Friday, 26 February 2021

FNO, é agora ou nunca

Hoje é o último dia para se inscrever no Faith’s Night Out. Saiba aqui porque o deve fazer e inscreva-se diretamente no site.

Notícia de perseguição aos cristãos na Nigéria, onde uma igreja foi incendiada por bandidos armados.

A Cáritas está sem mãos a medir para lidar com a crise provocada pela pandemia. Infelizmente a ajuda pode não chegar a todos.

Parabéns ao cardeal D. José Tolentino Mendonça, que venceu o prémio Universidade de Coimbra!

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre o “Caminho sinodal” da Alemanha, cujo formato e conteúdo preocupa seriamente o padre Gerald Murray, que assina esta coluna.

Wednesday, 24 February 2021

O Caminho Sinodal Cismático da Alemanha

Pe. Gerald E. Murray
Um esforço que só pode ser classificado como sendo de autodestruição da Igreja Católica na Alemanha – e mais além – está a ser levado a cabo pelos bispos do país, em conjunto com o Comité Central de Católicos Alemães, uma organização de leigos católicos, reconhecida oficialmente pela Igreja local. O vaticanista Sandro Magister chamou a atenção para o escândalo que constitui o chamado Caminho Sinodal, citando as recomendações, que melhor se podem descrever como exigências não-negociáveis, no documento fundacional divulgado recentemente sob o título “Poder e separação de poderes na Igreja – Participação comum e partilha na missão”.

O Caminho Sinodal Alemão (Der Synodale Weg) tem por objetivo subtrair o poder, autoridade e controlo ao Papa e aos bispos e entregá-lo a um laicado radical e clérigos e religiosos aliados. Tal deve acontecer através de uma proposta de um “fórum sinodal também na Igreja universal, uma assembleia da Igreja universal, um novo concílio em que os crentes dentro e fora do ministério ordenado deliberam e decidem em conjunto sobre questões de teologia e cuidados pastorais, bem como sobre a constituição e estrutura da Igreja”.

Nesta assembleia revolucionária os pastores já não seriam guias do rebanho, mas sim mais um bloco eleitoral a par do laicado, presumivelmente mais numeroso, que em todo o caso teriam escolhido os seus bispos uma vez que “a governação deve sempre ser codeterminada pelos governados, pelo que uma proposta importante é de que os decisores eclesiásticos devem também ser eleitos e sujeitos a eleição regular, em que os poderes que lhes são confiados possam ser confirmados ou delegados noutrem”.

De facto, “o objetivo é garantir a partilha de responsabilidade e participação de todos os fiéis tanto nos processos deliberativo como decisório”. Para o alcançar torna-se ainda necessário “reajustar a estrutura constitucional da Igreja para fortalecer os direitos dos fiéis na governação da Igreja”.

Se alguém contrapor que Cristo, o pastor-mor, é que atribui a autoridade aos apóstolos e seus sucessores, isso, ao que parece, é um conceito ultrapassado. “Os fiéis costumam aceitá-los como autoridades cujos juízos e decisões não podem ser questionados, como ‘pastores’ em virtude de uma legitimidade divina, a quem devem obedecer como ‘ovelhas’. Estes modelos foram ultrapassados pelo tempo, e bem, porque não eram teologicamente bem fundamentados”.

Dessa forma, a natureza hierárquica da Igreja é descartada como obsoleta e injustificada.

A autoridade episcopal e papal são rejeitadas de forma clara: “Ninguém tem a competência para decidir por si só sobre o conteúdo da fé e os princípios da moralidade; ninguém tem o direito de interpretar os ensinamentos da fé e da moral com a intenção de exortar os outros a ações que só servem os seus interesses ou correspondem às suas ideias, mas não às convicções dos outros”.

Será que as “convicções” se tornaram agora a norma das crenças e do comportamento cristão? Absolutamente: “A pluralidade de estilos de vida, tradições de piedade e posições teológicas no seio da Igreja não é uma ameaça, mas um bem que aprofunda a unidade viva da Igreja. ‘Não julgues, para não serdes julgado’. Mt. 7,1”.

Tudo isto encontra-se num documento cheio de juízos negativos sobre doutrinas católicas “teologicamente mal fundamentadas” e que evoca “estudos” que afirmam que a Igreja tem alienado pessoas através de “estruturas de poder que são vistas como retrógradas ou datadas… especialmente no campo da justiça de género e na avaliação de orientações sexuais ‘queer’, bem como em lidar com falhanços e novos começos (por exemplo casamento depois do divórcio).”

