Friday, 14 July 2023

Portugal na Pole Position com Américo Aguiar

Esta semana começou com uma notícia estrondosa, logo seguida de uma pequena polémica. Ambas ainda dão que falar.

A notícia estrondosa e surpreendente foi a de que D. Américo Aguiar vai ser elevado a Cardeal pelo Papa Francisco no próximo consistório. Escrevi um artigo no blog para tentar decifrar a notícia e as suas implicações, e depois fui convidado pelo Expresso para fazer uma versão um pouco mais elaborada e completa para publicar no site desse jornal. O artigo no Expresso está aqui, mas é só para assinantes. Em todo o caso, o essencial do texto está no blog.

Entretanto surgiu a polémica. Numa entrevista à RTP, dias antes de se saber da nomeação, D. Américo disse, a propósito da JMJ, “não queremos converter os jovens a Cristo”. A frase tornou-se viral, sobretudo em certos meios das redes sociais, mas também no estrangeiro.

Ora, eu consegui falar com D. Américo e pedi-lhe um esclarecimento sobre essa frase. Podem encontrar aqui o seu esclarecimento e o meu comentário. Uns ficaram satisfeitos com a explicação, outros não. A vida é mesmo assim. Mas leiam e decidam por vocês.

A conversa que tive com D. Américo serviu também para complementar um perfil que escrevi sobre ele para o The Pillar, em inglês, que podem encontrar aqui.

Também no The Pillar publiquei, na semana passada, um artigo sobre Goa. O governador daquele estado tem dito que chegou a altura de apagar os traços portugueses da região. Como disse um historiador de ascendência goesa com quem falei, isso implicaria demolir toda a cidade velha, e deportar uma boa parte da população. Naturalmente os goeses de ascendência portuguesa estão nervosos. Leiam, que vale bem a pena conhecer esta história.

Também este mês foi publicado um artigo meu sobre a questão dos abusos sexuais na Igreja em Portugal, nomeadamente sobre o trabalho da Comissão Independente, e tudo o que se lhe seguiu. Está na Brotéria, que não tem edição online, mas se tiverem oportunidade de comprar a revista de Julho leiam-no também.

Por fim, esta semana o artigo do The Catholic Thing é diferente do habitual. Brad Miner faz a recensão de um filme que acaba de estrear e que fala do terrível mundo do tráfico de crianças para escravatura sexual. Não é uma leitura propriamente agradável, mas são realidades que devemos conhecer, nem que seja para rezar, muito, pelas vítimas.

Wednesday, 12 July 2023

"Sound of Freedom", com Jim Caviezel

Brad Miner
Ainda que este fosse um filme de fraca qualidade, eu seria tentado a elogiá-lo nem que seja porque trata da prática criminal e pecaminosa de raptar crianças para vender para escravatura sexual… e porque o protagonista é o inestimável Jim Caviezel. Mas a verdade é que é um bom thriller, com boas representações, realizada por Alejandro Monteverde, o mesmo que nos trouxe o fantástico filme pró-vida Bella.

O filme inclui Caviezel, Mira Sorvino, José Zúñiga, Eduardo Verastegui, Gerardo Taracena e Bill Camp (que tem a melhor prestação do filme). O guião é de Monteverde e de Rod Barr, e a produção é de Verastegui.

Tim Ballard (Caviezel) deixa o seu cargo como agente especial da U.S. Homeland Security Investigations, tornando-se freelancer, para poder resgatar crianças raptadas por cartéis que, por sua vez, os vendem a traficantes humanos na América Latina que, por sua vez, os revendem por todo o mundo (incluindo para os Estados Unidos) para serem violadas por pedófilos.

Este filme é, como se diz, baseado numa história verídica. O que levanta a questão: Quem é o verdadeiro Tim Ballard? Duas agências americanas recusaram comentar sobre o papel que ele desempenhou, e Tiffany Kaitlin escreveu no The Atlantic que “porta-vozes da CIA e do DHS dizem que não podem confirmar os registos de emprego de Ballard sem a sua autorização escrita, que ele não forneceu”.

Talvez o Sr. Ballard não veja a necessidade de revelar algumas das repreensões que recebeu por causa dos métodos que adoptou, que podem assemelhar-se às que vemos Caviezel protagonizar no filme. É natural que ele tenha sido insubordinado, tendo em conta as restrições impostas aos agentes da lei, tanto táctica como geograficamente.

O que sabemos ao certo é que Ballard fundou a Operation Underground Railroad (O.U.R.) em 2013, com o objectivo de atravessar fronteiras para resgatar crianças detidas por traficantes e pedófilos.

