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Wednesday, 10 January 2024

A Nata da Sociedade?

O termo “a nata da sociedade” é frequentemente empregue para descrever os estudantes de universidades de elite nos Estados Unidos. Por vezes é usado de forma irónica, como quando as pessoas perguntam, sobre os estudantes a manifestar-se a favor do Hamas: “Estes miúdos são a nata da sociedade americana?” Pois não são, não. Mas a verdade é que nunca foram.

Isto não é meramente um comentário sobre as nossas instituições académicas supostamente de elite. A maioria das pessoas que inventaram coisas, criaram empresas, defenderam a pátria, serviram as suas comunidades e construíram famílias não frequentaram as instituições da Ivy League – Harvard, Princeton e Yale – nem qualquer outra das instituições de “elite”. Muitas frequentaram universidades estaduais, academias militares ou pequenas faculdades de artes liberais. Muitos mais ainda não frequentaram universidade alguma.

No seu livro: “The Best and the Brightest”, escrito nos anos 70, David Halberstam criticou o grupo de intelectuais de elite – na maioria ex-alunos das universidades da Ivy League – que rodearam o presidente Kennedy e que planearam a condução da desastrosa guerra do Vietname.

Há por isso muitas razões pelas quais é apenas uma tontice associar o termo “a nata da sociedade” a alunos – ou professores – de universidades de elite.

Os alunos destas escolas são frequentemente inteligentes e capazes, e há também excelentes professores. Mas o meu ponto é mais geral e não se foca apenas em instituições específicas. O que eu defendo é que nenhum aluno, de nenhuma faculdade ou universidade constitui a nata da sociedade americana. E digo isso na qualidade de alguém que adora ensinar, que adora os seus alunos, e que se considera muito sortudo por poder fazer o que faço.

A razão pela qual digo que nenhum destes alunos é a nata da sociedade americana é porque eles são meramente miúdos a estudar. A nata da sociedade americana está na própria sociedade, a trabalhar, a servir, a cuidar de famílias, a construir coisas, a inventar coisas e tudo o resto.

Aristóteles e Tomás de Aquino já diziam que ser em acção é melhor do que ser em potência, e os alunos são, essencialmente, grandes bolas de potência. Anseiam ser em acção, fazer coisas importantes, mas a maioria simplesmente não tem a formação ou as capacidades de o fazer para já, nem possuem a maturidade, a experiência ou o juízo.

Sim, os miúdos têm potencial. Se vão cumprir esse potencial é outra coisa. Aqueles de nós que os ensinamos, que os admiramos e que gostam tanto deles, sabemos que, de diversas formas, eles são obra em curso. Não são propriamente, como dizia o apresentador Rush Limbaugh, “jovens crânios cheios de papa”, embora haja aí algum elemento de verdade. Muitos dos meus alunos são muito mais inteligentes e maturos do que eu era na sua idade, mas isso não significa que estejam prontos para os desafios do mundo.

Então quem é que é mais inteligente do que eles? Para já, os seus pais. Nunca deixo de me surpreender como os adolescentes compram a propaganda que lhes é dirigida pelos media e que representa os pais como idiotas.

Os seus pais podem ser neurocirurgiões, líderes de empresas, oficiais das forças armadas, engenheiros aeroespaciais, podem saber electrificar todo um edifício – mas supostamente são “burros”. Dizem-me que “os pais não compreendem o sexo e o amor”. É mesmo necessário responder a uma afirmação dessas feita por um jovem que é o resultado de um acto sexual e que parece ser saudável, bem alimentado e está numa universidade?

Esses pais parecem saber algo mais sobre sexo e amor do que os media dão a entender.

Por isso talvez fosse melhor ideia se disséssemos aos nossos jovens – e refiro-me aqui sobretudo aos jovens a quem é dado o privilégio de poder ter uma educação universitária – que eles não são a nata da sociedade. Essa honra é algo que terão de conquistar no mundo real, cuidando de outros, fazendo coisas de valor e servindo a Deus e ao seu próximo.

Neste momento não passam de grandes bolas de potencial. Se algum dia vão ser alguma coisa de valor depende da sua capacidade de aprender algo de valor; de dominarem capacidades e virtudes importantes, incluindo as suas próprias paixões e apetites; compreenderem-se melhor a si mesmos e aos seus concidadãos; ganharem a experiência de que precisam no mundo, incluindo a experiência para recuperar de erros e de fracassos.

Eu digo aos meus alunos que se querem viver de uma certa forma o melhor é encontrarem pessoas a viver a vida da forma como acham que ela deve ser vivida, e depois observarem-nas, aprender delas e deixar que o seu exemplo vos desafie.

As pessoas só se deviam preocupar com aquilo em que vocês se tornam, e não com a escola que frequentaram. Não lhes devia interessar se foram para a escola, sequer, desde que consigam desempenhar a vossa função. A forma como as universidades passaram a ser determinantes na progressão da carreira é uma das histórias mais tristes do pós-Segunda Guerra Mundial, e tem de parar. Eu acredito no valor de uma educação universitária, mas ela não deve ser tratada como um sine qua non para a progressão.

