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Wednesday, 12 April 2023

Alimentando os caprichos de uma elite burguesa

Randall Smith
Tenho o privilégio de leccionar a cadeira de Justiça Social Católica. Agradeço que não me escrevam para se queixar.

Lamentavelmente, há quem tenha reduzido a visão alargada e abrangente da tradição de justiça social da Igreja a pouco mais do que uma preocupação com “sistemas”, “estruturas” e “acção governamental”. Mas eu não tenho culpa disso, e a Igreja certamente também não. Esta reductio ad absurdum é uma triste corrupção da majestosa visão moral desenvolvida ao longo de séculos por algumas das maiores mentes da Igreja.

E note-se que a reflexão da Igreja sobre os princípios e requisitos da “justiça natural” não começou apenas com o Papa Leão XIII e a Rerum Novarum. A preocupação com o bem comum, sobretudo com as necessidades dos pobres, sempre marcou a Igreja. Dizer o contrário implica desconhecer – e contradizer – séculos de pensamento político cristão. 

Dito isso, há duas confusões que infelizmente costumam marcar as conversas sobre a “justiça social” católica. Em primeiro lugar, para além de associar “justiça social” apenas a “sistemas” e “estruturas”, os activistas de justiça social tendem a esquecer-se que não existe justiça “social” se não formarmos uma massa crítica de cidadãos nas virtudes da justiça e da preocupação com o bem comum. O “sistema” é composto por pessoas, e se as pessoas não têm virtude, então não existe forma de o “sistema” ser justo.

Por isso, por exemplo, todas as universidades que se consideram centros de “justiça social” deviam ser avisadas de que se aquilo que as anima são os princípios modernos de autodeterminação e individualismo, então estão a falhar com o compromisso de preparar os alunos para um compromisso com a justiça social e o bem comum. Se pensam o contrário, estão a enganar-se a si mesmos.

Infelizmente, muitas das universidades católicas de “topo”, com as suas propinas altíssimas, gabinetes de direcção forrados a madeiras caras, associações de ex-alunos de luxo e complexos desportivos milionários estão a deixar-se levar por esta mentira: de que podem treinar os seus alunos a serem individualistas mas, ao mesmo tempo, manter viva a sua devoção morna à “justiça social” e “preocupação pelos pobres”. 

O segundo erro, igualmente lamentável, está em não perceber que na base de qualquer possibilidade de “justiça social” têm de estar famílias fortes e estáveis, que possam ser viveiros de virtude. Este erro é particularmente grave na medida em que a família ocupa um lugar proeminente em todos os grandes documentos sobre justiça social.

Na Constituição Pastoral do Concílio Vaticano Segundo sobre a Igreja no Mundo Moderno (Gaudium et Spes), o primeiríssimo “problema mais urgente” que é abordado é a “Promoção da Dignidade do Matrimónio e da Família”. No Compendio da Doutrina Social da Igreja, depois de elencar alguns princípios gerais (“dignidade da pessoa humana”, “bem comum” e “subsidiariedade”), a primeira secção, antes ainda do “Trabalho”, “Vida Económica” e “A Comunidade Política” é “A Família, Célula Vital da Sociedade”.

Como se vê nestes documentos, e como João Paulo II repetiu incessantemente, é na família que aprendemos a fé e desenvolvemos as virtudes. É na família que aprendemos a cuidar de outros, e não apenas de nós mesmos. Sem famílias fortes não conseguimos ter comunidades fortes caracterizadas por preocupação mútua pelo bem comum, tal como não podemos ter um corpo saudável quando as nossas células estão cheias de químicos tóxicos.

E é por esta razão que me faz tanta confusão ouvir pessoas como o cardeal McElroy e os bispos dedicados ao “Caminho Sinodal” alemão. Quem é que imagina que se pode minar os ensinamentos centrais e fundacionais da Igreja sobre o casamento e a família e, ao mesmo tempo, apoiar a “justiça social Católica”?

Será que pensam que nos podemos submeter ao zeitgeist (o espírito do tempo) individualista e, ainda assim, preservar a preocupação social pelos pobres e pelo bem comum? Será que quando jogam Jenga também puxam as peças da base sem esperar que a coluna inteira se desmorone?

