Tuesday, 10 September 2019

Norwegian Blues

O Papa está de regresso a Roma, depois de uma viagem a África que demonstrou, segundo Aura Miguel, a “genuína alegria dos africanos”, bem como a sua generosidade.


Agora as atenções começam a centrar-se no Sínodo da Amazónia? Vêm aí padres casados? Seja como for a decisão terá de ser tomada “em unidade”, diz um bispo da região.

Os bispos portugueses apelam à “participação ativa” nas eleições de Outubro.

Duas notícias que não sendo estritamente religiosas, estão ligadas. A Noruega foi condenada por desrespeitar os direitos humanos de uma mulher a quem foi retirado o bebé recém-nascido, mais um caso preocupante num país onde os direitos parentais parecem estar fragilizados… E uma notícia muito triste do Irão, onde uma adepta de futebol foi detida por tentar entrar no estádio para ver a sua equipa. Enfrentando uma pena de até seis meses de prisão, imolou-se pelo fogo à porta do tribunal e morreu ontem.

Monday, 9 September 2019

Crise? Qual crise?

O Papa Francisco termina hoje, de facto, a sua viagem a África, embora só regresse a Roma amanhã. Esta segunda-feira foi passada nas Ilhas Maurícias, onde pediu aos habitantes que sejam fiéis ao seu ADN e acolham os migrantes.

Antes, na homilia da missa que celebrou com 100 mil pessoas, disse que a crise de santidade é mais grave que qualquer crise de vocações.

O fim-de-semana foi dedicado ao Madagáscar, onde Francisco agradeceu à persistência do clero mas advertiu também que “a pobreza não é uma fatalidade”. Criticou ainda a “cultura de parentesco” que dá aso à corrupção. Tudo isto num país que tem um bispo português.

Antes, na sexta-feira, despediu-se de Moçambique, avisando que “Nenhum país tem futuro se o que o une é a vingança e o ódio”.

Fiquem ainda a conhecer o projecto LabOratório.

Thursday, 5 September 2019

O Papa falou do Rei, e o Povo gostou


Francisco começou o dia com uma visita ao Palácio Presidencial, onde discursou juntamente com Filipe Nyusi e elogiou os moçambicanos por não terem deixado que o ódio tivesse a última palavra.

Depois o Papa foi ter com os jovens e, após uma recepção muito animada, recebeu aplausos estrondosos quando falou no… Eusébio da Silva Ferreira.

De ontem, durante a viagem para África, fica a notícia da boca do Papa aos seus críticos, sobretudo os que vêm da América do Norte. As suas críticas são “uma honra” para ele.

Morreu o cardeal Roger Etchegaray, o homem de confiança do Papa João Paulo II que viajou para o Iraque para tentar, em vão, impedir a invasão americana em 2003.


Wednesday, 4 September 2019

Papa a caminho dos três M

O Papa chega esta quarta-feira a Moçambique, para uma viagem que inclui passagens pelo Madagáscar e Ilhas Maurícias.

Antes de partir, Francisco rezou especialmente pelas vítimas do furacão Dorian que afectou as Bahamas e caminha para os Estados Unidos.

A visita do Papa terá acompanhamento constante na Renascença, como é evidente!

A Igreja Portuguesa quer formar professores para lidar com questões da ideologia do género.

Hoje no artigo do The Catholic Thing em português trago-vos um texto de leitura difícil, mas necessária, onde Stephen P. White explica como a crise dos abusos sexuais tem afetado desproporcionalmente pessoas das tais periferias da sociedade que o Papa tem no coração. Leiam e partilhem.

Abusos nas Periferias

Stephen P. White
Os abusos sexuais são uma praga, seja onde for, ou quem envolvam. Mas uma das facetas menos exploradas da crise de abusos sexuais praticados por padres nos Estados Unidos é a forma como as comunidades minoritárias e marginalizadas têm sido particularmente susceptíveis tanto aos abusadores como às más-práticas dos bispos e superiores religiosos que lidaram tão mal com os casos de que tiveram conhecimento.

Esta semana a Associated Press publicou uma reportagem sobre uma família alargada em Greenwood, Mississippi que foi devastada por abusos sexuais na Igreja. Três dos rapazes da família, Joshua e Raphael Love e o seu primo La Jarvis Love, alegam que foram abusados por dois frades franciscanos na Escola São Francisco de Assis nos anos 90.

Certos aspetos destes casos de abuso são por demais familiares: a forma como foram recrutados, as ameaças, o silêncio, a ineficácia da resposta tanto das autoridades da Igreja como, pelo menos de início, das autoridades. Mas alguns dos detalhes dos casos da família Greenwood sobressaem.

Em primeiro lugar, os rapazes de Greenwood são afro-americanos e de uma das zonas mais pobres de um dos estados mais pobres. Os seus alegados abusadores eram ambos missionários franciscanos de outros estados, que tinham vindo para Mississippi para trabalhar numa paróquia missionária, para servir as populações mais desfavorecidas.

