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Wednesday, 10 May 2023

A Instrutiva Obscuridade das Escrituras

Quando as pessoas descobrem que eu já fui um seminarista calvinista, a reacção típica é perguntar-me porque é que decidi tornar-me católico. A razão inclui referências a uma doutrina de que a maioria dos católicos – e mesmos os protestantes – nunca ouviu falar: perspicuidade, também conhecida como claridade.

A perspicuidade não é uma das cinco “solas” que compõem as doutrinas centrais da Reforma Protestante: sola scriptura, sola fide, sola gratia, solus Christus, e soli deo gloria. Não obstante, ela foi afirmada por todos os principais pensadores da Reforma, Lutero, Calvino, Zwingli e Cranmer. E, ainda que não seja frequentemente pregada a partir dos púlpitos protestantes, ela é a doutrina que destranca todas as outras doutrinas protestantes, como defendo no meu novo livro “The Obscurity of Scripture”. Passo a explicar.

Pese embora não exista uma definição única sobre a qual todos os protestantes concordam, a perspicuidade significa, de forma geral, que a Bíblia é clara. Alguns defendem que a Bíblia é clara no que diz respeito às “verdades essenciais da fé cristã”, outros que é clara no que diz respeito ao Evangelho e outros ainda que é clara em todo o seu conteúdo.

Em todo o caso, a definição mais comum de perspicuidade é aquela que se lê na Confissão de Fé de Westminster, um documento dos presbiterianos ingleses, publicado em 1647, onde se lê:

Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas.

Por outras palavras, a Bíblia é clara pelo menos no que diz respeito ao que é necessário para a salvação. A primeira vez que encontrei esta doutrina foi na universidade, quando estava a ler as obras do pensador reformado R.C. Sproul. A ideia fez imediatamente sentido para mim: se nós, protestantes, acreditamos que a Escritura é a única medida infalível da fé, então claro que deve haver algum princípio que o torna acessível ao cristão individual. De outra forma regressaríamos ao paradigma em que precisaríamos de recorrer a alguma autoridade externa. Mas não era precisamente isso que a primeira geração da reforma estava a repudiar na sua revolta contra Roma?

Mas havia um dilema: os protestantes discordam sobre quase tudo, incluindo aquilo que é necessário para a salvação. É verdade que isto pode parecer um problema fácil de resolver, mas algumas interpretações protestantes parecem contradizer não só o pensamento dos primeiros reformistas, como até mesmo o direito natural. O meu curso sobre as Epístolas de São Paulo, por exemplo, incluía um livro com interpretações pró-LGBTQ, o que me pareceu altamente improvável.

Mas outros debates entre protestantes eram um pouco mais complicados. Nos meus estudos religiosos na Universidade de Virgínia, e depois no seminário calvinista, aprendi sobre algo chamado “Nova Perspectiva sobre Paulo” (NPP), cujos defensores questionavam (se é que não atacavam abertamente) a doutrina de sola fide como não sendo bíblica. Enquanto defensor da sola fide, eu não gostava da NPP, mas este não era um qualquer movimento académico politizado que pudesse ser facilmente descartado. Mesmo o bispo N.T. Wright, um bispo anglicano e bastião da ortodoxia em assuntos como a veracidade da ressurreição, estava no campo da NPP.

Tentei chegar ao fundo da questão sobre a NPP, li livros a favor e contra, tentei aprender grego bíblico para poder interpretar sozinho as cartas de Paulo, e passei literalmente anos a tentar adquirir a certeza completa de que os defensores da NPP estão errados.

Mas quando cheguei ao verão de 2010 estava num impasse. Não estava mais próximo de determinar se os académicos da NPP estavam certos ou errados sobre São Paulo (e por extensão sobre a sola fide e todo o projecto da Reforma Protestante). Os académicos de ambos os lados eram mais instruídos do que eu, mais inteligentes do que eu e tinham pensado muito mais a fundo sobre São Paulo do que eu alguma vez poderia.

Foi então que me ocorreu. O ponto do protestantismo não era de que as verdades bíblicas essenciais, aquelas que dizem respeito à salvação, são claras, até para os cristãos menos instruídos, desde que as abordem como humildade e procurem a ajuda do Espírito Santo? Mas aqui estava eu, imerso num debate cultural, histórico e arqueológico sofisticado, para não falar da tentativa de compreender o vernáculo para compreender uma Bíblia supostamente “clara”.

E isto era só a ponta do icebergue. Os calvinistas discordam sobre se os bebés devem ser baptizados (os presbiterianos dizem que sim, os baptistas reformados que não). Lutero e Zwingli tiveram uma discussão muito pública (e muito feia) sobre o significado da Eucaristia no Colóquio de Marburgo. O baptismo e a Eucaristia não são também doutrinas essenciais? Segundo algumas tradições cristãs são essenciais para a salvação.

Foi então que, para mim, o protestantismo colapsou enquanto sistema coerente e intelectualmente defensável. Claramente a Bíblia não é clara sobre aquilo que é necessário para a salvação. Os protestantes não estão apenas em desacordo com os católicos sobre estas coisas, estão em desacordo uns com os outros.

Mas sem a perspicuidade, a doutrina que permite ao cristão individual fazer sentido da Bíblia, esse mesmo cristão precisaria de recorrer a alguma autoridade interpretativa. Compreendi então que no seu cerne, o protestantismo é individualista. Estava por minha conta na compreensão do Cristianismo, livre para decidir o que significa e o que constitui o Cristianismo autêntico, mas já não sentia confiança para o fazer. Que mandato é que Cristo me tinha dado a mim, Casey Chalk, de Virginia, para exercer autoridade infalível sobre a interpretação da Bíblia?

Mas sabia que havia uma instituição que reivindicava, de forma pelo menos plausível, essa autoridade. Tratava-se da instituição religiosa em que eu tinha sido formado. Essa instituição, a Igreja Católica, afirmava ter uma autoridade interpretativa extra-bíblica, uma que eu poderia avaliar sem afirmar ser o juiz final do significado da Bíblia.

Nesse mesmo ano estudei essa posição. Em Setembro de 2020 tinha-me decidido a regressar à Igreja da minha infância. A claridade, compreendi eu, não era clara. Mas a Igreja Católica, possuindo aprovação divina – algo em que podemos confiar através daquilo que o Catecismo apelida de “motivos de credibilidade” – podia dizer-me o que a Bíblia significa verdadeiramente. Confiando nos seus motivos de credibilidade, nunca mais olhei para trás.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe American Conservative e a New Oxford ReviewÉ licenciado em história e ensino pela Universidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Maio de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 July 2022

“Nulla Scriptura”

Michael Pakaluk

Os católicos conhecem o argumento de que a “sagrada tradição” é necessária como regra de fé juntamente com a Sagrada Escritura. Não é verdade que é preciso a autoridade da Igreja para determinar o que constitui Escritura (o Cânone)? Aqueles que rejeitam a ideia da existência da autoridade da “sucessão apostólica”, que é explicada na tradição (Clemente de Roma, Inácio de Antioquia), afirmam precisamente que não está nas Escrituras.

Logicamente a Escritura não pode determinar o seu próprio Cânone. Mais, a doutrina protestante da “sola scriptura” (só Escritura) é contraditória, pois ela também não está nas Escrituras.

Mas o que podemos dizer da ideia mais provocatória de que a tradição não só é necessária, como devia até ser suficiente, e que a Escritura devia ser desnecessária? Chamemos-lhe “nulla Escritura” (“sem Escritura”).

Esta visão aparece de forma embrionária no tratado do dominicano Melchor Cano, Fontes Teológicas (De Locis Theologicis, Salamanca, 1562). Cano argumenta, e bem, que a Igreja é anterior à Escritura; que o Senhor não escreveu qualquer livro, nem mandou os Apóstolos escrever livros, mas antes que os mandou pregar, e que muitas questões em que os cristãos têm de crer, como a existência de três pessoas numa só natureza, não estão explícitas nas Escrituras.

