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Wednesday, 22 April 2020

Respeito pelo Corpo

Pe. Gerald E. Murray
A Páscoa é a revelação da verdade do dom da vida eterna que Deus nos dá: Cristo ressuscitou e a todos os que estão unidos a Ele numa relação viva de amizade nesta vida, será dada a plenitude dessa união na vida no Céu.

Este dom da vida eterna é dada à pessoa como um todo, corpo e alma. Quem for salvo viverá para sempre com Deus até à segunda vinda de Cristo para julgar os vivos e os mortos. As almas daqueles que morreram na graça de Deus aguardam no Céu ou no Purgatório a ressurreição dos seus corpos. As almas dos condenados também aguardam a ressurreição dos seus corpos, mas no Inferno.

Quando Cristo regressar, os corpos de todos os homens, mulheres e crianças que alguma vez viveram serão reunidos às suas almas. Os justos manter-se-ão eternamente unidos a Deus, em corpo e alma, no Céu e os condenados serão eternamente separados, corpo e alma, de Deus, no Inferno.

A doutrina da ressurreição dos corpos no dia do Juízo Final raramente é compreendida ou apreciada pelos crentes. Concentramo-nos sobretudo naquilo que acontece à alma quando morremos. Rezamos pelas almas dos fiéis defuntos, “que descansem em paz”, mas bem poderíamos acrescentar “e que ressuscitem em glória dos seus sepulcros”.

Talvez tenham visto as imagens dos restos mortais das vítimas do coronavírus aqui em Nova Iorque a serem sepultados em massa em Potters Field, na Ilha de Hart, ao largo do Bronx. As filas de caixões, enterrados juntos numa longa vala, são uma imagem marcante de morte, mas também de esperança.

Tratamos dos corpos daqueles que não são reivindicados por ninguém com dignidade e respeito. Esta é uma manifestação social da herança judaico-cristã que trata com reverência os restos mortais da mais alta criação de Deus sobre a terra. O homem, feito do pó da terra, é devolvido à mesma terra no final da sua peregrinação terrena. O seu corpo tornar-se-á pó novamente, mas Cristo ensinou-nos que esta não é a palavra final. Esses corpos são dele, por Ele aguardam, e devem ser sepultados num lugar condigno.

A visão inerente à prática de sepultar os mortos era, até há poucos anos, universalmente apreciada e aceite pelos católicos, reforçada pelo requisito eclesial de sepultar os batizados em terra consagrada, sempre que possível, e pela proibição da cremação, uma prática estranha à fé cristã.

É providencial, por isso, que o livro mais recente de Scott Hahn, “Hope to Die: The ChristianMeaning of Death and the Ressurrection of the Body”, escrito em coautoria com Emily Stimpson Chapman, tenha aparecido durante esta pandemia de coronavírus. Hahn escreve de forma eloquente sobre a realidade da morte e a natureza da vida celeste, e como teremos a bênção de aprender o sentido de tudo quando, e se, atingirmos a Visão Beatífica.

Mas não se trata apenas de uma experiência “espiritual”. “Deus ressuscitará os mortos – não apenas espiritualmente, mas fisicamente. Afinal de contas, se a ressurreição fosse apenas espiritual, então seria indiferente o que fazemos aos corpos depois da morte. Mas havendo uma ressurreição física, os corpos interessam. O que acontece aos corpos interessa. Como sepultamos os corpos interessa”.

Scott Hahn
Durante os meus 35 anos de sacerdócio assisti à rápida disseminação da cremação entre os católicos. Sempre foi uma coisa que me preocupou, mas aceito que São Paulo VI autorizou a prática, anteriormente proibida, em 1963. Como escreve Hahn: “Para a maioria dos cristãos, durante quase dois milénios, era impensável que se optasse por destruir totalmente corpos destinados à glória e já tocados pela graça… Desde os primeiros tempos, os cristãos sepultavam os seus mortos, como Cristo havia sido sepultado”.

O Cristianismo desenvolveu uma cultura em que se visitam as campas dos mortos e os ossos dos santos são venerados como relíquias. Deus, que fez os nossos corpos, nunca nos mandou queimar os restos mortais dos falecidos. Ao enterrar os mortos na terra estamos a confiar o seu corpo a Deus, tal como confiamos a sua alma, que temporariamente o abandonou.

Hahn recorda-nos de uma coisa que muitos tendem a esquecer, ou nunca souberam. “A Igreja não aprova a cremação; permite-a. Não permite que se espalhem as cinzas ou que sejam guardadas em casa; proíbe-o. Considera que a sepultura é a forma mais digna de cuidar dos corpos dos mortos até que regressam no dia do Juízo Final e encoraja-nos a seguir essa recomendação.”

