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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Esperança Podada

Pe. Paul Scalia

No passado domingo começámos um tempo litúrgico marcado pela esperança. O prefácio para a Missa diz que ousamos esperar. De facto, a esperança parece ser cada vez mais um atrevimento. Mas é precisamente por isso que é cada vez mais importante. Como diz Chesterton, num dos seus famosos aforismos, “esperança é esperar no desespero”. A importância da esperança aumenta em proporção ao seu absurdo.

Ousamos esperar. Neste período que o nosso país e a nossa Igreja atravessam, muitos têm dificuldade em ter qualquer tipo de esperança, quanto mais em abundância, como nos exorta São Paulo (Rom 15,13). Neste contexto fazemos bem em recordar a imagem que Cristo nos deixa, da videira e dos ramos:

“Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.” (Jo. 15, 1-2)

Sempre achei que esta bela imagem da videira e dos ramos é posta em causa, até certo ponto, pela referência dura à podagem. Não sei grande coisa sobre horticultura, mas sei o suficiente para saber que podar – embora necessário – parece, na altura, uma crueldade gratuita, uma vez que se livra de ramos perfeitamente saudáveis. Conseguimos compreender que se cortem os ramos maus, mas a poda atinge também muitos que são bons.

Tenho uns amigos que plantaram recentemente vinhas na sua propriedade. Ainda não fui lá ajudar com a poda, mas já serviu para aprender mais duas coisas. Primeiro, que a altura certa para podar é no final do Inverno e início da Primavera. Por outras palavras, é precisamente na altura em que aguardamos novos rebentos que se corta ainda mais. Segundo, que o vinhateiro tem de ser impiedoso. Deve podar ainda que pareça que está a matar a videira. Talvez já tenham visto nos campos essas videiras despidas, aparentemente mortas. Mas não estão mortas, não estão sem vida, apenas foram podadas.

Claro que essa podagem e esse despir dos ramos é necessário – não só para que dê fruto, mas para que o dê em abundância. E para que as coisas abundem, é necessário alguma podagem. A expressão latina “succisa virescit”, que significa “se for cortado, volta a crescer” toca neste ponto. É o lema do mosteiro de Monte Cassino, que já foi pilhado, saqueado e bombardeado ao longo da história. Porém, perdura.

Succisa virescit: este lema e toda a prática da podagem são importantes para a Igreja neste momento. Não sabemos porque é que o Senhor está a permitir que a Igreja seja posta à prova desta forma; porque é que está a permitir esta confusão e declínio. O mais difícil é aceitar a vontade permissiva de Deus. Mas pelo menos, ainda que sem conhecer toda a sua mente e propósito, podemos aceitar esta período de provação como um momento de podagem. As coisas estão a ser desbastadas, nalguns casos de forma severa. Mas isso é necessário para que haja renovação. 

De facto, estamos a experimentar uma podagem da nossa esperança. Cometemos o erro de relegar a virtude da esperança para as situações esperançosas. Quando tudo é cor-de-rosa, aí temos esperança. Mas mais uma vez, como nos ensina Chesterton, o contrário é que deve ser verdade. Demasiados de nós assentámos – talvez sem o saber – a nossa esperança em coisas mundanas, tornando-a uma esperança mundana. Era fácil ter esperança quando a Igreja desempenhava um papel importante no nosso país, quando estávamos a construir paróquias, escolas, seminários, hospitais, faculdades e universidades, e por aí fora. Era fácil ter esperança no tempo de gigantes como João Paulo II e Bento XVI. Nessa altura vimos o vigor da Igreja e tivemos esperança, mas talvez tenha sido pelas razões erradas.

O tronco de Jessé
Podemos esperar agora que as coisas sejam diferentes? Quando a Igreja já não é um dos actores principais, quando muitas das nossas instituições estão a fechar as portas e as propriedades estão a ser vendidas, quando a frequência dominical diminui e somos assaltados pela confusão? Ainda ousamos esperar?

A nossa Esperança já foi devidamente podada. Está a ser desbastada até ao que é autenticamente cristão e não mundano. As dificuldades que afligem a Igreja desafiam-nos a esperar de forma diferente, não com base em considerações mundanas, mas no Senhor.

Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador. Todos os ramos que não dão uvas ele corta, embora eles estejam em mim. Mas os ramos que dão uvas ele poda a fim de que fiquem limpos e deem mais uvas ainda.

Estas são palavras de verdadeira esperança. Não daquela esperança fugaz e mundana de que nós tanto gostamos e que promete uma solução fácil. Não aquela esperança falsa, mas a esperança que vê as dificuldades e os revezes como parte da Providência Divina e, por isso, ordenados para o nosso bem. Resumindo, esperamos não porque é tudo cor-de-rosa, porque somos populares, bem aceites ou estamos bem na vida, mas por causa dele.

A esperança encontra-se num ramo podado, naquilo que é negligenciável e aparentemente inerte. É assim que o Senhor prefere agir. No próximo domingo ouviremos dizer que do tronco de Jessé brotará um ramo (Isaías, 11,1). Notem bem: não é da árvore frondosa de Jessé, mas do tronco, daquilo que parece não ser capaz de gerar vida, quanto mais fruto.

