram. Mesmo depois de testemunhar os seus milagres e sinais, continuavam a não conseguir confiar-se aos seus ensinamentos. “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele” (Jo. 6,66).

Estes discípulos entraram na mesma lógica que os seus antepassados no Êxodo. Os israelitas que seguiram Moisés para o deserto acabaram por se fartar de confiar no Senhor e na sua Maná milagrosa. A certa altura disseram: “Daqui não passamos”. Até começaram a ter saudades das panelas de carne no Egipto e a querer regressar à terra da escravatura (Cf. Ex. 16,3 e Num 14,4). Também assim, os discípulos que seguiram Cristo para o deserto procuravam-no porque Ele os tinha alimentado de forma milagrosa e não porque tinha palavras de vida eterna (cf. Jo. 6,68). E assim, aqueles que foram alimentados por Ele e testemunharam os seus milagres, regressam agora às suas antigas vidas.

Tudo isto traz à mente aquilo a que se chama “coerência eucarística” – a simples verdade de que aqueles que recebem a Eucaristia devem viver vidas coerentes com Ela. Inexplicavelmente, isto agora tornou-se polémico. De facto, a “coerência Eucarística” é uma fasquia bastante baixa. Afinal de contas, não devemos desejar apenas viver de uma forma coerente com a recepção da Eucaristia. Antes, devemos fazer por ir buscar vida e o sentido das nossas vidas à Eucaristia. Por outras palavras, as nossas vidas deviam ser coerentes com a Eucaristia porque são determinadas por Ela.

Os discípulos em Cafarnaum reconheceram aquilo que lhes estava a ser pedido. Acharam as palavras duras precisamente porque compreenderam que se as aceitassem teriam de viver em coerência com elas. Ao contrário de muitos que hoje recebem a Eucaristia de forma incoerente, aqueles discípulos pelo menos tinham a integridade para reconhecer a sua falta de vontade e simplesmente afastar-se.

Dietrich von Hildebrand escreveu que ser discípulo de Cristo requer “a aptidão para mudar, uma receptividade a Cristo como que da cera”. Embora seja operativa ao longo de toda a vida do cristão, esta disposição aplica-se sobretudo à nossa recepção da Eucaristia. No Diálogo de Santa Catarina de Sena, Nosso Senhor usa esta mesma imagem para descrever a recepção da Comunhão. “Quando esta aparência de pão é consumida, eu deixo uma marca, tal como um selo deixa a sua marca quando pressionado contra cera quente”.

A coerência eucarística requer a vontade – aliás, o desejo – de receber esta marca de Cristo, independentemente da “dureza” dos seus ensinamentos. Assim, devemos estar dispostos a receber aquilo que Ele nos deseja dar. Devemos desejar da Santa Comunhão aquilo que é a sua vontade, e não a nossa. O efeito em nós deve ser aquele que Ele quer, e não o que nós queremos.

Claro que não devemos ser demasiado duros com os discípulos em Cafarnaum. Para eles o ensinamento sobre a Eucaristia era algo extraordinário, sobrenatural e chocantemente novo. Já nós temos dois milénios de ensinamentos e de testemunhos para fortalecer a nossa fé. E mesmo assim continuamos a poder falhar na nossa devoção eucarística. Assim como os seus antepassados no deserto, estes discípulos são para nós um aviso. Não faz sentido tomar nota de (e lamentar) a incoerência eucarística dos outros se não fizermos mais por corrigi-la em nós mesmos.

Voltamos a Hildebrand: “Há muitos católicos religiosos cuja prontidão para mudar é meramente condicional”. Por outras palavras, estamos sempre em perigo de nos tornarmos como os discípulos em Cafarnaum, colocando limites à nossa disponibilidade para mudar, considerando que as suas palavras são demasiado duras e chegando àquele ponto em que dizemos, “Daqui não passamos”. Alguns atingem esse ponto quando enfrentam um ensinamento mais duro da Igreja de Cristo, outros quando sofrem alguma perda, dor ou escândalo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: uma dureza que resiste à Sua graça.

Eis, então, uma boa maneira de nos prepararmos para a Santa Comunhão – pedindo uma disposição dócil, como cera, para que a Eucaristia nos beneficie como Ele deseja e nos deixe a sua marca bem estampada.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Agosto de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



Wednesday, 20 January 2021

Biden e os Bispos

Stephen P. White
Enquanto pai eu sou responsável pela formação moral de muitas pessoas pequenas, cada uma das quais com uma forte inclinação para a tirania ou, pelo menos, para a anarquia. O cumprimento destes deveres tem-me tornado, ao longo dos anos, mais cuidadoso no que diz respeito aos meus juízos sobre como os outros devem disciplinar as suas ninhadas.

Saber disciplinar uma criança de uma forma que não só preserva a paz no lar, mas também contribui para o crescimento e a maturidade da mesma não é fácil. Às vezes uma criança responde melhor à misericórdia e ao carinho; noutras é preciso uma mão mais firme. Depende das circunstâncias. Depende do filho. Navegar entre o legalismo e a laxidão requer prudência e bastante humildade.

Como em todas as coisas, o guia mais seguro é o amor.

Tudo isto serve de prelúdio à questão de se políticos pró-aborto como Joe Biden devem ou não ser admitidos à comunhão. Russell Shaw escreveu de forma interessante sobre o assunto recentemente, não pretendo duplicar o seu esforço, mas recomendo a leitura.

Desde então também o arcebispo Chaput tomou posição contra a comunhão para Biden. A Conferência Episcopal dos Estados Unidos já juntou uma comissão para considerar o assunto. O cardeal Gregory, na qualidade de arcebispo de Washington DC, já indicou que vai manter a prática pastoral que está em curso desde os tempos em que Biden era vice-Presidente, dizendo que não lhe será negada a comunhão.

O cardeal está no seu direito de tomar uma decisão pastoral nesse sentido. Devemos partir do pressuposto de que foi tomada tanto para o bem do fiel em questão como da igreja local, uma vez que a politização de discussões sobre a receção dos sacramentos é tudo menos favorável ao sentido de unidade e de cura necessários numa arquidiocese que ainda está a sofrer com o escândalo do cardeal McCarrick e a resignação do cardeal Wuerl.

E, claro, há muitos católicos – pelos quais os nossos bispos são também responsáveis – que consideram pura hipocrisia ver a hierarquia a julgar os políticos quando os próprios bispos se mostraram tão inefectivos a lidar com a crise dos abusos sexuais. A prudência exige que compreendamos que o exercício da autoridade legal está fortemente ligado à autoridade moral e aqueles a quem esta escasseia devem ter cautela em parecer ter demasiada vontade em exercer aquela.

