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Thursday, 19 January 2023

O caso Tony Anatrella. Perguntas para meditar...

Pe. Tony Anatrella

Há vários anos, em 2005, saiu um documento de Roma a explicar que pessoas com tendências homossexuais “profundamente radicadas” não devem ser aceites como candidatos para a ordenação sacerdotal. Causou alguma polémica, mas dentro da Igreja penso que muitos viram-no como uma medida necessária para acabar com uma certa subcultura gay entre o clero, sobretudo na Europa Ocidental, que estava a causar grandes problemas.

Em 2016 a instrução foi reafirmada num novo documento. Lembro-me que na altura falei com responsáveis dos seminários de Lisboa que defenderam o documento e que até já estavam, anteriormente, a rejeitar candidatos com atracções homossexuais.

Ao mesmo tempo iam-se conhecendo histórias de homens já ordenados que, sendo homossexuais, não deixavam por isso de ser bons padres, nem levavam vidas devassas, abraçando o celibato.

Julgo que, no fundo, cabia, e cabe, aos formadores nos seminários ajuizar bem entre aqueles que são capazes de controlar os seus impulsos sexuais – seja qual for a orientação – e os que se deixam controlar por eles. Mas isso é tema para outro texto.

A razão deste texto é que há alguns anos surgiram indicações de que um dos padres que contribuiu de forma mais importante para as orientações de 2005 era suspeito de ter abusado de jovens do mesmo sexo, ainda por cima utilizando para o efeito a sua prática clínica de psiquiatra.

Esta semana essas suspeitas foram confirmadas pela decisão de afastar o Pe. Tony Anatrella, que agora tem 81 anos, de qualquer ministério sacerdotal, remetendo-o para uma vida de oração e penitência. Uma revelação como estas leva-nos obviamente a questionar muita coisa e torna-se difícil defender um documento sobre um assunto desta natureza que tenha tido mão de um homem assim.

Cada vez mais, à medida que vão surgindo estes casos, teremos de nos questionar se os pecados dos homens envolvidos, ainda que sejam pecados desta gravidade (e notem que não estamos a falar apenas de homossexualidade, ou sequer de ephebofilia – a atracção por jovens rapazes pós-pubescentes – mas de aproveitamento de uma posição de confiança e de autoridade para manipular e abusar de pessoas vulneráveis) põem em causa todo o resto da sua obra de vida.

É certo que ninguém é a soma dos seus pecados, e isso inclui pedófilos e abusadores, mas haverá pecados que são tão graves que mancham por associação o resto do que fazemos? Uma boa homilia, um bom retiro que nos ajuda, uma obra social levada a cabo, deixam de ter valor porque descobrimos mais tarde que o padre envolvido afinal tinha uma vida escondida? Lembro-me bem do choque que senti quando vi as primeiras revelações sobre Jean Vanier, que sinceramente considerava um santo.

No caso do Pe. Rupnik, de que falei recentemente, as suas obras de arte – que são sem dúvida muito belas – devem ser retiradas das igrejas porque descobrimos os requintes de malvadez dos abusos que ele praticava sobre freiras que supostamente deveria estar a dirigir espiritualmente?

E agora, no caso do Pe. Anatrella, o documento sobre o acesso ao sacerdócio, que com certeza não foi obra de apenas um homem, deve ser totalmente descartado porque descobrimos que nem ele estava em linha com o que estava a recomendar?

Lembram-se do caso McCarrick? Ele foi o principal autor e promotor da Carta de Dallas, que tem revolucionado a forma como a Igreja americana lida com a questão dos abusos sexuais. No entanto, veio-se a descobrir coisas do pior sobre ele também. Devemos descartar a Carta de Dallas?

Eu não tenho as respostas para estas perguntas. Tenho algumas ideias, mas não são bandeiras pelas quais estou disposto a lutar ainda. Acho é que devemos todos – nós que levamos a Igreja a sério e a amamos – pensar a fundo sobre estas questões porque a verdade é que nenhum de nós está a salvo de descobrir que aquele que tanto nos inspirou no passado, ou mesmo agora, afinal tinha telhados de vidro.

Wednesday, 27 October 2021

Papa no Canadá para acelerar reconciliação

O Papa vai ao Canadá para se encontrar com representantes das tribos que exigem um pedido de desculpas pelo envolvimento da Igreja Católica no sistema de colégios internos que existiam para impor a cultura ocidental às suas crianças, e onde se praticaram abusos e violência em larga escala.

Estamos na Semana dos Seminários. Dizem os responsáveis que os candidatos ao sacerdócio são menos que antigamente, sim, mas de novos meios sociais e culturais.

Começou o processo sinodal em Lisboa. D. Manuel Clemente quer que este e as JMJ avancem em conjunto, sendo que para as JMJ isso pode ser em passo de corrida.

Os bispos do Reino Unido manifestaram-se contra o projeto de legalização do suicídio assistido.

Vivemos num tempo em que acreditamos que o conhecimento é que nos ilumina. Mas haverá conhecimento que nos cega? O padre Paul Scalia acredita que sim e explica porquê neste artigo do The Catholic Thing em português, partindo do episódio do cego Bartimeu.

Tuesday, 12 November 2019

Porque não a Excelência?

Randall Smith

Está à procura de uma boa catequese para um amigo? “Oh não. Onde é que o podemos mandar sem que perca a fé?” Preparação para o matrimónio? “Epá, vão ter de aguentar, mas não liguem a grande parte das coisas que vão ouvir.” E acontece o mesmo aos bispos que querem mandar seminaristas para formação. “Oh não, onde é que os podemos mandar que não sejam corrompidos e fiquem com a fé minada?”

Porque é que estamos constantemente neste estado absurdo de procurar a opção menos má? Porque é que as instituições de educação católicas não são as melhores do país? E até do mundo?

Tenho uma amiga que trabalha com seminaristas. Ano após ano ela lida com candidatos ao sacerdócio que não sabem escrever nem lêem. Queixa-se ao responsável pelos estudos. “Sim”, diz ele, abanando a cabeça, “temos de fazer melhor”. Mas nunca fazem. Não se preocupam o suficiente para fazer a diferença. Vemos o mesmo a acontecer na educação a toda hora. Este tipo de “preocupação” é um mero sentimento, não uma intenção viva de fazer algo de concreto. Mais tempo fora da sala de aula. Mais tutoria. Mais esforço dedicado a assuntos difíceis.

