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Tuesday, 14 March 2023

Abusadores activos ou não activos? E isso interessa?

Jesus a reactivar Lázaro

Ao longo da última semana, desde que as dioceses começaram a lançar comunicados a dar conta dos nomes que tinham recebido nas suas listas, que a perplexidade se tem adensado. Afinal não era suposto a lista de 100+ nomes que a Comissão Independente entregou aos bispos incluir apenas abusadores que estão no activo? Pois parece que não. Mas como é que esta confusão nasceu?

A confusão nasceu precisamente no seio da Comissão Independente. A ideia de que a lista iria incluir nomes de abusadores ainda activos na Igreja foi avançada pelo próprio Pedro Strecht na conferência de imprensa de apresentação do relatório e, mais, está inscrita no relatório, na página 109.

Decidiu, assim, a Comissão Independente, depois de muito ponderar, que a lista das pessoas alegadas abusadoras ainda no ativo, seria remetida, apenas no termo dos trabalhos, tanto ao Ministério Público, como à Conferência Episcopal Portuguesa, entidade que promoveu o presente Estudo, para a análise que aí se julgar adequada, recomendando, embora, e em ambas as situações, o máximo respeito pelo sigilo desde o início garantido.

Naturalmente, por isso, criou-se entre a imprensa e entre a população uma grande expectativa. Haveria mais de 100 abusadores ainda no activo na Igreja portuguesa. O que é que os bispos fariam sobre o assunto?

Quando Funchal divulgou os seus dados, porém, veio-se a perceber que três dos quatro nomes afinal eram de pessoas que estando vivas não exerciam qualquer cargo eclesiástico. Ora, isto pode querer dizer muita coisa. Pode significar que o padre já se encontra afastado do exercício do sacerdócio; que esteve afastado para investigação e até já foi ilibado, mas ainda não foi reintegrado (há pelo menos um caso assim na lista geral); que está reformado ou doente; ou então que já não tem qualquer cargo atribuído porque entretanto foi demitido do estado clerical, ou por vontade própria ou por imposição da Igreja. Posto por outras palavras, e para melhor se poder perceber, na lista do Funchal, por exemplo, um dos três padres referidos poderia até ser o “padre” Frederico, sobre quem o actual bispo pouco ou nada poderia fazer, como é evidente.

Depois do Funchal surgiram vários outros casos semelhantes e até bastantes de padres e leigos alegados abusadores que já morreram.

Entretanto, muito por culpa própria, a Igreja enfrentava uma profunda crise derivada do facto de ter dado a entender que não havia por parte dos bispos qualquer vontade de afastar preventivamente os padres suspeitos. Juntando as duas coisas, fomos sujeitados a vários exemplos como este:

 


Perante isto, a Renascença tentou falar com vários membros da Comissão para saber o que se passava, mas nenhum atendeu, com excepção de Ana Nunes de Almeida que disse não iria comentar as listas.

Um ou dois dias seguintes, contudo, em resposta a um tweet meu, em que eu expressava surpresa e desagrado por ter sido prometida uma lista de 100 nomes de abusadores activos quando afinal mais de 50% não podia de forma alguma ser descrita como activa, ela revelou que sim, a primeira intenção tinha sido de apresentar uma lista de abusadores activos, mas depois mudou-se de ideias e optou-se por se incluir na lista todos os casos, vivos e mortos.


O problema? É que se esqueceram de avisar o resto do mundo. E não, uma resposta breve no meio de uma longa entrevista apenas disponível para assinantes de um jornal online, não conta como um aviso ao mundo.


Aliás, desde que Ana Nunes de Almeida deu essa entrevista, Pedro Strecht deu uma entrevista à SIC Notícias (Cerca 12’30”) em que a jornalista lhe perguntou se a lista com o nome de padres abusadores no activo iria ser entregue aos bispos e respondeu: “Exactamente”, se bem que depois –  ouvindo agora com atenção é que se apanha – tenha dito que ao Ministério Público iria ser entregue uma lista com os nomes dos padres “ainda vivos”.