Em 2006 a diocese católica local – Jackson – chegou a um acordo judicial com dezanove vítimas de abusos, na maioria brancos, por uma média de 250 mil dólares cada. Mas os franciscanos ofereceram apenas 15 mil dólares a cada um dos Love, e apenas na condição de que assinassem um acordo de confidencialidade.

“Eles sentiam que nos podiam tratar assim porque somos pobres e porque somos pretos”, disse Joshua Love. E compreende-se que tenha sido o caso. Sem advogados, dois dos três rapazes Love aceitaram o acordo.

O terceiro Love, Raphael, não aceitou o acordo. Actualmente está preso por um duplo homicídio cometido quando tinha 16 anos. A sua vida teria sido diferente se não tivesse sido abusado? As duas vítimas abatidas a tiro estariam vivas? O trauma de abusos sexuais na infância tende a destruir vidas e é impossível saber o que poderia ter sido. Mas também não podemos deixar de pensar no assunto.

Quanto aos abusadores, o frei Paul West abandonou os franciscanos em 2002, mas ainda em 2010 estava a dar aulas numa escola católica perto de Appleton, Wisconsin e o frei Donald Lucas morreu em 1999, num aparente suicídio.

Mas os rapazes pobres do Delta do Mississippi não são os únicos que têm razões para se sentirem duplamente traídos – primeiro pelos seus abusadores, e depois pela Igreja, por os tratar tão mal.

Os missionários jesuítas que trabalharam com indígenas no Alasca amontoaram um registo assustador de vítimas ao longo de várias décadas. Os números em si não são tão impressionantes como as que se encontram em cidades com grandes populações católicas, mas dada a escassez da população, as décadas de abusos e o número de padres e voluntários jesuítas envolvidos, a imagem geral é terrível.

A Província Jesuíta de Oregon nega ter usado o Alasca como depósito para padres suspeitos de abusos, mas os números não mentem. Note-se neste parágrafo de um artigo do National Catholic Reporter sobre a bancarrota da Província, em 2009.

Joshua Love, uma das vítimas dos franciscanos no Mississippi
“Durante o período em questão, segundo um advogado no Alasca, houve no máximo 29 padres a servir ao mesmo tempo na diocese. Ao longo desses anos pelo menos 20 jesuítas foram credivelmente acusados e houve alturas, disse, em que oito padres acusados estavam a servir em simultâneo.”

Ou então tenha em conta estes números: A vila de Holy Cross, no Alasca, tem uma população de 200 pessoas. Entre 1930 e 1971 houve dezasseis padres, irmãos e voluntários jesuítas que trabalharam na Missão Holy Cross e que foram alvo de pelo menos uma acusação credível de abuso sexual. Dezasseis abusadores numa vila de cerca de 200 pessoas no espaço de 40 anos!

Talvez a faceta menos explorada da crise de abusos nos Estados Unidos seja a forma como afectou os católicos hispânicos. Tem sido referido que a resposta à crise de abusos tem sido bastante diferente – menos estridente – entre católicos de língua espanhola nos Estados Unidos do que nas partes anglófonas na Igreja. As razões destas diferentes reacções deveriam ser escrutinadas, mesmo que uma significativa minoria dos católicos americanos não fossem latinos.

Sejam quais forem as diferenças, ou as razões por detrás, vale a pena referir que os católicos hispânicos têm sido vítimas tanto de padres abusadores como de prelados à procura de um local para os esconder.

A arquidiocese de Chicago removeu um pároco o ano passado depois de ter sido detido por praticar actos sexuais com outro padre no interior de um carro estacionado. Embora essa história tenha sido muito divulgada, o que é menos conhecido é que o pároco em questão não foi o primeiro a ser removido dessa paróquia – uma missão de língua espanhola no que é de resto um subúrbio de classe média, em larga medida branca. O seu antecessor foi detido por pornografia infantil. O que é que uma missão de língua espanhola na terceira maior diocese do país precisa de fazer para ter um pastor que não seja depravado?

Depois há o caso da arquidiocese de Los Angeles, que sob o cardeal Roger Mahony enviou padres abusadores para paróquias de maioria hispânica, com grandes percentagens de imigrantes ilegais. Como devem calcular, paroquianos pobres que estão no país de forma ilegal têm menos tendência para recorrer às autoridades quando o sacerdote se porta mal.

Não é preciso considerar-se um campeão da justiça social para se sentir enojado com estas histórias.

Os abusos sexuais praticados por clero são uma praga, seja onde for e com quem aconteçam. Uma das verdades mais dolorosas de toda esta terrível confusão é que tanto predadores como prelados têm feito questão de concentrar os abusos nas periferias. Aqueles que lá vivem é que têm acarretado com o grosso do problema. O seu sofrimento também clama por justiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)

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Monday, 2 September 2019

Reentré traz novo núncio e mais cardeais

Novo núncio Ivo Scapolo
Volto depois de umas óptimas férias, e não volto de mãos a abanar! Trago-vos um novo núncio apostólico para começar e, como cereja em cima do bolo, um novo cardeal.