Pondo de lado os detalhes particulares do caso de Biden, os pastores que agem com grande solicitude por causa de um só pecador podem às vezes não dar atenção suficiente aos que foram prejudicados por esse mesmo pecador, nem à comunidade eclesial como um todo. (Há aqui um paralelo com a forma como alguns bispos reagiram à situação de padres abusadores com grande solicitude para com o pecador mas sem preocupação suficiente para com quem sofreu diretamente com os seus crimes, ou pelo bem da comunidade no seu todo).

Em nenhum lado a tendência individualista do catolicismo americano se revela mais profundamente do que na crença de que a recepção da Santa Eucaristia é um assunto privado entre mim e Deus. A recepção da Comunhão é um assunto profundamente pessoal, mas é um acto fundamentalmente eclesial, e não privado. Este facto informa todos os debates correntes sobre políticos católicos e comunhão, e explica porque é que os argumentos antecedem longamente a eleição de Joe Biden e vão certamente continuar muito depois de ele ter abandonado o cargo.


Mais, não é difícil perceber porque é que tratar actos eclesiais pela lente dos actos privados tem implicações que vão muito além da disciplina dos sacramentos.

A Igreja fala frequentemente e consistentemente sobre a ideia de pecado social e estrutural. Como escrevi em 2020, “a noção de responsabilidade coletiva – de ‘pecado social’, para usar um termo muito criticado – não deve ser estranha a ninguém que esteja familiarizado com as escrituras. Deus julga-nos como indivíduos, sim, mas também como membros de povos, atribuindo culpa e julgando agravos tanto pessoal como corporativamente”.

Mas aqui nos Estados Unidos o ensinamento da Igreja sobre o “pecado social” costuma ser (erradamente) descartado como um esquema político de esquerda. Porquê? Uma das razões é porque, durante décadas, políticos católicos têm defendido e expandido o direito ao aborto, subsidiando-o tanto internamente como no estrangeiro, com quase total impunidade. Entretanto o leigo e a leiga comuns são chamados a sentirem-se pessoalmente responsáveis por todo um leque de assuntos estruturais – das mudanças climáticas ao racismo e o alojamento de refugiados – que estão muito para além do seu controlo direto.

Fica-se claramente com a impressão de que existe um padrão de expetativa e de comportamento para os católicos comuns e outro para católicos influentes e bem relacionados: que a nossa fé deve ter consequências para a nossa política, mas que a nossa política não tem qualquer influência na nossa fé. Se os bispos querem mesmo lidar com a questão do pecado social, então porque é que continuam a tolerar – sem quaisquer consequências eclesiais – o apoio direto e claro da expansão de uma injustiça sistémica (o aborto) que custa milhões de vidas?

Se os bispos não conseguem agir como se o apoio direto de alguém a um mal tão grave tivesse consequências eclesiais diretas, então porque é que alguém há de levar a sério a suposta urgência de assuntos sobre os quais os católicos individuais têm muito, muito menos influência? O desafio pastoral em causa vai muito para além da comunhão e do aborto. Estende-se à credibilidade do testemunho público da Igreja.

Já disse muitas vezes antes que nada é mais contrário a uma ética consistente da vida do que o apoio à erradicação em escala industrial de vidas inocentes através do aborto. É precisamente por isso que os bispos afirmaram que o aborto é a sua principal preocupação política. E é precisamente por isso que os bispos formaram uma comissão para coordenar a sua resposta aos desafios colocados por terem agora um Presidente católico pró-aborto.

A linha de acção que melhor serve o bem da Igreja e das almas é matéria sobre a qual bons homens podem discordar. Não invejo aos bispos essa tarefa. Rezemos pelos nossos bispos e pela Igreja. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2020)

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Wednesday, 15 February 2017

A Difamação do Cardeal Burke

Uma das figuras mais exóticas da Marcha pela Vida este ano em Washington, era um excêntrico entusiasmado – provavelmente pentecostal ou fundamentalista – que carregava um grande cartaz anticatólico e gritava por um megafone. Só apanhei um bocado do que ele dizia, mas era o habitual sobre o facto de o Papa ser o anticristo e os católicos “adorarem Maria como uma deusa”. Coitado. Mas uma coisa ninguém lhe tira: Debaixo da loucura ele acredita sinceramente que as formas de liderança e o conteúdo da fé cristã são realmente importantes. Ouvi-o a dizer a outro participante da marcha que “isto são coisas sérias, meu!”

De facto.

Sexta-feira o “The Washington Post” brindou-nos com algo muito pouco sério. Uma difamação ridícula do Cardeal Raymond Burke, debaixo da manchete “Como o Papa Francisco pode Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”. Assinada pela jornalista Emma-Kate Symons, a peça tinha tanta noção da realidade e do contexto da Igreja como o tipo do megafone. O texto arrancava assim: “O Papa Francisco precisa de tomar medidas mais duras contra o católico americano mais influente em Roma, o Cardeal Raymond ‘Breitbart’ Burke”.

É que a Breitbart entrevistou uma vez Burke – ainda por cima sobre o Islão – por isso agora, segundo o “Post”, Breitbart passou a ser o nome do meio, estão a ver?

Há pessoas que não gostam do Catolicismo ortodoxo, sempre houve e sempre haverá. Mas esta “jornalista” não estava a lamentar-se numa esquina ou num blogue de extrema-esquerda, mas nas páginas de um jornal que em tempos foi moderado mas que teve uma forte viragem à esquerda desde que foi adquirido por Jeff Bezos, da Amazon. Mas qualquer editor, seja qual for a sua orientação ideológica, deveria ter olhado de relance para este artigo de opinião e compreendido que não passava de uma parvoíce.

Mas o “Post” não está sozinho nesta coisa de deixar o profissionalismo pelo caminho por uma questão de paixão política. Ainda esta semana o “New York Times” publicou uma “notícia” de primeira página – mas que na verdade era um ataque pessoal mal investigado – assinado por Jason Horowitz, muito na mesma linha: “Steve Bannon Leva a sua Batalha para Outro Local Influente: O Vaticano”.

Toda a história assenta numa reunião que teve lugar em 2014 entre o Cardeal Burke e Steve Bannon, o arruaceiro da Casa Branca. Na sua histeria contra o Presidente Trump, os media adoram caracterizar Bannon como uma espécie de “storm trooper”. Não sou fã de Bannon ou da Breitbart, que ele geria. (Aliás, uma vez recusei um convite para aparecer na Rádio Breitbart para conversar com Bannon sobre católicos críticos de Trump porque sabia que ele me ia atacar. Prometeu que não o faria, mas depois fez exactamente isso à pessoa que compareceu, o Robert P. George.) Ainda assim, a verdade é a verdade. Do meu ponto de vista o modus operandi de Bannon é muitas vezes autodestrutivo, mas os media estão simplesmente a descredibilizar-se com esta caça às bruxas no gabinete de Trump.

