Thursday, 29 September 2022

Hospital de Campanha Ep. 10 - A Crise dos Abusos em Portugal (Parte 2)

"O povo de Deus merece a homenagem da verdade". É este o princípio que deve conduzir a resposta da Igreja à crise dos abusos sexuais, segundo Pedro Gil, especialista em comunicação de crise. Neste episódio, o segundo dedicado ao tema, falamos do problema das falsas acusações e dos dilemas que podem surgir da parte das dioceses quando confrontadas com uma suspeita. Mais uma vez, uma conversa difícil mas muito necessária.



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Wednesday, 28 September 2022

A Pobreza da Riqueza

Pe. Paul Scalia

De quem é que devemos ter mais pena nesta parábola de Jesus, do homem rico ou de Lázaro? Naturalmente o nosso coração inclina-se mais para Lázaro, o homem pobre que jazia ao portão, ansioso por migalhas, mas a quem até os cães vinham lamber as feridas (um detalhe que os amantes de cães dos nossos dias podem achar querido, mas que para os judeus na antiguidade não tinha o mesmo encanto). Na verdade, é do homem rico que devemos ter mais compaixão, não só porque é muito pior fazer o mal do que sofrê-lo, mas também por causa daquilo em que o seu pecado o transformou. Assim, somos chamados a reflectir o triste estado do homem rico e o pecado que o conduziu a tal.

Notem bem a descrição curta, mas esclarecedora, do homem rico: “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias banqueteava-se e regalava-se”. Fala-se aqui da sua roupa luxuosa e das ricas comidas, mas não de amigos ou convidados. Mais ninguém é referido. Ele não está a ter festas ou jantares. Nem sequer está a esbanjar a sua fortuna numa vida de promiscuidade, como o filho pródigo. Não, é só ele, mesmo. Há algo de solitário e de isolado na sua riqueza.

O estado lastimável do homem rico é traduzido para a vida eterna. De facto, o seu destino é mais revelador que punitivo. Está isolado e só no inferno porque tinha feito por isso no mundo. Lázaro, por outro lado, está no regaço de Abraão (uma tradução melhor que “junto de”). Está em comunhão com outro. O homem rico está desprovido dessa comunhão por causa da sua avareza (e não apenas como castigo por ela). Viveu e morreu isolado dos outros e por isso entrou no isolamento eterno.

Este isolamento do homem rico não nos é estranho. Quando Ebenezer Scrooge é convidado a dar esmola para ajudar os pobres responde: “quero que me deixem em paz”. A sua afeição pelo dinheiro faz com que despreze não só a generosidade, mas também a companhia. Do mesmo modo Gollum, no “Senhor dos Anéis”, está tão obcecado pelo anel que, fugindo à companhia dos outros, passa anos na profundidade de uma caverna, sozinho com o seu “precious”.

O forreta é miserável porque está isolado pelas suas posses. Quer tudo só para ele, o que o obriga a estar absolutamente só. A sua ligação à riqueza significa que não se pode ligar a outros. As coisas que mais ama são o que o impedem de amar.

A avareza coloca as posses acima das pessoas. Pela sua própria natureza, isola-nos uns dos outros. Habituamo-nos a possuir e a usar, duas coisas que não são compatíveis com relações humanas autênticas. O homem avarento pode ter pessoas que o ajudam a gerir o seu dinheiro, ou a ganhar mais, mas isso só comprova a teoria. Essas pessoas não são amadas, são usadas.

Não existem pecados inteiramente pessoais. Há sempre uma dimensão social no pecado, porque envolve sempre um virar-se para dentro, e por isso para longe dos outros. Como disse São João Paulo II, “o mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências sociais.” (Reconciliatio et Penitenza).

No caso do homem rico a repercussão social é a sua incapacidade de ver Lázaro. Reparem que nunca se diz na parábola que o homem rico roubou de Lázaro, ou que era de alguma forma a causa da sua pobreza. Não o pontapeava ao entrar ou ao sair de casa. Mas a questão é precisamente essa. Não é que ele não se interesse por Lázaro, o problema é que ele nem dá pela sua existência. Ele não detesta Lázaro, simplesmente não repara nele.