De acordo com a Wikipedia, a O.U.R. tem um ranking de “ponto de interrogação” por parte de um grupo chamado CharityWatch “porque a organização não divulga informação financeira”.

Interessante. Eu nunca tinha ouvido falar da CharityWatch, que segundo outra página da Wikipedia emprega um total de cinco pessoas. Contudo, a principal agência de avaliação de instituições de solidariedade, a Candid, que emprega 200 pessoas e dirige a GuideStar – que avalia organizações filantrópicas e de solidariedade social com classificações que vão do bronze à platina – a O.U.R. tem uma avaliação de prata. Os salários dos executivos parecem ser invulgarmente altos, mas não estamos a falar dos escuteiros e alguns dos operacionais da O.U.R. põem a vida em risco para cumprir as suas missões.

Mas voltemos ao filme.

Os créditos são acompanhados de imagens a preto e branco do que parecem ser verdadeiras filmagens de câmaras de segurança de miúdos a serem raptados na rua e levados de carro ou de motorizada.

O filme propriamente dito começa com uma falsa agente de talentos (a actriz cubana Yessica Borroto Perryman) a recrutar crianças de várias idades (mas todas menores) sob o pretexto de uma audição. Um pai insuspeito (desempenhado por Zúñiga) deixa ambos os seus filhos entusiasmados na tal audição: Rocio (a suberba Cristal Aparicio, que durante as filmagens devia ter 15 ou 16, mas parece pré-adolescente) e o seu irmão mais novo.

Ballard consegue resgatar o irmão mais novo durante uma rusga na fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas não há sinal de Rocio, o que o leva a cortar as ligações à DHS, uma vez que não consegue mais trabalhar dentro das restrições do sistema oficial dos EUA.

Enquanto procura saber para onde foi levada a Rocio consegue libertar um número significativo de crianças organizando uma golpada – uma espécie de Ilha da Fantasia para pedófilos – com a ajuda de um ex-membro de um cartel, Batman (Bill Camp) e um aventureiro rico chamado Paul (Verastegui). Mas a busca pela Rocio continua.

E isso conduze-o à sede do traficante de droga El Alacrán (uma actuação tipicamente ameaçadora de Taracena). Não vou revelar como é que acaba o confronto violento entre Ballard e El Alacrán.

Só tenho uma crítica a fazer à realização de Monteverde: perde muito tempo com silêncios e faces, sobretudo a de Caviezel. Silêncios, caras e penumbra são as técnicas mais antigas e fiáveis para disfarçar um baixo orçamento. Mesmo algumas das cenas de pancadaria não são visíveis, embora essa possa ter sido uma forma de tentar evitar que o filme fosse classificado para maiores de 18.

O dia depois de ter visto o filme, um amigo enviou-me um artigo do New York magazine chamado: “Os detalhes condenatórios que levaram a JPMorgan Chase a chegar a acordo com as vítimas de Epstein”. Estamos a falar, claro, de Jeffrey Epstein, que entrou para o mundo das finanças internacionais devido à sua amizade com o empreendedor Leslie Wexner.

(Uma nota pessoal: A associação entre Wexner e Epstein entristece-me. Ele tirou o curso na Universidade de Ohio State, no departamento que era chefiado pelo meu pai quando ele era aluno. Wexner nega conhecimento da pedofilia de Epstein. Espero que seja verdade, porque a sua filantropia, especificamente o apoio dado à Ohio State é impressionante.)

Refirmo-me a Epstein porque a realidade do tráfico sexual é maior do que muitos imaginam. Os seus tentáculos satânicos têm um longo alcance, chegando aos corredores do poder e do dinheiro.

A Newsweek elencou os nomes de alguns dos homens que viajaram nos voos privados de Epstein para as Caraíbas (conhecidos como a Lolita Express). Não vou referir todos, mas incluem Donald Trump, Bill Clinton, o Príncipe André, Bill Gates e Robert F. Kennedy Jr. Todos esses nomes, e outros, foram também divulgados pela CNN e a Associated Press.

De certa forma Epstein é como Theodore McCarrick. Lendo histórias sobre a sua vida, encontramos sempre a mesma atitude que víamos em relação a McCarrick: um encolher dos ombros e um piscar de olho: “Toda a gente sabia”.

De acordo com a Human Trafficking Institute há actualmente perto de cinco milhões de vítimas de tráfico humano, das quais um milhão são crianças, na maioria raparigas.