A responsabilização perante a Igreja por ignorar ou negar os ensinamentos do Evangelho passa agora a ser proibida porque, por incrível que pareça, isso “contradiz o Evangelho”: “O facto de haver pessoas na Igreja que temem ser punidas por comportamentos que não ‘encaixam no sistema’ contradiz o Evangelho. A denúncia é um mal que deve ser combatido de forma firme. A comunicação dos crentes tanto dentro como fora da Igreja não deve ser monitorizada nem criticada por detentores de cargos na Igreja”.


De facto, “uma forma de lidar com a complexidade que seja atenciosa e sensível à ambiguidade pode ser vista como um sinal básico de contemporaneidade intelectual – e também abrange a teologia contemporânea. Para a teologia também não existe uma perspetiva central, uma verdade única sobre o mundo religioso, moral e político, e nenhuma forma de pensamento que possa reclamar a autoridade definitiva. Também na Igreja os pontos de vista e estilos de vida diferentes podem competir uns com os outros mesmo nas convicções centrais. Sim, podem ao mesmo tempo reclamar teologicamente a verdade, a correcção, compreensibilidade e honestidade, ainda que se contradigam nas suas afirmações e na sua linguagem”.  

A mesma atitude de “viva e deixe viver” não se aplica, contudo, às decisões postas a votação na assembleia do Caminho Sinodal: “esperamos que as recomendações e as decisões adotadas pela maioria sejam também apoiadas por aqueles que votaram de forma diferente. Esperamos que a implementação das decisões seja examinada de forma rigorosa e transparente por todos. Esperamos que todos ajudem a promover a capacidade de ação da assembleia sinodal”.

Por isso vemos que os ensinamentos constantes e universais da Igreja podem e devem ser alteradas por maioria, permitindo, por exemplo, a ordenação de mulheres para o diaconado, sacerdócio e episcopado. Os participantes do Caminho Sinodal não têm de “apoiar” nem “promover” nada que rejeitem do Depósito da Fé, mas aqueles que votarem contra as inovações destrutivas são instruídos a “apoiar” e “promover” aquilo que rejeitaram, em consciência, como sendo ofensivo para a Fé.

Este mandato coercivo de “obedecer, senão” é revelador da natureza de todo este processo: um esforço calculado de derrubar o catolicismo em nome da conformidade com o espírito da nossa era de descrença, um espírito narcisistamente apostado em pôr as mãos em todo o poder na Igreja para poder redefinir a realidade e reescrever a revelação, promovendo a licença e suprimindo todas as recordações da lei de Deus. Esta subversão clara tem de ser travada já, antes de prejudicar ainda mais a Igreja.

Roma tem de intervir – e rápido.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 22 February 2021

Já se inscreveram no Faith's Night Out?

Antes de mais, já se inscreveu no Faith’s Night Out? É já no sábado e vai valer muito a pena. Tem toda a informação aqui.

O bispo emérito de Pemba diz que os últimos anos à frente da diocese moçambicana foram “uma cruz”.

O Papa continua apostado em visitar o Iraque. Entre o coronavírus e o terrorismo é um risco, e ele sabe-o perfeitamente.

Teremos missas presenciais até à Páscoa? Os bispos esperam poder emitir orientações nas próximas duas semanas.

O Papa visitou durante o fim-de-semana uma sobrevivente do Holocausto. Mais do que uma conversa, marca a evolução incrível das relações entre a Igreja e o Judaísmo nas últimas décadas.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre a sinodalidade, um aspecto crucial da organização eclesial.

Thursday, 18 February 2021

FNO voltou e mensagens de Quaresma

Começo com excelentes notícias! O Faith’s Night Out está de volta, apesar da pandemia. Este ano vai ser integralmente online, mas vai valer tanto a pena como sempre. Entre os oradores têm o bispo D. Rui Valério, o médico e deputado Ricardo Baptista Leite e a maestrina Joana Carneiro. Está tudo explicado aqui. Inscrições aqui.

Começou a Quaresma. Os bispos, como sempre, publicaram as suas respetivas mensagens e divulgaram os – destinos das renúncias quaresmais. Tudo aqui, com links para notícias sobre cada diocese portuguesa.

Aqui podem ler sobre a mensagem do Papa para esta época que antecede a Páscoa.

Realiza-se no sábado um interessante webinar sobre “A Contemplação na Justiça Social”. É no sábado, tem duração de duas horas e podem encontrar toda a informação aqui.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Russell Shaw fala sobre sinodalidade, as suas vantagens e os seus perigos e como tudo isto interessa para o futuro próximo da Igreja Católica.

