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Wednesday, 2 March 2016

A Igreja e o Islão

Howard Kainz
O pastor evangélico Franklin Graham – filho do lendário Billy Graham – caracteriza o Islão como “uma religião cruel e muito má… uma religião de ódio, uma religião de guerra.” Ao longo dos últimos anos outros pastores conhecidos fizeram declarações semelhantes. Acontece que vários papas também.

No Século XIV Clemente V lamentou que em terras cristãs ainda se ouça a “invocação pública do nome sacrílego de Maomé”; no Século XV, Calisto III denunciou o Islão como sendo uma “seita diabólica”. Pio II criticou Maomé como “falso profeta” e o Papa Eugénio condenou a “seita abominável de Maomé”; no Século XVI o Papa Leão X disse que os muçulmanos tinham substituído a luz da salvação por uma “cegueira total e obstinada”; e no Século XVIII o Papa Bento XIV criticou os cristãos que promovem, indirectamente, “os erros de Maomé” quando adoptam nomes muçulmanos para evitar impostos ou outras penalizações por parte das autoridades islâmicas.

Também santos de séculos passados, como Tomás de Aquino ou João Damasceno, apelidaram o Islão de “diabólico”.

“Diabólico”? “Cruel”? Serão exageros? Muitos de nós conhecemos um bom número de muçulmanos individuais que são boas pessoas. Mas poderá ser que a sua religião seja má? Pode-se distinguir entre a bondade dos membros individuais e a sua religião?

O Papa Bento XVI toucou ao de leve na alegada “maldade” do Islão no seu famoso discurso de Ratisbona em 2006, sobre a necessidade de se unir a razão e a religião. Citou o exemplo de um imperador do Século XIV que descrevia o Islão como inerentemente violento e irracional, logo, mau. Isso provocou uma revolta mundial e vários episódios de violência, levando o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, futuro Papa, a comentar: “Essas afirmações servirão para destruir em vinte segundos a relação cuidadosamente construída com o Islão, ao longo dos últimos vinte anos, pelo Papa João Paulo II”. Acrescentou que tais declarações “não reflectem as minhas opiniões”.

E o que dizer dos relatos de atrocidades islâmicas, tanto no passado como no presente? A “World Watch List” de 2015 deu conta de 4.344 cristãos mortos por razões ligadas à fé e 1.062 igrejas atacadas. A lista de 2016 documenta casos de 7.106 mortes e 2.425 igrejas atacadas. Há literalmente milhares de casos de violência contra cristãos e destruição de igrejas no Egipto, Paquistão, Síria, Iraque, Irão, Indonésia, partes de África e noutros locais do mundo islâmico.

O Papa Francisco deve estar bem informado sobre tais eventos, mas na sua exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, diz que “frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.”

Ao assumir esta posição Francisco, um “filho fiel da Igreja” está a ecoar o Concílio Vaticano II. No Concílio o Papa João XXIII, como parte do seu objectivo de “abrir as janelas da Igreja” pediu aos participantes para reconsiderarem a relação da Igreja com o Judaísmo, evitando as posições teológicas e litúrgicas que tinham um historial de contribuir para o anti-semitismo. Inicialmente não havia qualquer ideia de fazer pronunciamentos sobre o Islão; mas como já referi noutro artigo, alguns padres conciliares e teólogos no concílio queriam incluir o Islão em documentos oficiais sobre “religiões não-cristãs”.

Louis Massignon
Nisto pesou muito o trabalho de Louis Massignon (1883-1962), um católico especializado no Islão e pioneiro de esforços de compreensão mútua entre católicos e muçulmanos. Massignon ensinava que era preciso fazer uma “revolução copernicana” na nossa abordagem e compreensão do Islão. Devíamos colocar-nos no centro da mentalidade islâmica, compreender a sua espiritualidade e conduzir um diálogo a partir dessa perspectiva.  

