Friday, 23 June 2023

Falta de Liberdade Religiosa no Mundo e de noção na TVI

O Papa confirmou esta quinta-feira que vem a Lisboa. Claro que isto vale o que vale, uma vez que nem o Papa pode prever o futuro, mas é um excelente indicador para a JMJ.

Quase dois terços da população mundial vivem em países onde a liberdade religiosa não é respeitada. Esta é uma das conclusões do Relatório da Liberdade Religiosa da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que hoje está a ser lançada um pouco por todo o mundo. Este é o único relatório não-governamental do género, que cobre todos os países e todas as religiões. Vale a pena aceder ao relatório e explorá-lo.

Como noticiei a semana passada, em primeira mão, o processo relativo ao Pe. Mário Rui foi arquivado e o seu afastamento provisório foi levantado. No domingo, quando ele voltou a celebrar missa publicamente, a TVI achou boa ideia fazer uma reportagem que anunciou no telejornal com a legenda “Padre pedófilo reza missa”, juntando assim a ignorância religiosa à ignorância jornalística e jurídica. Imediatamente surgiu um coro de vozes a protestar e a sugerir fazer uma reclamação à ERC. Neste artigo explico porque é que esta causa em particular nada tem a ver com as nossas opiniões privadas sobre o Pe Mário Rui e o seu caso, mas com a exigência que devemos ter em relação ao jornalismo português. Explico ainda, no post, como podem fazer a dita reclamação.

Entretanto o Patriarca confirmou que outro dos quatro padres de Lisboa também já viu o seu processo arquivado. Já actualizei a cronologia e o post com os dados detalhados sobre os casos conhecidos até agora.

Ainda no triste tema dos abusos, o Pe. Rupnik, o artista conceituado que afinal era um abusador em série, foi expulso dos jesuítas. Reflecti sobre o caso do Pe. Rupnik neste texto, quando o escândalo rebentou, e aconselho a leitura deste texto para compreenderem melhor o que se passou com ele agora.

A Irmã Lúcia poderá estar a caminho dos altares. O Papa abriu caminho ao seu processo de beatificação, esta quinta-feira.

Estive recentemente em mais dois episódios do programa E Deus Criou o Mundo, da Antena 1, onde falámos sobre a perseguição aos cristãos na Nicarágua e aos muçulmanos na China; o papel dos padres na política; o perfil do próximo Patriarca de Lisboa e a posição das religiões sobre as redes sociais. A partir daqui podem ter acesso aos links para os podcasts.

Termino com o apelo para que leiam o artigo desta semana do The Catholic Thing. Devemos contar que o nosso cônjuge mude depois de casar? Stephen P. White escreve sobre o sarilho em que se meteu quando deu a resposta errada num inquérito que supostamente não tinha respostas erradas. Vale muito a pena ler, sobretudo para quem é casado, pretende casar, ou trabalha com casais.

Thursday, 22 June 2023

E Deus Criou o Mundo: Religiões e redes sociais, e padres na política

Tive o privilégio de participar em mais dois episódios do programa da Antena 1 "E Deus Criou o Mundo". 

No primeiro destes dois episódios, transmitido no dia 13 de Junho, conversámos sobre as redes sociais e as religiões, mas também sobre a recente carta escrita por católicos de Lisboa a explicar ao Papa que tipo de candidato ele devia escolher para ser o próximo Patriarca de Lisboa. Podem ouvir o programa completo aqui

Na semana seguinte, dia 20 de Junho, conversámos sobre a perseguição aos cristãos na Nicarágua, mas também dos muçulmanos na China, e trocámos opiniões sobre clérigos na política, depois de um padre católico ter sido eleito governador de um Estado na Nigéria. Podem ouvir esse episódio aqui

Wednesday, 21 June 2023

Queixa à ERC por causa da TVI no caso do Pe. Mário Rui

Nunca fiz segredo do facto de não concordar com a forma como o Pe. Mário Rui lidou com todo este processo que foi espoletado por uma denúncia contra ele na Comissão Independente. Uma das minhas críticas assenta na forma como ele pareceu querer arregimentar os seus amigos e apoiantes, no que me pareceu uma tentativa de os acicatar para criticarem todos os que estavam envolvidos no processo: a Comissão Indpendente, a Comissão Diocesana, a alegada vítima e até o Patriarca. Se não era esse o seu objectivo, foi isso que aconteceu. 