Depois refere que Paulo e João, nas suas epístolas, referem os ensinamentos que transmitiram oralmente, mas que não foram escritos, acrescentando que São Pedro escreveu duas epístolas, mas sabemos que ele esteve sete anos em Antioquia e outros 25 em Roma:

Devemos então acreditar que ele não ensinou nada por palavras para além daquilo que deixou por escrito nestas duas epístolas? Como é que é possível? E não é verdade que André, Tomé, Bartolomeu e Filipe fundaram igrejas nos lugares para onde foram enviados, e onde permaneceram, na continuidade da nossa fé e da nossa religião, apenas com base nas palavras e sem quaisquer escritos? Reconheçamos então – nem se pode negar – que a doutrina da fé, na sua totalidade, não está resumida ao que está escrito, mas chegou-nos em parte nas palavras que radicam nos apóstolos.” [Ênfase minha]

A frase é mesmo essa, “sem quaisquer escritos”. Essa foi a condição da Igreja primitiva durante pelo menos trinta anos.

Entretanto encontrei esta mesma posição explanada em mais detalhe na maravilhosa série de 90 homilias sobre Mateus de São João Crisóstomo. Começa assim:

O ideal seria nem precisarmos da Palavra escrita, mas exibir uma vida tão pura que a graça do Espírito devia estar antes nas nossas almas do que nos livros, e que tal como estes estão inscritos com tinta, também os nossos corações deviam estar inscritos com o Espírito. Mas uma vez que afastámos de tal maneira de nós esta graça, pelo menos que nos valhamos da segunda hipótese.

O Santo mostra como Deus falou de modo familiar com Noé, Abraão, Job e Moisés, sem escritos. Mais, a Palavra Incarnada não deixou escritos aos Apóstolos, como poderia ter feito, mas antes lhes prometeu e concedeu o Espírito.

Mas então porque é que temos as Escrituras? Pela mesma razão, diz, que Moisés trouxe as tábuas da Lei, por causa da nossa maldade: “uma vez que, passados os anos, naufragámos, uns em relação à doutrina, outros em relação à vida e às maneiras, houve novamente a necessidade de que fossem recordados pela palavra escrita”.

Tudo isto apenas sublinha a importância actual, diz Crisóstomo, de estudar a Escritura: “Reflictam então sobre como é um grande mal para nós, que devemos viver de forma tão pura que nem precisamos de palavras escritas, entregando os nossos corações, como livros, ao Espírito; agora que perdemos essa honra, e temos necessidade delas, voltarmos a falhar em fazer bom proveito até deste segundo remédio”.

E acrescenta, para encorajar ainda mais o seu rebanho: “Se estamos em falha por precisar do auxílio de palavras escritas, e não termos feito descer sobre nós a graça do Espírito, então considerem quão grave será a acusação de optar por não lucrar até com este auxílio, mas antes tratar com desprezo aquilo que está escrito, como se fosse uma obra sem propósito, aleatória, invocando sobre nós um castigo ainda mais duro”.

Tudo isto faz sentido. O Espírito está connosco, tão certo como o Filho estava connosco na Fundação da Igreja. Mas porque é que a Sua presença, que em princípio nos devia bastar, não nos basta na prática?

Não podemos regressar às primeiras décadas da Igreja, mas podemos pensar na vida cristã como estando estratificada. Imaginem, primeiro, que tudo o que está escrito nos era retirado. Não só a Bíblia, mas todos os escritos dos Concílios, isto é, a tradição entretanto escrita. Continuamos com consideráveis riquezas. Tiramos delas o melhor proveito?

O que é que quero dizer com isto? Quero dizer que conhecemos o Credo, as orações mais básicas, o terço. Podemos ir ao sacrário e rezar diante do Senhor. Logo veremos que precisamos de rezar muito mais, para nos tornarmos mais familiares com Deus. E que devemos praticar a mortificação, para criar aberturas para o Espírito.

Temos os exemplos dos santos, cujas vidas conhecemos. Provavelmente temos conhecimento de milagres entre os nossos amigos. Mesmo a existência de bispos, seja qual for a sua santidade, testemunha a realidade da fundação da Igreja. Qualquer padre é um testemunho da instituição da Eucaristia.

E temos os sacramentos.

Tente viver assim no Espírito. Agora acrescente a Escritura e a tradição escrita. Claro que estes estratos não são temporais, nem isoláveis, mas cada um tem por objectivo complementar o outro.

Podemos até argumentar que o conceito de “sola scriptura” apenas poderia parecer uma regra necessária para os reformadores protestantes porque os católicos daquela altura claramente não estavam a viver de forma suficiente a fé “nulla scriptura”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 29 September 2021

Maria e os Protestantes

Casey Chalk
Quando eu andava num seminário protestante pensava que tinha boas razões para não venerar nem rezar por intercessão de Maria. A mãe de Jesus, por mais santa que fosse, só o era por causa de Cristo e, por isso, qualquer honra que lhe fosse dirigida distraía necessariamente da honra única e sem paralelo que era devida ao Senhor. Essa era certamente a opinião dos reformadores. João Calvino escreveu no seu Institutas da Religião Cristã que “quem se refugia na intercessão dos santos rouba a Cristo a honra da mediação”. Foi só depois de ler a Introdução à Mariologia, de Manfred Hauke, que compreendi que o que está em causa no que diz respeito a Nossa Senhora é bastante mais do que evitar “idolatria”.

Os primeiros reformadores revoltaram-se contra a Igreja Católica em primeiro lugar por causa da salvação. Enquanto a Igreja ensinava que a cooperação do homem era necessária para a sua salvação, Lutero, Calvino e Zwingli, entre outros, rejeitaram isto como incompatível com as doutrinas da graça e da soberania de Deus. A salvação deve ser inteiramente obra de Cristo, diziam, avançando as doutrinas protestante da Sola Fide (apenas a fé) e Sola Gratia (apenas a graça). Como escreveu Lutero em Do Cativeiro Babilónico da Igreja, “diante de Deus todas as obras se medem apenas pela fé”.

Não obstante, a primeira geração de reformadores mantinha uma visão de Maria que chocaria a maioria dos protestantes contemporâneos. Martinho Lutero continuou a acreditar na virgindade perpétua de Maria e na sua imaculada concepção. Calvino estava disposto a aceitar a sua virgindade perpétua como sendo pelo menos possível e criticou outros protestantes por rejeitarem simplesmente a doutrina católica. Pode-se especular sobre se a retenção de certas concepções de Maria por parte destes reformadores era motivada mais por resquícios da sua própria educação ou pela sua leitura das Escrituras.

Com o passar dos anos a estrelinha de Nossa Senhora foi-se apagando por entre os protestantes, até ao ponto em que qualquer referência positiva motiva acusações de “romanismo”. Foi certamente essa a corrente de protestantismo em que eu fui educado, primeiro enquanto evangélico e depois como seminarista calvinista. A veneração de Maria, ou de qualquer outro santo, ensombrava a adoração e a honra devidas exclusivamente a Cristo (embora, ironicamente, a reverência pelos próprios reformadores, como Lutero e Calvino, pudesse ser bastante efusiva).

O teólogo reformado “neo-ortodoxo” Karl Barth, porém, oferece-nos um bom exemplo das suspeitas protestantes em relação à veneração mariana. Em Dogmática Ecclesial escreve:

O dogma mariano não é mais nem menos que o dogma normativo central e crítico da Igreja Católica Romana. O dogma a partir do qual todas as suas outras posições importantes podem ser avaliadas, e em relação à qual se sustentam ou caem. A “mãe de deus” do dogma mariano católico romano é, simplesmente, o princípio, tipo e essência da criatura humana a colaborar, como uma serva (ministerialiter), com a sua própria redenção, com base na graça preveniente, e nessa medida é o princípio, tipo e essência da Igreja.


