terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quem te avisa…

Randall Smith
Os debates de 1858 entre Lincoln e Douglas prepararam os americanos para uma eleição que Abraham Lincoln acabaria por perder e cobriram uma série de assuntos políticos daquele tempo, mas houve um que dominou: a escravatura. Na verdade, hoje ninguém quer saber quais eram as posições de Stephen A. Douglas sobre, digamos, a economia, o que pensava sobre meios de pagamento ou impostos. A única coisa que nos interessa agora é que ele votou a favor da escravatura.

Em abono da verdade, devemos esclarecer que Douglas repetiu insistentemente que não era a favor da escravatura, mas foi também um dos arquitectos da noção de “soberania popular”, isto é, deixar que os Estados decidam a questão por si.

Assim, Douglas declarou que:

Acredito que a humanidade e o Cristianismo ambos requerem que o negro deva ter, e possa beneficiar de, todos os privilégios e todas as imunidades consistentes com a segurança da sociedade na qual vive. Sobre isso, presumo, não pode haver diversidade de opinião. Somos obrigados a estender aos seres dependentes e inferiores todo o direito, todo o privilégio, toda a facilidades e imunidade que sejam consistentes com o bem público.

A questão que surge é, então, que direitos e privilégios são consistentes com o bem público? Esta é uma questão que cada Estado e cada Território deve decidir por si. O Estado de Illinois já decidiu. Decidimos que o negro não deve ser escravo e também que não deve ser um cidadão, mas protegêmo-lo nos seus direitos cívicos, na sua vida, na sua pessoa e propriedade, negando-lhe apenas todos os direitos políticos e recusando colocá-lo num nível de igualdade com o homem branco. A política do Illinois é satisfatória para o Partido Democrático e para mim, e se assim fosse para os republicanos então não haveria nada a discutir; mas os republicanos dizem que ele deve ser um cidadão e quando isso acontece ele torna-se nosso igual, com todos os nossos direitos e privilégios. Eles dizem que a decisão Dred Scott é monstruosa porque nega ao negro o direito à cidadania à luz da Constituição. Ora, eu considero que o Illinois tinha o direito de abolir e proibir a escravatura, como fez, e considero que o Kentucky tinha o mesmo direito de manter e proteger a escravatura que o Illinois tinha de a abolir.

Por outras palavras, Douglas era o típico candidato pró-escolha: Defendia a liberdade de escolha para todos – excepto para os americanos negros que não eram inteiramente pessoas à luz da lei de então. Quanto à sua garantia de que os negros deviam poder gozar de “todos os direitos, todos os privilégios” consistentes com o bem público, trata-se de um caso típico de “duplicidade”: aquilo que oferece tão generosamente com uma mão, tira de forma brutal com a outra.

E não pensem que Douglas não tentou classificar Lincoln como um “extremista”, “desalinhado”, próximo dos abolicionistas “fanáiticos”. Disse-o diversas vezes. Mas o próprio Lincoln também não tinha um registo imaculado no que diz respeito à escravatura, optando por compromissos pragmáticos que, sem dúvida, levaram alguns abolicionistas a optar por um candidato mais “puro”. Assim, é natural que muitos grupos tenham votado contra Lincoln: os que discordavam da sua posição sobre a escravatura; os que estavam convencidos de que ele não era suficientemente contra e aqueles que pensavam que a escravatura era apenas uma de entre várias questões e que, pensando bem, preferiam o Douglas.
Lincoln e Douglas... muito mais que economia
Seria errado colocar todos os assuntos a par da escravatura em termos de importância, mas seria igualmente errado esquecer que há momentos na história em que as injustiças que surgem tornam tudo o resto insignificante, pese embora a seriedade da situação não seja clara para todos na altura.

Não existiam Nazis na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, porém o partido tinha sido eleito por largas maiorias em todas as eleições até que a guerra começou a correr mal em 1942. Hoje ninguém olha para trás e diz: “Sim, o candidato Nazi era a favor da deportação de judeus, mas se calhar tinha boas políticas económicas.” As políticas económicas não interessam a ninguém.

A expressão “mas eles puseram os comboios a correr a horas!”, outrora usada para justificar o apelo dos Nazis, é hoje recebida com particular desprezo porque sabemos qual era a carga humana desses comboios. Nem temos grande pachorra para aqueles que argumentariam que era melhor votar num candidato Nazi porque, se a economia melhorasse, poderia diminuir a pressão para deportar judeus. As consequências não intencionais não podem ser controladas, mas o que as pessoas escolhem favorecer ou restringir pode. Os candidatos que se opõem à defesa da vida minam o mais básico princípio fundador da nação.

À medida que nos aproximamos da eleição presidencial de Novembro faríamos bem em recordar esta história. Daqui a 200 anos, quando a visão moral for mais clara, alguem quererá saber das questiúnculas políticas que agora nos dominam? Ou perguntarão simplesmente (como nós fazemos em relação aos nossos antepassados): quem votou contra o aborto e quem não o fez?

O ensinamento da Igreja sobre este assunto tem sido repetida várias vezes; nalguns aspectos é até mais clara do que era em relação à escravatura ou ao tratamento dos judeus. Muitas vezes perguntam-me porque é que os bispos alemães não excomungaram os católicos que votavam nos Nazis. Não sei. Mas também tendo a interessar-me menos pelos pecados do passado e mais em evitar a minha própria cegueira moral. O juizo é uma faca de dois gumes.

A Igreja não pode obrigar, como fazem os governos. Ela pode apenas apelar à consciência dos homens e mulheres de boa vontade. Um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato que defende o aborto por oposição a um candidato que defende a restrição do aborto, da mesma maneira que nenhum católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidato pró-escravatura ou pró-Nazi. Alguém hoje defenderia que era justificável votar em Douglas em vez de Lincoln?

Não se engane a si mesmo. Aqueles que têm ouvidos, que ouçam.

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.


(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta, 21 de Setembro de 2012)

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2 comentários:

  1. Na realidade, já ouvi várias vezes, o comentário que na altura de Salazar é que a economia andava bem, sem grandes considerações sobre a falta de liberdade política ou outra. João

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    1. Na altura do estado Novo o aborto era proibido e é certo que havia falta de liberdade política.

      Mas temos de ver Portugal inserido no espaço e no tempo, bem como, ver as andanças dos outros países europeus na altura.

      Hoje em dia o aborto é permitido e alguém diz que há liberdade de algum tipo? Só se houver liberdade para emigrar!

      R

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