Tuesday, 30 December 2014

Os novos herodes e as suas "entrevistas"

Pe. Van der Lugt, martirizado em 2014
Durante o ano de 2014 morreram 26 agentes pastorais da Igreja Católica. Vítimas de intolerância religiosa no Médio Oriente? Não. A maioria morreu no decurso de roubos violentos e o continente americano foi o mais mortífero.

O Estado Islâmico publicou mais uma edição da sua revista on-line, que inclui uma “entrevista” com o piloto jordano cujo avião foi abatido por cima da Síria.

O centro Simon Wiesenthal fez uma lista dos dez piores casos de anti-semitismo este ano. Em primeiro lugar o caso do médico belga que recusou tratar uma judia de 90 anos, dizendo: “Ela que vá passar duas horas em Gaza, passam-lhe logo as dores”.

O Vaticano publicou a mensagem do Papa para o dia Mundial do Doente, falando de como o apoio e cuidado aos doentes é um grande caminho de santificação.

Porque amanhã não sei ainda se vai haver Actualidade Religiosa, publiquei hoje o artigo desta semana do The Catholic Thing. Anthony Esolen fala da matança dos inocentes decretada por Herodes e recorda que herodes há muitos, ao longo dos tempos. É um excelente texto, a ler com atenção.

Uma Criança que Dorme

Anthony Esolen
Herodes ouviu falar do Menino Jesus e ele e todos os seus conselheiros ficaram preocupados. Pediu aos reis magos que encontrassem o rapaz e que lhe trouxessem a informação, para que ele pudesse ir louvá-lo. A homenagem que Herodes queria prestar era matá-lo. Quando os magos, avisados em sonhos, se desviaram de Jerusalém no seu caminho de volta para o Oriente, Herodes fez aquilo que fazia melhor: eliminou a oposição – ou pelo menos tentou.

Os meninos das proximidades de Belém não passavam de coisas para Herodes, obstáculos aos seus planos dinásticos. Se há uma árvore no caminho da estrada que queres construir, corta-se e tira-se as raízes. Para ti ela não tem vida. É apenas uma negação da tua vontade.

Todas as representações deste massacre que tenho visto são de uma acção dramática e terrível. Soldados brutos e exageradamente musculados dão à espada, às vezes matando as mães e os filhos em conjunto. Mas nunca vi uma pintura que corresponda melhor à nossa situação actual.

Imagino a cena da seguinte maneira. O quarto pouco iluminado e quieto. Nem o pai nem a mãe estão presentes. Talvez estejam nos campos, a trabalhar. A luz de uma janela ilumina o rosto de um homem, um soldado. Está com a testa franzida. Tem uma espada ao seu lado. Diante de si, numa cama, dorme um rapazinho.

Peço-vos que imaginem esse bebé. Gabriel Marcel diz que a visão de qualquer pessoa a dormir coloca-nos na presença de um mistério: A sensação de uma presença que não pode ser reduzida a proposições ou a utilidade. Isto é especialmente verdade em relação a crianças: “Do ponto de vista da actividade física… a criança que dorme está completamente desprotegida e parece estar inteiramente à nossa mercê; desse ponto de vista é possível fazermos o que quisermos dela. Mas do ponto de vista do mistério, podemos dizer que é precisamente por estar totalmente desprotegida, totalmente à nossa mercê, que é também invulnerável e sagrada.” (em “The Mystery of Being: Presence as a Mystery”).

Vemos os caracóis soltos na sua testa. Vemos os seus olhos fechados – o que é que observam? Vemos os seus lábios cerrados, o ritmo lento da respiração.

As pessoas que se mantêm seguramente no armazém das coisas não sentem esta presença. Não sentimos um mistério no transmissor 2451, nem na prateleira 32B. Quando substituímos um nome por um número a maior parte do nosso trabalho destruidor está feito. Se apenas vemos instrumentos, não teremos escrúpulos em usá-los como quisermos. A característica importante de uma peça numa máquina é o facto de não ter individualidade. Pode ser substituída por outra qualquer. É suposto ser substituída por outra qualquer.