Durante o Concílio um dos discípulos de Massignon, o teólogo dominicano egípcio Georges Anawati (1905-1994) liderou os esforços, juntamente com outros, para se incluir afirmações positivas sobre o Islão nos documentos oficiais. O sucesso deste grupo vê-se na Nostra Aetate e na Lumen Gentium, que contêm comentários laudatórios sobre o Islão: “Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos”, uma religião abraâmica e monoteísta, que se submetem de todo o coração aos “decretos, mesmo ocultos,” de Deus, partilhando muito com o Cristianismo no que diz respeito a crenças básicas e ensinamentos morais.

Mas tendo em conta o ódio para com outras religiões que se revela nas escrituras islâmicas, bem como o enorme número de assassinatos, incêndios de igrejas e perseguições que temos visto nas últimas décadas, será tudo isto apenas uma mão cheia de boas intenções? Na Igreja de hoje as condenações de aspectos evidentes do Islão são praticamente inexistentes.

O Papa Pio XI publicou o Mit brennender Sorge, uma crítica aberta ao regime nazi e o Divini redemptoris contra o comunismo. Já Pio XII optou por trabalhar de forma discreta mas persistente, durante o seu pontificado, para derrotar o nazismo e salvar judeus. O que teria acontecido se tivesse publicado uma condenação firme ao nazismo?

Durante o Concílio Vaticano II a União Soviética era um flagelo global e Nossa Senhora de Fátima, nas aparições extraordinárias que coincidiram com o início da revolução comunista, avisou a Igreja sobre o perigo de a Rússia “espalhar os seus erros através do mundo”. Mas, incrivelmente, não houve um só cheirinho de crítica ao comunismo no Concílio. E se Paulo VI tivesse condenado a União Soviética, o leninismo e o marxismo? A cautela diplomática deve influir nos pronunciamentos papais? Ou devíamos seguir o lema do Imperador do Sacro Império Romano, Fernando I, “Fiat justitia, pereat mundus”, seja feita a justiça, nem que o mundo pereça?

No que diz respeito ao Islão actualmente, uma condenação clara da religião, tal como foi feita pelos papas nos séculos passados, resultaria, podemos estar certos, em graves perturbações por todo o mundo – talvez uma Terceira Guerra Mundial. E uma condenação dessas poderia ainda afectar injustamente os muçulmanos moderados a par dos extremistas. Mas mesmo sem se condenar, os elogios constantes parecem-me descabidos. Quanto ao termo “religião da paz” é altura de ter em conta a interpretação tradicional de “paz” no Islão: O mundo encontra-se dividido em duas “casas” – a Casa da Paz (Dar Al-Salaam) e a Casa da Guerra (Dar Al-Harb). Na primeira, cabem apenas os muçulmanos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Março de 2016)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 2 October 2013

Ratisbona Revisitada: As Raízes da Violência Islâmica

James V. Schall S.J.
Num recente artigo no “L’Osservatore Romano”, Sandro Magister comentou a ausência de respostas significativas à violência contra os cristãos no Médio Oriente. Mas este “silêncio público dos líderes espirituais islâmicos não surpreende. Acontece o mesmo cada vez, e em cada parte do mundo, que ocorre um acto de violência com origem muçulmana”. A matança de cristãos por parte de muçulmanos claramente não é vista como um problema islâmico, ou pelo menos não como um problema que seja discutido livremente em público.

Este silêncio não se pode explicar apenas com um “calculismo oportunista, ou por medo de represálias”. No Egipto, ambas as facções islâmicas que lutam pelo poder reclamam o direito a usar a força e encaram a acção política como “jihad, como guerra santa.” Logo, a violência é legitimamente usada como um princípio de acção sancionado pela religião.

Para compreender as causas desta violência, sugere o jornal do Vaticano, devemos regressar à conferência de Ratisbona de Bento XVI de 2006. A reacção violenta do mundo islâmico perante esta conferência foi a “trágica confirmação” da verdade da sua tese. “A violência oriunda da fé é um produto inevitável da ligação frágil entre fé e razão no pensamento islâmico e no seu entendimento de Deus”.