Mas regressemos a Burke. A história do “Post” parte dessa reunião de 2014 e tece uma narrativa absolutamente delirante: Que Burke faz parte de um movimento global anti-islâmico, anti-mulher, nacionalista e pró-tudo-o-que-é-mau, que chegou ao poder com a vitória de Trump e que tem à cabeça Steve Bannon. Mas como o nosso amigo astuto Phil Lawler fez notar, essa reunião aconteceu em 2014, ou seja quase dois anos antes de Trump se candidatar sequer à Presidência e muito tempo antes de alguém imaginar sequer que Bannon viesse a trabalhar para ele. Então como é que essa reunião de há anos marca Burke de tal forma que obriga o Papa Francisco a “Limpar a Podridão de Extrema-direita da Igreja Católica”?

Bom, Bannon também falou numa conferência patrocinada pela Fundação Dignitatis Humanae, em Roma, em 2014. Burke faz parte da direcção da DH. Logo, o político três vezes divorciado e o defensor incansável da indissolubilidade matrimonial devem estar completamente alinhados, não?

E a nossa colunista intrépida ainda conseguiu descobrir que outro cardeal da direcção da DH também assinou a carta com as Dubia sobre o Amoris laetitia. Com isto está a insinuar, claro, que a oposição à comunhão para divorciados recasados faz parte do pacote de “podridão de extrema-direita”.

Tal como acontece com grande parte da imprensa, o que se está a fazer aqui é traçar uma linha imaginária entre as duas realidades que qualquer pessoa que saiba o mínimo sobre o assunto só pode descartar. O Bannon é, como já disse, um arruaceiro – às vezes o mundo precisa de certo tipo de arruaceiros. Burke, por outro lado, é um homem profundamente gentil – e o mundo também precisa destes. Quem não sabe isto não conhece o Burke. Bannon tem falado da ameaça do Islão e do Marxismo cultural para o Ocidente e da necessidade de os combater politicamente. Burke também – como muitos de nós – mas como devem imaginar fê-lo por razões bastante diferentes e, sobretudo, com uma entoação muito diferente.

Cardeal Raymond Burke
De forma geral Burke tem-se preocupado com assuntos doutrinais na Igreja e – não nos esqueçamos – foi prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. Estamos a falar de coisas técnicas e intelectuais e não de populismo nem de política partidária. De facto ele fala frequentemente – de uma forma que, quanto a mim, exprime a sua maior paixão – sobre como o falhanço da educação católica ao longo dos últimos 50 anos feriu a Igreja e obscureceu os ensinamentos que Jesus lhe confiou para nossa salvação. Tem dito francamente pouco que pudesse ser considerado político, no sentido normal da palavra.

Mas liga-se o Bannon ao Burke, sugerindo culpa por associação, e tem-se uma verdadeira festa para a esquerda. O Cardeal já estava nas más graças de Francisco por causa da situação da Ordem de Malta – outro assunto confuso. Mas ainda por cima o Papa acaba de nomear um delegado pessoal para a Ordem de Malta o que parece deixar o Cardeal Patrono sem portfolio. O artigo do “Post” não ajuda em nada.

E depois, claro, há a questão de Burke e outros três cardeais terem publicado as “dúbia” sobre o Amoris laetitia – perguntando não só se agora, contrariando a história católica, é permitido dar comunhão aos divorciados recasados, mas também se estamos perante mudanças no campo da teologia moral em relação à consciência, normas sem excepção, mal intrínseco e a própria teologia da Santa Eucaristia.

Até se pode acreditar que Burke e companhia erraram ao publicar as “dubia”, que anteriormente tinham sido apresentadas privadamente ao Papa. Ou então que Burke tem sido tratado injustamente, como tem acontecido a outros na Curia, ao ser demitido das suas funções sem explicação. Mas é preciso ser completamente louco para colocar no mesmo saco este cardeal de brandos costumes e tudo o que os media acham repugnante – ou pior – na nova Administração americana.

É mais um sinal da confusão que existe actualmente na Igreja e no mundo.

Uma das categorias morais que tem desaparecido, juntamente com muitas outras coisas da cultura ocidental, é a noção de difamação. É pior do que mentir. É mentir com a intenção de causar dano. Vejam no dicionário. E por favor, reconheçam-na quando a virem.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 8 April 2016

Recasados podem comungar? Parece que sim, mas talvez não


O tema que está a atrair mais atenções, claro, é sobre os divorciados recasados. Francisco diz claramente que é possível estar numa situação irregular sem estar em pecado mortal. A meu ver esta é a chave de leitura desse capítulo e não me parece deixar margem para dúvidas que o Papa está a abrir caminho para que algumas pessoas nessas situações comunguem. Nem todos concordam, nada como ler por si mesmo.


Seria uma pena, porém, que a excessiva atenção sobre esse ponto acabasse por esconder outros também muito interessantes.
- Uma longa exposição, muito pessoal, sobre a educação, incluindo educação sexual e crítica aos estereótipos masculinos e femininos;
- Defesa da natalidade e rejeição da ideia de que a emancipação da mulher seja culpada pela crise das famílias

Por fim, e talvez surpreendentemente, há muito pouco na exortação sobre homossexualidade.

O padre Duarte da Cunha, que participou no sínodo de 2015, diz que a exortação vai mudar atitudes na Igreja e a terapeuta familiar e psicóloga Teresa Ribeiro elogia a profundidade das passagens sobre amor e educação.

Com tudo isto, poderá ter passado despercebida a repetida e enfática condenação dos bispos portugueses à eutanásia e ainda a confirmação da visita do Papa a Lesbos, no dia 16 deste mês.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing e, se tiverem por Cascais e interessados em saber mais sobre a cultura do Perdão podem ir ouvir-me falar às 16h na Igreja dos Navegantes, na jornada diocesana da juventude.

Wednesday, 28 October 2015

O Texto e o Contexto

O sínodo sobre a família de 2015 já acabou, depois de ter produzido vários pontos positivos, e não poucos negativos. O relatório final contém algumas reflexões espirituais fortes, inspiradas pelas Sagradas Escrituras e as tradições da Igreja. Trata também de forma realística muitas das situações políticas, sociais e culturais de famílias em todo o mundo – situações que variam muito: Desde a cultura hedonista e saturada de sexo do Ocidente às condições de guerra e perseguição do Médio Oriente e África. Alguns parágrafos eram escusados. Se o virmos apenas como uma visão geral da família, tem o seu valor. Mas o contexto em que o texto foi elaborado é outra coisa e será uma ferida aberta durante muitos anos.

Um tema repetido muitas vezes pelos padres sinodais durante as últimas três semanas é que uma Igreja preocupada com o futuro da família estaria a adoptar uma visão muito estreita se se limitasse a reflectir preocupações ocidentais sobre divorciados e homossexuais. Um dos sinais do quão longe o sínodo de 2015 já foi, apesar de ainda haver problemas, é que já não há nada daquela linguagem de “aceitar e valorizar… orientação sexual gay, sem pôr em causa a doutrina católica da família e do matrimónio”, trata-se de uma recuo grande em relação ao relatório intermédio de 2014. Durante o fim-de-semana, a BBC disse que o Papa Francisco tinha sido “derrotado” na questão dos homossexuais – o que não é particularmente correcto, tendo em conta que ele não defende o casamento gay. E ainda por cima, o instrumentum laboris, com o qual ele teve pouco que ver, não dizia grande coisa sobre homossexualidade. Mas a cadeia britânica não foi a única a inventar coisas de acordo com as suas próprias obsessões. Cuidado com estes relatos e com os media em geral. 