Acredito que todos os meus alunos têm o potencial de se tornarem a nata da sociedade. Acredito nisso porque a minha fé me diz que por mais baixo que tenham descido, ou por mais tolos que pareçam ser, Deus lhes pode dar aquilo de que precisam para poderem brilhar.

Por vezes os miúdos que descartamos como sendo um desastre completo acabam por se tornar os mais fiéis servidores de Deus. Não se trata de algo que possamos controlar ou prever. Está nas mãos de Deus. Mas o estatuto de serem a nata da sociedade está no seu futuro, como estão os seus melhores dias.

Por isso, quando os jovens ouvem falar em nata da sociedade devem perceber que provavelmente estão diante de vendedores de banha da cobra. E devem responder: “A sério? Achas mesmo que sou assim tão burro? Estás a ver aquelas pessoas que estão no mundo a fazer coisas, a defender o seu país e a servir a Deus e ao próximo? Esses é que são a nata da sociedade. Só espero um dia poder ser como eles. Entretanto cala-te, preciso de estudar e preparar-me, e conversas da treta sobre a nata da sociedade não vão levar-me onde preciso de ir”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 9 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Monday, 6 February 2023

O Papa em África e a rapariga que mete a mexer as moçambicanas

O Papa está actualmente no Congo, e de lá segue para o Sudão do Sul. Tem apelado à paz e ao fim da corrupção, como seria de esperar. Mas que diferença é que a viagem do Papa pode mesmo fazer? Falei sobre este assunto com várias pessoas que conhecem bem o terreno, num artigo publicado no jornal online The Pillar, esta semana. Leiam que vale a pena.

O meu amigo Paulo Aido, da fundação Ajuda à Igreja que Sofre – Portugal, tem muitos e bons contactos em ambos os países e tem feito uma cobertura cerrada desta visita, que podem e devem acompanhar aqui. Também a minha amiga Aura Miguel está no terreno e podem acompanhar o seu trabalho na Renascença, aqui.

Esta quinta-feira, também no The Pillar, publiquei uma entrevista com Petru Pruteanu, o bispo da Igreja Ortodoxa Russa para a Península Ibérica, que vive em Cascais. Quem tem acompanhado o meu trabalho sabe que tenho sido crítico da postura do patriarca de Moscovo, mas a Igreja Ortodoxa Russa é demasiado grande e importante para descartar. Se há esperança para a renovação desta grande e venerável instituição está em homens como o bispo Petru, que dizem a verdade, sem medo das consequências. Esta foi uma entrevista que me deu muito gosto fazer e espero em breve poder partilhar convosco uma versão portuguesa.

O tema do palco da missa final com o Papa na Jornada Mundial da Juventude já passou, mas o compromisso que a Igreja fez de tentar baixar os custos das infraestruturas não foi esquecido. Hoje mesmo decorrem reuniões nesse sentido.

Hoje voltamos a ter Hospital de Campanha. Numa fascinante conversa com a Marta Figueiredo, da Girl Move, falámos da dimensão espiritual do seu trabalho de promoção da dignidade e das oportunidades de vida de mulheres em Moçambique, mas também do papel que as mulheres podem, ou não, desempenhar na Igreja e da postura a adoptar em relação a assuntos como o feminismo.

Estamos na Semana das Escolas Católicas. Oportunidade para ler este elogio aos professores católicos, feito pelo David Bonagura, no The Catholic Thing. Leiam e partilhem com um professor católico que conheçam.

Wednesday, 1 February 2023

Professores católicos: Missionários da Evangelização

Por cima da majestosa porta principal da Escola Santo Estêvão da Hungria, em Manhattan, estão gravadas na pedra as palavras Venite Adoremus Dominum – “Vinde, adoremos o Senhor”. À primeira vista, estas palavras podem parecer deslocadas. A escola não deve tratar de números e letras, rochas e mapas, pinturas e canções? Uma exortação desta natureza não devia estar por cima da porta de uma igreja, e não de uma escola?

Mas não, as palavras estão mesmo no local certo. De facto, elas devem estar por cima da entrada de uma escola católica, uma vez que todos os seus ensinamentos, todos os seus recursos e o seu pessoal existem por uma só razão: conduzir os alunos ao Céu, onde adorarão o Senhor para toda a eternidade.

Há quatro décadas que estou ligado às escolas católicas, desde o jardim de infância até ao secundário, na qualidade de aluno, professor e pai. Já visitei escolas católicas que são perfeitamente medianas, que estão a lutar pela sobrevivência ou que se deixam consumir pelo fogo da missão. Há muitos ingredientes que contribuem para tornar uma escola bem-sucedida, mas a minha experiência é de que há um factor que potencia uma escola que seja dinâmica, fiel e atractiva: um exército de professores dedicados ao ensino enquanto forma de conduzir os seus alunos a louvar o Senhor.

