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Wednesday, 9 August 2023

Introdução à Pregação

Celebrámos recentemente o 700º aniversário da canonização de São Tomás de Aquino, que teve lugar no dia 14 de Julho de 1323, no Palácio Papal, em Avignon. Esta foi a época a que já se chamou o “Cativeiro Babilónico do Papado”, quando sete papas seguidos residiram em Avignon, França, em vez de em Roma. Mais tarde, infelizmente, isso conduziria a um cisma, levando a um período em que houve múltiplos pretendentes ao trono de Pedro. O problema não foi totalmente resolvido até ao Concílio de Constância, em 1417. É sempre bom ter isto em mente quando imaginamos que as coisas nunca estiveram tão mal como estão agora.

Lembrei-me deste aniversário há pouco tempo quando alguém me perguntou sobre a pregação de São Tomás. Tomás era, como se sabe, um dominicano, membro da “Ordem dos Pregadores”, fundada por São Domingos. Porquê uma ordem dos pregadores? Porque no princípio do Século XIII havia muito pouca pregação para os leigos na Igreja.

Em muitos locais não se fazia pregação de todo (o que não é tão bom como possa parecer). Ou quando existia pregação era mal feita e cheia de erros doutrinais (soa familiar?). Os padres do Quarto Concílio de Latrão (1215) decidiram que era preciso mudar isto, por isso encarregaram os bispos de alocar recursos para formar bons pregadores. São Domingos fundou a Ordem dos Pregadores em parte como resposta a este chamamento na Igreja.

Embora São Tomás pertencesse à Ordem dos Pregadores, surpreendentemente pouca atenção tem sido dada à sua pregação ao longo dos séculos. Felizmente, porém, a Comissão Leonina publicou recentemente uma edição crítica dos seus cerca de 20 sermões autênticos, e existe uma boa tradução para inglês do Pe Mark-Robin Hoogland, disponível através da Catholic University of America Press.

Tendo em conta o estilo bastante peculiar destes sermões, eu escrevi um livro chamado “Lendo os Sermões de Tomás Aquino: Um guia para principiantes”. O objectivo é compreender que cada palavra no versículo bíblico inaugural tem a função de uma mnemónica que permite ao ouvinte recordar o conteúdo de todo o sermão, simplesmente recordando o versículo bíblico.

Perguntam-me frequentemente o que é que São Tomás tem para ensinar aos pregadores modernos? É uma questão complicada. O seu estilo, embora fosse a norma para quase toda a gente no Século XIII, é difícil de compreender hoje em dia. Mas há algumas lições.

A primeira é evidente: uma boa pregação está ligada à própria santidade. E, porém, há muitos santos pastores que não são necessariamente bons pregadores. A pregação, tal como a escrita, a canalização ou a jardinagem, é uma capacidade que tem de ser treinada e aprendida.

A segunda lição, que é parecida, é que um bom pregador prepara-se. Não é possível pregar da forma como Aquino e Boaventura faziam, no que era chamado o estilo de “sermão moderno”, sem uma preparação séria. Era impossível simplesmente improvisar.

A terceira coisa que podemos aprender com este estilo de pregação é o valor de construir um sermão de forma a ser lembrado. Se os fiéis saem da missa e alguém pergunta sobre o que é que foi a homilia, e ninguém se lembra, então temos um problema. Mais importante ainda, se os fiéis não se recordam sequer das leituras, então o mais provável é que a homilia tenha sido um fracasso.

São Tomás Aquino

Alguns leitores devem estar a perguntar: “Recordar a homilia e as leituras? Quando é que isso acontece?”. Sim, isso é um problema, um problema grave. Uma das coisas que aprendemos com os inquéritos sobre a sinodalidade (e que não precisávamos de inquéritos para descobrir) é que quase todos manifestam desagrado com a qualidade da pregação. De tal forma que se pensaria que o sínodo teria adoptado o tema para ser discutido, tal como aconteceu no Quarto Concílio de Latrão.

Até o Papa Francisco tem sugerido que a pregação precisa de ser reformada, embora me pareça que ele se estivesse a referir à sua excessiva duração. Não me parece que esse seja o principal problema. As más homilias tornam-se aborrecidas depois de trinta segundos. As boas passam a voar. Mas para resolver um problema, primeiro é preciso reconhecer que ele existe.

Posso, contudo, oferecer mais um conselho. Eu argumento, no livro “Aquino, Boaventura e a Cultura Escolástica de Paris Medieval”, que as aulas sobre livros da Bíblia que eram dadas nas universidades medievais pelos mestres tinham como objectivo dar aos seus alunos recursos para pregar. Essa era a uma preocupação central.

Compare-se isso com a nossa prática moderna. Independentemente das suas forças e fraquezas, os estudos bíblicos segundo o método histórico-crítico raramente dão boa matéria de pregação. Já ouvi pregadores a tentar fazê-lo, e correu sempre mal.

Não me refiro a explicar o sentido de palavras-chave no Grego ou Hebraico original. Tenho um colega na universidade que o faz, e os seus alunos ficam fascinados. Mas isso deve-se mais à paixão que ele claramente tem por cada texto e cada palavra: “Eu adoro este versículo, é belíssimo!”, diz ele, e nós brincamos, dizendo, “o senhor padre diz isso sobre todos os versículos”. Não, estou a falar mais de comentários do género: “Na verdade esta epístola não foi escrita por Paulo”, ou “isto foi acrescentado ao Evangelho mais tarde, por um editor”. Muita da pesquisa em que isto assenta é demasiado especulativa, e o efeito que tem sobre a assembleia é como serrar o tronco em que estamos sentados.

“Bom, senhor padre, se não temos de prestar atenção às Escrituras, então também não temos de prestar atenção a si. Porque a única razão pela qual estamos a prestar atenção a si é porque achamos que nos ajudará a compreender melhor a palavra de Deus. Por isso, se nos está a dizer que isto não é a palavra de Deus, vamos desligar-nos”.