As Nações Unidas dizem que o tráfico humano é um negócio de 32 mil milhões de dólares por ano. Porque razão, perguntam, é que alguém se dedicaria a um pecado tão criminal?

Bom, no que diz respeito à prostituição infantil, a resposta está no facto de um chulo poder ganhar até 250 mil dólares por ano com apenas uma rapariga, a quem obriga a praticar actos sexuais até dezenas de vezes por dia.

Depois de ver o filme senti vontade de pesquisar mais um pouco, de pensar um pouco fora da caixa. Mas não quero entrar demasiado fundo nesse pântano, em parte porque os números apresentados por diferentes organizações e agências de segurança variam muito. Os polícias podem preocupar-se com as vítimas, mas as suas estatísticas baseiam-se em detenções. Os activistas podem ser sinceros, mas também procuram financiamento.

Se querem chocar-se com a forma como algumas pessoas estão a tentar normalizar a pedofilia, não precisam de ir mais longe do que o livro The Invincible Family de Kimberly Ellis.

Eu só tenho filhos rapazes, mas tenho uma neta, e a preciosidade da sua vida torna bem presente na minha mente os inimagináveis horrores deste “negócio” profano. E explica porque é que o plano de Deus inclui o Inferno, levantado também questões sobre a forma como a Igreja Católica se tem distanciado da pena de morte.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 1 de Julho de 2023 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

"Há quatro anos que falamos de Cristo Vivo. Se não querem ouvir, não ouçam"


Ontem tive a oportunidade de fazer uma curta entrevista a D. Américo Aguiar, e pude perguntar-lhe directamente sobre a polémica frase que disse em entrevista à RTP, há dias, quando referiu que "Não queremos converter os jovens a Cristo". 

Transcrevo primeiro a sua resposta, na íntegra, e depois farei os meus próprios comentários.

A Jornada Mundial da Juventude é um convite para todos, desde sempre. Os Papas convidam os jovens do mundo inteiro a encontrarem-se uns com os outros, a encontrarem-se com o Papa e a viverem uma experiência de Deus. Um encontro com Cristo Vivo. É isso que queremos que aconteça, e é isso que eu sublinho. 

E que cada um regressando à sua realidade, ao seu país, à sua vida, à sua circunstância, tenha um desejo maior de conversão, de ser melhor pessoa, tomar decisões na sua vida; na área vocacional; na sua família; no seu trabalho; nos seus projectos; marcados com a experiência de terem encontrado estes jovens que querem dar testemunho de Cristo Vivo. 

Não entendo a jornada como uma oportunidade ou um evento de proselitismo proactivo para converter tudo e todos os que porventura venham ao encontro da Jornada, nem é essa a leitura que alguma vez foi feita por ninguém. 

Eu compreendo que o isolamento da frase da entrevista, como está, pode gerar perplexidade e erro de leitura. Mas a JMJ é repetidamente um convite dos Santos Padres a todos, uma oportunidade de nos conhecermos todos, de olharmos para aquilo que é a diversidade como uma riqueza, de nos conhecermos, a alegria de dar testemunho de Cristo Vivo. 

Temos dito isto há quatro anos, até à exaustão. Dar testemunho de Cristo Vivo, um encontro com Cristo Vivo, Cristo Vivo, Cristo Vivo. Se não querem ouvir, não ouçam. 

Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu, sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas. 

Claramente, o que D. Américo quer dizer é que os participantes na JMJ não estão lá com um espírito proselitista, estilo Testemunhas de Jeová, e que todos se devem sentir bem-vindos, pois não se trata de um encontro de católicos para católicos, mas para todos. Naturalmente, um participante na JMJ que não seja católico, ou sequer cristão, sentir-se-á interpelado e fascinado pelo espírito do encontro e procurará saber a razão dessa alegria. Essa busca poderá conduzí-lo a Cristo, mas isso não será uma imposição. 

Se esta resposta de D. Américo não satisfaz os mais cépticos, então sugiro que se recordem de que se o futuro cardeal está onde está, é porque foi "apadrinhado" por D. Manuel Clemente. E se o Patriarca de Lisboa tem os seus defeitos, como temos todos, a falta de ortodoxia e de espiritualidade não está entre eles. 

A ideia de que D. Manuel Clemente teria escolhido a dedo o actual D. Américo para ser seu braço direito primeiro no Porto e depois em Lisboa, e que tenha conseguido que ele fosse nomeado bispo auxiliar no Patriarcado sem ter a certeza de que ele é um homem de Deus e um fiel filho da Igreja, é absurda. 

Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas civilizadas. 