Durante esta Semana das Escolas Católicas deixo a sugestão de nos focarmos no papel que os professores desempenham para melhorar, ou estragar, a experiência das crianças nas escolas católicas. Claro que isto inclui a experiência religiosa das mesmas. A este respeito existe uma fórmula que todos conseguem compreender: se os professores não forem firmes na fé, de forma alguma conseguirão passá-la aos seus alunos.

Existe um fenómeno nas escolas diocesanas que me deixa sempre perplexo – era assim no meu tempo de estudante e é assim agora com os meus filhos: demasiadas são as escolas que contratam professores para ensinar e que depois lhes passam um livro de educação religiosa e acrescentam: “Também tem de dar aulas de religião. Não sabemos sequer se vai à missa, mas faz parte do seu trabalho. Leia o livro com a sua turma e correrá tudo bem”.

Isto nunca aconteceria no sentido contrário. Um director jamais contrataria alguém para ensinar religião, só para depois lhe informar que também tinha de leccionar a cadeira de geometria descritiva. Mas parece que a educação religiosa – que devia ser a joia da coroa do currículo das escolas católicas – é tratada por muitas escolas como um assunto secundário.

Claro que não é fácil encher as escolas católicas em todos os ciclos e para todas as cadeiras com professores que sejam simultaneamente bem qualificados academicamente e católicos devotos. Mas tudo muda quando a abordagem administrativa deixa de ser a de tapar buracos e passa a focar-se na missão. Uma missão entusiasmante atrai trabalhadores que estejam em sintonia. Uma vez que neste mundo pós-cristão em que vivemos aquilo de que precisamos para manter a fé viva são missionários de evangelização, as escolas devem procurar professores onde esses missionários se encontram: paróquias devotas, capelas de adoração perpétua, certos apostolados e institutos e universidades reconhecidas por viverem a fé de forma zelosa.

Um pouco de publicidade gratuita para a 
escola onde andam três dos meus filhos
Por outras palavras, às escolas católicas que vivam uma fé genuína em Cristo, aplica-se a frase: Constrói, que eles virão.

E um pouco por todo o lado essas escolas estão mesmo a ser construídas. Seja em modo de ensino doméstico, sejam escolas clássicas, escolas que oferecem programas integrados nas artes liberais tradicionais e nas virtudes. E os pais vêm mesmo, por vezes de muito longe, para proporcionarem aos seus filhos uma educação que coloca a fé bem no centro de cada dia, de cada cadeira e de cada actividade. Estas escolas não são especiais apenas por causa dos seus currículos – até o melhor currículo torna-se inerte nas mãos de professores sem fé. Antes, estas escolas florescem por causa dos professores fiéis que, de forma apaixonada, enchem de vida os currículos dos seus alunos.

Com uma vasta maioria da população não praticante e desinteressada pela fé, as escolas católicas são a melhor – e talvez a última – esperança para tornar realidade a nova evangelização proposta por São João Paulo II. Uma escola cheia de professores apaixonados pelo Senhor pode transformar uma vila ou até uma cidade. Pensem no fervor dos doze apóstolos, das primeiras companhias de franciscanos, dominicanos e jesuítas. Estes homens transformaram cidades sob a inspiração de líderes que os enviaram em missão. Os professores estão simplesmente à espera que esses líderes – directores, pastores e bispos – os congreguem, apresentem uma visão apelativa e os enviem para a colheita.

Gostaria, com isto, de emitir um apelo a todos os católicos devotos: aos alunos que estão prestes a terminar a faculdade, às mães que estão prestes a ficar com o ninho vazio, aos homens e mulheres de negócios que estão bem financeiramente e aos recém-reformados: porque não considerar, em oração, dedicar alguns anos a dar aulas numa escola católica? A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Talvez sejam vocês os trabalhadores por quem os fiéis rezam há tanto tempo.

Não é fácil dar aulas, e é ainda mais difícil depois de décadas a trabalhar noutros campos. O aviso do filósofo francês Étienne Gilson aplica-se perfeitamente à educação: “A piedade não substitui a técnica”. Os professores devem conhecer os seus alunos e devem encontrar formas eficientes de comunicar este conhecimento. Mas se o conseguirem fazer, e se forem verdadeiramente crentes, então podem ter um impacto sobre os mais novos capaz de mover montanhas.