Vemos assim que a avareza produz uma indiferença ao sofrimento do outro. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, diz o profeta Amós, (Am. 6, 1 e 4-7). Ele associa esse comodismo à riqueza. Afeta todos os que se encontram “deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás, comem os cordeiros do rebanho e os novilhos do estábulo. Deliram ao som da harpa, e, como David, inventam para si instrumentos de música; bebem o vinho em grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos”.

O vício da avareza isola o avarento. Mas ao fazê-lo também priva os pobres da atenção de que precisam para a sua subsistência.

Riqueza e isolamento. Estas duas características da nossa cultura estão relacionadas entre si. Quanto mais temos, mais isolados nos tornamos e menos notamos ou nos interessamos pelos outros. Os confinamentos durante a pandemia foram pensados e impostos pelos ricos, a chamada “geração laptop”, que se podia dar ao luxo de se sequestrar e de prosseguir com a sua vida. Existiu uma indiferença cruel aos efeitos que este isolamento teria ao empobrecer ainda mais os pobres. Os sinais que vimos a dizer “estamos todos juntos” eram uma treta.

“Não se pode servir a Deus e a Mamon”, disse Nosso Senhor recentemente no Evangelho. E quatro domingos antes fez um aviso semelhante: “Quem de vós não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”. Esta ligação à riqueza – por mais pequena que seja – corrói a nossa capacidade de nos preocuparmos com os outros e isola-nos. Tornamo-nos prisioneiros da avareza.

Damos aos pobres porque precisam da nossa ajuda. As suas vidas disso dependem. Mas damos também porque as nossas vidas disso dependem. Quando damos, desprendemo-nos daquilo que nos empobrece e libertamo-nos do que nos isola. Assim tornamo-nos capazes de ver, de conhecer e de amar os outros.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Setembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 

Tuesday, 27 September 2022

Comentário na SIC Notícias sobre nomeação de D. José Tolentino

Esta terça-feira estive na SIC Notícias para falar da recente nomeação do cardeal D. José Tolentino para o Dicastério da Cultura e da Educação.

Podem ler aqui o artigo e ver a entrevista. 


Brought to you by SIC Notícias

Monday, 26 September 2022

Hospital de Campanha Ep. 9 - A Crise dos Abusos em Portugal

A Igreja portuguesa tem estado a lidar bem com a crise de abusos sexuais? 

De volta de férias, depois de um verão quente marcado pela revelação de casos de abusos na Igreja portuguesa, quisemos sentar-nos com Pedro Gil, especialista em comunicação de crise, que partilhou uma perspectiva verdadeiramente humana centrada na vítima e na restauração da confiança, e na fé em Deus e na Sua Igreja.

Esta é uma conversa difícil, mas necessária. A crise dos abusos é uma ferida aberta que deve ser exposta ao sol para curar, e não deixada no escuro para infectar. 

Sendo um tema tão importante, gravámos não um, mas dois episódios com o Pedro Gil. O próximo irá para o ar ainda esta semana, se Deus quiser.


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Thursday, 22 September 2022

Rapto nos Camarões e hipersensibilidade no Reino Unido

Depois da Nigéria, agora os Camarões. Num só ataque foi incendiada uma igreja e raptados cinco padres, uma freira, dois catequistas e uma leiga. Neste caso o conflito nem é religioso, a Igreja vê-se apanhada entre os militantes que querem a independência da zona anglófona e o exército do governo maioritariamente francófono.

A Igreja quer ser parte da solução para o conflito em Moçambique. Recorde-se que há pouco tempo foi atacada uma missão católica e uma freira assassinada.

A Igreja no Paquistão avisa que os próximos tempos podem ser de fome e epidemias, devido às terríveis cheias que assolaram o país. Queixam-se ainda de discriminação aos cristãos na distribuição de ajuda humanitária.

Claro que o grande evento da semana foi o enterro da Rainha Isabel II. Nos dias depois da sua morte houve polémica porque algumas pessoas foram detidas por se manifestarem contra a Monarquia. Neste texto explico porque é que isso é mau, independentemente de concordarmos, mas que é apenas parte de um problema maior, que também afecta a liberdade religiosa.

