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Wednesday, 27 December 2023

A Pergunta de Maria

Pe Paul Scalia

Ora aqui está uma coisa curiosa. A Bendita Virgem Maria – o último máximo de humildade, fé e obediência – faz algo que normalmente não associamos a essas virtudes. Faz uma pergunta: “Como será isso, se não conheço homem?”. Claro que a pergunta é feita precisamente com toda a humildade, fé e obediência. Ao fazê-la ela ensina-nos a perguntar e, por isso, a pensar rectamente sobre a nossa fé.

E devemos mesmo pensar sobre a nossa fé. Não o fazer seria um mau serviço à fé em si. A revelação de Deus é feita a criaturas racionais e deve ser recebida e respondida como tal. Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, é o Logos – o verbo, a ideia e ou o pensamento – tornado carne. Deus é o nosso “culto racional” (Romanos 12,1). A ausência de pensamento deturpa e distorce a fé católica. Conduz a uma fé superficial, supersticiosa e frágil, pronta para ser estilhaçada mal seja confrontada por uma boa pergunta.

Fiéis que não pensam tornam-se alvo fácil para predadores. São como a semente que caiu ao longo do caminho. “Quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração” (Mateus 13,19). Um magistério que não pensa torna-se uma tirania que não ensina a palavra de Deus com autoridade, mas impõe simplesmente o seu poder.

Agora, para apreciar a pergunta de Nossa Senhora, temos de a contrastar com a pergunta de Zacarias que surge mais cedo no Evangelho de São Lucas (ver Lucas 1,5-23). O Anjo Gabriel aparece-lhe no templo. Junto ao altar, anuncia a resposta às orações de Zacarias, o nascimento de João Baptista. Em resposta, Zacarias pergunta: “Como terei certeza disso?” À primeira vista, a pergunta é semelhante, praticamente a mesma feita por Maria. Mas a diferença é profunda.  

Como terei a certeza disso? Bom, tens à tua frente o mensageiro de Deus. Isso devia ser prova suficiente. Se o envio de anjo por Deus não é suficiente, então que mais será preciso? Em termos modernos, a pergunta de Zacarias soaria a algo como “deve ser, deve”, ou “Ai sim? Então prova.” Ele não está aberto à verdade que lhe está a ser anunciada. Pelo contrário, insiste que Deus lhe dê provas. Zacarias é um cético, não procura conformar a sua mente à realidade, mas insiste que a realidade se comprove ao seu gosto. Isso torna Zacarias uma imagem adequada da maioria dos pensadores modernos.

A pergunta de Maria é diferente. “Como pode ser isso?” pode ser traduzido como “como será isso?” ou ainda “Como é que isto vai ser?” O ponto é que ela aceita que aquilo que o anjo lhe anunciou será. Mas também quer saber como. Maria confia – tem fé – de que o mensageiro de Deus está a dizer a verdade. Depois, quer compreender como é que esse milagre irá ocorrer

Esta é, por isso, a primeira lição que Nossa Senhora nos ensina sobre como pensar: fazer perguntas com fé. A definição de teologia é uma fé que tenta compreender. Primeiro, acreditamos naquilo que Deus revelou; depois procuramos compreendê-lo melhor. Não condicionamos a nossa fé à compreensão. Não dizemos: “Acreditarei, depois de me convenceres”. Isso foi o que fez Zacarias, e foi punido por isso. A fé no que Deus revelou é necessária ao pensamento correcto na Igreja.

Na verdade, a fé é necessária para qualquer tipo de pensamento. Todos os professores compreendem isto, porque a primeira coisa que os seus alunos devem fazer é confiar neles. Se o aluno não tiver este tipo de fé natural, se recusar-se a confiar, então não será capaz de receber aquilo que o professor tem para partilhar. Os revolucionários instam-nos questionar a autoridade, mas esse é o mantra daqueles que se recusam a ser ensinados e por isso nunca aprenderão a pensar.

Em segundo lugar, Maria mostra-nos que devemos fazer perguntas com a disposição certa para receber a resposta. A pergunta de Zacarias era a única resposta que ele queria. A pergunta de Nossa Senhora revela abertura a aprender. Aqui devemos recordar a frase de Newman de que “dez mil dificuldades não formam uma dúvida”. Uma dificuldade é uma perplexidade ou questão sobre algum aspecto da fé. Leva a questionar e à disposição para acolher o que Deus tem para dizer.