Esta semana em que celebramos as escolas católicas, trabalhemos para aumentar o número de professores católicos, pois são eles os missionários que fazem com que valha a pena celebrar as escolas católicas. São eles os pastores que conduzem as nossas pequenas ovelhas a louvar o Senhor.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 31 de Janeiro de 2023 no The Catholic Thing)

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Wednesday, 25 January 2023

Alhos, bugalhos e abusos

Em Agosto de 2018 o Procurador Geral da Pensilvânia, nos EUA, publicou um relatório sobre os abusos sexuais na Igreja na maior parte das dioceses daquele Estado. Não foi o primeiro relatório do género a ser publicado, e vários anos antes tinha sido publicado um relatório semelhante sobre a Arquidiocese de Philadelphia e a Diocese de Altoona-Johnstown, mas o relatório de 2018 foi divulgado apenas algumas semanas depois das revelações bombásticas sobre o ex-Cardeal Theodore McCarrick e o falhanço da Igreja em lidar com décadas de abusos por ele praticados.

Com detalhes de denuncias feitas por mais de 1.000 vítimas, sobre mais de 300 alegados abusadores em seis dioceses, o relatório da Pensilvânia lançou um camião cheio de combustível sobre um incêndio que já estava bem vivo. O resultado abalou a Igreja Católica nos Estados Unidos, provocando danos eclesiais e institucionais com as quais a Igreja terá de lidar, cá e a nível global, durante uma geração ou mais.

Alguns meses depois de ter saído este relatório, Peter Steinfels escreveu um artigo na revista Commonweal para colocar e responder a uma questão que a maioria das pessoas não estava sequer a contemplar. Os crimes descritos no relatório eram terríveis, os números assustadores. Mas a indignação gerada em 2018 tinha tanto a ver com encobrimento como com os crimes originais. Seria mesmo verdade, perguntou Steinfels, que enquanto “padres estavam a violar rapazes e raparigas, os homens de Deus responsáveis por eles não só não faziam nada, como escondiam tudo?”

A Igreja tinha mesmo passado décadas a investir a sua energia e esforços em esconder a verdade em vez de resolver o problema? A conclusão de Steinfels, cuidadosamente sustentada nas próprias conclusões do relatório, foi um claro “não”. Nas suas palavras:

No caso da Pensilvânia, quer se olhe para a forma como se lidaram com denúncias antigas ou para a prevenção de novos casos, a conclusão que surge de uma leitura cuidadosa e isenta do relatório é esta: A Carta de Dallas funcionou. Não funcionou na perfeição, e carece de melhorias regulares e constante atenção. Mas funcionou.

O fogo destrói, mas também pode purificar.

A crise de 2002 conduziu à Carta de Dallas, uma ferramenta imperfeita mas em larga medida eficiente que tornou as paróquias americanas muito mais seguras para crianças e permitiu responsabilizar centenas de abusadores. O novo escândalo de 2018 incentivou a Igreja – não só nos EUA, mas também em Roma – a fazer mudanças significativas na forma como lida com alegações de abusos, em particular as que dizem respeito a bispos e alto clero.

Ninguém deve supor que a conta – material e espiritual – da crise dos abusos já foi inteiramente paga. Nem de longe nem de perto. Nem devemos imaginar que o processo lento de purificação já terminou. Basta um olhar rápido pelas notícias (veja-se os recentes casos envolvendo o Pe Rupnik e D. Ximenes Belo) para se perceber que estamos ainda longe de onde gostaríamos de estar.

A forma como a Igreja lida com alegações de abusos sexuais clericais já progrediu muito, ainda que, duas décadas depois da Carta de Dallas, haja trabalho por fazer. Mas como podemos medir esse progresso? A Igreja está a progredir na protecção de menores em relação a quê? Melhorou muito na promoção da transparência em comparação com o quê?

Consideremos o seguinte.

No início deste ano o Gabinete do Inspector-Geral da Secretaria de Educação de Chicago publicou o seu próprio relatório, abrangendo o período entre 1 de Julho de 2021 e 30 de Junho de 2022. O relatório revela que houve mais de 600 denúncias de abusos praticados por adultos contra estudantes nas Escolas Públicas de Chicago só em 2021-2022. Destas, mais de metade foram consideradas fundamentadas e em 16 casos foram deduzidas acusações criminais.

Chicago é a terceira maior administração escolar dos Estados Unidos e é a única que tem uma unidade inteira de investigação dedicada a lidar com alegações de abusos sexuais nas escolas, uma iniciativa que começou em 2018. (Se é encorajador ou totalmente deprimente que exista sequer uma Unidade de Alegações Sexuais para escolas é uma questão de perspectiva.)

A comparação entre as dioceses católicas da Pensilvânia e as Escolas Públicas de Chicago não é propriamente uma questão de alhos e bugalhos, mas pode ajudar a compreender alguns dos avanços feitos pela Igreja neste país.

Ao longo do mesmo ano tratado pelo relatório da Inspecção-Geral de Chicago (2021) a Igreja Católica em todo o país recebeu 30 denúncias actuais de abusos envolvendo crianças, seis das quais foram consideradas credíveis. Das 3,103 denúncias históricas recebidas por dioceses católicas em 2021, apenas 38 diziam respeito a ofensas alegadamente cometidas depois do ano 2000. Nas escolas públicas de Chicago, repito, houve mais de 600 denúncias, das quais metade foram consideradas fundamentadas. Num só distrito escolar. Num só ano.