Wednesday, 17 February 2021

Acerca da “Sinodalidade”

Russell Shaw
O Sínodo dos Bispos reunirá no próximo mês de outubro no Vaticano para discutir como deve ser uma Igreja sinodal. É verdade que um sínodo sobre sínodos pode parecer, à primeira vista, uma coisa dolorosamente aborrecida, mas os bispos estarão a discutir um assunto com enormes implicações para o futuro do Catolicismo.

Por isso, antes de avançarmos demasiado longe pelo caminho que tem sido promovido recentemente pelos líderes da Igreja na Alemanha, faríamos bem em questionar se a sinodalidade é, como o Papa acredita, aquilo de que a Igreja mais precisa neste momento, ou se a emenda será pior que o soneto. Por agora, pelo menos, a resposta mais sincera é: depende.

A palavra “sínodo” vem de dois termos gregos: “sun” (com) e “hodos” (caminho). Uma igreja sinodal é aquela que se conduz de forma participativa, com base na apreciação da sua própria natureza enquanto comunhão de crentes. A Comissão Teológica Internacional diz que a sinodalidade remonta ao chamado Concílio de Jerusalém, descrito nos Actos dos Apóstolos, em que os “apóstolos e anciãos” da igreja de Jerusalém discutiu o que se devia fazer em relação aos convertidos gentios.

Nos séculos que, entretanto, passaram, houve vários sínodos regionais e diocesanos. Os sínodos são importantes na eclesiologia do Cristianismo Oriental e o Concílio de Trento decretou que se realizassem sínodos diocesanos anualmente e sínodos provinciais de três em três anos para implementar os seus decretos. Pouco depois de ser eleito, o Papa João XXIII anunciou que os seus três grandes projetos seriam um concílio ecuménico, a revisão do Código de Direito Canónico e um sínodo para a Diocese de Roma.

Todavia, o modelo operacional para a Igreja nos tempos modernos não tem sido a sinodalidade, mas sim a centralização da autoridade: no Papa para a Igreja Universal, nos bispos diocesanos para as Igrejas locais. No que diz respeito ao papado a palavra definitiva está contida na Constituição dogmática “Pastor Aeternus”, sobre a primazia papal e a infalibilidade, que declara que a jurisdição do Papa é universal, ordinária e imediata. Contudo, até a “Paspr Aerternus” admite que a primazia papal está “longe de ser um impedimento” ao exercício pelos bispos da autoridade que lhes compete. 

O Concílio Vaticano II repetiu o ensinamento do Vaticano I sobre a primazia papal, mas também sublinhou que a autoridade dos bispos não lhes é delegada pelo Bispo de Roma, mas vem directamente de Cristo. O Concílio também enuncia o princípio da colegialidade episcopal.


O Vaticano II não fala nem de sínodos nem, propriamente, de sinodalidade. Mas a Comissão Teológica Internacional (num documento sobre sinodalidade publicado em 2018) conclui que o Concílio preparou o terreno ao apresentar a Igreja enquanto Povo de Deus e encorajou a sinodalidade com o seu decreto sobre bispos, indicando aos ordinários o estabelecimento de senados ou conselhos de padres e recomendando a criação de conselhos pastorais com membros leigos.

Quando o Concílio se aproximava do fim, o Papa São Paulo VI anunciou a criação de um Sínodo dos Bispos permanente para a Igreja universal, mas até agora essas assembleias têm tido resultados mistos. No seu livro “Things Worth Dying For”, a publicar em breve, o arcebispo Charles Chaput lamenta que “em vez de serem ocasiões para trocas sinceras de ideias”, as duas assembleias sinodais em que participou, em 2015 e 2018, sofreram de “manipulações… exercícios de poder em vez de esforços para chegar a uma posição honestamente comum”.

Escrevendo o ano passado, o cardeal Gerhard Muller, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, levantou uma questão que o sínodo do próximo ano deve sublinhar. A sinodalidade, escreveu, pode ser de dois tipos: a sinodalidade dos bispos enquanto mestres e pastores e a sinodalidade da comunidade cristã, que pode ajudar os decisores, mas não deve infringir a sua autoridade.

O que nos leva à experiência de sindalidade na Alemanha, que ameaça tornar-se (se é que ainda não é) uma sinodalidade descarrilada.

