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Wednesday, 30 March 2016

Diálogo Confuso com os Muçulmanos

Robert Reilly
Em 2013 a Faith and Reason Institute (que detém o The Catholic Thing) publicou, juntamente com a Westminster Institute uma monografia que eu escrevi sobre as Perspectivas e Perigos do Diálogo Católico-Muçulmano. Neste texto examinei uma década e meia de esforços por parte das três conferências episcopais regionais de desenvolver este diálogo. Os resultados não eram encorajadores.

Quem não se mostrou minimamente preocupada foi a Conferência Episcopal dos EUA, que aumentou a parada e criou uma comissão de diálogo nacional. O que podemos esperar desta iniciativa? Mais confusão, temo dizer.

Há vários problemas. Tal como a maioria dos Americanos, os bispos sabem pouco ou nada sobre o Islão. Logo, não compreendem o contexto em que falam os seus interlocutores. O resultado é que partem do princípio que os seus parceiros de diálogo são apenas uma imagem espelhada deles mesmos. É um grande erro.

Um exemplo foi dado recentemente pelo bispo de San Diego, Robert W. McElroy, no Instituto de Justiça e Paz da Universidade Joan B. Kroc, em San Diego. O Catholic News Service fez manchete com “Bispo desafia católicos a combater ‘maré feia de preconceito anti-islâmico’”. O bispo considera que os católicos devem erguer a voz contra as “distorções de ensinamentos e teologia muçulmana sobre a sociedade e o Estado”.

Que distorções são essas? Aparentemente devemos ver com revolta as “repetidas falsidades” de que o Islão é inerentemente violento, que os muçulmanos procuram impor a Sharia no lugar da Constituição americana e de que a imigração muçulmana ameaça a “identidade cultural do povo americano”.

O parceiro de diálogo do bispo McElroy nessa noite era Sayyid Syeed, líder da Sociedade Islâmica da América do Norte (ISNA), cujo nome já me era conhecido por ser uma presença regular no diálogo católico-muçulmano da minha região. Talvez o bispo não conhecesse a história do ISNA, que surgiu da Irmandade Muçulmana, a primeira organização no mundo a trabalhar pelo restabelecimento do califado e que se dedica à implementação da Sharia.

Mas não se fiem apenas em mim.

O Dr. Muzammil Siddiqi, ex-presidente do ISNA e participante frequente nas sessões de diálogo, disse o seguinte ao jornal “Pakistan Link”: “Não nos devemos esquecer que as leis de Allah devem ser estabelecidas em todas as terras, e que todos os nossos esforços devem conduzir-nos nessa direcção”. Em 2001 escreveu “à medida que mais pessoas aceitam o Islão, insha’allah, isso levará à implementação da Sharia em todas as regiões”.

Zuhdi Jasser, fundador do Forum Islâmico Americano para a Democracia adverte que, na convenção anual do ISNA em 1995, o orador principal, Imam Siraj Wahhaj, pediu a substituição da Constituição pelo Alcorão. Não admira que Jasser lamenta aquilo a que chama uma “relação infeliz entre a hierarquia católica e o ISNA”. (Jasser, ao que parece, não seria um bom parceiro para este tipo de diálogo).

Embora reconheça a situação terrível que os cristãos enfrentam no Médio Oriente, o bispo McElroy louvou o respeito do Islão pelo que chama “os povos do Livro”. Foi logo ecoado por Syeed que disse, de acordo com a CNS, que o primeiro milénio foi marcado por boas relações entre o Cristianismo e o Islão, mas que tudo isso mudou no milénio seguinte, que incluiu as cruzadas.

É uma perspectiva interessante da história.

Sayyid Syeed
No ano 650 os muçulmanos já dominavam o Iraque, a Síria, Líbano, Palestina e Egipto, tudo países cristãos até então, cujos habitantes passaram a ter o estatuto secundário de dhimmis. Passado menos de um século o Islão tinha-se espalhado para o Norte de África e Espanha – tudo isto no primeiro milénio das “relações positivas”. Em nenhum destes casos a ocupação foi pacífica.

Sugiro aos bispos que coloquem nas suas listas de leitura o livro de Bat Ye’Or “O Declínio do Cristianismo Oriental sob o Islão: Da Jihad aos Dhimmis”, para que possam falar com rigor sobre o respeito que o Islão revelava pelos “povos do livro” durante o primeiro milénio e posteriormente. Com base neste passado, será tão inadequado dizer que há algo “inerentemente violento” no Islão?

