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Wednesday, 22 November 2023

Deus e os Judeus

David Warren

De origens obscuras, habitando em Ur dos Caldeus (Genesis 11,31), e itinerantes como nómadas, com Abraão para Canaã, e depois para a escravidão do Egipto; e para fora do Egipto e da escravatura com Moisés; e pela mão de Josué de volta para a terra prometida de Canaã; os hebreus entram para primeiro plano da história.

E nós viajamos com eles através destes tempos distantes e frequentemente impenetráveis. Como nos diz a Bíblia, com repetida claridade, esta é uma itinerância escolhida.

Não foi escolhida pelas pessoas em si, mas pelo seu Deus; ou como temos vindo a compreender de forma mais simples, por Deus. A história que herdamos é a vida que herdamos, que procede sem ambiguidade dos judeus.

Quanto mais nos familiarizamos não só com as Escrituras hebraicas, mas com os resquícios literários de todos os outros povos do “Médio” e “Próximo” Oriente, mais estranho tudo isto se torna. Pois estamos a ler mais do que uma rara história étnica. As fundações tocam ainda uma realidade teológica palpável.

Os judeus não foram escolhidos por uma mão divina e arbitrária. Foram escolhidos por revelação divina, e foi-lhes mostrada a direcção que deviam tentar seguir, ainda que falhando. Isto faz deles diferentes, únicos, distintos de todos os outros povos antigos que estudamos. 

A mão de Deus pode ser vista ao longo das escrituras hebraicas – mais uma vez, de forma diferente daquela com que nos familiarizaríamos nas muitas tradições alternativas e “pagãs”. A sensibilidade espiritual e moral que emerge, a estrutura de mandamento, marca-os como radicalmente diferentes.

Quando nós, que nos chamamos católicos, olhamos para esta história, anterior ao aparecimento físico de Cristo, não temos outra escolha se não concordar com a opinião judaica do que foi, e é, verdade.

As circunstâncias podem ser misteriosas, mas são também simples, e evidentes. Este é um dos paradoxos do “mistério” religioso: que aquilo que é mais impenetrável é também o mais simples.

Lemos, e se tivermos alguma sensibilidade sentimos na Sagrada Escritura o chamamento, a sensação de se ser escolhido. Isto acontece não porque os relatos históricos são convincentes, de forma racional ou empírica, mas porque a história que relatam contém a resposta a algo inevitável: o amadurecimento humano.

Também a fé tem uma componente evidente de mistério. Não é uma colecção de artigos científicos ou uma antologia de textos religiosos que estamos a ler. Estamos a ler – e a escutar – a palavra de Deus. São-nos feitas exigências. É-nos dito o que é verdade e certo, e belo: exigências essas que irão determinar, directa e indirectamente, o nosso percurso. Ou que serão rejeitadas, por nossa livre vontade, pois implicam uma vida de santidade contra a qual nós, enquanto animais naturais, podemos revoltar-nos.

As exigências são inconvenientes. Isto pode magoar-nos de forma radical. É-nos pedido que abdiquemos do nosso narcisismo, do nosso “ego”, no qual parece radicar a nossa sobrevivência, para abraçar algo que, desde o início, nos foi apresentado como imortal.

O que parecia ser a mensagem “moderna” do Cristianismo, afinal estava já presente desde o início: abdica daquilo que tens, pois tu és escolhido.

É a mesma mensagem que Maria canta no Magnificat: esse Sim cósmico que é pronunciado quando o homem aceita o seu destino; e quando a mulher aceita o seu destino: e é profundamente alegre.

Compreender o fenómeno do antissemitismo passa por compreender o que acontece quando dizemos Não. Não é algo que nos é feito, mas antes algo que nós fazemos.

A raiva contra os judeus – essa fúria psicopática que já devíamos esperar – é, na sua essência, uma raiva contra Deus, e contra a sua ordem.

Ficamos enraivecidos porque os judeus não “são normais”. Insistimos em reduzi-los, em persegui-los, da mesma forma que os nossos antepassados insistiram em crucificar Cristo. 

Pois existe, e pode ser encontrado nas Escrituras, algo cristoforme em cada Judeu escolhido. Ele é um meio para a compreensão de que o homem foi criado à imagem de Deus.

Isto não é algum facto aleatório, antes desafia o lugar comum a que estamos habituados. Porque o Deus em cuja imagem fomos criados é um Deus particular, que conhecemos através de uma história particular.

É uma história na qual os judeus foram os condutores de um acto de vontade divina, e na qual nós, os cristãos que vieram mais tarde, devemos reconhecer que de alguma forma também somos judeus. Pois só os judeus foram escolhidos.

Está em jogo aqui uma estranha inveja. E aqui gostaria de realçar que a inveja não é um pecado menor. No caso do antissemitismo que temos visto recentemente, e ao longo da história, atinge o comportamento homicida a que temos assistido: horrores demasiado horríveis para se descrever casualmente.

Não é por coincidência que estes crimes são cometidos pelos sem Deus. É o caso dos terroristas islâmicos cujos massacres dominam tantas vezes as notícias. Pensamos, erradamente, que são fanáticos religiosos. Mas não são.

O islamismo contemporâneo tem tido o seu próprio percurso histórico, que passa pelas revoluções que varreram o mundo árabe há décadas. O perfil racial do islamista típico não é de um místico religioso, como aquele a que a tradição sufi nos tem habituado. Não se trata de um muçulmano devoto e praticante, a não ser para inglês ver. Estamos a lidar antes com monstros claramente políticos. 

De igual modo, no ocidente, estamos agora a lidar com um inimigo que atinge o seu auge de entusiasmo nos campus universitários: estudantes muito distantes de qualquer humildade religiosa e os seus orgulhosos gurus esquerdistas.

É por isso que, no passado, nos vimos confrontados pelos Nazis, cujo ódio aos judeus transcendeu o seu ódio por qualquer outro inimigo, e é por isso que os judeus sofreram pogroms, não apenas sob o regime de Estaline.

A visão de um judeu é, de forma misteriosa, mas simples, uma recordação de Deus em forma humana. E inspira em nós a maldade da nossa primeira revolta.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 3 de Novembro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing


Thursday, 12 October 2023

A complexa relação entre cristãos e Israel

[Artigo escrito originalmente em 2012, actualizado em 2023]

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui um ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há 75 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos, o que neste contexto não significa necessariamente “interesseiros”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Ao contrário do que se possa esperar, nem sempre os melhores amigos de Israel são os judeus noutros países - muitos dos quais são até bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é uma realidade confinada à América.

Os evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas por razões mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista que defende que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para o fim dos tempos, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final.

Claro que muitos desses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem acolhido a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral, assumindo a forma de ajuda financeira e política.