Em vez disso levamos constantemente com “reorganizações” em que nada de substancial acontece. Acabamos por ver repetições do mesmo, com diferentes categorias e pessoas mudadas de um lado para o outro, com novos títulos. Depois os responsáveis dizem: “Temos uma nova e importante iniciativa”, mas de novo e importante não tem nada. Esta “importante nova iniciativa” é, de facto, praticamente igual na sua falta de profundidade às últimas cinco “novas iniciativas importantes” que não resolveram os problemas.

E para dizer a verdade, ninguém se preocupou o suficiente depois desses anúncios para garantir que estavam a resolver os problemas. Foram anunciados. Isso deixou-nos satisfeitos. O novo programa, disseram-nos, resultou de horas e horas de “trabalho árduo” – o que significa reuniões sem fim com diferentes “grupos de interesse” que era preciso apaziguar. O resultado é que acordavam no denominador comum mais baixo. Não o melhor, nem o pior, apenas o menos mau.

A minha amiga que faz tutoria a seminaristas tem de ler os seus trabalhos de “Homilética Avançada”. Um terço deles são claramente plagiados. Ela informa o seminário. Nada acontece. Já pensou porque é que as homilias são tão fracas? É porque temos seminaristas que não lêem e não sabem escrever, e raramente são obrigados a fazer uma coisa ou outra. Como é que podemos esperar que um seminarista que nunca leu e que não sabe escrever construa uma homilia sensata e entusiasmante? Que mais podemos esperar de homens tão mal treinados do que platitudes piedosas ou frases feitas ideológicas?

Futuros padres são apanhados a fazer batota numa cadeira de homilética avançada e os seus superiores limitam-se a olhar para o lado? Porquê? A resposta: “Precisamos de padres!” Mas não, do que precisamos é de bons padres. E não os teremos, não os conseguiremos desenvolver, se não deixarmos de aceitar a mediocridade e a opção menos má, insistindo antes na excelência.

Um seminarista foi ter com a minha amiga no final do ano lectivo e disse-lhe que precisava de ler mais. Queria saber o que é que devia ler. Ela recomendou as Confissões de Santo Agostinho. Quando regressou, no final do Verão, tinha lido esse e todo o Kristin Lavransdatter (mil páginas). Disse que lhe tinha mudado a vida.

Se aguentam com Rowling, aguentam com Agostinho
Estou neste momento a escrever um manual de introdução à teologia moral. Toda a gente me pergunta a que nível é que me dirijo. Respondo que estou a dirigir-me a alunos de final de liceu e universitários. “Escrevi ao mesmo nível dos meus artigos do ‘Catholic Thing’, mas cada capítulo tem umas vinte páginas”. Abanam logo a cabeça. “Não consegues meter miúdos a ler tanto, nem a um nível tão avançado. Não são capazes. Não podes esperar que leiam mais do que cinco a dez páginas de prosa simples.”

A sério? Estamos a falar de miúdos que leram os sete volumes da série Harry Potter e toda a trilogia do Senhor dos Anéis, memorizando blocos inteiros, e não podemos esperar que leiam vinte páginas do nível de escrita do “Catholic Thing” porque é “demasiado difícil” e “complicado”? Acho isso insultuoso. Recuso-me a acreditar. Porque é que temos de ser sempre arrastados por este peso da mediocridade? Porque é que não estamos constantemente a desafiá-los a ir mais longe, a procurar a excelência?

Os atletas olímpicos treinam incansavelmente, como bem nos diz São Paulo. Tenho miúdos na minha sala que treinam tanto que mal conseguem subir um lance de escadas. Mas estamos aterrorizados de os assustar, tão envergonhados pela nossa fé, que não nos atrevemos a pedir-lhes que leiam vinte ou trinta páginas que lhes possam mudar a vida?

Esperamos qualidade de excelência olímpica no desporto, mas quando chega à teologia damos-lhes papinhas de bebé? É desprezível. E acreditem no que vos digo, com isso só aprendem a desprezar-nos. Eu converti-me em adulto e lembro-me bem de me terem tentado impingir essas mesmas papinhas quando tinha a idade deles. Não me interessei pelo Cristianismo até ler as Confissões de Agostinho e o "Tratado da Lei" de São Tomás de Aquino na universidade. “Caramba”, pensei, “estes tipos são de outro nível. A religião afinal não é um conjunto de pieguices. Há aqui substância. Agora sim, estou interessado”.

Não fiquei totalmente convencido, mas tinham conseguido a minha atenção. Nada do que normalmente se destinava “aos adolescentes” tinha merecido o meu respeito ou conseguido grande parte da minha atenção. “Voltem quando tiverem algo de interessante para me dizer”, pensei – qualquer coisa séria como as pessoas que fundaram empresas, ou foram à guerra, ou amararam um jato sem motores no Rio Hudson.

Os jovens adultos gostam de se divertir, mas quando vão a uma conferência ou a uma aula querem algo sério e com substância, ou então sentem que estamos a desperdiçar o seu tempo. Já os seminaristas, se não os conseguimos convencer a levar a sério a sua vocação ao ponto de ler livros e não fazer batota, então não devemos deixar que desperdicem o tempo dos outros.




Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Novembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 February 2019

O Celibato não é o Problema, é a Solução

Pe. Carter Griffin
Muitos católicos, incluindo os mais fiéis, parecem ter desistido de defender o celibato sacerdotal. Na nossa era pós-revolução sexual, muitos vêem o celibato como uma repressão pouco saudável das vontades sexuais, fomentando a epidemia de abusos sexuais na Igreja que hoje conhecemos. Segundo esta linha de pensamento, se nos queremos livrar dos abusos sexuais na Igreja, temos de nos livrar do celibato.

Esta é uma solução que, nas palavras de um crítico literário, é “limpa, plausível e errada”.

O problema não é o celibato. Dizer que os abusos sexuais entre o clero são causados pelo celibato é como dizer que a culpa do adultério é do casamento. Em ambos os casos estamos perante violações de votos sagrados, promessas que beneficiam da ajuda do Senhor para serem vividas fielmente. Por outras palavras, permitir aos padres que se casem não evitaria as transgressões sexuais. O casamento, infelizmente, não é um espaço imune ao escândalo e ao abuso sexual.

O problema não está no celibato, está no celibato mal vivido. É causado por padres que não vivem castamente. A resposta não é a eliminação do celibato, mas exigir que os padres, tal como as pessoas casadas, vivam a exigência da sua vocação.