Leia também: Decifrando a nomeação de D. Américo a Cardeal

Monday, 10 July 2023

Decifrando a elevação de D. Américo a Cardeal

[Uma versão mais extensa e detalhada deste artigo foi publicada entretanto no Expresso]

Os jornalistas adoram dizer que já sabiam que as coisas iam acontecer, fortalecendo assim as suas credenciais de especialistas em certas matérias. Pois, da minha parte, posso dizer que fui apanhado totalmente na curva pela escolha de D. Américo Aguiar para cardeal.

Contudo, consumada a decisão do Papa, podemos tentar analisar e contextualizar.

Lisboa ou Roma?

Ao ouvir o anúncio, muitas pessoas assumiram que com este gesto o Papa está já a dar um sinal de quem vai suceder a D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa. Aliás, faria mais que sentido. D. Américo é o “delfim” de D. Manuel. O actual Patriarca fez questão de o trazer do Porto, onde já tinham trabalhado juntos e onde D. Américo se tornou o seu braço direito; conseguiu que ele fosse nomeado bispo auxiliar de Lisboa e durante muito tempo pareceu um dado assente que D. Américo seria o sucessor designado.

Contudo, e com base nas informações que tenho até ao momento, esse cenário de D. Américo ser o próximo Patriarca de Lisboa está posto de parte. Tanto quanto sei, o seu nome nem consta da actual terna – a lista de três hipóteses elaborada pelo Dicastério para os Bispos, com o precioso auxílio da nunciatura – que vai ser apresentada ao Papa para ele escolher. Não que isso tenha impedido o Papa, no passado, de fazer as suas próprias escolhas… Contudo, neste caso, parece-me claro que D. Américo não será o próximo Patriarca.

Sendo assim, também é muito pouco provável que Francisco tenha criado D. Américo cardeal para o enviar para outra diocese em Portugal. (O Porto faria algum sentido, sendo a sua diocese de origem, e nos piores momentos da crise dos abusos em Portugal ainda me ocorreu que D. Manuel Linda fosse retirado de lá, mas, entretanto, recebeu novos auxiliares, pelo que deve estar para continuar por lá.) De resto, não vejo o Papa a enviar D. Américo para Setúbal, ou para a Guarda, nem a permanecer em Lisboa como auxiliar depois da saída de D. Manuel, pelo que presumo que a sua próxima paragem seja Roma. A confirmar-se o sucesso da JMJ, faria sentido ele ficar mais permanentemente ligado à organização destes eventos, ou outros do género. Tenho ouvido dizer que Francisco quer imprimir às JMJ um estilo diferente, mais ecuménico, e D. Américo pode ser o homem que pretende para executar isso.

Mas mesmo a decisão de arranjar um cargo para ele em Roma não explica a nomeação cardinalícia, pois uma das marcas do pontificado de Francisco é precisamente que já não existem postos que obrigam à nomeação cardinalícia. Daí que se há uma coisa de que podemos ter a certeza é de que esta decisão do Papa Francisco é um sinal de estima pessoal e um voto de confiança em D. Américo.

Subida meteórica

No meio disto tudo, convém não esquecer que D. Américo ainda não tem 50 anos e que, ainda por cima, a sua foi uma vocação tardia, tendo sido ordenado padre “apenas” aos 27 anos. Ou seja, em 22 anos ele passou de padre recém-ordenado a Cardeal, e tem agora 30 anos como cardeal eleitor, podendo por isso escolher os próximos Papas. Isto não significa que D. Américo seja “papabile”, parece-me muito prematuro falar de tais hipóteses, mas a confirmar-se a sua ida para Roma, e conhecendo o jeito para política, é de esperar que ele venha a desempenhar um papel importante em futuros conclaves, que serão quase certamente mais que um.  

Uma fartura de Cardeais portugueses

O aumento do número de cardeais portugueses durante o pontificado do Papa Francisco é incrível, sobretudo se tivermos em conta que neste pontificado Francisco tem feito questão de escolher cardeais das zonas mais variadas, em detrimento dos países do “velho mundo” católico.

A partir do momento em que D. Américo for elevado ao cardinalato teremos quatro eleitores, durante pelo menos os próximos quatro anos, mas esse número até pode aumentar. Caso D. Américo vá para Roma, o próximo Patriarca de Lisboa deve, segundo a bula “Inter praecipuas apostolici ministerii”, de Clemente XII, de 1737, ser elevado ao cardinalato logo no primeiro consistório a seguir à sua nomeação. É verdade que o Papa está acima das próprias bulas, e no caso de D. Manuel Clemente a elevação foi feita não no primeiro, mas no segundo consistório, já depois de D. José Policarpo ter morrido.