Trata-se de uma afirmação assinalável pelo Barth. É verdade que os teólogos e o clero católicos discordariam da sua descrição do Catolicismo, preferindo colocar a Encarnação e a Ressurreição no centro da dogmática católica. Mas a observação de Barth sobre a relação entre Maria e a soteriologia contém algumas perspetivas valiosas, ainda que incompletas.

O plano providencial de Deus requeria o “fiat” de Maria. O seu “sim” na Anunciação é necessário, e é dado: “Eis aqui a serva do Senhor; seja feito segundo a sua palavra” (Lucas 1,38). Hauke explica que “Maria, a virgem Mãe do Salvador, estava intimamente ligada às obras da salvação. Deus quis que a Encarnação dependesse do ‘sim’ desta mulher, que assim se torna profundamente parte do mistério da Aliança”. Sem o consentimento de Maria, não há messias.

Em Maria vemos ainda um modelo de perfeição para seguirmos. Também nós somos escolhidos por Deus, seja através do baptismo na infância, seja através do posterior reconhecimento de que Cristo nos chama a si e à sua Igreja. Mas a nossa colaboração é necessária. Podemos rejeitar as promessas baptismais feitas em nosso nome pelos nossos pais. Podemos rejeitar as suas abordagens noutras fases da nossa vida, seja por ignorância deliberada, seja por desobediência explícita. Mesmo para os fiéis, esta é uma batalha que tem de ser travada todos os dias, à medida que se apresentam novas tentações e provas.

Cristo nosso Senhor declarou que a desobediência aos seus mandamentos e a rejeição do nosso chamamento enquanto cristãos pode resultar na nossa condenação eterna (Mateus 25, 1-46). São Paulo diz, em larga medida, o mesmo. “Como colaboradores de Deus, insistimos convosco para não receberem em vão a graça de Deus” (2 Coríntios 6, 1). Claro que esta participação na nossa própria salvação não é alcançada apenas através da força de vontade, como ensinavam os hereges pelagianos, mas pela graça de Deus que opera no início, meio e fim de todas as nossas acções.

Não obstante, Barth tem razão quando descreve o ensinamento católico que eleva Maria para a posição de “tipo e essência da natureza humana” a colaborar com a sua própria redenção. Os católicos procuram imitar Maria na submissão total à sua vontade divina. Hauke explica: “Maria é como o ponto fulcral em que as verdades centrais da fé católica se tornam visíveis”.

Isto clarifica a gradual rejeição protestante dos dogmas marianos. Na medida em que a mariologia ilumina a colaboração humana na nossa salvação, viola os princípios protestantes da Sola Fide e da Sola Gratia. A mariologia torna-se assim, nas palavras de Barth, “um tumor, isto é, uma construção enferma do pensamento teológico. Os tumores devem ser extirpados”. Para o protestantismo a devoção mariana não é apenas uma distração idolátrica da adoração devida a Deus, mas algo que vicia a economia da salvação.

O testemunho de Maria, como ensina a Igreja, recorda-nos que as nossas vontades não estão de tal forma entorpecidas pela morte que precisamos da graça irresistível (outra doutrina reformada), mas que se mantêm suficientemente intactas para podermos responder com fé e amor às abordagens da graça divina. Para os protestantes os dogmas marianos são mais do que uma simples distração, são um ataque ao cerne do protestantismo e, por isso, um obstáculo sério à conversão.

Mas, como eu descobri depois da minha própria conversão, Maria – a quem muitos católicos rezam por mim – é uma verdadeira ajuda na remoção de obstáculos.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe American Conservative e a New Oxford ReviewÉ licenciado em história e ensino pela Universidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 16 de setembro, de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 January 2021

Catolicismo e a Plenitude da Verdade

Casey Chalk
“Se tivermos de escolher entre abdicar da religião ou da educação”, afirmou o fundamentalista cristão e populista William Jennings Bryan, “então abdicaremos da educação”. É fácil rirmo-nos hoje de tamanho absurdo, embora Bryan, por mais falhas que tivesse, estivesse a defender o Cristianismo daquilo que considerava serem ataques modernistas e antirreligiosos da escola pública americana. Embora muitos protestantes tenham vergonha, hoje, do anti-intelectualismo de Bryan eu, como católico convertido do protestantismo, detecto uma perspectiva muito problemática na sua visão absolutista que contrapõe a fé á razão.

O teólogo italiano Mauro Gagliardi argumenta no seu livro “A Verdade é Sintética: Teologia Dogmática Católica”, que o Protestantismo opera segundo um modelo de “ou-ou” que vê a verdade como um conjunto de binários simplistas. Já a teologia católica emprega um princípio de “não só, mas também” que sintetiza diferentes realidades.

Gagliardi identifica dois princípios fundacionais do Protestantismo. O primeiro é biblicismo, a crença de que a Bíblia é auto-interpretativa. Mas “quando Lutero diz que a Bíblia se interpreta a si mesma ele quer dizer, de facto, que é o leitor individual que o interpreta. O leitor das Escrituras não precisa… da Tradição, do Magistério, dos Padres nem dos Doutores da Igreja”.

Os protestantes costumam responder que isso confunde a noção de “sola scriptura” de alguns evangélicos com a noção de “sola scriptura” do Protestantismo histórico. Esta última, afirmam, aprecia a necessidade de se interpretar a Bíblia à luz da tradição eclesial.

É verdade que alguns protestantes falam favoravelmente da tradição. Porém, como os filósofos católicos Bryan Cross e Neal Judisch argumentam, acaba sempre por ser o protestante como indivíduo quem decide quais são as tradições que devem ser normativas. Os protestantes adoram citar Santo Agostinho sobre a soteriologia, por exemplo, já não tanto sobre a eclesiologia ou a mariologia. Sem outro princípio unificador para além da Bíblia, o Protestantismo é inerentemente instável e frágil. “É por isso que, desde o início, o Protestantismo se dividiu em centenas de diferentes denominações, todas obviamente convencidas de que são os intérpretes corretos da palavra de Deus”, refere Gagliardi.

O segundo princípio fundamental do Protestantismo é a justificação, nomeadamente a crença de que o cristão se salva unicamente pela Graça de Deus, através da fé – daí os credos reformados da “sola gratia” e da “sola fide”. Gagliardi refere-se a isto como uma conceção de soteriologia totalmente passiva: “mesmo em relação à fé, a pessoa não é um agente positivo; é Deus quem dá o dom e também é Ele quem está activo no dom”.

Isto é ainda mais evidente na famosa doutrina teológica luterana de “simul justus et peccator” (simultaneamente justo e pecador), que ensina que mesmo depois do momento salvífico o cristão retém quer o pecado original quer todos os seus pecados pessoais.

Gagliardi argumenta que a doutrina protestante da justificação reflete a manifestação do princípio “ou-ou” na forma como opõe a humanidade e Deus. A salvação é ou uma obra humana ou divina, e por isso “é preciso escolher”. Uma vez que no homem não existe nada de bom, o agente inteiro e exclusivo na salvação é Deus. Vemos algo de semelhante nos ensinamentos luterano e calvinista sobre a predestinação: uma vez que o homem é impotente em relação ao seu destino eterno, é só Deus quem escolhe. De facto, Calvino popularizou a noção da “dupla predestinação”: em toda a eternidade é Deus quem determina quem será salvo e quem será condenado, independentemente da escolha.