Porquê esta renitência em relação à cremação? Hahn analisa o significado da cremação, por oposição ao enterro, independentemente das intenções subjetivas de quem a pede: “A cremação diz coisas sobre o corpo que são diretamente contrárias ao que a Igreja professa. Ensina que o corpo é descartável. Ensina que o corpo não é uma parte integral da pessoa e ensina que o corpo não tem valor depois de a alma partir, que já deu tudo o que tinha a dar e que mais nada lhe espera. Nem ressurreição, nem transformação nem glorificação”.

Claro que a maioria dos católicos que manda cremar os seus familiares não o faz por negar a ressurreição do corpo no Juízo Final. Mas a forma como tratamos os nossos mortos devia refletir a nossa esperança na ressurreição da carne. É evidente que Deus também ressuscitará as cinzas daqueles que foram cremados, unindo-as às suas almas. Não podemos mudar ou frustrar os planos de Deus para a humanidade. Mas temos de perguntar porque haveríamos de obliterar pelo fogo os corpos de mortos que foram santificados no baptismo?

A cremação é, na sua essência, um costume pagão. Os cristãos devem evitá-la e honrar a Deus, honrando, através de um enterro reverente, os restos mortais dos filhos de Deus que partiram antes de nós, na expectativa daquele grande reencontro da humanidade, corpos e almas unidos de novo, no Juízo Final.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 19 de Abril de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 5 June 2019

Aqui Lidam Bem com a Morte

Randall Smith
Há uns anos um amigo disse-me durante uma cerimónia fúnebre que “aqui lidam bem a morte”. E era verdade. Tudo, desde a colocação do caixão aberto, os cumprimentos à família e o terço, até ao próprio funeral, teve lugar na Igreja. Tudo foi feito à vista do altar, do crucifixo e de Cristo presente no sacrário. Reinava um ambiente de oração e respeito profundo.

Nunca compreendi o conceito de “casa funerária”. São locais perturbadores e o mais distante de uma “casa” que se possa imaginar. A mobília nunca é caseira, parece mais a mobília de casa de uma senhora velha e rica, em que não devíamos tocar nem sentar. O ar é parado, normalmente estagnado e as pessoas andam de um lado para a outro a sussurrar. Às vezes, se repararmos, há música a tocar no fundo, do género que mal se ouve, mas que depois de darmos conta não nos sai da cabeça. Qualquer elevador tem uma oferta musical mais alegre. E nem vou falar do problema dos caixões metálicos enormes e dos cadáveres embalsamados.

Esquecemo-nos de como enterrar os mortos. Quando uma igreja lida bem com a morte existe um sentido de memória, sem ter de passar a pente fino todos os detalhes da vida de uma pessoa. Há um sentido claro de que a pessoa pertencia, que ele ou ela era uma parte importante da comunidade; que agora há algo que faz falta, mas que a vida continua, apesar de tudo, porque a vida deles era dedicada à comunidade. Por isso quando nós damos seguimento ao seu trabalho (e não nos preocupamos apenas com as nossas tarefas) e dedicamos as nossas vidas à mesma comunidade que ele ou ela servia, cuidando dos seus filhos ou netos, do jardim, edificando as instituições com o mesmo espírito e com a mesma visão, permanecemos unidos a eles e eles a nós.

Este sentimento de ligação alimenta-se (e tem de ter as suas raízes) na crença na comunhão dos santos. Quando aqueles que amamos morrem, não nos limitamos a perdê-los, mas ganhamos com eles uma comunhão ainda mais profunda. A ressurreição de Cristo e a doutrina da ressurreição geral comprovam que as nossas acções, experiências e relações não se perdem nem são negadas quando morremos. Pelo contrário, são glorificadas. Podemos estar presentes de forma ainda mais dramática com as pessoas e as comunidades que amamos, sem limitações de tempo e de espaço.

Mas a ressurreição que pregamos é a ressurreição do corpo, não a libertação de um espírito gnóstico preso dentro do corpo. Os judeus ortodoxos e os muçulmanos partilham com os cristãos a crença na ressurreição do corpo. É por isso que eles insistem em sepultar os seus mortos. Não os queimam, para depois meter as cinzas numa caixa, na prateleira, dizendo às visitas: “Ainda não decidimos o que fazer com elas”. Nós esquecemo-nos de como sepultar os nossos mortos e saber como sepultar os mortos não é uma coisa menor.