É aqui que encontramos sempre nova vida na Igreja. Não entre os grandes e poderosos, não nos corredores do poder, ou nos “think tanks” de Washington, não nas enormes iniciativas que em tempos caracterizaram a Igreja nos Estados Unidos. Vem dos simples, dos pequenos e dos aparentemente infrutíferos: das simples orações devocionais; da confiança sem rodeios nos sacramentos; das obras escondidas e das orações das religiosas; de pais que se esforçam por criar filhos entre uma geração depravada e torcida; de padres que se mantêm fiéis por entre a tempestade de escândalos e, sobretudo, de uma vila sem grande história na Galileia, de uma virgem desposada de um homem chamado José, da esquecida e arruinada casa de David.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 1 de Dezembro de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A União Europeia, Brexit e abanões

Uma das entidades burocráticas mais ineptas e secularmente militante do mundo – que também se esforça por espalhar os seus erros pelas nações – está a enfrentar um teste e, possivelmente, uma derrota esta semana. Na quinta-feira os eleitores do Reino Unido serão chamados a votar num referendo sobre o “Brexit”, ou a saída do Reino Unido da União Europeia. Se saírem, toda a UE poderá desmoronar.

Nos principais órgãos de comunicação vemos manchetes sobre como uma saída britânica enviará ondas de choque pela economia global, ou que equivale à insanidade económica. É como se agora fossemos todos puramente “homo economicus” ou que a vontade de abandonar a União Europeia fosse uma forma de histeria em massa.

A verdade é que a vontade de partir nada tem a ver com economia e muito com soberania nacional. Pode bem ser verdade que a economia britânica sofra depois da partida e que isso, por sua vez, tenha consequências globais. Mas as raízes da União Europeia são muito mais profundas do que a mera economia.

E católicas. Depois da Segunda Guerra Mundial, os líderes cristãos-democratas assumiram a responsabilidade de resolver um problema grande e outros mais pequenos. A revolta contra a União Europeia pode dever-se em parte à vontade de recuperar um pouco daquilo que entretanto se perdeu.

O problema grande era a tensão entre França e a Alemanha, que quase tinha destruído a Europa em duas guerras mundiais. Dois estadistas católicos de renome, Robert Schuman de França (declarado “servo de Deus” por Bento XVI e que pode estar a caminho dos altares) e Konrad Adenauer da Alemanha, encontraram-se em segredo na Suíça ao longo de vários anos, uma vez que ainda era publicamente impossível manter um diálogo com a Alemanha pós-nazi. Juntos ajudaram a criar as várias instituições internacionais, incluindo a NATO, que acabaram por levar à criação da União Europeia.

Mantinha-se uma questão ainda mais importante: Quais seriam as bases para esta nova Europa? A resposta – dada novamente por cristãos-democratas, entre os quais o grande tomista Jacques Maritain – era uma visão cristã da pessoa e das sociedades humanas. Os partidos democratas-cristãos na Alemanha e em Itália eram cruciais para impedir o avanço do comunismo na Europa ocidental.

Teóricos mais antigos como Chesterton e Belloc sonhavam com uma cristandade modernizada numa Europa reunificada. Esse ideal, como o próprio movimento democrático cristão, era realizável apenas em parte para os europeus, dado o pluralismo religioso, as diferenças políticas e a simples descrença no continente. O objectivo, contudo, nunca foi a criação de um novo Sacro-Império Romano, mas sim um continente que voltasse a dar corpo, de forma geral, aos valores cristãos.

E foi isso que começou por acontecer, até que as forças secularistas começaram a bloquear sequer as referências à herança cristã em documentos oficiais. A União Europeia como a conhecemos começou então, lentamente, a ganhar forma. Ao contrário dos fundadores dos EUA, os fundadores da UE não pensaram na estrutura continental. É comum hoje em dia ouvir queixas de “défice democrático” de uma burocracia distante, não responsabilizável, que opera sem respeito pela subsidiariedade e os interesses nacionais.

Até há pouco tempo, a intromissão burocrática era sentida em larga escala, mas mais como uma irritação diária do que um apelo à revolta. Certo dia perguntei a um deputado europeu qual era a natureza do seu trabalho e ele respondeu, não inteiramente como piada, que se certificava de que as cenouras da União Europeia eram do tamanho regular. (Também existiu o preservativo europeu, mas quanto menos falarmos disso, melhor).

Entre as várias histórias que surgem na antecâmara do Brexit – juntamente com murmurações na Hungria, Grécia e outras nações – a minha favorita é a decisão da União Europeia de que a Finlândia deve reintroduzir 9.500 lobos às suas florestas, presumo que por razões ecológicas. Os finlandeses reclamaram que não tinham sido tidos nem achados sobre o assunto, e que a directiva infringe outros regulamentos europeus sobre o direito dos povos nativos a gerir os seus territórios (na Finlândia criam renas e têm opiniões fortes sobre lobos).