Esta dinâmica é visível também na cristologia protestante, especificamente no que diz respeito à humanidade de Cristo. Gagliardi escreve: “se Cristo é o Salvador, e se nele falamos de mérito, então é devido ao facto de que a divindade do Logos habita na sua humanidade. Pode-se dizer que mesmo para Jesus é verdade que é Deus quem faz tudo, que o ser humano não faz nada”.

Segundo este sistema, a humanidade de Cristo não é um instrumento junto com a sua divindade que colabora verdadeiramente na redenção do homem, mas um tipo de recipiente em que Deus se revela. Isto conduz a uma antropologia muito diferente daquela que encontramos no Catolicismo.


Consideremos, por exemplo, a própria ideia de um santo. Ou, em alternativa, pensemos na diferença entre uma soteriologia protestante em que a fúria divina cai sobre um Cristo que se “faz pecado” por nós e uma soteriologia católica em que o Deus-homem se oferece a si mesmo como sacrifício perfeito de expiação.

O paradigma do “ou-ou” vê-se também na doutrina protestante de “soli deo gloria”. Uma vez que só Deus é digno de glória, não só se proíbe a veneração de santos, mas também a devoção mariana. A veneração de humanos, dizem os protestantes, detrai necessariamente da adoração devida a Deus. Os iconoclastas da Reforma acreditavam que as imagens, ícones e relíquias eram blasfemos e que deviam ser destruídos para bem da pureza litúrgica e eclesial. Os huguenotes franceses, por exemplo, destruíram as relíquias de Santo Ireneu de Lyon, um dos maiores padres da Igreja.

Tendo em conta estes exemplos (e outros), Gagliardi descreve o princípio “ou-ou” como “a assunção fundamental do Protestantismo” e explica:

A Palavra de Deus ou se encontra na Escritura ou na Tradição; logo, devemos escolher, e Lutero escolhe a Escritura, apagando a Tradição. A justificação acontece ou pela fé ou pelas obras humanas, por isso só a fé salva. A salvação é fruto ou da graça divina ou do mérito humano, por isso só a graça salva. Só se deve honrar a Cristo ou a Maria e aos santos, por isso, obviamente, escolhe-se Cristo. Por fim, a glória é devida a Deus ou a um ser humano.

O resultado desta oposição dialética é uma visão profundamente pessimista do homem, bem como a priorização do subjectivo sobre o objectivo.

Os católicos têm sido tentados frequentemente pelo mesmo pensamento dualista, quer isso se manifeste na importação de pensamento protestante, na nossa teologia ou na apresentação do pensamento e da prática católica como sendo uma coisa e não outra, ainda que não exista nenhum pronunciamento do magistério sobre o assunto. Porém, como argumenta Gagliardi, o Catolicismo é inerentemente sintético: a revelação é não só Escritura, mas também Tradição; a salvação requer não só acção divina, mas também humana; Deus é digno de adoração, mas os santos são dignos de veneração.  

O princípio de “não só, mas também” é o que mantém o Catolicismo católico, isto é, fiel à plenitude da Verdade.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 5 de janeiro, de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 December 2017

Confissões de um Convertido

Casey Chalk
Este ano teceram-se várias considerações sobre os 500 anos da Reforma. Para mim, 2017 foi também um ano de comemoração pessoal: faz sete anos desde que regressei ao Catolicismo. Uma noite de conversa com um padre dominicano transformou-se numa vontade impulsiva para me confessar (não o fazia desde os sete anos). Mas se a recordação da Reforma tem sido razão tanto para introspecção e luto, o aniversário do meu regresso a Roma também. “Perda e Ganhos”, o título de um romance filosófico do Cardeal John Henry Newman, sobre a conversão de um aluno em Oxford ao Catolicismo, descreve bem aquilo que senti.

A vasta maioria dos testemunhos de conversão ao Catolicismo focam tudo o que se ganha ao entrar na Igreja fundada por Jesus. Isso é bom, a Igreja não é apenas algo que Ele estabeleceu há milénios, é onde Ele continua a residir. Mais, sendo verdadeiramente universal, engloba tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Em todo o caso pode ser útil para potenciais convertidos, bem como para aqueles que os irão encontrar, descrever também aquilo que se perde.

Comunidade: Eu fazia parte de uma pequena e conservadora comunidade cristã alinhada com a Igreja Presbiteriana na América (PCA). A minha congregação da PCA contava com uns 150 fiéis ao domingo. Eu conhecia praticamente todas as famílias e elas conheciam-me. Conversávamos depois do serviço, às vezes durante horas. Tinha visitado as casas de muitos deles. Quando uma família tinha um bebé era anunciado na igreja e os diáconos asseguravam que não lhes faltava nada, incluindo refeições enquanto se adaptavam. Havia dois serviços compridos ao domingo, estudos bíblicos e vários eventos durante a semana ou fim-de-semana… A nossa vida rodava intimamente à volta de um pequeno grupo de pessoas. Era uma verdadeira bênção, envolvendo abertura aos outros, sacrifício e amor profundo. É difícil esconder as nossas falhas e falhanços numa comunidade destas; quando somos amados apesar de os nossos pecados serem conhecidos, o Evangelho ganha vida.

Em contraste, na minha primeira missa depois de regressar à Igreja não houve qualquer convite para eventos depois da celebração. Nada sobre grupos de jovens ou estudos bíblicos. Ninguém na paróquia sabia que era a minha primeira vez lá. Era anónimo. Aos poucos acabei por descobrir vários grupos sociais católicos, mas a missa de domingo continuou a resumir-se a uma hora por semana sentado sozinho, sem que ninguém me abordasse. A paróquia católica que frequentei durante os primeiros anos após a minha conversão ficava a algumas centenas de metros do quartel dos bombeiros onde a minha congregação presbiteriana se reunia para os serviços. Isolado na minha nova paróquia, senti-me muitas vezes tentado a descer a rua e voltar para lá.

Uma cultura partilhada: Enquanto cristão reformado fazia parte de um mundo pequeno e paroquial. A denominação tinha apenas cerca de 330.000 membros em todos os Estados Unidos, e talvez uns poucos milhões de pessoas no resto do país que se identificariam como “reformados” ou “calvinistas”. Paradoxalmente, isto teve o efeito de aprofundar os nossos laços neste pequeno “gueto” calvinista. Líamos os mesmos livros, cantávamos os mesmos cânticos e falávamos a mesma linguagem. Também partilhávamos uma herança comum com os nossos “santos”, homens em grande medida desconhecidos fora do nosso pequeno mundo, como J. Gresham Machen, Charles Hodge, B.B. Warfield, Robert Lewis Dabney. Orgulhavamo-nos muito desta cultura reformada. Na verdade tínhamos de o fazer. Uma comunidade cristã assim tão pequena precisa de uma grande fonte de riqueza cultural partilhada para conseguir sobreviver.  

Quando deixei o presbiterianismo deixei para trás quase tudo isso. As paróquias católicas não cantavam os cânticos que eu conhecia, não liam os livros que me tinham formado e não estavam interessadas no que o meu pequeno mundo de cristianismo tinha para oferecer. Sejamos claros, eu sabia que a maior parte da minha formação cristã era imprecisa ou incompleta, e que os “santos” reformados eram pouco em comparação com a santidade ou o brilhantismo de um São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales ou Santa Teresa de Lisieux.  

Em muitos aspectos tive de recomeçar tudo do início, aprendendo a cantar a Salve Rainha em latim, desenvolvendo um conhecimento e apreciação das diferentes correntes culturais, litúrgicas e teológicas que existiam na Igreja e encontrando algo no Catolicismo a que poderia chamar meu. Sete anos mais tarde tenho sem dúvida mais orgulho e lealdade para com a Igreja Católica e a maravilhosa diversidade das suas manifestações culturais do que alguma vez tive para com o calvinismo. Mas tive de passar por isso sozinho.