Se calhar estamos a precisar de um novo curso: A Bíblia para Pregação: Como não tornar a melhor história de sempre e o livro mis importante de sempre vazios, insignificantes e aborrecidos”. Podemos listá-lo no catálogo como Introdução à Pregação.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 1 de Agosto de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Wednesday, 5 April 2023

Provas para a Existência de Deus

Randall Smith

Já por algumas vezes apresentei aos meus alunos as famosas provas para a existência de Deus. Muitos ficam surpreendidos por saber que é possível abordar a questão de Deus com a razão e com pensamento sério, e não apenas com “sentimentos” ou sacrificando todo o pensamento racional em favor de acreditar “em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço, todas as manhãs”, como a Rainha Branca diz a Alice no País das Maravilhas.

Muitos jovens adultos na nossa sociedade são essencialmente fideístas. Pensam que basta “aceitar as coisas pela fé”, o que nas suas cabeças significa sem razão ou raciocínio inteligente. Lendo São Tomás de Aquino, sobretudo as suas provas para a existência de Deus, percebem rapidamente – e nalguns casos pela primeira vez – que se pode abordar as questões teológicas com a razão e o intelecto.

Mas devo admitir que mesmo os alunos que aceitam a validade destes argumentos nem sempre os acham convincentes. Para alguns deles, o problema está no facto de não acreditarem na lógica. A lógica, pensam eles, não passa de jogos de palavras, ou então acham que é um jogo de poder patriarcal. Mas para alguns há ainda outra razão para não acharem as provas convincentes, e é importante compreender porquê.

O problema com as “provas” não está naquilo que comprovam, mas no que fica por provar. Porque quando os meus excelentes e interessados alunos perguntam sobre “Deus” não estão a perguntar sobre o “primeiro motor imóvel” ou sobre a “Fonte de Todo o Ser”. O que querem mesmo saber é se alguém se interessa; se existe alguém que olha por eles e que estará presente se tudo o resto falhar; se existe uma base última para o sentido. E o “primeiro motor imóvel” simplesmente não satisfaz essas dúvidas. 

Como se vê pelo argumento de Aristóteles do Motor Imóvel, pode haver um Motor Imóvel que não nos ama, nem se preocupa connosco. O Deus cristão, por outro lado, é a fonte do ser de tudo, e não apenas uma outra “coisa” ou “pessoa” poderosa no mundo, como Zeus ou Apollo, mas é também pessoal e capaz de amar, como Zeus e Apollo, mas ao contrário do Motor Imóvel de Aristóteles.

Ainda que os antigos tivessem razão ao dizer que o mundo é um cosmos ordenado, isso não significa que nele exista amor altruísta. Os antigos, aliás, pensavam que não existia. É por isso que eu digo sempre aos meus alunos que a pergunta que devem colocar não é se acreditam em “Deus”, mas se acreditam no amor. Porque se não forem capazes de acreditar no amor altruísta e providencial, jamais serão capazes de acreditar no “Deus” judaico-cristão, que tem como característica central o amor e o cuidado providencial.

O problema é este: como é que se comprova a existência do amor – que existe, que tem sentido e que vale a pena – a pessoas que não acreditam nele?

Recentemente estava eu na missa a ouvir uma daquelas estranhas histórias do Antigo Testamento e a pensar se alguma pessoa sensata poderia acreditar em todas estas coisas de Deus, quando reparei num pai a fazer caretas para o seu filho bebé.

Há algo de maravilhoso em ver pais com os seus filhos na missa. Mães e pais seguram nos seus bebés e beijam-nos docemente, fazem-lhes festinhas no cabelo e olham-nos directamente nos olhos com amor. Os pais levam os seus filhos consigo para a Comunhão e ensinam-nos a ajoelharem-se respeitosamente e a receber uma bênção do padre, às vezes com orgulho, outras com timidez.

Isto é amor. De onde vem esse amor? Como é que existe? É verdadeiro, mas ao mesmo tempo misterioso.

E não é apenas na Missa. Há pelo menos uma passagem no filme “O Amor Acontece” que traduz uma grande verdade: quando vemos pessoas a cumprimentar amigos e familiares no aeroporto e isso leva-nos a acreditar que o amor existe mesmo e que está mesmo em todo o lado. E se por um instante nos pudermos convencer de que o amor existe, então pode ser que algum dia pensemos: como? Porque na concepção que os ateus modernos têm do universo, não parece haver espaço para ele.

Sempre que um ateu comprometido pratica um acto de amor altruísta está, por assim dizer, a assumir que também ele acredita que o universo é mais do que apenas átomos a chocar uns contra os outros e que uma vida plena e com sentido implica mais do que apenas a vontade do poder e a maximização das preferências.

Não são apenas os cristãos que pensam que o amor é a força mais essencial e com sentido do universo. Muitos outros acreditam no mesmo. A questão é que muitos abraçam visões do universo em que esse amor não encaixa, enquanto o Cristianismo defende uma narrativa do mundo em que faz sentido.

O que é estranho naquilo a que chamamos o “Mistério Pascal” – o que o torna de facto misterioso – é a afirmação de que o Deus-Criador nos amou de tal forma que se fez carne, morreu por nós e ressuscitou dos mortos. Se, nas palavras de Hans Urs von Balthasar, “só o amor é digno de fé”, então como é que Deus se nos poderia revelar – não como um outro Zeus ou outra espécie de Motor Imóvel, mas como o Deus do amor altruísta – se não dando-se totalmente em amor altruísta?

Sem os eventos da Semana Santa, poderíamos acreditar num “deus”, mas não no Deus que, como escreveu Bento XVI, “criou o universo para poder entrar numa história de amor com a humanidade”. E sem esse amor, como saberíamos, como suspeitaríamos, sequer, que “o universo não é o produto da escuridão e da irracionalidade”?

Porque, como escreve ainda Bento XVI, “só se for verdade que o universo deriva da liberdade, do amor e da razão, e que são estes os verdadeiros poderes que estão na sua base, é que podemos confiar uns nos outros, avançar para o futuro e viver como seres humanos”.

É bastante fácil acreditar num “deus” – um deus de poder –, mas num Deus-Criador de amor altruísta? É, sem dúvida, “misterioso”. Mas talvez, no final de contas, essa seja a única coisa que possa dar sentido a um mundo em que o amor existe.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 4 de Abril de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 12 January 2022

A Consciência enquanto Libertação da Verdade?