No entanto, sempre mantive que era preciso respeitar a presunção de inocência e o processo. Agora que este foi arquivado, é normal e justo que o Pe. Mário Rui volte à actividade com registo limpo. 

Recentemente, porém, a TVI optou por descrever o Pe. Mário Rui, numa peça jornalística, como "padre pedófilo". Se é verdade que haverá sempre quem se "esteja cagando" para a presunção da inocência e para o processo judicial, tanto civil como canónico, também é verdade que os órgãos de informação são obrigados a certos padrões de qualidade e honestidade. A TVI falhou, e não é a primeira vez

Andam a circular mensagens e emails a pedir que se denuncie esta falha da TVI à Entidade Reguladora da Comunicação (ERC). É natural que estas mensagens partam e circulem especialmente entre os mesmos que sempre defenderam o Pe. Mário Rui. Mas seria um erro pensar que esta é uma causa dos seus defensores e apoiantes. Esta é uma luta pelo rigor, pelo jornalismo de qualidade contra o jornalixo. 

Por isso também eu vou aderir a este protesto e convido todos a fazê-lo, quer gostem do Pe. Mário Rui ou não, quer concordem com a forma como ele lidou com tudo isto ou não, e independentemente do que achem de tudo o que se tem passado nesta questão dos abusos e da comissão independente. 

Para fazer queixa podem aceder ao site da ERC; aceitar os termos; preencher os dados pessoais e relativos à queixa - TVI, 18/06/2023, em "nome da peça" eu escrevi: "Oráculo de antevisão da peça 'Padre Mário Rui volta a celebrar missa'"; preencher a descrição da queixa, (ver abaixo) e submeter. Se quiserem, podem incluir como anexo comprovativo a imagem que ilustra este post. 

Na mensagens que eu recebi circulam duas minutas, nenhuma das quais me agrada a 100%, por isso deixo aqui uma alternativa, mas cada um pode escrever o que entender.

«No dia 18/06/2023, às 20:03h, a TVI cometeu um crime – crime grave – nos termos do artigo 180.º do Código Penal, cuja epígrafe é “Difamação”.

Em pleno horário nobre, no telejornal das 20:00h, o Sr. Padre Mário Rui foi ofendido de forma completamente injusta, na medida em que nunca foi condenado por qualquer crime, tendo apenas sido alvo de uma denúncia anónima – denúncia essa que foi arquivada por falta de fundamento. 

Ao classificar o Pe. Mário Rui como "padre pedófilo" a TVI desrespeita o seu direito à presunção de inocência, uma vez que ele não foi condenado nem pela justiça civil, nem pela justiça canónica, de qualquer crime. É também um mau serviço jornalístico, uma vez que presta aos espectadores informação sem fundamento, induzindo-os em erro.» 

Importa ainda dizer que esta quarta-feira o Patriarcado emitiu um comunicado em que também denuncia este caso de mau jornalismo por parte da TVI, e que pode ser lido aqui

Amor Real e Irreal

Stephen P. White

Há muitos anos, quando eu e a minha mulher estávamos noivos, fizemos um teste chamado “FOCCUS Inventory”, que é uma espécie de prova de compatibilidade que a diocese exige a todos os jovens casais que se estão a preparar para o matrimónio. O objectivo do exercício, se bem me lembro, era identificar áreas de potencial conflito ou desacordo entre os futuros marido e mulher, para que a fonte de fricção, ou de potencial fricção, pudesse ser abordado antes, e não depois, de se casarem.

O casamento é muito mais (e por vezes muito menos) do que aquilo que dois jovens possam imaginar. Não é mal pensado identificar de antemão alguns dos elementos mais mundanos, mas não menos importantes, da beleza do casamento. Nem que seja para dar ao sacerdote alguma ideia das rochas submersas que se encontram no caminho, ainda que o casal se mantenha obstinadamente ingénuo.

