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Wednesday, 27 December 2023

A Pergunta de Maria

Pe Paul Scalia

Ora aqui está uma coisa curiosa. A Bendita Virgem Maria – o último máximo de humildade, fé e obediência – faz algo que normalmente não associamos a essas virtudes. Faz uma pergunta: “Como será isso, se não conheço homem?”. Claro que a pergunta é feita precisamente com toda a humildade, fé e obediência. Ao fazê-la ela ensina-nos a perguntar e, por isso, a pensar rectamente sobre a nossa fé.

E devemos mesmo pensar sobre a nossa fé. Não o fazer seria um mau serviço à fé em si. A revelação de Deus é feita a criaturas racionais e deve ser recebida e respondida como tal. Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, é o Logos – o verbo, a ideia e ou o pensamento – tornado carne. Deus é o nosso “culto racional” (Romanos 12,1). A ausência de pensamento deturpa e distorce a fé católica. Conduz a uma fé superficial, supersticiosa e frágil, pronta para ser estilhaçada mal seja confrontada por uma boa pergunta.

Fiéis que não pensam tornam-se alvo fácil para predadores. São como a semente que caiu ao longo do caminho. “Quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração” (Mateus 13,19). Um magistério que não pensa torna-se uma tirania que não ensina a palavra de Deus com autoridade, mas impõe simplesmente o seu poder.

Agora, para apreciar a pergunta de Nossa Senhora, temos de a contrastar com a pergunta de Zacarias que surge mais cedo no Evangelho de São Lucas (ver Lucas 1,5-23). O Anjo Gabriel aparece-lhe no templo. Junto ao altar, anuncia a resposta às orações de Zacarias, o nascimento de João Baptista. Em resposta, Zacarias pergunta: “Como terei certeza disso?” À primeira vista, a pergunta é semelhante, praticamente a mesma feita por Maria. Mas a diferença é profunda.  

Como terei a certeza disso? Bom, tens à tua frente o mensageiro de Deus. Isso devia ser prova suficiente. Se o envio de anjo por Deus não é suficiente, então que mais será preciso? Em termos modernos, a pergunta de Zacarias soaria a algo como “deve ser, deve”, ou “Ai sim? Então prova.” Ele não está aberto à verdade que lhe está a ser anunciada. Pelo contrário, insiste que Deus lhe dê provas. Zacarias é um cético, não procura conformar a sua mente à realidade, mas insiste que a realidade se comprove ao seu gosto. Isso torna Zacarias uma imagem adequada da maioria dos pensadores modernos.

A pergunta de Maria é diferente. “Como pode ser isso?” pode ser traduzido como “como será isso?” ou ainda “Como é que isto vai ser?” O ponto é que ela aceita que aquilo que o anjo lhe anunciou será. Mas também quer saber como. Maria confia – tem fé – de que o mensageiro de Deus está a dizer a verdade. Depois, quer compreender como é que esse milagre irá ocorrer

Esta é, por isso, a primeira lição que Nossa Senhora nos ensina sobre como pensar: fazer perguntas com fé. A definição de teologia é uma fé que tenta compreender. Primeiro, acreditamos naquilo que Deus revelou; depois procuramos compreendê-lo melhor. Não condicionamos a nossa fé à compreensão. Não dizemos: “Acreditarei, depois de me convenceres”. Isso foi o que fez Zacarias, e foi punido por isso. A fé no que Deus revelou é necessária ao pensamento correcto na Igreja.

Na verdade, a fé é necessária para qualquer tipo de pensamento. Todos os professores compreendem isto, porque a primeira coisa que os seus alunos devem fazer é confiar neles. Se o aluno não tiver este tipo de fé natural, se recusar-se a confiar, então não será capaz de receber aquilo que o professor tem para partilhar. Os revolucionários instam-nos questionar a autoridade, mas esse é o mantra daqueles que se recusam a ser ensinados e por isso nunca aprenderão a pensar.

Em segundo lugar, Maria mostra-nos que devemos fazer perguntas com a disposição certa para receber a resposta. A pergunta de Zacarias era a única resposta que ele queria. A pergunta de Nossa Senhora revela abertura a aprender. Aqui devemos recordar a frase de Newman de que “dez mil dificuldades não formam uma dúvida”. Uma dificuldade é uma perplexidade ou questão sobre algum aspecto da fé. Leva a questionar e à disposição para acolher o que Deus tem para dizer.