Para avaliar o progresso da Igreja em lidar com a crise de abusos é necessário fazer comparações razoáveis com outras instituições que também têm de lidar com a mesma praga de abusos. E isso significa ter expectativas razoáveis sobre a forma como medimos o progresso e o sucesso.

Se quer encontrar listas de professores ou pessoal educativo credivelmente acusados de abusos sexuais, procurará em vão. Não existem políticas de tolerância zero que permitam afastar funcionários escolares por denúncias que nunca são provados em tribunal. Também ninguém defende o casamento dos professores para travar a onda de abusos nas escolas, e o relatório da inspecção-geral de Chicago nunca refere a palavra “clericalismo”.

É claro que a Igreja tem outras responsabilidades morais, precisamente por ser aquilo que alega ser. A conduta dos padres e bispos católicos deve ser medido segundo a bitola do Evangelho, e não dos padrões impostos pela lei civil.

A Igreja não merece nenhum prémio por ser melhor a prevenir e a relatar o abuso sexual de crianças do que o sistema de escolas públicas. Mas deve ser vista – e ver-se – como um modelo para todos os que querem combater a epidemia de abusos sexuais, que afecta toda a sociedade.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 22 September 2021

A Falácia das Escolas

Um dos aspetos mais marcantes dos atuais debates na nossa sociedade – tenham eles a ver com religião, política ou qualquer outro assunto – é a abundância de falácias lógicas. Fazia bem a todos um curso de introdução à lógica, com particular atenção a ser dada aos capítulos sobre falácias formais e informais.

Uma das maiores das falácias informais, parece-me, é aquilo a que chamo a “falácia da escola”. Este surge cada vez que alguém assume que “educação” e “escolaridade” são exatamente ou aproximadamente sinónimos.

Imaginem um círculo (ou façam como eu quando ainda dava aulas e desenham-no num quadro). Esse círculo representa toda a educação de um jovem. Depois imaginem uma fatia desse círculo, correspondente a 25% do total. Essa fatia, ou uma fatia um pouco maior ou menor, representa a porção da educação desse jovem que é fornecida pela escola.

A educação de um jovem rapaz ou rapariga é muito maior do que a escolaridade. A educação geral de uma criança inclui muito mais do que a instrução que lhe é dada pelos seus professores. Inclui a educação (que pode ser deseducação) fornecida por pais e outros parentes, amigos e colegas, treinadores desportivos, padres, rabinos e imames, televisão e filmes, música popular, jogos de computador, livros, celebridades, pornografia, e por aí fora.

Deve-se ainda referir que o impacto da educação dentro das escolas não vem apenas dos professores, mas também dos pares. Alguns desses pares reforçam aquilo que os professores tentam ensinar. Outros minam esses esforços dos professores. Em muitas escolas, sobretudo aqueles que se situam em grandes centros urbanos, os segundos são em muito maior número que os primeiros.

De todos os educadores não-escolares, os mais influentes são, pelo menos na primeira dezena de anos de vida, os pais. Na adolescência esse lugar tende a ser ocupado pelos pares. Ao todo, nos anos entre o nascimento e o fim do liceu, os professores não serão mais do que a terceira maior influência educativa, se tanto.

É preciso distinguir aqui entre dois tipos diferentes de educação: 1) cognitiva ou informativa e 2) moral ou afetiva. Quando os professores são bons, são bons a fornecer o primeiro tipo. Pais e colegas, independentemente de serem bons ou maus, são muito eficientes a fornecer o segundo.

E dos dois o segundo é muito mais importante, em muitos respeitos, para o indivíduo. Pode chegar a adulto sem saber, por exemplo, o Presidente que antecedeu Lincoln, ou sem compreender o teorema de Pitágoras, ou o nome da mãe do Hamlet, ou que rio atravessa Budapeste. Isto é uma infelicidade. Pode levar a que algumas pessoas mais bem-informadas lhe olhem de cima. Pode até afetar a sua carreira profissional.

A caminho da escola, com a principal educadora

Mas se crescer sem aprender e internalizar certas regras de boa conduta – por exemplo abster-se de roubo, drogas, abuso de álcool, fumar, violação, violência doméstica, má educação, adultério, ser um “espertalhão” a lidar com os polícias, e por aí fora – então poderá acabar divorciado, desempregado ou o centro de atenções numa funerária. Isto sem se quer falar do destino da sua alma.

A instrução informativa é importante, mas as lições que aprendemos sobre o bem e o mal, o comportamento prudente e imprudente, são muito mais. E estas lições em moralidade (ou imoralidade) apenas podem ser dadas por pessoas com quem temos relações íntimas e emocionais, como pais e outros parentes e amigos próximos.