A situação muda de figura com as igrejas evangélicas mais liberais/progressistas, que tendem a apoiar mais a causa palestiniana, mas estas são menos expressivas, porque menos organizadas.

Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com antissemitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anticristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Os interesses do Vaticano na Terra Santa são representados pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, cujo Patriarca, Pierbattista Pizzaballa, foi recentemente elevado a cardeal. Quando recebeu do Papa os símbolos cardinalícios, este disse-lhe "força, coragem!", mostrando entender a delicadeza da sua posição, de ter de cuidar de cristãos de ambos os lados da barricada e de lidar com as autoridades árabes e judaicas.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto no território da Administração Palestiniana (mais na Cisjordânia do que em Gaza, mas a diminuir em ambos), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos e aquele que foi talvez o único exemplo de um bispo detido por tráfico de armas foi o palestiniano Hilarion Capucci.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana
Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade da zona, que acaba por desembocar em perseguições anticristãs.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados - sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição - e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas. Ainda recentemente, quando começou este novo conflito em Outubro de 2023, o Governo israelita criticou o Papa por apelar à paz e à contenção de ambas as partes, acusando-o de falsos paralelismos.

Por fim, temos o factor ortodoxo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. O Patriarcado de Constantinopla tinha a sua sede precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
Aos olhos dos Otomanos, os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras instituições, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que os ortodoxos tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado, os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Quem são os cristãos na Terra Santa?

Normalmente olhamos para a Terra Santa, e para o conflito entre Israel e a Palestina, como uma dicotomia judaica-muçulmana, mas são muitos os cristãos que vivem nestes territórios. 

Os mais numerosos são os cristãos árabes, identificados hoje em dia como palestinianos. Neste momento estes constituem cerca de 3% da população na Faixa de Gaza e da Cisjordânia, embora historicamente tenham sido uma percentagem muito maior, que foi diminuindo pelo facto de os cristãos emigrarem em muito maior proporção que os muçulmanos. 

Entre a comunidade árabe/palestiniana que vive em Israel a percentagem de cristãos é significativamente maior, cerca de 7%, o que representa a vasta maioria dos cristãos israelitas (75%). Os cristãos palestinianos dividem-se mais ou menos em igual número entre católicos e ortodoxos, sendo que existem católicos de rito latino e de rito oriental, principalmente melquita. 
Judeus messiânicos

Os restantes cristãos em Israel são de diferentes comunidades, incluindo entre três e seis mil arménios. Há um número muito significativo de russos de ascendência judaica que emigraram para Israel mas cujas famílias tinham entretanto convertido ao cristianismo, pelo que existem dezenas de milhares de fiéis da Igreja Ortodoxa Russa no país. O mesmo se aplica a alguns milhares de membros da comunidade etiope em Israel. 

Existe também uma relativamente pequena, mas significativa comunidade de cristãos de língua hebraica. Integrada na Igreja Católica de rito latino, esta comunidade é composta por judeus convertidos ao Cristianismo, mas também por descendentes de católicos que já nasceram em Israel e para quem o hebraico é a língua materna.

Por fim, existem algumas comunidades protestantes, a mais polémica das quais são os chamados "judeus messiânicos", que são judeus que acreditam que Jesus é o Messias prometido a Israel e que são por isso cristãos, mas continuam a vestir-se e a comportar-se como judeus, procurando muito activamente converter outros judeus à sua fé. Por causa do seu proselitismo, são muito mal vistos por judeus devotos em Israel. Segundo alguns dados, existem mais de cinco mil judeus messiânicos em Israel.

Saturday, 31 December 2022

Morreu o Papa que surpreendeu o mundo

Este texto foi originalmente escrito como parte de um pacote a publicar na morte de Bento XVI, pela Renascença. De todos os que deixei, era o que sentia ser mais "meu". Poderá, ao longo dos próximos dias, ser publicado numa versão alterada. Publico-a aqui com autorização da Renascença, a quem agradeço.

Durante séculos os cristãos perseguiram e mataram judeus, culpando-os pela morte de Cristo. Uma frase em particular da Bíblia parecia justificar esta tese da culpa colectiva, o grito dos judeus quando Pôncio Pilates tenta livrar Jesus da crucificação: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”.

O Concílio Vaticano II foi enfático ao negar esta visão das coisas, mas a passagem bíblica permanece e continuava a ser usada por alguns para criar problemas e minar o diálogo entre católicos e o mundo hebraico.

Entra em cena Bento XVI, com esta passagem do II volume da sua trilogia sobre “Jesus de Nazaré”: “Mesmo que ‘todo o povo’, segundo Mateus, tivesse dito ‘que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos’, o cristão há de recordar que o sangue de Jesus fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação.”

Bento XVI era, sobretudo, isto. Homem de uma inteligência brilhante e de grande perspicácia teológica, com uma fé apaixonada mas firmemente ancorada na razão. Os seus discursos e homilias tinham sempre uma grande carga de erudição mas conseguiam ainda assim manter uma simplicidade que os deixava abertos a todos, mesmo os que não se moviam com naturalidade nos meios da teologia e da filosofia.

Ao mesmo tempo, porem, o Papa alemão não era um homem mediático. Foi-se habituando, mas nunca se sentiu particularmente confortável com a atenção dos meios de comunicação social. O seu sorriso não era espontâneo, as suas intervenções não se prestavam facilmente à cultura do “soundbite” e a forma como defendia a cultura e civilização cristã, sempre com base na razão e na história e não em sentimentalismos ou saudosismos, valeram-lhe a inimizade dos media mais ideológicos.

Este último aspecto pode ser comprovado pela constante discrepância entre a cobertura mediática dos eventos do Papa e a realidade. Cada viagem de Bento XVI era precedida de augúrios de fracasso. A missa campal iria estar vazia, a população local sentia-se indiferente, os manifestantes seriam mais que os fiéis. Mas no fim, surpresa geral, dava-se o braço a torcer, porque o povo acorria a este Papa, enchia estádios e descampados e cantava o seu nome deixando-o com aquele sorriso envergonhado que o caracterizava. Mesmo os intelectuais, tanto em França como em Portugal, como os políticos, no Reino Unido e na Alemanha, aplaudiram-no longamente e com o respeito de quem reconhece que está diante de uma mente brilhante, de um professor.

“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, disse, no dia em que tomou posse da Basílica de São João de Latrão.

As viagens eram menos frequentes que as de João Paulo II, mas ainda assim significativas tendo em conta que Bento XVI tinha 78 quando foi eleito. Houve várias de grande importância, a primeira de todas enquanto Papa, à Jornada Mundial da Juventude em Colónia, em 2005; a viagem ao Reino Unido, primeira visita de Estado às ilhas britânicas de um Papa; a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, onde debaixo de uma ferocíssima tempestade o Papa, tocado pela insistência de dois milhões de jovens que não o abandonavam, manteve-se firme dizendo aos presentes: “A vossa força é maior que a chuva”, enquanto os seus colaboradores o tentavam proteger com guarda-chuvas brancos; a ida a Cuba, uma das últimas, onde terá concluído que lhe começavam a faltar as forças para prosseguir com a missão que lhe tinha sido encarregada.