Randall Smith
“Na discussão contemporânea sobre o que constitui a essência da moralidade, e como esta pode ser reconhecida, a questão da consciência assume a maior importância, sobretudo no campo da teologia moral católica”. Assim falou o então cardeal Ratzinger, em 1991, na conferência “Consciência e Verdade”. Este tema da ligação entre a consciência e a verdade, sobretudo a verdade acerca da pessoa, foi repetida incessantemente pelos papas João Paulo II e Bento XVI.

Na encíclica Veritatis Splendor, de João Paulo II, a palavra “consciência” surge 108 vezes, maioritariamente em contextos em que está a tentar corrigir erros modernos, como aqui:

Generalizada se encontra também a opinião que põe em dúvida o nexo intrínseco e indivisível que une entre si a fé e a moral, como se a pertença à Igreja e a sua unidade interna se devessem decidir unicamente em relação à fé, ao passo que se poderia tolerar no âmbito moral um pluralismo de opiniões e de comportamentos, deixados ao juízo da consciência subjectiva individual ou à diversidade dos contextos sociais e culturais. (#4)

E novamente aqui:

Em algumas correntes do pensamento moderno, chegou-se a exaltar a liberdade até ao ponto de se tornar um absoluto, que seria a fonte dos valores. Nesta direcção, movem-se as doutrinas que perderam o sentido da transcendência ou as que são explicitamente ateias. Atribuíram-se à consciência individual as prerrogativas de instância suprema do juízo moral, que decide categórica e infalivelmente o bem e o mal. À afirmação do dever de seguir a própria consciência foi indevidamente acrescentada aqueloutra de que o juízo moral é verdadeiro pelo próprio facto de provir da consciência. Deste modo, porém, a imprescindível exigência de verdade desapareceu em prol de um critério de sinceridade, de autenticidade, de «acordo consigo próprio», a ponto de se ter chegado a uma concepção radicalmente subjectivista do juízo moral. (#32)

Na conferência de 1991, o cardeal Ratzinger conta a história de um colega dos seus dias de professor que sugeriu que “devemos na verdade estar agradecidos” por Deus permitir a existência de “tantos descrentes de consciência tranquila. Pois se os seus olhos se abrissem e se tornassem crentes, não seriam capazes, neste nosso mundo, de carregar o fardo da fé, com todas as suas obrigações morais. Mas desta forma, uma vez que podem seguir o seu caminho de consciência tranquila, podem alcançar a salvação”. Este diálogo terá tido lugar numa universidade alemã em meados da década de 1950, ou seja, ainda à sombra da Shoah.

O que é que pensava aquele colega? Graças a Deus que tantas pessoas seguiam Hitler “de consciência tranquila”? Pense-se só como seria irrazoável a Igreja exigir a essas pessoas que carregassem “o fardo da fé, com todas as suas obrigações morais”!

Aquilo que mais incomodou no comentário deste homem, escreve Ratzinger, foi a noção nele contida de que a fé é um fardo que mal se consegue aguentar… a fé quase como uma punição, ou pelo menos, uma imposição difícil de acarretar. De acordo com esta visão, a fé não tornaria a salvação mais fácil, mas mais difícil. Ser feliz equivaleria a não ter de carregar o fardo de ter de acreditar, ou de ter de se submeter ao jugo moral da fé da Igreja Católica. A consciência errada, que torna a vida mais fácil e estabelece um caminho mais humano, seria então uma verdadeira graça… A inverdade, ou a verdade mantida ao largo, seria melhor para o homem do que a verdade. O homem estaria mais confortável nas trevas do que na luz. A fé não seria um dom de Deus, mas uma aflição. Se fosse esta a realidade, como é que a fé poderia conduzir à alegria? Quem teria a coragem de a passar a outros? Não seria melhor poupá-los à verdade, ou mesmo afastá-la deles?

Sem a âncora da verdade objetiva, “os supostos pronunciamentos da consciência” tornam-se “apenas o reflexo das circunstâncias sociais”. “Nenhuma porta ou janela se abre do sujeito para o mundo mais alargado da… solidariedade humana”.

Há décadas que estes documentos, que clarificam os ensinamentos da Igreja sobre a consciência, estão disponíveis. Então porque é que continuamos a ver padres a dizer aos católicos que lhes basta “seguir as suas consciências”, sem se preocuparem com a verdade e com os ensinamentos da Igreja? Não sabem ler?

E porque é que temos de levar com declarações como esta, num artigo do “The Washington Post”, do padre Pat Conroy, o jesuíta que foi capelão católico da Câmara dos Representantes em Washington, que se propõe explicar “porque é que há espaço para ser pro-escolha no catolicismo”?

No nosso sistema constitucional, como é que chegamos ao nosso valor católico neste caso, quando as mulheres têm o direito de optar… A ideia de que cada um pode escolher para onde caminhar com a sua vida é um valor americano. Mas acontece que é também um valor católico… A escolha é um alto valor católico e é também um valor da Igreja. O padre italiano e gigante da filosofia católica no Século XII [sic] Tomás de Aquino diz que se a tua consciência te diz que deves fazer algo que a Igreja diz ser pecado, então estás obrigado a seguir a tua consciência. Isso São Tomás de Aquino!

Não, isso não é Tomás de Aquino (que viveu no Século XIII) e também não é ensinamento da Igreja. Conroy defendeu-se mais tarde dizendo que “para mim o facto de o aborto ser uma tragédia não é debatível” – obrigado senhor padre! Mas acrescenta: “só ela é que pode tomar essa decisão, nós não a podemos tomar por ela”.

Mas essa mulher não está a tomar a decisão pelo seu filho nascituro? E será que o padre Conroy está na verdade a falar sobre consciência? Ou esta valorização da “escolha” não será mais um “reflexo das circunstâncias sociais” – nomeadamente os valores de certos progressistas de bolsos fundos?