E agora mais recentemente Daniel Sampaio veio a público defender o trabalho da Comissão dizendo que “é possível que existam [padres mortos] porque é uma lista muito difícil de concretizar, estamos a falar de abusos entre 1950 e 2022”.

Isto não são declarações de quem sabia à partida que era mesmo suposto a lista incluir  nomes de padres já mortos, pelo contrário, é uma desculpa para eles estarem lá acidentalmente.

Finalmente, esta terça-feira o Observador publicou uma longa e interessante entrevista com Laborinho Lúcio em que se aborda longamente esta questão das listas. Ele confirma aquilo que Ana Nunes de Almeida já tinha dito, mas deixa também no ar a ideia de que esta discussão foi criada como forma de desviar a atenção do essencial, que são as vítimas. Ora, dizer isso é não compreender a comunicação social. É evidente que, criada a ideia de que havia 100 pedófilos à solta na Igreja, esse seria sempre o foco principal da comunicação social na semana depois da entrega das tais listas.

Urge, por isso, perguntar porque é que ao longo de mais de uma semana em que todos os meios de comunicação continuaram a falar de uma lista de abusadores ainda no activo, ninguém da Comissão veio anunciar publicamente, de forma clara e a um meio de grande circulação e audiência – que obviamente estariam disponíveis para isso – que afinal tinha-se espalhado uma percepção errada e que a decisão de base era outra. Tenho criticado muito as falhas de comunicação dos bispos, mas estas falhas de comunicação da Comissão também são lamentáveis. A diferença é que já vimos bispos a vir fazer meas culpas pelos seus fracassos comunicacionais, mas a Comissão continua a recusar qualquer crítica ou a fazer qualquer esclarecimento.

E depois?

É natural que se pergunte, e muitos têm perguntado, afinal o que é que isto interessa? Mortos ou vivos, se estes homens abusaram mesmo de alguém então o que importa é reconhecer e ajudar a vítima. Têm toda a razão!

O problema é que esta confusão das listas, a somar-se à confusão das declarações dos bispos, aparentemente contraditórios, corre o risco de afectar sobretudo as vítimas. As que contribuíram para o relatório e outras que ou ainda não contribuíram, ou então ainda estão por vir. Esse é o grande objectivo de toda esta operação. O relatório, as comissões diocesanas, a comissão independente, os memoriais, os pedidos de desculpa, tudo isso só faz sentido se contribuir para criar um ambiente eclesial em que as pessoas se sentem em segurança e em que sentem que se tiverem uma denúncia a fazer podem fazê-la e que serão levadas a sério.

Tudo o que servir para descredibilizar o processo desta Comissão Independente e do relatório que produziu, acaba por prejudicar as vítimas. É por isso que é importante reconhecer que esta baralhada das listas, que acabou por gerar muito ruído, foi um erro. Podiam incluir lá os padres que quisessem, não podiam era anunciar uma coisa, deixar espalhar-se uma ideia, e depois fazer uma coisa diferente.

Mais, estes erros encorajam aqueles que nunca quiseram aceitar o trabalho e as conclusões da Comissão Independente e do relatório, descrevendo-o como um “ataque à Igreja”.

Já o disse várias vezes, e repito. A melhor solução para isto é os bispos e a Comissão Independente juntarem-se novamente, falarem sem cerimónias, porem cá para fora tudo o que os desagradou nestas últimas semanas e aceitar que de ambos os lados se cometeram erros. Afinal de contas, é a primeira vez que se faz algo deste género em Portugal, era natural que nem tudo corresse bem. Urge, contudo, salvar a credibilidade deste processo para que não tenha sido tudo em vão.

É por isso com muito agrado que vejo, por entre algumas críticas duras, palavras conciliatórias nesta entrevista de Laborinho Lúcio ao Observador, recusando quase sempre imputar má vontade aos bispos que têm dito coisas infelizes e elogiando muito claramente a coragem da Igreja de se deixar escrutinar desta forma.