Fizemos o teste separadamente e depois encontrámo-nos com o pároco para rever os resultados. Ele recordou-nos que o teste é essencialmente um diagnóstico. Não existem respostas “correctas” ou “erradas”, assegurou-nos, apenas respostas que podem apresentar ocasião para uma reflexão, consideração e conversa mais aprofundadas. Só que, estávamos prestes a descobrir, afinal havia respostas erradas.

Muitas das perguntas na prova eram sobre o tipo de consideração prática que poderia facilmente passar despercebida a um par de jovens apaixonados: Quem vai tratar das finanças? Já conversaram sobre como os filhos podem afectar os planos de carreira para um ou ambos? Espera que o seu futuro esposo mude depois de se casar?

Acontece que eu e a minha mulher respondemos de forma diferente a essa última questão. Ela, tão querida, respondeu “não”, o que obviamente é a resposta correcta. As pessoas que se casam com alguém que desesperadamente esperam que se transforme noutra, estão a preparar-se para uma grande desilusão. Raramente é isso que acontece.

Como já devem desconfiar, eu respondi “sim”. Sirenes. Não só tinha dado uma resposta diferente, mas neste teste sem respostas erradas eu tinha claramente dado a resposta errada. O Sr. Prior ficou com um ar muito sério, um olhar de preocupação.

“Precisamos de conversar sobre isto. Stephen, porque é que esperas que ela mude?”. Via-se na cara da minha noiva que ela queria fazer uma pergunta semelhante, embora me pareça que ela a teria posto noutros termos.

Respondi com outra pergunta: “Se o objectivo do casamento é ajudar-nos a crescer em santidade, para que cada um ajude o outro a chegar ao Céu, então de que serve o sacramento se nos deixa iguais ao que somos agora?”

O prior suspirou, teceu um sorriso irónico, e comentou: “Não é isso que eles querem dizer com a pergunta”.

Não pude deixar de ripostar: “Pois devia ser. E seja como for, é isso que eu quero dizer com a minha resposta”.

Agora foi a vez de ela, a minha bela noiva, suspirar. Ela não estava sob qualquer ilusão, sabia muito bem que se ia casar com um espertalhão. Graças a Deus para mim, e como já vimos, ela tinha todas as expectativas de que eu seria assim para sempre. E ainda assim avançou.

O objectivo desta história não é mostrar-vos que a minha mulher é paciente e compreensiva, ou pelo menos não é esse o único objectivo. O drama de cada vida humana passa-se entre a pessoa que somos e a pessoa em que nos estamos a transformar. Estamos todos algures no meio. Arriscamos o desastre se não aspirarmos a ser mais do que somos – se não esperamos, rezamos e trabalhamos para mudar, para nos convertermos, para nos tornarmos cada vez mais a pessoa que somos chamados a ser.

Ao mesmo tempo, esta ideia de “a pessoa que eu devo ser” pode tornar-se também uma ilusão. É tão fácil como é perigoso apaixonar-se por uma ideia, seja uma versão idealizada de nós mesmos ou de outros. É um hábito peculiarmente humano ver nos outros aquilo que desejamos ver, e de acreditar naquilo que queremos que seja verdade. É curioso como o coração humano pode estar tão ansioso de acreditar que os seus desejos sejam verdade.

As amizades e os amores mais verdadeiros não são forjados a partir de ideais puros ou de meras ligações mundanas. Somos corpo e alma, e a exaltação de um acima do outro ao ponto de os separar invariavelmente conduz à destruição de ambos. O homem que ama a “humanidade” pode facilmente não amar o seu vizinho. O que ama aquilo que é seu – ele próprio, ou a sua tribo – acima de, e contra todos os outros, acaba por diminuir ambos.

A amizade humana não existe como abstracção. A ideia da amizade não é um amigo. E a ideia da família ou da nação não substitui essas realidades. Mas o homem também não se pode tornar ele mesmo se o seu coração nunca for para além da sua própria carne e vida.

Uma das passagens mais citadas do Concílio, da Gaudium et Spes tantas vezes citada por João Paulo II, chega ao cerne da questão:

Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n'Ele a sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude.