Se a Igreja quiser recuperar o seu lugar na comunidade deve voltar a responsabilizar-se pela sepultura dos mortos. Deve estar pronta a tomar conta dos acontecimentos. Todas as coisas difíceis e melindrosas que as pessoas têm de passar para sepultar os seus entes queridos quando estão de luto devem ser tratadas pela igreja.

Tudo o que se passa naquelas sinistras “casas mortuárias” deve acontecer na igreja. O velório, o terço, os cumprimentos aos amigos e parentes, talvez até a refeição partilhada.

O Cardeal Ratzinger no enterro do Papa João Paulo II
A Igreja devia fornecer os serviços e ter um espaço para a sepultura perto. Devemos restaurar a prática, que se perdeu no Século XIX, de sepultar os nossos mortos no adro da Igreja. As pessoas não deviam ter de viajar vários quilómetros em ocasiões especiais para visitar as sepulturas dos seus familiares algures num lugar impessoal; deviam poder passar pelos sinais visíveis da sua presença continuada a caminho da missa. E assim os membros da comunidade devem estar unidos aos seus antecessores, todos os dias, consolando-se com o facto de também eles, um dia, virem a descansar com os que os antecederam.

Conheço um cemitério perto de um campus universitário onde a maioria dos membros de uma ordem religiosa estão sepultados debaixo de simples cruzes. Conheço várias pessoas, novas e velhas, que visitam esse lugar regularmente porque lá encontram conforto espiritual e sentem que os ajuda a colocar as coisas em perspetiva, recordando-os daquilo que é verdadeiramente importante na vida.

Claro que me vão responder: “Não podemos sepultar os nossos mortos no adro da Igreja, porque a lei não o permite”. Eu sei. Mas se já muitos advogados conseguiram dar a volta a estas regras antiquadas – que só faziam sentido quando as cidades não tinham forma de preservar corpos em decomposição – nós também conseguimos! Lutemos pelo direito a fazer aquilo que as igrejas fazem há séculos.

E continuaria a haver trabalho para as agências funerárias, claro. Não seria preciso as igrejas irem buscar cadáveres à morgue, embalsamar os corpos ou fornecer caixões – embora algumas forneçam caixões baratos de madeira, sobretudo a famílias pobres. E na verdade ninguém precisa de ser embalsamado (10 mil euros para enterrar alguém? Neste país é preciso ser rico para viver e para morrer).

Basta as igrejas reaprenderem a fazer bem esta coisa tão simples e passarão a merecer a mais profunda gratidão e admiração não só dos seus membros, mas mesmo dos ateus mais empedernidos, pela atenção revelada durante a sua hora mais negra. Se, por outro lado, as Igrejas não conseguirem fazer esta única coisa – estar presente com as pessoas quando mais precisam – então não se devem surpreender com o facto de se tornarem cada vez mais irrelevantes para a sociedade, e desprezadas pelo seu aparente desinteresse em levar a cabo um dos seus deveres mais básicos.


Leia também:


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 30 de Maio de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 25 July 2018

As crianças devem ir a funerais? Uma resposta a uma amiga


A Ana Rute Cavaco, mulher do meu amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, escreveu um post muito interessante, de leitura obrigatória para quem tem filhos, sejam católicos, protestantes ou ateus. Ela responde à pergunta sobre se devemos deixar as crianças ir a funerais e conclui que sim. Não podia concordar mais.

Leiam o post por vocês, não vou repetir os argumentos, apenas responder a dois pontos, pequenos detalhes, e acrescentar uma história e uma reflexão.

Num dos pontos do texto, a Ana Rute comenta que “quem decide o início e o fim é o Senhor Deus, que toma conta de tudo neste mundo, e onde nada acontece sem que ele tenha planejado”. Admito que não gosto desta linguagem… Pode ser uma questão de semântica. Deus sabe tudo, nada acontece que o possa apanhar de surpresa, mas dizer que Ele planeou tudo é diferente, faz dele o autor moral das tragédias, e isso parece-me ir longe de mais. Deus planeou a morte das vítimas de Pedrógão? Não acredito. Estava ao lado de cada um enquanto sofria? Não tenho dúvidas. Mas como disse, isto é um detalhe no artigo da Ana Rute, não pretendo fazer dele uma polémica.

Mais à frente ela escreve sobre o corpo. “Embora o corpo não tenha mais vida, e seja feio o enterrar de um caixão, foi com o corpo que convivemos. Sabemos que a alma não está mais lá, mas devolvemos o corpo à terra, porque um dia fomos pó e ao pó voltaremos (e, nesta altura, podemos lembrar da Criação). Prestamos uma última homenagem a quem viveu, estamos ao lado de quem sofre, e prestamos culto ao Deus de todas as coisas.”