Tenho sugerido que a Comissão e os bispos se voltem a encontrar para falar. Algumas pessoas me têm dito que isso não é cada vez menos provável. Mantenho a esperança de que impere de ambos os lados o bom senso de resgatar a credibilidade de todo este processo para benefício das vítimas, sobretudo.

Friday, 17 February 2023

O relatório, obviamente

Há sempre quem prefira fechar os olhos
Já saiu o relatório, e não se fala de outra coisa. Também eu passei os últimos dias a analisar o tema e tenho já vários textos e comentários escritos sobre ele.

Aqui podem ser as minhas primeiras reflexões sobre o relatório e as suas conclusões. Tentei, na medida do possível, relevar questões e pontos que não tinha visto sublinhados noutros locais.

Nestas alturas há sempre duas atitudes a tomar. A de abertura às críticas, procurando absorvê-las para crescer com elas e tornar a Igreja mais pura, mais santa, e a atitude contrária, de entrincheiramento, de rejeição, de suspeição sobre tudo o que é mais crítico. Esta segunda atitude já se começou a manifestar, alimentada por quem pensa que a Comissão e o relatório mais não são do que um instrumento de ataque à Igreja. É pena. Nessa linha muitas pessoas têm-se escudado num artigo espanhol que lança muitas dúvidas sobre o rigor do relatório e da sua metodologia. Achei que seria pertinente escrever um texto a analisar esse tal artigo espanhol e a mostrar porque é que discordo do cepticismo do autor.

Isto não significa que o relatório não tenha falhas e fraquezas. Nas reflexões sublinho algumas, mas que não são directamente culpa dos autores, mas neste texto mostro como alguns dos dados do relatório, nomeadamente as tabelas que pretendem mostrar o número de abusadores e a sua classificação, estão mal feitos, incompletos e incluem erros básicos.

Também escrevi sobre o relatório para o jornal online The Pillar.

O episódio desta semana do Hospital de Campanha é naturalmente sobre este tema. O Octávio Carmo ajudou-me a dissecar o relatório e a sublinhar os seus principais pontos. Ouçam, que vale muito a pena!

Entretanto, partilho convosco a iniciativa de um grupo de católicos que está a promover a realização de vigílias de oração em várias cidades do país na noite de Quarta-feira de Cinzas. Já há local para Lisboa, Oeiras e Santarém. Se mais alguém quiser organizar na sua vila ou cidade, avisem-me que eu meto a informação no post.

Especialmente numa altura destas, é preciso também ir procurar fontes de inspiração. O artigo desta semana do The Catholic Thing fala de como aquilo que nos define não são as nossas preferências ou fantasias, mas sim o amor infinito de um Deus que corre loucamente atrás de nós cada vez que nos desviamos do caminho. Leiam, é um bálsamo.

Tuesday, 14 February 2023

Reflexões sobre o Relatório da Comissão Independente

Neste artigo vou referir aspetos do relatório que me parecem interessantes mas que não tenho visto sublinhadas na maioria da comunicação social. O relatório pode ser consultado na íntegra aqui

Para quem lê inglês, convido a ver o meu artigo para o The Pillar, sobre o relatório. Podem ainda assistir ao meu comentário na SIC Notícias, cerca das 8h20 de terça-feira, e na sexta-feira estarei no programa da Ecclesia, na RTP2. 

Testemunhos – 4812 vítimas. Este número em si, diz pouco, sobretudo na medida em que é uma estimativa, e uma estimativa que certamente peca por defeito. Mais do que o número total de vítimas, que nunca vamos conhecer, impressiona ler os testemunhos de quem sofreu abusos. Há muitos testemunhos que são especialmente emotivos, mas o que mais me assombrou foi a do rapaz que foi violado, juntamente com colegas, numa viagem de finalistas do sexto ano (Pg. 233). A descrição de como os rapazes se consolaram, da impotência que sentiam perante o abusador, é aterradora. Não chego ao ponto de dizer que toda a gente deve ler esse e outros testemunhos do relatório, mas que deve ser leitura obrigatória para clérigos e para todos os que trabalham com crianças e pessoas vulneráveis, sim. Estou apenas a sublinhar um dos testemunhos que mais me marcou, há outros tão ou mais impressionantes e muitos estarão ainda por contar.