Compreender isto é compreender o mundo como ele realmente é. É aprender a diferença entre o amor real e irreal. Tanta da nossa história tem sido uma derrapagem contínua entre o materialismo e o idealismo. No centro, pode-se dizer, encontra-se o Deus Homem, Cristo Encarnado, mantendo toda a criação em conjunto. Nele, começamos a fazer sentido para nós mesmos. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Junho de 2023)

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Friday, 16 June 2023

Arquivamentos e altas hospitalares

O processo de abuso de menores envolvendo o Pe. Mário Rui, do Patriarcado de Lisboa, foi arquivado. É o primeiro dos processos decorrentes das listas elaboradas pela Comissão Independente a ser concluído, pelo menos que se saiba publicamente. Toda a informação disponível aqui.

O Papa Francisco deve ter alta amanhã, o que é obviamente uma boa notícia no geral, mas sobretudo para quem espera que ele consiga estar na JMJ, em Lisboa.

Ainda sobre a JMJ, recordo este texto que escrevi a semana passada, com um apelo para se inscreverem como famílias de acolhimento. É mesmo importante, não deixem passar esta oportunidade de viver de forma ainda mais intensa este grande evento.

Na Nigéria a vida está cada vez mais difícil para os cristãos. Para terem ideia do que sofrem os que vivem em zonas maioritariamente muçulmanas, leiam este artigo que escrevi para a fundação Ajuda à Igreja que Sofre Internacional sobre um antigo governador de um estado muçulmano que admite abertamente que favorecia os seus correligionários em detrimento dos cristãos.

Ao contrário do que se possa pensar, notícias como esta são razão ainda maior para apostar no diálogo inter-religioso. É o que está a fazer este padre em Moçambique, numa zona também muito difícil, onde nasceu o movimento que está a aterrorizar Cabo Delgado e redondezas.

E na senda da solenidade do Corpo de Deus, que foi a semana passada, oportunidade para recordar esta bela homilia do Papa Bento XVI sobre o assunto, que constitui o artigo do The Catholic Thing desta semana.

Thursday, 15 June 2023

Pe. Mário Rui: Afastamento levantado

[Nota: Rigorosamente, o processo ainda não foi arquivado, apenas foram levantadas as restrições ao ministério do Pe. Mário Rui. Contudo, este levantamento indica que o processo será formalmente arquivado muito brevemente. Fica feito o reparo, com o meu pedido de desculpa pela falta de rigor

O processo relativo ao Pe Mário Rui, do Patriarcado de Lisboa, foi arquivado. O arquivamento foi comunicado pelo Patriarca ao próprio na quarta-feira, dia 14, e torna-se pública a partir desta quinta-feira. Não sei se haverá comunicado no site do Patriarcado (se não há, devia haver), mas a informação também me foi confirmada por fonte próxima da Comissão Diocesana e sei que o próprio sacerdote fez questão de enviar uma longa declaração a amigos e paroquianos.

Antes de mais, esta é obviamente uma boa notícia. O arquivamento é sinal de que não foram encontrados quaisquer indícios que corroborem a denúncia anónima que foi feita contra ele à Comissão Independente. Sei que a alegada vítima também nunca se deu a conhecer, por isso não havia qualquer matéria que pudesse levar a que o processo continuasse.

Os textos que eu escrevi sobre o Pe. Mário Rui deram sempre azo a bastante discussão e muitas críticas, o que só atesta a sua enorme popularidade junto de muitos fiéis. Mas sempre fiz questão de dizer que nesta matéria de abusos é importante seguir os processos à letra. Isto implica que era importante investigar esta denúncia, o que foi feito, mas significa também que, uma vez arquivado o processo, esta decisão também deve ser aceite por todos e, por isso, o Pe. Mário Rui deve ser considerado inocente e tratado como tal.

Se bem se recordam, juntamente com o Pe. Mário Rui foram preventivamente afastados mais três padres do Patriarcado de Lisboa. Ao que consegui apurar, os processos destes sacerdotes estão um pouco mais atrasados, daí hoje só ser notícia a conclusão deste.

Em relação a este processo, algumas notas:

O processo decorreu mais ou menos dentro do tempo previsto, de três meses. Em tempo de Igreja, e mesmo em tempo de justiça civil, pode-se dizer que foi rápido e eficaz, dentro das expectativas deixadas por anteriores processos no Patriarcado de Lisboa e não só, o que mostra que as reformas impostas por Roma estão também a funcionar a este nível.