Aqui entram em conflito diferentes tradições e regras. Por um lado, a tal bula, e por outro o costume de não nomear cardeal um arcebispo (neste caso Patriarca) enquanto o seu antecessor ainda for eleitor. Mas a bula tem mais peso do que os costumes, embora nem uma nem os outros obriguem o Papa a nada.

Por enquanto, podemos contar pelo menos com quatro cardeais eleitores, e dois não eleitores. Ora, vejamos isto à luz da actual realidade de países comparáveis com Portugal:

  • A Irlanda, por exemplo, não tem um novo cardeal desde 2007.
  • A Austrália, há 20 anos.
  • Espanha tem, neste momento 12 cardeais, o dobro de Portugal, e vai ter mais dois, nomeados com D. Américo. Eleitores, tem seis e vai passar para oito, também o dobro. Mas Espanha tem quase cinco vezes mais população que Portugal, portanto em proporção pode-se dizer que Portugal tem mais cardeais do que Espanha.
  • A Áustria e a Bélgica têm uma população comparável com a de Portugal e tem apenas um cardeal cada, que é eleitor.
  • O Brasil tem oito cardeais, seis dos quais eleitores, e tem uma população 21 vezes maior que Portugal.
  • Portugal passa a ter mais dois cardeais que o Canadá, e o mesmo número de eleitores, tendo o Canadá quatro vezes mais pessoas que Portugal.

Enfim, percebem a ideia.

Se juntarmos a isto o facto de Portugal estar prestes a receber a segunda visita do Papa Francisco, quando países como Espanha não receberam nenhum, percebemos que Portugal tem tido um tratamento contracorrente neste pontificado, o que é muito interessante.

Friday, 7 July 2023

JMJ bem encaminhada e prefeitos menos que perfeitos

Já falta menos de um mês para o início da JMJ em Lisboa. Foram anos de espera e preparação. Em que estado é que as coisas estão? Passei vários dias a recolher informação, que resultou em mais um artigo para o The Pillar. No final admito que fico optimista, leiam para conferir porquê.

E isto foi antes da revelação de um estudo da PWC que estima um impacto positivo do evento para o país de mais de 400 milhões de euros brutos!

Nem todos os jovens do mundo conseguirão vir a Lisboa. No Iraque, os católicos da Igreja Caldeia fizeram o seu próprio encontro perto de Erbil. Falei com uma das participantes sobre a importância deste tipo de eventos para encorajar uma comunidade que já sofreu tanto nos últimos anos.

A mais recente polémica na Igreja Católica é a nomeação de um bispo argentino, muito próximo do Papa Francisco, para prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. As alas mais conservadoras da Igreja acusam-no de ser demasiado progressista, e inadequado para o cargo. Neste artigo reúno os principais dados que existem sobre ele e os argumentos de um lado e de outro, e recordo que nas últimas décadas os ocupantes deste cargo sempre foram alvo de críticas e de caricaturas que acabam por nunca corresponder à realidade. Saibam mais aqui.

À medida que sai mais informação sobre a situação em Cabo Delgado, mais nos vamos apercebendo da dimensão da tragédia causada por fundamentalistas islâmicos naquela região de Moçambique. O que tinha sido inicialmente descrito como um ataque isolado, afinal foi um massacre que terá causado mais do que as 1300 vítimas entretanto apontadas pelo Governo.

Num belo gesto, o Papa Francisco criou uma comissão para estudar e registar os “novos mártires”. Esta comissão não se limitará aos católicos, mas abrangerá todos os cristãos, seja qual for a sua confissão.

Continua-se a falar do Sínodo para a Sinodalidade. Esta semana que passou, o bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, escreveu um artigo a criticar o processo sinodal, que foi publicado no The Catholic Thing. Pouco depois o autor Stephen P. White escreveu sobre o mesmo assunto, elencando algumas das críticas, mas explicando porque razão mesmo os mais cépticos não devem descartar à partida um processo que vai certamente marcar o futuro da Igreja.

Thursday, 6 July 2023

O novo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé: Entre o medo, o mito e a realidade

No início deste mês o Papa Francisco nomeou um novo prefeito para o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF). E assim nasceu uma nova polémica.

Dependendo de quem lemos, o novo prefeito, o arcebispo Victor Manuel Fernández, ou é o delfim do Papa Francisco, e principal inspirador das reformas que este está a tentar implementar na Igreja, ou é o malévolo génio por detrás de Francisco e da sua campanha de destruição da tradição e da moral.