Fora da Europa, a União Europeia, tal como as elites internacionais nas Nações Unidas e no Departamento de Estado dos EUA [Ministério dos Negócios Estrangeiros] (pelo menos quando um certo partido ocupa a Casa Branca), tem achado por bem impingir o aborto, controlo da população e “direitos” homossexuais a qualquer nação sobre a qual exerce influência. O Papa Francisco refere-se a isto, e bem, como “colonização ideológica”. Também podemos falar em suicídio demográfico. Todas as nações da Europa têm uma população em colapso.

Mas esta interferência burocrática poderia ter continuado indefinidamente, não fosse a actual crise dos refugiados. Tal como aconteceu na América, o grande número de refugiados potencialmente perigosos causou reacções variadas. Até a Áustria, ainda a ressentir-se do passado nazi, esteve muito próxima de eleger um Presidente de extrema-direita há pouco tempo. A Alemanha – que o ano passado admitiu um milhão de refugiados, três quartos dos quais jovens solteiros – está a tentar limitar o fluxo de refugiados. França, Bélgica e Escandinávia assistiram a ataques terroristas, bem como o Reino Unido.

Um grande contingente de britânicos parece ter dito finalmente que basta. A cenoura europeia é tolerável; mas o falhanço de lidar com a crise de refugidos não é. A situação é certamente complexa. Coloca uma obrigação cristã – o dever de ajudar quem precisa – contra outra: a obrigação de proteger os inocentes de potenciais ameaças.

Os líderes dos países têm ainda outra obrigação, como viremos a apreciar cada vez mais: a de não nos dar sermões paternalistas sobre abertura e multiculturalismo, quando sabemos que nenhuma cultura que pretende sobreviver pode ser infinitamente aberta e pluralista.

Tivemos, e talvez ainda tenhamos, uma oportunidade para fazer algo no Médio Oriente e no Norte de África para tornar menos urgentes as viagens perigosas para a Europa e outros locais. O nosso falhanço no Médio Oriente tornou-se tão evidente que mais de cinquenta funcionários do departamento de Estado acabam de enviar uma carta a Obama a pedir-lhe que bombardeie a Síria. Pare um momento e registe isso. Estamos a falar de funcionários do departamento de Estado, pessoas que encaram os seus trabalhos como consistindo na promoção de direitos homossexuais e o aborto, pedir desculpa pelos Estados Unidos e maçar os estrangeiros com discursos chatos.

Ninguém sabe ao certo o que acontecerá no referendo de quinta-feira – as sondagens mostram uma ligeira vantagem para o Brexit. Mas quer o Reino Unido opte por ficar ou partir, uma coisa é certa. Não é só aqui nos Estados Unidos que as coisas estão a levar com um forte abanão.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 20 de Junho de 2016)

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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As Histórias Batem as Afirmações

Todd Worner
“Uma história é uma forma de dizer algo que não pode ser dito de outra maneira, e é preciso cada palavra na história para transmitir o significado. Conta-se uma história porque uma afirmação seria inadequada.” – Flannery O’Conner

Há 18 anos apaixonei-me loucamente. Ela chamava-se Cari. Tinha longos cabelos ruivos, maçãs do rosto altas, olhos azuis que dançavam e um sorriso que iluminava o quarto. O seu riso era contagioso, uma postura serena e uma confiança muito atractiva. Estávamos nas férias de Natal e tínhamos voltado para a faculdade para uma sessão de formação. Embora andássemos pelos mesmos meios, nunca nos tínhamos cruzado. E eu fiquei caídinho.

Tornámo-nos amigos e colegas em vários eventos universitários. Fizemos voluntariado, animamos um espectáculo para a universidade e fomos juntos a inúmeras festas. Ao longo da nossa caminhada, aparentemente platónica, ela saiu com alguns rapazes e eu com algumas raparigas, mas acabámos por nos apaixonar. Ao fim de um curso de medicina, estágio e internato, acabámos por chegar aos altares da Igreja Católica, estupefactos com a bênção que éramos um para o outro.

Hoje temos duas filhas. Se algum dia elas me pedirem para descrever como conheci e me apaixonei pela sua mãe, certamente não terei palavras para o dizer. Como é que se explica em palavras aquilo que apenas se expressa pelas mais puras e arrebatadoras emoções?

Contando a história.

A Fé Católica é diferente? Se pensarmos no assunto – mas pensarmos mesmo – a verdade, a bondade e a beleza desta fé são totalmente arrebatadoras e inicialmente ela chega-nos primeiro através da Bíblia e não de um qualquer argumento abstracto. Um Deus que poderia ter sido frio, calculista e caprichoso como Zeus, ou um sem número dos outros deuses antigos e maus, afinal é um criador que nos ama, que corre um risco com a sua criação, dando-nos livre-arbítrio.