No mínimo, seria de esperar que um clero que está farto de levar porrada por causa de um escândalo de abusos sexuais que já dura há décadas, quereria dedicar-se a qualquer outro assunto do que a promoção de atitudes menos restritivas para com a sexualidade. É um pouco como ver o Jeffrey Epstein a fazer campanha para baixar a idade de consentimento para sexo com raparigas para tentar evitar uma condenação. É mesmo este o caminho que querem seguir?

Talvez se aplique a estes funcionários eclesiásticos um termo que era muito popular entre socialistas do Século XVIII: são completamente burgueses. Quem é que passa muito tempo a preocupar-se com a sua psicologia sexual? Ou com a ordenação de mulheres? Ou pensando, num exercício de umbiguismo, nas “estruturas de Governo” na Igreja?

Não são os pobres. Esses estão demasiado preocupados a tentar alimentar corpo e alma, e a ganhar dinheiro para suportar as suas famílias por mais um dia. Não, estas são obsessões típicas de intelectuais burgueses que acotovelam toda a gente para tentar maximizar os seus próprios interesses e para apoiar as identidades autocriadas de pessoas que partilham o seu estilo de vida. Acham que governam por direito divino e não são particularmente tolerantes de quem os desafia.

É verdade que o episcopado alemão tem uma longa tradição de, salvo algumas honrosas excepções, alinhar e conviver com as forças dominantes da sociedade e política alemã.  Mas como será com a Igreja americana? Qual quer a nossa resposta? Escolas para as famílias dos operários pobres? Ou escolas para pais burgueses de classe média-alta cuja principal preocupação são casas de banho para transgéneros?

Esforços incansáveis para apoiar casamentos e famílias com crianças, sobretudo crianças com deficiências, que a cultura preferia que fossem abortadas? Ou uma fuga envergonhada a todos esses assuntos “impopulares”, preferindo os que interessam mais à elite burguesa que detém o dinheiro e o poder?

Já sabemos para que lado pendem a maioria das universidades católicas. São poucas as que estão dispostas a ofender quem tem dinheiro, poder ou prestígio, em favor do operariado pobre. Mas, e o resto da Igreja? Sobretudo aqueles que devem ser os sucessores de Pedro? Como será? Cristo ou o zeitgeist?



Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 21 de Março de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 7 April 2023

Para alguns cristãos toda a vida é uma Sexta-feira Santa

Sexta-feira Santa é amanhã, mas para alguns cristãos parece que todos os dias são uma longa Via Sacra. Falo por exemplo dos cristãos da Ucrânia, que se preparam para viver a sua segunda Semana Santa desde a invasão de Fevereiro de 2021. Juntei aqui links para uma série de reportagens feitas no terreno por um excelente jornalista português. A minha sugestão é lerem uma por dia durante o tríduo pascal.

Na Nicarágua a vida também parece estar parada na Sexta-feira Santa, mas Vias Sacras não as há, porque o Governo não deixa. Isso não impede os fiéis de encontrarem esperança e sustento na Eucaristia. Não deixem de ler também esta fascinante entrevista a um dos padres que acompanhou o arcebispo Rolando Álvarez na prisão durante meses e que acabou por ser exilado para os Estados Unidos. Ele explica como era a vida na prisão e como os detidos animavam os outros presos e buscavam forças na oração do terço. É um testemunho de fé impressionante, publicado no The Pillar.

Por cá a nossa Quaresma tem sido marcada pela questão dos abusos. No Porto um grupo de fiéis organizou-se e está a pressionar o bispo para tomar decisões mais firmes, frustrados por D. Manuel Linda não ter afastado preventivamente quatro dos padres que constavam da lista que recebeu da Comissão Independente, apesar de pelos vistos ter enviado os seus processos directamente para o Dicastério para a Doutrina da Fé, em Roma. Já em Lisboa, como sabemos, houve grande revolta entre fiéis e clero pelo Patriarcado ter afastado preventivamente o padre Mário Rui Pedras. Duas posições antagónicas, críticas semelhantes. Escrevi sobre isso para o The Tablet.

Aproveitando que esta questão dos abusos tem estado um pouco mais calma por cá, passei vários dias a actualizar esta lista completa e detalhada dos casos que existem em Portugal, e o que sabemos sobre cada um deles, com estatísticas e informação organizada por diocese. A par disto vou mantendo também a cronologia de casos, actualizada agora com a notícia de um padre suspeito de abusos em Braga que foi apanhado com uma arma ilegal em casa.