Mas se o soldado pausar o tempo suficiente para contemplar o rapaz a dormir, terá de se endurecer contra o sentido natural e humano de santidade e mistério. Para tratar o rapaz como uma coisa, deve primeiro tornar-se uma coisa, uma ferramenta de Herodes, uma peça na maquinaria herodiana.



Para tratar a criança que dorme como uma irritação de que se deve livrar, deve reconhecer a ausência de valor de todas as coisas pequenas; a semente na terra, o pintainho no seu ninho, a batida do coração, o soldado num exército, a Judeia no Império Romano, esse pequeno império à escala da história do mundo, o mundo enquanto grão de areia no universo. Deve negar o valor da própria criação.

Imaginem outra criança a dormir. Está a chuchar no dedo. Está enrolado, os joelhos encaixados debaixo do queixo. O rabo inocentemente à mostra. A imagem está desfocada, porque ele está seguro no seio quente da sua mãe. A enfermeira na clínica vê, mas ao mesmo tempo não vê, o menino.

Imaginem outra cena. O rapaz é vivaço e meio tresloucado. Tem o cabelo colado à testa. Esteve a nadar no lago. Emerge, a escorrer água e a rir. O “amigo”, mais velho, observa, calculando e planeando.

Outra cena. Os rapazes e as raparigas estão nos seus lugares, na sala de aulas. Estão a pensar em todo o género de coisas. Um deles está a pensar no jogo que vai ter logo à noite. Uma das raparigas pensa em visitar a prima, a caminho de casa. Duas delas falam sobre as aulas de equitação. Outro limita-se a sonhar acordado, enquanto olha pela janela.

A professora está diante deles. Tem a testa franzida, o olhar carregado. Tem nas mãos um livro. Quando os rapazes e as raparigas saírem da escola, nessa tarde, já saberão o que é – preencha o espaço.

“Passa-se alguma coisa filho?” O rapaz tem-se comportado de modo estranho toda a tarde. Ele olha-a com um olhar estranho, depois vira a cara. “Não, nada”.

Marcel diz: “Não pode haver a menor dúvida de que a mais forte e irrefutável marca de pura barbárie que podemos imaginar seria a recusa em reconhecer esta misteriosa invulnerabilidade”.

Herodes e Herodíade aparecem-nos sob muitas formas. São hedonistas, para quem as crianças são obstáculos irritantes na busca de prazer. São utilitários, ferramentas que avaliam a utilidade de outras ferramentas. São estatistas, cuja ambição não é governar homens, mas gerir formigas. São médicos e enfermeiras que se recusam a ver a criança. São todos os assassinos da inocência. São os soldados à entrada da casa.

Doce Jesus, salva-nos de nós mesmos.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira,30 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 29 December 2014

As duas escolhas dos yazidis

Yazidis durante o cerco ao monte Sinjar, em Agosto
Espero que todos (pelo menos os cristãos) tenham tido um Santo Natal!

Foi com agrado que vi que os cristãos e demais refugiados no Iraque e na Síria foram recordados este Natal por muita gente, desde clérigos a artistas.

Mas os cristãos não são os únicos a serem perseguidos no Iraque. Neste tipo de tragédias é difícil comparar sofrimentos, mas a verdade é que os yazidi foram perseguidos com particular dureza. Nesta entrevista Mirza Dinnayi explica porquê. Podem ver a transcrição completa, no inglês original, aqui.

Um jovem muçulmano foi condenado à morte por apostasia, na Mauritânia, expondo a deriva fundamentalista daquele país.

O turco que tentou matar o Papa João Paulo II foi depositar flores no seu túmulo, esta semana, tendo sido deportado logo de seguida…


Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o valordas histórias e testemunhos pessoais na transmissão da fé! Vale bem a pena.