Syeed concluiu, dizendo que no segundo milénio “as duas fés dividiram o mundo em ‘a casa do Islão’ e ‘a casa do Cristianismo’”. Na verdade essa divisão foi feita muito antes e pelo Islão, que criou a distinção entre dar al-islam e dar al-harb, com o mundo cristão a ser descrito como a “casa da Guerra”.

Mas será esta distinção seja antiquada? Por volta da mesma altura em que o bispo McElroy falava, num sermão de sexta-feira em Edmonton, Alberta, o imã Shaban Sherif Mady declarava: "Anseiam por isto, porque o profeta Maomé disse que Roma iria ser conquistada! E será conquistada. Constantinopla foi conquistada. Roma é o Vaticano, é o coração do Estado cristão".

Pergunto, então, quem é que está a entender mal o Islão, o Imã Siraj Wahhaj ou o bispo? (Nem falo em Syeed, porque ele saberia certamente que Maomé disse isto).

Por outras palavras o evento do Instituto de Paz de San Diego proporciona um microcosmos para tudo o que costuma correr mal com o diálogo católico-muçulmano quando este é conduzido pelas conferências episcopais. Nenhum dos muitos reformadores muçulmanos intelectuais com quem trabalhei ao longo dos anos foi alguma vez convidado para um encontro destes. Na maior parte, apenas as organizações muçulmanas se devem dar ao trabalho de se candidatar.

Isto ajuda a legitimar os clones da Irmandade Muçulmana e aliena as verdadeiras vozes de reforma muçulmana. Por outro lado, uma vez que acabam frequentemente por representar mal a substância, os diálogos acabam por espalhar equívocos sobre o Islão em vez de os ultrapassar.

Uma vez que os muçulmanos se estão nas tintas sobre o que os católicos dizem sobre o Islão, os únicos a quem este tipo de diálogo confunde são os próprios católicos. Sugiro, como lema para esta nova iniciativa de diálogo da USCCB, o dito de Bento XVI de que “a verdade torna possível o consenso” e, por consequência, a insensatez torna-a impossível.

De acordo com a reportagem da CNS da semana passada, o bispo McElroy disse que a revolta que domina o actual clima político é um sinal de alienação popular por as pessoas não sentirem que estão a ser ouvidas pelas elites. O bispo McElroy é uma das elites. Estará a ouvir?


Robert Reilly é director do Westminster Institute e ex-director da Voice of America. Leccionou na National Defense University e serviu na Casa Branca e no Gabinete do Secretário da Defesa. É autor de The Closing of the Muslim Mind: How Intellectual Suicide Created the ModernIslamist e o seu mais recente livro é Making Gay Okay: How Rationalizing Homosexual Behavior is Changing Everything.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 21 de Março de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 21 May 2014

O Direito ao Erro

Brad Miner
O novo livro de Robert R. Reilly, “Making Gay Okay: How Rationalizing Homosexual Behavior is Changing Everything”, fala da natureza, compreendida como o telos no sentido do qual todas as coisas criadas procuram a sua perfeição.

Fala também de sodomia, um comportamento claramente antinatural e que, como Reilly comprova meticulosamente, sempre foi visto como tal. Veja-se Sócrates, Platão e Aristóteles – todos gregos, claro, cuja cultura é frequentemente (e erradamente) descrita como homofílica – todos eles criticaram a sodomia como desordenada.

A prova do homossexualismo emergente na América tem estado diante dos nossos olhos há décadas, mas a maioria, tendo visto os sinais, simplesmente partiu do princípio que o objectivo final não seria muito mais do que a tolerância. Quem diria, há vinte anos sequer, que o movimento pelos direitos homossexuais procurava uma autêntica transformação cultural?

Aliás, há apenas dois anos podia-se dizer – com o que hoje parece um optimismo absurdo – que afinal de contas, sempre que os cidadãos tinham sido chamados a decidir sobre a questão do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, a iniciativa tinha sido chumbada. Mas depois vieram os tribunais, na sua sabedoria, para corrigir a vontade torta do povo. Como é que chegámos a isto?