De facto, o celibato é em si um dom precioso e insubstituível para a Igreja. Costuma ser definido de forma negativa, como “não casar”, mas é antes uma escolha positiva, uma forma poderosa de amar, com uma unicidade de propósito e uma abertura de coração única. Permite a um padre viver a sua paternidade espiritual com particular força e eficácia.

Durante séculos os benefícios espirituais do celibato sacerdotal enriqueceram a Igreja e até a cultura mais alargada. Abolir o celibato num momento de desespero não só não resolveria o problema dos abusos sexuais, como também privava as gerações futuras das inúmeras graças de paternidade espiritual que nos chegam através do celibato sacerdotal.

Mas então como é que podemos explicar esta tempestade de escândalos? A história não é bonita, mas há boas notícias para o fim.

Em primeiro lugar, durante décadas houve surpreendentemente pouco escrutínio dos candidatos à formação sacerdotal. Normalmente bastava a recomendação de um pároco e uma demonstração de aptidão académica, não havendo investigação rigorosa da maturidade espiritual nem do carácter moral, referências ou exames psicológicos.

A Igreja insistiu persistentemente que homens com inclinações homossexuais não deviam ser admitidos ao seminário (o documento mais recente neste sentido foi aprovado pelo Papa Francisco em 2016). Todavia, estes homens eram admitidos em grande número.

A maioria dos padres com atração pelo mesmo sexo não são, claro, culpados de abusos sexuais e vivem fielmente. Ainda assim, a grande maioria dos casos de abusos por padres envolvem o abuso homossexual de rapazes. Por mais controversa que tenha sido, a sabedoria da Igreja tornou-se hoje claríssima. Ignorá-la tem tido consequências terríveis para a vida de milhares de jovens ao longo de várias décadas.

Em segundo lugar, durante anos os seminaristas receberam uma formação lamentavelmente inadequada para viver o celibato casto. Segundo o testemunho de padres formados nesses anos turbulentos entre as décadas de 70 e 80, a vida interior e as práticas ascéticas necessárias para sustentar uma castidade saudável não eram inculcadas. Muitos homens foram mesmo ordenados com a ideia errada, reforçada pelos formadores no seminário, de que a obrigação do celibato seria em breve abolida.

Nalguns seminários existia uma cultura de libertinagem sexual entre seminaristas e até entre formadores que corrompia jovens vulneráveis ou afastava, enojados, os que procuravam a virtude. A situação era tanto pior quanto, em muitos seminários, a dissidência teológica e a experimentação litúrgica eram uma praga, levando a uma duplicidade hipócrita que os homens levaram com eles para o sacerdócio.

A infidelidade intelectual conduz, invariavelmente, à infidelidade moral. Se eu posso distorcer os ensinamentos da Igreja ao sabor das minhas opiniões, preferências e desejos, porque é que hei de limitar essa arrogância às proposições dogmáticas e normas litúrgicas? Porque não aos preceitos morais também? O preço a pagar na Igreja pela dissidência que durante anos fermentou nas faculdades de teologia tem sido muito alto tanto em termos de confusão doutrinal e litúrgica como, diria, em termos de abusos sexuais.

Por fim, depois de ordenados, alguns dos padres que cresceram neste clima de duplicidade permissiva foram, sem grandes surpresas, infiéis. E raramente foram censurados por isso pelos seus superiores. Alguns foram transferidos para novos serviços, quase nenhum foi demitido do estado clerical. Muitos bispos perderam a coragem e a confiança. A dimensão da corrupção entre o clero era uma vergonha embaraçosa para os bispos e o resultado é que surgiu uma cultura de profundo secretismo que agora está a ser revelada.

Felizmente a história não acaba aqui. Contra todas as expectativas, muitos padres e bispos permaneceram fiéis através dessas décadas negras e hoje honramos o seu testemunho heroico. Depois, em 1992, foi publicado o documento seminal Pastores Dabo Vobis em que São João Paulo II propôs um retrato estimulante do sacerdócio e da formação nos seminários.

Nos anos seguintes este documento foi aplicado de forma desigual pelo mundo, mas o aumento da qualidade da formação foi inquestionável. Os requisitos para admissão na maioria das dioceses têm aumentado e a qualidade de formação na maioria dos seminários melhorou drasticamente. Embora muitas pessoas não o compreendam, a reforma do clero começou há bem mais de duas décadas.

Claro que ainda há muito para fazer. Uma vez que o celibato é uma forma privilegiada de viver a paternidade espiritual, devemos continuar a melhorar a seleção e formação de futuros padres à luz dessa paternidade. Eles devem estar imbuídos de uma identidade masculina confiante e um desejo normal e saudável pelo casamento e pela paternidade, bem como a capacidade madura de poder abdicar destes grandes dons para se poderem focar na paternidade sobrenatural e possuir, ou demonstrar aptidão para, as qualidades e virtudes humanas dos melhores pais naturais.

Depois de ordenados, os padres devem ter de viver segundo os mais altos padrões de castidade. Deve-se lidar com as violações desse compromisso de forma consistente, imediata e justa, com a seriedade correspondente a uma violação de confiança grave contra a família espiritual. A castidade – serena, profunda e alegre – ao serviço da paternidade espiritual é sem dúvida o caminho para uma reforma genuína no sacerdócio.

Com a melhor das intenções, os médicos medievais costumavam tratar as doenças sangrando os seus pacientes. Sem o saber, estavam a privá-los dos nutrientes de que precisavam para se curar. Aqueles que procuram curar a doença dos abusos sexuais na Igreja sangrando-a da graça do celibato não conseguirão curar a doença e privarão o corpo de Cristo dos nutrientes tão necessários à restituição da saúde.

Se queremos abordar o problema dos abusos sexuais praticados por membros do clero, podemos começar por exigir a mesma fidelidade aos nossos padres que exigimos a toda a gente, convidando-os a abraçar, através do dom do celibato, as bênçãos da paternidade sacerdotal de que precisamos mais do que nunca.


O padre Carter Griffin é sacerdote da Arquidiocese de Washington. Está envolvido, desde 2011, com a seleção e formação de seminaristas no Seminário São João Paulo II, em Washington, DC. O padre Griffin é licenciado pela Universidade de Princeton e é ex-oficial da marinha americana. O seu livro Why Celibacy?: Reclaiming the Fatherhood of the Priest, será publicado pela Emmaus Road na Primavera. Uma versão mais longa desta deste artigo pode ser lido no site do First Things.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 24 de fevereiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 10 November 2017

Lutero, quero apresentar-te a caixa de Pandora

É só uma cena que escrevi... Não vai dar em nada... 
O Papa Francisco pediu hoje a abolição das armas nucleares. Foi durante uma conferência sobre o assunto, que se realizou na Santa Sé.

