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Wednesday, 25 July 2018

As crianças devem ir a funerais? Uma resposta a uma amiga


A Ana Rute Cavaco, mulher do meu amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, escreveu um post muito interessante, de leitura obrigatória para quem tem filhos, sejam católicos, protestantes ou ateus. Ela responde à pergunta sobre se devemos deixar as crianças ir a funerais e conclui que sim. Não podia concordar mais.

Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.

Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.

Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”

Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.

Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?

Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.

Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.

E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.

Obrigado, Ana Rute, por teres desencadeado esta reflexão.


A Ana Rute respondeu entretanto a algumas das minhas perguntas:

1. Deus planeou tudo? - Sim, acredito que Deus é soberano e que não há nada que não aconteça no mundo que ele não tenha planeado. Não sendo ele a origem do mal, o mal não é algo que aconteça e que o surpreeenda. Em Isaías 46.9-10 diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.A morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados não foi o plano B de Deus. Foi o plano A desde sempre, por mais confuso que isto possa parecer, mas é o que a Bíblia me diz e eu acredito, pela fé.

2. Cremação - também não sou a favor, pelos mesmos motivos que tu. Acredito na ressurreição do corpo e na vida eterna e acho que um funeral deve ser feito pelo enterro e não pela cremação. Esta é a minha posição pessoal, mas há muitos evangélicos que praticam a cremação, e eu respeito. Centrei-me no acto ser "feio" para as crianças, porque lhes pode fazer impressão verem o corpo com que conviveram ser coberto de terra, e foi por isso que usei essa expressão.

3. A vida nos funerais - é isso mesmo: a morte não é o fim, é o princípio.
"E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

João 6:39-40

Monday, 30 April 2018

Deus não fala para nos acomodar

Muito falámos de Alfie Evans nos últimos dias. Estava a sofrer, não estava a sofrer? Agora não sofre certamente, pois morreu, rodeado dos seus pais, no sábado. Um bebé cuja vida muitos considerariam inútil moveu paixões. Não há vidas inúteis. Que isto sirva de lição.

Esta segunda-feira na Renascença temos uma entrevista com Tiago Cavaco, o pastor baptista que acaba de lançar o livro “Milagres no Coração”. Ele considera que a palavra de Deus “não está escrita para nos acomodar”.

Os bispos da Nigéria querem a demissão do Presidente Buhari, saiba aqui porquê.

O Papa saudou o sucesso da cimeira das coreias e voltou a pedir orações pela Síria e numa reunião com especialistas em medicina regenerativa recordou que nem tudo é aceitável eticamente.

Por fim, o bispo do Porto quer os jovens a falar de Deus nas redes sociais.

Termino com um convite/desafio. Na quinta-feira haverá uma romaria pela vida. Começa com missa, segue-se caminhada até à “clínica” dos Arcos e oração do terço. Os detalhes do evento estão na imagem. Quem não pode ir que reze em casa pela mesma intenção.

Wednesday, 21 February 2018

Hackathon no Vaticano, Billy Graham no Céu

Agora têm todo o tempo para pôr a conversa em dia
Depois de mais de uma semana de ausência não são poucas as novidades, mas começo pela morte de Billy Graham, um gigante do Cristianismo evangélico. Podem ler aqui o seu obituário, com comentários do pastor português Tiago Cavaco.

Estamos na Quaresma e como de costume as dioceses escolheram causas para as suas renúncias quaresmais. Este ano são várias, incluindo projectos em Portugal, em África, na Ásia e no Médio Oriente. As vítimas dos incêndios não foram esquecidas.

O Vaticano vai acolher pela primeira vez um “hackathon”. Está com medo? Eu também fiquei… Mas leia, não é o que parece.

Um arcebispo iraquiano desafia os países muçulmanos a contribuir para a reconstrução de aldeias cristãs danificadas pelo Estado Islâmico. “Não basta dizer que o EI não representa o Islão”, diz Bashar Warda.

O Papa aceitou a resignação de um bispo nigeriano. Parece desinteressante? Longe disso…

Convido-vos ainda a ler esta crónica do padre Tolentino, sobre o tema do retiro que ele está a orientar para o Papa Francisco.

E esta semana temos artigo do The Catholic Thing em dose dupla. Mary Eberstadt fala sobre os paradoxos da revolução sexual. É um artigo substancialmente maior que o habitual, mas que merece mesmo ser lido com atenção.

Monday, 5 February 2018

Actualidade Religiosa: Bons sons e domadores de unicórnios

Adoro a internet... A sério... 
O Bloco de Esquerda insiste na questão da eutanásia, deixando passar meses atrás de meses para que a palavra e as ideias vão entrando na cabeça dos portugueses até parecerem normais. Agora apresentaram finalmente o projecto de lei. Naturalmente a Associação de Médicos Católicos considera-a inaceitável. A Renascença tomou posição, para que não restem dúvidas, bem como a directora de informação, Graça Franco.

