quarta-feira, 25 de julho de 2012

Egopapismo e os Cinco de Arlington

Francis J. Beckwith
A diocese católica de Arlington, na Virginia, chamou a atenção recentemente ao pedir aos seus catequistas que assinem uma profissão de fé que esclareça que acreditam no Catecismo que a Igreja lhes encarregou de ensinar e que aceitam que a Igreja é guardiã e custódia dessa fé.

Resumindo, está-se a pedir-lhes que admitam que são católicos e que acreditam no Catolicismo. Mas pelos vistos isto é de tal forma polémico que cinco dos cinco mil catequistas diocesanos (incluindo professores de escolas paroquiais) demitiram-se por causa do pedido. Cinco, só para terem ideia, é o número de papas que serviram a Igreja ao longo da minha vida.

Pelo menos uma desses cinco catequistas, a Kathleen Riley, que tem 52 anos é, tal como eu (que tenho 51), filha da década de 70, o que significa que fazemos parte da primeira geração de católicos que foi formada espiritual e intelectualente “no espírito do Vaticano II”.

É claro que não houve nada de mal no Concilio Vaticano II; os seus resultados são um desenvolvimento natural de anteriores ensinamentos da Igreja. O problema tem que ver com a forma como estas alterações foram implementadas e compreendidas por um clero e religiosos que tinham uma agenda bem diferente em mente.

Como fiz notar nas minhas memórias de 2009, “Return to Rome”, a ausência de seriedade teológica que fluiu desta agenda foi o que me empurrou a mim, e a muitos outros, para os braços do Protestantismo Evangélico.

Quando eu estava no liceu católico, para dar apenas um exemplo, tive aulas obrigatórias de religião nos quais “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, fazia parte da bibliografia. Isto era bastante típico da infidelidade catequética que dominava aquela era em muitas paróquias e escolas nos Estados Unidos.

Em vez de nos apresentarem grandes nomes da literatura católica, eramos brindados com este género de balelas (do livro de Bach): “Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!"

Isto é bastante diferente de “Formaste-nos para ti, e nosso coração não terá sossego enquanto não encontrar descanso em ti”, ou até, mais contemporâneo, “os críticos modernos da autoridade religiosa são como homens que atacam a polícia sem nunca terem ouvido falar de ladrões”.

A senhora Riley é informática. Porque foi treinada como informática, e é uma profissional nesse campo, pode falar com autoridade sobre assuntos ligados à informática. Isto deve-se ao facto da informática, como tantas outras áreas do saber, ser uma tradição de conhecimento.

Ao longo dos tempos essa tradição, como qualquer outra, desenvolve práticas uniformes, formas de assimilar novas descobertas e formas de compreensão de conhecimentos estabelecidos, e uma hierarquia de experiência que fornece bases à autoridade daqueles que já se encontram nesta profissão.

Se, por exemplo, um leigo na matéria, como eu, fosse dizer a uma autoridade na informática, como a senhora Riley, que no fundo do meu coração acredito que o sistema operativo do iMac no qual estou a escrever este artigo “é igual” à mais recente versão do Windows, porque na minha opinião ambos “fazem a mesma coisa”, uma correcção da parte dela não seria uma injustiça.

Se me queixasse de que a sua correcção viola a minha autonomia e direito à dissenção, espero que ela me informasse, de forma simpática, de que tinha contribuído para o meu crescimento intelectual ao partilhar comigo a verdade.
Kathleen Riley, à direita, com outra "dissidente" de Arlington
Ela poderia insistir que, se eu continuasse a ter alguma dúvida sobre assuntos ligados à informática, existem formas estabelecidas através das quais poderia expressar a minha dissenção e, por ventura, alterar a trajectória da disciplina.

Poderia, por exemplo, submeter artigos a publicações de peer-review e apresentar textos em conferências profissionais. Se as iluminuras da profissão, as autoridades por assim dizer, não considerassem os meus argumentos convincentes, ou os achassem inconsistentes com o conhecimento que a profissão tem por indisputável, então talvez fosse altura de eu reconsiderar a minha dissenção e começar a entreter a ideia de que a falha é minha e não da profissão.

Tudo o que a Igreja pede aos Cinco de Arlington é que tratem a teologia da Igreja e os seus desenvolvimentos com o mesmo respeito e deferência que a senhora Riley espera de outros em relação à matéria na qual ela é perita.

Da mesma forma que ela e os seus pares epseram que os dissidentes no ramo da informática apresentem os seus argumentos nos confins da prática, do conhecimento adquirido e dos constrangimentos metodológicos que se desenvolveram ao longo dos anos para o bem da profissão, a Igreja espera que os dissidentes apresentem os seus argumentos nos confins da prática, do conhecimento adquirido e dos constragimentos metodológicos que se desenvolveram ao longo dos anos para o bem da Igreja.

Quais são, então, os argumentos dos Cinco de Arlington? Como sustentam a sua dissidência e como é que ela é consistente com, e um desenvolvimento natural de, a herança da tradição teológica da Igreja?

Dizer simplesmente – sem qualquer respeito pelo argumento, precedente ou normas estabelecidas de diálogo teológico – que “o Espírito Santo dá-nos a responsabilidade de ouvirmos as nossas consciências”, como afirma a senhora Riley, não passa de uma posição anti-intelectual e fundamentalmente irracional.

Os Cinco de Arlington, como muitos católicos e protestantes americanos, assimilaram uma compreensão contemporânea da teologia que é intrínsicamente hóstil à fé que afirmam professar. É um entendimento que encara as crenças teológicas como sendo irredutivelmente pessoais, privadas, não cognitivas e direccionadas pelas nossas preferências.

Isto nada tem a ver com liberdade intellectual. É uma condenação à solitária numa prisão egopapista.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 20 de Julho 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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2 comentários:

  1. Se fizessem a mesma exigência aqui, na Faculdade de Teologia da UCP, talvez também houvesse objecções entre os professores. Como já foi denunciado por nomes de ex-alunos credíveis, aparentemente sem consequências.
    FC

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  2. Every year, before classes start at Franciscan University of Steubenville, where my sons and daughters either studied or still studying, all the professors of the University, profess fidelity to the teachings of the Church, represented by the local Bishop. This is very important, because unfortunately, the only thing that many catholic universities have catholic is their name. Thank you for your blog.

    Jorge

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