Precisamente porque vivemos num tempo em que as pessoas acabam por receber informação essencialmente de fontes que estão já alinhadas com as suas ideias e os seus preconceitos, achei que seria boa ideia resumir alguns dos pontos principais sobre esta nomeação, e o que ela pode significar. Não entendam este artigo como o resumo definitivo da situação, mas sim como uma ajuda para entender quem é Fernández e qual o seu peso neste pontificado.

Fernández era até agora Bispo de La Plata, na Argentina. Há anos que é muito próximo do Papa Francisco, tendo sido o seu perito em teologia no encontro de bispos da América Latina, em Aparecida, no Brasil, que em larga medida tem sido um modelo para este pontificado.

Enquanto amigo e confidente do Papa, Fernández tem sido também influente na elaboração de algumas das posições teológicas de Francisco. Nomeadamente, terá sido o arquitecto teológico por detrás do Amoris Laetitia, que abriu caminho ao regresso aos sacramentos de pessoas em situação matrimonial irregular. Isso faz dele um santo para progressistas e o demo para os mais tradicionalistas.

Contudo, para melhor entender esta situação é preciso lembrar que Fernández vem de um contexto paroquial, do contacto directo com as vidas dos fiéis no terreno. As suas posições – e isto tem sido fundamental para o Papa – partem deste princípio, de que a teologia só serve para alguma coisa se for ao encontro das vidas concretas e reais das pessoas. Uma teologia aérea, de ideais que não são vividos no terreno, é um exercício vão.

Como disse o próprio Fernández, num texto publicado na sua página do Facebook, “tenho orgulho de ter sido aquele pároco jovem que tentava chegar a todos, usando as mais diversas linguagens. Por isso é que quando o Papa fala do meu currículo refere que fui reitor da Faculdade de Teologia, mas ao mesmo tempo diz que fui pároco de ‘Santa Teresita’. É porque para ele é importante que um teólogo se meta na lama e trate de usar uma linguagem simples e que chegue a todos”.

Até agora o cargo de prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé era entendido como uma espécie de “polícia teológico”, responsável por avaliar e censurar os trabalhos de teólogos em todo o mundo. Na carta que escreveu a acompanhar esta nomeação, o Papa diz a Fernández que outrora o departamento que ele agora chefia usava de “métodos imorais”. Alguns leram isso como uma crítica a Ratzinger, que se tornou conhecido precisamente por ser prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), ganhando o epíteto de “Rottweiler” de João Paulo II, mas é mais provável que seja uma referência directa aos métodos do Santo Ofício, ou Inquisição, que perseguia heresias e hereges, em muitos casos entregando-os às autoridades civis para serem executados.

Francisco, pelo contrário, quer que Fernández se preocupe em contribuir para a reflexão teológica, em vez de a atrofiar. O tempo dirá o que isto significa na prática.

Cultura de cancelamento e puritanismo

Uma das expressões que mais está na moda actualmente é “cultura de cancelamento”. Resumidamente, trata-se da manifestação de um tique puritanista, que de católico nada tem, de vasculhar o passado de alguém e depois expor os eventuais podres, ou erros, dessa pessoa, por mais antigos ou irrelevantes que sejam, para manchar a sua reputação para sempre, evitando que seja escutada. Digo que isto nada tem de católico precisamente porque o catolicismo defende a conversão e acredita num Deus que “faz novas todas as coisas”. Quantos santos que veneramos nos nossos altares sobreviveriam a esta metodologia?

Contudo, a cultura do cancelamento está bem viva dentro da Igreja e é usada por guerreiros de teclado de ambos os lados da barricada.

Recordemos para este efeito o que se passou com o cardeal Gerhard Müller. Müller, se bem se recordam, era o prefeito da CDF quando Francisco assumiu o Pontificado, tendo sido nomeado para esse cargo por Bento XVI, em 2012. Hoje, Müller é recordado com saudade pelos mais conservadores e tradicionalistas como um guardião da ortodoxia teológica. Mas o que é que os mesmos tradicionalistas diziam dele em 2012? Leiam este post do influente blog Rorate Caeli, que aquando da sua nomeação elencou todas as suas supostas heresias, que considerava mais graves até do que o facto de ele ser amigo de um influente defensor da Teologia da Libertação. Pois é, a vida dá muitas voltas!