As crianças raramente, ou nunca, têm esta relação íntima com os seus professores. Por isso é vão esperar – como muita da propaganda educacional afirma – que os professores possam fornecer às crianças uma educação moral. Se um miúdo não tiver uma boa educação moral em casa nos primeiros anos de vida e de pares bem-comportados nos anos da adolescência, então provavelmente nunca a obterá. A não ser que (caso raro) venha a sofrer uma profunda conversão religiosa mais tarde na sua vida.

Devemos notar que entre as boas atitudes que devem ser inculcadas nos rapazes e nas raparigas incluem-se uma boa atitude para com a escola. Para poderem tirar o melhor da educação cognitiva que se oferece na escola os rapazes e as raparigas têm de abordar com uma boa atitude. Os professores acabam por ter uma influência bastante pequena para a educação geral e a dimensão dessa contribuição depende tanto, se não mais, na recetividade do aluno como na capacidade dos professores.

Quando temos discussões públicas sobre a qualidade da educação (ou falta dela) elas tendem a focar sobretudo as escolas. As pessoas envolvidas tendem a falar na necessidade de melhores salários pra professores, ou menos alunos por sala de aula, mais computadores, ou preservativos gratuitos para rapazes no secundário, ou uma maior centralização de padrões escolares – e sobretudo da necessidade de mais financiamento para as escolas.

Mas o que nunca ouvimos é um funcionário público a dizer: “Para obterem uma melhor educação os alunos devem ter melhores pais, melhores amigos, melhores programas de televisão e melhor música popular”.

A Igreja Católica tem uma série de ensinamentos antiquados que, se implementados, fariam toda a diferença no mundo da educação. Estou a pensar em três em particular:

(1) As primeiras e mais importantes instituições de educação para as crianças são o lar e a família.

(2) Os pais são as autoridades definitivas no que diz respeito à educação de uma criança.

(3) A criança tem o direito a crescer com pais casados.

Infelizmente nós não abraçamos – aliás, mal reconhecemos – estas três verdades educacionais básicas. É uma vergonha que nós católicos, e sobretudo para os nossos líderes, não tenhamos passado os últimos 50 anos a gritar estas verdades básicas aos quatro ventos.


David Carlin foi professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 17 de Setembro de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 January 2021

Revelado o hino das jornadas, economia de Francisco em debate

Já é conhecido o hino da Jornada Mundial da Juventude que se vai realizar em Lisboa em 2023.

Pode saber tudo, e ouvir o hino, aqui. A ideia, diz o secretário-executivo, é “chegar a todos”.

Num tempo em que a solidão é maior, os jesuítas criaram um “ponto de escuta” que pode ajudar quem precisa de companhia. Saiba tudo aqui.

O projeto sobre a “Economia de Francisco” continua a dar que falar. Hoje há uma mesa redonda sobre o assunto com jovens e menos jovens, a que pode assistir por zoom. Toda a informação aqui e na imagem que vai em anexo.

As escolas católicas não gostaram da ordem do Governo para interromperem as atividades letivas.

Morreu um padre assassinado nas Filipinas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como a santidade se pode construir nas coisas mais simples da vida. 

Wednesday, 7 January 2015

De Escândalos e Escolas Católicas

Randall Smith
No ano que passou assistimos a uma série de conflitos mediáticos à volta de escolas católicas que despediram professores que tinham engravidado fora do casamento, ou que revelaram ser homossexuais. Neste artigo não tenciono comentar nenhum caso específico.

A verdade é que o problema com a maioria dos comentários a casos deste género é que nos falta o conhecimento dos detalhes relevantes para tomar uma decisão sábia. Da mesma forma que casos difíceis dão más leis, a falta de conhecimento dos detalhes impede-nos de dizer coisas que contribuam para um debate útil. A prudência recomenda que tenhamos um melhor sentido do contexto relevante do que aquele que lemos, vemos e ouvimos nas notícias.

Assim, por exemplo, precisaríamos de saber se a professora solteira que engravidou se opõe abertamente aos ensinamentos da Igreja, o que normalmente não sabemos. Uma grávida solteira, seja professora ou aluna, pode acabar por ser fonte de boas lições para a comunidade, dependendo da situação. É preciso pensar, por exemplo, se ao exilar uma mulher nestas situações a escola católica não está a colaborar com as forças do mal, pressionando-a a fazer um aborto.

Conheço demasiados casos de raparigas de famílias conservadoras, católicas e piedosas, por exemplo, que optaram por abortar simplesmente porque tinham demasiada vergonha de revelar a verdade aos seus pais. O que é pior, em vários casos pais ou irmãos que são supostamente “bons” católicos desviam o olhar quando suspeitam que vai haver um aborto. “Problema” resolvido. Escândalo evitado. Deixa de ser necessário comparecer diante da comunidade como um daqueles pais, alguém que criou uma filha que engravida solteira.

Quanto aos pais católicos dos rapazes que engravidaram as raparigas, bem, isso tende a nem sequer ser um problema. A resposta é simples, mantê-lo na escola, agir como se nada fosse e negar qualquer responsabilidade.