Mas a viagem a Portugal em 2010 distingue-se de todas por uma razão muito particular. O Papa chegou visivelmente cansado, alguns diriam até desanimado. Como sempre, previa-se o pior. Entre os católicos discutia-se a possibilidade de esperar o cortejo no caminho entre o aeroporto e Belém, muitos diziam que se devia abandonar a ideia porque a fraca participação popular ficaria mal na televisão. Mas em todo o percurso nunca faltou gente, bandeiras, estandartes de apoio para mostrar ao Papa que se devia sentir em casa entre os portugueses.

Depois de uma missa no Terreiro do Paço, perante centenas de milhares de pessoas, o Papa foi pernoitar à nunciatura. Os jovens, que tinham estado em grande destaque na missa campal, não o abandonaram e junto ao edifício cantaram e chamaram por ele até que veio à janela e, com um sorriso genuíno na cara, agradeceu a sua presença mas pediu que o deixassem dormir.

Foi em Portugal que Bento XVI beijou pela primeira vez um bebé em público e os vaticanistas que o acompanhavam por todo o mundo não hesitaram em dizer que depois de três dias cansativos viam partir um homem que parecia refrescado. Falar-se-ia então de um pontificado pré e pós visita a Portugal.

A injecção de energia que terá recebido era bem precisa. Na altura já havia rumores de que nem tudo ia bem no Vaticano, nomeadamente na cúria. Entre mal-estar e guerra civil, não faltavam adjectivos, mas poucos esperariam algo da dimensão do vatileaks, um escândalo que arrastou a reputação da Santa Sé pela lama e que abalou muito o Papa pelo envolvimento pessoal de um dos seus colaboradores mais próximos, o seu mordomo.

Se o vatileaks foi decisivo na sua decisão de resignar é especulação, mas contribuiu certamente para a perda da sua idoneidade física e espiritual, para usar os seus próprios termos.

Em retrospectiva, a escolha não deveria ter sido tão surpreendente assim. O Papa já tinha dito, no livro-entrevista conduzido por Peter Seewald, que aceitava a ideia de resignar se sentisse incapacidade de desempenhar a sua função. Foi recuperada também a fotografia que na altura tinha passado bastante despercebida, de Bento XVI a deixar o seu pálio, símbolo de autoridade, em cima do túmulo do Papa Celestino V, um dos poucos na história da Igreja a resignar por sentir que não era capaz.

Mas quando o Papa anunciou a sua decisão, num consistório quase insignificante e em latim, o mundo parou. Bento XVI era visto por muitos como o guardião inflexível da doutrina e da tradição e a tradição dizia que um Papa só abandona o seu posto quando é chamado pelo Criador. Afinal de contas, este era o mesmo homem que tinha dito: “O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo”.

Não deixa de ser paradoxal que um dos homens da Igreja mais inteligentes e brilhantes dos últimos séculos seja recordado para sempre por aquele que foi um dos seus últimos gestos, o de desprendimento do poder. É uma memória que não lhe faz justiça, mas talvez isso não desagradasse a Joseph Ratzinger, que nunca se mostrou muito confortável debaixo dos holofotes e que preferiria, certamente, deixar os seus livros e textos falar à história por ele.

Wednesday, 9 December 2020

Um Gentio Justo

Brad Miner
Em 1943 houve uma revolta contra os nazis no gueto judaico de Czestochowa, na Polónia, que foi rapidamente esmagado pelas SS, matando muitos judeus. Muitos outros foram enviados para campos de morte. Os que permaneceram em Czestochowa foram postos a trabalhar como escravos até que o Exército Vermelho libertou a cidade. Nessa altura, como os nazis teriam dito com orgulho, a cidade estava quase Judenfrei.

A história mostrou que a “libertação” da Polónia foi, devido à sua subjugação pelos comunistas, um pau de dois bicos. A Polónia foi verdadeiramente, como disse o arcebispo Fulton Sheen, uma nação “crucificada entre dois ladrões.”

No dia 28 de janeiro de 1945 uma menina judia exausta e subnutrida, Edith Zierer, conseguiu chegar a uma estação do caminho de ferro que atravessava Czestochowa. Acreditando que a família estava viva em Cracóvia, entrou numa carruagem de transporte de carvão, de um comboio que, pensava, a levaria até lá. Mas o vento gélido que entrava pela porta aberta da carruagem era demasiado forte e por isso duas horas mais tarde, e com medo de congelar até à morte, aproveitou uma paragem e saiu. Coxeou até à plataforma da estação em Jedrzejow – uma decisão providencial, até porque Cracóvia ficava a sul o comboio estava a ir para leste.

Sentou-se sozinha na estação. Se alguém a viu, ignoraram-na, embora fosse evidente que era uma refugiada. Envergava a farda numerada, agora em trapos, que os sempre eficientes nazis obrigavam os trabalhadores escravos a vestir. Quem tivesse olhos na cara poderia ver que ela estava fraca e esfomeada. Mas ninguém a veio ajudar.

A Edite estava a começar a pensar que mais valia morrer, até que a Providência interveio. Como o seu sobrinho-neto, Roger Cohen, explica, “A morte aproximava-se, mas um jovem antecipou-se. ‘Era muito bem parecido’, recorda a Edith, e vigoroso”. De acordo com ela, o jovem rapaz perguntou-lhe o que é que ela estava ali a fazer. Ela disse-lhe. Outro relato diz que ele também perguntou o seu nome, mas quando ela lho disse desatou a chorar, porque durante tantos anos tinha sido apenas um número.

O homem afastou-se, mas voltou com uma chávena de chá. Enquanto ela bebia ele disse que também ia para Cracóvia e prometeu ajudar a levá-la até lá. Ela estava desconfiada. Ele voltou ao sítio onde tinha ido buscar o chá e voltou com pão e queijo. Isso ajudou, muito. O estranho, que conhecia as linhas e os horários, sabia que o próximo comboio para Cracóvia partia longe dali e tinha a sensação de que a Edith não tinha muito tempo.

“Tenta levantar-te”, disse ele. Mas ela não conseguia. Por isso ele pegou nela e carregou-a mais de três quilómetros até à estação certa. Mais uma vez encontrava-se numa carruagem de carvão. Estava lá outra família judia escondida. O jovem entrou também. Colocou a sua capa à volta de Edith e fez uma pequena fogueira dentro da carruagem, para proteger do inverno gelado. Finalmente apresentou-se.

“O meu nome é Karol Wojtyla”.