Já a dúvida tem as suas raízes no cepticismo, e conduz ao mesmo. Coloca Deus no Banco dos Réus e coloca sobre Ele o ónus da prova. A ironia é que Deus fez muitas coisas para provar o seu amor por nós. Mas não estamos abertos às suas respostas. Estamos constantemente a mudar o alvo, insistindo que ele se prove de acordo com os nossos critérios.

Terceiro, Maria revela que as nossas questões devem servir para a autodoação. A sua pergunta não é apenas um exercício intelectual. Não está a perguntar só porque era giro saber. Ela não sofre do vício de curiositas. Antes, pergunta, procura compreender mais, para que se possa conformar à verdade de Deus. É por isso que devemos fazer perguntas sobre a fé: para que, ao compreender melhor, possamos dar-nos mais. 

O castigo de Zacarias foi ficar mudo – porque os cépticos não têm nada de útil para dizer. Maria foi premiada com uma explicação e uma prova. Ela não as exigiu; Deus deu-lhas na sua generosidade. Nem sempre Ele fala tão rápida ou claramente. Mas retribui sempre aqueles que o buscam com corações retos e sinceros, que desejam conhecê-lo e compreendê-lo mais, não segundo os seus critérios, mas segundo os dele.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Wednesday, 29 November 2023

Fé, Certeza e Dúvida

Tens a certeza de que Deus existe? Tens a certeza que não? De que lado está o ónus da prova nesta questão? São os crentes que têm de provar que Deus existe? Ou devem ser os ateus a provar o contrário? Muitos optam por se pronunciar “agnósticos” – não sei mesmo.

Tudo bem, a não ser que a questão da existência de Deus seja tão importante e relevante como saber se o vulcão por cima da minha casa está prestes a explodir. Como não sou vulcanólogo, posso legitimamente dizer “eu não sei mesmo”. Mas não posso propriamente dizer que a resposta à questão não tem qualquer importância para a minha vida e realização. Dizer-me “agnóstico” e voltar para casa não é uma resposta “neutra”. Com os meus gestos estou a colocar-me do lado dos que dizem que esta não é uma preocupação relevante.

Tenho pensado muitas vezes que o verdadeiro objectivo da famosa “aposta” de Pascal era tentar levar os seus compatriotas, com a mania de que eram tão sofisticados, a enfrentar esta questão existencial da mensagem do Evangelho: E se, com a tua vida, já apostaste tudo nesta questão? E se todo o teu dinheiro (ou toda a tua vida) dependessem da resposta a uma certa questão, estarias mesmo disposto a permanecer “agnóstico” sobre ela?

Posso ter a Certeza de que Jesus é Deus feito homem, e que a sua morte sacrificial nos dá a salvação? Talvez não. E então?

E se não colocarmos a questão desta forma, em busca da certeza?

Esta busca pela certeza é uma tendência que foi introduzida na consciência moderna por René Descartes, que acreditava que dizer “eu sei” implicava ter a certeza – tão certo como estou de que 2+2=4. Um antigo professor meu dizia que este era o tipo de erro que, na escola de Aristóteles, teria levado a uma bela reguada. “Não, Descartes! Não! Não podes esperar o mesmo grau de certeza em todos os assuntos!”

Podes ter a certeza sobre Deus, Jesus e tudo o resto? Talvez não. Mas há outras questões sobre as quais não podes ter a certeza. A tua mãe ama-te? Podes ter a certeza disso? Talvez ela seja um génio malvado a enganar-te simplesmente para te poder manipular quando fores mais velho.

Bom, talvez seja possível, sim, mas o que é que ela poderia esperar ganhar que pudesse justificar todo o esforço e sacrifício que está a fazer agora? E como é que podia ter a certeza de que todos os esforços valeriam a pena? É possível, se bem que não seja inteiramente razoável, ou provável. Mas não posso ter a certeza, de facto.

E temos ainda outras questões com as quais as pessoas se debatem. Devo casar com esta pessoa? Posso ter a certeza de que vai “resultar”? É impossível ter a certeza. Talvez seja possível discernir melhor ou pior, mas quem exigir uma certeza absoluta nunca irá casar. Aqueles que pensam no amor e no casamento como escolhas que fazem, em vez de uma situação de que podem ter a certeza, tendem a ter mais sucesso a longo prazo.