Já a dúvida tem as suas raízes no cepticismo, e conduz ao mesmo. Coloca Deus no Banco dos Réus e coloca sobre Ele o ónus da prova. A ironia é que Deus fez muitas coisas para provar o seu amor por nós. Mas não estamos abertos às suas respostas. Estamos constantemente a mudar o alvo, insistindo que ele se prove de acordo com os nossos critérios.

Terceiro, Maria revela que as nossas questões devem servir para a autodoação. A sua pergunta não é apenas um exercício intelectual. Não está a perguntar só porque era giro saber. Ela não sofre do vício de curiositas. Antes, pergunta, procura compreender mais, para que se possa conformar à verdade de Deus. É por isso que devemos fazer perguntas sobre a fé: para que, ao compreender melhor, possamos dar-nos mais. 

O castigo de Zacarias foi ficar mudo – porque os cépticos não têm nada de útil para dizer. Maria foi premiada com uma explicação e uma prova. Ela não as exigiu; Deus deu-lhas na sua generosidade. Nem sempre Ele fala tão rápida ou claramente. Mas retribui sempre aqueles que o buscam com corações retos e sinceros, que desejam conhecê-lo e compreendê-lo mais, não segundo os seus critérios, mas segundo os dele.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 28 June 2023

Medo e Destemor

Pe Paul Scalia

Não temas ninguém… não temais… teme… não temais (vide Mateus 10, 26-33)

Nosso Senhor parece estar a dizer coisas contraditórias. Ao longo destes oito versículos ele ordena-nos três vezes a não ter medo e uma vez a temer. Ora, esta aparente confusão está em linha com o resto da Escritura. Uma das expressões mais comuns da Bíblia é “Não temais”. Mas também é muito frequente a exortação de temer o Senhor. O salmista, por exemplo, faz este curioso convite: “Vinde, meus filhos, escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor” (Salmo 34, 12). Como é que devemos entender isto, então?

O medo é uma realidade inescapável para nós, porque somos seres contingentes. Tememos porque sentimos aquela profunda verdade de que a nossa existência depende de terceiros. Mesmo o individualista mais empedernido não causou a sua própria existência, nem sustenta o seu ser. A nossa existência depende de algo exterior a nós. A possibilidade de podermos ser separados dessa fonte produz temor, bom ou mau. Mas teremos sempre temor a algo.

Comecemos com o temor bom. “Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma.” Aqui Jesus está a falar de temor ao Senhor, do único que pode dar vida e tirá-la. Não estamos a falar aqui de horror ou medo do Senhor, como se Deus nos quisesse simplesmente castigar. Estamos a falar do medo de contrariar e ser separados daquele que sustém o nosso ser. É a atitude do filho nos braços do seu pai, que não pensa sequer rebelar-se contra aquele que o mantém em segurança.

Este temor é, antes de mais, um reconhecimento da transcendência e omnipotência de Deus. Ele é Deus, eu não sou. Todo o crescimento espiritual e toda a vida cristã radica nesta verdade. Assim, “o temor ao Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9,10). É o humilde reconhecimento de não sermos nada que nos abre à graça de Deus. É por isso que o Temor a Deus é considerado o primeiro dos Dons do Espírito Santo. Sem esta disposição e atitude, consideramo-nos autossuficientes e fechamo-nos à sua graça. 

Quando nos esquecemos desta verdade – Ele é Deus; eu não – tornamo-lo supérfluo para nós. Bom de ter por perto, mas não absolutamente necessário. Torna-se apenas mais uma pessoa na nossa vida ou, pior, um talismã que usamos quando nos dá jeito. Infelizmente, a nossa sociedade domesticou Deus de tal maneira que muitos católicos O tratam assim, alguém que está à nossa disposição para nos confortar e, claro, afirmar. O temor a Deus livra-nos de tal irreverência, impede-nos de usar Deus como um meio para um fim.