Agora sem a capa, Edith e a família judaica conseguiam ver que ele era um padre católico. Ou pelo menos assim lhes pareceu, por causa da batina. Na verdade, era ainda seminarista.

Quando chegaram a Cracóvia o Karol saiu do comboio, talvez para arranjar informação que pudesse ajudar a Edith a encontrar a família. Quando regressou ela tinha partido. Um dos outros passageiros tinha-lhe dito que fugisse, não fosse este padre querer metê-la num convento. “Fugi”, disse ela, “porque as pessoas começaram a perguntar porque é que um padre estava a viajar com uma menina judia”.

Ela recorda-se de se ter escondido atrás de um monte de vasos de leite metálicos quando o homem que a tinha ajudado começou a chamar por ela em polaco: “Edyta, Edyta!”

Como escreve o senhor Cohen:


Aqui estavam duas pessoas numa terra devastada, um católico de 24 anos e uma judia de 13. O futuro Papa já tinha perdido a sua mãe, o seu pai e o seu irmão. A Edith, embora ainda não o soubesse, já tinha perdido a mãe em Belzec, o pai em Maidaneck e a irmãzinha em Auschwitz. Não podiam estar mais sozinhos.

Naquele momento Edith Zierer fez aquilo que achou necessário para preservar a vida e a sua fé. Mas nunca se esqueceu de Karol Wojtyla.

Quando leu num jornal, em 1978, que este homem extraordinário tinha sido eleito Papa, chorou. Escreveu-lhe várias vezes, mas não recebeu qualquer resposta… Durante 20 anos. Mas em 1998 voltaram e encontrar-se no Vaticano. Naquele encontro, de acordo com Cohen, o Papa pôs-lhe a mão na cabeça e disse: “Volta, minha filha”, uma coisa estranha de se dizer meio-século depois.

Talvez se estivesse a recordar dos seus gritos ansiosos naquela estação em Cracóvia: “Edyta, Edyta! Volta, minha filha.” Ou talvez estivesse a convidá-la a voltar a Roma para outra visita. Isso nunca aconteceu, mas os dois voltaram a encontrar-se em 2000 no Yad Vashem, quando João Paulo fez uma peregrinação a Jerusalém. “Ele era um espírito irmão no sentido mais puro da palavra. Um homem capaz de salvar uma menina naquele estado, congelada, esfomeada e cheia de piolhos, e levá-la até segurança”, disse ela, depois de São João Paulo II morrer, em 2005. “Eu não teria sobrevivido se não fosse ele”.

Naquela visita a Yad Vashem o santo octogenário foi cumprimentar seis sobreviventes do Holocausto, uma das quais era a senhora Zierer. O Papa falou a cada um, até chegar a Edith. Então colocou uma mão sobre o seu ombro, enquanto conversavam. Ela diria depois que “não chorei no Vaticano, mas em Yad Vashem, desfiz-me em lágrimas”. 

Edith morreu em 2014. 


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 7 de Dezembro de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 


Wednesday, 22 January 2020

Os Judeus São um Sinal

Casey Chalk
O romancista católico americano Walker Percy perguntou certa vez: “Porque é que ninguém acha incrível que na maior parte das cidades do mundo existem judeus, mas não existe um único hitita, apesar de os hititas terem tido uma rica civilização numa altura em que os judeus eram um povo fraco e obscuro? Quando encontramos um judeu em Nova Iorque ou em Nova Orleãs, ou em Paris, ou em Melbourne, é incrível que ninguém ache isso incrível. O que fazem aqui? Se há aqui judeus, porque não existem hititas? Mostrem-me um hitita em Nova Iorque”.

É uma boa pergunta, sobretudo à luz dos recentes ataques antissemitas em Nova Iorque e noutras partes do mundo. Mas eu vou mais longe e digo que os judeus atestam a credibilidade da existência de um Deus pessoal, de aliança.

A credibilidade, embora frequentemente menosprezada, é uma parte importante da nossa fé católica. É abordada logo no início do Catecismo da Igreja Católica (#156). O teólogo e judeu convertido ao catolicismo, Lawrence Feingold, argumenta que há vários “sinais sobrenaturais que manifestam a ação milagrosa de Deus”.

O Catecismo explica: “para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação”. Estas incluem “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade” que servem como “sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos (…) mostrando que o assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego do espírito”.

Feingold comenta: “Os judeus vêem a existência continuada do povo e da fé judaicos através de tantos séculos, e por entre tantas calamidades, incluindo de um exílio de dois mil anos da sua pátria ancestral, como um grande sinal da credibilidade da revelação mosaica que formou a fé.”

Pense em todas as nações que desapareceram da história. Genesis 15 refere, entre as tribos que ocupam a terra de Canaã, os quineus, os quenizeus, os cadmoneus, os hititas, os refaítas, os perizeus, os amorreus, os cananeus, os guirgaseus e os jebuseus. Ou, para quem teve de aprender latim no liceu, consideremos as tribos da Gália conquistadas por Júlio César: tectósages, arvernos, bitúriges, sénones, vénetos, etc..

Assim, o teólogo judeu Michael Wyschogrod observa que “parece um povo indestrutível. Enquanto que todos os povos do mundo antigo desapareceram há muito, o povo judeu continua a viver como vive há dois mil anos.” É certamente um facto admirável, embora haja outras culturas que possam traçar uma ligação aos seus antepassados de há milénios, como os iranianos (persas), os chineses e as tribos dos Andes, na Bolívia e no Perú, entre outros.

Passamos então para outro aspecto de credibilidade: a fé judaica. Não é simplesmente o faco de os judeus terem aguentado a prova do tempo, é também a sua tradição de fé única. Ser judeu é ser membro de uma comunidade religiosa, cujas tradições remontam ao início da história. Desde o tempo das pirâmides e da Troia de Homero, os judeus adoram YHWH, lêem as escrituras hebraicas, praticam ritos como a circuncisão e observam as mesmas restrições alimentares. Como diz Feingold, “mantêm a mesma fé há bem mais de três milénios!”.

Tudo bem, dirá um céptico, e os hindus, do subcontinente indiano, não praticam a mesma religião há cerca de quatro mil anos? Muitos destes hindus, pelo menos os das classes mais altas da sociedade, os brâmenes, estão igualmente focados em proteger a pureza e a exclusividade do seu grupo religioso, linguístico e racial.

Marcas da existência de judeus em Portugal
O que nos leva a um elemento paradoxal desta teoria da credibilidade: a bizarra recusa dos judeus de se despegarem da sua identidade, mesmo quando já rejeitaram a maioria dos seus elementos. Apercebi-me disto quando encontrei um exemplar da Atlanta Jewish Times. A revista, com cerca de 40 páginas, tem várias histórias sobre judeus e judaísmo – os seus feriados, notícias, sucessos. Mas apesar de uma série de histórias sobre sinagogas e rabinos, não encontrei uma única referência a Deus em toda a publicação. Nada de teologia. Nem uma coluna, como costuma existir nos jornais diocesanos, sobre crescimento espiritual.