O Papa Francisco recebeu hoje o presidente da Turquia, estiveram reunidos cerca de uma hora e falaram sobre Jerusalém, entre outras coisas. Também convocou uma jornada de oração pela Paz.

D. Manuel Clemente diz que a Universidade Católica desempenha um papel que devia ser reconhecido pelo Estado.


Para quem não ouviu o programa “Voz do Deserto” ontem na Antena 3, podem ouvir aqui em podcast. Eu, o assessor de imprensa da Opus Dei, Pedro Gil e o pastor baptista Tiago Oliveira conversamos sobre religião, música e domadores de unicórnios numa conversa de duas horas, pontuada por bons sons, moderada pelo Tiago Cavaco.

Friday, 2 February 2018

Actualidade Religiosa: Paradoxos consagrados

O Papa Francisco falou esta sexta-feira sobre os paradoxos dos votos religiosos, nomeadamente a pobreza, castidade e obediência. Vale a pena ler.

A Fundação Fé e Cultura conseguiu oferecer mais de 2.000 presentes solidários a quem mais precisa!

Dois avisos para este final de semana… Para os mais noctívagos, não percam na Antena 3, na noite de domingo para segunda-feira, o programa do meu amigo Tiago Cavaco. Começa à meia-noite e dura duas horas. Os convidados desta semana sou eu, o chefe da sala de imprensa do Opus Dei e outro pastor baptista, também chamado Tiago. Foi uma conversa interessante, divertida e com música à mistura.

Convido-vos também a visitar e manter debaixo de olho o blog https://wherepeteris.com/, onde encontrarão artigos a defender o Papa Francisco dos seus críticos, incluindo aqueles de dentro da Igreja. Um projecto a acompanhar!

Thursday, 11 May 2017

Rosas de Ouro e o poder da Oração

Continuamos totalmente focados em Fátima, a cerca de 24 horas da chegada do Papa Francisco que, soube-se hoje, traz uma Rosa e Ouro para Nossa Senhora e outros presentes para distribuir. Os portugueses também têm coisas para ele, incluindo uma grande obra chamada “Portugal Católico”.

Ontem o Papa disse, numa mensagem vídeo para os portugueses, que precisa de sentir os portugueses unidos a ele.

Hoje conhecemos finalmente a história de Lucas, o rapaz que foi salvo por intercessão de Francisco e de Jacinta. A história merece ser conhecida.

Lucas foi salvo pelo poder da oração. Quem também acreditava nesse poder era Ronald Reagan. O presidente disse-o num discurso no Parlamento português em que se referiu directamente a Fátima.

Aqui pode conhecer detalhes do santuário que provavelmente não conhecia e aqui sete factos que também pouca gente conhece. Aqui um mapa interactivo onde pode ver locais de devoção a Fátima um pouco por todo o mundo.

Ainda ontem, como parte da série sobre os anteriores Papas que visitaram Portugal, olhámos para Bento XVI pelos improváveis olhos de um pastor baptista, Tiago Cavaco.

Por fim, chamo atenção para o artigo desta semana do The Catholic Thing que é sobre… adivinhem lá… Fátima! Pois claro. É sempre interessante ver o fenómeno pelos olhos de pessoas de fora…

Wednesday, 11 January 2017

Mais musical, mais Soares, menos aborto por favor


Também ontem a CEP destacou o papel de Mário Soares à frente da Comissão de Liberdade Religiosa. Eu sei de pelo menos uma pessoa que discorda… Seja como for, o jornal do Vaticano também falou de Soares na sua edição de ontem.

Hoje o Papa Francisco insurgiu-se contra aldrabões de várias estirpes. Primeiro os videntes e afins, depois os que vendem bilhetes gratuitos para as audiências gerais.

Volta esta terça-feira aos palcos o musical “Partimos, Vamos, Somos”, sobre os 300 anos do Patriarcado de Lisboa. É uma oportunidade para todos os que quiseram ir da última vez mas não conseguiram.

Foi condenado à morte o supremacista branco que assassinou várias pessoas numa igreja em Charleston, nos EUA.


Quando São Paulo enviou um escravo de volta ao seu senhor, estava implicitamente a defender a instituição da escravatura? No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, Randall Smith argumenta que é precisamente ao contrário que se deve ler essa passagem.

Deixo-vos aqui o convite para uma oração da organização Esperança de Ana, que se dedica a ajudar mulheres e casais que sofrem de problemas de infertilidade ou que tenham perdido gravidezes. Se não participar, lembre-se pelo menos desta situações nas suas orações pessoais.

Tuesday, 3 May 2016

Madre Teresa, Padre Halik e Tiago Cavaco

Riso de santo
Espero que a minha falta de assiduidade nas últimas semanas seja justificada por este mail, em que partilho convosco três reportagens de fundo em que tenho estado a trabalhar.