Decorre até amanhã uma enorme conferência em Lisboa sobre os 500 anos da Reforma. Hoje conversei com um dos oradores, o baptista Timóteo Cavaco, que diz que Lutero não teria ideia da dimensão daquilo que estava a iniciar, mas que a fracturação das igrejas protestantes era inevitável.

Os dehonianos associam-se este ano de forma especial ao dia mundial dos pobres, que foi instituído pelo Papa Francisco, e as dominicanas do Convento dos Cardaes convidam-nos novamente para irmos comprar os produtos feitos localmente, ou assistir a um concerto, para ajudar as raparigas com necessidades especiais que vivem naquele espaço.

Começa no domingo a Semana dos Seminários. Os bispos pedem aos católicos que valorizem as instituições onde se formam os padres.

Recordo que podem ler no blog a transcrição integral da entrevista que a minha colega Aura Miguel fez ao Cardeal Burke, há dias. E não deixem também de conhecer a história de Nabeel Qureshi, cujo pai, um oficial da armada paquistanesa, nunca mais andou altivo desde o dia em que soube que o filho se convertia ao Cristianismo

Wednesday, 12 August 2015

"Ser padre é uma experiência dolorosa. Porque amar dói"

Transcrição integral da entrevista feita ao padre Ricardo Neves em Dezembro de 2009 e que foi incluída na série “Vidas Consagradas” feita para o Ano Sacerdotal. O padre Ricardo, de quem tive o privilégio de ser próximo e amigo, morreu no passado dia 6 de Agosto.


Pode contar-nos um pouco da sua história?
Tenho 37 anos e sou filho único, os meus pais são do Alentejo, casaram e viveram em Lisboa, e depois em Rio de Mouro. Fiz o trajecto normal de estudos e de catequese. Porque a minha mãe era praticante mas o meu pai não, e tinham um acordo que o meu pai começava a ir à Igreja quando eu começasse a ir à catequese.

Vida normalíssima em casa, e na Igreja, em termos de vida cristã normal e muito gira a partir de certa altura. Na minha adolescência a participação na vida da comunidade era muito intensa, muito participada, com muito crescimento quer pessoal quer comunitário, que na altura foi o que me interpelou, na altura também através da figura do pároco, o célebre padre Alberto Neto, famoso em Lisboa por causa do caso da Capela do Rato, e que tinha sido coadjutor em Belém.

Foi um homem que me interpelou imenso pelo tipo de pastor que era, e porque me foi desinquietando, foi fazendo umas “perguntas indecentes”, perguntando se já tinha pensado nisto e naquilo.

E começou a crescer dentro de mim… Ao mesmo tempo que havia uma enorme alegria em ser cristão e fazer parte da vida da Igreja, comecei a interrogar-me o que é que os outros teriam a ver com isso, especialmente porque na minha experiência de liceu e de escola havia muita gente que conhecia que não era cristã e que podia beneficiar muito se conhecesse e experimentasse o que eu conhecia.

Isso começou a tornar clara a interrogação de ser sacerdote e de consagrar a minha vida a esse serviço.

Depois entrou um período de reflexão, até que fui dizer a Deus que se decidisse, para eu saber o que fazer. Pedi-lhe: “Manda-me um sinal, porque se me disseres o que queres eu faço”. E foi ali um conjunto de acontecimentos muito giro. Nessa altura morreu o meu pároco, foi um acontecimento trágico, morreu assassinado, e eu tinha recebido um convite para ir para o pré-seminário, e fui falar com o padre que o estava a substituir e perguntei como devia fazer para preencher o nome do pároco. E o padre Armindo agarrou nos papéis e disse: “Eu acho que devias era entrar no seminário, não achas que é tempo de entrar no seminário?” E para mim isso foi a resposta ao que eu tinha pedido de joelhos. E para mim foi muito claro. Disse-me para pensar nisso e eu fui para casa a pensar que não ia ter que pensar mais, que já lhe podia dizer.

E então entrei para o seminário aos 15 anos e fiz o trajecto normal, estive dois anos aqui [em Caparide], mais quatro em Almada e outros quatro nos Olivais.

Sendo filho único, a vocação foi bem aceite?
Lembro-me que nesse dia cheguei a casa e os meus pais estavam no jardim, o meu pai estava em cima de um escadote a apanhar ameixas, e a minha mãe estava com o balde na mão. Eu abri o portão, cumprimentei-os e disse: “Olhe, eu vou para o Seminário”, e o meu pai, que estava no alto da ameixeira nem olhou para mim, disse à minha mãe: “O Rapaz está parvo, acho melhor ires para casa”.

As semanas que se seguiram foram de debate muito intenso. Não para contrariar, mas porque queriam saber se era de facto consistente o que eu queria. Depois deixaram-me vir.

Foi particularmente complicado para a minha mãe, porque coincidiu com uma fase em que o meu pai passou a estar mais ausente por causa do trabalho e para a minha mãe houve uma solidão que foi difícil de gerir. À medida que me viam a crescer feliz e realizado, isso foi sendo mais harmonioso para eles.

Depois de ordenado, foi logo trabalhar para o seminário?
Imediatamente.

Quando é que se tornou vice-reitor?
Há sete anos, em 2002.

Qual é o percurso normal de um seminarista, desde que entra até passar ao seminário maior, e qual é o seu papel ao longo desse percurso?
A Santa Sé indica que a formação tem de ter pelo menos seis anos de estudos. No Patriarcado de Lisboa esse percurso está feito em sete, três aqui, no seminário vocacional, e quatro no seminário dos Olivais que chamamos o seminário pastoral. Portanto três anos de discernimento e aprofundamento vocacional e quatro anos de formação pastoral e de preparação mais imediata para a ordenação.

Aqui o nosso grande objectivo é proporcionar um percurso que permita àquele candidato, e a nós Igreja, nomeadamente a equipa formadora que está aqui em nome do Bispo, fazer um discernimento sobre o chamamento de Deus para aquela pessoa e a capacidade que tem para responder, e chegar a uma conclusão sobre isso. Portanto todo o processo dos três anos está orientado para isso, em diferentes dinâmicas: A dinâmica do crescimento espiritual; A dinâmica do crescimento intelectual e da formação intelectual; E a dinâmica do crescimento humano e afectivo, que vão concorrendo mutuamente até se chegar a uma síntese que permita ver.

