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Friday, 15 July 2022

Novidades sobre abusos e outra visão da crise no SNS

Nos últimos dias tem-se falado muito sobre casos ligados à questão dos abusos sexuais na Igreja. Primeiro foi o caso do padre suspenso por enviar mensagens de conteúdo impróprio numa conversa de WhatsApp, depois o caso de um padre suspenso na arquidiocese de Évora, por não ter agido de forma correcta num caso de abusos praticados por um leigo. Entretanto soubemos que a Comissão Independente que está a analisar a situação nacional pretende edificar um memorial às vítimas, encomendado a Siza Vieira e hoje o juiz Souto Moura deu uma entrevista à Renascença em que, entre outras coisas, refere que desde Maio houve dois casos reportados em Lisboa. Ora, um dos casos será o acima referido, mas não se sabe qual é o segundo.

Pretendo escrever sobre tudo isto nos próximos dias, porque há muito a analisar e a dizer, mas entretanto recordo que aqui vou mantendo uma cronologia dos casos que têm surgido em Portugal, e que está o mais completo possível. Se notarem alguma falha, algum caso que não tenha sido reportado ou um caso que já tenha sido julgado, ou arquivado, avisem sff, nos comentários.

A semana passada o episódio do Hospital de Campanha foi sobre a crise no SNS, com o convidado José Diogo Ferreira Martins. Se ainda não ouviram, oiçam. Mas depois leiam também o comentário que entretanto publicámos, feito por uma médica católica que trabalha num hospital público em Trás-os-Montes. A Teresa apresenta uma visão diferente, discordando de alguns aspectos e complementando outros. Acima de tudo, são visões de duas pessoas de fé que trabalham em especialidades e realidades muito diferentes e que nos ajudam a ter uma melhor perspectiva do que se passa. Deixo já em aberto o convite a outros profissionais de saúde que queiram comentar e partilhar as suas opiniões. Podem fazê-lo na caixa de comentários, ou por mail para mim.

Ainda no rescaldo da decisão do Supremo americano que acabou com o aborto como direito constitucional nos EUA, o artigo desta semana do The Catholic Thing pergunta se não vale a pena reconsiderar o conceito de “liberdade procriativa”, que é excessivamente negativo e individualista. Um tema interessante a explorar.

A semana passada dei conta da “epidemia” de raptos e assassinatos de padres na Nigéria. Em resposta a Associação de Padres Diocesanos publicou um apelo a uma semana de oração e jejum e termina hoje. É um apelo muito bonito, que rejeita a resposta violenta. Leiam sobre o assunto aqui e, já agora, rezem também.

Em Cuba passou um ano sobre as manifestações pela liberdade, que foram duramente reprimidas. O país está na miséria – mais um caso em que o comunismo estranhamente falhou, mas algum dia hão de acertar, garantem-nos! – mas a pior pobreza de todas é mesmo a falta de liberdade, diz este padre cubano.

Para muitos já estamos em tempo de férias. Para quem não sabe ainda para onde ir, aconselho uma viagem ao mundo do Patriarca Cirilo, de Moscovo. Deve ser um local fantástico! Surreal é certamente. Aqui encontram a análise a algumas das suas mais recentes e extraordinárias declarações e aqui encontram todas as declarações dos principais líderes religiosos relevantes, sobre a guerra na Ucrânia.

A crise no SNS - Outra visão

No seguimento do último episódio do Hospital de Campanha, sobre a crise no SNS, recebemos este comentário muito interessante de uma amiga que é médica, especializada em oncologia e paliativos, e que trabalha num hospital em Trás-os-Montes. Discordando de algumas das coisas que disse o nosso convidado, José Diogo Ferreira Martins, na verdade o comentário da Teresa acaba por complementar muitas das coisas que ele disse e parece-me demasiado importante para ficar apenas na secção dos comentários, pelo que o publico aqui na íntegra, tendo feito apenas um pouco de edição, corrigindo gralhas e eliminando emojis, por uma questão de objecção de consciência.