Começo com a entrevista ao padre Tomás Halík, uma das maiores figuras da teologia actual, que considera que a Europa está a atravessar uma “noite escura da alma” colectiva. Vale muito a pena ler, a entrevista primeiro, depois os livros…

Passamos agora ao padre Brian, postulador da causa de canonização de Madre Teresa de Calcutá, que nesta conversa fala do sentido de humor, do sofrimento espiritual, da amizade com João Paulo II e até do que diria sobre o Papa Francisco. Tudo em função da canonização, no dia 4 de Setembro.

E termino esta ronda com mais uma reportagem da série que tenho estado a fazer sobre o Jubileu da Misericórdia. Desta vez temos o pastor baptista Tiago Cavaco a comentar a misericórdia à luz das parábolas de Jesus, que também não se vai arrepender de ler.

Mas porque a actualidade religiosa não se faz apenas de grandes reportagens, temos também esta reacção dos juristas católicos, sobre as “barrigas de aluguer” e notícia sobre o último relatório anual da comissão americana para a Liberdade Religiosa, que considera que a situação mundial vai piorando.

Em Israel foi hoje condenado a prisão perpétua um extremista judeu que participou na tortura e assassinato de um jovem palestiniano, que contribuiu para a segunda guerra de Gaza, em 2014.

Wednesday, 30 March 2016

Fúria, Misericórdia e Diálogo Inter-religioso

Manuel Fúria: Cantor e aprendiz de misericórdia
Acredita que Fúria e Misericórdia sejam compatíveis? Então leia este artigo em que se fala também de Leonard Cohen, do Rei David e de um sem-abrigo indiano…

Portugal tem muito por onde melhorar nas infra-estruturas para acolher peregrinos, e isso é algo que pode até beneficiar algumas terras.

O Papa Francisco fez um donativo pessoal aos cristãos no Iraque, que será entregue pela Ajuda à Igreja que Sofre.


No artigo desta semana do The Catholic Thing lemos sobre alguns erros infelizmente comuns no diálogo inter-religioso, nomeadamente entre católicos e muçulmanos. Uma leitura importante sobretudo para quem, como eu, acredita nesse diálogo, mas acha que tem de ser feito com verdade e não com relativismo.

Friday, 22 January 2016

Não confundir família com outro tipo de união

O Papa Francisco discursou esta manhã à Rota Romana e disse que o mundo não pode confundir a família natural com outras formas e união. Disse também que a falta de fé não chega para justificar a nulidade de um casamento, esclarecendo assim uma dúvida que deu bastante que falar há uns meses.

Hoje foi dia de publicar muita coisa no blog. Começo com as transcrições integrais das entrevistas do padre Peter Stilwell e de Esther Mucznik, a propósito da reportagem que fiz de antecipação à visita do Papa Francisco à sinagoga de Roma.

Essa visita, se bem se lembram, deu origem a uma polémica nas redes sociais sobre se os cristãos têm obrigação de evangelizar os judeus, ou não, para a qual contribuí aqui, respondendo a Tiago Cavaco, pastor evangélico. Entretanto dei-me conta da preocupação de alguns protestantes, que temiam que eu estava a dizer que a posição do Tiago é a de todo o protestantismo. A Rute Salvador, que é pastora na Igreja Presbiteriana, mandou-me a sua opinião, que publiquei, com a sua autorização.

E porque o assunto dá pano para mangas, isolei noutro post a resposta do padre Peter sobre esta questão à qual juntei aposição de um bispo jordano, que entrevistei noutro âmbito, e que vai no sentido contrário.

Há, como vêem, muito para ler.

Mas mesmo que não tenham tempo para nada disto, por amor de Deus não deixem de ler o artigo de Randall Smith do The Catholic Thing que critica o facto de a nossa sociedade conviver, aparentemente sem grande preocupação, com o facto de 92% dos bebés com trissomia XXI serem abortados. Bem a propósito no dia da Caminhada pela Vida, nos EUA.

Ainda os judeus: Nem todos os protestantes pensam o mesmo

Quando escrevi este artigo, em resposta a outro do meu amigo Tiago Cavaco, alguns protestantes temeram que eu estava a generalizar as posições e interrogações do Tiago a todo o mundo das igrejas reformadas.

Não sendo de modo algum especialista, sei bem que existe uma imensa variedade no mundo protestante. Em todo o caso, fica aqui o esclarecimento e fica, também o simpático e-mail que recebi da pastora presbiteriana Rute Salvador, que publico com a sua autorização:

Li o artigo que escreveu a propósito da afirmação do Papa Francisco e das reações do pastor Tiago Cavaco. Nesse texto parece-me que considera a opinião dele como sendo reflexo da opinião geral dos "protestantes", como refere.

Não posso deixar de reagir, referindo que, sendo eu protestante, demarco-me desta aparente generalização, esta identificação com as posições daquele pastor que diferem de muitas das posições das igrejas originárias na Reforma e associadas ao Conselho Mundial de Igrejas ou a outras organizações ecuménicas.