Claro que o ponto de confronto são aqueles elementos que a Igreja acha necessários para o ministério ordenado, há um conjunto de exigências, de ritmos de vida e de conteúdos, que vão sendo oferecidos, e que são aqueles que se pretendem para quem quer ser padre, que vão servindo por um lado de motor de crescimento e por outro de margem de confronto, para ver se há integração e adequação ou não.

Enquanto vice-reitor, qual é a sua função?
O vice-reitor tem a coordenação-geral pedagógica da casa, quer o que diz respeito ao percurso global, quer o que diz respeito ao acompanhamento individual. E depois tenho também a parte administrativa.

Quantos padres trabalham aqui?
Somos três padres na equipa formadora. Há o director espiritual, que os acompanha individualmente e quem os confessa, e depois nós os outros dois padres, eu o Vice-reitor e o padre Nuno Amador, que é o prefeito, que acompanhamos a parte externa e não fazemos a direcção espiritual, dividimos os três anos entre nós. Neste momento eu acompanho o primeiro ano, o chamado propedêutico, e os finalistas. No que diz respeito ao propedêutico acompanho-os tanto nas actividades de grupo como também no percurso individual, e aí faço parelha com o director espiritual, e acompanho os finalistas, até porque como é um ano de decisão é preciso um acompanhamento mais apurado para chegar a uma conclusão final.

Parte do seu trabalho é ajudar os seminaristas a discernir se têm mesmo vocação para o sacerdócio ou não, é fácil detectar isso?
Isso é o mais difícil! Fácil não é. Não se trata de fácil ou difícil. O processo é um de amadurecimento da pessoa. Não está aqui em jogo simplesmente a aquisição de competências, um técnico religioso, ou um técnico sacramental. Pretende-se ver se esta pessoa cresce numa unidade pessoal que se identifica com aquele projecto. Isso é difícil, porque por um lado e muito dinâmico, por outro lado os timings são muito diversificados, e porque uma boa parte disto está dependente da liberdade de Deus, que é um mistério muito grande.

O segredo é acompanhar e intervir, em cada processo, e temos pessoas para quem o amadurecimento acontece mais depressa e para quem há uma clareza sobre a continuidade do percurso mais cedo, e outras para quem acontece mais tarde. Contudo, a formalidade da decisão no que diz respeito à adesão à vocação sacerdotal e a passagem para os Olivais, só acontece no terceiro ano, só aí é que pedimos formalmente uma decisão pública assumida e comprometida, e nós também tomamos essa decisão.

É verdade que há percursos que são muito turbulentos e que andam para trás e para a frente, e há outros que são mais lineares, mais tranquilos.

Há uma taxa bastante grande de desistências no sacerdócio, como vê isso?
As taxas de desistência são uma coisa… No seminário vocacional há uma taxa maior do que no pastoral, porque de facto o seminário vocacional é um seminário para discernir e decidir, por isso é mais normal haver mais saídas. No Seminário dos Olivais é raríssimo, porque os que passam para lá já têm uma decisão tomada. Só em casos excepcionais é que saem.

Aqui é natural haver saídas porque é para nós muito claro que este é um processo aberto, um processo que está começado com indícios de vocação sacerdotal e de adesão a isso, mas que precisa de ser aprofundado, e a regra fundamental para ele ser aprofundado é uma grande liberdade de parte a parte. E portanto, em alguns casos percebe-se que a vocação é o matrimónio, ou uma vida religiosa, ou uma vida consagrada e por isso reencaminha-se para esses fins.

Existe mesmo uma crise de vocações, como tanto ouvimos dizer?
Os anos 60 / 70 foram anos, tecnicamente, de muita crise de vocações, e isso correspondeu à redefinição dos seminários e do papel do sacerdote na Igreja. Na segunda metade dos anos 70 os seminários aqui da diocese passaram de 180 ou 150 alunos para 12 ou 15 alunos, no espaço de dez anos.

Isso significou que houve um processo de perceber as motivações profundas que havia nas pessoas que encetavam este caminho, e aquelas cujas motivações não coincidiam com o que estava definido, era melhor caminharem para outro sítio.

Progressivamente, desde os anos 70 até agora tem havido um crescimento sustentado. Creio que o problema é que o número que temos agora não é o necessário para repor as faltas que temos. Se compararmos com a grande quebra dos anos 60/70, temos números bons. Não temos é a capacidade de refazer o tecido dos presbíteros com os números que se pretendia para manter a organização pastoral como ela está.

Os senhores bispos têm de pensar muito nisso, e isso também põe em questão a maneira como se organiza o trabalho dos sacerdotes, porque há um tipo de pastoral que se fazia há muito tempo, que precisava de muitos padres e de um tipo de presença de padres que hoje já não pode ser assim, e ao mesmo tempo não temos padres para compensar isso, e depois a realidade do número das vocações também é muito variável de diocese para diocese. Há dioceses que têm para a sua estrutura um óptimo número, e outras que têm menos. Isso tem a ver com a vitalidade cristã das próprias comunidades. Quando essa vitalidade é crescente e tem preocupações de intervir no mundo, naturalmente aparecem vocações. Se há um conjunto de comunidades com um Cristianismo mais de manutenção, mais absorto, o número de vocações também é menor.

E os seminaristas estão a ser preparados para essa nova realidade, ou para uma realidade que já não vai existir no tempo deles?
Nós temos a preocupação, principalmente nos Olivais, mas aqui também, de por um lado dar-lhes a conhecer a realidade como ela é, que não muda num estalar de dedos, e ao mesmo tempo de levá-los a reflectir sobre as metas onde queremos chegar. Porque me parece que é preciso muito cuidado e sabedoria para formar neste percurso de transição.

Porque não podemos formar gente que esteja tão iluminada com as metas onde vai chegar que depois, quando for para as comunidades concretas não se revê e não aguenta e dá cabo daquilo, e também não podemos formar para gente que só faz o que ali está e não evolui com a comunidade para outro lado. Por isso a nossa preocupação tem sido, por um lado ajudar a integrar na realidade como ela está, e ao mesmo tempo iluminar para as metas onde queremos chegar.

