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Wednesday, 30 August 2023

As Duas Árvores de Santo Agostinho

O dia 28 de Agosto foi a Solenidade de Santo Agostinho, bem como o dia de anos da minha mãe. Acho que ela nunca leu uma palavra de Agostinho, mas poderá ter ouvido falar das lágrimas que Santa Mónica verteu sobre o seu jovem filho (como se conta nas Confissões) e sentido uma ligação com as deambulações adolescentes do seu próprio filho. Em todo o caso, quando se lê Agostinho é quase impossível não ver paralelos com a nossa própria vida, de uma forma muito pessoal. São Tomás de Aquino é o grande mestre da mente, mas Agostinho é um guia apaixonado para o coração.

Logo na primeira página das Confissões lemos a frase muitas vezes citada: fecisti nos ad te et inquietem est cor nostrum donec requiescat in te (“Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”). Não há mal nenhum em ler isto como apenas uma expressão piedosa, embora eu avise sempre os meus alunos de que não devem presumir compreender o que Agostinho quer dizer aqui com a palavra “coração”. Mas se continuarmos a ler obtemos uma exposição profunda – por entre uma história de tentações e ambições mundanas, e confusões intelectuais e espirituais, que têm tanta força agora como tinham na altura – do que significam verdadeiramente essas palavras aparentemente tão simples.

Os comentadores costumam dizer que “o mundo perdeu a sua história”. O que querem dizer é que deixámos de saber porque é que existimos enquanto pessoas ou sociedades. No fundo, a história que perdemos é a visão bíblica da história. O resultado é que as narrativas com que a substituímos – o iluminismo, nacionalismo, progresso económico e até ciência – que na sua raiz dependiam da existência de um sentido e direcção para a vida, deixaram de ter verdadeira substância.

E isso vê-se nas tentativas desesperadas de estabelecer uma “identidade” através da raça ou de “comunidades” de género, no empenho em cruzadas políticas ou ambientais ou, por fim, nas manifestações modernas de corações inquietos.

De certa forma, mesmo uma obra hercúlea como “A Cidade de Deus”, que foi escrita para refutar a acusação de que foi o abandono dos deuses pagãos pelo Cristianismo que levou ao saque de Roma em 410 pelos Visigodos, reflecte a crença de Agostinho de que a confiança na nossa própria capacidade, independente de Deus, de estabelecer a justiça perfeita na terra não passa de uma ilusão para acalmar a nossa inquietude.

Nas Confissões, Agostinho começa por narrar o desnorte de quem perde a verdadeira história do mundo. Conta o drama da sua própria vida e conversão, intercalada com uma grande dose de filosofia, teologia e psicologia, introduzindo algumas das grandes personagens do seu tempo – filósofos proeminentes, líderes religiosos, políticos, Santo Ambrósio, até o Imperador Romano, bem como muitos amigos e até pessoas comuns.

Mas a sua história pessoal começa finalmente a fazer sentido apenas quando recupera a história macro, um assunto comum para autores de ficção. Louis de Wohl escreveu, há meio século, um romance sobre Agostinho, A Chama Inquieta, que ainda mantém o seu interesse, e a jovem concubina de Agostinho, que nas Confissões nunca é nomeada, foi tratada de forma imaginativa em As Confissões de X, de Suzanne Wolfe.

O Padre Aidan Nichols O.P. admite, com uma humildade que é rara entre os académicos, que “com a possível exceção de Cícero, sabe-se mais sobre Santo Agostinho do que sobre qualquer outra figura da Antiguidade. Sabemos demasiado sobre ele para que seja sequer possível lidar com esse conhecimento”.

Porém, o mesmo autor, em The Singing Masters: Church Fathers from Greek East and Latin West, lida maravilhosamente. (À nossa propria escala mais modesta, através dos cursos do The Catholic Thing, temos feito algumas introduções tanto às Confissões como à Cidade de Deus.)

Ainda assim, o que é que temos a aprender com um homem que morreu há 1600 anos, num local e num tempo tão diferentes que requer um esforço sério – quer de imaginação como de estudo – apenas para começar a compreender alguma coisa sobre ele?

Agostinho debaixo da Figueira
Bom, talvez a primeira coisa seja a compreensão de que apesar de todas essas diferenças há muita coisa que continua a tocar-nos de forma imediata, precisamente porque – não obstante os orgulhosos progressistas de todos os tempos – muitas das coisas humanas não mudam.

O Pe Nichols resume tudo na história das “duas árvores”.

A primeira árvore é a pereira da qual Agostinho e o seu bando de adolescentes roubavam fruta, como se lê cedo nas Confissões, não porque tinham fome ou porque as peras eram boas (não eram), mas por casual perversidade. A refutação mais profunda daquilo a que hoje se chama ser “woke” é a crença clássica cristã de que os corações dos homens – todos os homens, incluindo o mais woke – vacilam entre o bem e – para usar o termo correcto – o mal.

No mundo antigo as pessoas estavam tão cientes da existência do mal que surgiu uma religião – o Maniqueísmo – que defendia a existência de dois deuses, um bom e outro mau. Agostinho passou cerca de uma década envolto nesta falsa fé até conseguir pensar a coisa até ao fim, e sair. Mas muitos outros não saíram. Como escreve o Pe Nichols: “o maior conjunto de escritos maniqueus está em chinês, o que demonstra que a ‘Religião da Luz’ chegou tão longe no Oriente como no Ocidente. Da Argélia à China, este foi o principal concorrente do Cristianismo até ao surgimento do Islão.”

O episódio da pereira, tal como o da árvore da ciência do Bem e do Mal, conta uma história profunda. No final de contas não é a sociedade, ou as condições económicas, ou o contexto familiar que explica o nosso mau comportamento, porque as imperfeições que neles encontramos derivam da mesma fonte humana: corações inquietos atraídos pelo bem e pelo mal.

Mas existe outra árvore na história de Santo Agostinho. No momento da sua conversão, ele escreve: “mas eu, não sei como, me retirei para a sombra de uma figueira” (Livro VIII). O Pe Nichols repara aqui em algo que a muitos de nós poderá ter passado despercebido: que esta segunda árvore é uma figueira, e que foi das folhas de uma figueira que Adão e Eva teceram roupa depois de terem pecado, e se sentirem nus.