Também me parece que é importante referir que, pelo menos para a maioria dos protestantes das igrejas históricas da Reforma (pertencentes ao COPIC, em Portugal, e às organizações ecuménicas internacionais), as afirmações e atitudes do Papa Francisco têm sido seguidas com interesse, respeito, simpatia e admiração. A meu ver, as suas palavras e as suas atitudes são muito mais congruentes com o que é a essência da fé cristã, do amor a Deus e ao próximo e da aceitação do outro (independentemente de subsistirem muitas diferenças). Tem, realmente, aproximado a Igreja Católica de muito do que era/é o sentimento e o pensamento de grande parte dos seus membros, que não se reviam em muitas "posições oficiais". Um trabalho admirável, de grande coragem, que creio ser inspirado no Evangelho. Admiro bastante mais este Papa do que o anterior, o que também contradiz a afirmação que faz no seu artigo (embora reconheça que haverá quem não seja desta opinião)...

Voltando à afirmação do Papa Francisco, devo dizer que me parece certíssima. Ainda que uma nova Aliança tenha surgido com Jesus Cristo, isso não invalida a antiga. Judeus e cristãos (e muçulmanos) adoram o mesmo Deus... um Deus que eu acredito que se pode revelar, na sua sabedoria, de muitas maneiras, em muitos momentos da história, de formas diferentes para que aqueles que são sua criação possam reconhecer a Sua presença. Devemos pregar o Evangelho? Claro! Devemos considerar que a nossa forma de fé é mais legítima do que outras? Tenho dúvidas...

O pastor/professor Dimas de Almeida costumava afirmar, nas suas aulas enquanto professor de Teologia, que se uma pessoa ou uma igreja se considerar "dona da verdade" (o que implica considerar que todos os outros estão errados) estará a meio caminho para a Inquisição. Nunca me esqueci desta afirmação, e faz parte da minha maneira de viver a minha fé.

Devo confessar que escrevi e apaguei muita coisa neste e-mail. Hesitei muito sobre se o deveria enviar ou não. Não costumo alimentar polémicas partilhando a minha opinião em blogues ou redes sociais... nem mesmo por e-mail. Respeito as opiniões diferentes da minha. No entanto, não pude deixar de me manifestar desta vez. Embora creia que não tenha sido essa a sua intenção, o que escreveu pode ser visto como uma generalização, que eu peço que procure evitar. As posições do pastor Tiago Cavaco são legítimas, mas são as dele. Não refletem o Protestantismo em geral.

Wednesday, 20 January 2016

Judeus precisam de Jesus?

O Papa na Sinagoga de Roma
No domingo o Papa visitou a sinagoga de Roma. É uma visita que cumpre uma tradição recente, mas é significativa, como explicam aqui a Esther Mucznik e o padre Peter Stilwell que concordam, ambos, que o ponto de viragem nas relações entre as duas fés foi o holocausto.

Da visita, destaca-se o facto de o Papa ter falado da irrevogabilidade da Antiga Aliança entre Deus e Israel. Podem parecer palavras de circunstância, mas não são, de todo. Trata-se de uma questão premente na teologia católica e, sobretudo, nas relações com os judeus. Será que os católicos têm a obrigação de evangelizar os judeus? Neste artigo explico um bocado melhor que questão é esta, de onde vem e quais as implicações.

Morreu no Quénia um muçulmano que se recusou a abandonar os cristãos durante um ataque terrorista, dizendo que se iam matar os cristãos teriam de matar todos. Salvou a vida a muitas pessoas num gesto de enorme coragem. Que Deus lhe dê eterno descanso.

O Papa Francisco escreveu esta manhã uma mensagem para o Fórum Económico Mundial de Davos a pedir que os reunidos não se esqueçam dos mais pobres.

E no artigo do The Catholic Thing de hoje temos Randall Smith a falar do paradoxo de sermos uma cultura que compra e vende arte por milhões de euros, enquanto extermina crianças por terem trissomia XXI. Nem sempre concordo a 100% com os textos que apresento nesta rubrica, mas este assino por baixo.

Monday, 12 October 2015

Cartas ao Papa e aventuras na Lapa

Supostamente foi escrita uma carta ao Papa com reclamações sobre o modo de funcionamento do sínodo. Há carta? Não há carta? Foi assinada? Não foi? Ninguém sabe muito bem, mas foi o que dominou as atenções no sínodo, hoje.

Já durante o fim-de-semana o Patriarca de Lisboa fez uma intervenção no sínodo, sobre o qual pode ler mais aqui.

Hoje milhares de peregrinos chegaram a Fátima, onde decorrem as cerimónias do dia 12 e 13 de Outubro. O Cardeal Giovanni Battista Re preside e, do santuário, criticou a perseguição aos cristãos, sobretudo no Médio Oriente.

Os bispos portugueses aproveitaram para se encontrar também em Fátima, de onde lançaram um apelo à estabilidade política.