Primeiro, reparo que ela se refere ao enterro, e não à cremação. Graças a Deus! Diz-me Ana Rute, ou outros, os protestantes, em Portugal, costumam optar por cremações? Espero que não. A cremação é um dos meus ódios de estimação.

Mas também reparo que neste ponto não refere aquilo que eu diria… Respeitamos o Corpo em sinal da nossa crença na Ressurreição dos corpos. Esta é uma das crenças da ortodoxia cristã – está ali no Credo, não há como lhe escapar – que mais é ignorada nos nossos tempos. Não sei se é causa ou sintoma, mas esse ignorar da ressurreição da carne no fim dos tempos faz parte daquilo que eu considero uma das grandes heresias do nosso tempo, a redução do corpo a mero objecto, a mero invólucro da alma, que perde todo o seu valor a partir do momento da morte e que, durante a vida, serve sobretudo de instrumento ao serviço do bem-estar da alma, ou do espírito. Atenção, não estou a acusar a Ana de acreditar em qualquer uma destas ideias, mas gostava de saber se existe aqui uma grande diferença entre o catolicismo e o protestantismo. Acreditam os Evangélicos na Ressurreição final?

Por fim, uma história que confirma a tese da Ana Rute, mas de outra perspectiva. Há quatro anos tive de ir a um funeral e não tinha onde deixar o meu bebé. Tinha meses, levei-o comigo. A seguir à missa pedi boleia a um primo, neto do defunto, para Sintra e ele disse que primeiro ia à cremação. Já referi que odeio cremações? Odeio cremações por várias razões, sobretudo porque acho que revelam uma falta de fé na sacralidade do corpo, mesmo depois da morte, e na ressurreição final. Mas para além dessas razões teológicas, detesto o ambiente dos crematórios, acho sinistro.

Mas fui na mesma, claro, e levei o bebé. E então notei uma coisa interessante. A presença do bebé tornou toda aquela realidade muito mais fácil de viver para todos os que estavam presentes. Concentraram-se à nossa volta, fizeram perguntas, brincaram com ele.

E então percebi que se por um lado é importante as crianças perceberem que a morte faz parte da vida, indo a funerais, por outro lado é importante as pessoas nos funerais perceberem que a morte não impera, mas sim a vida. Nada o demonstra melhor que a abundância de vida das crianças.

Obrigado, Ana Rute, por teres desencadeado esta reflexão.


A Ana Rute respondeu entretanto a algumas das minhas perguntas:

1. Deus planeou tudo? - Sim, acredito que Deus é soberano e que não há nada que não aconteça no mundo que ele não tenha planeado. Não sendo ele a origem do mal, o mal não é algo que aconteça e que o surpreeenda. Em Isaías 46.9-10 diz: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.A morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados não foi o plano B de Deus. Foi o plano A desde sempre, por mais confuso que isto possa parecer, mas é o que a Bíblia me diz e eu acredito, pela fé.

2. Cremação - também não sou a favor, pelos mesmos motivos que tu. Acredito na ressurreição do corpo e na vida eterna e acho que um funeral deve ser feito pelo enterro e não pela cremação. Esta é a minha posição pessoal, mas há muitos evangélicos que praticam a cremação, e eu respeito. Centrei-me no acto ser "feio" para as crianças, porque lhes pode fazer impressão verem o corpo com que conviveram ser coberto de terra, e foi por isso que usei essa expressão.

3. A vida nos funerais - é isso mesmo: a morte não é o fim, é o princípio.
"E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

João 6:39-40

Wednesday, 16 May 2018

Ressuscitar com Cristo

Michael Pakaluk
Nota: Este tema, da cremação, é uma das minhas embirrações. Espanta-me a facilidade com que pessoas cristãs aceitam tratar os restos mortais dos seus familiares como se fosse resíduos... Mas sobre isso deixarei falar o autor. 
Esta nota serve também para recordar que este e outros artigos só existem, e só estão disponíveis em português, porque há quem contribua para manter o The Catholic Thing a funcionar. Duas vezes por ano eles fazem angariação de fundos e por isso convido todos os que dão valor a este serviço a fazer um pequeno donativo através deste link. Recordo, como já fiz várias vezes, que o dinheiro doado vai directamente para o The Catholic Thing, e não passa de forma alguma por mim.


Se visitar a cidade de St. Andrews, na Escócia, a um domingo, verá que o famoso campo de golfe está encerrado nesse dia para o desporto, estando disponível para quem quiser passear. Esta tradição é um legado de John Knox para o mundo. O austero reformador estava errado quando decidiu proibir jogos ao domingo. Mas por outro lado parece eminentemente justo que até o golfe deva testemunhar que existe algo maior. Seja como for, o campo transforma-se em parque público uma vez por semana.

