quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Livres do Catolicismo

Randall Smith
Há semanas escrevi sobre uma senhora britânica, muito querida, que me informou de que “simplesmente não podia” criar a sua filha na Igreja Católica, porque esta proíbe a contracepção. Na altura pensei que se tratava de uma razão bizarra para se escolher uma religião, e ainda penso, mas entretanto ouvi uma história ainda melhor.

Conheço um jovem rapaz que está absolutamente de rastos porque a mãe da sua noiva, que é católica, informou a filha de que se recusava determinantemente a ir ao seu casamento caso o casal insistisse em  não usar contraceptivos. “Criei uma filha inteligente e independente”, sublinhou, “suficientemente inteligente para entrar em [uma prestigiada universidade da Ivy League]. Essa filha devia ser suficientemente inteligente para não se tornar escrava das regras de um bando de velhos, brancos, celibatários e de saias em Roma.”  

Simpático, não? E muito tolerante.

Talvez não valha a pena explicar que uma batina não é uma “saia”, da mesma maneira que uma veste tradicional de homens africanos não é uma “saia”. Será que ela se teria atrevido a chamar “saia” a um “Grand Boubou” africano? Se enviou a filha para uma universidade da Ivy League, não me parece. E na mesma linha, suponho que mais vale esquecer o facto ainda mais óbvio, pelo menos para quem lá esteve, de que não são só brancos que trabalham no Vaticano. Será que ela teria dito algo do género: “Como é que consegues ouvir um bando de velhos africanos, asiáticos e latino-americanos em Roma?” Não é provável.

Quanto à questão do celibato, bom, aí terá razão. Mas criticar pessoas que aceitam conselhos sobre a sexualidade de padres celibatários em Roma é como criticar pessoas qeu aceitam conselhos de monges tibetanos sobre consumismo. Já ouviram alguém  dizer: “Como é que podes aceitar conselhos sobre compras daquele monge budista no Tibete? Ele nunca tem de ir ao Centro Comercial”; Não pois não? Porque será?

É porque o anti-catolicismo é um dos últimos preconceitos aceitáveis neste país. As pessoas dizem coisas sobre católicos que não sonhariam dizer sobre outros grupos e revelam um grau de ignorância que seria simplesmente vergonhosa noutros contextos, mas que não desperta qualquer embaraço quando se dirige a católicos ou ao Catolicismo.

Mas a minha questão é outra: Onde está a tão propalada tolerância? Quem está a obrigar os outros? São mesmos os padres católicos em Roma que estão a “policiar” o quarto desta rapariga, ou é a sua mãe? Quem é que está aberto ao diálogo? O Magistério cujos membros escreveram, literalmente, centenas de páginas racionais sobre o assunto; ou a mãe que sem hesitações condena a sua filha por ser “estúpida” por se atrever a pensar em não usar contracepção?

Os católicos que concordam com os ensinamentos da Igreja a este respeito têm de aturar este tipo de ignorância e intolerância a toda a hora. Pergunte a qualquer mulher católica que tenha ido recentemente a um ginécologista quantas vezes teve de ouvir sermões por não aceitar receitas para contraceptivos, e como os médicos são paternalistas quando enfrentam esta recusa “infantil”. Pergunte a qualquer mulher católica que tenha estado grávida nos últimos tempos como foi tratada pelos médicos quando surgiu a questão de despistar deficiências.

Nos últimos anos muitas mulheres me têm perguntado se é mesmo “obrigatório por lei” fazer uma amnicentese para averiguar se o feto pode ter deficiências. Respondo-lhes que ainda não. Mas médicos de muitas áreas insistirão que se faça, sem dúvida para se protegerem de processos caso o bebé acabe por ter deficiências “indesejadas”, tornando o nascimento “indesejado” também.

Santa Perpétua e Santa Felicidade, corações livres

Nestas circunstâncias quem é que está, verdadeiramente, do lado de da liberdade das mulheres? Quem está a forçar as mulheres a fazer aquilo que não querem, e quem está a tentar educar as mulheres para tomarem decisões educadas e responsáveis sobre a sua fertilidade? Aquela mãe que se recusa a ir ao casamento da filha se ela não usar contracepção está a ajudar a sua filha a fazer uma escolha educada e responsável sobre a sua fertilidade? Ou está a escolher por ela a partir de uma posição de alegada superioridade?

Porque é que a liberdade, para estas pessoas, consiste sempre em verem-se livres do Catolicismo? A liberdade de se ser autêntica e verdadeiramente católico raramente aparece no radar destas almas “tolerantes”.

Lembro-me bem como os meus pais ficaram tristes e escandalizados quando anunciei que me ia tornar católico, isto das mesmas pessoas que sempre insistiram que “qualquer decisão é correcta, desde que seja correcta para ti”. Aparentemente, qualquer escolha seria “certa” desde que não fosse a escolha católica. A “liberdade” era sempre em função dos “constrangimentos” com que não concordavam, nunca a liberdade de ser algo diferente e verdadeiramente contra-corrente.

Francamente, tendo em conta a forma como me tinham educado – a valorizar a “liberdade” e a “autonomia” acima de tudo – tive tentado a desligar o telefone nas suas caras, de formas indignada, e dizer: “Quem são eles para questionar as minhas decisões?” Mas há aquela questão do mandamento sobre honrar o pai e a mãe. É irónico, não é? Que os valores deles de liberdade e autonomia me fizeram querer desligar, mas foi a minha fé católica, que tanto desprezavam, que me manteve ao telefone.

Na altura pareceu-me claro, e continua a sê-lo hoje, onde está a verdadeira liberdade. Há quem nos queira negar essa liberdade e, ironia suprema, é em nome da liberdade que o querem fazer. Gente dessa existe há muito tempo. São os mesmos que aconselharam Santa Perpétua quando aguardava a sua execução: “Rejeita Cristo apenas em palavras; em privado, ninguém quer saber o que fazes”.

O dela era um coração que conhecia a verdadeira liberdade.

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.


(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com no Sábado, 11 de Agosto de 2012)

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