Agostinho tinha certamente isto em mente. E por isso aquilo que ele está a narrar é precisamente a inversão da direcção que tomámos naquele dia fatal no Paraíso.

Que é aquilo que acontece sempre que alguém se converte – que se volta para a direcção certa, que recupera a história do mundo, que é também a nossa história pessoal, e vê pacificado o seu coração.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 28 de Agosto de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 



Wednesday, 29 December 2021

Um Mundo de Encarnação

Randall Smith
Quando Santo Agostinho chegou a Milão, em 384, já tinha ficado insatisfeito com os maniqueus, a seita gnóstica a que tinha estado ligado nos últimos 12 anos. Seguindo o conselho de amigos, começou a ler “certos livros dos platonistas”. Estas obras ajudaram-no a transcender os conceitos estreitamente materialistas e conceber um Deus que não é uma coisa, mas é a fonte do ser de todas as coisas. Foi um passo importante, mas não ausente de perigos.

No seu esforço para se unir às “coisas do alto” acabou por se encher de outro tipo de arrogância, dando-lhe a ilusão de ocupar um lugar privilegiado fora do mundo, olhando-o de cima. Ao procurar o Deus “nas alturas”, Agostinho esqueceu-se de procurar o Deus “cá em baixo”. O Cristo Encarnado – cujo nascimento celebramos nesta época de Natal – ensinou-lhe a encontrar Deus não só “nas alturas”, mas também “cá em baixo”: não só nos picos da mente, mas na matéria e nas realidades criadas do mundo.

Por isso, embora Agostinho tenha aprendido muito dos livros platónicos, o que é igualmente interessante é aquilo que não encontrou lá. Não encontrou nada sobre a Palavra se tornar carne e habitar entre nós; nada sobre o Deus que se esvazia e assume a forma de um servo; nada sobre Jesus a humilhar-se e a tornar-se obediente até à morte, mesmo a morte de cruz. “Onde estava esse amor que edifica sobre as fundações da humildade?”, perguntou.

Esta humildade não se baseava no desprezo pelo corpo, mas no amor bem-ordenado por ele; não em considerar os pecados como coisas carnais, mas na total responsabilização por eles; não em tentar elevar-se até ao divino, mas no reconhecimento das próprias limitações e pecados e da necessidade de perdão e auxílio divino.

E essa foi a segunda coisa que Agostinho não encontrou nos livros dos platonistas: um relato da graça de Deus. Esse, acabou por encontrar nas cartas de São Paulo.

Em breve deixaria de se querer contar entre um grupo de elite de filósofos que procuravam chegar aos pontos mais altos da “linha dividida” de Platão através dos seus próprios esforços intelectuais. Doravante, pelo contrário, depositaria a sua fé no “criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”, que se tinha mergulhado na matéria da sua criação no amor, para a elevar no amor.

Para Agostinho a “linha dividida” já não era apenas uma ascensão vertical. A “salvação” era agora “história da salvação”. A linha tinha sido deitada de lado, por assim dizer, tornando-se a história da entrada de Deus na História – a sua autorrevelação e a redenção da humanidade realizadas no tempo e nos eventos da história humana. Desta perspetiva os humanos devem fazer a sua parte, mas a sua parte é tornada possível pelo amor divino que existe para além dos nossos méritos e dos nossos esforços. Assim, para se ser elevado, é preciso primeiro ser “como Cristo” e abraçar os humildes, os pobres, os meigos e os humildes. É necessário unir-se ao seu corpo e morrer para nós mesmos, e para o nosso egoísmo, para se ser erguido com Ele na comunhão eterna de amor, como o Filho está unido ao Pai. 

Santo Agostinho
Forçado a contemplar o significado de o Verbo se tornar carne, Agostinho chegou a várias conclusões importantes. A primeira é de que a matéria não é má, nem é a fonte do mal. Pensar que sim implica confundir uma causa com um efeito. Não é o corpo da mulher que leva o homem a pecar, mas sim a sua incapacidade de apreciar a beleza da pessoa como um todo: corpo, alma, espírito e mente. Ironicamente, Agostinho nunca conseguiu deixar de estar viciado em sexo durante os seus tempos com os maniqueus, que odiavam o corpo. Esta liberdade só foi alcançada quando ele reconheceu que o corpo não é uma prisão, mas um instrumento com o qual a alma exprime o seu amor desinteressado por Deus e pelo próximo.

O mesmo se aplica ao resto do mundo material: não se trata de uma prisão da qual temos de ser libertados. Através da encarnação ele torna-se o local da nossa salvação. Não somos salvos do mundo, somos salvos no mundo e com o mundo. Somos salvos de uma relação disfuncional com o mundo, através da qual tentamos usá-lo para nos exaltarmos, numa tentativa de autocriação e autodeificação.

Deus deu à Criação uma ordem e é importante que nos conformemos a ela. Não nos realizamos fugindo para outro mundo ou impondo uma ordem estranha a este. Realizamo-nos, e o nosso mundo realiza-se connosco, quando compreendemos a ordem que Deus pretende e nos disciplinamos para preservar e alargar essa ordem. E nesta nova vida, este acesso a uma nova ordem e harmonia não é algo que criamos ou alcançamos sozinhos; é algo que nos é dado de fora do mundo, por um poder fundamental de amor criativo que transcende as nossas próprias capacidades.

Por isso a redenção cristã é a transformação da criação e da pessoa, não uma obliteração ou negação. Não podemos destruir a natureza para realizar o nosso destino humano. Nem podemos controlar completamente a natureza e canalizá-la para os nossos propósitos egoístas sem nos preocuparmos com o bem-estar dos outros. A mensagem cristã é de que apenas realizamos o nosso destino humano quando o vivemos de acordo com a ordem natural criada por Deus, compreendendo-a de forma “encarnacional” e tratando-a “sacramentalmente” como um “instrumento” e “corporização” do amor de Deus.