Eu tive um professor que defendia que a “crença” era “agir como se fosse verdade”. Não me parece que seja a melhor das definições de fé, mas leva a algumas considerações interessantes. Se eu vejo uma ponte frágil e velha e decido atravessá-la, é porque creio que aguentará o meu peso. Como é que sabem que acredito? Porque estou a atravessá-la. Posso estar a fazê-lo de forma hesitante, com algumas dúvidas, mas estou a fazê-lo.

Um homem está a afogar-se e eu vejo um barco antigo. Se saltar para ele e remar em direcção ao homem, estou a demonstrar a minha crença de que o barco aguenta comigo. Estou a agir como se fosse verdade. Creio nisso – creio tão firmemente que estou disposto a arriscar a vida com base nessa crença.

Em “O Homem em Busca de um Sentido”, Viktor Frankl diz o seguinte sobre o tempo que passou em Auschwitz: “Tínhamos de parar de perguntar sobre o sentido da vida, e antes pensar-nos como aqueles que estavam a ser questionados pela vida – diariamente, a cada hora. A nossa conduta não devia consistir em conversa e meditação, mas em acção recta e conduta recta”.

E se, em vez de certezas sobre a ideia de Deus, nos pensássemos como estando a ser “questionados pela vida”, e a resposta a esta pergunta tivesse a ser dada com as nossas vidas. E se em vez de esperar pela sensação da certeza nos limitássemos a dizer: “Eu escolho viver como se uma vida de amor altruísta fizesse sentido”.

Quando agem com amor altruísta e ensinam os seus filhos a fazer o mesmo, os “agnósticos” e os ateus que dizem acreditar que vivemos num universo vazio e desprovido de sentido, revelam que não acreditam mesmo no que dizem acreditar. Eles acreditam no mesmo que os cristãos – sobre a vida e sobre o mundo. A diferença está em que os cristãos têm razões para a esperança que carregam. E podem dar nome a essa esperança.

Posso ter a certeza sobre o amor de Deus? Estás a gozar? Há dias em que o universo me esmaga e não sei se há valor no que quer que seja, sobretudo quando contemplo as trevas que andam pelo mundo e que habitam o meu próprio coração.

Embora não possa ter a certeza, posso escolher tentar viver como se o Deus de Amor existe e criou um universo em que a chave da realização humana é o Amor feito carne. Eu prefiro viver desta forma porque, na minha experiência, é o que faz mais sentido. Se quiseres chamar a isso “fé irracional”, força.

E sim, talvez seja como o tipo que está num barco velho e frágil, que nem sei se me vai manter à tona de água, a remar em direcção ao homem que se afoga. Mas eu prefiro ser esse tipo do que aquele que se encontra sentado na margem, a fazer perguntas infindáveis sobre a navegabilidade do barco. Esse tipo já fez a sua escolha. E eu fiz a minha. Mas nenhuma dessas escolhas é neutra.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 28 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 15 December 2021

Desconstruindo os Desconstrutores

Randall Smith
Um dos conceitos que se tornou importante nas teorias críticas da raça, feminismo de terceira vaga, pós-estruturalismo, pós-colonialismo, pós-modernismo e provavelmente uma série de outros “ismos” (que eu não sou suficientemente sofisticado para conhecer) é a noção de que devemos “desconstruir” oposições “binárias” que têm sido usados para perpetuar e legitimar estruturas de poder social que favorecem um grupo acima de outro. Binários desiguais que são frequentemente sujeitos a esta “desconstrução” incluem masculino/feminino; homem/mulher; pessoas brancas/pessoas de cor; razão/emoção e heterossexual/homossexual.

O problema, dizem, é que o primeiro elemento do par é considerado o “bom”, o “forte”, o “superior”, enquanto o segundo é o “mau”, o “fraco” ou o “inferior”. Por isso o que temos de fazer, dizem, é acabar com as oposições binárias para que o segundo grupo deixe de ser menosprezado ou oprimido neste “jogo” linguístico.

Para ser franco, não estou inteiramente convencido de que estes binários supracitados são assim tão nefastos como se diz. Pessoalmente, sempre pensei no binário homem/mulher como complementar, não como “melhor” ou “pior”. E como temos visto recentemente, a desconstrução desse binário em particular nem sempre foi para o benefício das mulheres, sobretudo no campo do desporto.