Uma boa parte do relatório final é útil e reflecte uma Igreja global interessada em proclamar a Boa Nova e em corresponder às responsabilidades de todas as famílias do mundo. Quando for traduzido, valerá a pena passar algumas horas a estudar, por parte de todos os que se interessam pelos actuais problemas e pelo futuro das famílias.

Mas a questão do acesso à comunhão por parte de divorciados recasados continuou a absorver a maior parte das atenções no mundo desenvolvido – sobretudo nos media. Teria sido bom poder dizer que agora sabemos em que situação estamos. O Wall Street Journal não tem dúvidas: “Bispos entregam ao Papa uma derrota na aproximação aos católicos divorciados”. (Que é como quem diz, como muitos repararam, que não existe uma referência clara ao acesso à Comunhão para estas pessoas no documento e, por isso, não existe apoio textual para uma das correntes que consta do processo sinodal desde que o Cardeal Walter Kasper se dirigiu aos bispos, a convite do Papa, no dia 15 de Fevereiro de 2014). Mas o jornal romano Il Messagero leu a coisa de maneira diferente: “Sim, para os divorciados recasados”. Outros, que queiram que essa seja a mensagem, também o afirmarão. Na verdade, o resultado foi, como tem sido frequente com este Papa, confuso.

Os bispos optaram por não votar sobre o documento como um todo, mas apenas nos parágrafos individuais, o que faz do texto, no fundo, uma série de reflexões apresentadas ao Papa para sua consideração e não uma afirmação global aprovada formalmente pelos padres sinodais. Teremos de esperar por Francisco para ele nos dizer o que considera que deve ser o próximo passo. Poderá ter tornado a sua vida mais complicada tanto pela forma como o sínodo foi gerido como (ver abaixo) pela forma zangada como reagiu às críticas e para com os mais conservadores.

Apesar do que se possa vir a dizer ao longo das próximas semanas, vale a pena repetir: O relatório final do sínodo não refere o acesso à comunhão para os divorciados recasados. Se é isso que o Papa quer, terá de ser ele a colocá-lo lá. Como temos dito desde o início, houve oposição clara a essa proposta em si. Por causa da controvérsia, a linguagem final sobre a relação entre a consciência e a lei moral é muito mais clara no texto final do que no instrumentum laboris. Mas alguns parágrafos do texto final – que obtiveram o maior número de votos negativos – exploram muito a ideia do “discernimento” das circunstâncias individuais e invocam o “foro interno”, ou seja, a direcção privada por um padre ou bispo, chegando mesmo até à fronteira do acesso à Eucaristia, sem o pôr em palavras.

Alguns jornalistas dizem que isto se trata de uma forte defesa do ensinamento actual da Igreja, mas essa é uma caracterização demasiado optimista. Mas também não é um livre-trânsito para liberais. Houve esforços nas discussões do último dia para deixar claro que isto não era um convite para mudar a doutrina ou a disciplina. O padre Federico Lombardi sublinhou propositadamente a continuidade com os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI . O Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, realçou, de forma menos convincente, que haveria critérios claros para guiar esse discernimento.

Os critérios existem, mas se são claros é outra questão. Quando se olha para o texto, o que vemos é isto (tradução da nossa autoria, uma vez que o texto em português ainda não foi publicado):

85. São João Paulo II ofereceu critérios compreensivos, que permanecem a base de avaliação para estas situações. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.”

Aqui vemos João Paulo II a ser usado para dar força à ideia de um discernimento mais vigoroso, o que em si pode ser esticar a corda, tendo em conta a forma como o discernimento é entendido hoje em dia. O que falta é o que JPII diz passados dois parágrafos, no Familiaris Consortio: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio”.

A indissolubilidade é afirmada noutros pontos do relatório final e há passagens polvilhadas pelo texto que sugerem mais claramente aquilo que o Papa João Paulo II disse. Há também referências ao Catecismo da Igreja Católica sobre “inimputabilidade”, quando as circunstâncias diminuem ou anulam mesmo a responsabilidade pessoal. Devidamente seguidas, todas estas citações poderiam significar que nada mudou na prática da Igreja. Mas oitenta padres sinodais votaram contra este parágrafo, o maior número de votos contra de qualquer parágrafo isolado porque, sem permitir explicitamente uma mudança na prática, ele tem o potencial de permitir muitas escapatórias.

A questão que está a gerar mais controvérsia é esta: O discernimento será devidamente conduzido na linha dos princípios morais firmes enunciados por JPII? É aqui que alguns optam pela abordagem do Wall Street Journal e outros pela do Il Messagero. As palavras do texto são estas:

86: O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis em direcção a um exame de consciência sobre a sua situação diante de Deus. A discussão com o sacerdote, no foro interno, caminha juntamente com a formação de um juízo correcto sobre aquilo que bloqueia a possibilidade de uma melhor participação na vida da Igreja e sobre os passos requeridos para que ela cresça. Tendo em conta que na mesma lei não existe gradualidade (cf. Familiaris Consortio 34), este discernimento nunca pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade, como propostas pela Igreja. Para que isto possa acontecer, devem ser garantidas as condições necessárias de humildade, reserva, amor pela Igreja e pelos seus ensinamentos, na busca sincera pela vontade de Deus e no desejo de responder a ela de forma mais perfeita.

Para chegar a este texto foi preciso muito ajuste e os peritos em teologia irão sem dúvida analisá-lo cuidadosamente. Mas lendo-o como está, e retirado do contexto polémico, até se poderia dizer que tinha sido escrito por João Paulo II. A frase que eu destaquei em itálicos parece dar bastante força à necessidade de uma mudança de vida para remover obstáculos, mais do que outra coisa qualquer. E quando se diz que não existe gradualidade na lei, está-se a dizer que as pessoas se aproximam gradualmente daquilo que devem seguir, mas que a lei é constante e não pode ser abrogada simplesmente porque há pessoas que levam mais tempo a harmonizar-se com ela. Ainda assim, há uma razão pela qual 64 padres sinodais votaram contra este parágrafo, talvez não tanto pelo que diz, mas por aquilo a que poderá conduzir no actual clima que se vive na Igreja.