Deve ter sido fascinante para um homem com um intelecto tão sofisticado como o de Agostinho reconhecer que todo o mundo conceptual da antiga filosofia tinha sido virado de pernas para o ar por uma única criança numa manjedoura em Belém – uma criança que, para além de toda as expectativas humanas, era o Verbo feito carne. Hoje não é mais fácil do que então, embora também não seja mais difícil. Mas se a história for verídica – e é – então não é nada menos do que a chave do sentido de todas as coisas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 27 de Dezembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 22 December 2021

O que é que Esperamos?

Joseph R. Wood

Sabemos que o tempo do Advento é um tempo de espera. Tendo ouvido as leituras da liturgia de Novembro sobre o fim dos tempos, e fechado o ano com a Solenidade de Cristo Rei, começamos o novo ano à espera do que acabámos de escutar e de celebrar.

Mas também sabemos que a época das “festas” pode ser um tempo de discussões. Como Cristo prometeu, muitas famílias e amigos estão perigosamente divididos sobre quem Ele é, bem como sobre o que deve ser a nossa organização política.

Estas épocas estão muito ligadas. Estamos a aguardar que Cristo regresse finalmente para nos salvar e enquanto esperamos estamos a discutir sobre o que deve ser a nossa política.

“Venha a nós o vosso Reino”, rezamos nós em cada missa, seis vezes em cada terço e umas quantas vezes enquanto penitência. Trata-se de uma aspiração importante sobre o que o Governo deve pretender, que nos foi dada pessoalmente por Cristo. É-nos dito que devemos buscar primeiro o Reino de Deus e a sua bondade. Talvez a mais importante divisão na nossa política ao longo dos últimos séculos radique daqui. Há quem acredite que devemos fazer os possíveis para tornar as coisas melhores nas nossas comunidades políticas, enquanto aguardamos a chegada do Reino. Outros estão fartos de esperar e querem implementar o sistema político perfeito aqui e agora (normalmente estes últimos são descritos como progressistas).

Eis a raiz das grandes discussões que se desenrolam todo o ano e que parecem tornar-se mais intensas durante as festas.

Mas ambos os lados do argumento sabem que devemos esperar algo melhor, uma política melhor, ou um reino melhor e final. Como é que estas coisas se relacionam entre si?

Em ambos os casos esperamos por justiça. E queremos o que é certo.

Os salmos estão cheios de apelos à justiça, de louvor pelo homem justo, e da crença de que a justiça triunfará quando Deus reinar. Do Salmo 48: “Grande é o Senhor, e digno de louvor, na cidade do nosso Deus! … [Os senhores da terra] viram-no e ficaram atónitos, fugiram aterrorizados”. Salmo 97: “O Senhor Reina; exulte a terra e alegrem-se as regiões costeiras distantes! … Pois tu, Senhor, sois o altíssimo em toda a terra”. E o Salmo 89: “A rectidão e a justiça são os alicerces do teu trono; o amor e a fidelidade vão à tua frente”.

Não admira que Cristo nos diga para rezar por este Reino.

Mas outras fontes também clamam por esta cidade. No romance de Mark Helprin, “Winter’s Tale”, uma das chaves da história consta de uma inscrição numa grande salva: “Que se pode imaginar de mais belo que a visão de uma cidade perfeitamente justa a exultar somente na justiça?”.

Todos ansiamos por essa cidade, essa comunidade de pessoas que conjuga a verdade, a beleza e a bondade. Fontes mais antigas também comprovam este anseio. No diálogo “Estadista”, de Platão, Sócrates observa e aprova enquanto um visitante a Atenas ajuda um jovem, que também se chama Sócrates, a compreender o que é um verdadeiro estadista, um bom governante. Tal estadista conhece a alma dos seus cidadãos suficientemente bem para poder tecer as suas virtudes para o bem da cidade, nomeando os corajosos para serem líderes em tempo de guerra e os moderados para os tempos de paz.

O visitante descreve seis tipos de governo: governo para o bem comum de um, de poucos ou de muitos; e governo tirânico ou egoísta de um, de poucos ou de muitos. Este é um esquema de análise que pode ser útil ainda hoje, quando falamos de política.

Mas o visitante fala ainda de uma sétima forma de governo, uma que “devemos separar das outras constituições, como um deus dos homens”. Este governo divino excede a capacidade humana. Um bom estadista só pode conhecer de forma imperfeita as virtudes dos seus cidadãos. É preciso um governante divino para conhecer os homens perfeitamente, e assim apenas um deus pode governar de forma perfeita.

Sócrates e Platão sabiam que é assim que ansiamos ser governados. Sabiam também que tal não será possível na terra.

Igualmente, Aristóteles, aluno de Platão, descreve os seis tipos de governo mas também vê como as cidades gregas na realidade encaixam nesse esquema. Em “Política” (Livros IV e VII), ele procura separar os regimes ou as constituições que são realmente possíveis dos governos “pelos quais se reza”. Os filósofos disputam o sentido destas palavras, claro, mas parece ser um piscar de olho ao sétimo regime divino de Platão.

A grande exposição desta tensão entre comunidades políticas terrenas e o governo de Deus, e a esperança pela resolução dessa tensão, encontra-se em “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. O título vem dos salmos.

Santo Agostinho vê a divisão entre a cidade terrena, aqueles que apenas se preocupam com o que está à nossa volta, e a Cidade de Deus, os santos no Céu e aqueles que ainda estão na terra, mas na comunhão dos santos. Estes últimos escolhem Deus como seu fim, acima dos prazeres físicos e materiais, do conforto e da facilidade.

Santo Agostinho diz-nos que estas duas cidades vivem misturadas aqui na terra, até ao fim dos tempos. Às vezes os governantes terrenos tenderão para a justiça e “tranquilitas ordinis”, ou uma “tranquilidade ordenada” nos assuntos terrenos que tem por base a paz e a justiça. Paz na Terra e boa vontade para com os homens. Esta ordem é um reflexo da paz eterna do Céu.

Outros governantes opõem-se a essa tranquilidade.