Há dias saiu mais uma reportagem sobre um caso de abusos, neste caso na Diocese de Braga. O caso já está aqui, onde encontram links para os artigos originais. Aproveito para avisar que a questão dos abusos será tema do próximo episódio do podcast Hospital de Campanha, que deve ser publicado no início da próxima semana. Fiquem atentos, porque vai mesmo valer a pena.

Somos todos idólatras? Até certo ponto sim, considera o autor do mais recente artigo do The Catholic Thing em português. Na verdade, sempre que damos prioridade a nós mesmos do que a Deus estamos a cair na autolatria, argumenta, de forma convincente.

Por fim, foram acrescentadas várias declarações de líderes religiosos sobre a Ucrânia ao artigo no blog. Entre outros, temos o Patriarca Cirilo de Moscovo, que numa altura em que a Rússia anunciou a mobilização de 300 mil homens para servirem de carne para canhão na Ucrânia continua a culpar inimigos imaginários por dividirem o que ainda pensa serem “povos irmãos”. 

Wednesday, 21 September 2022

Idolatria Escondida (com o rabo de fora)

As palavras têm sempre imagens associadas. O que é que vos vem à cabeça quando pensam na palavra “idolatria?” Charlton Heston a despedaçar um bezerro de ouro com os Dez Mandamentos? Russell Crowe a carregar pequenas figuras de barro na prisão do gladiador? Indiana Jones a substituir uma cabeça em ouro por um saco de areia?

Talvez mais umas coisas, caso tenhamos andado na catequese. Ainda assim, o nosso “deus” é o nosso “objecto de suprema preocupação”, segundo o existencialista protestante Paul Tillich. E sabemos que o dinheiro, o prazer, o sucesso, ou o poder podem transformar-se em deuses quando se tornam uma preocupação maior do que qualquer outra coisa nas nossas vidas.

Duvido que muitos de nós admitiríamos ser idolatras. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diríamos. “Não há qualquer mal em procurar estes bens, desde que não abandonemos a crença em Deus.” Justificamos as nossas buscas com a desculpa de que temos Deus à mistura.

Mas será que a crença em Deus nos livra da idolatria? Não será antes uma questão de justiça litúrgica? Afinal quem é que merece o nosso louvor?

A religião é uma virtude porque dá a Deus o que é de Deus. Quando nos perguntam a quem devemos “latria” (a adoração suprema), a resposta justa é de que apenas devemos adorar o não-criado, e nunca a criatura.

Mas há algo mais grave – e talvez mais comum – do que prestar culto a uma imagem (eidolon-latria). Trata-se de adorar-nos a nós mesmos: auto-latria. A autolatria é mais secreta e mais grave do que a idolatria porque o falso deus habita em nós. Somos nós.

Muitas são as personalidades da tradição que atestam isto.

A abadessa beneditina Cécile Bruvère escreveu que “A acreditar no apóstolo, a idolatria não está confinada à adoração de falsos deuses. Podemos erguer em nós mesmos muitos ídolos, e cegamente lhes oferecer sacrifícios” (Vida Espiritual e Oração).

Esta doi. Posso excluir-me presunçosamente da idolatria externa dos terríveis pecadores que me rodeiam, mas devo recordar-me que “em todos os momentos da vida existe uma idolatria interior”, como escreve François Fénelon. “Tudo o que amamos fora, amamos unicamente por nós” (Perfeição Cristã).

Tanto a crença em Deus como o amor por Deus devem manifestar-se como obediência a Deus. É por isso que os autores espirituais referem as palavras de Samuel a Saúl, quando disse: “A rebelião é tão culpável quanto a superstição; a desobediência é como o pecado de idolatria” (I Samuel, 15). Um dos mestres do asceticismo, Giovanni Battista Scaramelli S.J., explica o que Samuel queria dizer: “A razão é que pela desobediência colocamos a nossa opinião e a nossa vontade própria acima da vontade de Deus que nos é revelada pela sagrada obediência”.