Sete – Este relatório tem muitos números, e muitos deles impressionam. Mas o "sete", que se refere ao número de vítimas que se calcula terem-se suicidado é um que deve ficar para sempre gravado na nossa memória.

O relatório – Um dos grandes pontos a reter deste relatório é a existência do relatório em si. Não nos podemos esquecer que para muitos bispos, e outros na Igreja, a criação de uma Comissão Independente era vista como desnecessária, ou como um ataque à Igreja. As dioceses, dizia-se, já tinham as suas próprias comissões, a que qualquer um poderia recorrer. Ora, só em dez meses a Comissão Independente recebeu dezenas de vezes mais testemunhos do que todas as comissões diocesanas juntas em dois anos ou mais. A Igreja pode não ter culpa, e pode até ter as melhores intenções, mas as vítimas simplesmente não confiam nela e nas suas comissões – algumas chefiadas por bispos o padres – para acolher e tratar as suas denúncias. Nesse sentido, e por mais defeitos que tenha – e tem alguns, que já veremos – a existência do relatório é uma vitória e comprova a necessidade de se ter criado a Comissão Independente.

Colaboração – Portugal não é o primeiro a ter uma Comissão a estudar a problemática dos abusos sexuais na Igreja, e se Deus quiser não será o último. Eu tenho acompanhado esta questão em vários países e por isso posso dizer que é verdadeiramente admirável e assinalável a forma como a Igreja e a Comissão colaboraram pacificamente ao longo do ano que passou. Há mérito dos dois lados, mas merecem elogios os membros da Comissão que sempre fizeram questão de sublinhar e agradecer a forma como os bispos lhes facilitaram a vida, e de dizer que este problema dos abusos é um fenómeno social, em primeiro lugar, e não deve se deve tomar a parte pelo todo. Esta colaboração não impediu, porém, os membros da Comissão de criticar os bispos onde isso lhes pareceu necessário. Uma das grandes vantagens disto é o facto de ser impossível a quem quer que seja na Igreja que tenha dois dedos de testa reclamar de uma caça às bruxas, ou uma perseguição anticlerical. 

Bom senso - Noutros países estes relatórios têm servido para fazer exigências e recomendações estapafúrdias ou simplesmente persecutórias, como apelar ao fim do celibato como medida para combater os abusos, ou sugerir leis que obriguem os padres a violar o segredo da confissão. Não foi surpreendente, tendo em conta os sinais dados pela Comissão ao longo dos meses, mas é bom ver que este relatório evita essas tentações. [Já me chamaram atenção para o facto de, ao contrário do que aqui escrevi, o relatório sugerir que a Igreja "reveja" a questão do selo da confissão. Ainda assim, uma sugestão de revisão é diferente de um pedido explícito para acabar com ele, como aconteceu noutros lados.]

Falta de colaboração – Não há regra sem excepção. É incompreensível que ao longo de dez meses um bispo, o de Beja, e um administrador apostólico, de Setúbal, não tenham acedido às tentativas de contacto dos membros da comissão. O relatório cita ainda um bispo que não identifica – mas cuja identidade torna evidente com a informação que disponibiliza – que claramente não está alinhado com o resto do episcopado no que diz respeito à urgência desta questão, e continua a alimentar a teoria da vitimização da Igreja, mas ele pelo menos aceitou ser entrevistado. Os outros dois, nem isso. Não sei mais detalhes, porque o relatório também não os fornece, mas espero que esta informação seja comunicada à CEP e a Roma e que seja tomada devida nota, a não ser, claro, que haja algum factor atenuante que não conhecemos.