Será demais pedir a estas pessoas que leiam os documentos oficiais e que não dêem apoio intelectual a políticos comprometidos com o holocausto de crianças inocentes?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 11 de Janeiro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 21 November 2019

Missionários não são mercenários, mas mendigos

O Papa Francisco começou hoje a sua actividade pública na Tailândia. Primeiro teve um encontro com as autoridades civis, depois visitou o líder budista do país e a seguir encontrou-se com funcionários de um hospital católico.

A fechar o dia celebrou missa no Estádio Nacional de Banguecoque onde disse palavras extraordinariamente bonitas sobre o trabalho missionário. Vale muito a pena ler.

Este fim-de-semana decorre o Encontro Nacional de Leigos, em Santarém. Tem um bom cartaz, vale a pena irem, se possível.

A paróquia de São Tomás de Aquino volta este ano a realizar uma série de conferências a não perder. Podem consultar a agenda completa aqui. O tema deste ano é “Viver hoje a caridade”.


Wednesday, 28 August 2019

O Que Pensamos Importa

Recentemente escrevi sobre os Thomistic Institutes, uma iniciativa da Dominican House of Studies em Washington D.C., que organiza palestras e conferências proferidas por católicos ortodoxos de primeira categoria em quase cinquenta (e cada vez mais) das mais prestigiosas universidades e faculdades da América. E a organização está em expansão. Muitos leitores escreveram-me para expressar a sua apreciação por esta rede tão valiosa, mas também para perguntar o que podem fazer se não houver nada do género na sua zona.

Agora temos uma resposta.

No dia 26 de Agosto foi para o ar o Aquinas 101 – um site criado pelos mesmos dominicanos. Cliquem e preparem-se para uma experiência fascinante. Quando estiver completa, esta série terá oitenta e seis breves palestras, cuidadosamente preparadas e dirigidas a qualquer pessoa com um nível de capacidade e de interesse comum.

Este curso é aberto a todos, e é gratuito!

Estamos a falar de uma introdução bem construída e acessível a um dos maiores de todos os pensadores dominicanos, São Tomás de Aquino, que não só nos coloca em contacto com o homem que mais fez para formar o pensamento católico ao longo dos séculos, mas também nos ajuda a ver como essa enorme obra de pensamento tem grande relevância para algumas das questões nevrálgicas que hoje enfrentamos.

Por exemplo, muitas pessoas hoje, incluindo cristãos e até católicos, caíram em algumas confusões básicas sobre a natureza da Fé e da Razão. Conforme explica uma das primeiras palestras desta série, isto leva, por um lado, ao cepticismo – não podemos saber verdadeiramente nada sobre Deus – mas também, por outro, ao que tem sido apelidado de “fideísmo”, a ideia de que cremos sem saber em quê.

Ambas são reações naturais numa era de pós-verdade, mas um católico curioso não quererá deixar que o seu pensamento se mantenha preso neste lamaçal actual. Há ideias melhores e mais “verdadeiras” sobre a verdade, que Aquino e outros nos podem fornecer.

Talvez já tenham visto a sondagem recente que mostra quão poucas pessoas, até entre católicos praticantes, acreditam na Presença Real de Cristo na Eucaristia. Muitos acham que não passa de um mero símbolo. No final de contas, a Eucaristia é um profundo mistério, mas homens santos e dotados como Aquino recorreram às várias ferramentas da tradição e da razão humana para fornecer abordagens racionais e sérias àquilo que no fundo nos transcende a nós e a toda a Criação.

Recentemente o jesuíta Thomas Reese comentou essa sondagem dizendo que não acredita em termos como “substância”, “acidente”, “matéria” e “forma” que Aquino utilizou para explicar a Eucaristia. Mas sem uma qualquer forma de explicação e descrição sólida, não admira que a Eucaristia pareça simplesmente simbólica e que a crença na mesma se torne “fideísta”.

Muitos rejeitam estes conceitos porque acham que as ciências modernas as desacreditaram. Na verdade a ciência não o fez, nem o pode fazer, precisamente porque os pensadores escolásticos usaram esses termos de forma filosófica. Não pode contradizer a ciência – nem antiga, nem moderna, nem pós-moderna, nem nada que ainda aí venha. Mas seria necessário estudar e perceber como os termos Fé e Razão se relacionam para o compreender.

A principal razão pela qual os jovens de hoje abandonam a verdadeira religião e adoptam a descrição “espiritual e não religioso” é porque acreditam que a ciência tornou a religião tradicional inviável.

Podemos simplesmente cruzar os braços e lamentar que tantos tenham caído nesta falácia simplista. (“Ex-católicos” são o segundo maior grupo religioso na América e os “Nenhuns”, i.e., pessoas que dizem que não têm qualquer forma de filiação religiosa, são provavelmente a categoria religiosa que mais cresce na nossa sociedade.) Ou então podemos decidir fazer alguma coisa sobre o assunto, a começar por nós mesmos.

Estudar São Tomás não é pera doce e o próprio admite, em vários pontos da sua vasta obra, que nem toda a gente tem capacidade para estudar filosofia e teologia. Mas esta série foi montada por pessoas perfeitamente cientes destas dificuldades. Como o próprio site explica: “Não é tão difícil como pensa. Na verdade, quando nos habituamos, o pensamento de Aquino ilumina algumas das questões mais importantes. Perceberá até que ele se tornou seu amigo e guia nos caminhos da sabedoria”.

São Tomás de Aquino
Imagine poder falar de sabedoria nos nossos dias e afirmar que “o que pensamos importa”, tal como a Igreja sempre ensinou.

Católicos e protestantes, por exemplo, diferem sobre muitas coisas. Mas, classicamente, podemos dizer que tudo se resume à fórmula central de Lutero: Sola Scriptura – Só a Escritura é que constitui a fé, por oposição à Tradição e à Escritura, ou à Bíblia e a Igreja, ou à Fé e a Razão.

Neste último departamento tem havido filósofos protestantes sérios, claro, e teólogos protestantes como João Calvino ou Karl Barth, que empreenderam reflexões racionais profundas. Ainda assim não seria um exagero dizer que de todas as formas de Cristianismo, a que cultivou quer a fé quer a razão de forma mais consistente ao longo dos séculos é o Catolicismo.