Mas também vale a pena notar os votos para o Conselho do Sínodo, o grupo que governa os próximos sínodos. Tal como disse na sexta-feira (apesar de os resultados oficiais ainda não serem públicos nessa altura), estes mostram basicamente que existe uma maioria de dois terços a favor do ensinamento católico tradicional. O jornalista Sandro Magister disse durante o fim-de-semana que o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, foi quem recebeu o maior número de votos de todo o mundo, embora os cardeais George Pell e Robert Sarah também tenham tido números significativos. Isto são excelentes notícias. Das américas temos também o canadiano Cardeal Marc Ouellet (um tipo formidável), e o Cardeal Oscar Maradiaga (muito próximo do Papa). Da Ásia os cardeais Pell, Oswald Gracias (Bombaím) e Luis Antonio Tagle (Manila). De África os cardeais Sarah, Wilfred Napier, e o bispo Mathieu Madega Lebouakehan, do Gabão.

Só na Europa é que as escolhas foram mais fraquinhas: Schönborn, o arcebispo inglês Vincent Nichols e o arcebispo Bruno Forte (cardeais italianos fortes como o Scola, o Caffara e o Bagnasco tiverem também muitos votos individuais, e se os italianos se tivessem unido atrás de um candidato, este teria arrasado). Em todo o caso, na medida em que o Conselho do Sínodo conduzirá os eventos futuros, há uma preponderância de figuras sérias e a sua selecção demonstra o sentir geral dos padres sinodais.

O próprio Papa não estava particularmente contente no final dos procedimentos, embora como é hábito em eventos do Vaticano a linha oficial tenha sido que tudo terminou numa grande demonstração de fraternidade e sinodalidade, incluindo uma ovação de pé no final do seu discurso. Entre muitas afirmações positivas, contudo, Francisco expressou irritação com partes da conversa. “Ao longo deste sínodo foram livremente expressas opiniões diferentes – por vezes, infelizmente, de forma pouco caridosa…”

E nas suas declarações sobre a razão de ser do sínodo, disse: “Tratou-se de abrir os corações fechados, que frequentemente se escondem mesmo atrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, para se sentarem na cátedra de Moisés e julgar, por vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”.

Este é um tema recorrente com ele. Ninguém negaria que existem pessoas autoritárias entre aqueles que enfatizam os ensinamentos tradicionais – tal como há pessoas autoritárias com opiniões teológicas contrárias. Mas estas são as franjas, os poucos. Muitos clérigos e leigos ficaram ofendidos – e enfurecidos – com esta afirmação. É justo sublinhar que pode bem ter estado a dizer que alguns tradicionalistas são duros de coração, mas não foi essa a leitura que a maioria das pessoas fez e é natural que isso venha a exacerbar as divisões que já existem.

Esta é a realidade com que teremos de lidar nos próximos tempos na Igreja. O Relatório Final é um texto tolerável, sobretudo tendo em conta que é produto de uma comissão de 270 pessoas. Se tivesse aparecido durante o pontificado de João Paulo II, teria causado pouco alarido. Mas num contexto de suspeição mútua e de revolta, o tolerável pode bem tornar-se intolerável.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 26 de Outubro de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 1 July 2015

João Baptista e Escândalo Público

Pe. Mark Pilon
Quando os homens fingem favorecer o Evangelho, mas vivem no mal, não devemos encorajar a sua ilusão, mas obedecer às nossas consciências, como fez João. O mundo pode chamar a isto falta de educação ou zelo cego. Os professores falsos, ou os cristãos tímidos, poderão censurá-lo como sendo falta de civismo; mas os inimigos mais poderosos não podem ir mais longe do que aquilo que o Senhor permite. – Comentário de Matthew Henry a Mateus 14,1

João Baptista seria bem-vindo na Igreja de hoje? Em primeiro lugar, o seu estilo de vida era tão ascético que incomodaria certamente muitas consciências, mesmo entre a hierarquia. Depois havia a pregação, que incluiu uma condenação pública de Herodes Antipas por viver em incesto com a mulher do seu meio-irmão Filipe. Essa tomada de posição seria alvo de muita crítica, se não mesmo censura, nos dias de hoje.

A missão de João tinha basicamente duas vertentes. Era o último dos profetas que anunciaria a presença do Messias. Mas primeiro tinha de preparar o povo de Israel para acolher o Messias, que já estava entre eles, através de uma chamada firme para o arrependimento do dos pecados. Esta última parte da sua missão dirigia-se a uma nação inteira e não se dirigia a algum pecado em particular, até confrontar Herodes. Foi aí que as coisas se tornaram pessoais.

Herodes fazia parte de Israel, era Rei, nomeado pelo imperador romano. Mas era um membro apenas parcialmente comprometido com a religião judaica. Não era devoto, de todo, mas era bastante ecléctico. Claramente preocupava-se com algumas práticas ou costumes judaicos, mas claramente, também, não acreditava muito em doutrinas.

Tal como o seu pai, Herodes o Grande, não ia muito com a conversa de um messias. Do resto das suas crenças, se as tinha, não sabemos nada. Mas sabemos que era desprezado por todas as facções religiosas que tinham de lidar com ele. Sabemos também, através dos historiadores, que metia o dedo em práticas pagãs, ligadas aos deuses dos seus mestres, os romanos. Quando era politicamente oportuno fazia o que era preciso do ponto de vista religioso, tanto para os judeus como para os pagãos.

Mas João trata-o como correligionário judeu e não como pagão. E João respeita-o ao ponto de lhe dizer para se arrepender e mudar de vida, tal como fazia com outros judeus. Mais, porque Herodes fazia parte do povo judeu, independentemente da forma morna como o fazia, e porque desempenhava um papel importante para o povo, João não pode permitir que o seu comportamento escandaloso (a sua união incestuosa com Herodíade) passe em claro. Por isso denunciou-o, e custou-lhe a vida.

É difícil imaginar algo do género a passar-se hoje em dia. Herodes faz lembrar muitos políticos católicos que praticam a sua religião apenas na medida em que está de acordo com as suas ambições políticas. Quantos políticos católicos prestam culto, hoje em dia, aos deuses contemporâneos dos pagãos? Quantos “católicos” no congresso e noutras legislaturas e cargos de responsabilidade, apoiam os “sacramentos” sagrados da religião secular; o sacramento do aborto, há décadas, e o mais moderno sacramento do “casamento” homossexual?

Simplesmente já não há ninguém como João Baptista entre os líderes da Igreja actual que, por inerência dos seus cargos, receberam um mandato profético de Cristo. Que político católico que trabalha abertamente contra os ensinamentos morais de Cristo tem sido denunciado publicamente por isso? Sei de apenas um caso nos últimos cinquenta e três anos, quando o arcebispo Joseph Rummel, de Nova Orleans, excomungou o líder democrata Leander Perez, em 1962, por se opor à integração racial das escolas.

O preço a pagar por denunciar os poderosos
Desde essa altura tenho quase a certeza que não houve um único caso. Suponho que estas traições políticas modernas, contribuindo para o assassinato em massa e para a perversão do casamento, não merecem sequer uma condenação pública, quanto mais uma excomunhão.