"Christians were given three choices, Yazidis only two: 'Convert or die'"

This is a full transcript of my interview with Mirza Dinnayi, advisor for the Kurdish Regional Government and Yazidi activist, who spends his time between Iraq and Germany. The news report, in Portuguese, is here.

Transcrição integral da minha entrevista a Mirza Dinnayi, conselheiro do Governo Regional Curdo e activista pela causa dos yazidi, que passa o seu tempo entre o Iraque e a Alemanha. A reportagem pode ser lida aqui.

Who are the yazidis?
The Yazidis are an ancient religion, about 5000 years old, they are about 500,000 in Iraq and outside of Iraq there are communities in Turkey, Syria, Armenia, Georgia and also a big community in Germany and other countries. Altogether there are about 1 million, half of them are in Iraq. The biggest community is from the Sinjar region – where there are about 320.000 – which was attacked by ISIS.

Because the Yazidi religion is one of the oldest monotheistic religions, believing in one God, although different from Islam and Christianity, they were attacked by Islamic State, which killed more than 3000, kidnapped more than 5000 and raped and enslaved thousands of girls and women. They they say the Yazidis are infidels, in the eyes of the Islamic State, because they are not mentioned in the Koran, which is why they kill them. Now we have more than 400,000 who escaped from their houses from Sinjar and the other areas of the Ninevah plains which are now under the control of ISIS.

What has happened to the communities which had to flee, did they all find refuge with the Kurds?
Yes, we have 400,000 Yazidi refugees in Kurdistan.

What conditions are they living in?
The conditions are very bad, because most of the tents in these camps are very simple tents, which are not prepared for the Winter or the cold. Also the tents which were distributed by UNHCR are not fireproof, they burn in 45 seconds, they are made of nylon so with a simple fire they are gone in 45 seconds.

Every week there are fire accidents in the tents, there are health problems. They are living in a very bad situation, there are no economic perspectives for the people, the people have no resources, no houses, and the local and Iraqi government cannot help them because they are too many. The international organizations are not enough because the situation is very bad and they cannot fill all the needs.

We are talking in general about refugees, but of course many of these people are your friends and family…
Yes, of course. My own town of 35 thousand people, all of them escaped and all of them are living in these tents.

Yazidis being evacuated from Sinjar
Did the fact that they were persecuted bring the Christians and the Yazidis closer together?
The Yazidi and Christian communities are still friends. In this situation they have the same problem with ISIS, with one difference; the Christians were not immediately attacked. During the occupation of Mosul they were given three choices, to convert, flee or pay a tax, the Yazidis were only given two choices: convert or be killed.

Also, ISIS did not take hostages from the Christian population, because they say the Christian religion is mentioned in the Koran, so they can be treated a little bit better than the Yazidis. But both Christians and Yazidis are suffering very much at the hands of ISIS.

What solution do you think is possible for minorities in Iraq? Do you defend the creation of a safe haven, as some defend, or do you believe that these minorities should have their own defence forces?
I think the international community is now responsible for finding a solution for these minorities in Iraq and there are two solutions which should be done, one of them at least. The first is to establish an autonomous region with international support and international peacekeeping forces support in this area of Sinjar and Nineveh plains, or otherwise to help these people leave Islamic countries, because we don't know what will happen in the coming years. We don't know if a new Islamic group will be established. ISIS had roots in Al-Qaeda and Al-Qaeda had roots in Iraq...

Every day there is another radical Islamist group and if there is no solution for this area, to protect these people and to establish peace in this country, it will be impossible to remain.

It is very difficult, most of the people there are helpless and the international community has unfortunately been silent and has not supported these minorities in Iraq.

We know that some Yazidis have chosen to remain in Sinjar mountain and some have taken up arms to defend themselves. Why have they decided to remain in this mountain, where they are more exposed to the Islamic State?*
In the mountain we have some religious heritage, some Yazidi temples. We have some fighters, because they are sure that nobody will help them, the situation of the IDPs in Kurdistan is already very bad so they decided to stay.