E entre os Católicos o grupo intelectualmente mais fértil, ao longo de quase mil anos, tem sido a Ordem Dominicana. A lista de santos intelectuais e místicos é longa: O próprio São Domingos, Mateus de Paris, Raimundo de Peñafort, Alberto Magno, Tomás Aquino, Mestre Eckhart, Catarina de Sena, Fra Angelico, Bartolomeu de las Casas, Francisco de Vitória, Cardeal Cajetan, Rosa de Lima, Martim de Porres, Pio V (cujo longo pontificado legou aos Papas o seu traje branco), Louis de Montfort, Lacordaire, A. G. Sertillanges, Reginald Garrigou-Lagrange, Vincent McNabb, Aidan Nichols e muitos outros nos tempos modernos.

Claro que há outras escolas de pensamento católico para além do Tomista e do Dominicano. Mas ao familiarizar-se com qualquer uma das figuras citadas acima, já ficará com uma formação valiosa em pensamento e prática católicos – bem como uma perspectiva poderosa sobre muitas questões perenes e controvérsias actuais.

Mas a Dominican House tornou mais fácil para todos estudar Aquino, agora. Vá até ao site e inscreva-se. É grátis; pode estudar ao seu próprio ritmo, a partir de casa; não há notas. O que é que tem a perder? E pense só no que tem a ganhar.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 28 November 2018

Progresso ou Falhanço Repetido?

Randall Smith
Entre os Padres da Igreja havia duas tradições sobre o Antigo Testamento. Uma via o Antigo Testamento como uma progressiva educação da humanidade por parte de um Deus providente e sábio, com o objectivo de elevá-la, passo-a-passo, e prepará-la para a revelação final de Deus em Cristo. Sob esta perspectiva, “a humanidade não aguenta demasiada realidade”, por isso Deus tinha de preparar os homens pouco a pouco para estarem prontos para a revelação final do Verbo incarnado.

O teólogo Eusébio escreveu, no quarto Século, que “a raça humana, nos tempos antigos, não estava ainda capaz de receber os ensinamentos de Cristo, a perfeição do conhecimento e da virtude”. Era necessário primeiro que as “sementes da religião” fossem semeadas pelo mundo até que “todas as nações da terra estivessem prontas a conceber a ideia do Pai que lhes ia ser revelada”. Só então é que o Verbo apareceu em pessoa.

Mas outra tradição sugere que o Antigo Testamento não passou de uma série de falhanços. Santo Agostinho pergunta: “Há dúvidas de que é por isto que a lei foi dada, para que o homem se encontrasse? E por isso ele se encontrou; encontrou-se imerso no mal”. Entregue a si próprio, o homem “teve de se submeter a uma longa e variada experiência da sua própria malvadez, e descer às profundezas para reconhecer melhor que precisava de um salvador”. De igual modo o autor da Carta a Diogneto confessa que “Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o Salvador capaz de salvar até mesmo o impossível”.

Na obra de São Tomás Aquino encontram-se ambas as tradições, tal como ambas se encontram nas Epístolas de São Paulo. Por um lado, diz São Tomás, a lei era uma pedagogia, um mestre ou tutor, que nos ensinava, protegia e preparava para a vinda de Cristo (ver Gal. 3,24). Por outro lado, a lei também revelou a nossa impotência porque mesmo quando, orientados pela lei, sabemos o que devemos fazer, não somos capazes de o fazer. A lei era incapaz de nos tornar bons e revelou a nossa impotência, aumentando assim em nós o desejo por um Salvador e o dom da graça de Deus (ver Rom. 7, 8)

Então como é que ficamos? O Antigo Testamento é uma história de progresso, ou de repetidos falhanços?

As duas coisas. O Antigo Testamento é a história da aliança de Deus com o seu povo. O povo, pela sua parte, falhou repetidamente no cumprimento da aliança e afastou-se. E, porém, apesar das infidelidades, Deus permaneceu sempre fiel. Os castigos existiram apenas para exaltar o povo.

Depois de 40 anos no deserto, que foi quer um castigo quer uma preparação, Ele introduz o povo na Terra Prometida. Subsequentemente, por causa das suas repetidas infidelidades, envia-o para o exílio na Babilónia, outro castigo e outra preparação. Então trouxe-o de volta da Terra Prometida para construir o Templo e preparar a vinda do Messias.

Por entre os triunfos e as derrotas, as quedas e as elevações, Deus, na sua providência de amor, está sempre a conduzir o seu povo rumo a uma união mais completa e uma comunhão mais profunda com Ele. A história judaico-cristã não é o antigo “mito do eterno retorno”. Não estamos condenados a repetir o mesmo ciclo sem sentido para toda a eternidade. Somos um povo peregrino e, embora possamos cometer os mesmos erros vezes e vezes sem conta, Deus está a dirigir-nos de volta para si.

Eusébio de Cesareia
Estas duas abordagens ao Antigo Testamento não têm algo de importante para nos ensinar? Talvez possamos ver a providência de Deus em acção, inspirando os pais e os doutores da Igreja, ensinando-nos a evitar dois erros contrários: imaginar que a história é de contínuo “progresso”, por um lado, ou que é apenas uma série de ciclos sem sentido, e sem rumo, por outro.

Confessamos repetidamente muitos dos mesmos pecados, na esperança de conseguir fazer melhor, apenas para voltar a confessá-los mais tarde. Estaremos a conseguir algum progresso?

Orgulhámo-nos tanto do Papa São João Paulo, o Grande e de Bento XVI. Parecia uma “nova primavera” para a Igreja. Contudo, a isso seguiu-se uma “longa Quaresma” de McCarricks e companhia, levando as pessoas a perguntar se as coisas alguma vez estiveram tão más (resposta: Sim, mas não é um concurso) e será que a Igreja está acabada? (resposta: não, mas só por causa do Espírito Santo).

A verdade é que progredimos. Podemos esperar que o Espírito Santo nos mude verdadeiramente. Mas devemos contar com regressões. Precisaremos de nos levantar e começar de novo, uma e outra vez.

Durante o Século XX foi feito um trabalho teológico fantástico, e tivemos alguns dos melhores Papas da história. A nossa compreensão de quem Deus é e da missão a que nos chama avançou de forma maravilhosa desde os tempos do Concílio de Niceia, em 325 até ao Concílio Vaticano II. Isto sim é progresso. E, porém, continuamos a cometer erros, por vezes piores que os do passado.

