Monday, 23 September 2019

Abanar o capacete no Santuário

Ontem, em Fátima, houve um encontro de 130 mil motociclistas que receberam uma bênção especial do Papa Francisco.

Por falar em freiras heroicas, apresento ainda a irmã Júlia Bacelar, que trabalha no campo do tráfico humano e “vai aos sítios onde ninguém quer ir”.

Conheça o padre italiano que cobra o estacionamento no parque da Igreja… Em orações.

Publico hoje no blog um texto muito bonito, que me foi enviado por um leitor anónimo, que vos convido a ler. É uma reflexão de quem passou por dificuldades matrimoniais mas foi ajudado a tempo de evitar cometer um grande erro. Leiam e partilhem, porque pode ajudar outros a tomar a decisão certa.

A propósito, para os interessados, sobretudo quem está ligado ao direito canónico, decorre em Roma um Curso de formação sobre o matrimónio, no Tribunal Apostólico da Rota Romana, entre os dias 26 e 30 de novembro. Mais informações aqui.

A dois

O texto que publico de seguida foi-me enviado por um leitor anónimo, na esperança de que pudesse servir de ajuda e inspiração a quem esteja a passar por dificuldades matrimoniais. 

Deu-me total liberdade para o publicar, ou não, e optei por fazê-lo devido não só à beleza da escrita, mas também à utilidade do assunto. O estado actual do casamento e da família em Portugal - e não só - é de guerra civil. Os feridos e estropeados deste conflito estão por toda a parte. São nossos irmãos, primos, amigos. 

O Papa Francisco pede-nos para sermos hospital de campanha neste mundo. Este texto é uma receita médica. Peço-vos que o leiam com atenção, porque a escrita, sendo bonita, não é óbvia. Partilhem-na com quem pensem que possa precisar, ou apenas nas vossas redes sociais. Pode ser que chegue aos olhos certos, a tempo. 



A montanha, alta, ultrapassa com o seu pico a camada de nuvens que cobre o dia, tornando-o cinzento. O céu azul, que vem depois, é o de um dia que é perfeito porque supera esse cinzento. E porque o superou, não voltará mais à sua sombra.

Para eles, esse azul é meta agora invisível, mas tão real como a montanha que têm vindo a subir, a dois.

Já tinham caminhado o suficiente para se sentirem cansados. O estado de cada um, naquele ponto sinuoso do caminho, montanha acima, era fruto da caminhada dos dois.
A dois. Sem o outro, não era ali que estaria cada um.

Estar agora parada no caminho que era de ambos, era tão estranho como inevitável. Estranho, porque ele não estava ali. Inevitável, por isso mesmo. Como todos os desvios que cada um tinha já visto, também aquele invertia o sentido do cansaço que subia com a montanha. A que vinham a percorrer. A dois.

A voz dele estava já distante, quando o ouviu decidir pela dúvida desse outro caminho. O tal que aliviava a subida para a meta de ambos, descendo fácil e agradável até onde ele não sabia. Não o viu afastar-se... Há quanto tempo teriam largado as mãos? Para ele, o alívio do imediato parecia agora mais forte que o seu desejo de verdade. Turvava esse desejo.

Em nenhum dos caminhos se vê o todo do percurso que está à frente. No deles, ela espera-o, permitindo no seu coração a dor de vê-lo não estar e a paz da certeza da meta dos dois. No dele, coexistem o alívio do que já sabe ser um erro e a resistência à verdade que, no fundo, conhece. A verdade do caminho que percorriam. A dois.

- Tens água na mochila!, ouviu ela.

Foi de imediato ao seu cantil e bebeu, fitando, calada e grata, o pastor que acabava de falar-lhe. Esqueceu-se de estranhar que soubesse do cantil, que continuava cheio e com uma água tão fresca como no início. Estranhou sim, que também ele seguisse por aquele desvio, deixando para trás, sem hesitar, as suas ovelhas. Parada, apercebeu-se de que havia outros desvios. E deixou-se estar.

- Não vou beber a água de um estranho, pensou ele desviando o olhar de quem não podia ser um pastor, por faltar o rebanho. Ignorou o copo que lhe estendia e engoliu a sede que sentia.

- Onde vais?

Não sabia. Mas descia.

Entregando-se só a si, olhos postos nos seus pés, não se apercebeu do próprio desejo de que o estranho ainda ali estivesse.