Pessoas: Deixei para trás algumas centenas de presbiterianos com quem já tinha desenvolvido uma relação espiritual profunda. Meses depois da minha conversão uma rapariga calvinista com quem tinha tido um namoro sério – e com quem tinha querido casar – disse-me que se eu regressasse ela concordava em casar comigo. Isso é que é guerra espiritual! Disse que não (depois de algumas noites em branco!). Muitas das minhas outras relações não românticas com ex-correligionários persistem, graças a Deus. Mas tristemente essas relações estão agora incompletas, estamos agora separados pelo facto de não podermos comungar dos elementos mais universais do Cristianismo Católico: A Eucaristia e a união com o episcopado apostólico.

Estas feridas são verdadeiras e são a razão pela qual escrevo estas linhas. Em breve estaremos a celebrar o Natal e já sei o que está no topo da minha lista: a unidade de todos os cristãos, sobretudo estes meus irmãos calvinistas. Quando entrei na Igreja Católica ganhei Cristo e tudo o que Ele tão generosamente ofereceu ao seu corpo místico. Mas perdi a comunhão de alguns dos meus melhores amigos, aqueles por quem rezo, para que um dia se juntem a mim em Roma.

A sua separação (e a de todos os protestantes) é uma verdadeira perda e deve encorajar-nos a todos a ajudá-los a descobrir não só a verdadeira herança apostólica, mas também a fonte e o cume de tudo o que anseiam: comunhão com Cristo na Eucaristia. É aí que encontraremos aquilo pelo qual Ele rezou com tanto fervor em João 17: que sejamos um – uma boa coisa pela qual rezar nesta época de Advento.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 2 de Dezembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 10 November 2017

Lutero, quero apresentar-te a caixa de Pandora

É só uma cena que escrevi... Não vai dar em nada... 
O Papa Francisco pediu hoje a abolição das armas nucleares. Foi durante uma conferência sobre o assunto, que se realizou na Santa Sé.

Decorre até amanhã uma enorme conferência em Lisboa sobre os 500 anos da Reforma. Hoje conversei com um dos oradores, o baptista Timóteo Cavaco, que diz que Lutero não teria ideia da dimensão daquilo que estava a iniciar, mas que a fracturação das igrejas protestantes era inevitável.

Os dehonianos associam-se este ano de forma especial ao dia mundial dos pobres, que foi instituído pelo Papa Francisco, e as dominicanas do Convento dos Cardaes convidam-nos novamente para irmos comprar os produtos feitos localmente, ou assistir a um concerto, para ajudar as raparigas com necessidades especiais que vivem naquele espaço.

Começa no domingo a Semana dos Seminários. Os bispos pedem aos católicos que valorizem as instituições onde se formam os padres.

Recordo que podem ler no blog a transcrição integral da entrevista que a minha colega Aura Miguel fez ao Cardeal Burke, há dias. E não deixem também de conhecer a história de Nabeel Qureshi, cujo pai, um oficial da armada paquistanesa, nunca mais andou altivo desde o dia em que soube que o filho se convertia ao Cristianismo

Tuesday, 31 October 2017

Lamentando a Reforma de Lutero

Charlotte Allen
Assinala-se hoje o 500.º aniversário do dia em que Martinho Lutero (alegadamente) pregou as suas 95 teses na porta do castelo de Witenberg, dando início à reforma. Em 1999 católicos e luteranos sentaram-se à mesa e chegaram ao consenso de que afinal os dois ramos do Cristianismo concordam precisamente sobre a questão que tinha levado Lutero a romper com a Igreja Católica: que a “justificação” – isto é, o perdão dos pecados dos homens através do poder salvífico de Cristo – se consegue apenas pela graça de Deus e não por méritos humanos, como alguns católicos tinham argumentado, ou pareciam ter argumentado. Depois, a 19 de Outubro deste ano, o bispo italiano Nunzio Galantino, secretário-geral da conferência episcopal italiana, foi mais longe e declarou que Lutero nem herege era e que a reforma tinha sido “obra do Espírito Santo”. Bom, eu não diria tanto, mas sinto uma espécie de obrigação ecuménica de dizer algo de simpático sobre Martinho Lutero.

Mas o problema é que não é fácil… Não é preciso ser freudiano para concluir que Lutero era um caso muito complicado. Era arrogante, egoísta, dramático e pensava que era o centro do mundo por ser mais esperto e espiritualmente superior a toda a gente.

Passou a juventude e hesitar sobre o que fazer com a vida (e a desperdiçar o dinheiro das propinas que o pai lhe dava) numa época – a alta Idade Média – em que um jovem adulto não se podia dar ao luxo de perder tempo, porque a maior parte deles não vivia para além dos 40. Depois, quando finalmente entrou para um mosteiro agostiniano (num gesto tipicamente melodramático, anunciando que jamais o iriam ver), lamentou-se durante uma década por não conseguir obter uma garantia de que a sua alma seria salva – pecando assim contra a virtude cristã da esperança.

Quando chegou a hora de “reformar” a Igreja, depois de 1517, o que interessava verdadeiramente a Lutero não era livrar-se das indulgências ou “jamais” ser visto. Lutero passou a ser visto em todo o lado, a conviver com poderosos príncipes alemães que tinham contas a ajustar com o Sacro Império Romano, ajudando-os a confiscar mosteiros a torto e a direito (será que não ficou com uma única memória boa dos agostinianos com quem tinha vivido tantos anos?), e perseguindo furiosamente os antepassados anabaptistas daquelas simpáticas senhoras amish que vendem legumes no mercado ao pé de minha casa.

Lutero pregava a sola scriptura, mas quando a Bíblia não se ajustava à sua teologia sentiu-se autorizado a mexer com ela. Inseriu o termo “somente” depois da palavra “fé” na sua tradução para alemão da Epístola de São Paulo aos Romanos e tentou relegar a Carta de Tiago para segundo plano porque mencionava as boas obras. Quando quis casar não podia contentar-se com uma simpática filha de um proprietário alemão, não, teve de casar com uma ex-freira, Katharina von Bura, que pessoalmente convenceu a sair do convento.

É possível ser mais ressabiado contra a Igreja Católica? Os dois mudaram-se para um mosteiro confiscado, que é como despejar o vizinho para poder ficar-lhe com a casa. Lutero foi pessoalmente responsável pela destruição maciça de arte medieval de valor incalculável, com incontáveis recém-luteranos a caiar alegremente os frescos das suas igrejas previamente católicas e a lançar para a fogueira as imagens de santos. Felizmente Lutero não era italiano, por isso ainda temos alguns Giottos.

Também tinha uma estranha fixação escatológica, e recorria facilmente à ordinarice para insultar os seus inimigos, o que fazia frequentemente, porque criava muitos. E para culminar, era ferozmente anti-judeu. É certo que os católicos medievais também não eram particularmente queridos na forma como tratavam os judeus, mas pelo menos nenhum deles escreveu um tratado chamado “Sobre os Judeus e as suas Mentiras”, que era um dos livros favoritos de Julius Streicher, um dos pais da propaganda nazi.

E não,

Martinho Lutero não inventou a árvore de Natal, nem escreveu o “Away in a Manger”. Mas conseguiu estragar o Halloween, rebaptizando-o “Dia da Reforma”. Que desmancha-prazeres! Não podia ter pregado as teses no dia 30 de Outubro?