Devemos, talvez, acreditar que os bispos estão a repreender estas pessoas em privado? Essa era a desculpa dada frequentemente a pais de crianças abusadas por membros do clero: “O bispo está a tratar do assunto discretamente, para evitar escândalo”. Mas depois foi-se a ver e raramente isso correspondia à verdade.

O diálogo discreto nunca pode ser a resposta adequada a uma situação de escândalo público grave. São João sabia que não podia apenas falar com Herodes em privado, porque Herodes era um escândalo público. O Arcebispo Rummel sabia que não bastava falar secretamente com Perez, embora o tenha feito também, porque Perez era obstinado no seu comportamento escandaloso.

Hoje os políticos semi-católicos são igualmente persistentes no seu escândalo. Independentemente de os bispos terem falado com eles em privado, chamando-os à conversão, não tem funcionado. O escândalo público continua e os leigos ficam mais e mais confusos.

Não basta que os líderes da Igreja dialoguem com estes políticos. As suas acções pedem arrependimento e esse arrependimento tem de ser de natureza pública para que o escândalo público seja removido.

Enquanto ainda era cardeal, o Papa Bento XVI disse que o principal dever de um bispo é de proteger a fé dos simples fiéis católicos. Quando os políticos católicos defendem males graves na sociedade, pelas suas acções, claramente estão a causar escândalo grave entre os fiéis. Quantos católicos comuns, ao longo das últimas décadas, concluíram – compreensivelmente, tendo em conta as acções dos seus pastores – que qualquer pessoa pode ser um católico fiel e ainda assim defender o aborto na praça pública e até na sua vida privada?

Não só nunca vêem os Herodes dos nossos dias censurados pelos actuais guardiões da fé, mas vêem-nos mesmo a receber a Comunhão das suas mãos. Que mais haviam de concluir?

Leander Perez acabou por regressar à Igreja antes de morrer, o que significou que teve de rejeitar e arrepender-se do seu racismo. Se o seu arcebispo o tivesse deixado passar como uma repreensão discreta temos de pensar se esse arrependimento, necessário para a salvação, teria ocorrido. Gosto de pensar que Perez ficará eternamente grato ao seu velho inimigo e que hoje gozam juntos da beatitude, tal como Paulo e Estêvão.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no sábado, 27 de Junho de 2015 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 20 May 2015

Menos Propaganda e Mais Ciência para os Bispos

Rick Fitzgibbons
Declarações feitas recentemente pelas conferências episcopais da Alemanha e da Suíça, em antecipação do Sínodo da Família, mostram-nos a ceder na questão das uniões homossexuais. Os alemães emitiram um comunicado para o sínodo em falam de alegadas descobertas: “nas ciências humanas (medicina e psicologia), nomeadamente que a orientação sexual é uma disposição que não é escolhida pelo indivíduo e que não é alterável. Por isso, a referência no questionário [para o sínodo] a ‘tendências homossexuais’ é confusa e consideramos que é discriminatória”.

Nas palavras do altamente respeitado vaticanista Sandro Magister: “Os bispos alemães não só aprovam que se dê absolvição e comunhão aos divorciados e recasados, como também manifestam a esperança de que os segundos casamentos civis possam ser abençoados na igreja, que a comunhão eucarística possa ser dada a esposos que não são católicos e que seja reconhecida a bondade dos relacionamentos e das uniões homossexuais.”

Os bispos explicam ainda que estas uniões deixarão de ser, salvo em casos extremos, incompatíveis com um emprego ao serviço da Igreja na Alemanha. Não é difícil detectar aqui as pressões exercidas sobre a Igreja em todo o lado, de forma mais ou menos subtil, para alinhar com a nova ética sexual.

Contudo, as afirmações dos bispos alemães não reflectem fielmente os dados médicos e psicológicos sobre as origens da atracção homossexual. Os bispos católicos não só deviam estar a resistir à pressão de ceder a estas tendências sociais, como deviam estar a promover os benefícios do tratamento e a participação na Courage, a única organização católica de acompanhamento de homossexuais que é reconhecida pelo Vaticano. Uma declaração de 2006 da Conferência Episcopal do Estados Unidos recomenda o tratamento e a orientação espiritual para quem tem atracção por pessoas do mesmo sexo. Talvez seja tempo de nos actualizarmos, a começar com os dados científicos sobre os graves riscos médicos e psiquiátricos para aqueles que vivem em uniões homossexuais e os graves perigos para o desenvolvimento psicológico dos jovens que são deliberadamente privados de um pai ou de uma mãe por terem sido criados num lar homossexual.

Um dos maiores estudos de casais homossexuais revelou que apenas sete dos 156 casais analisados vivia numa relação completamente exclusiva, e que a maioria das relações durava menos de cinco anos. Nos casais cujas relações duravam mais tempo havia alguma tolerância por actividade sexual exterior. Os autores concluíram que “o único factor mais importante que mantém os casais unidos para além de dez anos é a ausência de um sentido de posse” – isto é, uma racionalização que minimiza a dor emocional de ser vitimizado por repetidos casos de infidelidade.

Um estudo dinamarquês de 2011 revelou que o risco de suicídio, ajustado à idade, para homens em uniões de facto homossexuais era quase oito vezes maior que o risco de suicídio para homens num casamento heterossexual.

Foram feitas duas avaliações sistemáticas de 47 estudos sobre a violência nas relações íntimas (VRI) entre homens em relações homossexuais. Um concluiu: “Os dados emergentes avaliados revelam que a VRI – psicológica, física e sexual – ocorre a ritmos alarmantes em relações homossexuais masculinas”.

Dois estudos de 2015 revelaram que 512 crianças criadas por pais do mesmo sexo tinham uma prevalência de problemas emocionais duas vezes superior à norma. Outro investigador concluiu que, em comparação com lares tradicionais com pais casados, as crianças criadas por casais homossexuais tinham 35% menos probabilidade de progredir normalmente na escola.

Um estudo de 2013 do Canadá analisou dados de uma amostra em grande escala e concluiu que os filhos de casais gays e lésbicas têm apenas cerca de 65% de probabilidade de terminarem o secundário quando comparados com os filhos de casais heterossexuais casados. As raparigas sofrem mais que os rapazes. Filhas de “mães” lésbicas revelaram ter taxas de sucesso escolar dramaticamente inferiores.

Símbolo do apostolado Courage
Contrariamente à propaganda disseminada, há várias décadas que existem relatórios, tanto do ponto de vista dos terapeutas como dos clientes, de mudanças profissionalmente assistidas de atracção indesejada pelo mesmo sexo. Os profissionais usam uma variedade de protocolos de tratamento que abrangem várias escolas de psicoterapia. Ao contrário do que se pensa, não existem provas científicas de que estas terapias de mudança profissionalmente assistida de atracção indesejada pelo mesmo sexo sejam prejudiciais.