É verdade que a minha experiência limitou-se a uma edição do Atlanta Jewish Times, mas ficaria muito admirado se YHWH aparece mais do que uma mão cheia de vezes na revista, anualmente. Isto deve-se ao facto e a maioria dos judeus serem agnósticos ou ateus. Um estudo de 2011 revelou que metade de todos os judeus americanos têm dúvidas sobre a existência de Deus. Isto comparado a 10-15% de outros grupos religiosos americanos.

Contudo, apesar do que poderíamos considerar uma profunda “falta de fé” dos judeus, até os ateus mantêm-se comprometidos com os seus, mesmo quando os pais, ou até os avós, não são crentes, como acontece cada vez mais.

Conheço muitos judeus que, apesar de não terem fé, mantêm certas observâncias judaicas e até vão com frequência à sinagoga. Porquê? Porque é que um grupo demográfico de língua inglesa, nacionalidade americana e crenças religiosas inexistentes continua a identificar-se tão fortemente com o judaísmo?

Talvez porque algum poder transcendente (como Deus) os marcou, marcou de forma tão indelével, que mesmo quando perderam a fé em YHWH essa marca persistiu. De que outra forma podemos explicar, citando Feingold, “a sua contínua vitalidade, através de tantos séculos, até aos dias de hoje?”. Não tenho melhor resposta do que acreditar, como alguns judeus e muitos cristãos, que Deus os escolheu.

Como lemos no nosso próprio catecismo: “É ao povo judaico que ‘pertencem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas [...] e os patriarcas; desse povo Cristo nasceu segundo a carne’; porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’.”

O povo judeu, e a sua fé, são mais do que curiosidades históricas – são um dos sinais da credibilidade do Deus da Revelação. Se assim for, ser antissemítico é mais do que apenas preconceito. É uma declaração de guerra contra o próprio Deus.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 18 de janeiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 8 January 2020

A Salvação vem dos Judeus

Francis X. Maier
Num artigo de opinião no “Wall Street Journal” de final de Novembro, William Galston escreveu que tem havido um aumento acentuado de antissemitismo na Europa Central e de Leste, desde 2015. Na Polónia, Ucrânia, Rússia e Hungria, onde em tempos viveu a maior parte dos judeus europeus, um grande número de pessoas sondadas revelou acreditar que os judeus têm demasiado poder no mundo dos negócios e dos mercados financeiros, que falam demasiado da Shoah [Holocausto] e exercem demasiado controlo sobre os assuntos globais.

O Holocausto é a maior catástrofe moral do Ocidente moderno. Mas é com demasiada facilidade que nos esquecemos das suas lições. “A criação do Estado de Israel” em 1948, escreve Galston, serviu de desculpa para a renovação da “antiga acusação de deslealdade judaica”. Hoje, novamente, as acusações de deslealdade são “uma presença constante da vida judaica” – e não apenas na Europa. Globalmente, 38% dos inquiridos por uma sondagem da Anti-Defamation League acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que à nação onde vivem.

Na Europa Ocidental o crescimento de comunidades muçulmanas e o aumento da sua influência política agravaram o problema. A violência contra os judeus em França aumentou mais de 20% em anos recentes e o rabino-mor da Grã-Bretanha criticou publicamente o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, pelo aumento do antissemitismo nas fileiras do seu partido, meros dias antes das mais recentes eleições. O ódio aos judeus não é um monopólio da direita populista na Europa. A esquerda progressista tem a sua própria variedade tóxica do mesmo veneno. 

No que diz respeito aos Estados Unidos, os americanos geralmente revelam baixos índices de antissemitismo. Mas mesmo por cá, 33% dos sondados acreditam que os judeus são mais leais a Israel do que ao país de que são cidadãos. E crimes de ódio, como o esfaqueamento de vários judeus que celebravam o Hannukah em Monsey, Nova Iorque, estão a tornar-se mais comuns.

O anti-judaísmo tem uma longa história na cultura cristã. Começa com as discussões iniciais na comunidade judaica sobre a identidade messiânica de Jesus e a teologia cristã que lhe sucede e procura substituir nos séculos seguintes. Mas foi o próprio Cristo – obviamente um judeu – que disse que “a salvação vem dos Judeus” (Jo. 4, 19-22) e o Cristianismo simplesmente não faz qualquer sentido sem as suas raízes judaicas. 

O Concílio Vaticano II procurou reformar e restaurar as relações entre a Igreja Católica e a comunidade judaica através de documentos como Nostra Aetate (“No Nosso Tempo”). E enquanto declaração da Igreja tratou-se de um ponto fulcral no diálogo entre cristãos e judeus, mantendo-se tão importante hoje como era em 1965, quando foi publicada. Mas palavras belas e boas ideias não têm força antes de tomarem forma numa vida que prova, pelos actos, que são verdadeiras. E desse ponto de vista, nada encarnou a recuperação das raízes judaicas do cristianismo de forma tão forte como a vida e a obra de Aaron Jean-Marie Lustiger.

Lustiger com o Papa João Paulo II
Lustiger nasceu em 1926 numa família de imigrantes judaicos da Polónia. O seu avô era rabino e os seus pais tinham uma chapelaria em Paris. Na sua vida familiar eram em larga medida seculares, mas ainda assim tiveram o cuidado de manter o Aaron afastado das celebrações e observâncias católicas em França. Contudo, aos 10 anos o rapaz encontrou um exemplar do Novo Testamento e leu-o em segredo, convertendo-se, contra a vontade dos seus chocados pais, aos 14 anos de idade.

Nunca abandonou o seu nome judaico. Acrescentou-lhe o nome cristão Jean-Marie no baptismo, mas nunca perdeu um intenso orgulho pela sua identidade judaica. Sobreviveu à II Guerra Mundial, escondido por uma família católica francesa. A sua mãe morreu em Auschwitz em 1942 e outros membros da sua família alargada perderam-se na Shoah. Mais tarde foi ordenado padre, serviu como capelão em universidades parisienses e eventualmente foi nomeado bispo de Orleans, vindo a tornar-se mais tarde cardeal arcebispo de Paris.

Lustiger tinha um forte intelecto – foi eleito para a Academia Francesa em 1995 –, uma energia inesgotável e um gosto excêntrico para as artes. Foi autor de uma quantidade prodigiosa de livros e conferências e tinha uma personalidade maior que a vida. Estar e falar com ele, como eu fiz em várias ocasiões, era uma experiência inesquecível, como entrevistar uma locomotiva deambulante.