Nestes três meses o que é que se passou? A Comissão Diocesana recebeu do Patriarcado a lista de padres referidos em denúncias e recomendou ao patriarcado o afastamento provisório deste padre em particular, entre outros, para melhor investigação; foram recolhidos alguns dados provisórios e enviados para Roma; o Dicastério para a Doutrina da Fé mandou abrir uma investigação ao nível do Patriarcado e esta decorreu, sem que tivessem sido encontrados outros indícios que validassem quer a denúncia original, quer qualquer outra situação que se enquadre na tipologia de abuso de menores; o processo foi arquivado.

Este é um dado muito significativo. O abuso de menores tende a ser um padrão de comportamento. É raro – embora exista – o abusador que só abusa de um menor em toda a sua vida. Logo, os abusadores tendem a deixar um rasto por onde passam, que pode ser identificável numa investigação. Ora, durante o seu ministério o Pe. Mário Rui esteve muito envolvido em muitos ambientes onde teve contacto com menores, nomeadamente escolas, agrupamentos de escuteiros, movimentos, etc., O facto de, durante a investigação, não se ter encontrado qualquer outro indício para além da denúncia citada pela Comissão Independente, e que por falta de denunciante nunca passou de anónima, abona muito a favor da inocência do acusado.

Com o levantamento do seu afastamento provisório, o Pe. Mário Rui volta agora ao ministério activo, sem qualquer restrição.

Disse, numa primeira instância, que não apreciava o tom e o estilo com que ele escreveu uma primeira declaração, quando soube que era acusado, e mantenho essa minha opinião em relação a esta segunda declaração que ele publica hoje, em que dá conta do arquivamento. Discordo sobretudo das críticas que faz à Comissão Diocesana, que me parece que apenas cumpriu o seu mandato e as orientações vindas do Vaticano. Todo este processo já é suficientemente difícil, não me parece útil nem desejável minar o trabalho dos que foram escolhidos pelo Patriarca para o levar a cabo, por mais que uma pessoa em particular se tenha sentido injustiçado pela acusação que lhe foi feita.

Com este último desenvolvimento, actualizei a lista de casos para reflectir o arquivamento do processo do Pe. Mário Rui e também a cronologia.

Wednesday, 14 June 2023

Tornar perceptível o bater do Senhor

Corpus Christi 
Bento XVI
é uma festa singular e constitui um encontro importante de fé e de louvor para cada comunidade cristã. É uma festa que teve origem num determinado contexto histórico e cultural: nasceu com a finalidade de reafirmar abertamente a fé do Povo de Deus em Jesus Cristo vivo e realmente presente no santíssimo Sacramento da Eucaristia. É uma festa instituída para adorar, louvar e agradecer publicamente ao Senhor, que "no Sacramento eucarístico continua a amar-nos "até ao fim", até à doação do seu corpo e do seu sangue" (Sacramentum caritatis, 1).

Corpus Christi constitui assim uma retomada do mistério da Quinta-Feira Santa, quase em obediência ao convite de Jesus para "proclamar sobre os telhados" o que Ele nos transmitiu no segredo (cf. Mt 10, 27). Os Apóstolos receberam do Senhor o dom da Eucaristia na intimidade da Última Ceia, mas destinava-se a todos, ao mundo inteiro.

Eis por que deve ser proclamado e exposto abertamente, para que todos possam encontrar "Jesus que passa" como acontecia pelas estradas da Galileia, da Samaria e da Judeia; para que todos, recebendo-o possam ser curados e renovados pela força do seu amor. É esta, queridos amigos, a herança perpétua e viva que Jesus nos deixou no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue.

Precisamente porque se trata de uma realidade misteriosa que ultrapassa a nossa compreensão, não devemos surpreender-nos se também hoje muitos têm dificuldade em aceitar a presença real de Cristo na Eucaristia. Não pode ser de outra forma. Foi assim desde o dia em que, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus declarou abertamente ter vindo para nos dar em alimento a sua carne e o seu sangue (cf. Jo 6, 26-58).