Mas nunca poderemos alcançar o sistema político perfeito na terra. A paz eterna apenas será realizada naquele sétimo, divino regime em que as aparentes contradições que atormentam a política terrena sejam resolvidas.

Onde, nas palavras do Salmo 85, “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão. A fidelidade brotará da terra, e a justiça descerá dos céus”.

Esperamos pelo Senhor. Esperamos e discutimos sobre a justiça na nossa política. Esperamos por aquilo que teremos de forma completa e infinita apenas no Seu Reino, o Reino que não é deste mundo.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 7 August 2019

Dois Caminhos

Pe. Jeffrey Kirby

Na vida encontramos duas correntes, que Nosso Senhor Jesus descreveu como dois caminhos. São Paulo desenvolveu mais esta noção ao descrever a batalha entre os que têm coração de carne e os que têm coração espiritual. Santo Agostinho, o protegido espiritual do Apóstolo dos Gentios, elaborou toda uma teologia com base na noção de duas cidades: A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Fazendo eco da sabedoria do Senhor, o Doutor da Graça compreendeu que estas duas cidades eram formadas por dois tipos diferentes de amor. Uma das cidades procurava amar a Deus, a sua Lei e o próximo – enquanto a outra cidade era refém do narcisismo.

O Papa São João Paulo II traduziu estas duas noções para uma linguagem mais contemporânea. Na sua monumental encíclica Evangelium Vitae, de 1995 (em larga medida uma continuação mais desenvolvida da anterior Humanae Vitae do Papa São Paulo VI), o amado Papa criou dois termos que agora são parte integrante da visão católica do nosso tempo: a cultura da vida e a cultura da morte. Nestas expressões o Papa santo voltava a mostrar que existem dois caminhos e dois amores na vida. Estes caminhos e os amores que revelam dão aso não só a “cidades” mas também a culturas. Alimentam-se dos seus próprios amores.

A cultura da vida chama-nos a um serviço sacrificial a Deus e ao nosso próximo, sobretudo aos mais vulneráveis e necessitados, cada vez mais elevada. Radicado num amor por toda a gente, a cultura da vida crê, vive e labora para espalhar a mensagem de que toda a gente tem dignidade, todas as pessoas são um dom de Deus e todas as pessoas – por mais manchadas de pecado original e pessoal – devem ser estimadas e respeitadas.

Esta afirmação é um irritante para a cultura da morte. Essa cultura odeia a mensagem, despreza o mensageiro e procura retirar a dignidade e o respeito – enquanto professa o contrário – aos mais vulneráveis e fracos de entre nós.

Não obstante estas provas de consciência pesada, a cultura da morte preocupa-se unicamente consigo e com os seus desejos. Procura destruir tudo o que lhe seja inconveniente ou desconfortável. Os fracos e os vulneráveis são presa fácil numa cultura destas.

Por isso, para além de alimentar o seu próprio amor a Deus e ao próximo, uma cultura da vida robusta deve expor e combater a cultura da morte. Esta batalha é inevitável e quem vive uma forte cultura da vida compreende a sua necessidade. Logo, trabalha para desmantelar os argumentos, enfraquecer a sedução e impedir a influência e as estruturas de uma cultura antivida.

No Evangelium Vitae o Papa João Paulo II identificou correctamente uma “conjura contra a vida”, que “não se limita apenas a tocar os indivíduos nas suas relações pessoais, familiares ou de grupo, mas alarga-se muito para além até atingir e subverter, a nível mundial, as relações entre os povos e os Estados.” (#12)

As raízes desta conspiração encontram-se na revolta de Lúcifer contra Deus. O maligno espalhou essa revolta através das mentiras que contou aos nossos primeiros pais e do seu pecado no Jardim do Paraíso. Esta cultura da morte levou ao homicídio do seu primeiro filho Abel pelo seu irmão Caim. Esse acto de fratricídio conduziu a ofensas ainda maiores à dignidade humana.

E assim o palco estava preparado. As opções tornaram-se claras e as pessoas, cidades e culturas tiveram de decidir-se pela vida ou pela morte. Quem escolhe a vida tem de estar disposto a combater em sua defesa.

Historicamente, a batalha sobre a vida tem sido de uma só frente. Os arautos da cultura da morte atacam os nascituros. Negam a sua personalidade. Classificam-nos como indesejáveis. Partiram para uma batalha de palavras e redefiniram termos como autonomia, dignidade e escolha para apoiar os seus esforços. Travaram uma guerra particularmente feroz contra quem tem necessidades especiais, sobretudo quem tem Trissomia 21.

Mas a cultura da morte alimenta-se de si mesma. Não se satisfaz apenas com uma frente de batalha. E por isso a guerra tem agora duas frentes, incluindo o final da vida.

As notícias estão cheias de relatos de crianças a quem são negados os cuidados de fim de vida, doentes como Vincent Lambert, que morreu recentemente em França depois de lhe ter sido recusada comida e água e Estados como o Maine vão criando leis para facilitar o suicídio medicamente assistido.

A guerra de palavras deu aso a novas definições de termos como fardo, qualidade de vida e até misericórdia.

Chegou o momento – enquanto os ataques à vida se tornam mais sofisticados e alargados – de as pessoas se tornarem mais criativas e ativas, mais assertivas em sublinhar o contexto e a definição próprias das palavras, em dar testemunho do amor desinteressado pelos fracos e vulneráveis, em protestar e mudar as leis contra a vida e em partilhar com paroquianos, vizinhos e colegas a beleza e a dignidade objetiva de toda a vida humana.


O padre Jeffrey Kirby, STD é professor-adjunto de Teologia em Belmont Abbey College e pároco da paróquai de Our Lady of Grace em Indian Land, SC. O seu mais recente livro é Be Not Troubled: A 6-Day Personal Retreat with Fr. Jean-Pierre de Caussade.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 4 de Agosto de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 24 April 2019

Em Sentido Figurativo

James Matthew Wilson
As grandes revoluções sobre o conhecimento religioso e teológico dos últimos dois séculos começaram com a questão de como ler as Escrituras. A nova ciência da geologia parecia pôr em causa uma leitura literal do Genesis, que indicava que a Terra tinha cerca de seis mil anos. Depois chegaram os esforços histórico-críticos da Alta Crítica Alemã e os livros da Bíblia foram feitos em pedaços – milhares de pedaços, fragmentos da autoria de várias mãos, juntados ao longo dos séculos, de forma a que a Sagrada Escritura parecia mais uma manta de retalhos e menos uma soma das suas partes.