We have about 8000 people, some of them are fighters. We have 1250 families, or more, there. They decided to stay because they have no perspectives in Kurdistan or outside. They think it is better to die there than to be refugees in a camp, in a tent, without perspectives, without anything.

Every Yazidi is now waiting to know what the international community ca do for them. Will they support us politically? But until now it has not happened, unfortunately.

Do you believe the Islamic State can be defeated, and how?
What has been done against the Islamic State until now has been very week. We cannot win the war against the Islamic State with only airstrikes. We need forces on the ground, not only from the international community, we need them also from the Sunni world, they should fight ISIS, they should stand against the Islamic State because it was established with a background of Islamic Religion. Now it is the responsibility of the Islamic world, especially the Sunnis, to define themselves, they work against ISIS and the fundamentalist Islam. This is their responsibility, to fight, not only through air raids, but on the ground. We need forces on the ground, otherwise it is not possible to fight ISIS.

ISIS was able to flourish because of widespread discontent among the Sunni population. Do you foresee a future in which Sunnis and Shia can live in peace in Iraq?
I am pessimistic. I don't think that the Sunni and Shia will be together in a closed centralized country. I think the best solution is for them to establish a federal system, governed by moderate people, not radicals, who can serve their population and represent them.

The problem now in Iraq is that most of the Sunni politicians are not representing their communities, the ones in Baghdad, most of them are corrupt, they are working in the Government for their own profits, for their own benefits, and therefore they cannot represent their community.

The people don't know who represents the Sunni community in Iraq, we don't know. Is it ISIS? A radical group? The Ba’ath party remnants? Or the politicians sitting in parliament? We don't know.

Most of the Sunni regions are outside of the control of the Iraqi government, outside of the control of Sunni politicians, and therefore they cannot represent their communities. They should choose Sunni politicians who are not criminals, who are not ISIS supporters, who are not Al-Qaeda supporters, who can serve their citizens and serve the country. This is the problem we have now in Iraq.

Yazidis no monte Sinjar, cercados pelo Estado Islâmico
They have also taken in thousands of refugees, do the minorities feel gratitude towards the Kurds? How are relations between them?
The Kurdish government are doing what they can to support these IDPs and refugees. I think the situation now is that there is no conflict between the Yazidis, or the Christians, and the Kurds.

You can imagine if you have a country with a population of 5 million people and you send them two million refugees, it is a catastrophe. They cannot manage the problem. We know this. But as I said the best solution for these minorities, the Yazidis, the Christians and the Shabak is to establish a type of autonomous area for them. This solution should be implemented with the cooperation of the Iraqi government. 

Kurds are, mostly, Sunni. Is there also danger of radical Islam taking hold among the Kurds?
Yes, of course. We, the members of the minorities are afraid of radical people in Kurdistan. We are happy that the Government is secular, but in the community there are radicals and the Government should speak out against them.

It may be a small number, but over the last 20 years there was a type of islamization of the street, and this led to big problems, so that whereas the Kurdish people in the past were not very religious, there are now some religious people in the community.

There are some Kurds from the KRG who joined ISIS, a small amount, I don't know the number, maybe 300 or 500 fighters, more or less. There is fundamentalism in Kurdistan and we are trying to fight it, to become a liberal community in Kurdistan. We hope for this and we are working towards it, all of us.

What is your opinion on Turkey in the midst of all this?
The negative role of Turkey in support of the Islamic State is well known. Everybody knows that at the beginning Turkey played a very negative role in support of the Islamic groups, especially Jhabat al-Nusra, and other Islamic groups against Bashar al-Assad.

So now we have this problem: Turkey is under a big question mark, will it cooperate with the international community, first to stop the resources of ISIS and to stay in a positive situation? Until now its role has not been positive. Turkey cannot say "I will be independent about the issue of ISIS", because Turkey played a negative role and now they should change their policies and be positive, rather than negative.