Para ele eram especialmente importantes as oportunidades que teve, cada vez mais ao longo dos anos, de encontrar-se com líderes, ouvintes e estudantes judaicos. Nem sempre era fácil. Os judeus tendem a ver os convertidos ao cristianismo como apóstatas e repudiadores da comunidade. Lustiger respeitava este sentimento mas não deixou que o impedisse de procurar amizades e parceiros de diálogo na comunidade judaica. Mais para o fim da sua vida escreveu o seu próprio epitáfio, resumindo-se da seguinte maneira: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Recordo Lustiger, que morreu em 2007, aos 80 anos, por esta simples razão: Ele compreendia que para os cristãos o antissemitismo/anti-judaísmo não é apenas um mal, mas uma forma particularmente grotesca de blasfémia e ódio por si mesmo; um ódio pelas nossas origens e raízes no Deus de Israel. Qualquer católico que procure aprofundar a sua fé e aprender a importância do judaísmo para os cristãos através das palavras deste cristão profundamente judeu e judeu profundamente cristão tem apenas que ler os seus livros “Choosing God, Chosen by God” e “A Promessa”. 

Como o próprio Lustiger não se cansava de dizer:

Uma das tragédias da civilização cristã é que se tornou ateia mas afirma permanecer cristã… A sorte reservada aos judeus é uma prova para saber se nós, enquanto pagãos cristianizados, aceitámos verdadeiramente Cristo. É verdadeiramente a prova final. Não se trata simplesmente de uma relação entre o amor pelo vizinho e o amor a Deus. O judeu permanece, de forma muito precisa, um sinal de Eleição e, por isso, de Cristo. Não reconhecer a Eleição dos judeus é não reconhecer a Eleição de Cristo. E é a incapacidade de reconhecer a nossa própria eleição. A lógica é implacável.

A única resposta apropriada é: Amen.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 8 de janeiro de 2020)

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Wednesday, 7 February 2018

Partidarismos que Prejudicam a Prática Pastoral

Randall Smith
Imaginem que estão na Alemanha em 1930 e alguém desenvolveu um programa pastoral dirigido a judeus. Um grupo ouve falar deste programa e insiste que se não incluir esforços para converter esses judeus ao Cristianismo, será “anticristão”. O maior acto de caridade que se pode ter para com aqueles que estão separados de Cristo, diz, é assegurar que entram para o caminho da salvação. Deixá-los na ignorância e erro seria “anticristão”. E mais, tendo em conta a “questão judaica” que está a assolar o país, não seria melhor para todos se os judeus simplesmente concordassem tornar-se cristãos?

Outro grupo insiste que a única forma de lidar com qualquer judeu é afirmar a sua identidade judaica. Qualquer tentativa de o “mudar” seria preconceituosa. É verdade que há judeus como a Edith Stein que se converteram, mas ela é um embaraço para este grupo, porque o seu exemplo complica aquilo que acreditam ser o “verdadeiro ecumenismo” e o “diálogo salutar com o povo judaico”. Esse diálogo saudável não deve, segundo eles, envolver qualquer referência à fé cristã – algo que eles acreditam ser lesivo para a relação respeitável que devia existir com esta minoria tradicionalmente vitimizada. A única forma de lidar com as questões políticas que envolvem os judeus, diz este grupo, é sublinhar a terrível vitimização que tem sofrido às mãos dos cristãos e fazer com que “ser judeu” seja algo que toda a gente no país encara como uma coisa nobre. Qualquer outra coisa seria “anticristã”.

O primeiro grupo odeia o segundo e considera que estão a abandonar o seu dever de pregar o Evangelho e ganhar almas para Cristo. O segundo grupo odeia o primeiro e considera que são racistas ignorantes, preconceituosos e hipócritas que não têm a sofisticação nem a educação para saber como lidar com judeus.

Mas a pessoa que estabeleceu o programa pastoral em 1930 não faz parte nem de um campo nem do outro, e decide que o melhor que tem a fazer é juntar as pessoas para conversar. Cristãos a falar claramente sobre o seu cristianismo, ouvindo judeus a falar sobre as suas experiências a lidar com cristãos. Convida a Edith Stein para falar, não como modelo do caminho que todos devem percorrer, mas como uma pessoa com experiência dos dois mundos que pode ajudar os cristãos a compreender os judeus e os judeus a compreender os cristãos.

O primeiro grupo odeia-o porque não está a tentar converter todos os participantes ao cristianismo, deixando-os assim na ignorância e no erro. O segundo grupo odeia-o porque ele fala abertamente do seu cristianismo, algo que eles partem do princípio que vai alienar os judeus, e porque isso contraria a sua ideia de conceder aos judeus um lugar especial na sociedade. Para eles, convidar a Edith Stein, uma judia convertida, é prova provada de que o programa pastoral é insensível, porque a sua conversão é um escândalo para os judeus que conhecem. No final de contas nenhum dos dois grupos converte muitos judeus ou ajuda a diminuir a perseguição que os judeus sofrem na Europa.

Agora vejamos outro caso:

Um jovem no auge da sua carreira é convidado a assumir um cargo de liderança na “Courage”, um grupo católico para homens e mulheres com atracção homossexual. O grupo nem tenta “converter” pessoas de homossexual para heterossexual, nem faz segredo das suas convicções morais sobre a imoralidade da actividade homossexual. Embora aceitem inteiramente o ensinamento da Igreja, os seus membros também acreditam que demasiados cristãos tratam mal homens e mulheres com atracção homossexual; que a Igreja não se pode limitar a desejar que o problema desapareça; e que é importante estender a mão a pessoas que, em muitos casos, estão a sofrer, são incompreendidas e precisam da orientação espiritual e do amor da Igreja.

Só para deixar claro, a analogia que apresento aqui não é entre judeus e pessoas com atracção homossexual; é entre as reacções ao primeiro desafio pastoral e ao segundo.

Toda a gente fala em “diálogo”, mas demasiadas vezes o que isto significa é “diálogo à minha maneira”. Para o primeiro grupo, significa que estas pessoas devem vir ter connosco de forma penitente, para que nós, católicos, possamos dizer-lhes quão maus são. Para o segundo significa que devem vir ouvir-nos, penitentes, dizermos quão maus católicos somos.

Porque é que alguém iria ter com qualquer um dos grupos? Em relação ao primeiro, as pessoas que se sentem culpadas sobre algo não querem ser condenadas novamente. Preferem ir a um grupo de apoio, ouvir, aprender e reflectir na companhia de outros. Quanto ao segundo, porque é que alguém haveria de querer ir ouvir pessoas a choramingar sobre a sua própria culpa? Como é que isso as ajuda? Essas pessoas limitaram-se a pegar no meu problema e apropriar-se dele. As pessoas que estão a sofrer não querem que lhes digam que não têm razões para isso. E, claro, ninguém devia mentir sobre o que a Igreja diz, só para “construir pontes” – fazendo-se passar pelo cúmulo da sensibilidade.