Mais importante, este temor é a reverência por Deus enquanto Pai. Notem como nesta passagem Jesus nos exorta a temer, enquanto fala também da forma como Deus cuida de nós e nos sustenta. O temor a Deus é, no final de contas, o medo de ofender a Deus porque Ele nos ama. Ajuda-nos a não pecar, não tanto por medo de sermos castigados (embora essa também não seja uma motivação má), mas por causa do amor. É o medo de o nosso pecado afectar a nossa relação com o Amor.

Ao contrário do que a mente moderna possa pensar, o Temor ao Senhor conduz à liberdade. O que nos escraviza são as coisas erradas: a pobreza, a humilhação, a fraqueza, solidão, etc. O medo dessas coisas menores é que nos conduz ao pecado, ou à tentação de controlar a situação, para evitar o sofrimento. Daí é que vem a velha noção de que o Medo é o principal activador das nossas falhas. Falsos medos levam-nos a tentar obter o controlo da situação, o que nos conduz à escravidão das nossas próprias vontades.

Mais – e mais uma vez, ao contrário do que se poderia pensar – este temor a Deus enquanto Pai todo poderoso é a base necessária para a confiança. Afinal de contas, não confiamos naquilo que nos parece ser fraco. Se o seu poder não inspira temor, então não é de confiança. É precisamente porque Ele é suficientemente poderoso para ser temido que podemos confiar nele. Mais importante, o seu poder e a sua força estão ao serviço de nós, os seus filhos.

Por fim, o Temor ao Senhor torna-nos destemidos, o que explica a aparente contradição no Evangelho. O Temor a Deus coloca tudo o resto em perspectiva. Se estamos ancorados no Temor a Deus – sabendo que ele é um Deus todo poderoso e um Pai que nos ama – então nada mais temos a temer. Ou, nas palavras de Raniero Cantalamessa, “Teme Deus e não temais”. Perseguição, humilhação, pobreza, doença, até a morte – na medida em que nos agarramos ao nosso Pai no céu, não devemos temer nenhuma destas coisas.

Este é o segredo dos mártires, e é por isso que o Senhor contrasta estes medos com a exortação ao testemunho e ao martírio. O mártire triunfa sobre a perseguição e o sofrimento, não por causa da sua própria força, mas porque o Temor a Deus o permite manter-se firme naquele que o pode salvar da morte. E é escutado por causa do seu temor divino (ver Hebreus 5,7).

E tu, o que temes? Esta é uma consideração premente. As coisas parecem estar cada vez piores, e há muitas razões para ter medo. Mas se tivermos um correcto temor a Deus, podemos estar seguros na força do Pai, livres de qualquer outro medo.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Junho de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 30 June 2021

Lançar as Redes

Elizabeth A. Mitchell
A cena final da famosa peça de drama existencial de Samuel Beckett, “À Espera de Godot” capta o medo entrincheirado, a dúvida e o desespero da modernidade. Um vagabundo desafeiçoado, Estragão, diz a outro: “Bom, vamos?”

“Sim”, diz Vladimir, o outro, “vamos”.

Direção de cena: “Permanecem imóveis”.

E não se irão mover, nunca. Os sem-abrigo de Becket, por patéticos que pareçam no palco, não são muito diferentes, se é que diferem de todo, do nosso dilema actual.

São tantas as coisas que paralisam a nossa esperança. Dor, falhanço, ressentimento, exaustão. Tentámos e não fomos bem-sucedidos. Amámos e fomos rejeitados. Tivemos esperança e fomos desapontados. E agora surge intensa a tentação de abraçar a segurança do cinismo. Se não tentarmos podemos evitar o fracasso. Se não amarmos não podemos ser rejeitados. Se não tivermos esperança não nos arriscamos a ser desapontados. É mais seguro assim.

Mas essa carapaça do cinismo é também uma prisão. É verdade que não nos podemos magoar, mas também não podemos sair. Quanto mais nos embrenharmos nessa carapaça de desafeição, mais apertada fica. Até que redefinimos a nossa natureza, porque é tão difícil acreditar, esperar, confiar e abandonar a dúvida depois de termos sido desapontados. Porém, a natureza de Cristo reflete todas estas qualidades para connosco.