Depois, também numa diocese como é Lisboa, as dinâmicas pastorais são muito diferentes. A pastoral dentro da cidade, propriamente dita, na cintura de Lisboa e no Oeste, seja o mais próximo ou o mais distante, como Alcobaça, Nazaré, etc. são realidades muito diferentes e que vão precisar de posturas e de sensibilidades muito diferentes. Há comunidades que, a maneira como se organizam, é muito rural, com esquemas muito tradicionais e que funcionam naquela comunidade, por isso as posturas vão ser diferentes e tem de se atender a isso.

A Igreja também se tem tornado mais exigente com os candidatos que aceita para ordenação?
Nós procurámos, nos últimos 30 anos as pessoas que vêm para o seminário são pessoas que têm inquietações vocacionais e que têm atracção pelo ministério sacerdotal. Não vêm para aqui porque querem estudar, ou porque tiveram um desgosto amoroso, ou porque são o filho mais novo e porque a vida clerical podia ser uma alternativa. Isso tudo mudou com o concílio Vaticano II.

Depois, nós procuramos que, prévio à entrada para o seminário, haja um acompanhamento feito ou pelo seminário ou pelas estruturas da diocese que estão encarregues disto, seja os pré-seminários, seja a pastoral das vocações, de modo a aferir se de facto às motivações são correctas.

Às vezes ainda nos aparecem pessoas a bater à porta a pedir para entrar e nem baptizados são. Ainda há pouco tempo esteve aí um rapaz que não é baptizado, mas que achava que na fase da vida em que está, podia ser interessante. Ainda aparece isto. Mas nos casos normais fazemos um acompanhamento por forma a perceber se há condições para entrar.


Nos últimos anos a Igreja tem sido abalada pelos escândalos de abusos sexuais por parte de sacerdotes. É possível detectar futuros infractores nesta fase do seminário?
Espero que sim! Temos duas ferramentas fundamentais para isso. Na diocese de Lisboa, há 20 anos que fazemos uma coisa que agora vem recomendado pela Santa Sé, que é o rastreio psicológico e o acompanhamento psicológico.

Portanto o seminário actualmente tem uma psicóloga, que submete todos os seminaristas a uma bateria extensa de testes que têm dois objectivos fundamentais: Primeiro, traçar o perfil nas áreas fundamentais da pessoa, desde a área cognitiva à área afectiva e sexual, de modo a que possamos interagir e formar de uma maneira mais adequada. Depois, os testes têm também o objectivo de detectar algum desvio psicológico que possa haver, não só nessa área, mas noutras também, doenças psiquiátricas que possam aparecer.

Quando detectamos algum caso em que há algum caso de traços objectivos de desvio patológico, e devo dizer que em 12 anos no seminário nunca nos aconteceu ter algum caso de desvio sexual, graças a Deus. Se há um caso de desvio patológico, isso é veemente, este tipo de educação implica um equilíbrio humano que não se compadece com esses desvios.

Mas pode acontecer também haver desequilíbrios circunstanciais, são etapas do crescimento, e nesses casos a psicóloga também acompanha durante o tempo que for preciso, em processo psico-terapêutico o desenvolvimento daquela pessoa, em diálogo com a equipa formadora.
Esta ferramenta tem sido de imensa utilidade, e para os seminaristas também tem sido, têm tirado imenso proveito.

Depois há uma segunda ferramenta que é o nosso acompanhamento directo, personalizado, de todos os dias, onde a preocupação de analisar a maturidade afectiva, a universalidade afectiva, a capacidade de relação com os dois sexos, a capacidade adequada de estar com os dois sexos, a normalidade das atracções e dos envolvimentos afectivos com o sexo oposto são tidos em conta.

Pode acontecer, também nestes anos ainda não aconteceu, que haja algum caso que seja conhecido externamente. Alguém que entra e que na sua terra é conhecido por ter uma tendência que não condiz. No processo de encaminhamento e de formação, o contacto com os priores permite também complementar esse rastreio.

Recentemente houve também indicações de Roma no sentido de que homens com tendências homossexuais não deviam ser ordenados. Já lhe aconteceu ter que expulsar seminaristas por essa razão?
A instrução indica, aliás, como tem sido comum aos estudos de psicologia e daqueles de que nos socorremos, que o desenvolvimento homossexual tem na sua génese uma destruturação na capacidade da relação com os opostos. E dizem até os dados estatísticos que há instabilidades tanto nos relacionamentos, como na gestão de situações de grupo, quer na gestão de situações de tensão entre pessoas que, para um homossexual, é mais difícil.

Portanto a indicação da Santa Sé é que, para uma vida destas em que se pede celibato, e a implicação disso que é a continência sexual, em que se pede uma relação universal, abrangente, capaz de ser simultaneamente próxima, sem ser absorvente, com as pessoas, pensa-se que o perfil de um homossexual não é o mais indicado para esta vocação.

Aqui no patriarcado nós já tínhamos essa indicação antes de vir a instrução, portanto quando nos aparece um caso desses, procuramos encaminhar a pessoa de forma a, por um lado, e essa é a primeira preocupação, de integrar o que possa ser a sua tendência homossexual, e depois de perceber como é que ela se há-de se situar em termos vocacionais, e quais podem ser as opções vocacionais para uma vida como a dela.

O celibato é uma vocação, ou é algo que se possa educar num futuro padre?
É uma vocação que precisa de ser educada. O celibato não é uma coisa natural, se fosse natural, não podíamos escolher essa pessoa. Se uma pessoa for espontaneamente celibatária, se não tiver capacidade de atracção pelo sexo oposto, se não tiver capacidade de relação com o sexo oposto na normalidade de homem/mulher, alguma coisa está mal na sua estrutura psicológica, afectiva, sexual. Alguma coisa não está equilibrada, o que não a indicaria para uma vocação destas.

Portanto o celibato é sem dúvida um dom de Deus, um chamamento de Deus em ordem a uma vocação específica que tem a ver com o serviço às comunidades. Qualquer vocação precisa de educação. Precisa de uma resposta da pessoa que a vá fazendo socorrer-se dos meios necessários, dos crescimentos necessários para corresponder com a sua humanidade àquela vocação.