No caso de Fernández, uma das armas de arremesso que tem sido usada é a sua autoria de um livro sobre o beijo, chamado “Cura-me com a tua boca”. Nos meios de língua inglesa até se chegou ao ponto de traduzir um dos seus poemas de forma enganosa, vertendo a palavra “bruja” para “bitch”. No mesmo post do Facebook que referi acima, Fernández explica que esse livro não era mais do que uma tentativa de fazer uma catequese para tentar alcançar um público jovem da sua paróquia. Não vou citar tudo, podem ir lá ler, mas admito que a sua explicação me pareceu mais plausível e sensata do que as críticas veementes que tenho visto.

Resumindo, basta olhar para as últimas décadas para perceber que as caricaturas que nos tentaram vender dos prefeitos para a Doutrina da Fé estavam invariavelmente erradas. Ratzinger não era um neo-nazi disfarçado de padre que perseguia furiosamente os teólogos liberais; Müller não era um hippie herege e Fernández muito provavelmente não é aquilo que muitos temem, nem aquilo que muitos esperam. Aliás, este artigo, escrito em 2018, sublinha o facto de a faculdade de Teologia de que foi reitor e o seminário a que presidiu serem consideradas das mais ortodoxas da Argentina, e ainda o facto de ele ter sido sempre defensor firme, mesmo indo contra a corrente, dos valores da vida e do casamento, defendendo os seus colegas e subordinados quando estes eram criticados por abraçarem as posições da Igreja neste campo.

Há que confiar que o novo guardião da ortodoxia seja isso mesmo, tendo noção também que o seu papel agora não é o de investigação ou proposição teológica, mas sim de avaliação do trabalho que vai sendo feito, nomeadamente dos textos que saem da Santa Sé, embora num espírito mais colaborativo do que talvez tenha sido usado pelos seus antecessores.

Por fim, e de forma mais sintética, dois apontamentos:

Abusos: Um dos papéis do DDF é lidar com casos de abusos na Igreja em todo o mundo. Fernández já admitiu que não se sente preparado para isso, e precisamente por isso Francisco pediu-lhe que se concentrasse mais na questão teológica, uma vez que o departamento que lida com as questões dos abusos já está montado e oleado, precisando apenas de supervisão.

Sucessor?: Uma das teorias que tenho lido é de que com esta nomeação o Papa lança Fernández como seu sucessor e herdeiro, tornando-o assim um dos principais candidatos a próximo Papa. Embora esta teoria seja proposta pelo único jornalista que eu conheço que sugeriu que Bergoglio tinha hipótese de ser eleito Papa em 2013, eu tenho sérias dúvidas de que tal acontecerá. Acho muito pouco provável os cardeais escolherem outro argentino, sobretudo um que – como será expectável – será bastante novo quando for o próximo conclave, uma vez que neste momento tem apenas 60 anos, prestes a fazer 61.

Wednesday, 5 July 2023

Que sínodo, e que sinodalidade?

Stephen P. White
No seu livro “Justiça de Quem, qual Racionalidade?”, o filósofo Alasdair MacIntyre argumenta que as diferentes teorias de justiça não podem ser compreendidas, quanto mais avaliadas, sem ser no seio de uma tradição de inquirição racional. Sem se ter em conta a tradição a partir da qual se abordam questões importantes sobre justiça – ou, pior ainda, imaginando-se totalmente livre de tal tradição – o mais provável é que o próprio não compreenda e, pior, conduza os outros ao erro, agravando a confusão, o relativismo e o conflito.

A Igreja não é meramente uma escola de pensamento teológico ou filosófico. Nem a sua identidade se resume à sua tradição intelectual, por mais magnífica que seja. Contudo, quando a Igreja pensa sobre como se deve organizar para poder proclamar a Boa Nova de forma mais eficiente, fá-lo a partir de um contexto distinto, de uma tradição específica. Quando se esquece, ou ignora essa tradição, as coisas correm mal.

O que nos traz ao encontro do Sínodo da Sinodalidade, em Outubro, sobre o qual muito já foi escrito, incluindo muitas críticas. Embora eu partilhe de muitas dessas críticas, permitam-me tecer alguns comentários cautelosos em sua defesa.

Uma das maiores críticas do Sínodo – uma crítica à qual a sua liderança, incluindo o Papa Francisco, tem sido particularmente sensível – é de que já existe uma conclusão predeterminada para os trabalhos.

O processo sinodal, dizem os críticos, está pensado para dotar de credibilidade uma agenda predeterminada vinda do topo, pelas mãos dos seus próprios organizadores. Embora tal agenda possa não beneficiar de credibilidade ou de apoio, o processo sinodal fará com que pareça o resultado da voz do Povo de Deus, o infalível sensus fidei!