Ele tem tantas razões para duvidar de nós. Tantas provas de que vamos desapontá-lo, mais uma vez. Porém, Ele encoraja-nos, sempre, a tentar de novo, e nunca mais do que quando passámos toda a noite na faina e não apanhámos nada. Ele leva-nos a confrontar esse lugar dentro de nós próprios e a tentar de novo, mas com a Sua graça.

“Tendo acabado de falar, disse a Simão: ‘Vai para onde as águas são mais fundas’, e a todos: ‘Lancem as redes para a pesca’.” (Lucas 5,4).

Lancem as redes. Baixem a guarda. Abandonem o vosso orgulho. Tentem de novo. Sejam vulneráveis ao falhanço e à humilhação. Tenham novamente esperança, sem qualquer garantia de sucesso. Confiando apenas no chamamento do Senhor.

“Simão respondeu: ‘Mestre, esforçámo-nos a noite inteira e não apanhámos nada” (Lucas 5,5)

Já tentámos isso. Sabíamos o caminho. Começámos um negócio. O negócio falhou. Dedicámo-nos à missão. A missão foi infrutífera. Esforçámo-nos nessa relação mas ficámos com uma mão cheia de nada.

“Mas porque me pedes, vou lançar as redes.” (Lucas 5,5)

Voltarei a perdoar. Voltarei a amar. Voltarei ao meu posto e tentarei de novo.

É tão difícil. O exemplo de Pedro e tão importante. Ele simplesmente obedece. A única graça a que ele tem acesso é a obediência. Não é o zelo, nem os resultados. Apens a escuta do Senhor.

É como se dissesse “Senhor, eu amarei, e lançarei novamente as redes”. “Senhor, eu perdoarei, e lançarei novamente as redes”.

E qual é o resultado? É o oposto do que esperaria qualquer cínico. O cínico diz a si mesmo: não o faças, vais fazer figura de idiota. As pessoas não merecem que tentes de novo. Ninguém valorizou o teu esforço anterior. Tens de ser superior a isso. Ter algum amor próprio. Mantém-te aqui, onde é seguro, nesta prisão da dúvida.

Mas Pedro lança as redes. E enquanto o faz toda a Igreja universal em florescimento, a dar os seus primeiros passos, sustém a respiração coletiva.

“Quando o fizeram”, revela o Evangelho, “apanharam tal quantidade de peixes que as suas redes começaram a rasgar-se”. (Lucas 5,6)


Sucesso. As redes estavam a rasgar-se. O resultado de amar em obediência a Cristo, de abandonar o orgulho e de perdoar apenas mais uma vez, aquela vez em que era menos merecido, é quando se dá o avanço!

Ungidos pela graça, os seguidores de Cristo alcançam tal sucesso, tal amor, tal abundância que “encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar (…) e Simão e os seus companheiros ficaram perplexos com a pesca que tinham feito” (Lucas 5,7-9)

A profundidade do nosso deslumbramento deriva do nosso entendimento do que seria de esperar. Tínhamos noção do nosso orçamento e da falta de liquidez. Tínhamos visto a indiferença dos nossos amados. Sentimos a injustiça das nossas feridas. Tínhamos experimentado os grilhões impiedosos do vício. Mas quando respondemos com obediência ao pedido de Nosso Senhor produziu-se o milagre.  

“Não tenhais medo” ordena o Senhor. “De agora em diante sereis pescadores de homens”. (Lucas 5,10).

Simão Pedro é o nosso exemplo. Neste momento crítico, debaixo do olhar de todos os discípulos, presentes e futuros, a sua vulnerável obediência dita o futuro da Igreja.

Tudo isto se passa nas profundezas, fora de pé. Onde não controlamos nada. O abandono é a parte funda da piscina espiritual. É a última paragem na nossa viagem. É também o verdadeiro começo.

Sem garantias. A forte possibilidade da humilhação, mas a certeza maior ainda daquele que nos chama, que pede, que ordena. O risco é real. A resposta é o prémio ungido de Cristo.

E o prémio é dele e só dele. Mais do que possamos pedir ou imaginar. Calcada e transbordante. A alegria que vem da entrega voluntária a Jesus na fé.