Mas por uma questão de justiça, há algumas coisas boas a dizer sobre Martinho Lutero. Vou enumerá-las:

·         Vender indulgências foi mesmo má ideia. Se ao menos tivesse parado por aí.
·         Gostava muito dos seus filhos. Isso é bom.
·         Consta que Katharina von Bora fazia excelente cerveja – mas aposto que aprendeu isso no convento.
·         “Castelo Forte é Nosso Deus”, que foi de facto escrito por Lutero, é um cântico fantástico.
·         J.S. Bach foi o melhor compositor que alguma vez existiu. Søren Kierkegaard foi um dos melhores teólogos. Dietrich Bonhoeffer um dos mais nobres mártires cristãos.
·         Os actuais luteranos que fizeram do “Midwest” americano um bastião de conservadorismo social (e de excelentes escolas públicas) são o sal da terra – embora a sua gastronomia deixe algo a desejar.

Chegado a este ponto, o meu leitor protestante e evangélico deve estar a pensar que não passo de uma versão moderna do Padre Feeney, a insultar indiscriminadamente “os nossos irmãos separados”, como nós, católicos, lhes chamamos hoje em dia. Mas não é o caso. O meu marido é protestante! E tiro o chapéu aos irmãos Wesley, a William Wilberforce, a C.S. Lewis, Billy Graham, ao biblista anglicano N.T. Wright e a tantos outros que testemunharam de forma tão vibrante a fé cristã fora da Igreja Católica. Não concordo com a sua visão do que é, ou deve ser, a Igreja de Cristo, mas admiro profundamente a sua relação intensa com Jesus.

Só preferia que esta história toda não tivesse começado com… Martinho Lutero.


Charlotte Allen é doutorada em estudos medievais pela Catholic University of America e é autora de “The Human Christ: The Search for the Historical Jesus”. Escreve no First Things tem colunas regulares no Weekly Standard, Acculturated, e no Wall Street Journal.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 31 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 19 July 2017

Parentalidade Católica e a Reforma Protestante

Casey Chalk
Em época de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante gosto de pensar na corrente de evangélicos que está a desaguar no Tibre, abençoando não só a Igreja mas todo o diálogo ecuménico – tanto para católicos como para protestantes – sobre a natureza da Tradição, o papel de Maria e a necessidade de uma autoridade objectiva e apostólica.

A isto devemos somar a parentalidade. Quando me converti do calvinismo ao catolicismo discerni uma assinalável mudança na catequese que dava aos meus filhos, uma distinção tão importante que pode fazer toda a diferença entre ter pequenos Cristos ou pagãozinhos à solta lá em casa.

Começa com o baptismo. Muitos evangélicos ainda praticam o baptismo na infância, graças a Deus. Embora a maioria não acredite na regeneração baptismal, não deixam de baptizar validamente com água e em nome do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Quer compreendam ou não, os seus filhos recebem assim o Espírito Santo e herdam os dons teológicos da fé, esperança e amor, sendo incorporados em Cristo.

Infelizmente muitos outros protestantes adiam o baptismo até que as crianças alcancem a “idade da razão” e decidam por eles se querem receber o sacramento. Por isso muitas crianças de famílias protestantes nunca o fazem. Para as famílias que assim negligenciaram este rito mandatado por Cristo, os seus filhos permanecem, para todos os efeitos, pagãos.

Mas esse é apenas o primeiro erro em muitos lares protestantes. A maioria dos evangélicos, e certamente os da minha anterior tradição calvinista, rejeitam imagens, ícones e instrumentos catequéticos que historicamente têm sido usados por famílias cristãs para ensinar os caminhos de Deus. Quem estuda a história sabe que a Reforma despiu os altares, derrubou estátuas de santos e removeu Cristo da Cruz. Os terços foram destruídos, relíquias postas de lado e as peregrinações abandonadas.

Na ânsia de purificar a fé e a prática cristã, os reformados parecem ter negligenciado uma questão essencial: Como é que se comunicam os fundamentos da fé cristã a uma criança de dois ou três anos?

Para os evangélicos que se mantêm em contacto de alguma forma ou feitio com a tradição reformada anticatólica, o que permanece é apenas uma casca, uma pobreza prática de catequese. Ainda se pode rezar com uma criança pequena, ler livros religiosos ou cantar músicas sobre Deus. Estas são todas práticas boas e belas, que na minha família também usamos. Mas são todas de natureza cerebral.

E qualquer pai sabe que o cerebral não é o melhor caminho para crianças pequenas. A este respeito podemos dizer que o Cristianismo reformado revela um certo gnosticismo, enfatizando um conhecimento escondido e abstracto à custa de um dos aspectos mais belos e essenciais da nossa fé: a Encarnação.

Estas tendências protestantes revelam uma compreensão incompleta daquilo que o Evangelista São João queria dizer quando se referia a Cristo da seguinte forma: “O Verbo encarnou e habitou entre nós” (João 1,14) ou, noutra passagem, “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1,1).

Já o Catolicismo, em contraste, é profundamente sensorial: crucifixos, água benta, sinais da cruz, pagelas, imagens, terços e – por fim – a Eucaristia. Jesus habitou um corpo e os seus milagres aconteceram não só através das suas palavras, mas pelas acções, saliva e lama, peças de roupa.

As devoções que reconhecem isto permitem que até as crianças mais novas entrem na fé cristã. Talvez tenha sido isso mesmo que Jesus estava a pensar quando exortou os apóstolos: “Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.

Não estava certamente a pensar em fazer-lhes um sermão sobre um texto bíblico. Na verdade, Jesus impôs-lhes as mãos! (Mt. 19,14-15). Pensem só, ser uma criança cujo corpo foi tocado por Nosso Senhor!

Catolicismo: Um banquete sensorial
Quando a minha família convida amigos evangélicos para jantar e chegam antes de a nossa filha mais velha se ter ido deitar é sempre giro ver o que se passa. Como qualquer menina de quatro anos, adora visitas e partilha tudo sobre a sua vida: os maillots de bailarina, brinquedos e a rotina nocturna de ir para a cama.

Em nossa casa essa rotina envolve arrumar o quarto, vestir o pijama e lavar os dentes. Mas envolve ainda várias práticas explicitamente católicas: ajoelhar e rezar diante de um crucifixo, cantar músicas católicas de um cancioneiro já gasto e ler um livro que frequentemente, e por escolha da minha filha, é profundamente católico.

Ainda não perguntei aos meus amigos o que lhes passa pela cabeça quando vêem a minha filha a falar com Jesus crucificado como se estivesse vivo, ou a pedir uma “Música de Maria” do cancioneiro, ou a aparecer com um livro sobre “santos para raparigas” da sua estante.

Mas sei que a sua devoção é vibrante e verdadeira. Anda constantemente com pagelas, benze-se com água benta na igreja – não uma vez, nem duas, mas dezenas de vezes – e coloca copos de água com flores no nosso altar caseiro, como presente especial para Jesus.

Recorda-me a jovem Cordelia no livro “Reviver o Passado em Brideshead” de Evelyn Waugh, que na sua inocência e zelo doava dinheiro para ajudar os missionários que ensinavam crianças em África, regozijando de cada vez que uma delas era baptizada com o seu nome.

Caros leitores evangélicos, compreendam por favor que não estamos perante tralha sentimental católica, sinos e incensos sem qualquer substância teológica. Eu vivo na Tailândia e temos uma empregada filipina pentecostal que fala sem rodeios sobre a sua fé. E ela já nos confessou várias vezes o seu espanto pelo facto de a nossa filha mais velha saber tanto sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Sabe mais, diz-nos ela, do que as crianças na sua própria igreja. Só posso concluir que isso se deve ao facto de toda esta parte sensorial do Catolicismo fazer com que as histórias das Escrituras – que habitualmente lhe lemos – ganhem vida na sua mente em desenvolvimento.

Se eu tivesse continuado a ser calvinista teria tentado introduzir os meus filhos à fé e à prática cristã o mais cedo possível. Os meus muitos amigos evangélicos fazem precisamente isso, com efeitos obviamente positivos.