Ele lamenta a ruptura que a humanidade desencadeia, mas procura incansavelmente trazer-nos de volta para o seu abraço paternal. Através de regras que promovem a nossa dignidade, lições que corrigem os nossos caminhos e uma esperança duradoura que sacia a nossa sede de redenção, no meio do nosso estado decaído, quando pensamos bem no assunto este Deus – este Pai indiscritível cujo único Filho se faz Homem – devia-nos deixar sem palavras. Devíamos sentir-nos demasiado emocionados até para falar, não desatemos a chorar.

Quando me tornei católico compreendi bem todas estas verdades? Não sei bem. Nem sei se algum dia o farei verdadeiramente. Mas tenho momentos de apreensão quando a graça repousa sobre mim e consigo vislumbrar – breve e docemente – o Deus que se recusou a abandonar-me à minha sorte. Em que alturas é que experimento mais este amor? Nas histórias.

Ouço-o quando alguém me diz: “Jesus ama-te”. Mas compreendo-o quando um Cristo sofredor e crucificado murmura: “Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem”.

Estou a ouvir quando me dizem: “Deus perdoa-te”. Mas compreendo-o quando um filho pródigo, desesperado e indigno, é abraçado com tamanha força por um Pai emotivo.

Nada como uma história...
Estou receptivo quando me avisam: “Não peques”. Mas sou transformado por um Cristo que gentilmente pede contas aos carrascos enquanto perdoa a adúltera com palavras firmes mas cheias de amor: “Vai, e não tornes a pecar”.

No final da sua extraordinária biografia de Charles Dickens, Chesterton não se limitou a transmitir a sua apreciação pelo homem e pela sua mensagem com meros adjectivos. Disse isto:

A camaradagem e a alegria a sério não são interlúdios na nossa viagem; mas antes, as viagens são interlúdios da nossa camaradagem e alegria, que em Deus perdurarão para sempre. A taberna não aponta para a rua; a rua é que aponta para a taberna. E todas as ruas apontam para a última das tabernas, onde nos encontraremos com Dickens e todas as suas personagens: e quando voltarmos a beber será de grandes canecas, na taberna que se situa no fim do Mundo.

Na conclusão da obra-prima de Georges Bernano, o “Diário de um Pároco de Aldeia”, o sentido da Graça não é explanado de forma complexa, antes é colocada no último fôlego de um padre rural generoso e moribundo. Com o terço na mão, o padre olha para o seu empregado, que aguarda ansiosamente a chegada de outro padre para administrar a extrema-unção. O sacerdote faz uma última afirmação antes de morrer:

“Será que importa? A Graça está em toda a parte”.

Há um número sem fim de afirmações gloriosas que podemos fazer sobre a Fé Católica, tal como há um sem número de afirmações maravilhosas que se podem fazer sobre a minha mulher. E podem ser todas verdadeiras. Mas por vezes, no meio da majestade de Deus e da magnitude do meu amor pela minha mulher, uma afirmação, como disse Flannery O’Conner, não chega.

Por isso se um dia as minhas filhas olharem para mim e perguntarem porque é que acredito em Deus, ou como é que me apaixonei pela sua mãe, talvez deixe de lado as afirmações e lhes conte a história. Acho que vão gostar.


Tod Worner é um marido, pai e médico de medicina interna católico, de Minneapolis. Contribui regularmente para a Patheos sob o nome: A Catholic Thinker. O Dr. Worner criou um currículo católico para alunos de liceu que já fizeram o Crisma e costuma fazer conferências sobre titãs e tiranos da Segunda Guerra Mundial. Está actualmente a escrever o seu primeiro livro.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Promessas

James V. Schall S.J.
Nos salmos lê-se: “Sustenta-me, Senhor, segundo a tua promessa…” É preciso uma certa lata para pedir a Deus que cumpra com as suas promessas, quanto mais reconhecer que Ele as fez.

Muita da nossa felicidade e infelicidade deriva da manutenção ou quebra de promessas. Um juramento é uma declaração de que vamos cumprir uma promessa. Um voto é uma promessa solene, normalmente feita a Deus, que tem por objectivo enfatizar a seriedade da promessa e a intenção de a manter. Um contrato é um acordo de que algo será feito ou entregue de uma forma particular, num tempo específico. Há demasiadas vidas preenchidas com promessas quebradas, logo, os juramentos e os contratos costumam acarretar uma penalidade ou uma emenda para o caso de o acto prometido não ser cumprido. Os outros contam connosco e com o cumprimento das nossas promessas.

As promessas podem, ou não, envolver um factor-tempo. O casamento é, ou devia ser, “até que a morte nos separe”. Um contrato pode estipular que eu entregarei esta encomenda de carvão no dia 20 de Dezembro. As promessas permitem-nos configurar o futuro. Uma promessa identifica a forma como alguém agirá ou falará num futuro por definir. Permite-nos fazer as nossas próprias promessas, nas certezas das dos outros.