25 e 100+ – Estes são dois dos dados mais significativos do relatório e devem ser lidos em conjunto. Foram enviados 25 relatos para o Ministério Público, por haver indícios de crime não prescrito. Contudo, a Comissão sublinha a improbabilidade de uma parte significativa destes casos poderem ser efectivamente investigados, por falta de informação. É importante notar que estes 25 relatos não dizem necessariamente respeito unicamente a padres, nem a 25 abusadores diferentes. Pode haver leigos à mistura, e pode haver múltiplos casos ligados a um só abusador. Depois, foi dito – já em entrevistas, e não na conferência de imprensa – que a lista que vai ser enviada à CEP com os nomes de padres suspeitos de terem cometido abusos e que estão ainda no activo tem mais de 100 nomes.

Ora, juntando as duas peças, podemos concluir que a esmagadora maioria dos suspeitos nessa tal lista cometeram os seus abusos há tempo suficiente para terem prescrito. Isto leva a crer – embora não possamos ter a certeza – que uma quantidade considerável desses casos dizem respeito a eventos passados há várias décadas e que muitos dos padres envolvidos possam estar já na idade da reforma, ou perto, e talvez até já sejam de idade avançada.

Obviamente isso não significa que não se investigue, mas devemos ter em conta que o facto de haver uma lista com mais de 100 padres activos não implica que exista uma centena de ameaças actuais dentro da Igreja.

Prescrições e expulsões – Esta manhã, em entrevista à SIC Notícias, perguntaram-me o que achava que a Igreja devia fazer com a tal lista de mais de cem nomes de potenciais abusadores. O mais fácil, neste momento, é apelar à expulsão imediata do ministério sacerdotal, mas essa pode não ser a melhor solução. Em primeiro lugar, é preciso avaliar e determinar se a alegação é credível. Não nos esqueçamos que houve mais do que um caso nos últimos anos em que um padre suspeito foi de imediato suspenso enquanto o assunto era investigado, tendo-se concluído pela impossibilidade da prática daquele crime. A presunção da inocência continua a ser um bem valioso.

Felizmente, não obstante a presunção da inocência, a Igreja tem mais margem de manobra nestes casos do que o Estado. O Ministério Público investiga e se encontrar indícios leva a tribunal e daí pode resultar uma absolvição ou uma condenação. No caso da Igreja, porém, pode-se determinar que a denúncia é credível, ainda que não seja possível prová-la sem margem para dúvida e, perante esses dois factos, tomar medidas para, jogando pelo seguro, afastar o padre de qualquer contacto com pessoas vulneráveis, obrigá-lo a receber acompanhamento psicológico, etc.,

O que deve então a Igreja fazer com os padres sobre os quais pendem suspeitas credíveis, ainda que os crimes tenham prescrito civilmente, ou que não seja possível provar a culpabilidade sem margem para dúvidas? Nesses casos a expulsão do estado sacerdotal pode até ser a solução mais fácil, mas não é necessariamente a melhor. É que um padre abusador cujo crime tenha prescrito e que seja demitido – por imposição ou por vontade própria – do estado clerical, deixa de estar sob a alçada da Igreja e já não pode ser punido civilmente. Fica, assim, livre para seguir a sua vida. A Igreja fica com menos uma dor de cabeça, mas a sociedade não fica mais segura. Aqui, pede-se por isso que a Igreja evite as soluções fáceis e que continue a manter a segurança das potenciais vítimas sempre no centro do seu agir e das suas preocupações. 

Distribuição geográfica – O relatório é bom, mas tem fraquezas. A principal, a meu ver, é a total falta de representatividade de algumas dioceses, sobretudo as do norte e centro interior do país, bem como Angra e Funchal. Olhando para o mapa que o relatório disponibiliza na página 118, a realidade é aflitiva. Há vários distritos de onde a Comissão recebeu menos de cinco chamadas, da Madeira recebeu zero. (O que não significa que não tenham sido feitas denúncias relativas a essas dioceses.)

Isto não põe em causa a validade dos testemunhos já recebidos, mas deixa o relatório e a Igreja abertos a críticas por os números finais não serem fiáveis. Por tudo isto é ainda mais urgente a criação de uma segunda comissão, de preferência permanente, que vá aprofundando estes resultados e para que outras vítimas, que ainda não tiveram a coragem, se possam apresentar.  

