terça-feira, 12 de novembro de 2019

Porque não a Excelência?

Randall Smith

Está à procura de uma boa catequese para um amigo? “Oh não. Onde é que o podemos mandar sem que perca a fé?” Preparação para o matrimónio? “Epá, vão ter de aguentar, mas não liguem a grande parte das coisas que vão ouvir.” E acontece o mesmo aos bispos que querem mandar seminaristas para formação. “Oh não, onde é que os podemos mandar que não sejam corrompidos e fiquem com a fé minada?”

Porque é que estamos constantemente neste estado absurdo de procurar a opção menos má? Porque é que as instituições de educação católicas não são as melhores do país? E até do mundo?

Tenho uma amiga que trabalha com seminaristas. Ano após ano ela lida com candidatos ao sacerdócio que não sabem escrever nem lêem. Queixa-se ao responsável pelos estudos. “Sim”, diz ele, abanando a cabeça, “temos de fazer melhor”. Mas nunca fazem. Não se preocupam o suficiente para fazer a diferença. Vemos o mesmo a acontecer na educação a toda hora. Este tipo de “preocupação” é um mero sentimento, não uma intenção viva de fazer algo de concreto. Mais tempo fora da sala de aula. Mais tutoria. Mais esforço dedicado a assuntos difíceis.

Em vez disso levamos constantemente com “reorganizações” em que nada de substancial acontece. Acabamos por ver repetições do mesmo, com diferentes categorias e pessoas mudadas de um lado para o outro, com novos títulos. Depois os responsáveis dizem: “Temos uma nova e importante iniciativa”, mas de novo e importante não tem nada. Esta “importante nova iniciativa” é, de facto, praticamente igual na sua falta de profundidade às últimas cinco “novas iniciativas importantes” que não resolveram os problemas.

E para dizer a verdade, ninguém se preocupou o suficiente depois desses anúncios para garantir que estavam a resolver os problemas. Foram anunciados. Isso deixou-nos satisfeitos. O novo programa, disseram-nos, resultou de horas e horas de “trabalho árduo” – o que significa reuniões sem fim com diferentes “grupos de interesse” que era preciso apaziguar. O resultado é que acordavam no denominador comum mais baixo. Não o melhor, nem o pior, apenas o menos mau.

A minha amiga que faz tutoria a seminaristas tem de ler os seus trabalhos de “Homilética Avançada”. Um terço deles são claramente plagiados. Ela informa o seminário. Nada acontece. Já pensou porque é que as homilias são tão fracas? É porque temos seminaristas que não lêem e não sabem escrever, e raramente são obrigados a fazer uma coisa ou outra. Como é que podemos esperar que um seminarista que nunca leu e que não sabe escrever construa uma homilia sensata e entusiasmante? Que mais podemos esperar de homens tão mal treinados do que platitudes piedosas ou frases feitas ideológicas?

Futuros padres são apanhados a fazer batota numa cadeira de homilética avançada e os seus superiores limitam-se a olhar para o lado? Porquê? A resposta: “Precisamos de padres!” Mas não, do que precisamos é de bons padres. E não os teremos, não os conseguiremos desenvolver, se não deixarmos de aceitar a mediocridade e a opção menos má, insistindo antes na excelência.

Um seminarista foi ter com a minha amiga no final do ano lectivo e disse-lhe que precisava de ler mais. Queria saber o que é que devia ler. Ela recomendou as Confissões de Santo Agostinho. Quando regressou, no final do Verão, tinha lido esse e todo o Kristin Lavransdatter (mil páginas). Disse que lhe tinha mudado a vida.

Se aguentam com Rowling, aguentam com Agostinho
Estou neste momento a escrever um manual de introdução à teologia moral. Toda a gente me pergunta a que nível é que me dirijo. Respondo que estou a dirigir-me a alunos de final de liceu e universitários. “Escrevi ao mesmo nível dos meus artigos do ‘Catholic Thing’, mas cada capítulo tem umas vinte páginas”. Abanam logo a cabeça. “Não consegues meter miúdos a ler tanto, nem a um nível tão avançado. Não são capazes. Não podes esperar que leiam mais do que cinco a dez páginas de prosa simples.”

A sério? Estamos a falar de miúdos que leram os sete volumes da série Harry Potter e toda a trilogia do Senhor dos Anéis, memorizando blocos inteiros, e não podemos esperar que leiam vinte páginas do nível de escrita do “Catholic Thing” porque é “demasiado difícil” e “complicado”? Acho isso insultuoso. Recuso-me a acreditar. Porque é que temos de ser sempre arrastados por este peso da mediocridade? Porque é que não estamos constantemente a desafiá-los a ir mais longe, a procurar a excelência?

Os atletas olímpicos treinam incansavelmente, como bem nos diz São Paulo. Tenho miúdos na minha sala que treinam tanto que mal conseguem subir um lance de escadas. Mas estamos aterrorizados de os assustar, tão envergonhados pela nossa fé, que não nos atrevemos a pedir-lhes que leiam vinte ou trinta páginas que lhes possam mudar a vida?

Esperamos qualidade de excelência olímpica no desporto, mas quando chega à teologia damos-lhes papinhas de bebé? É desprezível. E acreditem no que vos digo, com isso só aprendem a desprezar-nos. Eu converti-me em adulto e lembro-me bem de me terem tentado impingir essas mesmas papinhas quando tinha a idade deles. Não me interessei pelo Cristianismo até ler as Confissões de Agostinho e o "Tratado da Lei" de São Tomás de Aquino na universidade. “Caramba”, pensei, “estes tipos são de outro nível. A religião afinal não é um conjunto de pieguices. Há aqui substância. Agora sim, estou interessado”.

Não fiquei totalmente convencido, mas tinham conseguido a minha atenção. Nada do que normalmente se destinava “aos adolescentes” tinha merecido o meu respeito ou conseguido grande parte da minha atenção. “Voltem quando tiverem algo de interessante para me dizer”, pensei – qualquer coisa séria como as pessoas que fundaram empresas, ou foram à guerra, ou amararam um jato sem motores no Rio Hudson.

Os jovens adultos gostam de se divertir, mas quando vão a uma conferência ou a uma aula querem algo sério e com substância, ou então sentem que estamos a desperdiçar o seu tempo. Já os seminaristas, se não os conseguimos convencer a levar a sério a sua vocação ao ponto de ler livros e não fazer batota, então não devemos deixar que desperdicem o tempo dos outros.




Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Novembro de 2019)

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