Mas há promessas que nunca deveríamos fazer, ou cumprir, caso tenham sido feitas. Penso em Herodes Antipas. Ele jurou que daria à sua filha até metade do seu reino. Mas em vez disso ela pediu a cabeça de João Baptista. O Rei, por ter feito tanto caso, teve de “cumprir” o seu juramento e promessa. Platão argumenta, numa famosa passagem da República, que os maiores crimes requerem mútuo acordo entre criminosos para serem levados a cabo. As promessas surgem da nossa compreensão e poder de vontade. Fazem parte do discurso de livre vontade e a sua relação com a razão.

Uma promessa é uma forma de organizar o futuro, como Hannah Arendt explicou. O passado aconteceu. Não o podemos mudar. Mentir sobre o passado é um mal que pode ser verificado à luz dos factos. Mas o futuro ainda não aconteceu. Podemos ser daqueles crentes que afirmam que confiamos de tal forma em Deus que não precisamos de “fazer” nada. Deixamos que tudo o que acontece seja “vontade de Deus”. Desculpamo-nos dizendo que seguimos a “vontade de Deus”, para onde quer que ela nos leve. Mas esta tese passa ao lado de tudo o que significa ser humano: a capacidade de agir e tomar responsabilidade pelas nossas acções.

As regularidades da natureza, como o levantar e o pôr-do-sol, decorrem independentemente de nós. Podemos louvá-los mas não os podemos mudar. Esta necessidade é verdadeira no que diz respeito à nossa existência, tanto quanto nos diz respeito. Mas a nossa existência dependeu da promessa de outros, dos nossos pais, da sua promessa de criar aquilo que geraram. Mas outras coisas apenas existirão se as planearmos. Se bem que ter um plano, só por si, não chega. Devemos desejá-lo, tomar uma resolução e prometer torná-lo realidade.

No seu famoso ensaio, “Em Defesa de Votos Impulsivos”, Chesterton escreveu as seguintes linhas:

É verdadeiramente interessante ouvir os opositores ao casamento… Eles parecem imaginar que o ideal da constância (o cumprimento dos votos) é uma carga misteriosamente colocada sobre a humanidade pelo demónio em vez de ser, como é, uma carga imposta consistentemente por todos os amantes sobre si mesmos. Inventaram uma expressão, uma expressão que em duas palavras representa uma contradição total – “amor livre” – como se o amor alguma vez tivesse sido, ou alguma vez pudesse ser, livre. O compromisso faz parte da natureza do amor e a instituição do casamento simplesmente presta ao homem comum o elogio de confiar na sua palavra.

Nunca ninguém o disse melhor. Quem ama escolhe ser livre comprometendo-se com aquilo que ama de tal forma que cumprimos a nossa promessa àquele a quem amamos. As promessas e os votos quebrados não nos libertam, simplesmente nos mostram como optámos por não ser livres.

Na fórmula confessional prometemos firmemente expiar os nossos pecados. Sem esta promessa, as coisas não avançam, nem moralmente nem sacramentalmente. Se quebramos uma promessa (e quem nunca o fez?), não devemos usar isso como uma desculpa para quebrar todas as outras. Mas se dermos por nós sempre a quebrar promessas, das mais comuns às mais solenes, estamos próximos da condição de “amor livre” a que Chesterton se referiu, aquele amor que não nos compromete com nada para além de nós mesmos.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Beijinhos e abraços na Terra Santa

(Clicar para aumentar)
O Papa Francisco está neste momento a despedir-se da Terra Santa, onde passou os últimos três dias. Está por publicar um artigo com 10 dos pontos altos desta viagem, que divulgarei amanhã, mas desta peregrinação destaco os seguintes:


O discurso do Rei Abdullah, da Jordânia, que chamou ao Papa “Consciência do mundo”.

O encontro ecuménico entre Francisco e o Patriarca de Constantinopla.

E por fim o momento esta manhã em que o Papa beijou as mãos a seis sobreviventes do Holocausto.

Leiam também a crónica de Aura Miguel sobre a viagem para a Jordânia, em que o Papa falou de Fátima.

A viagem termina, mas o Papa vai falar com os jornalistas a bordo do avião, de regresso a Roma, pelo que haverá certamente novidades ainda, já sabem que as poderão encontrar na Renascença.

Na próxima quinta-feira realiza-se um colóquio em Lisboa que não vai querer perder. Trata-se do primeiro evento do género dedicado a Chesterton (pelo menos de que eu tenha conhecimento…). Supostamente eu vou moderar uma das conferências, mas acabei de ser informado pelo obstetra da minha mulher que na quinta-feira os planos poderão ser outros, por isso não posso garantir a minha presença. Mas a não ser que estejam a ter filhos também, espero que consigam ir ao Auditório 2 da Universidade Católica a partir das 16h para ouvir João César das Neves, Tiago Cavaco, Pedro Picoito, Miguel Morgado e Zita Seabra, entre outros, a falar desta figura ímpar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Enterros violentos e Chesterton

Pensei meter foto do Priebke, mas não...
Uma Igreja fechada no passado trai a sua identidade apostólica, disse hoje o Papa Francisco, na audiência geral das quartas-feiras, em que explicou o que significa a palavra “apostólica”, para definir a Igreja.