Também hoje soube-se que a imagem de Fátima afinal vale mais do que se pensava anteriormente.

Sexta-feira passada tive o prazer de ir participar no evento “Fim-de-semana Cheio na Lapa”, na Igreja Baptista do pastor e músico Tiago Cavaco. Aqui podem ter a experiência singular de me verem a falar de um púlpito de uma igreja evangélica. Eu sou o quinto orador, mas vejam tudo se tiverem tempo, porque vale a pena.

Tuesday, 6 October 2015

A terra onde "fácil" e "tranquilo" não existem

Depois de ontem o cardeal Erdö ter dado a entender que a comunhão para pessoas em uniões irregulares não estava sequer em discussão, hoje ficámos a saber que afinal está. Mas o Papa quer que se saiba que essa não é a única questão que se discute no sínodo.

O que o Papa também não quer, pelos vistos, é que os bispos entrem em modo conspiração, e por isso hoje falou novamente aos bispos. Se fosse pelo gabinete de imprensa da Santa Sé, porém, nunca o saberíamos.

Entretanto a pouca distância de Roma, na Síria, as palavras “fácil” e “tranquilo” já não são usadas. Quem o diz é o provincial dos salesianos para o Médio Oriente, numa entrevista interessantíssima em que fala também dos refugiados, dos perigos da sua missão e da tristeza de ver os cristãos a abandonar o Médio Oriente.

Hoje partilho convosco mais uma transcrição completa de uma das entrevistas que fiz de antecipação do sínodo. Assunção Guedes é mediadora familiar e fala daquelas famílias que acabam por ser esquecidas no meio destas discussões do sínodo, isto é, as famílias “normais”, mas que também têm problemas.


E por fim, um convite. Na sexta-feira estarei na Igreja Baptista da Lapa, a convite do meu amigo o pastor Tiago Cavaco. É com enorme prazer que participo pela segunda vez no “Fim-de-Semana Cheio na Lapa”, cujo programa vai em anexo. Apareçam, que todos são bem-vindos!

Friday, 12 December 2014

A Santa Sé prepara-se para o Punk Rock

Patti Smith
Patti Smith vai cantar amanhã no concerto do Vaticano. Há quem ache surpreendente e escandaloso. Saiba aqui porque não devíamos sentir nem uma coisa nem outra.

Para melhor entender este caso recorremos ao nosso especialista de punk rock e Cristianismo, o cantor e pastor Tiago Cavaco. Ele tem muita coisa interessante a dizer sobre Patti Smith e revela que se fosse ele a ser convidado… porque não?

Noutras notícias, o bispo da Guarda espera que os casos de pessoas mediáticas a serem levadas à justiça sirvam para motivar a sociedade.



Termino com um aviso. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que merece todo o nosso apoio, organiza uma série de concertos de Natal. Não deixem de consultar aqui as datas e os locais, e apareçam. É uma forma de ajudar!

“Se o Papa me convidasse para tocar para ele, porque não?”

Transcrição integral da conversa com Tiago Cavaco sobre o facto de Patti Smith actuar no concerto do Vaticano, em Roma. A reportagem está aqui.


O facto de Patti Smith cantar no concerto do Vaticano está a ser apresentado quase como uma hipocrisia, por ela dizer numa das suas primeiras músicas: “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus”. Concorda?
Ela escreve sobre isso num livro editado em Portugal, chamado "Apenas miúdos", onde conta um bocado a sua história com o seu companheiro que foi o Robert Mapplethorpe, um fotógrafo, e o que ela diz sobre essa frase é que revoltar-se contra Jesus era revoltar-se contra a própria rebelião, porque Jesus era também um rebelde.

Uma das coisas interessantes é que provavelmente hoje, comparado com os anos 70, em que ela escreveu isso, Jesus é um símbolo de maior rebeldia do que era nessa altura. Portanto termos uma cantora como a Patti Smith a associar-se à figura de Jesus até acho que é uma justiça poética e ela é uma poetisa. Eu encontro lógica aqui, não vejo incoerência, vejo lógica.

Mas podemos então dizer que ela é religiosa?
É uma boa pergunta. Às vezes tenho dificuldade em classificar o que é uma pessoa religiosa por oposição a uma pessoa não-religiosa. Por um lado acho que ter uma má vontade, a toda a prova, contra a religião, por si pode ser uma religião também, porque é uma coisa muito exigente, uma pessoa que esteja sempre contra a Igreja tem de ser muito zelosa nisso, é preciso dar muito de si para ser muito coerente com isso.

Não deixa de ser contraditório, a Igreja – e eu não sou católico romano – passa a vida a ser criticada por não falar com o mundo e cada vez que o mundo vem falar com a Igreja as pessoas também criticam. O que parece é que a Patti Smith é uma pessoa que se apercebe que a religião é uma coisa demasiado importante para ser rejeitada e descartada de maneira fácil.