Seja como for, neste mesmo espírito de desconstrução, gostaria de propor uma série de outras oposições binárias que são regularmente usadas na sociedade contemporânea, frequentemente para menosprezar ou oprimir uma classe de pessoas. Tomemos como exemplo:

Ciência/Teologia

Razão/Fé

Progresso/Tradição

Progressista/Conservador

Modernidade/Antiguidade

Espiritual/Doutrinal

Moderno/Tradicional

Em cada caso, a oposição binária serve para menosprezar e oprimir. As pessoas dizem “Segue a ciência”. Ninguém diz “Segue a teologia”. Porquê? Porque se parte do princípio de que a categoria alargada e indefinida de “ciência” é factual, certa e indubitavelmente boa, apesar de, de tempos a tempos, repudiar todas as suas teorias mais populares. A “ciência” é associada à razão, ao progresso, às bênçãos da modernidade, enquanto a “teologia”, seja de que género for, seja por quem for, é tida como sendo mais do que um pouco duvidosa, associada a superstições antigas e dogmas fora de moda, do género que manteve os nossos antepassados na escuridão durante a “Idade das Trevas”, esse maldito tempo antes da luz pura da razão que surgiu durante o Renascimento e o Iluminismo.

Ouvimos as pessoas a dizer “temos a razão do nosso lado”. Se têm, ou não, não é bem claro. Muitas pessoas falam sobre “razão” ou “razão pura” mas não têm a menor idade do que a razão, em toda a sua complexidade e múltiplas formas de abordar a realidade, é verdadeiramente.


Por isso aquilo que as pessoas normalmente querem dizer com essa expressão é “eu tenho razão e tu não, porque não pensas como eu”.

A questão que estas pessoas estão a evitar é na verdade a mais importante de todas: “O que significa pensar? Como é que pensamos claramente sobre diversos assuntos? Faria sentido – seria razoável? – pensar sobre a pessoa com quem devo casar da mesma forma como penso sobre a razão pela qual o cobre conduz a eletricidade, ou se devo investir numa empresa e não noutra?

Ou será que existem diferentes formas de pensar, apropriadas a diferentes áreas da vida e diferentes questões? Se um treinador, ou um professor, disser a um colega céptico “eu acredito neste miúdo”, será que a resposta certa é “tens a tua fé, mas eu estou a usar a razão. Expulsa-o.”?

Quem quer ser “conservador” em oposição a “progressista”? Quem não quer “progresso”? Mas o que é o verdadeiro progresso, se não mera mudança? Se o binário fosse alterado para “conservador versus radical” ou “conservador versus anarquista”, quantas pessoas não escolheriam “conservador”?

Os católicos sabem bem como este jogo se desenrola na Igreja, quando as pessoas opõem “doutrinal” e “espiritual” como se fosse possível ser “espiritual” sem ter os pés bem assentes na doutrina. As tradições espirituais e os ensinamentos sobre justiça social da Igreja Católica baseiam-se em doutrinas muito específicas sobre justiça social e o desenvolvimento da pessoa. Leiam as obras de grandes autores “espirituais” como os santos Boaventura ou Hildegard de Bingen e encontrarão textos muito sofisticados de doutrina cristã.

Não estou a dizer que não se possam fazer distinções entre e razão, ou entre ciências naturais e teologia ou, para ser franco, entre Estado e Igreja. Os maiores teólogos da Igreja, como Tomás de Aquino, usavam estes termos com um correcto entendimento de ambos. A questão está em saber se devemos começar a desafiar as pessoas a deixar de usar estes binários quando recorrem a eles para preservar o seu próprio domínio cultural sobre os católicos e outras pessoas de fé, isto é, os pacóvios que não tiveram o benefício de uma educação secular numa universidade prestigiada e sofisticada, mantendo-se colados ao passado, com as suas superstições tradicionais que os impedem de participar no verdadeiro progresso.

Dado este tipo de preconceito irreflectido, talvez seja altura de aplicar uma dose séria de “desconstrução” aos binários opressivos da própria modernidade.

Quando alguém profere a frase ignorante: “Tu tens a tua fé, eu tenho a razão”, talvez os católicos devam adoptar a linguagem dos desconstrucionistas: “Isso não passa de um binário opressivo, e eu rejeito-o”.