De resto, numa mensagem ao líder da FAO, o Papa lamentou novamente o “escândalo” da fome.

Faz hoje 35 anos que foi eleito outro Papa, João Paulo II. O Cardeal Saraiva Martins comenta o que foi viver conviver de perto com um santo.

Em Itália o enterro de um oficial nazi acabou em pancadaria. A diocese de Roma tinha-se recusado a celebrar um enterro público com missa, por isso o advogado de Erich Priebke aceitou a oferta dos tradicionalistas da FSSPX.

Como já tínhamos visto antes, foi aberto o processo de beatificação de G.K. Chesterton. Na altura comentei que algumas das suas palavras sobre os judeus poderiam ser um obstáculo. A polémica já começou e no artigo desta semana do The Catholic Thing o jornalista inglês Michael Coren, ele próprio judeu, defende a reputação do homem que o ajudou a descobrir o Catolicismo. Não deixem de ler!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Chesterton: Santo? Talvez; Anti-Semita? Não

Michael Coren
Estou habituado a que me discutam, até que me ofendam, no Twitter e no Facebook. É o preço a pagar por ser jornalista. Se os comentários negativos no final dos meus artigos de opinião me influenciassem, há muito que tinha abandonado a profissão. Claro que os comentários positivos são todos inteiramente certeiros! O mês passado a discussão não foi sobre qualquer artigo recente ou sobre uma participação televisiva, mas sim sobre umas linhas de um livro escrito em 1988: “Gilbert: The Man Who Was G.K. Chesterton”.

Porquê o renovado interesse? Na altura eu defendi Chesterton de acusações de anti-semitismo e citei a biblioteca Wiener, de Londres, uma instituição dedicada ao estudo do Holocausto e do anti-semitismo, que explica que Chesterton, “não era um inimigo. Quando chegou a altura da verdadeira prova, ele mostrou de que lado estava”.

Claro que o timing é tudo; recentemente foi anunciado que o autor dos contos do Father Brown, “Ortodoxia”, “O Homem que era Quinta-feira”, as biografias de Aquino, Dickens e um sem número de outros livros e artigos de opinião está a ser considerado para beatificação.

Logo que isto se tornou público eu escrevi que a antiga acusação de anti-semitismo iria ser ressuscitada. Antes me tivesse enganado. Passado muito pouco tempo o influente e respeitado Jewish Chronicle, um semanário do Reino Unido, publicou um artigo intitulado: “Pode o inimigo dos judeus G.K. Chesterton ser um santo?

Penso que a formulação da pergunta revela a resposta. Segundo o autor Geoffrey Alderman: “Nunca deixa de me espantar o ponto a que algumas pessoas irão para desculpar ou minimizar expressões claras de anti-semitismo veiculadas por figuras públicas, no presente ou no passado... Chesterton era um romancista, jornalista e crítico literário de grande sucesso que se converteu ao Catolicismo. Roma gosta de retribuir os convertidos, talvez na esperança de seduzir outros a segui-los... Mas há um problema: Chesterton tinha uma aversão bem pública aos judeus e ao Judaísmo.”

Depois saca das citações e referências do costume, retiradas do seu enorme acervo literário, para provar que o homem odiava judeus.

Eu e o Alderman temos pelo menos duas coisas em comum. Ambos escrevemos sobre Chesterton, e ambos somos judeus. Eu tornei-me católico em 1985 mas, para um verdadeiro anti-semita, continuo a ser judeu. Se têm dúvidas deviam ler algumas das ofensas de que falei acima.

Todavia, enquanto judeu, tenho uma enorme dívida de gratidão para com Chesterton que, de tantas formas, me conduziu à Igreja. Isto não será grande consolo para o Sr. Alderman, mas é assim. Para uma pessoa que lutou contra o anti-semitismo toda a sua vida – como jovem reguila nas ruas de Londres e como adulto igualmente indisciplinado através da escrita – sinto-me bem qualificado a este respeito.

G.K. Chesterton
Sim, Chesterton fez alguns comentários feios, e tolos, em especial depois da morte do seu irmão Cecil, que provavelmente era um verdadeiro anti-semita. Cecil tinha lançado uma campanha contra um grupo de políticos, alguns dos quais judeus, mas morreu prematuramente em 1918. Gilbert, que tinha um fascínio pelo seu irmão, que era muito menos talentoso que ele, permitiu que a sua tristeza se transformasse em revolta contra os inimigos de Cecil.

Legou ao mundo uns versos fátuos sobre os judeus no seu romance “The Flying Inn”; mostrou-se pouco sensível nas suas palavras sobre os judeus em Inglaterra medieval; enganou-se e mostrou-se incaracteristicamente banal a respeito do julgamento Dreyfus e, nos seus piores momentos, deixou-se levar pelo mesmo caminho sujo com o seu irmão Cecil e o barulhento, mas não genuinamente anti-semita, Hillaire Belloc.