Yazidi refugees in Erbil
All this instability has its roots in the Syrian civil war. Is there an end in sight?
They should find an outcome for the situation in Syria, peace should be established between all groups, with all opposition groups and non-opposition groups, otherwise we will have a massacre against the Alawites, for example.

All the Syrian players should work together, without Assad in power, but the Alawites should participate in planning the new country in a democratic way.


*Since this interview was conducted, the siege of Sinjar has been broken by Kurdish forces.

Tuesday, 23 December 2014

Um Natal misturado com lágrimas no Médio Oriente

O Papa Francisco deixa uma mensagem de Natal para os cristãos do Médio Oriente, que este ano vão ter festejos misturados com lágrimas.

Um desses cristãos, da Palestina, encontra-se em Portugal para vender artesanato da Terra Santa e fala de como é preciso ser um herói para sobreviver como cristão naquela parte do mundo.

E é precisamente como gesto de solidariedade para com os cristãos do mundo árabe, sobretudo os refugiados no Iraque e na Síria, que a cantora Ana Stilwell gravou uma versão do “Merry Xmas (War is Over)” do John Lennon. Saiba tudo, e ajude a divulgar, aqui.

Hoje é terça-feira, mas como amanhã é véspera de Natal e estaremos quase todos com outras preocupações, antecipei a publicação do artigo do The Catholic Thing. Temos uma estreia. Todd Worner traz-nos um artigo simples sobre como as histórias são mais úteis para transmitir as grandes verdades do que as fórmulas complexas.

Desejo a todos os meus leitores, sobretudo os cristãos, um Santo Natal, recordando de forma especial todos aqueles que o passam temendo a perseguição.

As Histórias Batem as Afirmações

Todd Worner
“Uma história é uma forma de dizer algo que não pode ser dito de outra maneira, e é preciso cada palavra na história para transmitir o significado. Conta-se uma história porque uma afirmação seria inadequada.” – Flannery O’Conner

Há 18 anos apaixonei-me loucamente. Ela chamava-se Cari. Tinha longos cabelos ruivos, maçãs do rosto altas, olhos azuis que dançavam e um sorriso que iluminava o quarto. O seu riso era contagioso, uma postura serena e uma confiança muito atractiva. Estávamos nas férias de Natal e tínhamos voltado para a faculdade para uma sessão de formação. Embora andássemos pelos mesmos meios, nunca nos tínhamos cruzado. E eu fiquei caídinho.

Tornámo-nos amigos e colegas em vários eventos universitários. Fizemos voluntariado, animamos um espectáculo para a universidade e fomos juntos a inúmeras festas. Ao longo da nossa caminhada, aparentemente platónica, ela saiu com alguns rapazes e eu com algumas raparigas, mas acabámos por nos apaixonar. Ao fim de um curso de medicina, estágio e internato, acabámos por chegar aos altares da Igreja Católica, estupefactos com a bênção que éramos um para o outro.

Hoje temos duas filhas. Se algum dia elas me pedirem para descrever como conheci e me apaixonei pela sua mãe, certamente não terei palavras para o dizer. Como é que se explica em palavras aquilo que apenas se expressa pelas mais puras e arrebatadoras emoções?

Contando a história.

A Fé Católica é diferente? Se pensarmos no assunto – mas pensarmos mesmo – a verdade, a bondade e a beleza desta fé são totalmente arrebatadoras e inicialmente ela chega-nos primeiro através da Bíblia e não de um qualquer argumento abstracto. Um Deus que poderia ter sido frio, calculista e caprichoso como Zeus, ou um sem número dos outros deuses antigos e maus, afinal é um criador que nos ama, que corre um risco com a sua criação, dando-nos livre-arbítrio.

Ele lamenta a ruptura que a humanidade desencadeia, mas procura incansavelmente trazer-nos de volta para o seu abraço paternal. Através de regras que promovem a nossa dignidade, lições que corrigem os nossos caminhos e uma esperança duradoura que sacia a nossa sede de redenção, no meio do nosso estado decaído, quando pensamos bem no assunto este Deus – este Pai indiscritível cujo único Filho se faz Homem – devia-nos deixar sem palavras. Devíamos sentir-nos demasiado emocionados até para falar, não desatemos a chorar.