Alguns clientes que recebem estes cuidados profissionais por atracção indesejada pelo mesmo sexo admitem ter mudado “completamente”, outros revelam “nenhuma” mudança. Outros ainda dizem ter conseguido alterações sustentadas, satisfatórias e significativas tanto na direcção como na intensidade das suas atracções, fantasias e excitação sexual, bem como no seu comportamento e identidade de orientação sexual.

A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta em 1986 aos bispos católicos sobre o Cuidado Pastoral de Pessoas Homossexuais em que pede aos bispos de todo o munto para “apoiar com todos os meios à sua disposição, o desenvolvimento de formas especializadas de atendimento pastoral às pessoas homossexuais”. Tais cuidados podem “incluir a colaboração das ciências psicológicas, sociológicas e médicas, mantendo-se sempre na plena fidelidade à doutrina da Igreja.” [Ênfase do autor]

Uma investigação, no âmbito de um doutoramento, sobre os membros da Courage comprova a eficácia do programa em lidar com aqueles que têm atracção por pessoas do mesmo sexo. (Os indivíduos com atracção pelo mesmo sexo têm mais perturbações mentais do que a população geral.) Os entrevistados que viviam em castidade revelavam melhorias na sua saúde mental geral. Existe uma correlação entre uma espiritualidade autêntica e melhorias na saúde mental. Também existem correlações positivas entre a castidade, a participação religiosa e índices autorelatados de felicidade.

A minha experiência profissional de quase 40 anos a trabalhar com padres mostra que os principais obstáculos à aceitação e à pregação da verdade da Igreja sobre a sexualidade humana e a homossexualidade radica numa incapacidade de ensinar a verdade da Igreja sobre contracepção, proclamada na Humanae Vitae. Quando se ignora a ordem criada por Deus isso reflecte-se inevitavelmente noutras áreas.

Os padres sinodais e as conferências episcopais têm de ser actualizados em relação aos dados das ciências médicas e psicológicas relacionados com a homossexualidade. A Associação de Médicos Católicos dos Estados Unidos e o apostolado da Courage fornecem uma formação muito importante, juntamente com outras associações médicas católicas internacionais. 

Um recurso importante que já foi traduzido para várias línguas é a publicação da Associação de Médicos Católicos “Homossexualidade e Esperança”. Mas há muito mais – se ao menos os nossos líderes católicos quisessem realmente saber a verdade sobre estes assuntos.


Rick Fitzgibbons é um dos autores da segunda edição de “Homossexualidade e Esperança”, da Associação de Médicos Católicos dos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 17 de Maio de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 7 October 2014

Os turcos estão na fronteira... mas não avançam

Estaremos à beira de mais uma chacina no Médio Oriente? O Estado Islâmico já conseguiu entrar na cidade de Kobani, cujos habitantes estão a resistir ferozmente. A Turquia, com o segundo maior exército do mundo, está atenta… mas não faz nada.

Também na Síria um padre foi raptado juntamente com outros 20 cristãos de uma aldeia. É mau sinal quando sentimos alívio por saber que os raptores são da Al-Qaeda, e não do Estado Islâmico.

Os casais estão a fazer toda a diferença no sínodo, facilitando as conversas sobre temas importantes.

Decorre no Algarve um encontro de associações de homossexuais católicos, que esperam mais acolhimento por parte da Igreja. Amanhã voltaremos a este tema com uma perspectiva diferente.

A semana passada publiquei uma reportagem com o testemunho de Joaquim Mexia Alves, que viveu nove anos como divorciado e recasado, sem poder comungar, enquanto esperava o resultado de um processo de nulidade. Hoje publico a transcrição completa da entrevista. Leitura obrigatória para quem vive esta situação, directa ou indirectamente.

Thursday, 2 October 2014

Até a CDU vai à caminhada! E você não?

Políticos dos quatro principais partidos já se associaram à Caminhada Pela Vida e a Federação anuncia esta quinta-feira que vai recolher assinaturas para um projecto-lei que pretende limitar alguns aspectos da actual liberalização do aborto em Portugal.

Faltam então dois dias para a Caminhada e a coisa começa a compor-se. O sol vai brilhar, não há futebol à mesma hora, não há razão para ficar em casa. Mas caso ainda esteja com dúvidas, ouça isto para mudar de ideias.

Ontem demos conta do debate entre vários cardeais sobre a questão dos divorciados e recasados e o acesso à comunhão. Hoje temos um interessantíssimo testemunho de um homem que viveu 9 anos nessa situação em fidelidade à Igreja e com serenidade. É o caminho certo, acredita o Joaquim.

Thereza Ameal lançou mais um livro. “Rezar, cantar e crescer” já está nas bancas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, escrito e traduzido a pensar em todos aqueles que se dedicam a discutir e criticar em nome da religião. Mesmo que não seja o seu caso, não deixe de ler.

Wednesday, 1 October 2014

Mensagem do Papa para pró-vidas Portugueses!

O que é que Alpha Blondy e o Papa têm em comum?
Ambos te querem na Caminhada Pela Vida 2014
Não vai ser o único tema, longe disso, mas é o mais polémico. No dia em que cinco cardeais lançam um livro em defesa da actual doutrina da Igreja, a Renascença faz um apanhado da discussão sobre o acesso dos divorciados e recasados aos sacramentos.

Precisa de mais alguma razão para ir à Caminhada Pela Vida, no sábado? Que tal o apoio e a bênção apostólica do Papa Francisco? É verdade. O Papa escreveu aos participantes da Caminhada, agradecendo o seu empenho na luta pela vida. Seja um deles!

Já agora, para ir entrando no espírito da coisa, ficam aqui umas boas vibrações. Destaco a letra: “Don’t blame the women, blame society. You gotta blame the system! Give the women everything that they need. No children, no future”.

Porque esta batalha, como tantas outras, trava-se sobretudo na arena dos corações e não da política ou da discussão, vem mesmo a propósito o artigo de Francis J. Beckwith, no The Catholic Thing, sobre como a razão tem a ver com muito mais do que apenas argumentos.

Uma última nota para avisar que a imagem de Nossa Senhora Peregrina chegou esta tarde ao IPO. Quem estiver por lá pode ir visitá-la… aproveitem para dar sangue!

Não esqueçam que esta noite há debate de religião na Renascença. A Caminhada Pela Vida é um dos temas que estará em discussão.

Thursday, 1 May 2014

Divorciados, recasados e comunhão: Follow-up

Há dias escrevi um texto sobre a possibilidade do acesso à comunhão por parte de divorciados e “recasados”. Esse texto motivou uma grande e interessante discussão, na qual aprendi imenso. O que se segue são algumas das conclusões que tirei dessas discussões. Não vou repetir os meus argumentos, que podem encontrar no texto original.

Em primeiro lugar, tentei deixar claro, mas nem todos perceberam, que o meu texto era uma reflexão e não um manifesto. Penso que infelizmente temos pouco o hábito de discutir ideias de forma aberta, que não sejam necessariamente convicções. Mas é pena, porque é precisamente através dessas discussões, em que estamos abertos a reconhecer os nossos enganos e a razão dos outros, que crescemos.