Como é que se determina um significado quando cada livro é uma mescla de intenções prévias, frequentemente em conflito? Como é que se pode confiar naquilo que nos chegou, quando os dados históricos contidos nos livros não parecem ser fiáveis no que diz respeito à identificação de lugares e datas?

Para leitores dos séculos XVIII e XIX esta última pergunta era tudo menos tonta. Exames de teologia desse tempo – que eu já vi – incluem questões como “Em que data foi o dilúvio de Noé?”

Mas aqueles de entre nós que já leram o poema de T.S. Eliot “The Waste Land”, a questão parece estranha, no mínimo. O poema é composto por 432 linhas, das quais pelo menos 100 são citações parciais ou totais de uma variedade de fontes. Mas isso não nos impede de encontrar um significado coerente no poema. Pelo contrário, este ganha profundidade e significado por causa da inclusão deliberada de outras vozes. Se Eliot o fez, Deus também pode.

As interpretações judaicas e, mais tarde, cristãs, das escrituras têm sido tradicionalmente “figurativas” ou espirituais. O que isto quer dizer é que sim, cada obra tem um sentido literal, se não num evento histórico, pelo menos a intenção do autor. Mas cada obra tem também um significado espiritual, um significado figurativo que talvez nem fosse pensado pelo autor, mas que pode ser discernido nas suas palavras e que geralmente é muito mais importante.

Só assim é que a Escritura se torna profética e reveladora, ensinando-nos algo a que não teríamos conseguido chegar sozinhos, chamando-nos repentinamente à conversão. Só assim é que podemos ler o Antigo Testamento como apontando para Cristo como o seu próprio cumprimento. E, em sentido contrário, só assim é que podemos ver Cristo como a lente através da qual interpretar as palavras do Antigo Testamento e a obra da natureza.

Dificilmente podemos compreender qualquer um dos Testamentos sem o sentido espiritual, pois até uma leitura diagonal de qualquer passagem revela uma economia da linguagem que só é possível devido à densidade do significado: se não está disposto a desempacotar cada frase como se fosse uma mala de viagem, então não está pronto para ler.

Dois dos maiores teólogos do Século XX passaram as suas carreiras a tentar ajudar a Igreja a recuperar esta forma de ler as Escrituras – e, também, de ler o mundo. Os quatro volumes de Exegese Medieval, de Henri de Lubac, dedicam-se a descrever a interpretação figurativa como tem sido praticada ao longo da história. Pode parecer um bocado estranho ler aquilo a que se pode chamar uma defesa histórico-crítica da interpretação figurativa: O que de Lubac fez foi, na maior parte, elaborar uma teoria breve mas elegante e depois multiplicar citações dos Padres da Igreja até se tornar claro que na verdade a teoria era deles.

Hans Urs von Balthasar foi um bocado mais ambicioso que de Lubac. Também ele era capaz de multiplicar citações, mas também avançou sozinho e interpretou as Escrituras – e o resto da história – em termos espirituais. De Lubac queria restaurar a autoridade interpretativa dos Padres da Igreja; von Balthasar escrevia como se fosse um deles.

Mas isso não tem impedido a Igreja de se preocupar com o facto de muitos acreditarem que a única forma “científica” de ler as Escrituras é o método histórico-crítico e que, para o homem moderno, a interpretação figurativa parece arbitrária e pateta.

Eu passei grande parte das últimas duas décadas a ler e a escrever sobre exegese figurativa, e a praticá-la. Mas qualquer pensamento sobre teoria evapora-se quando penso em apenas dois momentos destes últimos anos.

Houve um verão em que decidi ler “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. Esta é frequentemente considerada a obra prima do Santo, e a julgar pela espessura do livro, certamente será. Mas para a maioria dos leitores o seu interesse é menor quando comparado com as “Confissões” que – para mim – é certamente o livro mais perfeito da nossa tradição fora das Escrituras.

Admiro muita coisa em “A Cidade de Deus” e muita coisa mudou-me, mas sobretudo num sentido académico. Impressiona-me a forma como Santo Agostinho desenvolveu ou refutou alguns aspetos do pensamento clássico, enquanto nos mostrava a verdade sobre as coisas.

Mas já numa parte adiantada do livro, durante uma passagem longa que levaria a maioria dos leitores a abandonar o barco, Agostinho descreve a Arca de Noé. Descreve, pacientemente, as dimensões da Arca e a posição da sua porta lateral. E depois mostra-nos como é proporcional, em grande escala, ao próprio Corpo de Cristo, de cujo lado jorraria água e sangue, da porta aberta pela lança.

Cristo é a nossa Arca, carregando-nos através de mares tempestuosos e de um mundo inundado de pecado. Ao ler isto senti não uma aprovação pensativa, mas alegria. Não foi motivo de reflexão, mas de conversão. “Sim”, pensei eu, “esse é o meu Senhor e o meu Cristo!”

Também há uns anos estava a ler uma Bíblia ilustrada aos meus filhos, uma adaptação maravilhosa. Chegámos à história de Abraão e de Isaac. Abraão recebe de Deus uma ordem para sacrificar o seu filho. É Isaac quem carrega monte acima a lenha que, sem o saber, servirá para a sua própria imolação. No final um anjo intervém para impedir Abraão de levar a cabo este grande teste da sua fidelidade, e o texto explica:

“Isaac a carregar a lenha monte acima é uma imagem de Jesus, que carregou a Sua cruz até ao topo do monte do Calvário, para se oferecer pelos pecados do mundo. Embora Deus tenha salvo o filho de Abraão, por amor a nós não salvou o seu próprio filho da morte”.

