sábado, 15 de setembro de 2012

Luzes! Câmara! Acção! Culpar os judeus!


Cena do filme "A Inocência dos Muçulmanos".
Qualquer semelhança com a realidade actual...
Tem acontecido muita coisa nos últimos dias, e hoje em particular, e infelizmente não tenho podido acompanhar os desenvolvimentos todos com a atenção que merecem.

O Papa chegou hoje ao Líbano. Vai ser uma viagem muito rica, ao nível dos discursos especialmente. É de notar que o Líbano tem sete igrejas católicas diferentes, e mais uma quantidade de ortodoxas. O Papa vai ter palavras para todos eles e ainda para as outras comunidades religiosas.

Escreví o outro dia que um dos pontos que esperava que o Papa abordasse seria a questão da falta de unidade entre as diferentes comunidades cristãs no Médio Oriente. Já hoje nos discursos houve leves referências a isso. Entretanto hoje um dos oradores do curso que estou a frequentar em Roma é um especialista no Médio Oriente e quando lhe perguntei precisamente sobre a questão da unidade cristã, revelou que já teve acesso à Exortação Apostólica, i.e. O texto final com as conclusões do sínodo dos bispos do Médio Oriente que teve lugar em 2010 e que o Papa foi ao Líbano entregar, e que nesse documento há uma secção inteira só sobre a unidade dos cristãos e a importância de falarem a uma só voz.

Michelle Zanzucchi, director da revista Cittá Nuova, do movimento Focolares, falou longamente sobre a questão da Primavera Árabe e da situação dos cristãos no mundo árabe e no Médio Oriente. Uma coisa que retive de forma particular foi em relação ao Irão, o menino mau regional. Segundo Zanzucchi a Arábia Saudita vai explodir dentro dos próximos 8-10 anos, e isso terá influências no resto do Médio Oriente. Nessa altura, acredita, o Irão, que deverá sofrer uma importante transição nos próximos quatro anos, será fundamental para ajudar a pacificar a região, isto porque, segundo ele, o Irão é de longe o país do Médio Oriente que é mais próximo, em termos de mentalidade, do Ocidente.

É uma perspectiva interessante. De facto o Irão não é um país árabe, mas sim indo-europeu e quem conhece a realidade persa actual diz que o fundamentalismo islâmico do regime praticamente não tem raízes no país, sobretudo na capital.

Entretanto houve alguns confrontos no Líbano hoje, motivados sobretudo pelo terrível filme anti-islâmico que foi feito nos EUA. Os manifestantes, no norte do país, gritaram contra o filme e também contra a visita do Papa.

Com o passar dos dias vão surgindo mais dados sobre esse tal filme chamado “The innocence of Muslims”... alguns são curiosos. Ora senão vejamos:
Inicialmente surgiu a informação de que o filme tinha sido feito por um tal Bacile, um agente imobiliário israelo-americano que tinha reunido dinheiro doado por uma centena de judeus para avançar com o projecto.

Mas algumas pessoas desconfiaram do nome e rapidamente se percebeu que Bacile é um nome falso e que não existe nenhum israelita com esse nome. O que se soube foi que um dos grandes promotores do filme é Morris Sadek, um extremista cristão copta Egípcio, que vive nos Estados Unidos e que é conhecido pelas suas posuições radicalmente anti-islâmicas.

Depois de mais alguma investigação os jornalistas conseguiram determinar que quem fez o filme, o tal Bacile, é de facto um Nakoula Basseley Nakoula, que é também cristão copta.

O que é que isto quer dizer para os coptas que ainda vivem no Egipto? Más notícias...

Porque é que começaram por culpar os judeus? Bom, todos os coptas que eu conheço pessoalmente, e não são muitos, são pessoas fantásticas, simpáticas e tolerantes. Mas a verdade é que os cristãos do Médio Oriente, por regra, não são grandes fãs de Israel. A culpabilização dos judeus poderá ter sido vista como uma forma de criticar os muçulmanos desviando eventuais represálias para Israel e os judeus, matando, por assim dizer, dois coelhos com uma só cajadada.

Ou seja, para além de estúpido e pouco inteligente, este projecto é também desonesto e mal-intencionado.

Ainda por cima a Igreja Copta está neste momento orfã, e no processo (elaboradíssimo) de eleger um novo Patriarca. Mas hoje recebi uma nota do bispo copta Angaelos, do Reino Unido, que é clara e objectiva. Vou transcrevê-la, pois imagino que todos consigam seguir o inglês:


Statement by His Grace Bishop Angaelos, General Bishop of The Coptic Orthodox Church in the UK

In assessing the recent developments surrounding the release of the film ‘Innocence of Muslims’ that insults Islam, and the alleged involvement of ‘Coptic Christians’, it is imperative that a clear distinction be made between the vast majority of Coptic Christians, and a minute minority that may choose to use inflammatory and insulting means to further political agenda. Coptic Christians in Egypt, across all churches and denominations, are known to be a peaceful people who have faced persecution for centuries and have never retaliated in any way that would insult or demean any other faith or faith group.

Having the largest Christian presence in the Middle East and numbering in the order of 18 million, Coptic Christians have peacefully coexisted alongside their Muslim brethren for centuries. Despite repeated attacks by religious extremists upon churches and communities, they continue to live a message of love, forgiveness, peace, and tolerance.

In this and in similar cases, it is of course the right of individuals or groups to protest in a responsible manner against conduct that insults what they hold sacred. Having said that, as these protests continue to escalate, sometimes dangerously out of hand, there must be a realisation that in Egypt, its surrounding region, and beyond, it is only local citizens and communities, and the reputation of these states that is being damaged through such aggressive and violent behaviour.

In a changing region that hopes to safeguard the rights of every individual, it is of course unacceptable for anyone to demean or insult another faith, whether it be the film currently in the spotlight or the radical Muslim cleric who burned, spat on and threatened to further desecrate a Holy Bible in a public square in Cairo.

While we must realise and accept that there will always be differences on faith matters between religious communities, it must also be agreed that interaction, conversation, debate, dialogue and even protest must be in a respectful and peaceful manner that safeguards the wellbeing of individuals and the harmony of communities.

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