Mas numa família típica de evangélicos ou calvinistas os pais trabalham sempre com uma mão atada atrás das costas – deixando os seus filhos sem meios para contemplar uma religião que deveria ocupar não só as suas mentes mas os seus corpos e todo o seu ser.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Julho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 1 June 2016

500 anos de Reforma e 40 de EJNS

The enemy within...
Porque pelos vistos não tinha ainda inimigos suficientes, o Estado Islâmico declarou guerra a mais um… A televisão.

Hoje os EUA lançaram um aviso de ameaça de terrorismo no Euro 2016 mas também para as Jornadas Mundiais da Juventude. Os especialistas desdramatizam…

Foram hoje divulgados mais alguns detalhes sobre a comemoração conjunta entre católicos e protestantes que terá lugar em Outubro deste ano, no início dos 500 anos da Reforma protestante.

Novo artigo do The Catholic Thing no blogue, esta quarta-feira. Robert Royal, o fundador do site, acabou de ler o livro “Deus ou Nada” do Cardeal Sarah e questiona um mundo ocidental que se revolta com a morte de crianças na Síria mas ignora os 13 milhões de abortos cometidos na China todos os anos, entre outras tragédias.

Por fim, um lembrete para todos os que, como eu, fizeram parte das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. Há arraial no sábado para comemorar os 40 anos do movimento. Não deixem de aparecer, sobretudo os mais antigos, que vai certamente valer a pena. Inscrições aqui.

Errata: Por erro, escrevi muçulmanos em vez de protestantes na notícia dos 500 anos da reforma. Freud explicaria  Sorry. 

Friday, 22 January 2016

Ainda os judeus: Nem todos os protestantes pensam o mesmo

Quando escrevi este artigo, em resposta a outro do meu amigo Tiago Cavaco, alguns protestantes temeram que eu estava a generalizar as posições e interrogações do Tiago a todo o mundo das igrejas reformadas.

Não sendo de modo algum especialista, sei bem que existe uma imensa variedade no mundo protestante. Em todo o caso, fica aqui o esclarecimento e fica, também o simpático e-mail que recebi da pastora presbiteriana Rute Salvador, que publico com a sua autorização:

Li o artigo que escreveu a propósito da afirmação do Papa Francisco e das reações do pastor Tiago Cavaco. Nesse texto parece-me que considera a opinião dele como sendo reflexo da opinião geral dos "protestantes", como refere.

Não posso deixar de reagir, referindo que, sendo eu protestante, demarco-me desta aparente generalização, esta identificação com as posições daquele pastor que diferem de muitas das posições das igrejas originárias na Reforma e associadas ao Conselho Mundial de Igrejas ou a outras organizações ecuménicas.

Também me parece que é importante referir que, pelo menos para a maioria dos protestantes das igrejas históricas da Reforma (pertencentes ao COPIC, em Portugal, e às organizações ecuménicas internacionais), as afirmações e atitudes do Papa Francisco têm sido seguidas com interesse, respeito, simpatia e admiração. A meu ver, as suas palavras e as suas atitudes são muito mais congruentes com o que é a essência da fé cristã, do amor a Deus e ao próximo e da aceitação do outro (independentemente de subsistirem muitas diferenças). Tem, realmente, aproximado a Igreja Católica de muito do que era/é o sentimento e o pensamento de grande parte dos seus membros, que não se reviam em muitas "posições oficiais". Um trabalho admirável, de grande coragem, que creio ser inspirado no Evangelho. Admiro bastante mais este Papa do que o anterior, o que também contradiz a afirmação que faz no seu artigo (embora reconheça que haverá quem não seja desta opinião)...

Voltando à afirmação do Papa Francisco, devo dizer que me parece certíssima. Ainda que uma nova Aliança tenha surgido com Jesus Cristo, isso não invalida a antiga. Judeus e cristãos (e muçulmanos) adoram o mesmo Deus... um Deus que eu acredito que se pode revelar, na sua sabedoria, de muitas maneiras, em muitos momentos da história, de formas diferentes para que aqueles que são sua criação possam reconhecer a Sua presença. Devemos pregar o Evangelho? Claro! Devemos considerar que a nossa forma de fé é mais legítima do que outras? Tenho dúvidas...

O pastor/professor Dimas de Almeida costumava afirmar, nas suas aulas enquanto professor de Teologia, que se uma pessoa ou uma igreja se considerar "dona da verdade" (o que implica considerar que todos os outros estão errados) estará a meio caminho para a Inquisição. Nunca me esqueci desta afirmação, e faz parte da minha maneira de viver a minha fé.

Devo confessar que escrevi e apaguei muita coisa neste e-mail. Hesitei muito sobre se o deveria enviar ou não. Não costumo alimentar polémicas partilhando a minha opinião em blogues ou redes sociais... nem mesmo por e-mail. Respeito as opiniões diferentes da minha. No entanto, não pude deixar de me manifestar desta vez. Embora creia que não tenha sido essa a sua intenção, o que escreveu pode ser visto como uma generalização, que eu peço que procure evitar. As posições do pastor Tiago Cavaco são legítimas, mas são as dele. Não refletem o Protestantismo em geral.

Tuesday, 12 November 2013

“Concílio não teve o propósito de alargar fosso com protestantes”

Transcrição integral da entrevista ao bispo D. Nuno Brás, sobre os 450 anos do concílio de Trento. Notícia aqui.

Que peso é que o Concílio teve para a Igreja?
O Concílio de Trento é um marco essencial na história da Igreja em primeiro lugar porque responde a um desejo de reforma de há muitos séculos. O concílio reuniu-se em 1545, mas há várias dezenas de anos que havia este desejo de reforma. É óbvio que a reforma protestante, todo o drama de Lutero, toda a essa questão, veio de certo modo apressar e mostrar a inevitabilidade do concílio, mas o concílio abordou, praticamente, todos os âmbitos da Igreja, seja de disciplina seja doutrinais, fez uma revisão completa disciplinar e doutrinal do que é a Igreja Católica. Muitas das realidades que hoje vivemos foram fixadas claramente nessa altura.

Na sua opinião qual das decisões do concílio teve mais impacto?
Temos por exemplo em termos pastorais a obrigatoriedade dos bispos e párocos residirem nas dioceses e nas paróquias, que era uma coisa que até essa altura não existia. Temos a criação dos seminários, que também não existiam.

Depois, em termos doutrinais, a fixação clara daquilo que é a Sagrada Escritura, quais os livros que fazem parte da Sagrada Escritura. Isso foi claro sempre, mas havia algumas dúvidas concretamente acerca do livro do Apocalipse, da parte dos protestantes acerca da epístola de Santiago. O Concílio decide isso claramente e diz quais são os livros que fazem parte.

Depois, toda a questão da justificação. Como é que nos relacionamos com Deus, qual é o lugar da Graça e qual a do Ser Humano, uma das realidades colocada em causa pela reforma protestante. Há uma série de matérias doutrinais, que o concílio fixa, por exemplo, em termos da presença real de Jesus na Eucaristia. Das questões disciplinares, nem todos ainda colocados em prática. O Concílio fez uma reforma geral do que era a Igreja Católica naquela altura.

Havia dúvidas sobre as questões doutrinais, ou foram apenas reafirmadas?
Trata-se de reafirmar aquilo que sempre foi a tradição, o ensino apostólico, mas de o reafirmar claramente e de colocar um ponto final em várias discussões em termos de interpretação sobre essas questões. É óbvio depois do concílio que o próprio texto precisa de ser interpretado e por isso mesmo surgiram depois outros elementos de debate, que faz sempre parte da vida da Igreja. E existem realidades sobre as quais o concílio não se pronuncia, ou deixa portas em aberto.