Não me parece que seja possível educar para o celibato uma pessoa que não tenha de todo vocação. Pode-se educar uma pessoa para ser celibatária no sentido formal, mas aqui o celibato no sacerdócio é um homem que se põe de coração inteiro para o serviço das comunidades. O problema do celibato não é só a continência sexual, “Aquele homem vai ser impecável, não se vai meter com mulher nenhuma”, não, aquele homem vai ser celibatário porque o coração dele, os sentimentos dele, a vida dele é para consagrar às comunidades que apareçam, portanto a vocação do celibato neste caso é uma vocação para dar mais, para amar mais. Isso só se educa como dom de Deus, isso não se tem se Deus não concede, essa capacidade de amar, é impossível.

Como é que se explica a um rapaz que quer ser padre que, afinal, não poderá ser?
Para mim o mais difícil não é dizer… Se eu tenho que dizer a um seminarista que não, de todo, especialmente se ele tiver muito concentrado ali… O que é raro acontecer, porque vamos fazendo um acompanhamento que vai tornando claro o que são capacidades, o que não são capacidades, dimensões mais sintonizadas com isto ou não.

O mais difícil é ver uma pessoa que podia crescer e não cresce. Que poderia desabrochar e não desabrocha. Que podia ser brilhante e é só mediano. Ou, nesse caso, ver sair um seminarista porque foi a opção mais fácil. Isso é que custa.

Já saíram seminaristas que deram tudo o que tinham para dar, e perceberam que esta foi uma experiência boa, mas a vocação é o matrimónio… Óptimo. Uma pessoa que não dá tudo o que tem é uma pessoa que não é inteiramente pessoa, isso é o que custa mais.

Em relação ao seu trabalho no seminário, ao longo destes anos, qual foi o ponto mais alto e qual o ponto mais baixo?
Não sei dizer… Todos os anos têm pontos altos e pontos baixos.

Os pontos altos são os pontos onde a nossa intervenção gera realmente crescimento, onde as insistências, as atenções, geram crescimento fazem aquela pessoa desabrochar, mergulhar mais seriamente no mistério de Jesus Cristo, abrir o coração e dar-se. Isso, graças a Deus, acontece todos os anos, porque todos os anos temos pessoas aqui em etapas diferentes do processo.

Os pontos mais baixos, para mim, são os pontos da minha fraqueza, do meu erro, e no exercício aqui do ministério os pontos mais baixos são os das apostas falhadas. A gente insiste, insiste, ou puxa, puxa e não deu. Ou só deu metade do que podia dar… São pontos baixos. Claro que, como se imagina, numa vida de gente em casa há pontos baixos que têm a ver com as tensões vividas quer pessoalmente quer comunitariamente, com algum problema que houve com este ou com um grupo, e isso também acontece de vez em quando.

Nestes anos houve aqui dois momentos que me parecem muito interessantes. Um foi no ano 2001, começarmos com a aventura de instituir o ano propedêutico, redefinindo a organização pedagógica do seminário, integrando o ano propedêutico. Isso correspondeu a dois anos prévios de estudo, e debate e trabalho, e depois a implementação, e ver ao longo destes dois anos a consolidação do projecto tem sido óptimo.

Depois, um outro ponto alto, ou interessante, foi o ano passado termos encetado uma experiência para completar o processo de discernimento vocacional de alguns que precisavam de uma distensão dos três anos, termos integrado na vida paroquial três alunos, que passaram a viver com dois priores, fazendo trabalho pastoral full-time, mas mantendo uma ligação de estudo e relação com o seminário. Foi uma abertura para um formato diferenciado que pode acrescentar valor.

Vivem em comunidade, não faz falta um toque feminino?
Por acaso faz… Graças a Deus… Bom, somos trinta homens, 27 seminaristas e 3 padres, e depois temos a Dona Benedita, que tem 101 anos, que foi governanta do seminário toda a vida, e que é uma presença feminina já bisavó, por assim dizer. Mas é uma presença feminina curiosa. Graças a Deus, como ela mantém muita lucidez, permite-lhe catalisar os afectos dos seminaristas como uma avó, e por outro lado fazer algumas intervenções de mulher, nas apreciações, na sensibilidade, que é giro. Mesmo a nós padres às vezes chama-nos atenção para algumas coisas.

Depois temos as empregadas, que tratam das coisas da casa, as roupas as comidas, e essas coisas, que são senhoras. E depois, graças a Deus, temos muita gente feminina que passa por cá. A professora de música é uma senhora, a professora de jornalismo é uma senhora. Há muitas pessoas que são acompanhadas por padres aqui do seminário ou que fazem parte de grupos que têm relação com o seminário, e que passam por aqui, e por isso é muito frequente termos ou à refeição, ou no bar, ou em reunião senhoras ou raparigas, ou o que for. Portanto vai havendo aqui um certo contacto com o feminino, para além de que os universitários têm raparigas de quem são colegas, e os do propedêutico, no trabalho apostólico que têm, têm contacto com raparigas.

Em permanência, gostaríamos de ter uma governanta que fosse assim uma espécie de mãe da casa. Mas como ainda não nos apareceu a pessoa com o perfil certo, porque implica alguma disponibilidade, e uma maturidade humana e espiritual, não temos. Gostávamos de ter outra D. Benedita.

Nunca teve uma paróquia, faz-lhe falta um trabalho mais pastoral?
Não sei dizer se me faz falta ou não. Não penso muito no assunto. Procuro estar concentrado no seminário e nas coisas que tenho para fazer para lá do seminário. Não sinto falta no que diz respeito ao contacto com a diversidade de pessoas. Tenho as equipas de casais, tenho muitas pessoas que acompanho pessoalmente, trabalho no sector de animação espiritual da diocese e tenho a escola de formação que implica muitas coisas de formação com leigos e com todo o género de pessoas, por isso essa coisa que podia acontecer, falta de contacto com gente noutro estádio de vida, com outro tipo de preocupações, não acontece graças a Deus, por isso não sinto falta de paróquia.

Até porque o trabalho num seminário é um trabalho muito específico, com um conjunto de limitações humanas, está aqui, não tem a flexibilidade que um trabalho de paróquia tem, mas é um trabalho que progressivamente se vai apurando e de que a gente vai aprendendo a gostar. E actualmente gosto imenso de estar aqui, por isso não penso muito no que seria se fosse uma paróquia. Eventualmente poderá acontecer, o Sr. Patriarca mandar-me para uma paróquia e presumo que vai ser divertidíssimo.

Acompanha muitos casais, seja de namorados, seja casados, porque é que é tão procurado por estas pessoas?
Não sei dizer se tenho vocação para isso. Cresceu comigo, nestes anos de sacerdote, muita gente vir procurar-me para acompanhamento individual, para discernir coisas. O acompanhamento nos namoros e preparação para o casamento decorreu daí, porque as pessoas que eu acompanhava me pediam ajuda específica.