A violência recorrente nos países islâmicos, tanto contra os seus próprios crentes como contra aqueles que pertencem à “área de guerra”, isto é, todos os outros, tem raízes teológicas. “Nenhum Papa anterior a Bento XVI teve a visão e a coragem de tecer um juízo tão claro sobre o Islão, nem de formular com tanto rigor as diferenças entre o Islão e o Cristianismo.”

Muitos, mesmo no interior da Igreja, criticaram Bento XVI. Porém, quando ele viajou para a Turquia nesse mesmo ano, realçou que o Islão tem de enfrentar os mesmos problemas que o Cristianismo durante o Iluminismo, nomeadamente, “direitos humanos e uma verdadeira liberdade de fé e da prática religiosa”.

Qual era a principal conclusão de Bento XVI? Ilustrou-a recordando uma conversa medieval entre um imperador bizantino e um cavalheiro persa. A questão básica estava em saber se era divinamente permitido espalhar a fé pela violência, como o Islão tinha feito contra as terras cristãs no Médio Oriente. Algumas passagens do Alcorão dizem que não; outras dizem que sim. Como se pode justificar a utilização das que sancionam a violência? Justificam-se com a filosofia, ou talvez com ausência dela. Esta justificação é aquilo que de que se fala quando se menciona as “origens intelectuais” da violência islâmica. Não se trata de uma mera aberração, foi concebida como uma forma de seguir a vontade de Alá.

Como assim? A revelação cristã dirigiu-se à razão, daí a sua atenção a Platão e Aristóteles. Isto significa que a razão era autónoma. Algo contrário à razão – como a ideia de que Deus aprovava da violência para forçar uma conversão – não podia ser algo “revelado” por Deus acima da razão.

Ele, o Logos, também é responsável por tudo o que no mundo não é Deus. Esta proibição não significa que não se pode usar a força para nos protegermos contra uma violência injusta por parte de outros. Significa, isso sim, que a utilização da força bruta para expandir a nossa religião não é de Deus.

Cristãos rezam numa igreja destruída por extremistas

Se esta proibição da violência é ditada pela razão, então como é que os exércitos islâmicos e os indivíduos, ao longo dos séculos, não tiveram dificuldade em recorrer a ela? A resposta é filosófica. Esta justificação filosófica surge de diversas formas ao longo da história. Faz parte da nossa cultura hoje em dia, na forma de relativismo e de multiculturalismo. Basicamente, significa que não existe nada de objectivo. Logo, nada limita nada. Somos “livres” para fazer o que bem entendermos. Esta posição costuma ser apelidada de “voluntarismo”, uma forma dominante de liberalismo.

Na sua forma islâmica, ela parece ter as suas raízes em al-Ghazali e em Ibn Hazm, a quem Bento XVI se referiu. No Islão, a noção de que Deus está limitado por alguma coisa, incluindo os seus próprios decretos ou a razão, é considerada insultuosa. Alá pode fazer o oposto do que comanda. Ele pode chamar bom ao que é mau e mau ao bem. Não está sujeito a qualquer obrigação de revelar a verdade ao homem. E se o fizer pode mudar de ideias e desejar o oposto mais tarde. Estas posições estão claramente referidas na conferência de Ratisbona.

Logo, a raiz filosófica da violência significa que é perfeitamente legítimo usar da violência para converter pessoas, desde que Alá o ordene, como aparentemente faz. Negar esta possibilidade como “irracional” seria em si uma blasfémia. Seria afirmar que a razão pode limitar a liberdade de Alá, à qual nos devemos submeter como sendo a única realidade à qual devemos dar atenção.

Se os líderes muçulmanos não entendem que devam protestar contra a perseguição em larga escala de cristãos, e de outros, em terras muçulmanas, é porque na sua religião lhes falta o critério pelo qual podem julgar como irracional algo que é suposto ser revelação.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 2 de Outubro de 2013 em The Catholic Thing)

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