Santa Teresa de Lisieux escreveu: “Levou-me, confesso, muito tempo a chegar a tal entrega; já lá cheguei, mas foi o próprio Jesus que me trouxe até aqui.”

Jesus traz-nos até à margem, onde podemos deixar os nossos barcos, os nossos esforços humanos limitados, lançando-nos para as profundezas da sua graça.

“Então arrastaram os seus barcos para a praia, deixaram tudo e seguiram-no” (Lucas 5,11)

E assim devemos fazer também.


Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 19 de Junho de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 15 July 2015

Fé: Luz Espiritual que Ilumina a Mente

Randall Smith
Recentemente uma das minhas alunas estava a ler um livro que dizia que a fé é “uma luz espiritual que ilumina a mente” e que “vemos através dessa luz”. Perguntou-me o que é que isso queria dizer. O que é uma “luz espiritual” e como é que pode “iluminar a mente?”. “Sei que ‘luz’ é apenas uma metáfora, mas não deixa de me parecer um pouco vago. Do que é que o autor está a falar?”

Consideremos o seguinte caso, disse-lhe. Digamos que há uma jovem rapariga que sofre de depressão crónica e que, desde muito nova, tem problemas com a sua imagem corporal. Ela pensa que é gorda e feia, mas não é. Na verdade, é capaz até de ser demasiado magra para o seu bem, mas é até bastante atraente.

Agora digamos que esta jovem mulher recebe ajuda de um bom psicólogo e/ou que responde da melhor forma ao amor de um pai, de uma amigo ou do seu marido. E digamos que depois desta alteração na sua disposição, quando se olha ao espelho, já não se vê como gorda e feia, apesar de o seu índice de massa corporal estar exactamente na mesma. Por alguma razão ela agora já acredita, ao contrário de antes, no seu marido, ou na sua mãe ou nos amigos, quando estes lhe dizem “não és gorda, és linda”. Antes até lhe custava ouvir tais palavras.

Como é que descreveríamos esta nova visão que a jovem passou a ter de si mesma, e de si em relação ao mundo? Que tal uma espécie de “luz espiritual” que lhe “iluminou a mente?”

Porquê esta descrição? Porque antes ela estava convencida na sua mente que era gorda e feia. Ninguém lhe poderia demonstrar o contrário. Por isso a mudança não foi puramente intelectual. Ninguém lhe deu novas provas; ninguém lhe mostrou fotografias que antes não tinha visto. A mudança aconteceu nalgum lado dentro dela que não apenas o intelecto. Não foi apenas uma mudança na sua mente; foi uma mudança em toda uma atitude para consigo mesma e em relação a outras pessoas e ao mundo.

Onde antes tinha existido uma espécie de desespero porque as coisas nunca seriam diferentes, agora existe uma esperança. Não se trata de um sonho ilusório e impossível (como eu dizer, por exemplo, que um dia seria capaz de jogar no NBA), mas uma esperança baseada numa nova percepção da realidade das coisas como verdadeiramente são. Não dizemos apenas que ela “espera” que não seja gorda. Não, ela vê a verdade de que não é gorda, coisa que antes não era capaz de ver, nem de imaginar. Podemos dizer, por isso, que esta nova “luz espiritual” lhe “iluminou” a mente, de forma a que ela consegue agora ver com os seus olhos e compreender com a sua mente a sua verdadeira imagem e o seu verdadeiro valor, que antes estavam abafados por uma ilusão.

Poderá ser que esta nova capacidade de se ver a si mesma e ao mundo se tornou possível porque finalmente acreditou no amor de um amigo, ou do seu marido, ou por alguma razão que ela provavelmente não consegue explicar. Ou talvez se trate de algo para além da “razão”, pelo menos de acordo com o que ela considerava “razoável”. E esta nova “visão” de si mesma e do mundo, que se tornou possível por ter dito finalmente que “sim” ao amor, também abriu as portas a uma nova esperança e à capacidade para amar de forma mais completa. Na verdade, se calhar ela simplesmente disse a si mesma: “Prefiro dizer que sim à realidade do amor e a tudo o que isso promete em vez de dizer que não e permanecer presa na triste realidade que me convenci a mim mesma que é a única que poderia possivelmente existir.”