Quando alguém diz “eu sigo a ciência e não uma qualquer teologia supersticiosa”, devemos responder: “Em primeiro lugar não sabes do que falas, porque não sabes o que é que a ‘ciência’ (do latim scientia, ou ‘conhecimento’) é; em segundo lugar, não pareces ter qualquer noção das discussões clássicas sobre a relação entre a ‘ciência’ e a ‘sabedoria’ (sophia), que remontam à antiguidade. Por isso, acabaste de dizer algo que é o equivalente linguístico a ‘as tuas emoções são muito femininas’ e não só me ofendeste como te revelaste profundamente preconceituoso”.

Se funciona para os desconstrucionistas, devia resultar para os católicos. Algumas pessoas de um “grupo tradicionalmente marginalizado”, nomeadamente os católicos, precisam de acordar, aprender a defender-se e não se deixarem ser oprimidos na linguagem e na sociedade.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 14 de Dezembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 20 December 2017

Sobre Sentimentos

James V. Schall S.J.
A direcção de uma grande universidade pediu recentemente informação sobre o sucesso de uma nova iniciativa. Enviou-se um inquérito e pediu-se aos inquiridos que expressassem, de diversas formas, os seus “sentimentos” sobre o programa. Claro que sobre “sentimentos” não pode haver controvérsia ou desacordo. Se nos baseamos na categoria de “sentimentos” para saber coisas, não pode haver discussão. Os “sentimentos”, enquanto tal, por mais fugazes que sejam, são absolutos. Ou os temos ou não temos.

É isso que significa o ditado latino: “De gustibus non est disputandum” – os gostos não se discutem. Num mundo de “sentimentos” não há ponto intermédio. Não existe qualquer princípio comum, salvo: “Sim, eu ‘sinto-me’ assim”, ou “não, não me ‘sinto’ assim”. Suponhamos que alguém diz: “Deixa-me convencer-te que a cerveja que dizes que sabe tão bem, na verdade não é muito melhor que gelatina de limão aquecida”. A sua resposta permanece: “Ainda assim, é a minha preferida”.

O verbo “sentir” tem, em vários casos, substituído o verbo “pensar”. À primeira vista os dois podem parecer sinónimos. Mas olhando mais de perto diferenciam-se de uma forma que indica uma mudança civilizacional. A sociedade que “sente” não é a sociedade que “pensa”. Ambas as palavras têm um sentido específico e pertencem juntos, numa certa ordem de prioridade. Os nossos “sentimentos” estão, ou deviam estar, ao serviço do nosso pensamento, mas na sua devida ordem são claramente reais.

“Sentir” é o verbo que usamos para indicar o estado e a natureza das nossas paixões e desejos. Refere-se às mudanças da nossa alma que estão ligadas ao nosso corpo. Assim, dizemos “Sinto-me doente.” “Estou zangado com o Charlie.” Ou “Eu rio-me da Harriet.” Mas não chega comunicar a alguém a sua doença, estado de espírito ou humor. Também precisamos de saber se esses sentimentos são razoáveis ou não nas circunstâncias em que surgem. Talvez sejam. Mas se forem, isso demonstra como nos “sentimos” mas também se os nossos sentimentos são orientados pela nossa razão. Mais, implica que a razão em si é medida por um padrão que não é subjectivo. O padrão não foi criado apenas a partir dos nossos próprios interesses.

Aqui, Aristóteles continua a ser mestre. Temos conhecimento sensorial. Nós “sentimos” dor. Tocamos em algo morno. Cheiramos o odor terrível. Saboreamos o sal na salada. Ouvimos e compreendemos a mentira ou a piada que o George nos contou. Sem os nossos poderes sensoriais, não poderíamos conhecer estas coisas com as quais lidamos todos os dias. Porém, o sentido do olfacto em si não sabe o que é o cheiro ou como se distingue do paladar. Uma vez que as nossas mentes não são meras extensões dos nossos poderes sensoriais, sabemos o que significam o olfacto, a audição, o tacto e o paladar. Podemos manter todos estes aspectos em simultâneo.