Por estas razões, e outras, expulsar mulheres grávidas das escolas, sejam professoras ou alunas, tende a parecer-me uma má ideia.

Porém, se eu fosse um pai pobre a tentar ajudar os meus filhos a escapar à pobreza para terem um futuro melhor, imagino que não veria com bons olhos enviar a minha filha para uma escola onde dezenas de raparigas engravidaram antes de casar e na qual, por várias razões, a gravidez nestas situações se tornou socialmente “aceitável”, quase como um rito de passagem. O primeiro beijo, o primeiro namoro, o primeiro baile e agora o primeiro filho fora do casamento. Isso é um problema. Mas também o é uma escola que exila as raparigas, mal engravidam, mas nada faz para responsabilizar os rapazes envolvidos. O contexto em que se tomam as decisões é fundamental.

De igual forma, uma pessoa que vive a sua atracção homossexual de forma casta enquanto ensina numa escola católica é muito diferente de uma que viola abertamente os ensinamentos da Igreja.

Mas por outro lado isso aplica-se a toda a gente numa escola católica. Uma escola católica que despediria um homossexual casto, que vive fielmente os ensinamentos da Igreja, ou uma grávida solteira, mas que nem pensaria em despedir uma freira que passa a vida a criticar o Magistério, age de má-fé. A gravidez pré-matrimonial ou a atracção homossexual são as únicas razões pelas quais se pode despedir um professor católico? Se sim, temos um problema.


Não é menos apropriado ter um funcionário com atracção por pessoas do mesmo sexo, mas que vive esse desafio de forma honesta em autêntica fidelidade ao Magistério da Igreja a ensinar numa escola católica do que seria ter outra que se esforça por ser fiel no que diz respeito aos ensinamentos sobre pornografia, luxúria ou consumismo, ou gula ou toda uma série de outros vícios e pecados. Se as instituições católicas só pudessem contratar pessoas sem pecado, as escolas estariam vazias e eu desempregado.

Conheço muitos homens e mulheres que falam abertamente sobre as suas atracções homossexuais e que escrevem eloquentemente sobre a forma como vivem em acordo com os ensinamentos da Igreja. Um deles é casado com uma mulher e tem três filhos lindos. Seria para mim um orgulho tê-los como colegas na universidade católica onde dou aulas. Alias, qualquer um deles seria preferível aos colegas que se dizem católicos mas que odeiam os ensinamentos do Magistério com uma paixão profunda que só um filho revoltado pode sentir pelos seus pais. Porque é que pessoas destas aceitam trabalhar numa universidade católica? Não faço ideia.

As escolas deviam prestar menos atenção a quem se intitula “católico” e muito mais a encontrar pessoas que acreditam verdadeiramente na missão da escola e estão aptas a ajudar a fazê-la cumprir. Quanto a despedir pessoas unicamente para “evitar escândalo” (um caminho que lida certamente à hipocrisia), lembremo-nos que nos dias que correm, o mero facto de se ser católico já é motivo de escândalo. Nesta cultura em que vivemos, uma escola autenticamente “católica” é simplesmente uma escola de escândalo. Esta realidade tem sido frequente ao longo da história.

Na maioria destas disputas há que tomar uma decisão ajuizada. Há diferentes “bens” a procurar e “males” a evitar. Quando estes casos se tornam distracções no grande circo mediático tende-se a assistir a uma corrida à condenação, com uma parte a criticar os dirigentes da escola, como se fossem intolerantes cheios de ódio e a outra a defender a escola como se estivessem a defender a Santa Madre Igreja.

São Paulo adverte-nos a mantermo-nos ocupados e não nos intrometermos na vida alheia. Condena os fofoqueiros e os preguiçosos, que vão de casa em casa e que dizem o que não devem.

Os media ganham dinheiro com polémicas. Temos um dever para com os nossos irmãos católicos de agir com paciência e prudência. Temos de proteger as ovelhas, sem nos juntarmos à matilha de lobos que uivam à porta do curral.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 3 de Janeiro 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 2 April 2014

Um Tempo Para Destruir, Um Tempo Para Edificar

Anthony Esolen
Literalmente no centro das atenções, marchando pelas principais avenidas de Toronto, homens e mulheres homossexuais voltam a exibir os seus corpos e a simular os seus comportamentos favoritos, isto apesar de uma lei municipal que proíbe a nudez pública. Estas exibições de pseudo felicidade num mundo decaído são cansativas. Algumas pessoas estão preocupadas com o assunto. Temem a violação das augustas leis canadianas, e isso é algo a que as crianças não devem ser expostas. Pessoas envergonhadas que se preocupam com a etiqueta da legalidade quando as leis de Deus, o bem comum, o bem-estar da família e a decência humana foram postas de lado!