Sim, sim, sim! Isaac prefigura Cristo; o filho a carregar a lenha é uma profecia do Filho que carrega a Cruz. Senti-me atraído para mais próximo de Deus e a entrar no seu mistério ali mesmo, com os meus filhos sentados ao meu colo.

Uns meses mais tarde, estava a recomendar esse livro a outro homem com filhos pequenos e mencionei esta interpretação figurativa. A sua resposta foi imediata: “Como é que alguém pode duvidar que Jesus é o Senhor?”

E é assim que funciona a exegese figurativa; não nos transporta até um momento histórico particular. Permite a Deus chegar até nós e agarrar-nos pelas golas, e abanar-nos até à fé.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

Wednesday, 28 November 2018

Progresso ou Falhanço Repetido?

Randall Smith
Entre os Padres da Igreja havia duas tradições sobre o Antigo Testamento. Uma via o Antigo Testamento como uma progressiva educação da humanidade por parte de um Deus providente e sábio, com o objectivo de elevá-la, passo-a-passo, e prepará-la para a revelação final de Deus em Cristo. Sob esta perspectiva, “a humanidade não aguenta demasiada realidade”, por isso Deus tinha de preparar os homens pouco a pouco para estarem prontos para a revelação final do Verbo incarnado.

O teólogo Eusébio escreveu, no quarto Século, que “a raça humana, nos tempos antigos, não estava ainda capaz de receber os ensinamentos de Cristo, a perfeição do conhecimento e da virtude”. Era necessário primeiro que as “sementes da religião” fossem semeadas pelo mundo até que “todas as nações da terra estivessem prontas a conceber a ideia do Pai que lhes ia ser revelada”. Só então é que o Verbo apareceu em pessoa.

Mas outra tradição sugere que o Antigo Testamento não passou de uma série de falhanços. Santo Agostinho pergunta: “Há dúvidas de que é por isto que a lei foi dada, para que o homem se encontrasse? E por isso ele se encontrou; encontrou-se imerso no mal”. Entregue a si próprio, o homem “teve de se submeter a uma longa e variada experiência da sua própria malvadez, e descer às profundezas para reconhecer melhor que precisava de um salvador”. De igual modo o autor da Carta a Diogneto confessa que “Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o Salvador capaz de salvar até mesmo o impossível”.

Na obra de São Tomás Aquino encontram-se ambas as tradições, tal como ambas se encontram nas Epístolas de São Paulo. Por um lado, diz São Tomás, a lei era uma pedagogia, um mestre ou tutor, que nos ensinava, protegia e preparava para a vinda de Cristo (ver Gal. 3,24). Por outro lado, a lei também revelou a nossa impotência porque mesmo quando, orientados pela lei, sabemos o que devemos fazer, não somos capazes de o fazer. A lei era incapaz de nos tornar bons e revelou a nossa impotência, aumentando assim em nós o desejo por um Salvador e o dom da graça de Deus (ver Rom. 7, 8)

Então como é que ficamos? O Antigo Testamento é uma história de progresso, ou de repetidos falhanços?

As duas coisas. O Antigo Testamento é a história da aliança de Deus com o seu povo. O povo, pela sua parte, falhou repetidamente no cumprimento da aliança e afastou-se. E, porém, apesar das infidelidades, Deus permaneceu sempre fiel. Os castigos existiram apenas para exaltar o povo.

Depois de 40 anos no deserto, que foi quer um castigo quer uma preparação, Ele introduz o povo na Terra Prometida. Subsequentemente, por causa das suas repetidas infidelidades, envia-o para o exílio na Babilónia, outro castigo e outra preparação. Então trouxe-o de volta da Terra Prometida para construir o Templo e preparar a vinda do Messias.

Por entre os triunfos e as derrotas, as quedas e as elevações, Deus, na sua providência de amor, está sempre a conduzir o seu povo rumo a uma união mais completa e uma comunhão mais profunda com Ele. A história judaico-cristã não é o antigo “mito do eterno retorno”. Não estamos condenados a repetir o mesmo ciclo sem sentido para toda a eternidade. Somos um povo peregrino e, embora possamos cometer os mesmos erros vezes e vezes sem conta, Deus está a dirigir-nos de volta para si.

Eusébio de Cesareia
Estas duas abordagens ao Antigo Testamento não têm algo de importante para nos ensinar? Talvez possamos ver a providência de Deus em acção, inspirando os pais e os doutores da Igreja, ensinando-nos a evitar dois erros contrários: imaginar que a história é de contínuo “progresso”, por um lado, ou que é apenas uma série de ciclos sem sentido, e sem rumo, por outro.

Confessamos repetidamente muitos dos mesmos pecados, na esperança de conseguir fazer melhor, apenas para voltar a confessá-los mais tarde. Estaremos a conseguir algum progresso?

Orgulhámo-nos tanto do Papa São João Paulo, o Grande e de Bento XVI. Parecia uma “nova primavera” para a Igreja. Contudo, a isso seguiu-se uma “longa Quaresma” de McCarricks e companhia, levando as pessoas a perguntar se as coisas alguma vez estiveram tão más (resposta: Sim, mas não é um concurso) e será que a Igreja está acabada? (resposta: não, mas só por causa do Espírito Santo).

A verdade é que progredimos. Podemos esperar que o Espírito Santo nos mude verdadeiramente. Mas devemos contar com regressões. Precisaremos de nos levantar e começar de novo, uma e outra vez.

Durante o Século XX foi feito um trabalho teológico fantástico, e tivemos alguns dos melhores Papas da história. A nossa compreensão de quem Deus é e da missão a que nos chama avançou de forma maravilhosa desde os tempos do Concílio de Niceia, em 325 até ao Concílio Vaticano II. Isto sim é progresso. E, porém, continuamos a cometer erros, por vezes piores que os do passado.

Se tem havido progresso, e tem, então é de Deus e não nosso. Nós, juntamente com São Paulo, devemos admitir a nossa impotência e voltar-nos para Ele para obter a salvação que sabemos que não podemos alcançar para nós mesmos. Estamos aqui, nas palavras de T.S. Eliot, para “ajoelhar onde a oração já teve valor”.