Pessoa ou mero aglomerado de células?
Depende dos "sentimentos"...
Outra coisa que rapidamente aprendemos sobre nós mesmos é que os nossos poderes sensoriais estão sujeitos ao nosso domínio. Podemos aprender porque os temos. Vemos que podemos ficar demasiado zangados, ou insuficientemente zangados. Cada um tem o seu propósito a partir do qual podemos concluir sobre o seu devido lugar nas nossas vidas. Através da tentativa e erro, agindo correctamente ou incorrectamente, desenvolvemos virtudes ou vícios. Habituamo-nos à forma como usamos cada um dos nossos sentidos. O nosso carácter manifesta-se aos outros na forma como habitualmente respondemos aos outros. A questão central da nossa vida moral vem rapidamente ao de cima através da forma como agimos. Somos governados pelas nossas paixões, ou somos nós que as governamos?

Se forem elas a governar-nos, isso interessa? Acontece que a nossa razão está orientada para um fim, para um bem que não é simplesmente arbitrário. As nossas paixões, por outra palavras, são faculdades que procuram orientação na razão. Logo, o bom ou o mau uso revela-se no fim que a nossa inteligência nos leva a escolher e a seguir.

Logo, se as nossas mentes estiverem enviesadas o mais provável é que as nossas paixões também estejam. Neste sentido, o caminho de uma civilização da razão para uma civilização de “sentimentos” é bastante compreensível. Uma civilização que dá primazia aos “sentimentos” sobre a civilização da razão é uma em que a desordem se tornou hábito, personalizada e legalizada.

Não se pode ser civilizado e não ter “sentimentos”. A civilização significa optar livremente por sujeitar os nossos “sentimentos” à razão. Mas significa também orientar todas as nossas paixões para um fim que coloca tudo o resto em ordem. As paixões, quando se lhes é dada primazia, podem tornar-se “razões” sofisticadas para substituir a razão. Mas quando se dá essa troca é porque desviamos deliberadamente as nossas mentes do seu fim próprio.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 17 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 1 October 2014

A Razão é Mais que Meros Argumentos

Francis J. Beckwith
O coração tem razões que a razão desconhece... Chegamos à verdade não só pela razão, mas também pelo coração. – Blaise Pascal (1623-1662)

Há cristãos cujas vidas parecem uma Quaresma sem Páscoa. – Papa Francisco

A minha primeira atracção pela filosofia chegou através da apologética cristã. Desde que me lembro, os aspectos cognitivos da minha fé – e como justificá-los – ocuparam a minha mente. Em 1968, quando os meus pais me perguntaram o que queria para a minha Primeira Comunhão, pedi uma Bíblia. Todos os meus colegas pediram uma medalha ou outra, mas eu fui atraído pelo λόγος. Era um puto católico fora do comum.

Na adolescência abandonei a Igreja e tornei-me evangélico. Sentia-me atraído por autores que se dedicavam a defender as credenciais intelectuais do Cristianismo. Antes de ir para a Universidade de Fordham, em 1984, para fazer o meu mestrado e doutoramento em filosofia estudei numa faculdade evangélica onde tirei um mestrado em apologética.

Ao longo dos anos, como já referi nestas páginas, comecei a discernir em mim o desejo desordenado de tratar as minhas crenças cristãs apenas como dados sobre os quais podia exercer o poder desapaixonado da razão, como se fossem apenas uma colecção de proposições que eu devia comprovar para minha satisfação. Em vez de ver o conjunto das minhas crenças como um aspecto integral mas não exclusivo de uma caminhada que não se pode percorrer sem as virtudes teológicas da fé, esperança e caridade, abordava-as como se não passassem de uma colecção de problemas a resolver.

Comecei também a descobrir que alguns dos meus heróis da apologética evangélica não eram, afinal, pessoas muito simpáticas. Eram intelectualmente brilhantes, claro, e enfrentavam quem fosse preciso com uma variedade de argumentos inteligentes e sedutores. Mas no fim de contas não queria ser como eles. Não obstante os seus apelos por um Cristianismo intelectualmente sério, alguns tendiam a aceitar atalhos intelectuais em vez de dedicar o tempo necessário para pesar paciente e cuidadosamente os argumentos dos seus críticos.