Na preparação para os casamentos houve um episódio engraçado, porque num mesmo ano casavam sete casais e quase todos eram acompanhados em direcção espiritual por mim. E portanto desafiaram-me a fazer ao longo desse ano um CPM personalizado para eles, uma vez que os conhecia e portanto nesse ano fiz um processo, montámos um processo de preparação imediata para o matrimónio, passando por uma série de temas e objectivos a cumprir, e essa ferramenta ficou, e tenho-a aplicado quer em grupos mais pequenos, quer em forma personalizada em outros casais, e isto é como em tudo, vamos apurando a sensibilidade ao que está bem no casal, o que faz falta, o que não faz, o que é que são as etapas de crescimento em que é preciso apostar, a experiência vai-nos trazendo isso, e tem acontecido.

O que faz nos tempos livres?
É muito pouco tempo livre, muito pouco. No muito pouco tempo livre, um bocadinho de leitura, alguma coisa que vou tendo como leitura de cabeceira. Aí especialmente nas férias, recupero o tempo perdido no que diz respeito a isso. Algum tempo de passeio, de sair um bocado para dar uma volta com os amigos, e depois umas coisas normais, um ou outro dia para ver o Sporting, um ou outro filme de cinema, uma ou outra coisa de arte mais interessante…

No Verão quando tenho tempo, porque às vezes no Verão é quando faço umas coisas extra para as quais não tenho tempo no ano lectivo, o descanso continuado, que é óptimo para mim, ficar uma semana no Alentejo, metido num sítio tranquilo, sem fazer nada, o que muitas vezes faço com colegas padres, ou então fazer uma viagem, ir a um destino, conhecer, é uma coisa que me descansa imenso, ir ver outras cores, outras formas.

O que é para si ser padre?
Para mim é uma experiência muito dolorosa e muito feliz. E explico porquê. Porque me tem chamado a viver ao limite de mim como pessoa e ao limite do que sou capaz de dar e do que sou capaz de receber de Deus, e portanto nisso tem sido uma experiência por um lado muitíssimo feliz, de encontro às maravilhas do que Deus faz nas vidas das pessoas, da forma como Jesus é capaz de mudar a vida de uma pessoa, o coração de uma pessoa, e para mim é surpreendente como Jesus é capaz de fazer isso através de um gajo como eu.

E tem tido momentos de sofrimento porque amar dói. Há aqui umas medidas de amor que implicam deixar para trás coisas que eu gostava ou uns formatos que para mim eram mais confortáveis, e implica um debate com a minha fragilidade e com o meu pecado, que às vezes é dolorosa.

Estar no meio de um ministério tão grande, estar no meio da vida das pessoas que é encontrar em mim coisas mesquinhas, menores, é um debate complicado. Para mim tem sido muito extraordinário o milagre que é poder estar no meio da vida das pessoas, o sacerdote tem o privilégio de poder estar na intimidade das pessoas, no santuário mais interior das pessoas, e aí ser condutor. Isso para mim é extraordinário.

Depois, para mim também tem sido a graça de celebrar missa todos os dias, de ir mastigando mais seriamente o Evangelho de Jesus e de ver que aquele Evangelho faz efeito, quando ele é dado e recebido, faz mesmo efeito. Tenho, nesta parte do trabalho da formação sacerdotal, tenho sempre uma interrogação e uma inquietação. Os padres nos próximos 30, 40, 50 anos também vão ser o que eu fiz.

Epá, espero que Nosso Senhor não me cobre muito, vamos ver, é uma coisa muito séria. Às vezes aqui em casa falamos disso, uma parte deste clero vai ser o que a gente fez… Fazemos o que podemos.

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Wednesday, 12 November 2014

Do Burke ao Burkina Faso, passando pelos arameus

Futuro presidente do Burkina Faso?
Não queriam mais nada, não?!
Peço desculpa pela minha ausência, mas nos últimos dois dias estive no terreno a fazer reportagens por causa da legionella.

Mas o mundo da religião não parou! No fim-de-semana confirmou-se a dança de cadeiras no Vaticano, com a saída prevista do Cardeal Burke, herói dos conservadores.

No domingo começou a semana de oração pelos seminários. Fomos conhecer o seminário do Porto e a história do homem que confundiu liberdade com libertinagem até que uma “queda de cavalo” o projectou para o seminário.

O Papa recordou o fim do muro de Berlim no Domingo e esta quarta-feira rezou também pelos estudantes mexicanos que, tudo indica, foram assassinados de forma grotesca.

Na segunda-feira Francisco criou uma nova estrutura para lidar com recursos de casos de abusos sexuais e outros, muito graves.

Não é o Cardeal Burke, mas o Cardeal do Burkina Faso. É popular no seu país e por isso ofereceram-lhe a presidência. Ele agradece, mas diz que não está interessado.

A fé e a ciência são incompatíveis? O vencedor da medalha Carl Sagan de 2014 acha que não. Deve saber, porque para além de ser astrónomo é jesuíta. Quem também acha que não é Robert Royal, do The Catholic Thing, que no interessante artigo desta semana explica porque é que os católicos nunca rejeitaram a ciência e a razão.

Israel reconheceu uma nova etnia entre os seus cidadãos. Os poucos que se consideram “arameus” são todos cristãos. Mas a decisão está a ser encarada como polémica. Estará Israel a tentar dividir a comunidade árabe?

E por falar em cristãos no mundo árabe, temos a transcrição integral da entrevista que fiz a semana passada ao arcebispo libanês Issam Darwish, que fala da situação política e social dos cristãos no seu país, incluindo as alianças partidárias com o Hezbollah. A notícia original está aqui.

Termino com um convite. Quem estiver interessado em fazer a consagração total a Nossa Senhora pode fazê-lo em Lisboa ou em São João do Estoril. Já não vão a tempo da primeira reunião, mas quem sabe diz-me que isso não deve ser impeditivo.

Datas previstas para a Paróquia de S.Pedro
e S.João do Estoril (sábado às 15h30)
08 nov
13 dez
10 jan
14 fev
14 mar
11 abr

Datas previstas para a Basílica 
dos Mártires (Chiado) – (5ªfeira às 19h00)
13 nov
18 dez
15 jan
19 fev
19 mar
16 abr

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