Números confusos – Uma outra crítica a fazer ao relatório é que, apesar de milhares de dados, há informações bastante básicas que não constam. Em lado nenhum, por exemplo, se refere o dado dos mais de 100 padres ainda no activo, que Pedro Strecht depois mencionou em entrevistas. Mas há mais. Em lado nenhum se refere o total de padres suspeitos. Existe uma série de tabelas que permite calcular por alto o número, nas páginas 385-388. Nestas tabelas pode ver-se o número de casos que a Comissão encontrou em cada diocese. Está lá o total de casos revelados nos testemunhos, o total de casos reportados pelas próprias dioceses e o total de casos encontrados pelo grupo de investigação histórica. A metodologia depois repete-se para as ordens religiosas masculinas, femininas e algumas instituições, como escuteiros e Opus Dei. Uma vez que existe o risco de duplicação de casos, existe uma outra coluna que mostra quantas duplicações é que há, o problema é que não se percebe se a duplicação é com leigos ou padres, etc.,

Ainda assim, fazendo as contas cheguei à seguinte conclusão: Os casos no relatório incluem 497 abusadores, dos quais 414 padres/religiosos, 79 leigos e 4 freiras.

Se detectarem algum erro com os números digam-me… Não esquecer que sou de humanidades.

E os bispos? – Apresentado o relatório, que dizer dos bispos? Tanto quanto vi, até porque não são referidos nomes de dioceses ou locais, para proteger identidades, o relatório não permite concluir se existe forte suspeita de algum bispo ainda em funções ter encoberto conscientemente algum caso de abusos. Contudo, caso a comissão tenha algum dado que aponte nesse sentido, isso deve ser comunicado tanto à CEP como à nunciatura, e devem ser tiradas as devidas consequências.

Outro dado interessante é que o relatório refere que, quando chamados a identificar os seus abusadores, menos de 1% respondeu “chanceler, capelão, bispo ou diácono”. Sendo que 1% de 512 é 5.1, isto permite concluir que terá havido uma denúncia para cada uma dessas categorias. Nesse caso, levanta-se a questão de saber quem foi o bispo que foi denunciado? Ainda é vivo? Foi denunciado por abusos, ou por encobrimento? Certamente não será a comissão a referi-lo – e nem sabemos se o tal bispo foi identificado – mas a pergunta fica no ar.

Thursday, 20 October 2022

Abusos na Igreja em Portugal – O que aprendemos até agora

Pedro Strecht, da comissão independente
Têm sido um verão e um outono quentes para a Igreja portuguesa no que diz respeito a abusos sexuais cometidos em ambiente eclesial.

Muitos casos novos, muitas acusações, muitas investigações. Penso que vale a pena fazer agora um pequeno apanhado do que sabemos e do que aprendemos até agora.

A comissão independente fazia falta

Esta é a primeira grande conclusão. Repare-se que o ano passado já existiam comissões em todas as dioceses de Portugal. Contudo, e segundo o que transparecia, só tinham sido reportados poucos casos. A criação da comissão independente, liderada por Pedro Strecht mudou tudo. Segundo a última conferência de imprensa da comissão já foram validados mais de 400 testemunhos. Isto só pode querer dizer uma coisa. As pessoas – bem ou mal – não confiam nas comissões diocesanas. Não acho que isto tenha a ver com a personalidade dos bispos ou dos membros particulares destas comissões, tem a ver com a sua própria natureza. Uma comissão liderada por um bispo, como acontece em algumas dioceses, ou por um padre, não pode ser considerada independente e para o comum dos mortais isso será sempre visto como a Igreja a investigar-se a si mesma.

O resultado é que quando foi criada a comissão independente as acusações surgiram em muito maior número. E atenção que, segundo ouvi dizer, a esmagadora maioria dos testemunhos recebidos pela comissão são do litoral e das cidades, o que significa que o número real até pode ser bem maior.

