sábado, 13 de outubro de 2012

O II Concílio Vaticano para mim

Estamos em plenas comemorações do 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II. Temos tido muita gente a comentar o Concílio e a partilhar as suas recordações daquele evento, mas sinto que tem havido falta de vozes de pessoas que vivem a Igreja mas que não eram sequer vivas nos anos 60.

Tenho 32 anos. O Concílio começou, portanto, 18 anos antes de eu nascer. Na casa e no ambiente onde cresci o Concílio e as suas decisões nunca foram postos em causa nem questionados. Para a maioria das pessoas da minha geração o Concílio Vaticano II tem tanta relevância e tanto interesse como o Vaticano I, ou o Concílio de Calcedónia. História.

E penso que essa é precisamente a primeira questão a assinalar. As pessoas que viveram a época do Concílio, particularmente aquelas que participaram directamente nele ou vibraram mais com ele, não parecem compreender porque razão a minha geração não sente as coisas da mesma forma ou, nalguns casos, até parece exibir interesse por aspectos da Igreja pré-conciliar que, em poucos casos, se manifesta como hostilidade para o Concílio em si.

Estamos sempre a ouvir que o Concílio teve lugar numa época de grande entusiasmo e de grande optimismo, “os loucos anos 60”, em que parecia que o mundo estava a mudar e tudo iria ser diferente. Contagiados por esse ambiente, os padres sinodais procuraram “abrir uma janela” para o mundo, reconciliar-se com o mundo, etc.

Mas para os católicos da minha geração, e penso não estar a exagerar, os anos 60 não são vistos dessa maneira. O entusiasmo e optimismo parecem-nos, daqui, ingénuos e precipitados. As únicas pessoas da minha idade que vibram com os anos 60 e procuram dar continuidade ao seu ambiente nos nossos dias, normalmente são os mesmos que revelam total incompreensão pelas minhas posições morais e religiosas.

Portanto perdoem-nos se não temos o mesmo entusiasmo. Provavelmente os nossos filhos e netos sentirão o mesmo em relação aos nossos entusiasmos e paixões, daqui a 40 anos.

Mas claro que não podemos confundir o ambiente dos anos 60 com o Concílio propriamente dito. Aqui, contudo, gostaria de clarificar uma coisa. Para mim o concílio são os documentos conciliares. Ponto final. Esses são, evidentemente, pedra fundamental da construção da Igreja, modelam a forma como vivemos hoje a nossa fé e dos que conheço melhor são muito inspiradores.

Não tenho, por isso, nada contra o Concílio. É importante que isso fique claro.

Mas o respeito que tenho pelo concílio não se estende a um qualquer “espírito” mal definido que vai muito para além dos documentos e que em muitas partes do mundo foi levado a extremos que, considero, prejudicaram os fiéis e violaram o direito que estes têm a receber e a conhecer a verdadeira fé da Igreja.

Esses abusos litúrgicos e doutrinais fazem mal à Igreja, ferem-na. Mas não concordo também com quem as absolutiza, como se o legado do Concílio se resumisse a eles. Cinquenta anos é muito pouco tempo para fazer um balanço de algo tão importante na história da Igreja. Tendemos a esquecer isso. As coisas extremaram-se em muitos casos, o entusiasmo terá ido longe de mais, mas voltarão ao centro. Aliás, já começaram a voltar, penso. É preciso paciência e, claro, oração.

Hoje vi um cartoon que mostrava uma igreja vazia. Um padre diz: “O Concílio abriu a Igreja”, ao que o acólito responde: “E os fiéis saíram”. Pode ser verdade… e nesse sentido, aqueles que apontam a “abertura da Igreja ao mundo” como a grande conquista do concílio poderão estar enganados. Por outro lado, podemos perguntar se muitas dessas pessoas estavam lá convictas ou não… os ortodoxos não tiveram reforma litúrgica nem concílio, mas têm as igrejas igualmente vazias, ou mais.

Mas o Concílio não foi só isso. Foi também, para dar só um exemplo, o abandono de uma atitude triunfalista e arrogante no que diz respeito ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e o investimento na construção de relações, primeiro de amizade, com outros cristãos que, com a ajuda de Deus, conduzirão à plena comunhão no futuro.

Quanto à fuga dos fiéis, se a Igreja for verdadeira e fiel à sua missão, muitos hão-de voltar. Talvez sejamos uma Igreja mais pequena no futuro, mas isso não nos deve preocupar. Seremos, certamente, uma Igreja mais cristã, mais católica, onde todos, incluindo os leigos, podemos desempenhar papéis mais úteis e informados. Isso também é uma conquista do Concílio.

Finalmente uma recomendação aos católicos da minha geração. Familiarizem-se com o Concílio. Conheçam os documentos, leiam-nos. Aproveitem o Ano da Fé para isso. Já agora, aos mesmos, a caixa de comentários está aberta para partilharem também as vossas experiências, já que não presumo que fale por todos.

Filipe d'Avillez

2 comentários:

  1. Aqui está um excelente texto escrito pelo Pe. Duarte da Cunha. Apesar de não ter sido em resposta ao meu convite, é exactamente aquilo que pretendo, vindo, claro está, de uma pessoa com melhor formação teológica e melhores conhecimentos da história da Igreja que a maioria de nós.
    A ler neste link: http://senzapagare.blogspot.it/2012/10/50-anos-depois-do-inicio-do-concilio.html

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  2. Filipe:

    Subscrevo tudo o que disse neste «post».

    Há hoje uma certa crispação quando se fala no Concilio Vaticano II:
    - os Progressistas acham que foi uma “ocasião perdida de adaptação ao mundo contemporâneo” (em que sentido ?) ou que foi traído pelos Papas que se seguiram ( e até por Paulo VI, que em grande parte o dirigiu - mais que João XXIII, até);

    - os Conservadores (já para não falar dos Integristas, que o rejeitam quase na totalidade) acham que ele foi em grande parte responsável pela crise que a Igreja ainda hoje atravessa (resumindo: decréscimo das vocações sacerdotais e da assistência à Missa dominical, aberrações litúrgicas, teólogos dissidentes, escândalos de abusos sexuais, etc.)

    O seu comentario põe os “pontos nos is”:
    - Há que distinguir o que o Concilio realmente disse (ler os seus documentos, no fundo - quantos o fizeram ?), do chamado “espírito do Concilio”, em que muitos, levados pela sede de novidades e pelo clima de contestação dos “loucos anos 60”, se acharam no direito de fazer e dizer.

    Não há regresso possível a um “antes do Concilio”, mas sim a uma leitura dos documentos à luz da Tradição da Igreja , sem ilusões rupturistas-progressistas (tipo anos 60), mas também sem ilusões “restauracionistas”.

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