Há dias estive no “Explicador” da Rádio Observador para falar sobre o Caminho Sinodal alemão. Podem ouvir e ler as minhas ideias sobre o assunto aqui.

Há milénios que os filósofos tentam produzir provas para a existência de Deus. Mas Randall Smith argumenta que provar a existência de um Deus é secundário. Importante é saber que Deus é amor. Mas como é que se fala de Deus a quem nem no amor acredita?

E com isto termino, pedindo-vos que tenham sempre presente que aquilo que celebramos nesta Semana Santa não é o sofrimento, nem é apenas o milagre da Ressurreição, mas sobretudo o amor. O amor que foi até ao fim na fidelidade, o amor que sofreu, porque amar custa, e o amor que triunfou sobre a morte, porque o amor supera o ódio e o pecado.

Monday, 3 April 2023

O Caminho Sinodal Alemão

Participei hoje no programa "O Explicador", da Rádio Observador, para falar sobre o Caminho Sinodal alemão. 

Durante a minha participação tentei passar os seguintes pontos importantes: 

1. O caminho que a Igreja alemã está a trilhar é tirado a papel químico do caminho percorrido pela Igreja Anglicana ao longo das últimas décadas. O fim, se as coisas continuarem assim, prevê-se idêntico: uma divisão quiçá insanável na Igreja Universal.

2. A importância do dinheiro. Na Alemanha continua a existir uma relação promíscua entre a Igreja e o Estado. Quem é católico paga um excedente de impostos que são depois enviados para a Igreja. Quem não tem religião declarada fica com esse dinheiro no bolso. Isso dá aos alemães um incentivo para se desvincularem da Igreja e quanto mais esta está distante dos valores mainstream da sociedade, mais estes se desvinculam, resultando numa perda de receitas para os cofres da Igreja. Existe assim um incentivo particular para os bispos estarem "em sintonia" com os valores da sociedade, pois o contrário sai-lhes do pêlo, ou do bolso. 

3. A Igreja alemã está claramente a avançar a este ritmo para criar factos no terreno para depois, quando os assuntos forem discutidos num sínodo da Igreja Universal, poderem dizer que as coisas já estão feitas e não há nada a fazer sobre o assunto. 

Podem ouvir o programa completo aqui.


Wednesday, 27 April 2022

A Resposta Alemã

Stephen P. White
A semana passada 70 bispos de vários países escreveram ao bispo Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, para expressar a sua crescente preocupação com o rumo do “Caminho Sinodal” alemão. (Entretanto outros bispos acrescentaram os seus nomes à carta.) Tratou-se da mais recente de uma série de intervenções a pedir aos alemães para pôr o pé no travão. A resposta do bispo Bätzing, publicada três dias mais tarde, não contribuiu muito para apaziguar essas preocupações.

Na verdade, o bispo Bätzing mostrou-se mais preocupado em descartar do que em confrontar as críticas. Disse-se mesmo “espantado” com as preocupações dos seus irmãos bispos em relação ao Caminho Sinodal, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta que o mesmo género de preocupações tem sido expressado publicamente por outros, incluindo os bispos nórdicos, os bispos polacos (em mais do que uma ocasião) e até pelo próprio Papa Francisco.

Segundo Bätzing, o Caminho Sinodal “é precisamente orientado não por teorias sociológicas ou ideológicas, mas rumo às fontes centrais de conhecimento da fé: Escritura e Tradição, o Magistério e Teologia, bem como o sentido de fé dos fiéis e os sinais dos tempos, interpretados à luz do Evangelho”.

“Esta orientação básica”, continua o bispo Bätzing, “determina as considerações do Caminho Sinodal numa cuidadosa reflexão teológica. Logo, não é correcto dizer que existe um perigo de cisma a emanar da Igreja Católica na Alemanha”.

Claro que a preocupação manifestada pelas recentes intervenções episcopais não é de que o Caminho Sinodal tenha deixado de “reflectir” sobre a “Escritura e a Tradição, o Magistério e a Teologia”, mas que a visão germânica destas “fontes centrais” diverge de – e é mesmo incompatível com – o resto da Igreja. A confiança cega nas visões divergentes não diminui o perigo de cisma, muito pelo contrário.