E o nosso jovem amigo convidado para trabalhar na Courage? Aceitará o emprego? Se o fizer, será criticado por ambos os lados – tratado com suspeição pelos partidários de um dos lados por causa do seu trabalho com os homossexuais, ou como um preconceituoso ignorante que trabalha com um daqueles grupos obedientes à Igreja, pelo outro. Se fosse amigo dele, o que é que aconselharia?

Será que estas divisões partidárias sobre “a melhor forma” de ajudar cristãos homossexuais está mesmo a ajudar alguém? Ou devemos deixar as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja fazer o seu melhor, e deixar os homens e mulheres homossexuais que procuram orientação da Igreja ajudar-nos a fazer sentido de tudo isto? Podemos falar honestamente sobre aquilo que a Igreja ensina e eles podem falar honestamente sobre quem são e como ouvem aquilo que lhes estamos a dizer. Se nós, enquanto Igreja, dizemos que nos interessamos pelos homossexuais, sobre as suas vidas e bem-estar, então precisamos de pastores que estejam dispostos a proclamar e a escutar a verdade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Tuesday, 6 June 2017

Martelo em Notre Dame, Marcelo nos Açores

Turistas retidos na Notre Dame, Paris
Mais uns dias, mais dois atentados. Um em Londres, outro em Paris, sendo que o da Catedral de Notre Dame, hoje, não causou vítimas.

A Igreja não pode desistir da Juventude, diz D. Pio Alves. Já o responsável nacional das Equipas de Jovens de Nossa Senhora considera que com o próximo sínodo a Igreja está a desafiar os jovens à proactividade.

Marcelo nos Açores. O bispo de Angra diz que o Presidente pode ajudar a resolver os problemas da região.

Luís Miguel Cintra agradece o reconhecimento da Igreja, que lhe atribuiu o Prémio Árvore da Vida.

Ontem o Papa voltou a apelar á protecção do ambiente, isto no mesmo dia em que louvou Pio XII por este se ter arriscado para salvar judeus.

E por fim, a Cáritas portuguesa quer ajudar o povo da Venezuela, mas não sabe bem como fazer chegar a ajuda ao país.

Friday, 22 January 2016

Não confundir família com outro tipo de união

O Papa Francisco discursou esta manhã à Rota Romana e disse que o mundo não pode confundir a família natural com outras formas e união. Disse também que a falta de fé não chega para justificar a nulidade de um casamento, esclarecendo assim uma dúvida que deu bastante que falar há uns meses.

Hoje foi dia de publicar muita coisa no blog. Começo com as transcrições integrais das entrevistas do padre Peter Stilwell e de Esther Mucznik, a propósito da reportagem que fiz de antecipação à visita do Papa Francisco à sinagoga de Roma.

Essa visita, se bem se lembram, deu origem a uma polémica nas redes sociais sobre se os cristãos têm obrigação de evangelizar os judeus, ou não, para a qual contribuí aqui, respondendo a Tiago Cavaco, pastor evangélico. Entretanto dei-me conta da preocupação de alguns protestantes, que temiam que eu estava a dizer que a posição do Tiago é a de todo o protestantismo. A Rute Salvador, que é pastora na Igreja Presbiteriana, mandou-me a sua opinião, que publiquei, com a sua autorização.

E porque o assunto dá pano para mangas, isolei noutro post a resposta do padre Peter sobre esta questão à qual juntei aposição de um bispo jordano, que entrevistei noutro âmbito, e que vai no sentido contrário.

Há, como vêem, muito para ler.

Mas mesmo que não tenham tempo para nada disto, por amor de Deus não deixem de ler o artigo de Randall Smith do The Catholic Thing que critica o facto de a nossa sociedade conviver, aparentemente sem grande preocupação, com o facto de 92% dos bebés com trissomia XXI serem abortados. Bem a propósito no dia da Caminhada pela Vida, nos EUA.

"Holocausto foi choque espiritual e psicológico para a Igreja"

Transcrição completa da curta entrevista que fiz ao padre Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau e especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

O Papa Francisco visita no domingo a sinagoga de Roma. Que significância é que pode ter este gesto?
É o terceiro Papa a visitar a Sinagoga de Roma e é preciso lembrar que a Sinagoga de Roma é simbolicamente muito significativa, porque a grande carta de São Paulo aos Romanos, que foi logo nos primeiros anos do Cristianismo, foi escrita precisamente para a comunidade judaica em Roma, da qual fazia parte também um grupo de judeus que eram cristãos, que eram discípulos de Jesus Cristo. Essa comunidade, provavelmente foi visitada pelo próprio São Paulo e depois por São Pedro e infelizmente ao longo dos séculos sabemos que a relação entre a Igreja Católica e a comunidade judaica resfriou e tornou-se distante. A certa altura os Papas obrigaram os judeus a viver num gueto e é sobre as colinas desse gueto que se construiu a actual sinagoga de Roma. 

Portanto a visita que o Papa faz, na sequência dos seus antecessores, vem na linha de uma perspectiva aberta pelo Concílio Vaticano II de diálogo com a comunidade judaica, compreendendo a comunidade judaica como nossos irmãos na fé. Temos uma grande parte da Bíblia em comum, temos uma longa tradição em comum e infelizmente ao longo dos séculos houve momentos de tensão, de incompreensão, de falta de espírito, de compreensão, por parte, nomeadamente das comunidades maioritárias cristãs, que acabaram por desaguar naquilo que foi a violência da Segunda Guerra Mundial, a chamada Shoah [termo que os judeus usam para designar aquilo a que ficou conhecido como o holocausto].

É à luz dessa experiência que o Concílio faz a sua reflexão e que vários documentos emanados posteriormente pela Santa Sé chamam a nossa atenção para a necessidade de não mais repetir esses erros do passado em que não reconhecemos a nossa fraternidade na fé. 

Considera que foi o holocausto que determinou esta mudança de paradigma?
É muito claramente isso. Basta ler documentos saídos da Igreja um pouco antes da II Guerra Mundial e outros depois da II Guerra Mundial e nota-se a diferença de tom. 

A diferença de tom é resultado de um choque espiritual e psicológico que a Igreja viveu ao dar-se conta do vírus que tinha alimentado no seu seio, que evoluiu para o Nazismo, que não tem nada a ver com Cristianismo nem com a Igreja Católica, mas que nasce neste contexto de uma cultura ocidental em que a tradição de perseguir e mal-tratar os judeus e das comunidades judaicas, desde a literatura até ao quotidiano das cidades, era o habitual. Portanto isso muda radicalmente e nos anos 60 aqueles que são incumbidos de redigir os documentos do Vaticano II, o Cardeal Bea, nomeadamente, é incumbido dessa função por um Papa, João XXIII, que foi delegado apostólico na Turquia durante a II Guerra Mundial, onde ajudou os judeus que fugiam do Nazismo e que passavam por Constantinopla, ou Istambul, a caminho de Israel, portanto é o Papa que tem muito claro na sua consciência que esta tragédia terrível que foi a Segunda Guerra Mundial para a comunidade judaica, que o Cristianismo tem de dar uma volta, tem de perceber o que se passou em termos de desafio espiritual. 