Mais uma vez ouvi o vosso podcast e gostei muito.

Não concordo com todas as opiniões do colega, mas admiro a fantástica capacidade de manter a humanidade e continuar a acreditar na verdadeira essência do que é ser médico!

Contudo, gostava que parassem de dizer que a crise do SNS vem da fuga dos médicos para o privado! Não é verdade!

A crise do SNS vem do subfinanciamento brutal e da total centralização de todas as decisões!

Nós até não nos importávamos de trabalhar a receber pouco se pudéssemos trabalhar com qualidade e desenvolver projetos que fizessem a diferença para o doente.

A maioria de nós continua a acreditar na beleza e utilidade do sistema público, mas é muito difícil trabalhar com a equipa que é volátil, pois depende de um concurso central.

Pior ainda é ter doentes graves à espera durante meses de um exame porque o aparelho está avariado e o concurso para a sua manutenção caducou.... Doentes com cirurgias adiadas sucessivamente por falta de material... Pedir por favor (como se fosse para a nossa mãe) ao colega que veja em extra um doente urgente e grave... Sim, porque as cunhas não tiram o lugar a outro, pelo menos na minha consulta, acrescentam um doente extra à lista, e tiram-me a hora de ir buscar os meninos à escola!

Cansa trabalhar em gabinetes sem mínimas condições, ter de levar de casa luvas e máscaras (como aconteceu!) ou andar a abanar os tinteiros da impressora para poder imprimir uma receita ou outros milhares de burocracias a que nos obrigam.

Esta narrativa da fuga para o privado tem também alguma demagogia. Por exemplo, este ano acabaram a especialidade de ginecologia e obstetrícia cerca de 20 médicos. O Estado abriu um concurso com mais ou menos 40 vagas. Como é evidente, apenas metade foi preenchida, pois só existiam no país cerca de 20 médicos em condições de concorrer! Como é que isto chega à imprensa? “Apenas metade das vagas para GO no SNS forma ocupadas. Médicos fogem do SNS”

Sobre a Covid, foi extremamente doloroso trabalhar durante estes dois anos, em especial na área em que trabalho, de oncologia e paliativos. Fizemos tudo o possível para combater a solidão e o isolamento, mas deu vontade de chorar todos os dias! Terríveis as enfermarias de "covid paliativos" onde estavam doentes Covid que toda a gente sabia que iam morrer, mas onde não se podia ceder um milímetro nos procedimentos e equipamentos de protecção individual. Ainda agora mantemos regras estúpidas, mas na realidade recuámos 20 anos em termos de humanização hospitalar e vamos demorar a recuperar.

Uma nota quanto à assistência espiritual: de louvar o trabalho de alguns capelães fantásticos que tudo fizeram para se fazer presentes, apesar das limitações, muitas vezes a ter de desafiar as autoridades. Mas o atendimento das necessidades espirituais dos doentes (crentes ou não crentes) é essencial e é das áreas mais negligenciadas! Não é da responsabilidade apenas dos capelães ou famílias, mas dos profissionais, numa perspectiva de ir ao encontro daquilo que dá sentido à vida e é a espiritualidade particular de cada doente. Esta lacuna é uma das maiores causas de sofrimento no final de vida.

Como diz Cassel: "os corpos doem, as pessoas sofrem", e nós medicamos a dor e abandonamos o doente ao seu sofrimento.

Mas isso dava para mais uma longa conversa.



Thursday, 7 July 2022

Hospital de Campanha - Episódio 8: A Crise na Saúde

Foi preciso esperar nove episódios, mas no Hospital de Campanha desta semana temos finalmente um médico a sério em estúdio. 

O José Diogo Ferreira Martins é um crente no SNS, mas isso não o impede de fazer um diagnóstico pessimista ao SNS. O também presidente da Associação de Médicos Católicos fala também das ameaças à objecção de consciência, dos desafios de se viver no mundo da medicina com fé e da forma como a pandemia afectou os cuidados espirituais nos hospitais. 

Foi uma excelente conversa, vale bem a pena ouvir!


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