Se tem havido progresso, e tem, então é de Deus e não nosso. Nós, juntamente com São Paulo, devemos admitir a nossa impotência e voltar-nos para Ele para obter a salvação que sabemos que não podemos alcançar para nós mesmos. Estamos aqui, nas palavras de T.S. Eliot, para “ajoelhar onde a oração já teve valor”.

E o que há para conquistar,
Por força e obediência, já antes foi descoberto
Uma vez ou duas, ou várias vezes, por homens que não podemos ter esperança
De emular — mas não se trata de competição —
Trata-se apenas da luta para recuperar o que se perdeu
E achou e perdeu outra e outra vez: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis. Mas talvez nem ganho nem perda.
Para nós, há apenas a tentativa. O resto não é connosco.
(Tradução de Gualter Cunha – Relógio d’Água)


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 25 de Novembro de 2018)

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Wednesday, 6 June 2018

As Três Formas de Justiça

Randall Smith
Ainda consigo ouvir a sua voz suave e preocupada. “Mas professor Smith, isto soa muito a comunismo.”

Estávamos a estudar o maravilhoso livro de Josef Pieper “As Quatro Virtudes Cardinais” e a falar de justiça distributiva. O comentário foi feito por uma jovem mórmon, mãe de quatro, e a minha primeira reacção foi perguntar: “Josef Pieper, o devoto tomista, um comunista?”, mas quando uma mãe de quatro filhos nos faz uma pergunta sincera, temos de a levar a sério.  

Mas recuemos um pouco. “Quando é que se pode dizer que a justiça prevalece numa nação?”, pergunta Pieper. Na linha de São Tomás, Pieper responde que “a justiça predomina numa comunidade ou num estado sempre que as três relações básicas, as três estruturas fundamentais da vida comunal, estão dispostas pela sua ordem correcta”: as relações dos indivíduos uns com os outros (justiça comutativa); as relações do todo social com os indivíduos (justiça distributiva); e as relações dos indivíduos para com o todo social (justiça legal ou geral).

A justiça, enquanto virtude, situa-se sempre em indivíduos. Mesmo a justiça do Estado é confiada a agentes individuais: o primeiro-ministro, o Presidente, legisladores e juízes. Mas as relações entre indivíduos podem mudar, e não compreender isto pode conduzir a sérios problemas.

Um Presidente não deve tratar os cidadãos como se fossem seus filhos, nem uma mãe deve educar os seus filhos como se fossem cidadãos com direito de votar sobre as regras que os governam. De igual modo, a obrigação de pagar impostos difere da obrigação de pagar ao canalizador. E a protecção legal que me é devida pelo Estado é bastante diferente do dinheiro que o meu chefe me deve a mim.

As pessoas que não compreendem a diferença entre justiça comutativa e justiça distributiva dizem coisas do género: “Eu pago, e bem, por aquelas escolas (ou estradas, ou pontes, ou bibliotecas públicas), mas não beneficio delas. Quero o meu dinheiro de volta”. Mas quando pagamos ao canalizador, esperamos serviço. Se ele não arranjar os canos, não lhe pagamos. Mas não estamos a contratar um serviço ao Governo.

Os impostos que pagamos ao Governo servem para apoiar o bem comum, e os representantes do Estado distribuem-no da melhor forma que podem, para servir o bem comum. O facto de eu usar pessoalmente as escolas, as autoestradas ou as bibliotecas, é irrelevante. Posso não ter filhos, mas uma população educada é boa para todos. E talvez pague impostos mais altos do que a malta que vive do outro lado da cidade, mas a sua necessidade de boas escolas é tanta, ou talvez até maior, que a minha.

Também acontece ouvir certo tipo de pessoas privilegiadas a dizer algo deste género a um agente da polícia: “Eu pago o seu salário! Eu paguei por esta estrada. Devia poder conduzir nela como me apetecer.” Outras pessoas acham que merecem um serviço mais lesto por parte do Estado porque pagam mais em impostos.

Trata-se de confundir a justiça comutativa com justiça geral, ou legal. Quando pagamos ao homem que nos corta a sebe, podemos dizer-lhe para fazer o que nós quisermos, mas não estamos a “pagar” pela autoestrada ou pela polícia da mesma forma. O Código da Estrada existe para a segurança de todos e nós temos uma obrigação para com todos os outros nessa estrada pública. Os ricos não devem ser tratados melhor pela polícia, juízes, ou outras entidades públicas, e os estados que oferecem um tratamento diferenciado para quem paga mais estão a distorcer a relação com os seus cidadãos.

Os individualistas coerentes tendem a criticar a noção de justiça distributiva porque acreditam que os indivíduos estão sempre a lidar com outros indivíduos. Logo, cada forma de justiça é, desta perspectiva, apenas mais uma forma de justiça comutativa.

Josef Pieper
Às vezes as pessoas não reconhecem as suas obrigações para com o bem comum, preferindo concentrar-se nos “direitos” dos indivíduos. Para um individualista coerente, diz Pieper, “cada fase da vida comunal de um homem, tanto na família como no Estado, é um acordo de compromisso entre os interesses de indivíduos com direitos iguais”.

A crítica colectivista dos três tipos de justiça, por outro lado, é bastante diferente. Para o colectivista, diz Pieper, “não existe tal coisa como um indivíduo capaz de entrar numa relação por si. Acima de tudo, não existem relações entre indivíduos. A vida do homem é de caracter inteiramente pública, porque o indivíduo só pode ser definido através da sua pertença ao todo social, que é a única realidade”.

Daí que existam pessoas que nos querem negar o direito à propriedade privada, ou que pensam que cada relação, incluindo a sua relação com o canalizador, deve ser subordinada a preocupações étnicas ou políticas. Em vez de “o meu” amigo, ou “o meu” canalizador, agora somos ambos meros co-funcionários no seio do todo político.

O resultado é que “todas as relações humanas são (…) subordinadas ao critério do desempenho de uma função, e podem deixar abruptamente de existir quando eu não me conformar à norma estipulada”.