As igrejas cristãs na Alemanha têm perdido milhares de membros todos os anos, há anos. Só em 2019 a população católica caiu em cerca de 273 mil pessoas. Com este pano de fundo, os bispos têm estado a seguir um projeto de “reforma” em conjunto com um grupo de leigos chamado o Caminho Sinodal que tem como enfoque questões como o celibato sacerdotal, a moral sexual, questões LGBTQ+ e o papel das mulheres.

Numa entrevista feita o ano passado a uma revista católica alemã, o bispo Georg Batzing, de Limburg, presidente da Conferência Episcopal alemã, reconheceu as críticas feitas “a nós alemães e à nossa forma de fazer as coisas”, mas insistiu que ele e os colegas tinham de estar na linha da frente para procurar formas de “prevenir que a distância entre o Evangelho e a respetiva cultura se torne ainda maior”.

É evidente que este é o tipo de pensamento que tem acompanhado e, pode-se argumentar, acelerado, a queda precipitosa do protestantismo liberal durante anos.

Na melhor das hipóteses, por isso, o modelo sinodal é aquilo a que um autor chama “andar a todo o vapor”. A Comissão Teológica Internacional diz que é “o modus vivendi et operandi específico da Igreja” enquanto comunidade de fiéis cujos membros “caminham juntos, reúnem-se em assembleia e tomam parte ativa na missão evangelizadora”. Mas a comissão também lança um aviso: “O perigo de cisma está sempre à espreita, e não deve ser ignorado”.

Então a sinodalidade é um remédio ou uma ameaça? Na verdade, pode não ser nem uma coisa nem outra, depende de quem está envolvido no processo, como compreendem o seu papel e se demonstram muito ou pouco respeito pela tradição católica.

Se vamos agora pelo caminho sinodal, que seja com esperança cautelosa e cautela esperançosa.


Russell Shaw é autor de Papal Primacy in the Third Millennium (2000). O seu mais recente livro é American Church: The Remarkable Rise, Meteoric Fall, and Uncertain Future of Catholicism in America (2013).

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 10 fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Thursday, 11 February 2021

D. Luiz Fernando transferido de Moçambique por ameaças?

O Papa transferiu esta quinta-feira o bispo de Pemba, em Moçambique, para oBrasil. A notícia foi inesperada e causa alguma estranheza. Consegui falar com D. Luiz esta tarde, que confirmou que a decisão pode ter sido tomada a pensar na sua integridade física, pois tem estado a receber ameaças em Moçambique.

A Rádio Vaticano faz 90 anos esta sexta-feira. Tudo começou com a voz de Marconi e atualmente até se faz ouvir nas prisões dos jihadistas.

Um município na Alemanha proibiu um grupo pró-vida de fazer uma vigília de oração silenciosa perto de um centro de aconselhamento para o aborto. É, infelizmente, uma tendência crescente.

Quinta-feira foi o dia mundial do Doente. A conferência episcopal mandou celebrar uma missa em Fátima e D. António Marto recordou que “uma sociedade é tanto mais humana quanto melhor cuida dos seus membros mais frágeis”.

O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é de Stephen P. White e fala de misericórdia. «Jesus repreendeu os fariseus não por eles terem identificado (corretamente) o pecado de adultério da mulher, mas porque não conseguiam conceber que o verdadeiro remédio para o seu pecado não era o juízo à luz da lei, mas a misericórdia de Deus. A ordem de Jesus para a mulher apanhada em adultério foi: “Vai e não tornes a pecar”. O seu pecado não é ignorado nem tolerado, como muitos hoje tendem a fazer; é reconhecido e perdoado.»

Wednesday, 10 February 2021

Misericórdia sim, mas por quê?

Stephen P. White
A proclamação do Evangelho é alcançada através do testemunho pessoal. Nós que conhecemos o Senhor Ressuscitado, que experimentámos a misericórdia de Deus, que conhecemos a liberdade que vem de viver na verdade, proclamamos ao mundo essa mesma Boa Nova através das nossas palavras e dos nossos gestos.

Excepto quando não o fazemos.

Quando pecamos, proclamamos algo completamente diferente. Não proclamamos a Boa Nova quando proclamamos através das palavras e dos gestos aquilo que não é verdade. Proclamamos um anti-Evangelho, um falso Evangelho de indiferença e conforto, de domínio e licença, egoísmo e prazer, orgulho e juízo. Proclamamos um evangelho falso de autossuficiência e de poder. Felizmente, Deus nunca se cansa de perdoar. A porta da misericórdia está sempre aberta para nós.