Este dizer que “sim” na esperança da promessa da realidade que o amor pode tornar possível é aquilo a que os cristãos chamam “fé”. Não é apenas um acto de vontade: Não me limito a querer acreditar naquilo que é impossível. Antes, é uma nova visão do intelecto, uma luz espiritual nova na qual nos conseguimos ver a nós mesmos e ao mundo de forma mais clara, uma visão que se torna possível dizendo “sim” ao amor e à sua promessa daquilo que pode vir a ser, mas ainda não é.

Seria bom se, quando lidamos com jovens deste tipo que se convenceram de que são feias, pudéssemos simplesmente fornecer-lhes provas no sentido contrário. Mas por alguma razão, na maior parte das vezes, o “sim” da fé, esperança e amor precisam de vir primeiro. Este tipo de pessoa não começa por ver a verdade e depois decide, com base em critérios racionais, a amar-se a si mesmos e aos outros. Primeiro têm de aceitar a realidade do amor e depois deixá-lo desabrochar num novo tipo de esperança que lhes permite ver a realidade como ela é verdadeiramente.

Se duvida que o amor torna possível uma visão mais verdadeira e clara da realidade – sobretudo da realidade das pessoas – do que teria sido possível de outra forma, então é porque não passou tempo suficiente a ouvir mães a falar dos seus filhos. Sobretudo, digamos, a mãe de um filho com Trissomia XXI. Tanto quanto consigo ver (não sendo uma daquelas pessoas que se baba por bebés), se não pudesse ver com os olhos de um amor que é capaz de olhar para além das evidências e com uma esperança por possibilidades que ainda não estão presentes (ou que nem parecem muito prováveis), aquela mãe não estaria a apostar a sua vida no futuro destas crianças.

Mas é isso mesmo que as mães fazem, todos os dias.

O que é que elas vêem nestas crianças que eu não vejo? Provavelmente o mesmo que os santos vêem no mundo e nas outras pessoas que o resto da humanidade não vê: A graça amorosa de Deus em acção, tornando possíveis realidades que mal podemos conceber e que na maior parte das vezes nem conseguimos imaginar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 25 March 2015

A Fé pode sobreviver no “Primeiro Mundo”?

David G. Bonagura Jr.
“Com a subida dos rendimentos, descem os campanários… A felicidade chega e Deus põe-se a andar”.

Olhando para o chamado “primeiro mundo”, esta afirmação, no geral, parece ter algum mérito. Ao longo dos últimos séculos, à medida que os nossos confortos materiais se multiplicaram lentamente, o fervor religioso tendeu a diminuir. Mas este declínio não aconteceu da mesma forma nas partes menos abastadas do mundo. Uma vez que esta vaga de secularismo no mundo desenvolvido parece ter coincidido com uma era de avanço tecnológico e material, parece adequado perguntar se a fé religiosa pode sequer sobreviver neste clima.

A aparente incompatibilidade entre a fé e o conforto humano não é nova. O próprio Senhor anteviu esta tensão fazendo o aviso: “É mais fácil a um camelo passar no buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, (Mt. 19,24). Esta admoestação seguiu-se à conversa entre Jesus e o jovem rico, que preferiu regressar triste para os seus muitos bens do que seguir Jesus.

Por outro lado, a fé parece ser mais firme quando as pessoas estão necessitadas. No seu desespero, dez leprosos procuraram Jesus. Satisfeitos os seus pedidos, apenas um se lembrou de prestar homenagem ao seu Salvador. A inspiração heróica dos mártires incentivou a fé de muitos crentes durante os tempos de opressão. Nos nossos dias, as Igrejas Católicas estavam significativamente mais cheias ao meio-dia de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, do que na mesma hora uma semana antes ou nas terças-feiras seguintes.

Mesmo a nossa prática quaresmal parece apontar nesta direcção. Com o jejum privamo-nos deliberadamente de comida e outros confortos físicos para incentivar o crescimento espiritual. Na primeira semana da Quaresma pedimos a Deus: “Fazei que a nossa alma, purificada pela penitência corporal, resplandeça cada vez mais com a luz da vossa presença”.

Teria Marx razão? Será que a religião é o ópio do povo, destinado a ser erradicado mal se obtenha a quantidade certa de riqueza e bem-estar material? A fé no mundo desenvolvido e cada vez mais abastado está destinada a ser eliminada?