O perigo dessa visão está no facto de ser simultaneamente plausível (vide o “caminho sinodal” alemão) e de gerar níveis venenosos de cinismo e desconfiança, e não apenas entre os teoristas da conspiração e os malucos da internet. Durante o Sínodo para a Família, de 2015, um grupo de cardeais expressou preocupações semelhantes directamente ao Papa Francisco. A sua carta foi divulgada na imprensa, que tentou pintá-los como inimigos do sínodo e, por extensão, do Santo Padre.

Num esforço para antecipar tais críticas, o Instrumentum Laboris do actual sínodo enfatiza o facto de não estar a apresentar conclusões antecipadas, mas apenas tópicos e perguntas para consideração e discernimento. É por isso que o I.L. insiste, correctamente, que, “não é um documento do Magistério da Igreja, nem um relato de uma sondagem sociológica; não propõe a formulação de indicações operacionais, nem objectivos, nem a elaboração plena de uma visão teológica”.

Estas afirmações de neutralidade convencem na mesma medida em que se confia nos organizadores do sínodo.

Quanto ao Papa Francisco, tem insistido que “o sínodo não é um parlamento, ou uma sondagem de opinião; o sínodo é um evento eclesial, e o seu protagonista é o Espírito Santo. Sem a presença do Espírito, não haverá sínodo”.

Isto pode ser lido como uma admissão, que entendo como bem-vinda, de que o sucesso do Sínodo não é um dado adquirido. Se for um esforço meramente humano, falhará.

A Igreja não pode suspender a crença em, ou fingir neutralidade para com aquilo que lhe foi revelado – a Escritura e a Tradição – na esperança de melhor poder compreender como proclamar a Boa Nova. A Igreja não pode conduzir o sínodo como se não fosse portadora, e mesmo encarnação de uma particular Tradição. Seria um erro grave tratar o Magistério como apenas uma “agenda” entre outras.

É importante reconhecer que o Sínodo, se for conduzido com fidelidade e disposição apropriadas, pode vir a ser uma grande benesse para a Igreja. Na verdade, em todo o lugar onde a Igreja está viva e missionária já se encontra a “sinodalidade”, ainda que poucos a chamem assim.

Onde é que podemos ver a sinodalidade já em acção? Em qualquer lugar onde a Igreja escuta cuidadosamente e avalia aquilo que ouve à luz do que foi revelado pela Escritura e pela Tradição. Em qualquer lugar onde os baptizados compreendem genuinamente que o pensamento aprofundado não é a mesma coisa que o discernimento espiritual, mas que ambos são necessários.

Em qualquer lugar onde os baptizados, leigos e clero levam a sério a responsabilidade de fortalecer a comunhão e participar plenamente na missão da Igreja de acordo com a vocação, lugar e circunstância de cada um.

Isto é que é sinodalidade autêntica: uma expressão genuína da eclesiologia da Lumen Gentium, e um poderoso testemunho da verdade do Evangelho. Alguém duvida seriamente que a Igreja e a sua missão estariam bem servidas com mais disto?

Contudo, existem muitas regiões dentro da Igreja, sobretudo aqui no Ocidente, onde esta vitalidade já não existe. Frequentemente são estas partes moribundas da Igreja que, reconhecendo a sua obsolescência, tentam desesperadamente “fazer acontecer” a “sinodalidade”.

Onde a prevalência de uma eclesiologia atrofiada e mundana impedem a sinodalidade de florescer de forma orgânica, tornar-se-ão mais aparentes os esforços para a forçar. O resultado será uma sinodalidade contrafeita, que lança os leigos e o clero uns contra os outros numa luta de poder, que vê a fidelidade à Escritura e à Tradição como obstáculos à missão e que medem o Evangelho segundo o Espírito do Tempo.

Os católicos devem evitar um optimismo ingénuo sobre o sínodo, e resistir ao tipo de inovação mal pensada que fez tantos danos à Igreja na sequência do Concílio Vaticano II. Mas também devemos ter cautela com o tipo de cinismo implacável que, ao tentar evitar o desastre, também impede uma genuína abertura às iniciativas do Espírito Santo.

O Sínodo é um processo arriscado, sem dúvida. Mas é também uma oportunidade para um momento de verdadeira graça e rejuvenescimento, uma oportunidade para a Igreja se tornar mais perfeitamente aquilo que já é. Isto apenas acontecerá se a sua disponibilidade para escutar for igualada por uma determinação de permanecer fiel à Escritura e à Tradição. A Igreja não pode discernir bem se fingir não conhecer aquilo que, na verdade, já conhece.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 2 de Julho de 2023)

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