E o que há para conquistar,
Por força e obediência, já antes foi descoberto
Uma vez ou duas, ou várias vezes, por homens que não podemos ter esperança
De emular — mas não se trata de competição —
Trata-se apenas da luta para recuperar o que se perdeu
E achou e perdeu outra e outra vez: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis. Mas talvez nem ganho nem perda.
Para nós, há apenas a tentativa. O resto não é connosco.
(Tradução de Gualter Cunha – Relógio d’Água)


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 25 de Novembro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 April 2018

Sermão Pascal sobre os Sacramentos

“Vocês mesmos são aquilo que recebem.”

A minha promessa não foi esquecida. Prometi àqueles de vós que foram baptizados, um sermão para explicar o sacramento da mesa do Senhor, que agora podem ver, e da qual partilharam na noite de ontem. Devem saber aquilo que receberam, aquilo que estão prestes a receber, o que devem receber todos os dias.

O pão que podem ver no altar, santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo. O cálice, ou melhor, o que o cálice contém, santificado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo. Foi por meio destas coisas que o Senhor Cristo quis apresentar-nos o seu corpo e o seu sangue, que derramou por nós, para o perdão dos pecados.

Se receberem bem estas coisas, vocês mesmos são aquilo que recebem. Sabem, o apóstolo diz que nós, sendo muitos, somos um pão, um corpo (1 Cor. 10, 17). É desta forma que ele explica o sacramento da mesa do Senhor; um pão, um corpo, é o que todos somos, por mais que sejamos.

Neste pão é-vos dado a perceber claramente o quanto devem amar a unidade. Acaso este pão foi feito de um só grão? Não foram muitos os grãos de trigo? Mas antes de se unirem no pão, cada um era separado; foram juntados por meio da água e de bater e esmagar. Se o trigo não for moído, afinal de contas, e amolecido com água, não se pode pôr neste formato, a que se chama pão.

Da mesma forma, também vocês foram moídos e batidos, por assim dizer, pela humilhação do jejum e o sacramento do exorcismo. Depois veio o baptismo e foram, por assim dizer, amolecidos pela água para poderem ser moldados na forma de pão. Mas não é pão ainda sem o fogo para o cozer. Então o que significa o fogo? É o crisma, a unção. O óleo, que alimenta o fogo, como vêem, é o sacramento do Espírito Santo.

Reparem nisso quando lemos os Actos dos Apóstolos; começamos agora a ler esse livro. Hoje começa o livro a que chamamos os Actos dos Apóstolos. Quem quiser progredir tem assim os meios para o fazer.

Quando se reunirem na Igreja, ponham de lado as histórias tontas e concentrem-se nas Escrituras. Aqui somos os nossos livros. Por isso prestem atenção e vejam como o Espírito Santo virá no Pentecostes. E é assim que ele virá; mostrar-se-á em línguas de fogo.

Santo Agostinho e Santa Mónica
Reparem que ele insufla-nos daquela caridade que nos deve fazer arder por Deus, fazendo-nos pensar pouco do mundo, queimar a palha e purgar e refinar os corações como ouro. Por isso o Espírito Santo vem, fogo após água, e são cozidos como pão, é o corpo de Cristo. E é assim que se representa a unidade.

Agora têm os sacramentos pela ordem em que ocorrem. Primeiro, após a oração, são convidados a elevar os corações; é assim que deve ser para os membros de Cristo. Afinal de contas, se vocês se tornaram membros de Cristo, onde está a vossa cabeça? Os membros têm cabeça. Se a cabeça não tivesse ido antes em frente, os membros não lhe seguiriam.

Onde foi a nossa cabeça? O que é que pronunciaram no Credo? Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai. Por isso a nossa cabeça está no céu. É por isso que, depois das palavras, “corações ao alto”, respondemos, “o nosso coração está em Deus”.

E não devem atribuir isso ao vosso poder, aos vossos méritos, aos vossos esforços, este elevar do coração ao Senhor, porque é pelo Dom de Deus que devem ter o coração no alto.

É por isso que o bispo, ou o presbítero que oferece, depois de termos respondido “o nosso coração está em Deus”, continua dizendo “demos graças ao Senhor nosso Deus”, porque os nossos corações foram elevados ao alto. Demos graças, porque se Ele não nos tivesse permitido elevá-los, os nossos corações continuariam cá em baixo na terra. E vocês afirmam a vossa concordância, dizendo “é nosso dever, é nossa salvação” dar graças ao que nos levou a erguer os nossos corações ao nível da nossa cabeça.

Então, depois da consagração do sacrifício de Deus, porque ele quis que nós próprios fôssemos o seu sacrifício, como é indicado por onde o sacrifício foi colocado em primeiro lugar, que é o sinal da coisa que somos; é por isso que, feita a consagração, rezamos a oração que o Senhor nos ensinou, que vocês receberam e pronunciaram.

Depois disso vem o cumprimento, “a paz esteja convosco”, e os cristãos beijam-se uns aos outros com um beijo sagrado. É um sinal de paz; o que é indicado pelos lábios deve acontecer na consciência; isto é, tal como os seus lábios se aproximam dos lábios do seu irmão ou da sua irmã, assim os vossos corações não se devem retrair dos deles.

São, por isso, grandes sacramentos e sinais, sacramentos verdadeiramente sérios e importantes. Querem saber como a sua importância é-nos incutida? O apóstolo diz, “Portanto, qualquer que comer este pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor 11,27).

O que significa receber indignamente? Receber com desprezo, receber com escárnio. Não se deixem pensar que aquilo que podem ver não interessa. O que conseguem ver passa, mas a realidade invisível que é significada não passa, mas permanece.

Vejam, é recebido, é comido, é consumido. O corpo de Cristo é consumido? A Igreja de Cristo é consumida? Os membros de Cristo são consumidos? Deus nos livre! Aqui estão eles a ser purificados, ali serão coroados com os louros da vitória.

Por isso aquilo que é significado permanece eternamente, embora aquilo que significa parece passar.