Mas devemos perguntar se um verdadeiro inimigo dos judeus poderia escrever: “O mundo deve Deus aos judeus”, ou que: “Darei a vida em defesa do último judeu na Europa”? Devemos questionar como é que ele conseguiu formar amizades tão próximas e íntimas com judeus durante toda a sua vida, pessoas que não teriam tolerado a proximidade de um anti-semita por um momento e que o disseram mesmo na altura e depois da morte de Chesterton.

Condenou o anti-semitismo, defendeu o sionismo, foi elogiado por líderes judaicos e, tão cedo como 1934, quando muitos intelectuais e políticos se mostravam ambivalentes, apelou à salvação em massa dos judeus da Alemanha Nazi. Criticou repetidamente, e publicamente, o Nacional-socialismo anti-semita. Era um homem cristão, bom e querido, que devia ter tido mais cuidado com algumas das suas afirmações mas que passou a prova quando outros falharam.

“Do vale conseguimos ver coisas grandes”, escreveu, “mas das alturas apenas coisas pequenas”. Seria tragicamente míope julgar o homem olhando apenas do ponto mais baixo do vale. O melhor é deixar a última palavra ao rabino Stephen S. Wise, um dos mais influentes líderes do Judaísmo americano da primeira metade do século XX. “Quando Hitler chegou, ele foi dos primeiros a falar com toda a franqueza e frontalidade de um grande e ousado espírito”.

Santo? Quem sabe. Anti-semita? De todo.


Michael Coren é pivot de rádio e televisão, sedeado em Toronto, no Canadá. A sua coluna de opinião é publicada em vários jornais. É autor de treze livros, incluindo “Heresy” e “Why Catholics Are Right”.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 10 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Os enjoos de Rick Santorum e os amigos de Israel

O Patriarca de Lisboa e o Papa Bento XVI assinalaram ontem o primeiro Domingo da Quaresma. O primeiro, que ontem fez 76 anos, falou sobre o catecumenato e o segundo sobre o casamento.


Na Nigéria mantém-se o ataque aos cristãos. Três pessoas morreram durante um ataque suicida em Jos.


E por fim, em Israel o responsável pelos lugares santos católicos queixou-se ao presidente de uma onda de vandalismo contra locais cristãos. Faz tudo parte de uma campanha contra o desmantelamento dos colonatos judaicos.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Alcorão queimado... Quarta-feira de Cinzas

Morreu ontem e foi hoje a enterrar D. Manuel Falcão, bispo emérito de Beja que deixou uma profunda marca na igreja nacional. Que descanse em paz. (na imagem, à esquerda do actual bispo D. Vitalino Dantas).

Hoje é Quarta-feira de cinzas, começa a Quaresma. Na Quarta-feira de Cinzas de 2010 nascia um projecto que teve sucesso imediato e continua a ter. Falamos do Passo-a-Rezar, claro.


Menos brilhante tem sido a capacidade dos soldados da NATO compreenderem que queimar exemplares do Alcorão não dá grandes resultados

Foi publicado agora o último artigo do ateu militante Christopher Hitchens, que morreu o ano passado. No seu texto ataca G.K. Chesterton, um dos mais influentes pensadores católicos do século XX. No texto que hoje publicamos de The Catholic Thing, Robert Royal analisa e critica este artigo de Hitchens.

Ultimamente muitos católicos, incluindo padres e bispos, têm criticado Obama. Poucos o fizeram com este nível, contudo. A ver!

Hitchens, Chesterton e “A Queda no Misticismo”

O poeta polaco e prémio Nobel Czeslaw Milosz afirmou certa vez que no seu país (antes de se mudar para os Estados Unidos) as pessoas às vezes comentavam que um determinado pensador tinha “caído no misticismo”, significando que se tinha tornado religioso e, consequentemente, desinteressante.

Milosz era católico, embora afectado pelos desafios modernos à crença religiosa. Mas o seu sentido é claro. Há muito que os evangélicos se lamentam do “fechar da mente evangélica”. A maioria dos católicos não liga ao pensamento católico e não percebem que a Igreja abraça a fé e a razão.

Muitos jovens (e outros menos jovens) que talvez se sentissem intrigados pela filosofia religiosa, a teologia, a literatura e, até, a complexa tradição mística, são confrontados por cristãos que lhes citam versículos da Bíblia, antes sequer de se terem apercebido da importância da Bíblia. Ou então conhecem católicos que são incapazes de oferecer um relato minimamente correcto daquilo em que a Igreja acredita, ou faz.

O Cristianismo, claro, é uma fé que ultrapassa aquilo que é racionalmente demonstrável. Mas a ciência também o faz ao postular que as coisas do mundo existem mesmo e podem ser compreendidas. Tanto a teologia como a ciência procuram relatos racionais de dados adquiridos, i.e. coisas a que não teriam conseguido chegar apenas pela reflexão racional.

É por isso que os grandes pensadores cristãos como Agostinho, Aquino e Newman são tão importantes para a fé como Galileu, Einstein e Hawkings para a ciência.

