quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Acerca da “Sinodalidade”

Russell Shaw
O Sínodo dos Bispos reunirá no próximo mês de outubro no Vaticano para discutir como deve ser uma Igreja sinodal. É verdade que um sínodo sobre sínodos pode parecer, à primeira vista, uma coisa dolorosamente aborrecida, mas os bispos estarão a discutir um assunto com enormes implicações para o futuro do Catolicismo.

Por isso, antes de avançarmos demasiado longe pelo caminho que tem sido promovido recentemente pelos líderes da Igreja na Alemanha, faríamos bem em questionar se a sinodalidade é, como o Papa acredita, aquilo de que a Igreja mais precisa neste momento, ou se a emenda será pior que o soneto. Por agora, pelo menos, a resposta mais sincera é: depende.

A palavra “sínodo” vem de dois termos gregos: “sun” (com) e “hodos” (caminho). Uma igreja sinodal é aquela que se conduz de forma participativa, com base na apreciação da sua própria natureza enquanto comunhão de crentes. A Comissão Teológica Internacional diz que a sinodalidade remonta ao chamado Concílio de Jerusalém, descrito nos Actos dos Apóstolos, em que os “apóstolos e anciãos” da igreja de Jerusalém discutiu o que se devia fazer em relação aos convertidos gentios.

Nos séculos que, entretanto, passaram, houve vários sínodos regionais e diocesanos. Os sínodos são importantes na eclesiologia do Cristianismo Oriental e o Concílio de Trento decretou que se realizassem sínodos diocesanos anualmente e sínodos provinciais de três em três anos para implementar os seus decretos. Pouco depois de ser eleito, o Papa João XXIII anunciou que os seus três grandes projetos seriam um concílio ecuménico, a revisão do Código de Direito Canónico e um sínodo para a Diocese de Roma.

Todavia, o modelo operacional para a Igreja nos tempos modernos não tem sido a sinodalidade, mas sim a centralização da autoridade: no Papa para a Igreja Universal, nos bispos diocesanos para as Igrejas locais. No que diz respeito ao papado a palavra definitiva está contida na Constituição dogmática “Pastor Aeternus”, sobre a primazia papal e a infalibilidade, que declara que a jurisdição do Papa é universal, ordinária e imediata. Contudo, até a “Paspr Aerternus” admite que a primazia papal está “longe de ser um impedimento” ao exercício pelos bispos da autoridade que lhes compete. 

O Concílio Vaticano II repetiu o ensinamento do Vaticano I sobre a primazia papal, mas também sublinhou que a autoridade dos bispos não lhes é delegada pelo Bispo de Roma, mas vem directamente de Cristo. O Concílio também enuncia o princípio da colegialidade episcopal.


O Vaticano II não fala nem de sínodos nem, propriamente, de sinodalidade. Mas a Comissão Teológica Internacional (num documento sobre sinodalidade publicado em 2018) conclui que o Concílio preparou o terreno ao apresentar a Igreja enquanto Povo de Deus e encorajou a sinodalidade com o seu decreto sobre bispos, indicando aos ordinários o estabelecimento de senados ou conselhos de padres e recomendando a criação de conselhos pastorais com membros leigos.

Quando o Concílio se aproximava do fim, o Papa São Paulo VI anunciou a criação de um Sínodo dos Bispos permanente para a Igreja universal, mas até agora essas assembleias têm tido resultados mistos. No seu livro “Things Worth Dying For”, a publicar em breve, o arcebispo Charles Chaput lamenta que “em vez de serem ocasiões para trocas sinceras de ideias”, as duas assembleias sinodais em que participou, em 2015 e 2018, sofreram de “manipulações… exercícios de poder em vez de esforços para chegar a uma posição honestamente comum”.

Escrevendo o ano passado, o cardeal Gerhard Muller, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, levantou uma questão que o sínodo do próximo ano deve sublinhar. A sinodalidade, escreveu, pode ser de dois tipos: a sinodalidade dos bispos enquanto mestres e pastores e a sinodalidade da comunidade cristã, que pode ajudar os decisores, mas não deve infringir a sua autoridade.

O que nos leva à experiência de sindalidade na Alemanha, que ameaça tornar-se (se é que ainda não é) uma sinodalidade descarrilada.

As igrejas cristãs na Alemanha têm perdido milhares de membros todos os anos, há anos. Só em 2019 a população católica caiu em cerca de 273 mil pessoas. Com este pano de fundo, os bispos têm estado a seguir um projeto de “reforma” em conjunto com um grupo de leigos chamado o Caminho Sinodal que tem como enfoque questões como o celibato sacerdotal, a moral sexual, questões LGBTQ+ e o papel das mulheres.

Numa entrevista feita o ano passado a uma revista católica alemã, o bispo Georg Batzing, de Limburg, presidente da Conferência Episcopal alemã, reconheceu as críticas feitas “a nós alemães e à nossa forma de fazer as coisas”, mas insistiu que ele e os colegas tinham de estar na linha da frente para procurar formas de “prevenir que a distância entre o Evangelho e a respetiva cultura se torne ainda maior”.

É evidente que este é o tipo de pensamento que tem acompanhado e, pode-se argumentar, acelerado, a queda precipitosa do protestantismo liberal durante anos.

Na melhor das hipóteses, por isso, o modelo sinodal é aquilo a que um autor chama “andar a todo o vapor”. A Comissão Teológica Internacional diz que é “o modus vivendi et operandi específico da Igreja” enquanto comunidade de fiéis cujos membros “caminham juntos, reúnem-se em assembleia e tomam parte ativa na missão evangelizadora”. Mas a comissão também lança um aviso: “O perigo de cisma está sempre à espreita, e não deve ser ignorado”.

Então a sinodalidade é um remédio ou uma ameaça? Na verdade, pode não ser nem uma coisa nem outra, depende de quem está envolvido no processo, como compreendem o seu papel e se demonstram muito ou pouco respeito pela tradição católica.

Se vamos agora pelo caminho sinodal, que seja com esperança cautelosa e cautela esperançosa.


Russell Shaw é autor de Papal Primacy in the Third Millennium (2000). O seu mais recente livro é American Church: The Remarkable Rise, Meteoric Fall, and Uncertain Future of Catholicism in America (2013).

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 10 fevereiro de 2021)

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