quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O Sacrifício de Abraão

Randall Smith

Os críticos modernos da Bíblia têm dificuldade em aceitar a longa tradição na Igreja de crença em múltiplos sentidos “espirituais” de um texto. Isto não significa que a Escritura pode significar o que quer que nós queiramos. Os vários sentidos “espirituais” – alegórico, moral e anagógico – devem ter bases literais firmes. Mas as lições que aprendemos dos sentidos “espirituais”, especialmente aqueles que compreendemos à luz da vida, morte e ressurreição de Cristo transcendem aquilo que podia ter sido conhecido pelos autores originais.

Enquanto Criador, Deus pode “escrever” na história da humanidade através de eventos humanos. Ele pode transmitir o que quer dizer através de coisas, e não apenas de palavras. Por isso, Deus pode prefigurar o sacrifício de Cristo na Cruz através da sua ordem para que Abraão sacrifique o seu filho Isaac. Reconhecemos, em retrospetiva, que aquilo que Deus não estava disposto a pedir a Abraão – o sacrifício do seu próprio filho – era algo que Ele próprio faria por nós. É por isso que a passagem do “sacrifício” de Isaac (Génesis 22,1-18) faz parte das leituras da liturgia da Vigília Pascal.

O que o autor humano tinha em mente quando incluiu a história nas Escrituras é difícil de saber. Mas numa altura em que o sacrifício humano aos deuses era comum, este autor, inspirado pelo Espírito Santo, provavelmente queria clarificar que Deus não queria este tipo de sacrifício humano. O que Deus deseja é uma conversão interior de coração, não um sacrifício exterior, numa espécie de negócio, em que nós sacrificamos algo nosso para que Deus nos dê o que nós queremos. Não podemos comprar a vontade de Deus sacrificando um touro ou um bode.

De igual forma, se formos tentados a transformar a nossa ida à missa e observâncias religiosas num negócio com Deus – Eu faço X, ou sacrifico Y para que Deus me premeie com Z – então devemos considerar-nos abrangidos pela revolta de Cristo ao ver o templo do seu pai transformado num mercado. Não podemos comprar a vontade de Deus, sobretudo porque tudo o que temos foi-nos dado por Ele. Esta é outra das lições que devemos aprender com a história de Abraão e Isaac. A disponibilidade de Abraão para sacrificar o seu filho demonstra que ele compreende que tudo o que possui, no final de contas, pertence a Deus.

Mas também nos diz algo sobre a fé nas promessas de Deus, embora talvez não seja a lição que alguns comentadores pensem ter encontrado nessa passagem. No Século XVI Martinho Lutero elogiou Abraão pela sua obediência acrítica a Deus – pela “fé cega” demonstrada pela sua recusa de questionar se era certo matar Isaac. No final do Século XVIII, Immanuel Kant defendeu a perspetiva contrária, argumentando que Abraão deveria ter compreendido que uma ordem tão claramente imoral não poderia ter vindo de Deus. Para Lutero, a autoridade divina sobrepõe-se a qualquer posição racional ou moral, enquanto para Kant nada se sobrepõe à lei moral. Este é um debate que continua nos nossos dias.


Mas talvez não seja nada disto que a história tem para nos ensinar. Uma leitura “moral” clássica do texto talvez fosse algo como isto: Não há alturas em que temos mesmo a certeza de que conhecemos a vontade de Deus, quando nos parece evidente que estamos a cumprir os seus desígnios, e depois acontece algo mau? Não conseguimos o emprego que pensávamos ser perfeito para nós, ou perdemos a relação que tínhamos a certeza que Deus queria para nós. Morre um dos nossos pais. Uma pandemia atinge o mundo. “Como é que isto pode ser parte da providência de Deus?”, perguntamos. Encontramos corrupção e abusos na Igreja. “Como é que isto faz parte da promessa de Deus?”

Da mesma forma, Isaac é claramente a promessa que Deus tinha feito a Abraão. Então como é que pode parecer razoável sacrificá-lo? Talvez as palavras de Job sejam as mais adequadas: “O Senhor deu; o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor”. Não somos donos, somos administradores. A qualquer momento o dono da vinha poder voltar para pedir a colheita, ou para exigir os talentos que nos confiou, com juros. Pensamos, “porquê agora?” Perguntamos, como Kant, “a história não faria mais sentido se…?” Mas a história não é nossa. A história é de Deus. E não é irrazoável pensar que Ele a compreende melhor do que nós.

É claro, através dos Evangelhos, que Jesus não é o Messias que as pessoas esperavam. Mesmo o grande São Pedro disse a Deus feito homem (sem perceber a irracionalidade de Dizer ao Deus de Toda a Criação o que devia fazer): “Não podes ir para Jerusalém sacrificar-te na Cruz. Isso não faria sentido. Tens de ir de grande vitória em grande vitória, como eu as entendo”. Mas não era isso que Deus tinha em mente.  

Será irracional pensar que pode haver uma sabedoria maior a trabalhar no mundo do que a nossa? Ou seria irracional partir do princípio que isso não é possível?

Continuaríamos a ter de lidar com a questão de saber se o possuidor de tal sabedoria era benevolente. Mas se eu viesse a reconhecer que este Deus Criador amou de tal forma a humanidade que estava disposto a sacrificar o seu único filho por nós, então a minha disponibilidade para alinhar a minha vontade com a dele não seria uma questão de “fé cega” e obediência inquestionável. Seria o resultado de uma compreensão não desprovida de racionalidade do grande poder e sabedoria de Deus, por um lado, e uma resposta inteiramente sensata ao amor que Deus revelou através da sua disponibilidade para sacrificar o seu Filho, por outro.

Não precisamos de compreender os propósitos de Deus para acreditar que Ele os tem. Na verdade, é precisamente quando as nossas expectativas do que Ele tinha em mente chocam mais diretamente com aquilo que nos acontece que devemos recordar que Ele é Deus. E nós não.


 

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 11 de Agosto de 2021)

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1 comentário:

  1. É importante perceber que no Novo Testamento é explicado este episódio, com a indicação de que Abraão cria de tal forma em Deus que acreditava que Deus iria ressuscitar o seu filho após o sacrifício, pois Deus tinha-lhe prometido descendência por aquele filho e portanto não iria faltar à sua promessa... Não deixe de ser um episódio difícil. Mas à luz da fé de Abraão, o sentido era outro...

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