Uma das grandes diferenças entre estas formas de pensamento, claro, é que a fé não se limita à filosofia ou à teologia. Também tem de poder ser compreendida e praticada – ainda que imperfeitamente – por todos, uma vez que Deus se dirige a todos os homens e mulheres que criou.

Por isso os grandes apologistas do Cristianismo – as vozes que conseguem chegar às pessoas – são muito importantes. E nenhuma voz católica se tem erguido com a mesma eficácia nos últimos séculos do que a de G.K. Chesterton.

Duvidas? Então considere-se o seguinte: Christopher Hitchens, um brilhante jornalista, efusivamente elogiado enquanto morria de cancro do esófago o ano passado, escolheu usar o seu último fôlego, por assim dizer, para atacar Chesterton num artigo, o seu último, que acaba de ser publicado no The Atlantic.

Conhecia Hitchens muito mal. Era um malandro charmoso, sobretudo com as senhoras, de uma época britânica muito particular, o ocaso do domínio inglês. Isso, somado à sua qualidade evidentemente brilhante, garantiu-lhe um lugar proeminente no jornalismo de Washington.

Como muitos outros britânicos bem-educados da sua geração, movia-lhe um ódio particular pelo Cristianismo, que adorava ultrajar – indo ao ponto de criticar a Madre Teresa num livro chamado “The Missionary Position” [Posição de Missionário]. Uma vez que, tanto quanto sei, ele nunca levantou um único pedinte dos esgotos de Calcutá, nunca levei muito a sério a sua afirmação de que a Madre Teresa devia ser encarada como uma tirana beata.

Mas o seu ataque a GKC é um assunto diferente. Neste seu último assalto, Hitchens pretendeu enfrentar um homem – C.S. Lewis vem logo a seguir – que ainda tem o poder de persuasão junto das massas capaz de causar impacto. Caso contrário, para quê gastar os últimos dias com ele?

Ao contrário daquilo a que nos habituou, Hitchens não justifica porque é que o seu alvo merece a sua atenção. Cita T.S. Eliot, que elogiou as “baladas jornalísticas de primeira água” de Chesterton e o próprio Hitchens refere-se à sua poesia como tendo “a mágica faculdade de ser inesquecível”. Mais à frente, refere que Kingsley Amis, um crítico a ter em conta, lhe confessou que todos os anos relia “O Homem que era Quinta-feira”.

Mas para lá destes elogios, apenas um dos quais é do próprio Hitchens, ninguém diria que Chesterton era o autor de “The Everlasting Man” (a sua melhor obra), “The Ballad of the White Horse”, uma série de estudos brilhantes sobre Dickens, Chaucer e os vitorianos, “Francisco de Assis e Aquino”, e dois volumes essenciais: “Heretics” e “Ortodoxia”. Para quem valoriza Chesterton estas obras são o espectáculo principal, mas para Hitchens, aparentemente, não passam de uma distracção.

O reductio ad hitlerum é já uma ferramenta jornalística tão gasta que só um amador – coisa que Hitchens não era – recorre a ela. Mas passa muito tempo neste seu ensaio a falar da obiter dicta de GKC sobre os interesses financeiros dos judeus a que junta uma referência vagamente sinistra à “Concordata entre Hitler e o Vaticano” de 1933, como se a Santa Sé tivesse tratados com indivíduos e não com nações.

Esta acusação tem de ser vaga porque um olhar mais atento à concordata rebentaria nas mãos de quem a tentasse usar como prova de apoio ao regime em causa. Esta vaga associação de Chesterton ao Nazismo é um absurdo, um grande absurdo, dado o nojo que ele reservava para as tiranias modernas.

Chesterton e o seu camarada de armas Hilaire Belloc são culpados de muitas simplificações históricas e gaffes. O distributivismo agrário que eles defenderam como resposta tanto ao capitalismo como ao comunismo tem tantas fraquezas como qualidades. Mas – apesar de Hitchens – eles compreendiam como a tirania na política deriva frequentemente de erros de compreensão da religião.

Hitchens, pelo contrário, parece acreditar que uma perspectiva religiosa firme e tolerante apenas piora a situação:

Chesterton tornou-se parte de uma olvidável operação de retaguarda contra a era da incerteza, que agora se tornou definitivamente a nossa. Parece não haver quaisquer regras, de ouro ou não, naturais ou outras, pelas quais podemos definir o nosso lugar no universo ou no cosmos. Aqueles que afirmam saber mais são condenados por dizer que conhecem aquilo que não se pode conhecer. É um paradoxo, se assim quiserem.

Isto não passa, claro, de uma eloquente balela. A religião não está a desaparecer, salvo nalguns cantos decrépitos. E a busca pelo sentido e pela ordem também não. E Chesterton, como Hitchens reconhece, tinha a “mágica faculdade de ser inesquecível”, coisa que Hitchens não tem – precisamente porque não se ligou a qualquer verdade duradora.

Os livros de Chesterton ainda estão impressos e continuarão a sê-lo. A sua voz, apesar de todos os ataques, jamais se extinguirá, porque é a voz perene da sanidade humana.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 20 de Fevereiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

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