A filosofia política ocidental dividiu-se em dois ramos distintos no século XVIII: Um radica em Edmund Burke e William Blackstone e atravessa a fundação dos Estados Unidos, desembocando no conservadorismo moderno; outro, com origem em Jean-Jacques Rousseau e a Revolução Francesa, levou ao liberalismo contemporâneo. Este segundo ramo, o liberal, continua sob a influência da visão antiteleológica de Rousseau e  foi reforçada pelo existencialismo, multiculturalismo e outros entusiasmos de esquerda. O primeiro ramo, o conservador, que manteve a teleologia, tem passado grande parte dos últimos dois séculos a tentar encontrar uma forma, que não o totalitarismo, de subjugar as paixões pagãs soltas pelo segundo.

Porque se o Homem é a última fonte do sentido, se a humanidade não discerne os fins morais inerentes à Natureza, fixados pelo Deus da Natureza, então, como escreve Reilly, encontramo-nos diante de um paradoxo, sobretudo para os que defendem os “direitos homossexuais”, isto porque...

… os proponentes da homossexualidade estão a defender uma causa que apenas pode vingar se obliterar a própria compreensão de Natureza da qual depende a nossa existência enquanto povo livre... A sua reivindicação de direitos subverte os direitos que reivindicam. Porquê? “Se a Natureza for negada, então a justiça reduzir-se-á necessariamente a aquilo que é desejado o que, por sua vez, se transforma na lei do mais forte”.

Dizer que as uniões homossexuais são normais, após milhares de anos a acreditar no contrário, implica “pôr de lado Sócrates, Platão, Aristóteles, o Antigo Testamento e o Novo, Agostinho e Aquino”. Reilly cita exemplos de mudança de normas culturais e de decisões judiciais recentes, através dos quais este “pôr de lado” já começou.

Claro que não é só a sodomia que tem sido libertada por este determinismo anti-teleológico, mas a contracepção e o aborto também, bem como o divórcio, sexo pré-matrimonial e em breve, quiçá, a pedofilia e o bestialismo.

Escrevendo sobre Lawrence v. Texas, a decisão do Supremo Tribunal de 2003 que considerou inconstitucional uma lei que bania o sexo “gay”, Reilly pergunta: “Porque é que levou mais de dois séculos para que o tribunal descobrisse um direito à sodomia?” Responde que foi porque o Tribunal considerou que os fundadores simplesmente não tinham compreendido a liberdade e “as suas múltiplas possibilidades”.

Pelos vistos o próprio tribunal também não o tinha compreendido no caso de Bowers v. Hardwick, 17 anos antes, quando declarou que não existia qualquer direito constitucional à sodomia.

Os juízes e os seus apoiantes nos media decidiram que a tradição é, frequentemente, um sinónimo de opressão. Quanto aos que se mantêm agarrados “aos nossos deuses e às nossas armas”, as elites vêem-nos como perdidos naquilo a que Engels chamou “falsa consciência”.


O Governo tem sido movido a agir não tanto por compaixão, mas mais por pressão dos media e dos lobbies. O mesmo tem acontecido através da cultura.

Foram essas pressões que levaram a uma campanha bem-sucedida, em 1973, para retirar a homossexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística, a bíblia de desordens mentais da Associação Psiquiátrica Americana, onde constava desde 1952.

A indústria do entretenimento tem feito todos os esforços para povoar os filmes, comédias e séries de personagens homossexuais, com o objectivo de nos dessensibilizar para o “amor que não ousa manifestar-se”, agora conhecido como o “amor que não nos dá um minuto de descanso”.

“Making Gay Okay” inclui capítulos curtos sobre o impacto e as consequências de parentalidade homossexual, “estudos” homossexuais e a influência do homossexualismo nas Forças Armadas, política externa e o movimento dos escuteiros.

Nos anos 80 estava num jantar em que um activista homossexual disse a umas feministas que os homens gay apoiavam absolutamente o aborto. Questionei-me na altura sobre a coincidência de interesses. Era demasiado bronco, ou ingénuo, para compreender a forma como partilham esta inversão da realidade.

Talvez porque, em mais novo, abracei brevemente (mas com vigor) a moda da “liberdade sexual”, quem sabe, a primeira das inversões da verdade. Há muitos na minha geração que sentem relutância em criticar as escolhas sexuais dos outros, tendo tomado decisões tão erradas quando eram mais novos.