Ora bem. Após estes dias de discussão, concluo que há apenas três possibilidades para que as pessoas em uniões irregulares sejam admitidas à comunhão.

Se a Igreja mudar ou reformular a doutrina da indissolubilidade do casamento.
Não acredito que isso seja possível e a minha reflexão, por causa disso, partia de outro pressuposto.

Se o adultério deixar de ser considerado pecado mortal.
O que não me parece provável nem aconselhável, embora como em tudo haja uma escala de gravidade para diferentes situações.

Se, mantendo-se a ideia do adultério como pecado mortal, for tomada a decisão de “baixar a fasquia” do acesso à comunhão, decidindo-se que não é necessário estar-se em estado de Graça para poder comungar. (Eu sei que "baixar a fasquia" tem um sentido perjorativo, mas não me vou pôr com jogos semânticos).

O meu argumento ia mais no sentido desta terceira hipótese.

Os meus adversários defendem que tal não é possível, pois a ideia de que só quem está em estado de Graça é que pode comungar é doutrina da Igreja que ninguém, nem o Papa nem os bispos, tem autoridade para alterar.

Não tenho qualquer problema em afirmar que reconheço aqui claramente um obstáculo que não pretendo, nem tenho capacidade para, discutir ou derrubar. Caso a ideia de que apenas quem está em estado de graça é que pode comungar seja, de facto, doutrina imutável, então sinceramente não vejo maneira de as pessoas em uniões irregulares poderem alguma vez vir a comungar.

Não sendo eu “liberal” ou “progressista”, não posso nem quero propor qualquer solução que seja uma ruptura com a tradição da Igreja.

Tudo o que eu respondi a quem me argumentou desta forma é que antes do Concílio Vaticano II reinava a ideia de que a doutrina da Igreja impedia certas mudanças, como a abertura ao ecumenismo, ao diálogo inter-religioso e à liberdade religiosa. Contudo, os padres conciliares conseguiram encontrar formas de reler e apresentar de forma diferente a doutrina, aceitando estas práticas de tal maneira que hoje não reconhecemos a Igreja sem elas. Como bem sabemos, os críticos do Concílio, tanto sede-vacantistas como os seguidores de Monsenhor Lefebvre, apontam precisamente estas “inovações” como razão para não aceitar o concílio, portanto a coisa não foi pacífica.

Eu não faço ideia se é ou não é possível “reler” a doutrina, à luz dos nossos tempos, para se proceder a estas mudanças. Se não for, então tenho que admitir que a minha própria reflexão deixa de me convencer. Contudo, teria muita cautela em colocar-me na posição de decidir quais são os limites da acção dos bispos nesta matéria.

Esperarei calmamente, e muito atentamente, o resultado do sínodo, aceitando sem reservas qualquer que seja a decisão. De facto, acho pouco provável que haja uma mudança significativa da Igreja a este respeito.

Não queria terminar sem dizer mais uma coisa. Ao longo destes dias foram muitas as pessoas que partilharam histórias de vida e testemunhos muito fortes, ou publicamente, ou directamente a mim, por mensagem privada.

Se há uma coisa que aprendi e que julgo que é muito importante realçar, é que mesmo que as pessoas nestas situações não possam voltar a comungar, existem outras formas de viver em Igreja e edificar uma relação com Cristo que deviam ser melhor conhecidas.

Nesse sentido aponto para o testemunho do Joaquim Mexia Alves, que passou por esta experiência e já falou dela várias vezes. Leiam, mesmo… não se vão arrepender.

Monday, 28 April 2014

Divorciados, recasados e comunhão

 [Nota: A seguir a este texto escrevi um novo, com as conclusões da discussão que decorreu a este propósito. Aconselho a sua leitura também]

Este ano não há nada a fazer, o tema do casamento, das segundas uniões e do acesso aos sacramentos para pessoas em uniões irregulares não vai acalmar.

Em Outubro do ano passado o Papa convocou um sínodo para a Família, que vai inevitavelmente abordar estes temas, entre outros. Foi feito um inquérito aos fiéis, o que conduziu logo a uma maior atenção mediática e maior discussão nas redes sociais.

Desde essa altura temos assistido, a meu ver tristemente, a uma guerrilha pública entre cardeais, com uns e outros a apresentar os seus argumentos procurando marcar terreno. Pior, nalgumas dioceses vemos mesmo uma antecipação ao sínodo, procurando dessa forma condicionar as suas conclusões.

Até agora, tanto quanto vi, toda a discussão se tem centrado na indissolubilidade do casamento. Mas será a única abordagem? E se víssemos a questão pela perspectiva do acesso à comunhão?

Hoje em dia estamos habituados à ideia de que todos podem comungar, todos os dias se quiserem. Mas nem sempre foi assim. Antigamente a comunhão, para os leigos, era uma coisa rara. Comungava-se na Páscoa, e eventualmente numa ou noutra celebração importante. E para isso era necessário ter-se confessado imediatamente antes.

Aliás, tudo isto apenas é possível porque se verificaram mudanças no entendimento do acesso à confissão. Antigamente a pessoa confessava-se uma vez, de preferência à beira da morte. Mais tarde, por iniciativa de monges irlandeses, nasceu o hábito da confissão frequente.

E se os bispos chegarem à conclusão que, da mesma maneira que se mudou a prática em relação à comunhão frequente, era agora possível dar mais este passo e admitir à comunhão pessoas que anteriormente estariam excluídas? Se em vez de se encarar a Eucaristia como o coroar de um “Estado de Graça”, se encarar como um auxílio também para quem falhou mas quer continuar a caminhar e não desistir de crescer na proximidade com Deus?

Há um grande obstáculo a este raciocínio. “Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se cada um a si mesmo e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor come e bebe para sua própria condenação”, diz São Paulo numa epístola aos Coríntios.

Contudo quem, se não a Igreja, tem a legitimidade para determinar quem é digno ou indigno? No tempo de São Paulo, provavelmente uma pessoa a viver em estado de adultério seria considerada indigna de comungar, mas na mesma medida, digo eu, seria considerada indigna sequer de ir à missa, de estar à mesa do Senhor.

Se a Igreja já disse várias vezes que os divorciados e recasados podem e devem estar integrados na vida da Igreja, que devem estar à mesa do Senhor, então não os pode admitir à comunhão? Faz sentido convidá-los para se sentarem à mesa mas não comer?

Pessoalmente, penso que este pode ser um caminho que dá aos milhões de pessoas que aguardam uma resposta da Igreja o sinal de esperança que não os desilude, sem no entanto abdicar da ideia da indissolubilidade do casamento, que é fundamental.

Este texto é uma mera reflexão. Não é uma reivindicação, nem quero colocar no lugar dos bispos. Eles que reúnam, que discutam, que decidam, é isso que esperamos deles!

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