Houve dois, em particular, que à medida que envelheceram se tornaram caricaturas da sua juventude tão promissora. As virtudes que antes os tinham servido tão bem – a juventude, o charme e o raciocínio rápido – começaram a esvanecer na medida em que os vícios, mal contidos na sua juventude, se começaram a realçar. A dada altura deixaram de ser pessoas com mau feitio mas com imensas qualidades, tornando-se velhos zangados, descansando sobre louros antigos.
Razão e coração
Como é evidente tinha muitos outros heróis apologistas que não eram só academicamente brilhantes, mas também decentes e boas pessoas. Ao contrário das primeiras, estas eram pessoas de oração, devoção, grande piedade e caridade pessoal. A sua fé cristã não se podia reduzir a um combate intelectual, possuíam uma maneira de ser atraente e irradiavam um sentido de alegria, contentamento e verdadeira curiosidade intelectual. Queria ser como eles.

Quando reentrei para a Igreja Católica, há quase oito anos, descobri um fenómeno semelhante. Alguns apologistas católicos eram como o primeiro grupo que tinha encontrado quando era protestante: tinham argumentos fantásticos, mas almas feias. Pareciam estar sempre zangados, rejeitando os seus críticos como tolos cegos movidos por má-fé.

Mas os outros, para minha grande alegria, eram como o segundo grupo. Compreendiam que a evangelização não tem a ver com apresentar argumentos aos nossos vizinhos para os ganhar para Jesus; passa por introduzir os nossos irmãos a Jesus através do nosso exemplo para que se sintam atraídos a ouvir os nossos argumentos.

Acredito que seja isto que o Papa Francisco nos esteja a tentar ensinar sobre a Nova Evangelização. Como o próprio escreve na sua exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, de 2013: 

É verdade que, na nossa relação com o mundo, somos convidados a dar razão da nossa esperança, mas não como inimigos que apontam o dedo e condenam. A advertência é muito clara: fazei-o “com mansidão e respeito” (1 Pd 3, 16) e “tanto quanto for possível e de vós dependa, vivei em paz com todos os homens” (Rm 12, 18). E somos incentivados também a vencer “o mal com o bem” (Rm 12, 21), sem nos cansarmos de “fazer o bem” (Gal 6, 9) e sem pretendermos aparecer como superiores, antes “considerai os outros superiores a vós próprios” (Fl 2, 3).


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Thursday, 27 October 2011

A verdadeira religião não é violenta? Quem decide?


De nada adianta, como tantos líderes religiosos e fiéis gostam de fazer, negar que a religião tem um potencial de violência e que grande parte da violência no mundo é motivada por ela. O próprio Papa admitiu-o hoje.
Claro que isso não significa que a violência religiosa seja inevitável. Será antes uma utilização abusiva da fé: “repetimos com vigor e grande firmeza – que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição”, afirmou hoje Bento XVI.
Mas será mesmo? Quem decide? O próprio Papa levanta estas questões antecipando-se aos eventuais críticos. No fundo está a questão: Quem está mandatado para definir o que é a verdadeira religião e o que não é?
Na Igreja Católica a resposta é mais fácil. Com uma estrutura estritamente hierárquica a legitimidade cabe ao sucessor de Pedro, que todos sabemos quem é.
Mas no Judaísmo e no Islão, com as suas múltiplas correntes? E nas igrejas protestantes e evangélicas? E na multiplicidade de seitas, com incontáveis milhões de seguidores?
Somos recordados das tentativas vãs dos políticos ocidentais, desde Bush a Blair, sem esquecer Obama e tantos outros, que insistem em falar do “verdadeiro Islão”, escolhendo como interlocutores e elevando os seus representantes mais moderados, com uma legitimidade que vem ninguém sabe bem de onde. Haverá melhor maneira de alienar um jovem muçulmano do que meter um político ocidental a dar-lhe sermões sobre a sua própria religião?
O Papa não respondeu às questões que levantou. Não pode. Ele saberá que esse debate não se ganha com retórica nem com a razão.
Essa legitimidade e autoridade ganha-se nos corações. Quando os promotores da paz forem rectos e puros de coração, quando o perdão for a sua reacção automática perante a ofensa e mostrarem ao mundo que por essa mesma razão são mais e melhores homens e mulheres; quando puderem apresentar-se credivelmente ao mundo como um novo modelo de heroísmo, aí sim os terroristas estarão em desvantagem.
O encontro que hoje decorreu é um ponto de partida, o verdadeiro trabalho terá de ser feito internamente e aí se verá quem esteve do corpo presente para aparecer nas fotografias e quem esteve de alma e coração.
Filipe d'Avillez

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