Em primeiro lugar, não há nada de errado com os bens materiais ou confortos físicos, em si. Depois, até ver, a fé tem claramente sobrevivido à disseminação de bens de luxo e à secularização. Muitos continuam a crer, mesmo de forma fervorosa, incluindo algumas das pessoas mais ricas e confortáveis de entre nós. Há paróquias e regiões no mundo desenvolvido onde a prática religiosa é fervorosa e há ricos e pobres que continuam a responder ao chamamento das vocações religiosas. Por isso não parece ser o caso que a riqueza e o conforto sejam incompatíveis com a fé.

Mas parece justo concluir que o estilo de vida do mundo desenvolvido, como o conhecemos agora, tem o potencial para ser hostil à fé. Os nossos corações irrequietos e destinados a Deus, nas palavras de Santo Agostinho, podem facilmente ser distraídos (no sentido literal de “arrastados para longe”) pela disponibilidade geral de confortos, conveniências e remédios que prometem a felicidade. Por entre o ritmo de vida incansável e o barulho de fundo constante do nosso mundo, a voz de Deus, que prefere o silêncio e a quietude, torna-se mais difícil de ouvir.

Generation Smartphone - No need for God?
Mas o primeiro mundo é bem mais do que um aglomerado de coisas, barulhos e actividades. O poder da tecnologia e dos bens materiais deu lugar a um espírito único, uma característica da era moderna que desembocou no mundo moderno: O serviço e a adoração de nós próprios como fim último para o qual estes bens existem. Em vez de encarar o nosso progresso como forma de construir o Reino de Deus, o mundo desenvolvido preferiu usar a tecnologia para banir Deus, numa tentativa de nos tornarmos soberanos auto-suficientes do Universo. Enquanto sociedade, permitimos que os materiais nos conduzissem ao materialismo – a crença de que apenas aquilo que é físico e tangível tem verdadeiro significado.

Neste ambiente, é difícil para uma fé num Deus invisível e imaterial, que não promete a eliminação dos nossos sofrimentos, mas a dádiva de um tipo de união com ele actualmente incompreensível, ganhar raízes em mentes já por si cativadas por bens materiais e as suas promessas. Imaginem a reacção de um adolescente típico à descrição das visões beatíficas enquanto o seu smartphone brilha com todo o tipo de imagens e mensagens. Claro que há adolescentes que perceberam o vazio do materialismo actual e abraçaram a fé, mas são relativamente poucos.

Hoje os inimigos da fé do mundo desenvolvido são tão formidáveis como em qualquer altura da história da salvação. E esta história demonstra que os católicos têm obtido os seus maiores sucessos na evangelização de povos inteiros quando motivados por duas crenças profundas: Um grande amor por Cristo, ao ponto de martírio, e o entendimento de que aqueles que encontram não podem ser salvos se não aceitarem o Evangelho.

Nosso Senhor prometeu que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas isso não garante que as almas permaneçam dentro dela. Um número preocupante de concidadãos no mundo desenvolvido ouviram o Evangelho mas não escutaram. Se os nossos esforços de evangelização não forem tão zelosos como os dos missionários do passado, o mundo desenvolvido poderá tornar-se a razão da pergunta preocupante de Jesus: “Quando filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?” (Lc. 18,8).


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 22 de Março de 2015 no The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 15 October 2014

Que diferença faz ter fé?

David G. Bonagura, Jr
Que diferença é que a fé traz para a vida dos crentes? O que é que os crentes têm que falta aos não crentes?

Há sondagens que indicam que os crentes são mais felizes que os não crentes, e outras que indicam o contrário. Mas a mera experiência diz-nos que nem todos os crentes são felizes (no sentido de bem-estar geral), ou sequer pessoas com quem queiramos passar uma tarde. E há mais do que um caso de não crentes cuja boa-disposição faz deles excelente companhia.

Por isso a fé tem de servir para algo mais do que felicidade individual, embora as duas coisas não se excluam. Se a fé vale mesmo a pena, tem de transcender os limites da pessoa que a possui.