A idolatria é semelhante à desobediência uma vez que no caso daquela adoramos um ídolo de madeira ou de pedra em vez do único verdadeiro Deus, o único a quem é devido o culto e nesta desviamo-nos da verdadeira regra para seguir uma enganadora, que é a dos nossos próprios juízos e dos ditames do mundo. A falsa adoração e o falso juízo estão relacionados. A adoração correcta e a rectidão também estão ligadas.

A vontade de Deus deve ser atendida liturgicamente, isto é, com adoração.

Esta idolatria escondida (isto é, a autolatria) pode andar alegremente de mão dada com a religiosidade, porque a vontade própria e o amor-próprio disfarçam-se até dentro de actos religiosos e de virtude. O autólatro até pratica a religião para se satisfazer a si mesmo! Finge amar a Deus, mas nunca ao ponto da abnegação própria.

Fénelon descreve desta forma essa situação: “Fingem amá-lo sob, mas desde que isso não diminua o amor-próprio cego que depois se transforma em idolatria e que, em vez de se referir a Deus como o Fim para o qual fomos criados, procura arrastá-lo ao seu próprio nível, usando-o como algo que ajuda e conforta quando a criatura falha.”

O meu professor Aidan Kavanagh costumava definir a liturgia como “fazer o mundo como o mundo deve ser feito”. O oposto disto é a mundanidade, que trata o mundo e as acções no mundo sem referência a Deus.

A mundanidade é um estado antilitúrgico: é latria mal-direccionada. É auto-adoração, a idolatria mais secreta de todas. Por isso é que Frederick William Faber descreve o homem mundano como aquele que vive como se nunca tivesse de “prestar contas de si mesmo a um poder maior” (Criador e Criatura).

Onde é que pretendo chegar?

A descoberta desta idolatria secreta não traz Deus para a praça pública? Não introduz no espaço secular uma preocupação com o sagrado? O crime da idolatria não é cometido apenas quando escolhemos o templo em que vamos prestar culto, é cometido sempre que a vontade própria se sobrepõe à vontade divina.

A autolatria acontece quando elevamos a nossa própria opinião e vontade acima da vontade de Deus. Em relação a quê? Não apenas nas questões religiosas (embora exista aí muita autolatria também), mas nas coisas do mundo.

Como é que podemos ajuizar de forma recta assuntos como política, normas sociais, sexo, género, família, a vida intrauterina, o estranho, o criminoso e a vítima se colocámos a nossa vontade acima da de Deus? São João Eudes diz que “o orgulho leva o pecador a fazer de si mesmo um ídolo, e a colocar-se no lugar de Deus, uma vez que quando estão em causa a sua satisfação, vontade e desejos, prefere-se a si do que a Deus” (Meditações).

Os nossos interesses, satisfação, vontade e desejos estão sempre em causa. O problema espiritual do orgulho mete-se em tudo, não apenas no contexto religioso. A quem vamos prestar culto? Vamos escolher-nos a nós em vez de a Deus?

Esta é uma questão espiritual, mas é colocada a partir do coração do mundo. Por isso, os assuntos externos e sociais não estão totalmente separados do conflito interno, espiritual. A Igreja tem uma ou duas coisas a dizer sobre este último.

E tem toda a alegria em partilhar a sua experiência e sabedoria com todas as sociedades em que se encontra.


David W. Fagerberg é professor emérito de teologia litúrgica na Universidade de Notre Dame. O seu mais recente livro é Liturgical Dogmatics.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 14 de Setembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 19 September 2022

Detidos por protestar no Reino Unido? O problema não é de agora

Tem levantado alguma polémica o facto de várias pessoas terem sido detidas, ao longo da última semana e meia, por se manifestarem de uma forma ou de outra durante as cerimónias fúnebres da Rainha Isabel II.

Alguns foram detidos depois de gritar ofensas em locais públicos, outros por segurar em cartazes com palavras de ordem contra a Monarquia. Eventualmente os poucos antimonárquicos que optaram por se manifestar fizeram-no em silêncio e ostentando folhas em branco.

Podemos ter as mais variadas opiniões sobre isto. Quer se seja monárquico ou não – e eu sou – podemos achar que é de muito mau gosto aproveitar um momento de profundo pesar e luto nacional para dar voz a essas opiniões em público. Mas também podemos achar que o mau gosto não é necessariamente crime, e que mesmo essa liberdade de expressão deve ser protegida.