De acordo com um artigo publicado na Life Site News, os defensores da nudez admitem perfeitamente que o propósito da parada é mesmo de poderem expressar a sua “sexualidade lasciva e hedonismo”. “A sexualidade ‘na sua cara’ é o propósito da parada”, diz um dos promotores. Outro acrescenta: “Quem não gosta pode ficar em casa com os filhos e ver ‘padres a violar crianças’ na televisão”.

Entretanto os dirigentes da Associação de Professores Católicos de Ontário (OECTA) decidiram juntar-se às festividades. Dizem que querem mostrar-se solidários com o grupo mais – lá vem a palavra inevitável – “marginalizado” de pessoas na Igreja Católica. Para quem está nas margens, fartam-se de aparecer. Não se consegue abrir um jornal canadiano sem se ouvir falar deles, dia após dia. Não se pode ver televisão durante um dia no Canadá sem uma chamada de atenção para os homossexuais. Pelos vistos, não se pode frequentar uma escola católica em Ontário sem levar uma ensaboadela sobre o assunto.

Mas há muitos católicos que não são marginalizados. Não são, porque nem sequer chegam às margens da página. Não chegam sequer a uma nota de rodapé. São perfeitamente invisíveis. É como se não existissem.

São rapazes que – bom, são apenas rapazes. Ninguém no Canadá se preocupa com o seu bem-estar desde os dias em que a polícia montada andava a cavalo e os canadianos tinham uma cultura. São jovens que procuram seguir a lei moral, que são ostracizados daquilo que passa por vida social nas suas escolas e colégios. São filhos de pais divorciados. São esposos abandonados, os seus casamentos dissolvidos contra a sua vontade.

São católicos que anseiam por missas solenes. São lutadores pelos direitos dos nascituros, que ficam satisfeitos se pelo menos não forem tratados com nada pior do que indiferença pelos burocratas de carreira no cartório. São pais que querem que os seus filhos vivam num mundo são e saudável.

Ninguém lhes liga nenhuma. Ninguém faz paradas para esta gente. Nunca verão Ontário a homenagear os jovens homens e mulheres que mantiveram os seus corpos puros, que escolhem casar virgens. Nunca verão a OECTA a marchar ao lado de idosos que criaram os seus filhos e se mantêm fiéis aos seus votos. Não, estes católicos, lutando para ser fiéis num mundo sub-pagão, adorariam chegar sequer às margens.
Pensem bem no poder que os membros da OECTA detêm. São eles, não os bispos, os párocos ou os pais, que controlam as escolas “católicas” no Ontário. Mas como disse o Papa Leão XIII em Sapientiae Christianae (1890), cabe aos pais católicos “a autoridade exclusiva para dirigir a educação dos seus filhos, como for conveniente, de um modo cristão; e acima de tudo mantê-los afastados de escolas onde haja um risco” note-se, um “risco” e não uma certeza – “de que lhes seja dado a beber o veneno da impiedade”.

Participantes da marcha de
orgulho gay em Toronto

Mas as nossas escolas estão organizadas para a impiedade. Dão a beber veneno não por acidente, mas por princípio. Não lidam com liberdade, que apenas pode ser conquistada pela virtude e o ordenamento das paixões, mas desordem. “O prazer”, diz Leão XIII em Libertas praestantissimum (1888), torna-se “a medida do que é certo; e, dado um código de moralidade que tem pouco ou nenhum poder para controlar ou apaziguar as inclinações desregradas do homem, abre-se naturalmente caminho à corrupção universal”.

Por outras palavras, podemos confiar nos membros do OECTA, mas para corromper. Quem estiver interessado em rebolar no lodo da estupidez tem apenas que visitar o site de algumas das empresas que impingem manuais aos professores das nossas escolas, tanto públicas como privadas. Isso não deve surpreender ninguém. Quem está disposto a marchar orgulhosamente pelas ruas de Sodoma não hesitará em continuar a parada, sob a capa dos livros que indica aos seus alunos.

Não há maneira de reformar um grupo como a OECTA. É evidente que temos o dever de tentar livrar indivíduos da estrada que leva ao fogo que não se apaga. Mas quando uma organização como esta começa a endossar cheques a belzebu – com os olhos bem abertos e orgulhoso do facto – não há outra solução que não destruir o edifício e queimar o entulho.

Dito de outra forma, chegou a hora de edificar de novo. Precisamos urgentemente de escolas católicas. Mas apenas se podem assemelhar superficialmente às actuais escolas públicas e pseudo-católicas. Isto é, haverá aulas de inglês e matemática e tudo isso, mas o melhor que temos a fazer é largar o resto. Não podemos contratar professores dos mesmos lotes. Não podemos usar os mesmos manuais. Não podemos imitar os mesmos hábitos loucos de instrução.

Não podemos aceitar a mesma visão de uma vida “boa”. Não podemos tentar disfarçar um tumor maligno com maquilhagem religiosa. Temos de regressar a uma educação católica: uma educação verdadeiramente humana.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 26 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

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