És “meu” amigo? Se tens as opiniões erradas ou votas nas pessoas erradas, não és. “Contrataste um canalizador que votou Trump? Como é possível?”. Talvez porque ele sempre trabalhou de forma honesta e boa, e nunca me engana. A minha relação com ele é governada pelos padrões da justiça comutativa, não pela justiça distributiva nem a geral.

A partir do momento em que pensamos que aquilo que é “legal” expressa por inteiro aquilo que devo à comunidade ou à minha família, ou quando achamos que a nossa relação com a comunidade é equivalente à que temos com uma empresa quando contratamos um serviço, estamos a cometer um erro. “A própria essência de justiça está ameaçada”, conclui Pieper, “no momento em que estas três estruturas fundamentais da vida comunal, e por isso as três formas básicas de justiça, simplesmente deixam de existir”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Junho de 2018)

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Thursday, 20 August 2015

Dogmas Materialistas e Más Conclusões

Francis J. Beckwith
São Tomás de Aquino disse uma vez, citando Aristóteles, que “um pequeno erro à partida pode levar a grandes erros nas conclusões”.

O que isso significa é que, tendo em conta a natureza da razão, se qualquer uma das suas premissas estiver errada, por mais irrelevante que possa parecer para o projecto em geral, as suas conclusões podem acabar por se revelar muito, muito erradas.

Um bom exemplo disto aparece num TED talk que o meu irmão Jim sugeriu que eu visse. Em “O que explica o domínio dos humanos?” o professor Yuval Noah Harari argumenta que o domínio do homo sapiens na terra se explica pela capacidade que os homens têm de construir certas “histórias” sobre “entidades ficcionais” que fornecem os meios para cooperarmos em grandes números. Entre estas entidades encontram-se Deus, os direitos humanos e o valor do papel-moeda.

Embora o professor Harari seja o orador captivante e o seu discurso tenha sido retoricamente atractivo, as credenciais filosóficas da sua tese deixaram-me com mais perguntas do que aquelas a que a teoria consegue responder.

Comecemos por colocar esta questão: Como é que o professor Harari sabe que estas “histórias” sobre o divino, os direitos nacionais e a moeda são “ficções”? Ele não explica. Tudo o que ele faz é partir do princípio que o materialismo é explicação correcta da realidade, isto é, a crença de que as únicas coisas verdadeiras são aquelas que são sujeitas a medição física quantificável.

Eis o que ele diz sobre os direitos humanos:

“Os direitos humanos, tal como Deus e o Céu, são apenas uma história que inventámos. Não são uma realidade objectiva; não são um efeito biológico do homo sapiens. Se pegarmos num Ser Humano e o abrirmos encontramos um coração, rins, neurónios, hormonas, ADN, mas não encontramos quaisquer direitos. Os únicos sítios onde encontramos direitos são nas histórias que inventámos e espalhámos ao longo dos últimos séculos. Podem ser histórias muito boas, muito positivas, mas não deixam de ser apenas ficções que inventámos.”

Ou seja, só porque não conseguimos detectar os direitos humanos (para nem falar em Deus) através das ciências naturais, devemos concluir que estes não fazem parte da “realidade objectiva”. Mas tal como o cantor de country Johnny Lee, que lamentou andar à procura do amor em bares de solteiros e entre amantes dos bons tempos, o professor Harari está a procurar direitos em todos os sítios errados. Para usar o exemplo do filósofo Edward Feser, ele assemelha o “bêbado que insiste em procurar as chaves do carro debaixo do candeeiro da rua, argumentando que esse é o único sítio onde existe luz suficiente para os poder ver”.

Então onde é que devemos procurar direitos? Não é preciso ir mais longe que a própria conferência de Harari. Ao apresentar a sua versão dos acontecimentos como aquela que ele acredita ser verdadeira, está a deixar implícito que aqueles que discordam dele estão errados. Partindo do princípio que o propósito de um argumento, bem como da utilização de provas para sustentar uma explicação, é de chegar à verdade, ou a algo que se aproxima da verdade, segue-se que a pessoa que se encontra equivocada não tem qualquer direito a afirmar que está correcta.

Segue ainda que uma pessoa que ignore as provas, o bom raciocínio e a reflecção cuidadosa, preferindo abraçar os pensamentos positivos, o raciocínio falacioso e as deambulações parvas está a fazer mal a si mesma. Mas apenas podemos dizê-lo se soubermos ao que é que o Ser Humano está ordenado.

Professor Harari
Mas este fim, ou causa final, não pode ser detectado por instrumentos ou pelos métodos das ciências naturais. Se dissecarmos um Ser Humano, para usar o exemplo de Harari, não conseguimos ver em lado nenhum os bens para os quais estamos ordenados. Se, contudo, isso significa que esses bens não constam da “realidade objectiva, então os próprios praticantes da ciência ficam sem qualquer base para condenar a ignorância e louvar a sabedoria, dois juízos cuja veracidade a “história ficcionada” de uma realidade imaterial, a formado Ser Humano. Afinal de contas, apenas podemos concluir que alguém tem uma deficiência se soubermos antes aquilo que é e como deve ser. Daí dizermos que a um cego falta a visão, mas a uma pedra cega nada falta.

As leis da lógica também são centrais para a investigação. Isto é, para poder fazer investigação científica é necessário saber raciocinar, o que significa não violar as leis da lógica. Mas as regras da lógica não são entidades materiais que se possa encontrar dissecando alguma coisa, muito menos um ser humano. Na realidade, as relações entre as premissas de um argumento são lógicas e não espaciais, o que significa que não são objectos físicos. Vejamos uma forma válida de argumento, modus ponens:

Se P, então Q
P
Logo Q

Esta é uma forma válida, não porque as duas premissas sejam, em conjunto, causa física da conclusão, como a bola branca faz mover a bola preta no bilhar. Antes, funciona por necessidade lógica, a conclusão segue-se às premissas.

Essa relação não é física, embora pareça tão real e parte da “realidade objectiva” como a relação entre as duas bolas de bilhar, ou aquilo que se vê quando se disseca um ser humano. Por isso, aqui temos outra razão para rejeitar o materialismo do professor Harari.