Chegou a hora de crescer.

“Making Gay Okay” é uma lição em filosofia, psicologia, história, direito, política e ciência. Para dizer a verdade, até vai aprender coisas que preferia não saber, como o significado de “bug chasing”, por exemplo. Mas para isso vai ter de comprar o livro.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 19 de Maio 2014 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 27 January 2012

Como se diz colaboracionista em língua gestual?

Homem de Deus ou agente Hristov?
Tem curiosidade em saber como é uma missa para surdos-mudos? Amanhã celebra-se uma em Leiria, às 19h. Trata-se de uma iniciativa importante, o ministério para surdos-mudos tem muito que caminhar na Igreja. Mas pode uma missa ser celebrada em língua gestual? A resposta a essa e outras questões, aqui.

A Igreja Ortodoxa da Bulgária está a ser abalada pela revelação de que 11 dos 15 membros do Santo Sínodo eram colaboradores da polícia secreta do regime comunista. Falámos com o padre da comunidade ortodoxa búlgara em Lisboa, que fala numa tentativa de descredibilizar a Igreja.

Seja como for, a Bulgária será um dos últimos países do Bloco de Leste a ser abalado por este escândalo que também afectou a Igreja Católica, por exemplo na Polónia.

Na Nigéria as preocupações são outras. A Ajuda à Igreja que Sofre fala em 35 mil cristãos que já fugiram do Norte do país. Sobre este assunto volto a chamar atenção para este artigo de The Catholic Thing, que publicámos em português no blogue.


Thursday, 26 January 2012

Corrupção na Santa Sé e novamente os feriados

Corrupção no Vaticano? A acusação parte do actual representante do Papa em Washington (na imagem). A Santa Sé já reagiu, lamenta a forma “facciosa” como a notícia foi divulgada, mas não desmente os factos…


Foi morto um padre nos protestos na Síria ontem, só não se sabe se pelo regime ou pelos manifestantes.

Ontem o Papa voltou a falar do ecumenismo. Recomendou “tempo e paciência” aos envolvidos.

Wednesday, 25 January 2012

A causa da chuva e as fontes da violência na Nigéria

Robert Reilly
Neste Natal que passou um grupo islamista no Norte da Nigéria, conhecido como Boko Haram, colocou bombas em duas igrejas cristãs, matando mais de quarenta pessoas, incluindo trinta e sete paroquianos que estavam a deixar a repleta missa matinal na Igreja Católica de Santa Teresa, em Madalla. Muitos outros ficaram feridos. O seu líder actual, o Imam Abubakar Shekau, já avisou que vai haver mais ataques. Porquê? Qual é a relação entre a visão da realidade que este grupo tem e a violência que pratica?

Fundado em 2002 por Mohammed Yusuf (1970-2009), o Boko Haram tem o objectivo de implementar um governo Sharia. O nome oficial do grupo é Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad, o que em árabe significa Pessoas Comprometidas com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta e com a Jihad. Boko Haram, como é mais familiarmente conhecido, significa “A educação ocidental [não islâmica] é sacrilega”.

Quando interrogado pelos aparelhos de segurança do estado, Yusuf terá proclamado: “Todo o conhecimento que contradiz o Islão é proíbido pelo Todo Poderoso.” De que conhecimentos estava a falar? Numa entrevista à BBC, pouco antes de ter sido morto por forças nigerianas em 2009, explicou:

Há pregadores islâmicos distintos que viram e compreenderam que a educação ocidental actual está embrenhada de questões que são contrárias às nossas crenças islâmicas. Como a chuva. Nós acreditamos que é criada por Deus e não que é água evaporada pelo sol que se condensa e se torna chuva. Como dizer que a terra é esférica. Se é contrário aos ensinamentos de Alá, rejeitamo-lo.”

Nesta afirmação, Yusuf revela estar perfeitamente familiarizado com a explicação científica da chuva, mas rejeita-a por razões religiosas. Para muitos isso parecerá estranho, excêntrico, mesmo, mas esta visão tem fortes raízes numa parte significativa do Islão Sunita. Radica na concepção da omnipotência de Deus e o problema da causalidade no mundo natural.