Mas sim, trata-se de reafirmar o que foi sempre o ensino apostólico mas de colocar muitas vezes pontos finais em relação às discussões. Ou então, caso isso não fosse possível e caso as discussões não estivessem amadurecidas suficientemente, deixar essas realidades em aberto de forma que outros concílios pudessem depois pronunciar-se acerca disso.

Várias das decisões surgem em consequência do ambiente da reforma protestante. Pode-se dizer que o sínodo aprofundou as divisões, tornando-as inconciliáveis?
O Concílio já foi celebrado numa altura em que era clara a divisão. Depois, coloca claramente a posição católica, em resposta àquilo que são as posições luteranas e calvinistas.

Enquanto coloca a doutrina clara e mostra a realidade daquilo em que a Igreja acredita em termos doutrinais, sem margem para dúvidas, pelo menos em muitas partes, nesse sentido podemos dizer que sim.

Mas o concílio não teve nunca o propósito de alargar o fosso, o pensamento dos padres de Trento foi de dizer qual é a fé da Igreja Católica, no sentido de permanecer na verdade daquilo que é a fé apostólica. Não foi nunca de dizer “bom, os irmãos reformados pensam assim, nós temos de pensar ao contrário”. Aliás, há muitas coisas em que o concílio e Lutero estão muito próximos.

É interessante que muitos dos documentos acerca da justificação, que foram assinados há relativamente pouco tempo com os protestantes, retomam o que é a intuição de Trento. Ou seja, Trento não teve como preocupação afundar o fosso que separava, teve como preocupação mostrar o mais claramente possível, tanto quanto se podia na altura, dizer de forma clara aquilo que é a fé dos apóstolos.

Pode-se dizer que o concílio, aliado ao ambiente de contra-reforma que se vivia na altura, levou a um certo desequilíbrio na prática católica? No campo da revelação e tradição, por exemplo?
É importante tomarmos consciência de que os primeiros decretos do Concílio são precisamente sobre a revelação e a tradição, acerca da Sagrada Escritura. Podemos dizer que se os reformados dizem que a revelação está toda contida na Sagrada Escritura, Trento diz que a revelação está toda contida em Jesus Cristo, naquilo a que Trento chama O Evangelho, na linha da carta de São Paulo aos romanos.

Algumas leituras de Trento, de facto, marginalizaram de certa forma, pelo menos na piedade do católico normal, nunca na reflexão teológica, propriamente, mas na piedade católica corrente, marginalizaram por vezes a Sagrada Escritura, que o Concílio Vaticano II retoma e reafirma, mas o Concílio Vaticano II retoma e reafirma precisamente na sequência de Trento. Portanto a questão não foi tanto Trento, foi a leitura que depois na prática se fez, seja de Trento, seja da própria dialéctica entre católicos e protestantes. 

“Reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor”

Transcrição integral da entrevista ao pastor baptista Tiago Cavaco, acerca dos 450 anos do Concílio de Trento. Notícia aqui.

450 anos depois como é que um protestante olha para o Concílio de Trento?
Pelo facto de o dia da Reforma Protestante ter sido celebrado agora a 31 de Outubro, é difícil falar da reforma sem falar daquilo que Trento significa. Nesse sentido a minha relação com Trento, como protestante, é marcada muito mais por uma referência pela negativa do que por um conhecimento do concílio na sua inteireza, no contexto que terá para a Igreja Católica.

Mas diria que a definição que o concílio veio trazer naquela altura continua a ser importante para marcar as diferenças que continuam a existir. Nesse sentido, apesar de o mundo ter mudado, muito positivamente, no que diz respeito ao relacionamento entre católicos e protestantes, que é melhor e preferível o de hoje, sendo até fraterno, diria que o Concílio de Trento continua a ser pertinente. Essas diferenças de 450 anos continuam a ser importantes para se compreender o Cristianismo no seu todo.

Pode dar alguns exemplos dessas diferenças de que fala?
Ainda o outro dia estava a falar sobre a reforma na Igreja onde trabalho, a Igreja Baptista que se reúne na Lapa, e por exemplo uma das coisas incontornáveis quando se pensa no contributo de Lutero e que depois vem a ser de uma maneira ou outra aprofundado pelas afirmações de Trento tem a ver com a relação com a Escritura.

Uma das coisas que eu dizia é que é óbvio que a relação que os católicos têm com a Escritura é diferente do que era há 450 anos. Hoje, graças a Deus, existe um empenho na Igreja de Roma para a leitura da Bíblia, de maneira nenhuma podemos equiparar Trento com o que é hoje uma busca pela leitura da Bíblia no contexto da Igreja Católica.

Mas mesmo a partir dessa abertura que hoje é diferente, é a partir da leitura da Bíblia que se funda uma das diferenças mais inconciliáveis entre o Catolicismo Romano e o Protestantismo, que tem a ver com a justificação pela Fé e a absoluta incontornável relação do Cristão com a fonte da autoridade máxima. Passados 450 anos a Igreja Católica continua para todos os efeitos a Igreja de Trento, lendo a Bíblia de uma maneira diferente da que os protestantes lêem, como fonte de autoridade principal.

Em relação à justificação, há um documento conjunto entre a Igreja Católica e a Igreja Luterana, pelo menos uma das suas vertentes. Com as Igrejas Baptistas seria possível uma solução desse tipo?
Não me custa, enquanto Baptista, reconhecer o percurso da Igreja Católica no século XX e sobretudo nos últimos anos, de um diálogo frutuoso com outras confissões, sendo o diálogo com esses Luteranos uma prova disso. E mesmo com baptistas. No outro dia encontrei uma pequena afirmação conjunta da Aliança Baptista Mundial com a Igreja Católica Romana.

Creio que é louvável e apreciável essa capacidade demonstrada por ambas as partes de fazer um caminho comum, de qualquer modo creio não ser possível deixar de afirmar que, no que diz respeito à questão da justificação pela Fé, essa própria interpretação varia bastante, mesmo dentro do contexto evangélico e protestante. Isto quer dizer que o facto de alguns luteranos conseguirem chegar a alguns consensos com a Igreja Católica, não é de todo expressivo em relação a toda a largura do movimento Evangélico e protestante.

Por isso, apesar de atribuirmos às vezes quase que romanticamente, a Lutero a reforma protestante, ele é um dos principais mas a partir daí o que se gerou nas igrejas que são herdeiras da reforma vai muito além do que a Igreja luterana pode representar. Como baptista, que neste sentido me considero reformado também, diria que o facto de haver este documento em comum, não é expressivo de todos os outros reformados que, mesmo em relação aos luteranos têm visões não necessariamente conciliáveis em relação à justificação pela fé. A reforma protestante acarreta muita diferença.

O Concílio agravou o cisma com os reformadores?
É difícil que um protestante não ache que num certo sentido tenha agravado, até porque um protestante dirá que a reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor. É verdade que até pela própria palavra, protestante, alguém que está contra alguma coisa, que protesta, as pessoas associam isso a um carácter negativo e não à preocupação primordial dos reformadores, que sentiam que o caminho tinha de passar fora de Roma, mas que era a favor da Igreja e não contra ela.

Portanto Trento, necessariamente, acabou por aprofundar as diferenças que se tornavam na altura, e muitas ainda são, insanáveis, para aquilo que os protestantes consideravam ser uma reforma que a Igreja precisava de fazer.

É verdade que 450 anos depois a Igreja Católica, e digo-o fraternamente e num espírito de boa-fé, acabou por dar passos que em muito foram na direcção de coisas que os protestantes estavam a dizer há séculos. Isso serve para provar que a Igreja Católica tem feito um caminho e aprendido com aquilo que eu acho que posso dizer que são os seus erros.

De qualquer modo Trento teve uma função importante no contexto da Igreja Católica, mas que um protestante terá de dizer que foi negativa, pelo menos para a reforma que achamos que a Igreja precisava.

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