Quando me tornei católico compreendi bem todas estas verdades? Não sei bem. Nem sei se algum dia o farei verdadeiramente. Mas tenho momentos de apreensão quando a graça repousa sobre mim e consigo vislumbrar – breve e docemente – o Deus que se recusou a abandonar-me à minha sorte. Em que alturas é que experimento mais este amor? Nas histórias.

Ouço-o quando alguém me diz: “Jesus ama-te”. Mas compreendo-o quando um Cristo sofredor e crucificado murmura: “Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem”.

Estou a ouvir quando me dizem: “Deus perdoa-te”. Mas compreendo-o quando um filho pródigo, desesperado e indigno, é abraçado com tamanha força por um Pai emotivo.

Nada como uma história...
Estou receptivo quando me avisam: “Não peques”. Mas sou transformado por um Cristo que gentilmente pede contas aos carrascos enquanto perdoa a adúltera com palavras firmes mas cheias de amor: “Vai, e não tornes a pecar”.

No final da sua extraordinária biografia de Charles Dickens, Chesterton não se limitou a transmitir a sua apreciação pelo homem e pela sua mensagem com meros adjectivos. Disse isto:

A camaradagem e a alegria a sério não são interlúdios na nossa viagem; mas antes, as viagens são interlúdios da nossa camaradagem e alegria, que em Deus perdurarão para sempre. A taberna não aponta para a rua; a rua é que aponta para a taberna. E todas as ruas apontam para a última das tabernas, onde nos encontraremos com Dickens e todas as suas personagens: e quando voltarmos a beber será de grandes canecas, na taberna que se situa no fim do Mundo.

Na conclusão da obra-prima de Georges Bernano, o “Diário de um Pároco de Aldeia”, o sentido da Graça não é explanado de forma complexa, antes é colocada no último fôlego de um padre rural generoso e moribundo. Com o terço na mão, o padre olha para o seu empregado, que aguarda ansiosamente a chegada de outro padre para administrar a extrema-unção. O sacerdote faz uma última afirmação antes de morrer:

“Será que importa? A Graça está em toda a parte”.

Há um número sem fim de afirmações gloriosas que podemos fazer sobre a Fé Católica, tal como há um sem número de afirmações maravilhosas que se podem fazer sobre a minha mulher. E podem ser todas verdadeiras. Mas por vezes, no meio da majestade de Deus e da magnitude do meu amor pela minha mulher, uma afirmação, como disse Flannery O’Conner, não chega.

Por isso se um dia as minhas filhas olharem para mim e perguntarem porque é que acredito em Deus, ou como é que me apaixonei pela sua mãe, talvez deixe de lado as afirmações e lhes conte a história. Acho que vão gostar.


Tod Worner é um marido, pai e médico de medicina interna católico, de Minneapolis. Contribui regularmente para a Patheos sob o nome: A Catholic Thinker. O Dr. Worner criou um currículo católico para alunos de liceu que já fizeram o Crisma e costuma fazer conferências sobre titãs e tiranos da Segunda Guerra Mundial. Está actualmente a escrever o seu primeiro livro.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Monday, 22 December 2014

A três dias do Natal... mas saiba porquê!

Estamos a dias do Natal. Mas foi só no século IV que se começou a assinalar o nascimento de Jesus neste dia. Isto, e muito mais sobre os costumes natalícios que hoje damos como adquiridos, explicado aqui.

O Papa Francisco falou esta manhã aos membros da Cúria Romana. Quem esperava platitudes e palavras de ocasião sobre o Natal deve ter ficado com as orelhas a arder. O Papa nem sequer poupou os outros funcionários, como os jardineiros e pessoal de limpeza!

Um jornalista alemão passou tempo em pleno “califado” do Estado Islâmico e conta tudo nesta reportagem da Reuters, que a Renascença lhe traz.

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