Não sei se o fizeram contrariados, ou se houve divisões internas, nem isso interessa agora. O que é facto é que os bispos portugueses optaram por criar a comissão e em boa hora o fizeram. O próprio Pedro Strecht diz que as dioceses estão a colaborar e que não existe qualquer pressão sobre a comissão. Ainda bem! É bom sinal.

Endémico

Na mesma conferência de imprensa Pedro Strecht usou uma palavra muito importante. Não vi a maioria dos órgãos de comunicação social a fazer grande caso, mas a mim parece ser fundamental. O número de casos permite concluir que o problema dos abusos, em alguns locais, se tornou “endémico”.

Esta é a palavra fatal. Abusos sempre terá havido, em todos os quadrantes da sociedade, todas as classes, todas as profissões. E por mais que o desejemos, dificilmente conseguiremos um mundo em que deixe de haver. Isso não é nada de novo. A questão sempre foi saber se o que tínhamos em Portugal eram casos pontuais, que foram tratados de forma melhor, pior, ou de todo, ou se tínhamos um problema em maior escala, um problema de cultura de abusos e de encobrimento. O termo usado por Strecht é por isso da maior importância porque permite concluir que em Portugal, em muitos lugares, o problema chegou mesmo a ser de uma cultura de abusos, que não se podem resumir às más acções de um homem desequilibrado.

Apenas o relatório final nos permitirá saber o verdadeiro grau deste problema endémico, e em que lugares isso acontecia. Mas quebra-se o mito, de facto, de Portugal ser uma exceção ao que se passou em vários outros países.

A Igreja está a aprender

Isto é fundamental. Há meses que escrevo, digo, e insisto que um dos grandes problemas da parte da Igreja tem sido falhas de comunicação. Sei agora que isso está a mudar. Os bispos já se estão a aconselhar junto de quem sabe. Nos últimos tempos pelo menos três dioceses que têm sido mais faladas a este respeito contrataram, ou pediram ajuda a, especialistas em comunicação.

Não se trata certamente de arranjar formas de iludir o público, ou disfarçar problemas, mas antes de não agravar problemas sérios, como são os abusos, com respostas mal pensadas, coisas ditas sob pressão e falta de linhas de conduta no que diz respeito à informação prestada.

Dou um exemplo prático, para que isto não fique só no abstrato. Critiquei comalguma dureza a falta de uma linha orientadora do Patriarcado de Lisboa na comunicação de casos. Em Agosto anunciaram um caso, no dia em que ia ser publicada uma reportagem sobre esse mesmo padre. Dias depois soube-se, de fonte da comissão diocesana, que havia também outro caso em investigação. Porque é que um foi alvo de comunicado e outro não? Obviamente tinha sido porque o primeiro caso ia sair na imprensa e o Patriarcado quis antecipar-se. Mais tarde foi dito que de facto havia um segundo caso, mas que este seria comunicado publicamente quando chegasse uma decisão de Roma. Entretanto, há dias, o Patriarcado chegou mesmo a publicar uma nota sobre esse caso, que envolvia o pároco de Massamá. Obviamente eu, e outros, suspeitámos que o faziam mais uma vez porque estava prestes a sair uma reportagem, mas, entretanto, soube que não. Fizeram-no, por sua livre iniciativa, cumprindo assim o desígnio da transparência que tanto se exige, e assumindo assim o controlo da narrativa, evitando ter de estar sempre a reagir à agenda mediática.

Esta é a melhor estratégia e a mudança revela humildade, vontade de aprender e de adoptar melhores práticas.

Ainda há muito para saber, e há muito para aprendermos todos. Que todos – bispos, clero, leigos, jornalistas e especialistas em comunicação – o saibamos fazer com amor à verdade e em vista do melhor para a Igreja e para as vítimas, sejam elas pessoas que foram abusadas, sejam elas pessoas que foram falsamente acusadas.

Mais sobre este assunto dos abusos na Igreja

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 1

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 2

Hospital de Campanha - Os casos de D. Ximenes Belo e de D. José Ornelas

Cronologia de casos de abusos na Igreja em Portugal

Contributos para uma reflexão sobre casos de abusos na Igreja

Bons sinais da comissão independente

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