Depois, o Papa João Paulo II é o primeiro que visita Auschwitz. É preciso lembrar que João Paulo II teve contacto com judeus na Polónia, de quem era amigo, e percebeu a violência da Segunda Guerra Mundial contra a população judaica quase em primeira mão, ou pelo menos muito de perto, e portanto faz questão, quando visita a Polónia, de ir para Auschwitz rezar pelas vítimas. Portanto João Paulo II é o primeiro que visita a Sinagoga de Roma, Bento XVI visita a sinagoga e, segundo consta, mantém ainda uma correspondência directa e pessoal com o rabino da Sinagoga, e agora temos o Papa Francisco que, na Argentina, tinha amigos na comunidade judaica e que protagonizou o diálogo com a comunidade judaica na Argentina, que vai retomar esta tradição de o Papa visitar a sinagoga. 

São duas grandes comunidades em termos da tradição espiritual, que se encontram na mesma cidade, e que é bom que se encontrem, como dizia o rabino há dias, numa entrevista, é bom que numa época em que tantas vezes a religião é usada para justificação para violências que são blasfemas, como diz o Papa Francisco, é bom que estas duas comunidades que tantas vezes tiveram dificuldades no passado dêem testemunho que é possível, apesar dessa história, apesar dessa memória, ser-se possível sentar à mesa e dialogar, e encontrarem-se como amigos.

Recentemente causou bastante discussão, e mesmo alguma polémica, um novo documento da Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus. Surgiram logo órgãos de comunicação social a dizer que a Igreja estava a dizer que não é preciso converter os judeus. É assim?
Conheço o documento e essa expressão, dita dessa forma ou de outra, é correcta.

A posição é que não se deve fazer proselitismo em relação aos judeus, e que deve haver diálogo, como é evidente, mas que deve haver respeito no sentido em que eles têm uma tradição que nós usamos quotidianamente na nossa liturgia para reflectir sobre a nossa tradição religiosa e temos muito que partilhar uns com os outros. 

Mas fazer uma evangelização dos judeus no sentido do proselitismo, de tentar transformar os judeus em cristãos, de uma forma de "pesca à linha", por assim dizer, é realmente uma posição que a Igreja não considera apropriada. [Sobre este assunto, ver aqui]

Para esta reportagem também foi entrevistada Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa.

"Holocausto provocou abalo na consciência da Cristandade"

Esther Mucznik
Transcrição completa da curta entrevista que fiz a Esther Mucznik, da Comunidade Israelita de Lisboa, a propósito da visita do Papa Francisco à Sinagoga de Roma. A reportagem pode ser lida aqui.

Esta visita do Papa à sinagoga de Roma no domingo, o que representa para a comunidade judaica?
É uma visita simbólica, em primeiro lugar, porque os últimos dois Papas, um dos primeiros gestos que fizeram sempre foi visitar a Sinagoga de Roma, que é de facto uma sinagoga simbólica nesse aspecto. Portanto penso que é mais um passo que este Papa dá, no sentido de uma aproximação e de uma convivência muito boa com o Judaísmo, que aliás ele tem mostrado mesmo antes de ser Papa, aliás ele tinha uma óptima relação na Argentina com o rabino Abraham Skorka e eu penso que esta visita é um gesto muito importante. 

É sempre um gesto simbólico. A visita do Papa à sinagoga de Roma é sempre um gesto simbólico. Ainda o outro dia estava a ver um documento do Vaticano, no âmbito da comemoração da encíclica Nostra Aetate, e o documento diz coisas que são profundamente significativas para nós judeus. Tenho aqui até uma frase: "Que é preciso aprofundar o diálogo teológico, o diálogo com o judaísmo, e que este tem um carácter inteiramente diferente e se situa a um nível inteiramente diferente das outras religiões. Que a fé dos judeus, atestada na Bíblia, não é para os cristãos uma outra religião, mas o fundamento da sua própria fé." E continua dizendo que com o judaísmo se fala sobretudo de um diálogo intra-religioso, achei isto muito curioso, não inter-religioso, mas intra-religioso ou intra-familial. 

Parece, por isso, que o Papa situa o Judaísmo o diálogo com o judaísmo num âmbito completamente diferente. Aliás ele disse logo desde o início que os judeus são os "irmãos mais velhos" dos cristãos. E portanto acho que tem havido uma série de gestos deste Papa, que remontam ao período em que ele ainda não era Papa, que coloca as relações com o judaísmo num nível especial, e penso que para o judaísmo, para nós judeus, é extremamente importante, porque quando pensamos nos dois mil anos de ausência de diálogo, para não dizer mais, no quanto foi trágico para os judeus, penso que se deve valorizar muitíssimo esta nova situação, a partir de 1965, evidentemente, mas que se tem vindo a cimentar e, nomeadamente com o Papa Francisco, e com os outros dois também, sobretudo, mas nomeadamente com o Papa Francisco se tem vindo a desenvolver e cimentar de uma forma muito especial.

Falava dessa história trágica, que todos conhecemos, nomeadamente no que diz respeito à Shoah, ou ao Holocausto, como costumamos dizer, sendo obviamente um episódio terrível da história, acabou se calhar por servir de pivot para esta nova relação entre cristãos e judeus, nomeadamente entre a Igreja Católica e os judeus, ou não?
Essa sempre foi a minha convicção. Acho que a dimensão, as características da tragédia do holocausto, acho que muito provavelmente provocaram um abalo nas consciências em geral, mas nomeadamente também na consciência da Cristandade. Penso que isso de facto teve um papel importante. Aliás, acho que há um documento do Vaticano que se chama “Nós Recordamos” que, embora não fazendo uma ligação automática, evidentemente – nem tinha que fazer – entre as perseguições ao longo de dois mil anos de anti judaísmo cristão, essencialmente, aponta o facto de isto ter podido contribuir para o que aconteceu.

Acho que há de facto um reconhecimento que esses dois milénios de perseguições de facto contribuíram para criar uma mentalidade que de certa maneira considerasse de alguma normalidade a perseguição aos judeus, que tomou obviamente com o Nazismo uma forma diferente, totalmente diferente, com características diferentes, mas que tinham esse fundo de anti-judaísmo que existiu ao longo dos séculos.

Para esta reportagem foi também entrevistado o padre Peter Stilwell, especialista em diálogo inter-religioso e ecuménico.

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