Há um aspecto que acho assinalável. A Patti começou a escrever antes de fazer música e o que diria é que o Cristianismo é por excelência uma fé da escrita, portanto alguém que escreva, mesmo que não creia, faz todo o sentido que tenha uma relação próxima com o Cristianismo, mesmo que não seja uma relação de crença. Portanto que uma cantora que é escritora, como a Patti Smith, se aproxime da Igreja, nem que seja em coisas destas, acho absolutamente normal e natural.

Num dos álbuns dela, "Easter", cita São Paulo "Combati o bom combate, completei a carreira..." A frase seguinte seria "Guardei a Fé", mas ela deixa de fora. Isso pode ter algum significado?
Lá está, acho que qualquer pessoa que goste de ler e que tenha passado por momentos da sua vida em que alguma coisa que leu a transformou, de um modo geral, se viver com acesso ao texto bíblico, vai ser uma pessoa com interesse por ler a Bíblia, e vai sentir-se desafiada pela Bíblia.

A Bíblia é o livro dos livros, quer as pessoas creiam nele enquanto revelação divina ou não. É o grande livro da nossa cultura, mesmo que não nos coloquemos perante ela sob uma perspectiva de fé. Portanto a capacidade que a Patti Smith tem de citar textos bíblicos, eventualmente trazendo questões às afirmações que lá estão, acho que é uma coisa absolutamente produtiva e sinal de que ler o nosso tempo é necessariamente ler o texto bíblico também. Eu acho que a Patti Smith está a caminho de fazer muito mais perguntas ao texto bíblico do que aquelas que já tem vindo a fazer. 

Essa é uma das grandes pobrezas da nossa cultura em Portugal, é que os nossos artistas não lêem a Bíblia. E portanto não têm sequer a capacidade de perceber o que lhes agrada ou não agrada, porque pura e simplesmente não a conhecem. Os Estados Unidos de facto são um país com uma cultura diferente e as pessoas estão habituadas a ir ao texto bíblico, nem que seja para se zangarem com ele, mas isso é saudável, irmos ao texto bíblico nem que seja para nos zangarmos com ele. Mais tarde traz encontros. Hoje a Patti Smith estar a tocar para o Papa acho que sem dúvida tem a ver com o facto de ela ter a Bíblia aberta, isso ajuda bastante. 

Independentemente de ser falsa a imagem dela ser um ícone anti-religioso, não deixa de ser surpreendente vê-la a cantar no Vaticano.
Depende da forma como o vemos. Se nós pensarmos em tocar para o Papa como um prémio carreira, vamos ter de pensar que a pessoa que vai tocar para o Papa tem de ter uma relação muito próxima com ele. Mas se tivermos a ideia de que tocar para o Papa é no fundo participar num momento em que os cristãos, neste caso os católicos, dialogam com o mundo, então é possível que o Papa naturalmente receba pessoas e que possam cantar para ele sem que isso represente um acto de profissão de fé. Acho que depende um bocado da maneira como se olha para isto.

Eu que não sou católico romano, mas que sou cristão, provavelmente não acontecerá, mas se o Papa me convidasse para cantar para ele, porque não? Da mesma maneira que se for convidado por um amigo para ir jantar lá a casa, apesar de não gostar de cantar nestes contextos, depende da amizade que temos pelas pessoas. Portanto eu acho que é preciso que a nossa visão do contacto que temos com a religião seja uma relação mais do campo da amizade, onde somos capazes de sermos amigos mesmo das pessoas com quem não concordamos. 

A esse nível, de modo nenhum me choca que a Patti Smith, ou qualquer outra pessoa que não seja conhecida pela sua fé, vá cantar e tenha alguma relação ou gesto de amizade, neste caso com a Igreja Católica e com o Papa em particular. 

O Papa também passa a vida a ter gestos de amizade com pessoas que não são católicas, portanto acho que faça sentido que as pessoas que não são católicas também tenham gestos de amizade com o Papa.

Da obra dela, em termos de referências religiosas, o que é que destacaria?
Na verdade não sou um conhecedor profundo da Patti Smith, é verdade que ela é de uma área que é a minha área de afectos, ali no início do punk, há quem lhe chame proto-punk, no sentido de ser aquilo que veio permitir que o punk aparecesse como uma reacção a uma música que era muito sofisticada, muito gorda, muito progressiva. 

A Patti Smith, é uma pessoa que escrevia e que começou basicamente por fazer discos muito mais falados do que propriamente cantados, isso é interessante, porque o punk, apesar de ter uma aura de simplicidade, não veio destituir o poder da palavra, nem que fosse pela palavra-choque, mas os discos da Patti Smith, que não conheço muito bem, tirando o "Horses" por exemplo, são discos que voltam a colocar naquilo que se está a dizer a importância daquilo que se está a tocar. 