Certo domingo eu estava lá a andar, com alguma rapidez, e a aproximar-me de um grupo algumas centenas de metros à minha frente. Chocado, reparei que um dos homens do grupo estava a despejar os restos do seu almoço na relva. Metia a mão dentro de um saco e, a intervalos regulares, lançava o que pareciam ser migalhas para o chão. Pelo menos era o que parecia àquela distância. Fiquei irritado e andei ainda mais depressa para poder dizer ao homem para não estragar, através desta inconsciência, o bem comum que é este belíssimo terreno.

Quando me aproximei, porém, vi que o que ele tirava do saco não eram migalhas mas restos humanos (“cinzas”). A minha fúria transformou-se em pena. Quando os ultrapassei cumprimentámo-nos e o homem explicou que o seu pai era um apaixonado por golfe e por isso ele e os seus irmãos tinham viajado dos Estados Unidos para St. Andrews, para cumprir o desejo do seu pai de ter as cinzas espalhadas naquela relva. Naturalmente não pude senão dizer algo de simpático e encorajador.

Dei por mim naquela posição tão comum de saber objetivamente que o meu próximo estava a fazer algo profundamente errado, mas de ter apenas a oportunidade, numa troca superficial de palavras, de abordar as suas intenções subjectivas.

E não haja dúvidas que aquilo que ele estava a fazer era, objectivamente, muito errado. Em primeiro lugar, a minha primeira impressão não tinha sido errada: o homem estava, de facto, a fazer o género de coisa que se faz com os restos do almoço. Mas estava a fazê-lo com os restos mortais do seu querido pai! Em segundo lugar, esses restos estavam a ser lançados ao chão, expostos e, tanto quanto sabia, até eu os tinha pisado!

Nas palavras da antiga Enciclopédia Católica, no seu artigo sobre “Cremação”: “[A Igreja] crê que é indigno que o corpo humano, outrora templo vivo de Deus, instrumento de virtude celeste, tantas vezes santificado pelos sacramentos, seja sujeito a um tratamento contra o qual a piedade filial e o amor conjugal e fraternal, ou até a mera amizade, se revoltam como desumano.”

Em terceiro lugar, os actos deste homem testemunhavam uma falsidade. Não sei em que é que ele acreditava pessoalmente. Mas os nossos actos têm frequentemente um significado, e testemunham, algo diferente daquilo em que acreditamos. O espalhar das cinzas testemunha, inevitavelmente, o panteísmo, o naturalismo ou o niilismo. Neste caso, era uma espécie de panteísmo – a falsa crença de que o próprio campo de golfe é sagrado e que, através do espalhar das cinzas, o falecido pai se pode unir de alguma forma a este ídolo.

No que toca a estes pontos acho que o Catecismo, tal como noutros, está correcto, mas pode levar ao engano por omissão. “A Igreja permite a cremação”, lê-se, “a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição”.

Podemos admitir logo que a ressurreição dos mortos não se põe em causa pelo “modo do sepulcro” (como se costumava chamar). Os judeus nunca cremavam os seus mortos. Os romanos estavam abertos tanto à cremação como ao enterro. Neste contexto, os primeiros cristãos seguiam uniformemente e definitivamente a prática judaica. Mas também insistam que não o faziam por necessidade – “como se Deus não pudesse ressuscitar os mortos tão facilmente a partir de uma mão cheia de cinzas como do pó da terra”.

É verdade que a cremação não é excluída. Mas ao mesmo tempo, como se lê no Código de Direito Canónico, “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos” (1176, §3). Ou, como se lê no site da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, citando um documento do Vaticano: “Embora a cremação já seja permitida pela Igreja, não goza do mesmo valor que a sepultura dos corpos” (n. 413). E mesmo quando os restos são cremados, o corpo deve estar presente no funeral e os restos devem ser preservados de forma digna e colocados num local santo, tal como um cemitério.

É conveniente reflectir sobre estes assuntos no tempo Pascal. Na verdade, o nome da instrução sobre cremação emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé a 15 de Agosto de 2016, aprovada pelo Papa Francisco, é Ressuscitar com Cristo. A linguagem que usa é muito forte. “Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.”

E continua: “Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história. Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo.”

“Nada me dá mais prazer do que ir até ao cemitério rezar o meu terço”, dizia o padre Damião de Molokai. E a instrução supracitada elogia as devoções centradas nos cemitérios, terminando com uma nota de sobriedade. “No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã” – elevando a questão do plano subjectivo para o objectivo – “devem ser negadas as exéquias, segundo o direito.”


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Maio de 2018)

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