Por isso recebam os sacramentos de tal modo que não pensem em vocês mesmos, mantendo a unidade nos corações, elevando sempre os corações ao alto. Que a vossa esperança não esteja na terra, mas no Céu. Que a vossa fé esteja firme em Deus, que seja aceitável para Deus. Porque aquilo em que crêem, sem ver, verão ali, onde terão alegria, sem fim.

– Proferido c.411-415


St. Agostinho (354-430) nasceu na actual Argélia. Depois de uma juventude desregrada, tornou-se um católico fiel, por influência da sua mãe, Santa Mónica, e do seu professor, Santo Ambrósio de Milão. Dois dos seus livros, “Confissões” e “A Cidade de Deus” são considerados dos maiores exemplos de apologética cristã.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo de Páscoa, 1 de Abril de 2018)

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Friday, 27 December 2013

Vou ali já venho, em 2014

Este é o último resumo de 2013, volto em 2014 para vos ajudar a manter informados sobre o que se passa no mundo da religião. Se conhecerem mais pessoas que gostariam de receber este serviço avisem-me, se quiserem sair não façam cerimónia, não levo a mal.





Da minha parte desejo-vos um excelente 2014 e deixo-vos esta citação que li hoje:
“Como se o homem pudesse ter inimigo mais pernicioso que o ódio com que o odeia, ou como se pudesse causar a outrem maior dano, perseguindo-o, do que causa a seu próprio coração, odiando!” in, “As Confissões de Santo Agostinho”

Wednesday, 25 December 2013

Despertai humanidade!

James V. Schall S.J.
A sequência – Trindade, Logos, criação, a queda, a promessa, o povo escolhido, as profecias, a Imaculada Conceição, a Anunciação, a Palavra encarnada e a Natividade – explicam-nos aquilo que aconteceu no Natal. Não se tratou de um evento isolado, apesar de ter acontecido num local inconsequente, num canto obscuro do mundo. Tudo se encaixa num plano cujos contornos são claros. Devemos debruçar-nos sobre “plano”, como São Paulo lhe chamava.

A segunda leitura no breviário para a véspera de Natal é de um sermão de Santo Agostinho. Começa assim: “Despertai, humanidade! Por vós Deus se fez homem (…) teríeis sofrido a morte eterna se Ele não tivesse nascido no tempo.” Agostinho parte do princípio de que não estamos a prestar atenção ao que é mais importante. Por isso grita: “Despertai!”. E quem é que procura acordar? “Humanidade”, todos nós, cada um de nós.

O que se passou que, adormecidos, não tenhamos notado? “Deus se fez homem”. Porque é que o fez? Admira-nos não só que o possa fazer mas também que o tenha feito. Mas foi isso que aconteceu. Onde? “Na história”, dizem-nos. Sabemos o local: Belém. Sabemos o tempo: Quando César Augusto era imperador de Roma e publicou um édito, que levou um casal peculiar da casa de David a voltar à sua origem.

Em Belém a mãe, Maria, deu à luz um rapaz, a quem devia chamar Emmanuel, “Deus connosco”. Porque é que Deus precisa de estar “connosco” desta forma? Evidentemente, a humanidade tem um problema. Sem o seu nascimento “no tempo” a humanidade, deixada à sua sorte, teria “sofrido a morte eterna”. Não é um destino muito simpático.

Porque é que a humanidade estava sujeita à “morte eterna”? É aqui que entra o “plano”. A maior parte da humanidade, ao longo do tempo, reconheceu que há algo de desordenado que paira sobre a nossa espécie. Somos tentados a pensar que podemos lidar com o assunto sozinhos. As provas, contudo, mostram que estamos basicamente na mesma situação que qualquer outra geração desde o princípio do tempo. A verdade é que não conseguimos lidar com este assunto sem ajuda.

Para resolver este problema, “Deus fez-se homem”. “Despertai!” Não poderia ter encontrado uma forma mais simples? Bom, foi isto que se passou. Lidou com o problema directamente, tornando-se homem. A vida interior de Deus é Trinitária. A Segunda Pessoa, o Logos, a Pessoa que reflecte por inteiro o ser do Pai, fez-se homem. Depois de nascer, os pais levaram o menino ao Templo. Lá, encontraram um idoso a quem tinha sido prometido que não morreria sem contemplar a “salvação” de Israel. Quando ele viu o menino sabia que estava a olhar para o Senhor. Simeão disse a Maria, contudo, que o seu coração seria trespassado pelo sofrimento. Ela meditou sobre estas palavras.



Mas agora esta Criança nasceu “no tempo”. No momento do seu nascimento as coisas não ficam na mesma. Nos campos os pastores estão acordados, mas vêm ver o que se passa. Este nascimento não saiu nos jornais de Jerusalém, Atenas ou Roma, mas chegou-nos de fonte segura. As testemunhas e aqueles que ouviram falar relataram o que viram. Algo mudou no mundo. O que é que foi?

Nos limites do mundo já não se encontrava apenas o mundo. Agora, o mundo continha, do lado da humanidade, um recém-nascido que era também o Logos feito carne. Ele “viveu entre nós”. Esta vinda não se destinou apenas a reparar a desordem das nossas almas, mas a trazer-nos o propósito para o qual fomos criados em primeiro lugar. Não existimos apenas por razões humanas, mesmo quando existimos enquanto seres humanos.

“Despertai!” Agostinho pergunta: “Que graça maior poderia Deus ter feito nascer sobre nós do que fazer o seu filho unigénito tornar-se filho do homem, para que um filho do homem pudesse, por sua vez, tornar-se filho de Deus?” É claro, não há graça maior que esta. Este é o plano. Mas depende de estarmos despertos. Podemos rejeitar o plano, como se fosse tonto ou inferior a nós. A Natividade do Filho de Deus, nascido entre nós, não nos obriga. Apenas nos oferece um dom, um dom que explica o que somos, porque sentimos aquilo que sentimos.

As últimas palavras de Agostinho são estas: “Pergunta se este plano foi merecido; pergunta pela sua razão, pela sua justificação e vê se encontras outra resposta para além da mera Graça”.

Neste tempo de Natal estas são as únicas palavras que ouvimos. É tudo Graça, é tudo dado.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013 em The Catholic Thing)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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