Acho difícil que algum músico que faça música e que dê valor às palavras não torne a música com qualidade espiritual. Porque podemos ouvir músicas numa fase bastante simples, mas a partir do momento em que a palavra começa a ser uma coisa importante há um valor espiritual aí, pelo menos é isso que os cristãos acreditam. Deus é um Deus que se revela através da palavra, neste caso a Bíblia, mas que se revela através de Cristo enquanto Verbo, portanto a nossa cultura é uma cultura que valoriza a palavra e por isso acho que nos discos da Patti Smith, pelo valor dado à palavra, há uma espiritualidade. Essa é uma das coisas que podemos encontrar até na música popular e no rock, quando a palavra é importante.

Quando aquilo que se diz não é importante e é mais um pretexto para que os instrumentos toquem, então é provável que seja fácil distrairmo-nos com mensagens que não são assim tão vitais. Mas no caso da Patti Smith é um universo diferente, é um universo que valoriza aquilo que está a ser dito e isso, na minha perspectiva, leva sempre a uma relação pelo menos de indagar e questionar a fé.

Tuesday, 30 September 2014

Os temas do Sínodo e Cavaco pela Caminhada (o fixe)

Em breve numa declaração de IRS perto de si...
Aproxima-se o sínodo sobre a Família e ao longo destes dias publicaremos várias reportagens sobre o assunto. Hoje, fique a par dos principais temas que irão ser discutidos no encontro dos bispos.

Mas nem só de bispos se faz este encontro! Saiba o que faz um casal brasileiro no Sínodo para a Família!

E por falar em Família, D. Antonino, bispo de Portalegre e Castelo Branco, vê com bons olhos a inclusão de “avós” a cargo das famílias na declaração do IRS.

Por fim, o Papa Francisco chamou a Roma os núncios apostólicos dos países do Médio Oriente, para falar sobre a ameaça apresentada pelo Estado Islâmico.

E não deixem de ver o vídeo de Tiago Cavaco, de apoio à Caminhada pela Vida! Ele considera que há causas que exigem que saíamos da nossa “zona de conforto”. E você? Está pronto a largar o conforto da sua “vidinha” para caminhar em defesa da VIDA?

Monday, 17 February 2014

Uma cobra pode matar um pastor na Dinamarca?

- Morde?
- Não.
- E a cobra? 
Bem-vindos ao bizarro mundo das igrejas cristãs americanas. Nos Estados Unidos existem umas quantas igrejas de manejadores de cobras venenosas, e uns quantos pastores dessas igrejas. Bom, menos um pastor agora. Adivinhem porquê?

**Blog bonus** Quem é, provavelmente, o manejador de cobras mais famoso de sempre? Veja no final do post.

Os oito super-cardeais que vão ajudar o Papa a reformar a Cúria estão por estes dias na Santa Sé. Mas ao que tudo indica não tiveram nada a ver com a decisão de Francisco de viajar com os seus documentos argentinos, que mandou recentemente renovar, em vez do passaporte diplomático a que tem direito.

Mais um sinal preocupante da Europa do Norte. A Dinamarca juntou-se aos países que proíbem o abate ritual de animais para alimentação. Segundo o ministro da agricultura os direitos dos animais são mais importantes que a religião.


Na passada sexta-feira, dia dos namorados, publicámos no site da Renascença uma reportagem com o pastor baptista Tiago Cavaco, sobre o seu mais recente livro “Felizes para Sempre e outros equívocos acerca do casamento”.

Tuesday, 12 November 2013

“Reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor”

Transcrição integral da entrevista ao pastor baptista Tiago Cavaco, acerca dos 450 anos do Concílio de Trento. Notícia aqui.

450 anos depois como é que um protestante olha para o Concílio de Trento?
Pelo facto de o dia da Reforma Protestante ter sido celebrado agora a 31 de Outubro, é difícil falar da reforma sem falar daquilo que Trento significa. Nesse sentido a minha relação com Trento, como protestante, é marcada muito mais por uma referência pela negativa do que por um conhecimento do concílio na sua inteireza, no contexto que terá para a Igreja Católica.

Mas diria que a definição que o concílio veio trazer naquela altura continua a ser importante para marcar as diferenças que continuam a existir. Nesse sentido, apesar de o mundo ter mudado, muito positivamente, no que diz respeito ao relacionamento entre católicos e protestantes, que é melhor e preferível o de hoje, sendo até fraterno, diria que o Concílio de Trento continua a ser pertinente. Essas diferenças de 450 anos continuam a ser importantes para se compreender o Cristianismo no seu todo.

Pode dar alguns exemplos dessas diferenças de que fala?
Ainda o outro dia estava a falar sobre a reforma na Igreja onde trabalho, a Igreja Baptista que se reúne na Lapa, e por exemplo uma das coisas incontornáveis quando se pensa no contributo de Lutero e que depois vem a ser de uma maneira ou outra aprofundado pelas afirmações de Trento tem a ver com a relação com a Escritura.