É importante compreender o grau em que a crise dos abusos sexuais moldou o Caminho Sinodal alemão. O bispo Bätzing traça uma ligação clara entre a crise de abusos que abalou o seu país nos últimos anos e a necessidade de reformas significativas. “O Caminho Sinodal”, escreve Bätzing, “é a nossa tentativa, na Alemanha, de confrontar as causas sistemáticas da crise dos abusos e do seu encobrimento, que causou um sofrimento incomensurável a tanta gente na Igreja e através da Igreja.” É uma posição compreensível, e claramente partilhada por muitos na Alemanha”.

À luz desta realidade, algumas das reformas a ser consideradas ou propostas pelo Caminho Sinodal fazem sentido. Por exemplo, reformar o processo de nomeação dos bispos, a formação dos seminaristas e como são tratados os casos de abusos praticados por padres. Estes são assuntos evidentes, se bem que complexos, com os quais muitas igrejas se têm debatido, e continuarão a debater-se durante muitos anos. A Igreja nos Estados Unidos tem a Carta de Dallas há já duas décadas e continuamos a lidar com estas mesmas questões.

Por mais complicadas que sejam algumas destas questões, a criação de padrões de responsabilização, a reforma das nomeações episcopais ou a formação dos seminaristas são, de certa forma, a parte mais fácil. Mudar a cultura clericalista que instintivamente protege os seus é muito mais difícil. O abuso de poder não é um problema que se possa eliminar simplesmente passando o poder de um grupo (clero) para outro (leigos), como se os leigos fossem de alguma forma imunes à tentação de abusar da autoridade. Claro que a concepção da Igreja pela perspectiva do “poder” é, em si, um grave erro.

Na sua carta de 2019 à Igreja alemã, o Papa Francisco alertou para uma espécie de pelagianismo que espera “salvar” a Igreja através de reformas estruturais e organizacionais: 

Seguindo este caminho, a Igreja poderia eliminar tensões da sua vida, estar “em ordem e em sintonia”, mas isso significaria apenas que com o passar do tempo a Igreja adormeceria e o coração do nosso povo ficaria amestrado e mirrado até que a força vital e evangélica que o Espírito nos quer conceder se silenciasse. Este seria o grande pecado da mundanidade e do espírito antievangélico mundano. Teríamos uma Igreja boa, bem-organizada e até “modernizada”, mas sem alma e sem a novidade do Evangelho. Viveríamos num cristianismo vaporoso, sem sabor evangélico.

O Papa Francisco tem feito declarações semelhantes no passado a bispos americanos. As reformas organizacionais são importantes, mas a conversão – e mesmo a evangelização – são mais essenciais.


Por mais que se fale na necessidade de uma reforma sem medos, na sequência da crise de abusos, as propostas mais controversas que nos chegam do Caminho Sinodal alemão não têm qualquer relação evidente com esta crise de abusos. Na verdade, muitas das recomendações que saíram da última sessão do Caminho Sinodal são idênticas ao cardápio de assuntos que os católicos progressistas têm estado a propor há décadas: acabar com o celibato, ordenar mulheres, abandonar os ensinamentos da Igreja sobre a natureza da sexualidade e dos actos humanos (isto é, deixar de parte as proibições “antiquadas” da Igreja sobre a contracepção e os actos homossexuais).

Uma Igreja que perdeu a fé nos seus próprios ensinamentos não pode anunciar o Evangelho de forma credível. E a solução não passa por escolher ensinamentos mais socialmente aceitáveis. A fé na Alemanha não será ressuscitada por uma Igreja que vê nos seus próprios ensinamentos obstáculos a ultrapassar, em vez de uma Boa Nova a proclamar.

E esse é outro ponto que o Papa Francisco levantou com os bispos alemães. “A Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Sendo uma comunidade de crentes, uma comunidade de esperança partilhada e vivida, uma comunidade de amor fraterno, precisa de ouvir recorrentemente aquilo em que deve acreditar, as razões para a sua esperança, o novo mandamento do amor”.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja que escuta. Ouvimos isto vezes sem conta. Só podemos esperar que a Igreja alemã aprenda a “ouvir recorrentemente aquilo em que deve acreditar”, especialmente numa altura em que o número de bispos a sugerir cautela continua a aumentar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no sábado, 23 de Abrilo de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing 


Wednesday, 13 April 2022

De regresso do país dos cedros e preocupações sinodais

Nossa Senhora do Líbano,
em Harrissa
Estou de regresso a Portugal, depois de vários dias no Líbano, a conhecer projectos da fundação Ajuda à Igreja que Sofre naquele país. Foi uma experiência fantástica, mas pesada, que espero poder partilhar convosco em breve. Entretanto pode ficar aqui com uma boa ideia, através da entrevista que Catarina Bettencourt Martins, directora da AIS em Portugal e que também esteve presente, deu à Renascença.

