quarta-feira, 23 de junho de 2021

O Antídoto para o Desespero Social

Um dos géneros de não ficção mais populares dos últimos tempos tem sido a crítica social. Está muito na moda explicar às pessoas onde é que a sociedade errou. Todos os aspirantes a “intelectual público” sentem-se na obrigação de ganhar nome criando uma crítica social credível. Há o Augusto del Noce em Itália; Pierre Manent em França; Charles Taylor, no Canadá e Hartmut Rosa, na Alemanha, todos eles autores de grandes livros, por vezes publicados em muitos volumes. Pelos vistos há muitos erros a apontar e são muito complicados de explicar. Na América também temos os nossos críticos, como o Patrick Deneen, Carl Trueman, Christopher Caldwell, Jody Bottum, Ross Douthat, David Brooks, Rod Dreher – é uma longa lista, e a internet está recheada deles.

Não me levem a mal. Não estou a dizer que estes críticos estão errados. Muito pelo contrário, eu concordo que cada um deles tem muitas verdades a dizer. O que é notável para os nossos propósitos é ver o quão numerosos e populares se tornaram. A minha questão é esta: O que é que o facto de a crítica social se ter tornado um passatempo tão popular entre tantos autores em tantos países diz do mundo e da cultura em que vivemos?  

Há muitas diferenças entre estas várias críticas, mas cada uma delas contém uma variação do mesmo tema. Cada um dos autores está a escrever a sua própria versão do “Declínio do Ocidente” de Oswald Spengler. Enquanto a narrativa dos últimos dois séculos tem sido um de progresso e de fé no progresso, essa narrativa tem sido substituída por uma de declínio. Ainda há alguns resistentes, como o Steven Pinker, de Harvard, que pensam que basta voltarmos às nossas raízes iluministas para que a sociedade regresse à sua marcha inexorável. Mas na maior parte, essa fé de antão no progresso perpétuo ou diminuiu, ou desapareceu, foi substituída pelo medo de que ago correu terrivelmente mal e que não será fácil – ou talvez nem possível – encarrilar tudo novamente.

Não existe um consenso sobre o que correu mal, nem sobre quando começaram os problemas, mas há menos acordo ainda sobre como se pode reverter esta queda em que parece que nos encontramos. Pondo isto em linguagem mais corrente, vemos muita “desconstrução”, mas muito pouca “reconstrução”.

Vivemos num mundo que não compreendemos e procuramos formas de o explicar, compreender e interpretar. Queremos saber como e porque é que as coisas correram tão mal. Parecemos estar a ser orientados pela crença de que nos bastaria compreender os problemas e descobrir a sua fonte e aí talvez as conseguíssemos resolver.

Ou talvez não. Mas nesse caso pelo menos saberemos como e porquê é que o Titanic se está a afundar e podemos amaldiçoar as trevas e a insensatez de todos os esforços humanos com sofisticado conhecimento, enquanto ajustamos as espreguiçadeiras e pedimos mais um whisky duplo. Botes salva-vidas? Para quê?

Uma das perguntas que nos podemos colocar é se a nossa obsessão com a crítica social é mais útil do que aquilo a que os psicólogos chamam “introspeção ruminante”, alo que têm concluído que não ajuda os pacientes que lutam contra depressões. Se as pessoas se concentram demasiado nas narrativas que pensam estar na raiz dos seus problemas, podem ficar presos nelas. Pode impedi-los de escapar aquilo em que se estão constantemente a focar.

Hope, de George Frederick Watts
De forma a escapar a narrativa – seja de vitimização, de tratamento injusto, de potencial não realizado ou declínio inevitável – devemos cessar de nos focar constantemente nessa narrativa. Sim, talvez tenhas sido abusado na infância, e isso pode explicar muita coisa. Mas a questão é o que vai fazer agora e se vai continuar a deixar-se ficar refém dessa narrativa. Se é mais do que apenas uma vítima – e é – então como deve agir?

Não pretendo descartar todas essas críticas sociais valiosas, mas pergunto se não deveríamos passar mais tempo e energia a pensar no que devemos fazer. Por exemplo, talvez devêssemos investir mais tempo e energia na única coisa que já provou ser capaz de ajudar a reformar indivíduos e sociedades: as virtudes. Prudência, justiça, fortaleza e temperança, e, claro, fé, esperança e amor. Compaixão, dedicação ao bem comum, abertura à crítica e uma disposição para o sacrifício e para o serviço, renegando o poder, riqueza, estatuto e todas as formas de ideologia e idolatria. Há centenas de razões pelas quais estamos na situação em que estamos. A questão agora é saber como as coisas podem ser diferentes.

De todas as virtudes básicas, a que costuma merecer mais atenção é a que se encontra no meio das três virtudes teológicas: esperança. Temo que muitas pessoas perderam a esperança. Mas, sem esperança não existe energia para mudanças positivas e as pessoas arranjam desculpas para desistir. Olham para todos esses pequenos esforços feitos pelos outros como ingénuos e inúteis. “Sim, isso é boa ideia”, dizem, “mas jamais resultaria, não no ponto a que chegámos”. Talvez não, mas prefiro morrer a tentar que perder a esperança.

Não é quando as coisas correm bem que precisamos de esperança, é quando parece não haver nada a esperar. E talvez basta ser suficientemente tolo para acreditar que as cosias podem ser diferentes. Só Deus sabe como e quando.

Mas, entretanto, temos de regozijar – regozijar com gratidão pelos muitos dons de que beneficiamos; regozijar no Espírito que nos transforma diariamente de formas que mal conseguimos imaginar, e continuará a fazê-lo, se o deixarmos; e regozijar, finalmente, pelo facto de que nós, como os primeiros apóstolos, fomos contados dignos de sofrer desonra em seu nome. (Actos 5, 40).

Podemos continuar a olhar para trás, lamentando os tachos de carne que deixámos no Egipto, ou podemos comer a Maná com que Deus nos alimenta a cada dia e olhar para o futuro, para as glórias que Ele nos reserva. Agora é o tempo dos santos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 16 de Junho de 2021)

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1 comentário:

  1. Mais um artigo que partilha, que me conforta e me dá esperanças...
    Obrigada Filipe!

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