Uma das coisas que eu dizia é que é óbvio que a relação que os católicos têm com a Escritura é diferente do que era há 450 anos. Hoje, graças a Deus, existe um empenho na Igreja de Roma para a leitura da Bíblia, de maneira nenhuma podemos equiparar Trento com o que é hoje uma busca pela leitura da Bíblia no contexto da Igreja Católica.

Mas mesmo a partir dessa abertura que hoje é diferente, é a partir da leitura da Bíblia que se funda uma das diferenças mais inconciliáveis entre o Catolicismo Romano e o Protestantismo, que tem a ver com a justificação pela Fé e a absoluta incontornável relação do Cristão com a fonte da autoridade máxima. Passados 450 anos a Igreja Católica continua para todos os efeitos a Igreja de Trento, lendo a Bíblia de uma maneira diferente da que os protestantes lêem, como fonte de autoridade principal.

Em relação à justificação, há um documento conjunto entre a Igreja Católica e a Igreja Luterana, pelo menos uma das suas vertentes. Com as Igrejas Baptistas seria possível uma solução desse tipo?
Não me custa, enquanto Baptista, reconhecer o percurso da Igreja Católica no século XX e sobretudo nos últimos anos, de um diálogo frutuoso com outras confissões, sendo o diálogo com esses Luteranos uma prova disso. E mesmo com baptistas. No outro dia encontrei uma pequena afirmação conjunta da Aliança Baptista Mundial com a Igreja Católica Romana.

Creio que é louvável e apreciável essa capacidade demonstrada por ambas as partes de fazer um caminho comum, de qualquer modo creio não ser possível deixar de afirmar que, no que diz respeito à questão da justificação pela Fé, essa própria interpretação varia bastante, mesmo dentro do contexto evangélico e protestante. Isto quer dizer que o facto de alguns luteranos conseguirem chegar a alguns consensos com a Igreja Católica, não é de todo expressivo em relação a toda a largura do movimento Evangélico e protestante.

Por isso, apesar de atribuirmos às vezes quase que romanticamente, a Lutero a reforma protestante, ele é um dos principais mas a partir daí o que se gerou nas igrejas que são herdeiras da reforma vai muito além do que a Igreja luterana pode representar. Como baptista, que neste sentido me considero reformado também, diria que o facto de haver este documento em comum, não é expressivo de todos os outros reformados que, mesmo em relação aos luteranos têm visões não necessariamente conciliáveis em relação à justificação pela fé. A reforma protestante acarreta muita diferença.

O Concílio agravou o cisma com os reformadores?
É difícil que um protestante não ache que num certo sentido tenha agravado, até porque um protestante dirá que a reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor. É verdade que até pela própria palavra, protestante, alguém que está contra alguma coisa, que protesta, as pessoas associam isso a um carácter negativo e não à preocupação primordial dos reformadores, que sentiam que o caminho tinha de passar fora de Roma, mas que era a favor da Igreja e não contra ela.

Portanto Trento, necessariamente, acabou por aprofundar as diferenças que se tornavam na altura, e muitas ainda são, insanáveis, para aquilo que os protestantes consideravam ser uma reforma que a Igreja precisava de fazer.

É verdade que 450 anos depois a Igreja Católica, e digo-o fraternamente e num espírito de boa-fé, acabou por dar passos que em muito foram na direcção de coisas que os protestantes estavam a dizer há séculos. Isso serve para provar que a Igreja Católica tem feito um caminho e aprendido com aquilo que eu acho que posso dizer que são os seus erros.

De qualquer modo Trento teve uma função importante no contexto da Igreja Católica, mas que um protestante terá de dizer que foi negativa, pelo menos para a reforma que achamos que a Igreja precisava.

Friday, 8 February 2013

Fé, Filhos e Rock & Roll

Manuel Fúria a contemplar os lírios do campo
(Foto Paulo Moreira)
Os bispos e padres estão no Vaticano neste momento a discutir as “culturas juvenis emergentes”. Por isso nós trouxemos Manuel Fúria e Tiago Cavaco, dois jovens emergentes da cultura, para falar de como conciliam o rock e a fé. Esta é mesmo daquelas reportagens em que vale a pena perder uns minutos a ler a transcrição integral da conversa, que foi muito gira.

Diz-se que a crise financeira faz aumentar a fé, mas a verdade é que foram menos peregrinos a Fátima em 2012. Talvez seja do preço da gasolina…

A semana passada Obama estendeu a mão aos bispos católicos, na questão da contracepção e a reforma do sistema de saúde. Hoje eles agradeceram o gesto mas não estão satisfeitos e consideram que há ainda muita coisa a esclarecer.

O Papa dos coptas criticou ontem a violência no Egipto, mas as piores críticas estavam reservadas para o regime. Tawadros não está contente com Mursi.

As catequeses quaresmais do Patriarca de Lisboa já eram transmitidas na net, agora vão passar a sê-lo no Meo

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