Um paralelo interessante chega-nos do outro lado do Atlântico, onde o Supremo Tribunal tem apoiado insistentemente as manifestações absolutamente grotescas dos membros da Igreja Baptista de Westboro que gostam de ir manifestar-se nos funerais de militares americanos mortos em combate, argumentando que todas essas mortes são castigo divino por os EUA terem virado as costas a Deus.

Mas voltando ao Reino Unido, há um ponto muito importante neste debate. É que esta hipersensibilidade das autoridades britânicas não é nova. Vejamos mais alguns exemplos*

  • Em 2002 Harry Hamond, de 69 anos, foi atacado por transeuntes, chegando a ser lançado ao chão, quando mostrou um sinal que criticava a conduta homossexual. Quando a polícia chegou ao local decidiu, contudo, deter Hammond. Acabou por ser condenado a uma multa de 300 libras e a pagar as custas do processo. Perdeu o recurso, e morreu antes de sair o resultado de mais um recurso.
  • Em 2008 o pregador Anthony Rollins foi detido por pregar numa rua em Birmingham e por ter dito que os actos homossexuais são moralmente errados. Acabou por ser libertado e indemnizado.
  • Em 2008 um rapaz de 15 anos foi chamado a uma esquadra por ter participado numa manifestação contra a Igreja da Cientologia, e ter ostentado um cartaz a dizer “a Cientologia não é uma religião, é uma seita”. O caso acabou por ser arquivado.
  • Em 2010 Dale McAlpine estava a pregar na rua quando foi abordado por um agente da polícia que se identificou como homossexual. Enquanto os dois conversavam, em privado, o pregador disse que “a Bíblia diz que a homossexualidade é pecado”. Foi detido por outros três polícias fardados e passou sete horas numa cela. Mais tarde ganhou um processo contra a polícia por estes factos.
  • Em 2011 o adepto do Glasgow Rangers Stephen Birrell foi condenado a oito meses de prisão por ter feito comentários ofensivos a adeptos do Celtic, a católicos e ao Papa, numa página do Facebook.
  • Em 2014 o eurodeputado Paul Weston foi detido por citar uma passagem de um livro de Winston Churchill em que este critica o Islão. O caso acabou por ser arquivado.
  • Em 2014 Tony Miano foi detido por criticar publicamente o “pecado sexual”, incluindo o adultério, a promiscuidade e a prática homossexual”. Passou uma noite na esquadra depois de uma mulher ter feito queixa dele. Uma vez que tudo tinha sido gravado, foi possível, porém, provar que as acusações da queixosa eram infundadas e foi libertado.
  • Em 2014 outro pregador de rua, John Craven, foi abordado por dois adolescentes que lhe pediram a opinião sobre a homossexualidade. Ele citou a Bíblia, ressalvando que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador.” Todavia, os rapazes queixaram-se a um polícia, dizendo que tinham-se sentido ofendidos pelas palavras do pregador, que foi então detido durante 19 horas, 15 das quais sem comer e sem poder tomar medicamentos. Mais tarde foi indemnizado.
  • E, por fim, em 2021 aseptuagenária Rosa Lalor foi detida e multada por estar a rezar o terço diante de uma clínica de aborto em Liverpool. Recorreu da multa e ganhou.

É certo que esta questão não se coloca só no Reino Unido, existe em vários outros países, com uma preponderância para o norte da Europa, mas agora é do Reino Unido que estamos a falar.

Aquilo a que temos vindo a assistir é o fruto de uma cultura que começou a interiorizar a ideia de que ferir os sentimentos de outra pessoa deve ser tratado como um crime. O problema é que quando essa caixa de Pandora se abre, as consequências são imprevisíveis. Mais valia, se calhar, voltarmos a perceber que o debate público nem sempre é bonito, e que para nós termos liberdade de expressão, os idiotas que só dizem porcaria quando abrem a boca também a devem ter. Até porque, sei-o bem, para muitos deles o idiota sou eu.

*Todos estes casos são retirados do livro “Censored” de Paul Coleman, com a excepção do último, que é posterior à publicação da obra

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