O seu desvio desce agora mais íngreme; hesita confuso, perante as pedras que se vão soltando. Tropeça sem cair. Uma vez, e outra, e outra. A saudade da verdade aumenta com a distância do caminho que vinham percorrendo. A dois.

No longo instante que durou a queda, estendeu os braços, implorando com o coração aquela ajuda. A do pastor que estaria (?) ainda ali.

- Se calhar já tem pouca água...

- Podes beber. Tens sede e há muita água nesta fonte.

- Onde ia, pastor?

- Vinha pedir-te um favor. Explico-te lá em cima, se quiseres voltar. Leva esta mochila, tem mais água.

Vendo-o iniciar o regresso, ele parou. Rodou a cabeça, e olhou novamente para o desvio que antes o levava não sabia para onde. Repôs os seus olhos no pastor.

- Estou a ir!

- Estou a ir! – Ouviu-o à distância, sem o ver. Ela alegrou-se em silêncio, sabendo que o caminho de regresso que ele tinha decidido, era necessário para que se reencontrassem. Como necessário era o tempo que levaria.

Esperou.

De mão estendida, pedindo-lhe, calado, a dela, completou o regresso à verdade que nunca deixara de desejar, reconhecendo-a. Com o caminho, que reviam agora juntos, viam também, entre as velhas nuvens, algum do azul do céu. Que sempre estivera lá.

- Afinal o que querias de mim, pastor?

- Que me ajudasses a encontrar uma das minhas ovelhas.

Com ele, recomeçaram a caminhar montanha acima.

A dois.

Wednesday, 18 September 2019

Papa aponta o exemplo dos mártires

Ontem, já eu tinha enviado o mail diário, surgiu este comunicado do bispo do Porto a destruir o Governo, partidos, políticos e activistas sociais, incluindo feministas, por ninguém ter achado necessário condenar o terrível assassinato da freira Maria Antónia, em São João da Madeira. Vale mesmo a pena ler. Sem papas na língua.

O Vaticano pede julgamento de dois padres num caso de abusos sexuais que remonta a 2012.

Hoje o Papa Francisco recordou o dia do doente com Alzheimer e falou do exemplo dos mártires, que todos os católicos devem estar preparados para seguir.

Farto de polémicas e guerrinhas na Igreja? Então tire cinco minutos do seu dia para ler este artigo do The Catholic Thing e veras imagens. Brad Miner fala de uma exposição em Nova Iorque que abre uma janela para a vida de uma comunidade judaica na Europa medieval.

Casa de Deus

Brad Miner
Se fosse um judeu a viver em Colmar, uma belíssima vila na Alsácia, no nordeste de França, saberia que estava sempre sujeito a ser atacado ou assaltado. Seria um alvo fácil, pois vivia entre os seus correligionários apenas numa zona da vila – principalmente numa única rua, La Rue des Juifs – e por ser devoto da sua fé e das suas práticas, vestia-se de acordo. Não tinha onde se esconder.

Mas podia, isso sim, esconder os seus bens mais valiosos. Foi isso mesmo que fez uma família judaica, criando uma espécie de cofre, um vaso de terracota com todos os seus tesouros, que colocaram num buraco na parede, cobrindo-o com estuque. Contudo, alguma calamidade levou-os a ter de abandonar os tesouros, que só foram descobertos em 1863, precisamente no mesmo sítio, quase 400 anos mais tarde. 

Como se pode ler no catálogo de “O Tesouro de Colmar: Um Legado Judaico Medieval”, a nova exposição no Cloisters, do New York’s Metropolitan Museum, a exposição “recupera a memória da outrora próspera comunidade judaica que foi perseguida como bode expiatória e morta quando a região foi atingida com uma força devastadora pela peste, em 1348-49”.

Quem descobriu o tesouro, que inclui “moedas e loiça de prata e joalharia de ouro e prata, incluindo fivelas elaboradas e quinze anéis de ouro”, deve ter vendido uma parte. O que restou para ser visto e amado pelas gerações futuras está, na maior parte, no Musée de Cluny, em Paris, conhecido também como o Museu Nacional da Idade Média, que posteriormente emprestou vários dos objectos ao MET, para exposição no Cloisters.

No centro da pequena mostra está um grande anel de casamento, adornado com uma réplica imaginada do Templo de Salomão. Era claramente um anel cerimonial, ou seja, nada que se usasse para as lides domésticas, mas criado especificamente para ser usado numa cerimónia de noivado e/ou no casamento propriamente dito. De facto, alguns especulam que o anel passava de geração em geração na mesma família, ou que era usado por várias – se não mesmo todas – as noivas judaicas da aldeia nos seus casamentos.