Ontem a Comissão Independente que investiga os casos de abusos na Igreja em Portugal apresentou alguns números. São já 290 denúncias e 16 casos enviados para o Ministério Público. A cronologia que mantenho no blog foi devidamente actualizada.

Hoje é dia de novo artigo do The Catholic Thing. Devemos estar preocupados com o “Caminho Sinodal” na Alemanha? Dezenas de bispos no mundo pensam que sim, e assinaram uma carta aberta ao episcopado alemão, precisamente nesse sentido. O artigo da semana passada é de teor mais pessoal, com Stephen White a explicar porque é que a morte prematura do seu pai, em plena Quaresma, tornou esta época ainda mais especial para ele. A ler, sobretudo em vésperas do tríduo pascal!

Continuo a acrescentar, a um ritmo quase diário, excertos de discursos e homilias a esta lista de declarações de líderes religiosos sobre a guerra na Ucrânia. Recentemente coloquei excertos de uma longa carta de um padre da Igreja Ortodoxa da Ucrânia leal a Moscovo, que critica ferozmente a sua própria hierarquia. Vale mesmo a pena ir ver!

Também pode ver aqui a conferência “Para um Ecumenismo de Paz”, da Capela do Rato, em que participei no dia 30 de março, na companhia de figuras muito interessantes, incluindo um padre ucraniano, um moldavo e Paulo Portas.

Amanhã é dia de novo episódio do podcast “Hospital de Campanha”. Se ainda não ouviu o segundo, não perca a oportunidade. A próxima conversa é sobre a resposta dos portugueses à crise dos refugiados ucranianos, e é muito interessante!

70 Bispos Alertam para “Caminho Sinodal” Alemão

Francis X. Maier

Em tempos de desassossego e confusão, tentativas bem-intencionadas de descentralizar uma comunidade ou uma organização podem ter consequências indesejadas. A Igreja não é imune a este facto, e isso é algo que os católicos na Alemanha parecem determinados a comprovar.

Em declarações feitas à revista “Stern”, em finais de Março, o cardeal Reinhard Marx, de Munique, pareceu incentivar alterações ao ensinamento da Igreja em relação à homossexualidade. Reconhecendo que já abençoou casais homossexuais, Marx notou que “o catecismo não está escrito na pedra” acrescentando que “há anos que me sinto mais livre para dizer aquilo que penso, e quero modernizar o ensinamento da Igreja”.

Os comentários de Marx não nos devem surpreender. Estão em linha com o trabalho desenvolvido, até à data, pelo “Caminho Sinodal” alemão, um processo de consulta plurianual em curso na Alemanha. Embora não sejam vinculativos para os líderes da Igreja alemã, os documentos do Caminho Sinodal já expressaram apoio ao celibato opcional para os padres, para bênçãos para uniões homossexuais, revisão do ensinamento da Igreja sobre homossexualidade e ordenação de mulheres, e um papel maior para os leigos na nomeação de bispos.

Especialmente numa altura em que se está a preparar um “sínodo sobre a sinodalidade”, para 2023, o teor do Caminho Sinodal Alemão tem implicações profundamente perturbadoras e, para alguns, cismáticas. No dia 9 de Março os bispos dos países nórdicos expressaram a sua preocupação com o percurso alemão. Isto seguiu-se a uma carta pública divulgada em finais de Fevereiro pelo presidente da Conferência Episcopal polaca. Agora, numa carta de 11 de Abril tornada pública na passada segunda-feira e divulgada pela Catholic News Agency, mais de 70 bispos, incluindo quatro cardeais, dos Estados Unidos, Canadá e África, juntam as suas vozes ao coro de preocupações.

Na sua “Carta Aberta Fraterna aos Nossos Irmãos Bispos na Alemanha”, os signatários notam que “enquanto irmãos bispos, as nossas preocupações incluem, mas não se limitam ao seguinte”:

1. Ao não escutar o Espírito Santo e o Evangelho, as acções do Caminho Sinodal minam a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco; da antropologia cristã e moralidade sexual; e a fiabilidade das Escrituras.