O que é que a fé dá aos crentes? Uma forma de vida e disposição completas. Uma relação pessoal e ilimitada com Deus, seu criador, que lhes fala no interior do coração. A pertença a uma Igreja que os une a todos, vivos ou mortos, como irmãos e irmãs no Espírito Santo. Um compromisso para com a caridade que, quando vivida como deve ser, enaltece a relação com Deus e com os outros. A certeza de que as suas vidas e o universo, criadas com um propósito e um valor intrínsecos, estão nas mãos da providência. Uma verdadeira esperança de que existe uma vida para além deste vale de lágrimas.

Estes dons da fé não são do género que marca pontos nas sondagens seculares, mas continuam a ser atributos indispensáveis daquilo a que Sócrates chama uma vida examinada – imbuída de sentido, direcção e esperança. Mas a vida da fé não é uma mera visão intelectual ou compromisso, como o optimismo ou o humanismo. A fé é uma realidade vivida, não apenas uma ideia que se tem, porque consiste de um encontro dinâmico com um Deus vivo que ama.

Os não crentes não reconhecem esta relação fundamental com Deus que devia, por sua vez dar forma a todas as relações humanas. Sem Deus, estão desprovidos de um sentido para a vida e uma esperança. Em vez disso, são obrigados a criar o seu próprio sentido para a vida, os seus próprios princípios para se relacionarem com outras pessoas, os seus próprios desejos. Com uma estranha ironia, comportam-se como directores executivos de vidas que nunca pediram e para cuja existência nada contribuíram.

Que sentido da vida é que os seres humanos criariam por si? Segundo Henri de Lubac, criam “deuses antropomórficos”, que podem ser os ideais ou os valores de qualquer época. Hoje, pensadores seculares como Steven Pinker defendem o “humanismo científico”, segundo o qual o sentido e a moralidade humanas são determinados pelas conclusões da ciência. Pinker baptiza esta visão do mundo como “a moralidade, de facto, das democracias modernas, organizações internacionais e religiões liberais e as suas promessas por cumprir definem os imperativos morais que enfrentamos actualmente”.
 
Steven Pinker
Mas o que acontece aos não crentes que abraçam (supostamente com bases científicas) as hipóteses filosóficas do darwinismo: que a vida humana não tem qualquer sentido inerente e a vida é apenas o produto do acaso acidental? O que acontece se interpretarem as provas científicas sobre quem deve ser considerado “inteiramente humano” de forma errada, como, por exemplo, os esclavagistas, eugenistas, nazis e abortistas? Afinal de contas foi a ciência que levou Richard Dawkins a dizer, recentemente, que qualquer mulher cujo embrião tivesse trissomia XXI devia: “abortá-lo e tentar de novo. Podendo escolher, seria imoral trazer essa criança ao mundo.”

Por maravilhosa e poderosa que seja a ciência, ela continua a ser um instrumento feito pelo homem para medir a realidade, mas que não a transcende e é a transcendência da nossa condição humana limitada que todos os corações buscam. Mas é também por causa dos nossos limites, diz De Lubac, que o homem “é incapaz de transcender os seus próprios recursos, permanece sempre um prisioneiro da noção muito limitada de individualidade que projectou nos seus deuses”. Logo, o seu “desejo de transcendência… continua sempre a ser ambíguo; um sonho, mas um sonho em que está ameaçado pela ruína e o desespero de acordar”.

Em contraste, os crentes sabem pela sua fé que Deus é simultaneamente a fonte e o objectivo dos desejos dos seus corações. Entre os caprichos da vida – alegria e tristeza, prazer e dor, sucesso e desilusão – mantêm a confiança de que existe uma razão e um propósito para tudo, mesmo que não encontrem respostas para todas as suas questões. Ao aceitar livremente o dom da fé, tornam-se livres para viver as suas vidas, não sem tristeza ou infortúnio, mas sem dúvidas e desespero.

A diferença que a fé traz pode ser vista, então, pela analogia de dois homens deixados sozinhos no meio da Amazónia. O homem de fé tem com ele uma bússola, um mapa, uma mochila, comida, água e botas; o outro insistiu que não precisa senão de si mesmo. Parece evidente qual dos dois está em melhor posição para conseguir regressar a casa.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

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