O anel está inscrito com a expressão perene de parabéns “Mazel tov!”. Na verdade, é uma expressão Ídiche, e não hebraica, embora aqui esteja escrita com caracteres hebraicos. O ídiche surgiu no Século IX na Europa, uma amálgama de hebraico e aramaico misturada com alemão e algumas línguas eslavas. A palavra em si vem de Yidish Taitsh, que significa “judaico alemão”. 

Embora não tenha sido o último, o Nobel da Literatura Isaac Bashevis Singer é certamente o mais famoso autor (e por ventura um dos últimos) a escrever exclusivamente em ídiche, e disse o seguinte:

As pessoas perguntam-me porque é que escrevo numa língua moribunda. Eu gosto de escrever contos de fantasmas e nada fica melhor a um fantasma do que uma língua moribunda. Quanto mais morta a língua, mais vivo o fantasma. Os fantasmas adoram o ídiche e, tanto quanto sei, todos a falam.

É um comentário que se aplica charmosa mas tristemente bem ao que se vê na exposição de Colmar. Claro que o museu – como todos os museus – está recheado de “fantasmas”. Mesmo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque contém sobretudo artistas que já foram desta para melhor. (Depois de uma longa restauração, o MoMA está prestes a reabrir em Outubro).

No Cloisters, porém, os fantasmas parece-me mais dolorosamente presentes, uma vez que esta exposição me parece emblemática da história do antissemitismo: estamos perante obras de grandes artesãos, membros de uma grande cultura, que devido à sua coragem e sabedoria têm sido usados ao longo dos séculos como bodes expiatórios pelos cobardes e os tolos.

Juntamente com os tesouros de Colmar há outros dois itens da coleção permanente do Cloisters: uma Tanakh (ou Bíblia hebraica) e uma Haggadah com 700 anos, ambas originárias de Espanha. A Haggadah, para quem não sabe, é o texto lido na refeição pascal, recordando o início do Êxodo.

Como explica a curadora Barbara Drake:

A sobrevivência da Bíblia hebraica é quase milagrosa… Os nomes e datas inseridas nas suas páginas sugerem que saiu de Espanha até 1492, quando a população judaica foi expulsa. Juntamente com os seus sucessivos donos a Bíblia viajou para oriente pelo Mediterrâneo, aterrando depois na Grécia, mais tarde no Egipto e voltando novamente para a Europa continental. Actualmente é uma de apenas três Bíblias hebraicas iluminadas de Castilha do Século XIV.

É para nós uma especial honra que a Bíblia acabe a sua viagem no Cloisters, onde transformará a nossa apresentação – e a compreensão dos nossos visitantes – sobre a iluminação de manuscritos medievais. Todos os outros livros que temos no Cloisters foram criados para uso cristão (três deles foram feitos em Paris no espaço de 90 anos). Este manuscrito desperta-nos para a comunidade judaica, que foi uma parte vibrante da cultura medieval de Espanha.

Pode parecer forçado, mas a exposição Colmar deixa-me ainda mais entusiasmado com a viagem a Israel que estou a planear com a minha mulher, onde anseio ver o local que Deus escolheu para a sua Encarnação e a pátria de um povo sofredor que conseguiu ultrapassar o sofrimento causado pela perseguição a que foi sujeito.

Devo acrescentar que o Cloisters, um dos meus locais favoritos, é um museu que nos transporta para um mundo em que o catolicismo definia todos os aspetos da vida, para bem e – como esta pequena mostra de artefactos judaicos nos recorda – por vezes para pior.

OTesouro de Colmar” está em exposição até ao dia 12 de janeiro de 2020.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 17 September 2019

Entre o cisma e São Tomé

Enquanto uns cismam, ela vai ajudar os outros
Caminhamos para um cisma na Igreja Católica? Há quem acredite nessa ameaça. A questão esteve em debate na Renascença esta tarde. Veja e ouça aqui.

O Cardeal Pell, condenado em duas instâncias por abuso de menores num processo muito polémico, recorreu ao Supremo Tribunal da Austrália.

Conheça a Mariana Costa, mais uma aventureira que parte em missão com os Leigos para o Desenvolvimento.

Mal chegou de África e o Papa Francisco já está a preparar nova viagem, desta vez para o Japão e Tailândia.