A nomeação de D. Tolentino de Mendonça foi saudada por muitos, desde o actual bispo do Funchal ao Presidente da República, e o próprio diz que quando soube só lhe ocorreu a sentença de Jesus: “Procura o último lugar”.


Mas porque há mais nestas nomeações do que apenas a nossa alegria por ver D. Tolentino no Colégio dos Cardeais, aqui fica a minha análise, com destaque para os temas do diálogo inter-religioso e das migrações, que saem fortalecidas.

Deixo-vos ainda com os dois artigos que publiquei do The Catholic Thing nas passadas duas semanas. A primeira trata da Oração e da Ascese, dois assuntos fundamentais para os católicos, e o outro fala de um interessantíssimo projecto que pretende dar a conhecer o pensamento e a obra de São Tomás de Aquino.

Diálogo inter-religioso e migrações: Temas cardeais para o Papa Francisco

Foi com grande alegria que acolhemos a notícia da elevação de D. José Tolentino Mendonça a cardeal. Já era esperado que assim fosse, mas a confirmação é sempre bem-vinda.

Curiosamente, D. José Tolentino será elevado no dia 5 de outubro, o que até lhe fica bem, uma vez que ele é (tragicamente) republicano.

Como é natural, a nomeação de D. Tolentino centrou as atenções dos portugueses, mas seria uma pena não perceber a relevância de muitas das restantes nomeações, que mostram claramente as prioridades deste Papa e deste pontificado.

Começo pelo diálogo inter-religioso. O Papa Francisco não só nomeou cardeal o espanhol Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, como também o seu antecessor Michael Louis Fitzgerald, que chefiou o Conselho entre 2002 e 2006.

A nomeação de Fitzgerald é particularmente interessante. Em 2006 Bento XVI retirou-o do Conselho para o Diálogo Inter-religioso e nomeou-o núncio apostólico para o Egipto. Ora, na altura a decisão causou alguma confusão e não foi possível compreender se se tratava de uma despromoção, ou de uma tentativa de aproveitar as grandes qualidades do arcebispo num país que é crucial para as relações entre o Islão e o Cristianismo.  Pouco tempo depois da sua retirada o Papa fez o seu discurso de Ratisbona, que acabaria por danificar gravemente essas relações.

A decisão de o nomear cardeal agora, que já tem 82 anos, pode ser entendida, assim, como uma espécie de reabilitação, ou um tributo tardio a um homem que dedicou a vida a tentar construir pontes com o Islão, coisa que o Papa valoriza.

Para além destes dois especialistas em diálogo inter-religioso, o Papa Francisco também nomeia cardeais os arcebispos de dois países muito importantes para o mundo islâmico, Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, de Jacarta, Indonésia – o maior país muçulmano em termos demográficos. Trata-se apenas do terceiro cardeal da história da Indonésia, sendo que o primeiro já morreu e o segundo, seu antecessor em Jakarta, tem já 84 anos. O outro novo cardeal que vem do mundo islâmico é o arcebispo de Rabat, em Marrocos, Cristóbal López Romero.

Recorde-se que o mesmo Papa Francisco já nomeou cardeais do Burkina Faso (89% islâmica), da República Centro-Africana, onde os últimos anos têm sido marcados por conflitos entre muçulmanos e cristãos, da Malásia (61% muçulmanos, apenas 9% cristãos), Albânia, Mali (95% muçulmanos), Iraque e Paquistão.

É verdade que com estas nomeações o Papa está a respeitar a sua própria vontade expressa de dar importância às periferias, mas olhando para estas nomeações parece também evidente que está, por um lado, a encorajar e valorizar as comunidades cristãs nestes países, frequentemente vítimas de perseguição, mas também a criar uma rede de conselheiros e actores que podem, agora com maior autoridade, levar a cabo o diálogo com o Islão nestes países.

Pe. Michael Czerny
A outra questão é a valorização do problema dos refugiados. O Papa fez aqui uma nomeação curiosa, o padre canadiano Michael Czerny, que é subsecretário da secção para os refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. O prefeito deste dicastério é Peter Turkson, que já é cardeal, mas o secretário, o padre francês Bruno-Marie Duffé, não é, o que cria uma situação peculiar, mas deixa muito, muito clara a intenção do Papa de sublinhar a importância do trabalho desenvolvido por Czerny.

Repare-se que o jesuíta canadiano não é bispo. Ora isto não é inédito, mas normalmente os padres nomeados cardeais são mais velhos, não-eleitores ou muito perto de o serem, e muitos, sobretudo quando são jesuítas, pedem para não ser ordenados bispos. Não se sabe ainda se Czerny, que entretanto foi também nomeado secretário do sínodo dos bispos sobre a Amazónia, irá pedir esta dispensa, mas se o fizer, e se lhe for concedida, haverá o caso raro de um cardeal eleitor que não é bispo. Por exemplo, nos últimos conclaves não houve um único caso de participante que não fosse bispo.

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