sábado, 18 de agosto de 2012

Dois anos atrás das grades para afinar a voz

Três das meninas da banda Pussy Riot foram condenadas a dois anos de pena efectiva pela “actuação” que tiveram na Catedral de Moscovo.

É uma pena severa? É. Mas não me parece totalmente desajustada. Quem ouve apenas os bem-pensantes liberais a falar do assunto diria que elas estão a ser condenadas só porque são anti-Putin, ou porque criticaram a Igreja russa. Mas aquilo que elas fizeram foi de uma total falta de respeito pelas crenças mais profundas de milhões de pessoas e a profanação de um espaço sagrado.

Para colocar as coisas em perspectiva, se eu e os meus amigos amanhã fizéssemos um “show-concerto-punk-protesto”, devidamente mascarados, na Mesquita de Meca, ou junto ao Muro das Lamentações, a protestar contra a ligação entre as respectivas religiões e Estados, o que é que vos parece que me aconteceria?

Dito isto, tinha ficado bem uma condenação meramente simbólica e, para que fique claro, com estas palavras não estou a dizer que acho que os tribunais russos funcionam de forma transparente, ou sequer que aprovo do Governo ou da sua cada vez mais estreita ligação à Igreja Ortodoxa.

Para este blog interessa especialmente analisar o papel da Igreja Russa no meio disto tudo. Parece-me que ela caiu aqui numa perigosa armadilha. Ao alinhar numa condenação e num circo mediático que interessa mais a Putin que à Igreja, expõe-se em demasia por uma causa pateta. O acto das Pussy Riot não teve nada de heroico. Foi de mau gosto, ofensivo e, sobretudo, infantil. Mas a Igreja Ortodoxa conseguiu fazer destas miúdas mártires de uma causa que nada devia ter a ver consigo e assim assumiu uma aura de perseguidora, cimentando a ideia de que está de facto ao serviço de Putin e do Kremlin.

O maior perigo da não separação entre a Igreja e o Estado é sempre para o lado da Igreja, e não do Estado. Esta é mais uma prova de que isso é verdade. A revolta do mundo por esta causa (que só prova que estamos de facto na Silly Season informativa) tem agora por alvo os padres e bispos ortodoxos que, sinceramente, merecem melhor do que serem descritos como lacaios de Vladimir Putin.

3 comentários:

  1. Claro que é uma pena demasiado pesada,e foi uma decisão totalmente política,e não dos tribunais.Vai portanto contra todas a ética do Direito.Se deviam ser castigadas? claro que sim,mas 3 ou 6 meses de prisão seriam suficientes.E aproveito para dizer que vos fica muito mal,muito mal mesmo,esse regozijo pela condenação das jovens a dois anos de prisão.Sempre esperei da Igreja uma conduta mais ajustada à doutrina do perdão.

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  2. A justiça do perdão não tem nada que ver com a desculpabilização de actos condenáveis. Nessa lógica de ideias os Padres pedófilos também não seriam julgados e condenados e sim perdoados. Não me regozijo com a condenação de ninguém porque não é possível regozijar com um acto que na sua base está impregnado de mal e infantilidade.

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  3. Lopo,se ler bem o que eu escrevi, não encontrará regozijo. Eu disse que ficaria melhor uma pena simbólica, diria até menor que os 3 ou 6 meses de que fala. Disse também que acredito que é uma decisão política e que não acredito na transparência dos tribunais. Mas também irrita que elas sejam tranformadas pelas Madonnas do mundo em mártires pela liberdade de expressão, não são.
    O perdão é, a meu ver, uma das maiores riquezas da tradição cristã, por isso acho cínico que a Igreja Ortodoxa venha falar de perdoar os actos delas, mas impondo condições como o assumir da culpa, alinhando assim no jogo político de Putin. O perdão cristão não requer a assunção da culpa dos infractores, como Cristo deixou bem claro. A Igreja devia perdoar e ponto final, depois deixar os tribunais fazer o seu trabalho e eventualmente condenar os seus abusos. Como isso ficaria melhor do que este alinhar com a política que é o que estamos a ver na Rússia!
    Abraço!
    Filipe

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