2. Embora incluam ideias e vocabulário religioso, os documentos do Caminho Sinodal Alemão parecem ser inspirados, em grande medida, não pela Escritura e pela Tradição – que de acordo com o Concílio Vaticano II são “um único depósito da Palavra de Deus” – mas antes por análises sociológicas e ideologias políticas contemporâneas, incluindo de género. Eles vêem a Igreja e a sua missão da perspectiva do mundo, e não pela lente das verdades reveladas na Escritura e pela autoridade da Tradição da Igreja.

3. O conteúdo do Caminho Sinodal também parece reinterpretar, e por isso diminuir, o sentido da liberdade cristã. Para o cristão a liberdade está no conhecimento, na vontade e na capacidade desimpedida de fazer o bem. A liberdade não é “autonomia”. A verdadeira liberdade está, como ensina a Igreja, ligada à verdade e ordenada à bondade e, no final de contas, à beatitude. A consciência não cria a verdade, nem é uma questão de preferência pessoal ou autoafirmação. Uma consciência cristã bem formada mantem-se submissa à verdade sobre a natureza humana e às normas que orientam uma vivência recta, revelada por Deus e ensinada pela Igreja de Cristo. Jesus é a verdade, que nos liberta. (Jo. 8)

4. A alegria do Evangelho – que como o Papa Francisco tantas vezes sublinha é uma parte essencial da vida cristã – parece estar totalmente ausente das discussões e dos textos do Caminho Sinodal, uma falha gritante num esforço que procura a renovação pessoal e eclesial.

Cardeal Marx
5. Em quase todo o seu processo, o Caminho Sinodal é o trabalho de peritos e de comissões: cheia de burocracia, obsessivamente crítica e introspectiva. Assim reflecte uma manifestação alargada de esclerose eclesial e, ironicamente, é marcada por um tom antievangélico. Nos seus efeitos, o Caminho Sinodal revela maior submissão e obediência ao mundo e às ideologias que a Jesus Cristo enquanto Senhor e Salvador.

6. O enfoque do Caminho Sinodal no “poder” dentro da Igreja sugere um espírito absolutamente contrário à verdadeira natureza da vida cristã. No final de contas, a Igreja não é apenas uma “instituição”, mas uma comunidade orgânica; não é igualitária, mas familiar, complementar e hierárquica – um povo consolidado no amor por Jesus Cristo e uns pelos outros, em seu nome. Este encontro com Jesus, como visto no Evangelho e nas vidas dos santos ao longo da história, muda corações e mentes, cura, afasta-nos de uma vida de pecado e infelicidade e revela o poder do Evangelho.

7. O pior problema do Caminho Sinodal alemão, e o mais preocupantemente imediato, é terrivelmente irónico. Através do seu exemplo destrutivo, poderá levar alguns bispos e muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de “sinodalidade”, dificultando assim ainda mais a conversa necessária da Igreja sobre o cumprimento da missão de converter e santificar o mundo.

Num tempo de confusão, a última coisa de que a nossa comunidade de fé precisa é de mais do mesmo. Enquanto discernem a vontade do Senhor para a Igreja na Alemanha, asseguramos-vos das nossas orações por vós.

Embora reconhecendo que “muitos dos que estão envolvidos no Caminho Sinodal são sem dúvida pessoas de carácter excelente”, os bispos signatários notam que “a história do Cristianismo está recheada de esforços bem-intencionados que perderam a âncora da Palavra de Deus, num encontro fiel com Jesus Cristo” e numa “verdadeira escuta do Espírito Santo”. Entre esses esforços podemos incluir até a Reforma, que começou quase precisamente há 500 anos… na Alemanha.

O cerne da carta de 11 de Abril está aqui: “A urgência da nossa carta conjunta está enraizada em Romanos 12 e sobretudo na cautela deixada por Paulo: Não se conformem com o mundo. E a sua seriedade deriva da confusão que o Caminho Sinodal já causou e continua a causar, e o perigo de um cisma na vida da Igreja que inevitavelmente resultará”.

Como outros avisaram antes de nós: O que acontece na Alemanha não se fica pela Alemanha. A história já nos ensinou essa lição uma vez.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Abril de 2022)

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