O actual líder do Boko Haram

O dilema é este: Se Deus não é a causa de tudo, pode Ele ser omnipotente? Por outras palavras, se Deus não é a causa directa da chuva, se esta é antes causada por forças naturais (causas secundárias em linguágem filosófica técnica), não estão essas forças a concorrer com Deus? Se A for a causa de B no mundo físico (como por exemplo a condensação que causa a chuva), isso não exclui Deus da equação, ou pelo menos não põe em causa a sua liberdade?

Estas são, claro está, verdadeiras questões teológicas e filosóficas com as quais se debateram todas as formas de monoteísmo. A teologia Ash’arita, que domina o Islão Sunita, concluiu que, se Deus é omnipotente então nada mais pode ser sequer potente.

Quer isto dizer que não pode haver algo como a lei natural ou causa e efeito no mundo natural. Consequentemente, tudo o que acontece se torna o equivalente a um milagre, porque Deus intervém directamente.

Esta visão tem efeitos a nível prático. Durante o governo do General Zia ul-Haq, no Paquistão, os boletins meteorológicos foram suspensos durante vários anos devido a queixas de clérigos muçulmanos que alegavam que as previsões eram ímpias. Se Deus causa o tempo sem qualquer intermediário, como é que podemos prever o que vai acontecer? Como não existe qualquer ordem inerente à natureza, quem pode dizer se vai chover ou nevar? Pretender ter tais conhecimentos é blásfemo e pretencioso.

Um amigo meu que vive no Bahrein estava a conversar com um homem de negócios árabe, muito sofisticado, que lhe disse que ia levar a família a viajar no fim do Ramadão, mas não sabia quando é que ia partir porque isso dependia do aparecimento da lua nova.

O meu amigo explicou-lhe que isso não era problema, ele podia dizer-lhe quando ia aparecer a lua nova. “Como?” perguntou o árabe. O meu amigo explicou que tinha um almanaque. O homem de negócios explicou por sua vez que ninguém pode possuir tal conhecimento. Ele teria de esperar até que o imã confirmasse o aparecimento da lua nova.

Um problema mais grave surge a respeito do uso da violência para propagar a fé. Será moralmente permissível? Esta foi a questão levantada por Bento XVI no seu discurso em Ratisbona. Podemos saber que é irracional recorrer à violência em nome da religião sem uma revelação divina nesse sentido? E como, já agora, é que a razão se torna a bitola para saber o que é moral ou imoral?


Reflectindo sobre a existência de uma ordem na natureza, os filósofos gregos concluíram que Deus é logos. Foi a ordem racional inerente às coisas criadas que levou à apreensão de que a ordem em Deus é a própria racionalidade. Se Deus é racional, então o comportamento irracional torna-se uma questão moral. Conclui-se que seria irracional usar da força contra a consciência no que diz respeito à fé.

Mas o que é que acontece se começamos com a ideia à priori de que não existe ordem no mundo natural, porque isso atenta contra a omnipotência de Deus? Isso não significa que Deus também não é logos? Se Deus não é racionalidade, então não existe qualquer obstáculo à utilização da violência para promover a fé. A combinação desta visão, com algum apoio corânico à jihad armada torna-se letal.

É esta teologia que permite que muçulmanos radicais possam transformar a sua versão de omnipotência divina numa política de poder ilimitado (que usam inclusivamente contra outros muçulmanos). Como instrumentos de Deus, eles são os canais deste poder.

Foi isto que levou Osama bin Laden a abraçar a afirmação surpreendente do seu mentor espiritual, Abdullah Azzam, que citou num vídeo em Novembro de 2001, depois dos atentados do 11 de Setembro: “O Terrorismo é uma obrigação na religião de Alá.” Esta afirmação de que a violência em promoção da fé é uma obrigação, só pode ser verdadeira se Deus está desprovido de racionalidade, como Bento XVI recordou em Ratisbona.

Se Deus está desprovido de racionalidade então não podemos prever a meteorologia, mas podemos obrigar o nosso vizinho a abraçar a nossa religião, e matá-lo caso recuse. Esta é a lógica que está por detrás do Boko Haram e as suas bombas homicidas.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 14 de Janeiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

Robert Reilly é o antigo editor de Voice of América. Leccionou na National Defense University e serviu tanto na Casa Branca como no Gabinete do Secretário da Defesa. O seu mais recente livro é “The Closing of the Muslim Mind: How Intellectual SuicideCreated the Modern Islamist”.

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Esteartigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing. 

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