Thursday, 12 September 2019

Caminhando com D. Francisco, rezando por Antónia Guerra

RIP Antónia Guerra
O Papa Francisco apelou esta quinta-feira a um “pacto educativo” e convocou um encontro para Roma em 2020 com esse objetivo, aberto a todos os que estão envolvidos nesta área.

O Papa reza pelo diálogo e insiste que “o caminho do cisma não é cristão”.

Surgiu esta semana uma notícia trágica sobre a morte de uma freira, brutalmente assassinada em condições terríveis. A Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal condenou o assassinato.


Conheça aqui o livro “Caminhando com D. António Francisco dos Santos”, do meu querido amigo Bernardo Corrêa d’Almeida. Por falar no saudoso bispo, o prémio com o seu nome foi entregue à APAV.

Estamos em tempo de campanha e, se repararem, nenhum dos partidos parece muito interessado em falar de eutanásia, um assunto que depois de anunciados os resultados será certamente apresentado como “fundamental” e “civilizacional” pelos do costume. Nada como ir vendo como é que a lei funciona na prática, nos países onde é legal,como faz este artigo do The Catholic Thing. Leiam e partilhem.

Wednesday, 11 September 2019

Suicídio Assistido: Uma História de Duas Narrativas

Richard Doerflinger
Apresento-vos uma narrativa recentemente promovida a nível nacional, a começar por Seattle, pela Associated Press.

Em Maio um homem chamado Robert Fuller, de 75 anos e doente com cancro, foi sujeito a uma overdose letal de drogas, ao abrigo da lei de “Morte com Dignidade” do Estado de Washington e planeou até ao último detalhe o seu suicídio, com a ajuda de adeptos do suicídio, da organização “End of Life Washington”. Organizou o seu enterro na paróquia católica de St. Therese, que frequentava; teve uma festa de despedida no seu apartamento em Seattle; casou com o seu parceiro de alguns anos e, mais tarde nesse mesmo dia, diante de testemunhas, tomou as drogas e morreu. Tinha convidado um jornalista e um fotógrafo da AP para o acompanhar durante todo o processo porque “queria mostrar às pessoas do país como é que estas leis funcionam”.

Algo parecido (normalmente sem as festividades nem a presença mediática orquestrada) já aconteceu no meu Estado de Washington cerca de 1.200 vezes desde que o suicídio medicamente assistido foi legalizado, em 2008.

A AP acrescenta isto: No domingo antes do seu suicídio de 10 de maio, Fuller foi pela última vez à missa e alegadamente recebeu uma bênção para aquilo que estava prestes a fazer (fotografada pela AP) do padre local, o jesuíta Quentin Dupont, acompanhado de crianças com alvas brancas que faziam a Primeira Comunhão. Em defesa desta narrativa, alguns já apontaram para um post na página do Facebook de Fuller em que ele escreveu: “O meu pastor/padrinho deu-me a sua bênção. E é jesuíta!!!”

A verdade é que Fuller publicou esse post em Março, por isso não poderia estar a referir-se â bênção de Fuller no dia 5 de Maio. O pároco, Pe. Maurice Mamba, não é jesuíta. Poderemos nunca saber quem era esse jesuíta, ou se existe sequer.

Afinal de contas, ao que se soube, o padre Dupont mal conhecia Fuller e não fazia a menor ideia que ele planeava suicidar-se. Descendo o corredor no final da missa foi confrontado por um homem que pedia uma bênção porque estava a morrer. O padre Dupont liderou as crianças numa oração, pedindo força e coragem neste tempo difícil. Viu alguém a tirar uma fotografia, mas não sabia que era um repórter e nunca assinou qualquer documento a autorizar a sua publicação. Parece muito um esquema, pensado por Fuller (ou pelos ativistas que o ajudaram) para colocar a Igreja numa posição embaraçosa e minar o seu testemunho contra o movimento do suicídio assistido.

Quando o padre soube dos planos de Fuller visitou-o e tentou dissuadi-lo – e quando isso não funcionou consultou a diocese para saber se devia aceitar fazer o seu enterro. A decisão foi de avançar e fornecer cuidados pastorais aos enlutados mas com o cuidado de ser claro que isso não constituía uma concordância com a forma como ele pôs fim à vida.

O que é que podemos aprender com isto?