A questão é esta: Se alguém vos propuser uma teoria da realidade que exclui aquilo que parece ser evidente, é capaz de ser boa ideia ser céptico em vez de duvidar do senso comum. Por que é, ironicamente, o nosso senso comum – aquilo que acreditamos sobre o bem, a verdade e a beleza antes de reflectir sobre o assunto – que tornam a teorização, mesmo a má teorização, possível.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Agosto 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 10 December 2013

Direitos humanos - aniversários, ameaças e vitórias

Pai dos direitos humanos?
Hoje é o aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos. A Renascença publicou dois trabalhos (um terceiro sairá em breve), sobre os direitos humanos por uma perspectiva católica.




Ainda no campo dos direitos humanos, o Papa chamou atenção para o “escândalo” da fome.


Sabia que o que os protestos na Ucrânia têm também contornos religiosos? Saiba mais aqui.

Por fim, mais dois textos de análise à exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”. O que diz o Papa sobre a Família, e o que diz sobre o Perdão.

Tuesday, 29 January 2013

A situação actual das relações com a SSPX

Menos razões para sorrir actualmente...
Neste blogue tenho feito os possíveis por acompanhar a questão da Sociedade Sacerdotal de São Pio X, o grupo tradicionalista que se encontra em ruptura com Roma e que é constituído por seguidores do falecido Arcebispo Marcel Lefebvre.

Durante o ano de 2012 chegou-se a pensar que uma reunificação com Roma estaria iminente, mas em cima da hora isso não se concretizou. Muitos deram então o processo de diálogo por concluído e, de facto, durante muitos meses não se ouviu nada de positivo, apenas silêncio da parte do Vaticano e bocas e insinuações menos simpáticas da parte da SSPX.

Desde então, contudo, deram-se dois desenvolvimentos dignos de nota.

Em primeiro lugar correu o boato, por enquanto não confirmado, de que o bispo tradicionalista Richard Williamson, expulso da SSPX por insistente desobediência ao superior geral Bernard Fellay, estaria a planear viajar para os Estados Unidos para participar num encontro da Sociedade de São Pio X da Estrita Observância, um grupo que se separou da SSPX pela “traição” de Fellay se ter atrevido a entrar em diálogo com Roma e a considerar a possibilidade de reunificar.

Mais, de acordo com este boato, Williamson estará mesmo a planear consagrar um novo bispo para estes tradicionalistas, nomeadamente o padre Joseph Pfeiffer, que tem sido particularmente crítico de Fellay.

Recordo que segundo a doutrina católica um bispo validamente consagrado pode ordenar outros bispos validamente. O facto de o fazer sem autorização do Papa faz com que a ordenação seja ilícita, mas não inválida. Por isso, a confirmar-se este desenvolvimento veremos provavelmente a multiplicação de bispos tradicionalistas ordenados por Williamson e Pfeiffer.

Tradicionalistas há muitos... nesta foto o "Papa"
Miguel I, dos EUA, residente no Kansas.
Será este o futuro da SSPX?
Este efeito de fragmentação da SSPX é tudo menos surpreendente. Quando se abraça a ideia da rebelião contra o poder instituído por não se concordar com o rumo, é apenas natural que o mesmo aconteça no seio do novo grupo. É assim com os protestantes e é assim com os mais diversos grupos tradicionalistas. Se a SSPX não se reunificasse com Roma um desenvolvimento destes seria uma questão de tempo, como eu alertei já em Dezembro de 2011 quando parecia certo que as negociações com Roma iam falhar.

Tomás de Aquino como arma
O outro desenvolvimento recente já não pertence ao mundo das especulações.

O ano passado, quando se percebeu que afinal a reunificação tinha caído por terra, o Papa substituiu o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Para o lugar foi um homem da confiança de Bento XVI mas que tinha um historial de conflitos com a SSPX, que na Alemanha operava um seminário na sua diocese.

Era claro que Gerhard Muller não era o homem indicado para representar a Santa Sé nestas conversações. Contudo, Bento XVI não dorme e ao mesmo tempo nomeou para vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei (sendo que o presidente é sempre o prefeito da CDF, neste caso Muller), o arcebispo Di Noia, ele sim uma figura encarada com muito menos suspeição pelos tradicionalistas. Tornava-se claro quem é que na verdade iria conduzir eventuais diálogos.

Este mês de Janeiro, farto de ver os tradicionalistas a contar apenas a sua versão dos acontecimentos que levaram ao fracassar da última ronda de conversações, Di Noia escreveu uma carta fortíssima endereçada a todos os padres da SSPX.

Nesta carta ele repudia muito claramente o emprego de linguagem e tons críticos por parte dos tradicionalistas, chamando ainda atenção para a carta que Bento XVI escreveu aos seus próprios bispos católicos a lamentar a falta de solidariedade que sentiu quando iniciou esta reaproximação.

Di Noia cita muito São Tomás de Aquino que identificou quatro grandes obstáculos à unidade: Orgulho, ira, impaciência e zelo desordenado. Estes obstáculos apenas podem ser ultrapassados com recurso às virtudes de humildade, mansidão, paciência e caridade.

O arcebispo reconhece que as barreiras que separam Roma da SSPX, apesar de anos de conversações, têm-se mantido basicamente iguais e que por isso torna-se necessário injectar no debate novas perspectivas e uma abordagem mais espiritual e teológica.

Não é fácil resumir a carta e recomenda-se a sua leitura na íntegra, pois é de facto muito boa e forte. Pode ser lida aqui em português do Brasil, numa tradução pela qual evidentemente não me responsabilizo, e aqui em inglês, a versão que eu próprio consultei.

Quanto ao futuro, a Deus cabe. De facto, neste momento se tivesse que apostar não seria na reunificação mas sim numa acelerada auto-destruição da SSPX... contudo, em Dezembro de 2011 estava no mesmo estado de espírito e apenas sete meses mais tarde estava preparado para anunciar uma reviravolta a qualquer momento. Por isso prefiro não arriscar. Em todo o caso, humanamente, diria que as coisas estão neste momento muito difíceis.

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