A linguagem pareceu "dura" e muitos se retiraram. Então como agora, a Eucaristia permanece "sinal de contradição" e não pode deixar de sê-lo, porque um Deus que se faz carne e se sacrifica a si mesmo pela vida do mundo põe em dificuldade a sabedoria dos homens.

Mas com humilde confiança, a Igreja faz sua a fé de Pedro e dos outros Apóstolos, e com eles proclama, e nós proclamamos: "A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6, 68). Renovemos também nós esta tarde a profissão de fé em Cristo vivo e presente na Eucaristia. Sim, "é certeza para nós cristãos: / o pão transforma-se em carne, / o sangue faz-se vinho".

Como o maná para o povo de Israel, assim para cada geração cristã a Eucaristia é alimento indispensável que ampara enquanto atravessa o deserto deste mundo, ressequido por sistemas ideológicos e económicos que não promovem a vida, mas ao contrário a mortificam; um mundo no qual domina a lógica do poder e do ter em vez da do serviço e do amor; um mundo no qual com frequência triunfa a cultura da violência e da morte.

Mas Jesus vem ao nosso encontro e infunde-nos segurança: Ele mesmo é "o pão da vida" (Jo 6, 35.48). Repetiuno-lo nas palavras do Cântico ao Evangelho: "Eu sou o pão vivo descido do céu; quem come deste pão viverá eternamente" (cf. Jo 6, 51).

São Lucas, narrando o milagre da multiplicação dos dois peixes e dos cinco pães com que Jesus deu de comer à multidão "numa zona deserta" conclui dizendo: "Todos comeram e ficaram saciados" (cf. Lc 9, 11b-17).

Em primeiro lugar gostaria de ressaltar este "todos". De facto é desejo do Senhor que cada ser humano se alimente da Eucaristia, porque a Eucaristia é para todos.

Se na Quinta-Feira Santa é ressaltado o vínculo estreito que existe entre a Última Ceia e o mistério da morte de Jesus na cruz, hoje, festa do Corpus Christi, com a procissão e a adoração coral da Eucaristia chamamos a atenção sobre o facto de que Cristo se imolou pela humanidade inteira. A sua passagem entre as casas e pelas estradas da nossa Cidade será para quantos nela habitam uma oferenda de alegria, de vida imortal, de paz e de amor.

No trecho evangélico, sobressai um segundo elemento: o milagre realizado pelo Senhor contém um convite explícito a oferecer cada qual a própria contribuição. Os dois peixes e os cinco pães indicam a nossa contribuição, pobre mas necessária, que Ele transforma em doação de amor por todos.

No final da Celebração eucarística unir-nos-emos em procissão, como que para levar idealmente o Senhor Jesus por todas as estradas e bairros de Roma. Imergi-lo-emos, por assim dizer, na quotidianidade da nossa vida, para que Ele caminhe onde nós caminhamos, para que Ele viva onde nós vivemos.

De facto, sabemos como nos recordou o apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios, que em cada Eucaristia, também na desta tarde, nós "anunciamos a morte do Senhor até que ele venha" (1 Cor 11, 26). Nós caminhamos pelas estradas do mundo sabendo que O temos ao nosso lado, amparados pela esperança de o poder ver um dia face a face revelado no encontro definitivo.

Entretanto, já agora ouvimos a sua voz que repete, como lemos no Livro do Apocalipse: "Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu estarei na minha casa e cearei com ele e ele comigo" (Ap 3, 20).

A festa do Corpus Christi quer tornar perceptível, não obstante a surdez do nosso ouvido interior, este bater do Senhor. Jesus bate à porta do nosso coração e pede-nos para entrar não só pelo espaço de um dia, mas para sempre. 

- Excerto da homilia do Papa Bento XVI no dia do Corpo de Cristo de 2007


Bento XVI, Joseph Aloisius Ratzinger, foi eleito Papa a 19 de Abril de 2005, tornando-se o 265º sucessor de São Pedro. Tornou-se Papa emérito com a sua resignação, a 28 de Fevereiro de 2013. Morreu, aos 95 anos, no dia 31 de Dezembro de 2022.

(Publicado em The Catholic Thing no domingo, 11 de Junho de 2023)

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