Em primeiro lugar, alguns paroquianos (sobretudo os seus amigos de longa data que cantavam com ele no coro) sabiam dos seus planos e aceitaram-nos, ao ponto de frequentarem aquela festa final. Isso é errado e um grave escândalo. Contudo, alguns católicos têm dificuldade em acreditar que os padres não estavam a par das intenções de Fuller. Como paroquiano da diocese de Seattle, permitam-me discordar.

A falta de padres por estes lados é severa. O meu próprio pároco cuida de quatro paróquias e uma missão e durante boa parte deste ano não teve um vigário. Faz um trabalho magnífico em circunstâncias difíceis, com a ajuda de padres reformados ou que estejam de visita e administradores leigos.

O padre Dupont, que é aluno a tempo inteiro na Universidade de Washington, estava em St. Therese só para celebrar missa, como já tinha feito antes (bem como noutra paróquia, apesar do trabalho académico). O pároco, padre Maurice, cuida de duas paróquias sozinho e naquela manhã estava a celebrar missa na outra igreja, onde reside.
Se não gosta do facto de que os nossos padres mal têm tempo para celebrar os sacramentos, quanto mais conhecer os detalhes de vida dos paroquianos, concordo plenamente. Juntem-se a mim, por favor, a rezar por mais sacerdotes.

Em segundo lugar, alguém poderia ter feito alguma coisa para impedir os planos de Fuller? Não me parece. Aparentemente, durante a maior parte da sua vida mostrou estar “meio apaixonado com a morte fácil”. A AP explica que aos oito anos, quando vivia em New Hampshire, a sua querida avó afogou-se no Rio Merrimack. Com isto aprendeu que “se a vida se tornar dolorosa, vai-se até ao Merrimack”.

Em 1975 tentou suicidar-se depois de ter dito à sua mulher que era homossexual e o seu casamento ter acabado. Mais tarde ajudou a cuidar de amigos com HIV, administrou uma dose letal de drogas a um deles e levou uma vida sexual que “se aproximava do suicida” – aparentemente a tentar contrair a doença porque “todos os meus amigos estavam a morrer”. Ainda antes de ser diagnosticado com cancro fazia parte do Hemlock Society e revelou grande interesse na lei de Washington quando uma mulher no seu prédio o usou para se matar.

Porque é que esta obsessão de longa data pelo suicídio não surgiu durante as suas avaliações psicológicas, ao abrigo da lei de Washington? Porque 96% dos doentes que obtêm as drogas letais nunca chegam a ser avaliadas. Tal como outras “salvaguardas” que a lei prevê contra abusos, esta não passa de uma anedota.

Em terceiro lugar a Associated Press violou todas as orientações da Organização Mundial de Saúde e de organizações para a prevenção de suicídios, que estipulam que não se noticiem casos de suicídio, para evitar que outras pessoas deprimidas e vulneráveis se matem. A reportagem da AP fornece detalhes sobre o método utilizado, apresenta o suicídio como uma solução e romantiza toda a questão (a manchete era “A Festa de uma Vida”). Se mais pessoas se matarem por causa desta publicidade mal disfarçada, então a AP tem sangue nas mãos. 

Em quarto lugar, qual é a posição da Igreja? O Catecismo da Igreja Católica (parágrafos 2280-83) deixa três coisas claras: O suicídio é um mal grave; nestes casos a responsabilidade pessoal podem ser muito mitigadas por fatores como angústia, medo do sofrimento ou distúrbios psicológicos; e a Igreja não desespera da salvação daqueles que põem fim às suas próprias vidas, mas reza por elas, sabendo que Deus pode conduzir as pessoas ao arrependimento em qualquer momento, de formas que só Ele conhece.

Neste caso as ações do clero parecem estar em linha com a máxima de Santo Agostinho de odiar o pecado mas amar o pecador (ou, melhor, odiar o pecado porque se ama o pecador). Essa máxima, alvo de gozo por parte de secularistas, é difícil de cumprir – sobretudo em assuntos de sexualidade ou da vida. Alguns católicos são tentados a errar, odiando o pecado e o pecador em conjunto, e outros acham que têm de amar e aceitar os dois. Quanto a mim, diria que a manutenção dessas distinções – e desse equilíbrio – é central para a nossa fé católica.


Richard Doerflinger trabalhou durante trinta e seis anos como secretário de atividades pró-vida na Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Faz parte do Nicola Center for Ethics and Culture da Universidade de Notre Dame e é professor associado no Charlotte Lozier Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Setembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

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