Se forem como eu é fácil olhar à volta para esta nação, para este mundo, para esta Igreja e ver exemplos destes falsos evangelhos. É fácil pensar noutros católicos – alguns dos quais nos mais altos cargos de influência civil e religiosa – que proclamam essas mentiras e de católicos que auxiliam e protegem a proclamação dessas falsidades, como se a misericórdia implicasse a negação da verdade.

E ainda, se forem como eu, é substancialmente mais difícil – e muito mais perturbador – ver estes pecados na sua própria vida. O pecado cega-nos para o pecado. O pecado, como costuma dizer um bom amigo, “estupidifica-nos”.

E então é fácil tornarmo-nos como os fariseus do Capítulo 8 do Evangelho de João que apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Estamos ansiosos para apresentar os pecados dos outros para condenação, mas não vemos os nossos, a nossa própria necessidade de misericórdia.

Há uns anos o Papa Francisco refletiu sobre esta passagem numa homilia:

Penso que também nós somos as pessoas que, por um lado, querem escutar Jesus, mas por outro lado, por vezes, gostamos de encontrar um pau com o qual podemos bater nos outros, condená-los. E Jesus tem para nós esta mensagem: misericórdia. Penso – e digo-o com humildade – que esta é a mensagem mais poderosa do Senhor: misericórdia.

A misericórdia está no cerne do Evangelho. É, de certa forma, a Boa Nova que recebemos e que temos de proclamar. Mas surge uma questão: Misericórdia de quê? Do sofrimento e da morte? De sentimentos de culpa e de vergonha? De uma consciência perturbada? A resposta para todas estas questões é “sim”, mas precisamente na medida em que a misericórdia de Deus é uma misericórdia pelo pecado e pelo erro. 

Jesus repreendeu os fariseus não por eles terem identificado (corretamente) o pecado de adultério da mulher, mas porque não conseguiam conceber que o verdadeiro remédio para o seu pecado não era o juízo à luz da lei, mas a misericórdia de Deus. A ordem de Jesus para a mulher apanhada em adultério foi: “Vai e não tornes a pecar”. O seu pecado não é ignorado nem tolerado, como muitos hoje tendem a fazer; é reconhecido e perdoado.


Já os fariseus merecem um tratamento mais duro, não porque Jesus é forreta na sua misericórdia, mas precisamente porque não conseguem ver a verdade do seu próprio pecado. Nem o Senhor é indulgente para com a sua cegueira. Ele exibe os seus pecados diante deles, tal como o profeta Natã fez com David, para que possam ver a dolorosa verdade e arrepender-se. Ao contrário de David, que se arrependeu, os fariseus não se deixaram mover.

Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Mas porque vos digo a verdade, não me credes (Jo. 8,44-45)

Vemos então que as palavras duras de Jesus para os fariseus e para a multidão são palavras de misericórdia. São uma oferta de verdadeira liberdade: “Se permanecerem na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E depois, “em verdade, em verdade vos digo, todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”.

Que misericórdia é essa que promove em nós a cegueira para com os nossos próprios pecados? Que misericórdia nos deixa escravos do pecado? Que é da misericórdia sem verdade?

Infelizmente, vemos a resposta a estas perguntas quase todos os dias.

Pode-se dizer que o diálogo de Jesus com os fariseus é uma forma de acompanhamento, um modelo para o “diálogo” com um certo tipo de interlocutor: como um Bom Pastor acompanha os poderosos, os obstinados e os presunçosos. E qual foi o resultado deste modelo de acompanhamento e de diálogo? “Pegaram em pedras para lhe lançar”.

Os fariseus acabaram por conseguir mandar matar Jesus, acusando-o falsamente de estar a perturbar a ordem pública. Nas palavras da multidão para Pilatos: “Se o libertardes, não és amigo de César. Todo o que se faz Rei está contra César”.

Mas falar daquela forma com os fariseus teve outro efeito, por mais que Jesus soubesse do preço a pagar.

Quando levantardes o Filho do Homem, então, conhecereis quem eu sou e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo; o Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.

Dizendo ele essas coisas, muitos creram nele. (João 8, 28-30)

As palavras dirigidas por Jesus aos fariseus não eram só para eles, mas para todos os que estavam a ver e a escutar: na altura e hoje. Ele veio para “dar testemunho da verdade”, sabendo que isso lhe custaria a vida, para que outros acreditassem.

A proclamação do Evangelho é alcançada através do testemunho pessoal. Quem tem ouvidos, que oiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Fevereiro de 2021)

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